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Carta aberta pelo fortalecimento do Ensino Religioso inter-religioso em Passo Fundo, RS

 

O ensino religioso é parte da formação integral de todo e qualquer ser humano, deve ser ministrado de forma a respeitar os diferentes conhecimentos das diferentes tradições religiosas. Desta maneira, contribui para a humanização, que leva à construção de uma sociedade mais justa e solidária, contrapondo-se às tendências tecnocratas na educação.

 

Os professores da rede municipal de Ensino de Passo Fundo (concursados para a disciplina do Ensino Religioso e outros que entendem que o Ensino Religioso deve respeitar e considerar as diferentes manifestações religiosas) manifestam, por esta Carta, posição sobre o tema.

O acesso ao Ensino Religioso não proselitista (que não promova nenhuma religião em detrimento de outras) é um direito de cidadania dos estudantes, conforme preconiza a Lei 9475, de 22 de julho de 1997.

Os estudantes do ensino fundamental têm o direito de um ensino religioso que contemple a diversidade dos conhecimentos e das crenças, pois desta forma, nossas escolas promovem o diálogo, o respeito e a tolerância, tão urgentes e necessários para os dias atuais. Não se trata de abordagem de nenhuma crença específica, mas do estudo dos diferentes conhecimentos das tradições religiosas e mesmo das correntes de pensamento que consideram a inexistência da fé (ateísmo e agnosticismo).

As religiões tem como princípios comuns e universais a ordem do planeta e o respeito à vida. Devem buscar saídas com novos métodos e estratégias que respondam às necessidades de vivência e convivência pelo amor fraterno, honestidade, humildade, compaixão, cordialidade… e, tudo o que beneficia a vida plena, pois a vida é sagrada, é dom de Deus.

A violência, o desrespeito, a transgressão de normas e limites, desde as pequenas coisas do cotidiano até a corrupção, o roubo, a mentira, a delinquência, a intolerância religiosa, os crimes diversos, a crueldade, a droga, o sucesso a qualquer preço e tudo que disto decorre, está fazendo com que todos se questionem sobre o futuro de nossas crianças e adolescentes.

O Ensino Religioso, componente curricular obrigatório, tratado como área de conhecimento, reflete a relação do ser humano com o Transcendente, contribui para a superação da violência a partir do diálogo entre as diferentes tradições religiosas que buscam resgatar e preservar a vida.

O ensino religioso é parte da formação integral de todo e qualquer ser humano, deve ser ministrado de forma a respeitar os diferentes conhecimentos das diferentes tradições religiosas. Desta maneira, contribui para a humanização, que leva à construção de uma sociedade mais justa e solidária, contrapondo-se às tendências tecnocratas na educação. Deve ser fortalecido em todos os educandários deste município através de diferentes estratégias:

promoção do respeito, do diálogo e da tolerância para que a religião  nunca seja motivo de conflito, de discórdia e de opressão;

retomada da formação permanente e qualificada de todos os professores e professoras que atuam nesta área do conhecimento (concursados ou não);

respeito, consideração e valorização da Seccional do CONER Passo Fundo, entidade que congrega diferentes religiões para subsidiar o Ensino Religioso no paradigma do Diálogo inter-religioso.

 

Passo Fundo, dezembro de 2017.

 

 

Entidades religiosas ligadas ao CONER (Conselho do Ensino Religioso) Secccional Passo Fundo apoiam esta iniciativa e destacam o papel do ensino religioso inter-religioso.

 

Conselho do Ensino Religioso – Seccional Passo Fundo – RS

A preocupação de vocês com o Ensino Religioso como área de conhecimento é legítima. O Ordenamento do Sistema de Ensino deve ter, para com ele, o mesmo cuidado que destinada às outras disciplinas do currículo.

Os municípios têm a responsabilidade de responder ao que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional determina.

Embora o estado brasileiro seja laico isso não tem qualquer implicação que possa justificar seu não oferecimento como elemento fundamental para a formação da cidadania.

O caráter do ERE não insere proselitismo, doutrina ou catequese, desta ou daquela religião. Entretanto, traz na sua essência, o respeito à diversidade religiosa e as formas, pelas quais, expressam sua fé.

Neste particular, as tradições religiosas, seus ethos, suas doutrinas, ritos, textos sagrados, são elementos históricos importantes para que o ser humano possa fazer sua caminhada pedagógica em direção ao transcendente como forma de se tornar um verdadeiro cidadão do mundo pelo exercício da moral e da ética.

A educação, portanto, não pode relegar o ERE a um plano rasteiro, sob pena de entrar em confronto com a lei e desrespeitar a natureza da contribuição religiosa para a formação do caráter da pessoa humana.

Nem o País, estados e municípios podem tratar o ERE com indiferença. É obrigação legal destes entes federados oferecê-lo conforme determina a LDBEN. Formação acadêmica, concurso público e formação permanente é exigência do Plano Nacional de Educação.

 As igrejas que fazem parte do Conselho do Ensino Religioso, não poderiam de forma alguma, deixar de apoiar a CARTA ABERTA PELO FORTALECIMENTO DO ENSINO RELIGIOSO INTER-RELIGIOSO EM PASSO FUNDO – RS, expressando seu apoio e sua solidariedade aos anseios dos colegas professores municipais, que compreenderam ser o estudo da religião, um meio para a construção do amor, da solidariedade, justiça e fraternidade.

A cidadania nunca se completará sem um caminho que a leve ao transcendente. Cobrar que o Estado Brasileiro cumpra esta responsabilidade legal, é parte importante da estratégia daqueles que buscam fazer educação com seriedade, vocação, fé, compromisso como Deus, com o ser humano e com o planeta terra.

 

                                  Passo Fundo, 04 de dezembro de 2017.
                    Coordenador do Conselho de Ensino Religioso Seccional Passo Fundo – RS
          Rev. Francisco Paulo leal Machado

 

Créditos foto: Ingra Costa e Silva (IV Congresso dos Professores Municipais de Passo Fundo, 23 de agosto de 2017).

O Jurista Ives Gandra e a noção errada do que são “minorias”

Ele mostra a mentalidade pela qual se fazem necessárias leis de proteção de minorias: as leis são para protegerem as minorias de serem criminalizadas, exatamente como ele, Ives Gandra, faz em sua frase.

 

Ives Gandra Martins: ‘Não sou nem negro, nem homossexual, nem índio, nem assaltante, nem guerrilheiro, nem invasor de terras. Como faço para viver no Brasil nos dias atuais?’
(Blog do jornal Estadão).

Essa frase não poderia jamais ser pronunciada por uma pessoa escolarizada, muito menos por um jurista. Para além do problema de perversidade moral, que já seria suficiente para invalidar para sempre a autoridade de qualquer um, ela contém um erro intelectual, um pecado primário de não compreensão do que é uma minoria. Os dois erros estão imbrincados um no outro, e se confirmam no texto e contexto da frase.

Ives Gandra não sabe o que é uma minoria. Ele imagina que minoria é um grupo de pessoas formadas aleatoriamente, ou por traços comuns que ele inventa. Ofensivamente ele agrupa minorias étnicas junto com o que nada tem a ver com minorias, que são “assaltantes”.

Ora, gays, índios e negros são postos na mesma fileira de assaltantes! Não é um simples erro ou descuido de linguagem. Desse modo, ele mostra a mentalidade pela qual se fazem necessárias as leis de proteção de minorias: as leis são para protegerem as minorias de serem criminalizadas, exatamente como ele, Ives Gandra, faz em sua frase. Além disso, ele coloca junto de minorias étnicas e de práticas identitárias – gays, negros e índios – os “invasores de terra”, que não são nem minoria e muito menos aprioristicamente criminosos. Trata-se aí de reconhecido movimento popular, com existência legal, o MST.

Mais uma vez a confusão mental de Ives Gandra torna-se evidente: minoria é uma coisa e assaltante é outra; e invasor de terras é uma terceira coisa. E guerrilheiro? De onde ele tirou isso? Onde ele está vendo guerrilheiro no Brasil? Ele está se referindo ao Zé Dirceu (num suposto passado?), aquele condenado do “mensalão” que ele mesmo, Ives Gandra, falou que havia sido “condenado sem provas”? Aliás, estranha fala aquela! Muito estranha! (o que ele queria? desafiar os juristas que condenaram Zé Dirceu?)

Caso eu fosse pertencente a qualquer grupo desses realmente minoritários – gays, negros e índios – eu não deixaria de interpelar o jurista nos termos da lei. Aliás, se houver denúncias suficientes, a Procuradoria do estado de São Paulo pode interpelá-lo. Não é possível que um professor de direito do Mackenzie, alguém que já foi até cotado para ministro do STF, exiba esse comportamento a la Waack.

Ele deveria ser o primeiro a conhecer as leis e, por causa disso, já saber de antemão o conceito sociológico de minoria, e saber também que o que falou é ofensivo.

“Minoria” não corresponde a um grupo de “menor número”. “Minoria” não é alguma coisa exterior ao conceito geral de Direitos Humanos. Essas coisas estão ligadas. Minoria sociológica se define por um tipo de “cultura própria”, pode ser por práticas étnicas, linguísticas, religiosas, sexuais etc.

A proteção das minorias se fez presente na democracia liberal principalmente após a Segunda Guerra Mundial, quando a confirmação de genocídios (judeus, negros, pessoas com problemas físicos, gays, ciganos etc.) por parte dos nazistas veio à tona no Tribunal de Nuremberg. Daí para diante, os Direitos Humanos passaram a se aliar à ideia de que o estado precisa ser policiado, pois ele pode destruir não só o indivíduo, mas todo um grupo de pessoas afinadas culturalmente. Daí para diante, a noção de minoria foi se aprimorando no âmbito da sociologia e do direito. Notou-se bem, então, minorias definidas interna e externamente, positiva e negativamente. As leis de proteção de minorias que, no Brasil, ao contrário do que diz Gandra, são bem poucas (homofobia no Brasil ainda não crime!), vieram a ser demandadas nas democracias liberais do mundo todo.

Uma minoria definida positivamente são a dos alemães no Brasil, ou dos japoneses. Há um reconhecimento de grupos culturais afinados com a cultura alemã e com a cultura japonesa, e o número de virtudes atribuídas a tais comunidades, no âmbito da conversação hegemônica no Brasil, é bem maior do que o número de asserções negativas. Mas não é o mesmo caso para negros ou indígenas. Também não é o mesmo caso para com gays.

Na situação de negros, gays e indígenas (em certo sentido há ainda “as mulheres”), o reconhecimento de que são minorias, para seus próprios membros, se faz por conta do impacto da linguagem pejorativa contra eles, ou mesmo a violência e a discriminação contra eles. O pertencente a tais minorias descobre-se como membro delas por decisão exterior e pejorativa. Nasce sujo para o mundo! A cultura o interpela para lhe dizer que ele não pertence a nenhuma cultura, mas sim ao que não é humano. O seu próprio corpo é o que denota isso, e ele só percebe seu próprio corpo, seu eu corporificado, por causa da existência do apontar ofensivamente do Outro.

Nesse segundo caso, a minoria, ao ser organizar, pode gerar comportamentos fascistas. Pode agir contra a cultura hegemônica de modo a reproduzir práticas xenófobas, aquelas que se fizeram sentir contra elas. Mas a minoria, não raro, logo faz brotar internamente lideranças que percebem esse erro, e se desvia do comportamento meramente magoado para, então, alcançar as práticas de orgulho próprio, de valorização, de combate inteligente ao preconceito etc. Os movimentos gay, negro e indígena no Brasil têm aprendido a agir assim. Mas, em termos de conquistas da lei, estão completamente distantes de terem as facilidades que Ives Gandra afirma que ele, branco-macho-rico-professor-jurista, também não tem.

Ou seja, no limite, Ives Gandra acha que não se está obedecendo a Constituição por tentarmos fazer leis de proteção de minorias ou de contrabalanço. Ele não entendeu ainda que a lei de filiação de nossa Constituição, internacionalmente, é a Carta de Direitos Humanos. Leis e vantagens para grupos que estão aquém da linha de partida da corrida social não são criação de vantagens, são possibilidades de igualdade perante a lei no final da corrida.

Poderíamos dizer que Ives Gandra não fez Sociologia I na faculdade, ou que quando fez a mentalidade conservadora era muito forte, mas o fato dele não ter reaprendido conceitos e, enfim, o fato dele não ter sensibilidade para as mudanças de vocabulário de nossas épocas, é muito significativo de uma mentalidade empedrada.

Uma pessoa assim está completamente desqualificada para a vida fora da companhia de Waack. Precisa procurar seus pares. Sua declaração não cabe. Nem do ponto de vista conceitual nem do ponto de vista da sensibilidade de um professor e jurista.

Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil. Publica regularmente importantes reflexões em seu site: http://ghiraldelli.pro.br/

Pinguela, política e politicagem

Onde não há Política no seu sentido pleno, de promoção do bem-comum, de atendimento a quem mais precisa, sobra a politicagem, a promoção pessoal de um vereador, de uma liderança, etc.

 

 

Talvez apenas os adultos entendam esse termo “pinguela”. Lembro da minha infância, quando em visita a meus tios e tias no interior de Seberi, RS, atravessávamos alguma ponte de madeira para transeuntes, construída de forma artesanal pelos próprios agricultores. Muitas vezes essas pontes ofereciam riscos, e nós, crianças, apesar da diversão, tínhamos medo de atravessá-las.

Pontes precárias que eram chamadas de pinguelas.

Faço essa digressão para trazer ao debate um tema incômodo, mas absolutamente necessário. E parto de uma “pinguela”, só que agora localizada no perímetro urbano, na divisa entre Porto Alegre e Viamão.

Gostaria de saber quem construiu a pinguela, se foi o serviço público ou foi iniciativa dos próprios moradores. Mas, o fato é que essa ponte/pinguela, de tempos em tempos precisa de reparos. E quem faz esses reparos? Para fazê-los são necessários equipamentos, material e pessoas capacitadas para a realização do reparo.

Como presidente da Associação de Moradores, várias vezes fui cobrado de providenciar o reparo da pinguela. Numa oportunidade até fiz o contato com o Centro Administrativo Regional (CAR), da Lomba do Pinheiro, e não fui atendido. Mas sempre me perguntei: “para onde vou encaminhar essa demanda?” Isso é função de quem? Do serviço público ou da iniciativa dos moradores? Se for dos moradores, de onde sairão os equipamentos e profissionais qualificados?

De forma mais ágil e com boa vontade, um morador da comunidade, assessor parlamentar, resolveu o problema do seu jeito: ele próprio fez os reparos da pinguela. É claro que ele não tinha os equipamentos e nem a capacitação técnica para realizar o serviço. O resultado é que, um mês após, a ponte necessita novamente de reparos.

Diferente do meu tempo de criança, quando cada momento era gravado apenas em nossa memória e lembrança, hoje o reparo da ponte é registrado com fotos que logo chegam a muitas pessoas através das redes sociais. Desconfio até que o uso dessas imagens tem um objetivo político de promoção do vereador para o qual o referido morador trabalha. Esse mesmo vereador costuma referir-se às ações de seus adversários como “politicagem”. Mas, o que é politicagem? E o que é Política?

A TV Caroço Lança o quadro Se Liga! Um quadro que vai chamar a atenção da galera para todas as coisas que precisam ser discutidas e alertadas na nossa sociedade, o primeiro vídeo vem falando sobre politica e politicagem. Um alerta pra todos!!

Partindo do exemplo da pinguela, não aquela do interior de Seberi, mas essa de uma das capitais que já foi referência em serviços e políticas públicas para o mundo, podemos perceber que alguma coisa está errada.

Para que não haja politicagem é preciso que existam políticas e serviços públicos. Para que existam serviços é preciso que os órgãos da prefeitura funcionem e que os servidores públicos sejam qualificados e valorizados para a realização desses serviços. Infelizmente não é o que está ocorrendo em Porto Alegre. A administração pública está ausente, não realiza os serviços necessários, especialmente nas periferias; não qualifica e não valoriza os servidores e servidoras.

O que sobra? Onde não há Política no seu sentido pleno, de promoção do bem-comum, de atendimento a quem mais precisa, sobra a politicagem, a promoção pessoal de um vereador, de uma liderança, etc. Não é assim que se administra uma cidade, especialmente uma capital tão importante.

O Papa Francisco disparou contra a ordem mundial que fez do dinheiro “um ídolo” e lamentou que se destinem “somas escandalosas” de dinheiro para salvar aos bancos e só “a milésima parte” para resgatar refugiados ou imigrantes. “Quem governa então? O dinheiro. Como governa?

Para as pinguelas, ruas, água, esgoto, etc. são necessários serviços qualificados. Para a saúde, transporte, educação, etc. são necessárias políticas públicas com perspectiva de futuro. Somente a Política com P maiúsculo pode construir a cidade que desejamos e evitar a politicagem.

 

O silêncio: aprender e ser apreendido

O aparente susto do tema para os alunos do ENEM
representa pouco frente às dificuldades que os surdos passam
em seu processo educacional. O silêncio, como um menino,
bate à porta das escolas e universidades.
Quer aprender e ser apreendido.

 

Mudara-me para um novo apartamento. Numa manhã, um menino vizinho bateu à minha porta. Abri e lhe disse “bom dia”. Me respondeu com silêncio. Ele era surdo, e eu não nada sabia de LIBRAS. Foi desconcertante.

Desconforto semelhante devem ter tido os participantes do ENEM na tarde do último domingo, ante o tema “desafios para a formação educacional para surdos no Brasil”.

Um susto para quem esperava escrever sobre homofobia, corrupção, ou sobre a censura à arte, mas nada de inédito para quem acompanha os temas sociais do exame nos últimos anos: 2015, foram as mulheres; 2016, pessoas que sofrem com a intolerância religiosa e racismo.

 

Em entrevista à reportagem do em.com.br, o professor Carlos Cristian conta que nasceu surdo e dá aulas de Libras há quase 7 anos. Para ele, a escolha desse tema é uma vitória para a comunidade surda.
Veja mais aqui.

“Especialistas” das redes sociais atiraram pedras sob o argumento de não ser relevante. Enganam-se. Uma rápida pesquisa no Google nos faz descobrir que há 360 milhões de deficientes auditivos no mundo e, segundo o Censo 2010, são 9,7 milhões no Brasil, quase 5% da população.

Talvez a única crítica foi a delimitação exagerada do tema: não a inclusão social em si, mas a inclusão educacional. Quase debate de especialistas. Mas o problema é importante, sim.

No Brasil, os surdos só começaram a ter acesso à educação com Dom Pedro II, que criou a primeira escola de educação de meninos surdos, em 26 de setembro de 1857, no Rio de Janeiro. Observe-se que apenas em 2002, pela Lei n° 10.436, a língua de LIBRAS foi reconhecida como meio legal de comunicação e expressão. Do mesmo modo, a Constituição de 1988, nos artigos 205 e 208, e a Lei de Diretrizes e Bases, nos artigos 4ª, 58, 59 e 60, garantem às pessoas surdas o direito de igualdade de oportunidade no processo educativo.

Todo esse suporte legal, contudo, não tem garantido aos surdos sua devida inclusão. Há poucas escolas e universidades com intérpretes e, quando existem devem atender a várias turmas. A situação piora em seminários, congressos e conferências. Isso sem contar que, em muitas instituições, os surdos são segregados das turmas regulares.

O aparente susto do tema para os alunos do ENEM representa pouco frente às dificuldades que os surdos passam em seu processo educacional. O silêncio, como um menino, bate à porta das escolas e universidades. Quer aprender e ser apreendido.

“Desafios para a formação educacional dos surdos no Brasil”, tema da redação do ENEM 2017 dividiu opiniões entre alunos e professores de todo Brasil. Confira reportagem.

Professores analisam o polêmico tema da redação

 

Democracia ameaçada | Sul 21

O #5P dessa semana entrevistou o sociólogo Boaventura de Sousa Santos​. Segundo ele, a democracia está passando por um estado de deterioração em escala mundial.

“A maior prova disso está na tendência da população de votar em seus opressores, e não em quem luta contra a opressão”, afirma.

Confira!

 

Fonte: Jornal Sul 21

Precisamos falar sobre direitos humanos

Nunca houve interesse de se inteirar do assunto
antes de sair pegando microfone para passar vergonha.
Eram pessoas com total desconhecimento de um assunto
opinando sobre algo que simplesmente não conhecem.
Não sabem do que se trata. Com um conhecimento
quase nulo vociferam que é “cuidar de bandido”.
Talvez não saibam que existam documentos construídos
mundialmente para garantir tais direitos para TODOS os humanos.

 

Vi um registro fotográfico feito em Passo Fundo, cidade na qual nasci e vivi por toda a minha vida e pela qual tenho um carinho imenso, que me despertou um misto absurdo de emoções e sentimentos. Primeiro, senti vontade de chorar. Depois, repulsa e até um pouco de raiva. Por fim, ânsia de vômito e medo.

A foto foi feita em um protesto e um par de mãos masculinas, brancas e de meia idade, ostentavam um porrete de madeira com letras garrafais que diziam: direitos humanos.

Senti vontade de chorar ao ver um ser (que se diz) humano explicando que os iguais a ele (incluindo ele será?) não merecem direitos, mas sim apanhar com aquele porrete. O interessante era que tal protesto clamava por mais (pasme) segurança e contra (oi?) a violência. E nem vou entrar na discussão que tal ato teve como alvo pessoas que não são responsáveis de fato pela sua segurança. Deixo isso para outras pessoas comentarem.

Vou me ater no porrete destruidor de direitos humanos.

Aquele, empunhado por um (?) ser-humano.

Senti um pouquinho de raiva sim, não posso negar, ao ver aquelas dezenas de senhores que ali protestavam deixarem de lado sua principal demanda, o pedido por mais segurança no seu meio, a denúncia do descaso do estado para com os seus, para babar seu ódio ao que não entendem.

Não entendem porque nunca houve interesse de se inteirar do assunto antes de sair pegando microfone para passar vergonha. Eram pessoas com total desconhecimento de um assunto opinando sobre algo que simplesmente não conhecem. Não sabem do que se trata. Com um conhecimento quase nulo vociferam que é “cuidar de bandido”. Talvez não saibam que existam documentos construídos mundialmente para garantir tais direitos para TODOS os humanos.

 

Duas coisas impossibilitam avanços nos direitos humanos: a imbecilidade e o egoísmo. Defender os direitos humanos significa defender os humanos, todos os humanos, mas, sobretudo, os que são mais vulneráveis e mais propensos a serem tratados como fora do círculo dos direitos. (Gilmar Zampieri)

Humanos direitos?

Isso tudo depois de uma (absurdamente) rasa discussão sobre os tais direitos humanos (aqui não o porrete, mas os direitos em si). Mesmo sem saber quais direitos são esses. Os donos de opiniões profeririam, sem qualquer medo de passar vergonha e cheinhos de razão, que respeitar os direitos humanos de um (veja só) ser humano é errado.

É urgente que se fale em direitos humanos. Mas que se fale mesmo, além da frase pronta e carregada de senso comum que diz que direitos humanos é para humanos direitos.

Não.

Direitos humanos é, veja só, para todos os seres humanos. Todinhos, quer você concorde com isso ou não. São direitos inerentes a todos os seres humanos, independentemente de raça, sexo, nacionalidade, etnia, idioma, religião ou qualquer outra condição.

Independente da sua ‘opinião’.

Os direitos humanos servem para proteger todo e qualquer cidadão do mundo. E mesmo assim diariamente perdemos as contas dos casos de desrespeito a esses direitos. São incontáveis pessoas passando, todo dia, por situações de intolerância, abuso, discriminação, opressão e até a morte.

Quem se diz defensor da democracia e contra os direitos humanos precisa começar a estudar o assunto, já que a promoção dos direitos humanos é indispensável para o pleno funcionamento de uma sociedade democrática. Ninguém é obrigado a saber de tudo, mas hoje temos mil meios de aprender as coisas antes de argumentar qualquer coisa com “minha opinião”.

Ao ver a foto do tal porrete, senti tristeza e medo dessa onda de ódio ao diferente, ódio ao próximo, ódio ao pobre, ao excluído socialmente. Pessoas que querem ser imunes à violência, mas praticamente pregam o código de Hamurabi.

Pessoas que são contra a violência que as atinge, mas favoráveis a usar violência com o próximo baseados em argumentações em um looping infinito de incoerência.

Sinto medo que esse porrete não seja usado só para botar banca e tirar foto.

Depois dessa coluna estou com medo, bem na verdade, é que esse porrete sobre até pra mim.

Segue reportagem sobre a referida manifestação de agricultores em frente ao Fórum de Passo Fundo.
Veja mais aqui.

Créditos da foto: Leonardo Andreoli

Nutrição e atividade física

Dicas para passar o verão em boa forma,
equilibrando alimentação, exercícios físicos
e integração com a natureza.

 

Verão chegando, corpos mais expostos. É natural que todos queiram estar em dia com sua boa forma.

Dúvidas são sempre frequentes sobre o que comer para manter a massa muscular bem definida.

Primeiramente, é importante conhecer seu organismo, como funciona e o que ele precisa. Para as funções fisiológicas, nosso corpo utiliza como principal nutriente: a glicose, que fornece energia para cérebro, músculos e ativa o metabolismo das gorduras quando consumido de forma correta.

Um dos problemas em que as pessoas mais erram na hora de se alimentar é não equilibrar nutrientes, gasto calórico e otimização de resultados.

Uma dúvida muito frequente entre as pessoas que praticam atividades físicas é: o que devo comer antes o exercício físico? A resposta depende, principalmente, do intervalo entre a refeição e o treino.

Para atividades e resistência como corrida, ciclismo, natação é indicado consumir carboidratos com alto índice glicêmico, 30 minutos antes de começar o treino. Isso porque esses alimentos fornecem energia de forma mais rápida para o organismo.

Alguns exemplos:

  • pão ou tapioca com melado;
  • frutas secas, – picolé ou suco de frutas;
  • banana em rodelas com mel.

Para atividades de força como musculação, o ideal é investir nos carboidratos com baixo nível glicêmico, que tem ação mais lenta no organismo para liberar a glicose necessária e dar energia durante a atividade, incluindo também alguma fonte de proteína, sempre com baixo teor de gordura.

Pode-se considerar:

  • pão integral e queijo branco ou pão integral com patê de atum e cenoura;
  • vitamina de frutas com leite, os leites vegetais como os de amêndoa, aveia e soja também podem ser usados;
  • granola e iogurte com baixo teor de gordura;
  • peito de frango e arroz integral com brócolis;
  • ovos e batata-doce.

No período próximo ao treino, evite alimentos ricos em gorduras, para que a glicose seja liberada rapidamente e jamais faça uma atividade física se estiver a mais de 3 horas sem comer.

Durante o treino, ocorre desgaste das fibras musculares e redução das reservas energéticas e de água. Por essa razão, comer depois da atividade é fundamental para recuperar o organismo. O ideal é caprichar na salada, que deve ser temperada com azeite, limão, ervas e pouco sal. Escolha o arroz integral, uma carne magra (frango ou peixe), feijão ou outra leguminosa, como ervilha, grão-de-bico, etc.

Cuidado com o excesso de proteínas, isso poderá influenciar de forma negativa seus objetivos, pois quando há excesso de proteína o resultado é síntese de gordura. Não descuide da ingestão de água, pois indivíduo hidratado tem melhores resultados om o treino.

Cada pessoa tem sua individualidade e isso deve ser levado em consideração na hora do seu planejamento de treino e alimentar.

Jureci Machado já publicou outros quatro artigos sobre alimentação, qualidade de vida e nutrição no site. Confira os demais artigos, todos bem lidos e apreciados. No mês de novembro, seu trabalho também foi destaque na revista Contato Vip (http://www.contatovip.com.br/)

Alimentação no tratamento da ansiedade

 

Quanto vale uma mulher? | Radis

Um dos cinco países que mais matam por desigualdade de gênero,
Brasil ainda engatinha na proteção das mulheres.

A cada dia, 13 mulheres são mortas de forma violenta no Brasil — ou uma a cada duas horas. Grande parte dessas mortes, comumente tipificadas como homicídios, devem ser enquadradas em uma categoria específica, a do feminicídio. É o que afirma a juíza Adriana Mello, titular do 1º Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ), que participou de debate promovido pelo Centro de Estudos Estratégicos (CEE) da Fiocruz na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), em 18 de setembro. “A nomeação ‘feminicídio’ dá corpo ao fenômeno de se assassinar mulheres em contextos marcados pela desigualdade de gênero; torna-o visível e concreto”, diz ela, lembrando que aquilo que não se nomeia, não existe.

A tipificação só passou a valer em 2015, com a aprovação da Lei 13.140, que alterou o Código Penal para incluir o feminicídio como circunstância qualificadora do crime de homicídio. A norma também incorporou os assassinatos motivados pela condição de gênero da vítima no rol dos hediondos, o que aumenta a pena de um terço até a metade da atribuída ao assassino. “Se o feminicídio não existisse como categoria analítica, não se conseguiria coletar dados, implementar políticas públicas”, avalia.

Feminicídio, resume Adriana, é a morte de mulheres pelo simples motivo de serem mulheres — em outras palavras, que tenha sido motivada por sua “condição” de mulher. A partir dessa categorização, se consegue investigar o crime com contornos diferentes das mortes de mulheres seguidas de roubo ou decorrentes da violência urbana, por exemplo. “Antes da edição da lei, esses assassinatos eram citados como crimes passionais, em um contexto que não nos dizia respeito enquanto sociedade”, aponta.

Fenômeno invisível

Um caso emblemático, segundo Adriana, é o de Eliza Samudio, morta em 2010 a mando do então goleiro do Flamengo Bruno Fernandes de Souza — que cumpre sua condenação a 22 anos e 3 meses de prisão. “A imprensa retratou a vítima como ‘a amante’, ‘a dançarina’, em um processo de desqualificação da mulher”, avalia. “Perdeu-se a oportunidade, à época, de se discutir misoginia (ódio ou aversão às mulheres) ou assimetria de poder, de quebrar a invisibilidade desse fenômeno”.

Mais do que episódios isolados, o feminicídio é rotina no país. Em 2016, somente no Rio de Janeiro houve 396 vítimas em 2016, segundo o Dossiê Mulher, levantamento de violência contra a mulher do Instituto de Segurança Pública (ISP) do Rio de Janeiro, vinculado diretamente à Secretaria de Estado de Segurança Pública. “Na Espanha toda houve 90 casos”, compara Adriana, ressalvando que o Rio não é sequer o estado mais violento para as mulheres. Roraima tem a maior taxa desse tipo de crime: 11,4 mortes de mulheres a cada 100 mil habitantes, em torno de mil mortes por ano. A média brasileira é de 4,4; a quinta maior no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Essa taxa só é maior em El Salvador, na Colômbia, na Guatemala e na Rússia.

A vulnerabilidade é ainda maior entre negras: a chance de serem assassinadas é duas vezes maior do que a de brancas. O Mapa da Violência de 2015, elaborado pela Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), identificou aumento de 54,2% nas mortes de negras e queda de 9,8% nas de brancas, em um período de 10 anos.

No Rio, um dado que chama a atenção é a simbologia associada à morte de mulheres em Paraty, município do litoral sul: “Os corpos são arremessados em praias, como que um ritual para mostrar para aquela sociedade o quanto vale uma mulher”. A juíza encara o feminicídio como um “ato de comunicação”, em que o autor busca transmitir à comunidade a mensagem de subordinação da mulher. Para Adriana, esse crime é, em grande parte, fruto da assimetria de poder nas relações domésticas. Os assassinatos são apenas a ponta do iceberg, enquanto a base é um contexto de violência rotineira.

A barreira da denúncia

Segundo a Organização das Nações Unidas, sete em cada 10 mulheres já sofreram violência por serem mulheres alguma vez na vida. No Rio de Janeiro, 61% das vítimas de agressão indicaram que o crime aconteceu dentro de suas casas, de acordo com o Dossiê Mulher. No estado, 4.013 mulheres sofreram estupro em 2016. Os casos de assédio no transporte coletivo foram 388, com a ressalva de que o número deve ser muito superior, dado o desencorajamento para denunciar. “O que isso representa na saúde? Quais são as consequências físicas e psicológicas?”, questiona a juíza. Grande parte das mulheres que sofrem violência procuram unidades de saúde e é papel dos profissionais orientar sobre as formas de dar fim ao ciclo de sofrimento.

Levantamento do Data Popular com o Instituto Patrícia Galvão indicou que 85% das entrevistadas pensam que quem denuncia violência tem mais risco de ser morta. “E é verdade”, reforça Adriana. A Lei Maria da Penha é conhecida por 100% delas, mas mais de 80% sabem pouco sobre o que ela estabelece.

 

Autor: Bruno Dominguez
Fonte: Radis 

Sílvia Aparecida de Miranda

Ao fazer memória da morte de Sílvia Aparecida de Miranda,
Mulher da Paz brutalmente assassinada em 25 de outubro de 2013,
rendo-me à dor de sua perda há quatro anos e exerço solidariedade.

 

A lacuna da morte de alguém muito próximo da gente como nosso pai, nossa mãe, nosso irmão ou irmã, nosso amigo, amiga, nosso avô ou avó sempre nos remete a um dos mais difíceis aprendizados da vida humana: conviver com a presença ausente.

O desafio que se coloca a todos é reconhecer sentido para a nossa existência, pois a morte de alguém sempre deve nos remeter para a pergunta sobre o tipo de vida e de relações que construímos de forma individual e coletiva.

Cada um de nós carrega de sentido a sua existência através das relações interpessoais pelas quais nos “fazemos gente”.

Professora de Cachoeirinha, RS, cria projeto para discutir violência contra a mulher. Veja mais aqui.

Por mais que tentemos, ninguém consegue sobreviver e, quiçá, ser feliz sozinho. Esta característica da interdependência é também, de certeza, um dos maiores desafios de nossa própria humanização, pois conceber-se integrado e conectado com os outros exige que saibamos lidar com a superação dos próprios egoísmos.

A morte estúpida e prematura de Sílvia Aparecida de Miranda inspirou a produção de um documentário dirigido por Guilherme Cruz, Amanda Scharr, Fabiana Beltrami e Gerson Lopes, premiado pelo 1º Concurso de Curta Documentário sobre a Lei Maria da Penha. O concurso foi promovido pela Câmara de Deputados, Procuradoria Especial da Mulher e Banco Mundial.

A vida comunitária, herança de nossas primeiras e mais primitivas comunidades, permite que vejamos o sentido da vida e da morte de uma pessoa. As comunidades religiosas são, sobretudo, o lugar onde fazemos a memória de nossos mortos, buscando apreender de seus ensinamentos, exemplos e virtudes.

Sílvia Aparecida de Miranda aprendeu e ensinou que a vida vale a pena quando estamos em comunidade. Em seu bairro, era líder comunitária, orientadora espiritual e Mulher da Paz.

Na comunidade somos reconhecidos por nossos feitos e desfeitos. São muito mais felizes aqueles que podem desfrutar durante a vida, e no momento de sua morte, dos valores comunitários. Quem tem uma comunidade e leva uma vida comunitária vive mais feliz e poderá morrer mais feliz ainda.

A comunidade é também o lugar onde damos vazão aos nossos medos, fantasmas e incompreensões, refazendo-nos permanentemente. Por isso mesmo, cada um deve ser reconhecido e tratado com dignidade, pois é a referência de si mesmo (alteridade). A comunidade, por sua vez, é o espaço em que lapidamos o nosso ser pessoal e social, onde ousamos viver a nossa subjetividade, buscando o reconhecimento.

Um dos grandes ensinamentos da amiga e Mulher da Paz Sílvia foi ter-me ensinado que para sobreviver precisamos de muitas poucas coisas, mas que precisamos nos apegar ao que é fundamental: família e comunidade. Ensinou-me ainda, que é preciso amar as crianças, as mulheres e os mais velhos porque estes são os sujeitos da comunidade que mais precisam de nossa ajuda e proteção.

Sílvia comprovou, a si mesmo e aos outros, que sempre é bom e necessário reconciliar-se com os outros para reconciliar-se consigo mesmo. Ensinou-me o quanto uma mãe é capaz de fazer em defesa de uma filha, e de seus filhos. Soube constituir-se sujeito, a partir da comunidade.

Conviver com a presença ausente (de meu querido Pai e de Sílvia Aparecida de Miranda) é deparar-se com os interstícios entre as palavras, as ações, os gestos e os exemplos de nossos entes queridos.

As lembranças se encarregam de recolocar, permanentemente, que cada pessoa tem algo a nos ensinar porque é única, sagrada, genuína. A presença ausente é, também, prova de que a vida se faz na experiência compartilhada, nas memórias e nas histórias de todos os que na comunidade se fazem protagonistas.

Sigamos, pois, acreditando na vida e fortalecendo a luta cotidiana por dias melhores, para homens e para as mulheres. No caso de Sílvia, como dizem as Mulheres da Paz de Passo Fundo, “a saudade passa a ser fermento da esperança e da luta pela vida sem violência”. 

Quadrados de tecido que representam os desejos e também a realidade de suas comunidades. Conheça a colcha de retalhos feita pelo Grupo Mulheres da Paz de Passo Fundo.(Fevereiro 2013)

 

A escola e sua função de educar na superação das violências.
Combate à violência contra a mulher pode virar tema obrigatório nas escolas.

 

Violência contra a mulher afeta a permanência das vítimas em empregos.
Veja mais aqui.

Saber ouvir

Na prática “se colocar no lugar do outro” permite que
você tome conhecimento de algo que vai além da sua percepção.
É se proporcionar entender o outro. Receber o que ele tem a contribuir,
mesmo que baseado na argumentação (e não em juízos de valor)
você tenha que desconsiderar quase tudo depois.

 

Sempre levo comigo um pouquinho de cada entrevistado. A profissão, assim como o diagnóstico da esclerose múltipla e a especialização em ciências sociais, abriu não só a mente, mas também os meus ouvidos. Em tempos que muito se quer falar, ter razão e impor verdades, fazer o exercício de escuta atenta é algo desafiador, mas magnífico e enriquecedor.

(Mesmo que algumas pessoas façam a gente desacreditar disso).

Ouvindo o outro você escuta o que ele disse, ao invés de escutar o que quer ouvir. Você aprende, você entende. Você discute. Tão demonizadas em períodos de bipolaridades políticas e religiosas, as discussões têm um papel fundamental na construção de novos saberes. Na construção de ideias coletivas, na construção de um mundo mais humanamente habitável e socialmente justo.

 

Saber falar, mas também saber ouvir

Setembro foi amarelo e destacamos a importância de ouvir e fazer a diferença na vida de quem tem pensamentos suicidas. Ao ser ouvinte você compartilha com a pessoa aquela vivência e se praticar a escuta de maneira empática, sem dúvidas saberá o mais adequado para falar naquele momento.

Inclusive se o mais adequado for apenas escutar.

 

Escutar faz a diferença

Não só para quem fala, mas para quem escuta. Quem fala divide posicionamentos, o que os argumenta, suas vivências, histórias, momentos felizes e até angústias. Viver nesse mundão capitalista e excludente não é nenhum pouco fácil e dividir deixa a carga mais leve. Talvez até crie laços importantes.

“E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.”

Quando se bate um papo a ideia não é a disputa de quem sabe mais ou quem tem a razão, mas sim a construção do conhecimento. Seja ele para questões pessoais, emocionais, políticas, econômicas ou sociais. Dividir não precisa ser só com os nossos amigos pessoais, pode e deve ser também o feito com pessoas que temos menos contato.

 

Saber ouvir, mas também saber falar

Uma boa discussão, com sustentação de argumentos e de preferência sem ofensas e sarcasmo, resulta no que os filósofos chamam de Princípio da Acomodação Racional, também conhecido como Princípio da Caridade e que foi tratado por nomes como Donald Davidson e Willard Van Orman Quine. Esse princípio diz, basicamente, para tentarmos compreender o ponto de vista do nosso opositor em sua forma mais forte e persuasiva. Somente depois disso teríamos condições de examinar a sua avaliação ou posicionamento.

Você é uma dessas pessoas que está diante de alguém que fala com você, mas não presta atenção ao que ela está dizendo? Ou o contrário, você é a pessoa que fala e não te ouvem?

Na prática “se colocar no lugar do outro” permite que você tome conhecimento de algo que vai além da sua percepção. É se proporcionar entender o outro. Receber o que ele tem a contribuir, mesmo que baseado na argumentação (e não em juízos de valor) você tenha que desconsiderar quase tudo depois.

Mas não nos enganemos: saber ouvir não significa, por exemplo, acreditar nas justificativas (no mínimo) rasas dadas na votação que arquivou as denúncias contra o presidente Michel Temer.

Isso, meus amigos, nem com todo exercício de escuta atenta do mundo é possível encontrar sentido.

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