A justiça restaurativa convida à igualdade verdadeira: não há um que ensina e outro que aprende, um que cura e outro que é curado. Todos estamos em processo.
Quando você se concentra na lição, você evolui.
A justiça restaurativa é uma travessia profunda que parte do reconhecimento das dores e das violências que atravessam nossa história. Ela não ignora as feridas, mas propõe um espaço seguro onde essas dores possam ser nomeadas, reconhecidas e, pouco a pouco, superadas. É nesse espaço — construído com escuta, respeito e confiança — que a vida pode voltar a fazer sentido, que a segurança em si mesmo pode ser reencontrada, que os vínculos com o outro e com a comunidade podem ser reconstruídos.
Esse caminho só é possível quando nos despojamos do poder que, muitas vezes, carregamos inconscientemente. Poder de saber, de julgar, de dirigir. A justiça restaurativa convida à igualdade verdadeira: não há um que ensina e outro que aprende, um que cura e outro que é curado. Todos estamos em processo. Respeitar o outro, em qualquer circunstância, é essencial — inclusive respeitar aqueles que servem, que sustentam o processo em silêncio, na humildade do cotidiano.
É urgente lembrar que quem facilita um processo restaurativo não é aquele que tudo sabe, mas sim quem se coloca a serviço da escuta, da presença e da construção conjunta. Em vivências concretas, já vimos círculos onde uma pessoa que vive em situação de rua trouxe mais sabedoria e verdade do que quem tinha diplomas ou títulos. Em um presídio, vimos um policia penal se emocionar ao ouvir uma mulher presa pedir perdão por erros cometidos com dor e arrependimento verdadeiro.
Não há roteiro nem manual: há entrega, humanidade e coragem para sentir.
A justiça restaurativa precisa ser um ato concreto, especialmente no Brasil, onde o sistema prisional está superlotado e injusto. O desencarceramento é uma urgência ética e política. Quem tem o poder de garantir o cumprimento da lei, corrigir os abusos, respeitar os tempos da pena, acima de tudo.
Não podemos esquecer que a justiça restaurativa não nasceu de um poder. Ela nasce das práticas ancestrais dos povos originários, que nos ensinam sobre reconexão, equilíbrio e cura coletiva. Por isso, é contraditório — e até violento — ver práticas restaurativas sendo comercializadas com preços abusivos, inacessíveis para quem mais precisa. A justiça restaurativa não pode ser mercadoria.
É preciso levá-la para a periferia, onde a dor é maior, mas também onde há uma imensa potência de reconstrução. Levar com humildade, com cuidado, com escuta. Sem querer salvar, sem querer ensinar. Apenas estar, facilitar o encontro, e confiar na força do coletivo.
Porque quando nos concentramos na lição, evoluímos todos. E a justiça deixa de ser privilégio para ser CAMINHO.
Autora: Vera Dalzotto. Também escreveu e publicou no site “O sentido da vida é fazer sentido à outras vidas”: www.neipies.com/o-sentido-da-vida-e-fazer-sentido-a-outras-vidas/
Edição: A. R.