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Cidade Inteligente, Cidadão Engajado

O grande desafio das cidades, para aderirem a este conceito,
é ao mesmo tempo em que crescem e se desenvolverem economicamente,
melhorando a qualidade de vida de sua população
a partir da eficiência de suas operações.

 

Falar de cidade inteligente, ao contrário do que muitos pensam, não está associado única e exclusivamente à tecnologia. Claro que ela é importante neste conceito, mas apenas como um meio para se chegar ao que mais interessa, o empoderamento e o bem estar do cidadão, algo que vem se tornando cada vez mais difícil com o crescimento exponencial dos centros urbanos.

Atualmente, com esse crescimento das cidades, cerca de 3,5 bilhões de pessoas estão vivendo em apenas 2% da superfície do planeta. Essa concentração provoca grandes problemas de transporte, segurança, meio ambiente, saúde, educação e energia.

Para resolver ou pelo menos minimizar estes problemas, vem surgindo soluções que partem dos grandes players de tecnologia, governantes e até mesmo da própria população. O grande desafio das cidades, para aderirem a este conceito, é ao mesmo tempo em que crescem e se desenvolverem economicamente, melhorando a qualidade de vida de sua população a partir da eficiência de suas operações.

Ao redor do mundo temos vários exemplos de cidades que se planejaram ou se adaptaram para serem inteligentes, como Songdo na Coréia do Sul e Copenhague na Dinamarca, respectivamente.

Songdo foi planejada, construída e já está sendo povoada desde 2011 com a expectativa de contar com mais de 250 mil habitantes até 2020. A tecnologia é a base para Songdo ser classificada pelo Jornal Inglês The Guardian como a primeira cidade inteligente do mundo. Toda a cidade possui sensores que detectam condições do trânsito, fazem a gestão de resíduos e a segurança das pessoas através de uma central de monitoramento. As edificações também são igualmente inteligentes e conectadas com a cidade e tudo isso acontece sem esquecer a sustentabilidade.

No caso de Copenhague, faz jus ao titulo de cidade mais inteligente da Europa concedido pela revista Fast Company. Esse resultado vem principalmente pela redução de emissão de carbono em 21% desde 2005. O sucesso tem a participação da população, visto que a metade utiliza bicicleta para se deslocar ao trabalho. Ao governo coube disponibilizar tecnologia e infraestrutura para viabilizar estes resultados.

No Brasil também temos exemplos de cidades inteligentes. De acordo com a revista exame as capitais São Paulo (SP), Curitiba(PR), Rio de Janeiro(RJ), Belo Horizonte(MG) e Vitória(ES) foram eleitas as cidades mais conectadas e inteligentes do Brasil. Neste estudo foram avaliadas avalia a integração entre mobilidade, urbanismo, meio ambiente, energia, tecnologia e inovação, economia, educação, saúde, segurança, empreendedorismo e governança em mais de 500 cidades brasileiras, usando 70 indicadores.

Ainda no Brasil, contaremos com a primeira cidade planejada para ser inteligente, a Smart City Laguna(smartcitylaguna.com.br), que deve ficar pronta até o final de 2017. Localizada no município cearense de São Gonçalo do Amarante, no Ceará, contará com produção de energia solar e eólica, ciclovias, monitoramento da qualidade do ar e água, iluminação pública inteligente, WI-FI gratuita para todos os moradores e meios de transportes compartilhados.

Outro conceito também utilizado e buscado para melhorar a qualidade de vida nas cidades é o de cidade educadora. Marcio Tascheto, professor da Universidade de Passo Fundo e Coordenador do Programa UniverCidade Educadora fala da concepção, dos desafios e da importância de construirmos uma cidade educadora.

Apesar de poucas cidades ainda merecerem o “titulo” de cidade inteligente, muitos movimentos são realizados nesta busca. O que podemos destacar é que estas iniciativas devem combinar o planejamento com o envolvimento governamental, de universidades e institutos de pesquisa, da iniciativa privada e principalmente do cidadão, visto que ele é o principal beneficiado com as melhorias geradas.

Texto de Prof. Dr. Roberto dos Santos Rabello, Curso de Computação (ICEG)

Ocupação de vazios urbanos e o conhecimento

As pessoas que apostam na ocupação como
meio para conseguir um local próprio para morar,
questionam as instituições e em especial representam risco
para o poder institucionalizado da especulação imobiliária.

 

A interação e o diálogo com quem vive na margem das diversas instituições e, em especial com habita nas fronteiras da “grande instituição social”, indica o grau de inserção, aderência e a potencialidade transformativa do conhecimento. Nesse diálogo deve estar incluído, o MTST (Movimento de Trabalhadores sem Teto) que se organiza e ocupa terrenos urbanos ociosos, como forma de reivindicar políticas públicas que democratizem o acesso às moradias.

Em São Bernardo, São Paulo, no momento, existe uma ocupação em um vazio urbano com aproximadamente 8 mil famílias.

O município de Passo Fundo, cidade com cerca de 200 mil habitantes localizada no norte do Rio Grande do Sul, possui um lugar privilegiado para contemplar um cenário que representa bem as imensas desigualdades sociais que ainda marcam o país.

Realidade habitacional de Passo Fundo: ausência do poder público e invisibilidade das famílias

As pessoas que apostam na ocupação como meio para conseguir um local próprio para morar, questionam as instituições e em especial representam risco para o poder institucionalizado da especulação imobiliária.

Indivíduos com sensibilidade, incluindo alguns políticos e artistas, apoiam o movimento. Por exemplo, Caetano Veloso tentou fazer um show na ocupação e foi impedido pela “justiça”. Nesse caso cabe, novamente, uma pergunta incomodativa: o judiciário está apoiado em qual conhecimento/ciência e está a serviço de quem?

Alguns cidadãos alimentam a crença e ensinam que as decisões do judiciário estão apoiadas na formalidade jurídica. Outros defendem que o judiciário, apoiado na dimensão formal e institucional, é um dos principais entraves para que a justiça se viabilize na dimensão prática.

Antes do governo Lula, era forte no Brasil um movimento semelhante ao MTST, denominado de MNLP (Movimento Nacional de Luta por Moradia). Em Passo Fundo, RS, este movimento continua tentando chamar a atenção de quem tem a função de direcionar sua instituição para o benefício coletivo, demonstrando que mais de trinta por cento dos habitantes não tem a oportunidade de usufruir de um direito básico que é uma moradia digna. A necessidade não é apenas de um teto ou de um abrigo, mas de viabilizar o direito à cidade.

O direito das pessoas a uma vida digna é negado pela impossibilidade de acessar políticas públicas de saúde, segurança, habitação, saneamento.

Todos têm direito a um lugar próprio para morar. É inaceitável que o conjunto das instituições e o poder público em especial se mantenham em uma postura insensível, diante do drama humano de não ter acesso ao básico para continuar vivendo.

Defensores da propriedade também dizem que, se o Estado ceder um prédio de área nobre ao povo, outros imóveis serão ocupados. O povo é insaciável!

http://https://www.neipies.com/os-lanceiros-e-os-velhacos/

A indiferença, dos comportamentos individuais e institucionais, diante da lógica que prioriza a acumulação de riqueza, desumaniza a sociedade.

Os questionamentos das razões pelas quais o direito habitacional não é uma realidade concreta, mas uma formalidade, merecem atenção, precisam ser debatidos, investigados e explicitados. Nas respostas se inclui a lógica da especulação imobiliária, que oprime a população pobre e insensibiliza quem se mantem alheio, seja por egoísmo ou por ignorância.

Um documentário da UPFTV mostra a situação das pessoas que moram no limite da ferrovia aqui de Passo Fundo. Essa produção é uma parceria com a vice-reitoria de Extensão da UPF e da Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo.

Filhos de fé clamam por respeito

 

Com mais de 65 mil terreiros o Rio Grande do Sul é o Estado onde mais se registra o crescimento destas religiões e apesar de não haver dados concretos sobre Passo Fundo, a estimativa é que existam mais de 200 templos na cidade. Apesar do grande número de adeptos, nos últimos meses a cidade registrou  casos de intolerância religiosa, sendo  dois deles em escolas da rede municipal de ensino.

 

No mês de setembro de 2017, o som de atabaques ressoava no centro de Passo Fundo, num dos seus principais parques, o parque da GARE. No lugar de bombachas e vestidos de prenda, dezenas de pessoas usando roupas brancas e cantando por um mundo com mais paz, amor e respeito.

De acordo com o representante dos Guerreiros do Axé, Baba Akinelé, o objetivo da ação era trazer presente para os passofundenses que as diferenças religiosas devem ser tratadas com respeito. O movimento prestou solidariedade aos casos de intolerância religiosa crescentes no país, com maior destaque no Rio de Janeiro e na Bahia. Akinelé afirmou que apesar de a manifestação ser em solidariedade aos povos de terreiro que estão tendo seus templos invadidos por criminosos no Rio de Janeiro, o cenário em Passo Fundo merece atenção.

“Infelizmente vem crescendo os números de intolerância religiosa no nosso município. É perceptível a intolerância velada e o que mais nos preocupada é quando ela parte do poder público, a intolerância institucionalizada, o preconceito institucionalizado.

Cada vez mais a gente trabalha e luta para mobilizar os povos de terreiro para buscarmos a conscientização no sentido de exigir o nosso direito constitucional e através do poder público dialogar para que se avance em políticas públicas e ações afirmativas em defesa do nosso povo, contra a intolerância religiosa,” disse o babalorixá, que ressaltou a importância de ter uma Coordenadoria de Igualdade Racial ativa no município.

O biólogo Alexandre Giusti é iniciado há pouco tempo na religião. Ficou sabendo da mobilização e foi mesmo sem conhecer muitas das pessoas que estavam ali. Para ele a intolerância pode ser vista em todas as esferas da sociedade brasileira, sendo a religiosa somente mais uma delas.

“Acho triste esse momento que passamos no Brasil. A intolerância é um reflexo do ego nas pessoas. Seja na política, na sexualidade, no relacionamento, no dia a dia… Essa é só mais uma demonstração da competição que vivemos no planeta e um ato destes mostra que não estamos sozinhos”, encerra, lembrando que o respeito é a única maneira de transpassar todas as situações geradas pela falta de conhecimento sobre as crenças do próximo.

Gabriela Alves de Oliveira frequenta a doutrina espírita e não conhecia as religiões de matriz africana. Ela foi surpreendida pela movimentação no espaço público da cidade.

“Eu achei muito legal e me senti muito acolhida. É extremamente visível o amor dessas pessoas, sua união. Dá para ver o amor que eles têm por aquilo que acreditam e eu, que não conhecia, fiquei com vontade de conhecer mais, ”confessa a veterinária. 

 

Intolerância é crime!

O termo intolerância religiosa descreve a falta de habilidade ou a vontade em reconhecer e respeitar diferenças ou crenças religiosas de outras pessoas e isso é considerado crime no Brasil desde janeiro de 1989, quando foi sancionada a Lei Nº 7.716. A punição aos crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, religião, etnia ou nacionalidade.

A pena é reclusão de um a três anos, além de multa. No ano 2007 foi instituído o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, comemorado no dia 21 de janeiro. A data é incluída no Calendário Cívico da União conforme a Lei Nº 11.635.

Para a socióloga representante do Conselho Estadual de Povos de Terreiro Mãe Carmem, a intolerância sempre existiu, mas sempre foi camuflada. Lembrou que em 1912 no episódio que ficou conhecido como “Quebra de Xangô” pais e mães de santo tiveram seus terreiros destruídos e tinham que se esconder para não serem mortos. Intolerância motivada por questões políticas foi o motivo da barbárie que parece se repetir tanto tempo depois.

“Somos de paz e o nosso deus é o mesmo deus que criou as coisas visíveis e invisíveis. Essa perseguição, mais pelas igrejas neopentecostais que estão nos assolando, nos marginalizando, que estão tirando nosso sangue, é simplesmente por uma intolerância religiosa, racial. Um meio de um movimento disseminar o povo negro, já que estão destruindo o lugar onde foi guardada a oralidade dos nossos saberes religiosos.

Estar nesta praça hoje é acima de tudo resistência. Nos colocarmos nos ambientes culturais onde a gente possa mostrar um pouquinho de nós, o que acreditamos, nossos saberes. Queremos mostrar que somos de paz que somos todos iguais independente das nossas crenças” afirma Carmem.

 

Passo Fundo intolerante

Vídeos registrados no Rio de Janeiro e na Bahia por facções criminosas ligadas à igreja pentecostal, em que bandidos aparecem obrigando pais e mães de santo -sob a mira de uma arma- a destruírem seus templos sagrados, repercutiram nas redes sociais.

Mas nem sempre a intolerância é praticada por fanáticos armados. Na maioria das vezes velada, aparece nos olhares, nas atitudes e na maneira como as pessoas agem ao conviverem com alguém que usa as roupas ou elementos da religião.

Em casos que merecem ainda mais atenção, a intolerância também pode aparecer na escola. Não só por parte dos alunos que tenham crença diferente, como por parte dos educadores que não contam com preparo para trabalhar com a diversidade religiosa apresentada em sala de aula.

Sou pela diversidade! A diversidade das culturas, das crenças e das diferentes maneiras de viver e ser pode ter espaço nas escolas públicas de nosso país. Antes tarde que seja tarde, a sociedade precisa definir se o futuro será democrático ou fundamentalista. A religião tem um peso relevante neste contexto em que duelam democracia e fundamentalismo! (Nei Alberto Pies, professor e escritor)

Estado laico, promotor de conhecimento das diferentes religiões

Com mais de 65 mil terreiros o Rio Grande do Sul é o Estado onde mais se registra o crescimento destas religiões e apesar de não haver dados concretos sobre Passo Fundo, a estimativa é que existam mais de 200 templos na cidade. Apesar do grande número de adeptos, nos últimos meses a cidade registrou três casos de intolerância religiosa, sendo dois deles em escolas da rede municipal de ensino.

O integrante do grupo Guerreiros do Axé Ipácio de Bará aponta que a diversidade está dentro da escola e por isso deve ser trabalhada com responsabilidade.

“Isso é muito sério, pois começa a minar o desrespeito dentro do espaço de formação das crianças e isso se reflete no cenário que estamos presenciando: templos sendo invadidos por bandidos, assassinatos de pais e mães de santo, homens bomba do outro lado do mundo… Isso é muito grave! O preconceito adoece quem sofre dele e mais que isso: ele mata. Queremos mais que tolerância, queremos respeito e reconhecimento. Existimos como religiosos e a constituição nos legitima e nos dá o direito de cultuar a nossa fé, ” desabafa o babalorixá.

De acordo com Ipácio já foram tomadas iniciativas e ações que visem coibir casos de intolerância religiosa no município junto à Secretaria Municipal de Educação e a municipalidade.

Matéria publicada no Jornal impresso Rotta, de Passo Fundo, RS.

Pequeno tributo à dignidade

Com uma fala pausada e arrastada típica do seu país,
o velho agradeceu polidamente o título, expressou mais
uma vez seus sonhos de que o mundo possa ser melhor e mais justo.
Saiu como entrou, em um profundo silêncio, levando consigo
seu mundo e sua dignidade. Esse velho era José Saramago.

 

Nestes tempos em que nossos homens públicos adotam a política da tolerância zero em relação aos seus adversários e perdoam-se e si mesmos refestelando-se nos salões das ricas famílias, à mesa de finos talheres e iguarias, protegidos por um exército de advogados, enquanto arruínam os destinos da nossa Nação, faz-se necessário, por uma simples questão de sobrevivência, construir sonhos ou acalentar lembranças.

E com eles e elas render homenagens àqueles que fazem a diferença em um mundo que clama por mudanças.

O que relatarei constitui uma lembrança autônoma, dessas que fustigam continuamente. Inquietou-me pela primeira vez quando, alguns dias após a ocorrência do fato, parei para refletir sobre a qualidade das nossas lideranças públicas, das boas e más características de todos os que, de alguma forma, vivem das palavras e da imagem. Dentre as más, certamente, a vaidade.

Vaidade produtiva ou vaidade destrutiva – Fabio Nemer

Estou falando da lembrança de uma festa, onde em meio à balbúrdia do salão apinhado de homens e mulheres um senhor inicia com passos lentos, acompanhado por seus anfitriões, o caminho que o levará à mesa de honra onde receberá o título de Doutor Honoris Causa. É o quinto título dessa espécie que receberá em terras brasileiras. Seu rosto marcado pela vida carrega um indisfarçável sentimento de cansaço, não um cansaço físico, desses que advém após horas de trabalho ou uma viagem longa, mas sim um cansaço espiritual. Há uma clara falta de sintonia entre este senhor e o mundo de pessoas que o cercam, evidente no desconforto que procura esconder.

Afinal este homem, que não teve a fortuna de beneficiar-se de estudos adiantados, não concluindo sequer o curso ginasial – chamado liceal em seu país -, que tomou contato com os livros através das bibliotecas públicas e que criou-se em uma família pobre em uma aldeia no interior de sua terra, que vagou por uma infinidade de profissões e ofícios para sustentar-se em um mundo que talvez nunca o compreenderá, receberá mais um título cercado de pompas e um assédio sufocante da imprensa por ter conseguido driblar com as palavras o destino traçado pela realidade, afirmando a sua humanidade, os seus sonhos e os seus sentimentos através dos livros.

A cena foi paradoxal, pois em meio às palmas e assovios pesava um profundo silêncio – dois mundos chocando-se de forma constrangedora: de um lado um senhor solitário, um velho de mãos calejadas e olhar cansado, carregando sua história simples, austera, marcada por valores e projetos, lutas e desencontros, terra e suor, por uma humildade inabalável e uma crença na necessidade de reafirmar cotidianamente a cidadania, e de outro uma massa difusa, senhores vestidos com suas togas, cerimônia, formalidades, clichês, discursos solenes e estranhos, pompas e senhoras pintadas e risonhas.

filme-homenagem que busca olhar o mundo pelas lentes desassossegadas de josé saramago. documentário que revive o redemoinho de sensações, palavras e lembranças deixadas em quem o sentiu por perto. um humanista, que usou os microfones de um escritor, para gritar sobre o nosso mundo.

Dizem que as coisas da realidade sensível são nos apresentadas através dos sentimentos. Presenciei tudo tomado de uma estranha tristeza, observando a sociedade frívola, consumista, artificial e deslumbrada daquele final de milênio na Universidade, este reino onde impera a rotina e a bajulação, premiando um filho de agricultores pobres e analfabetos, velho, autodidata e ainda “sujo” dos obstáculos que a vida lhe ofereceu.

Com uma fala pausada e arrastada típica do seu país, o velho agradeceu polidamente o título, expressou mais uma vez seus sonhos de que o mundo possa ser melhor e mais justo. Saiu como entrou, em um profundo silêncio, levando consigo seu mundo e sua dignidade.

Dali, dentro de alguns dias, voltaria para outra ilha, a de Lanzarote nas Canárias espanholas, em autoexílio onde continuou redigindo até 2010 de forma incansável seus textos, semeando suas parábolas e metáforas. Havia cumprido mais uma escala de compromissos desde que ganhara o prêmio máximo da literatura mundial. Agora, em suas palavras, queria ficar só.

Desde então, pego-me, de tempos em tempos, a refletir sobre a concorrida cerimônia e seus significados, sobre o mundo em que vivemos com suas misérias e desencantamentos, a descrença de alguns, a razão cínica de muitos e o sentimento de profunda necessidade de reinventar o futuro para além dos significados que nos movem atualmente.

O velho chama-se José Saramago, era 18 de agosto de 1999, eu tinha 26 anos e estava na terceira fila do Auditório da Reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina.

A fragilidade dos laços na criança do mundo contemporâneo

Sabemos que os laços afetivos nas crianças
ainda estão em fase de construção, mas é para isso e
por isso que chamo a atenção dos pais e professores para que ensinem
às suas crianças a aprenderem a cuidar dos seus sentimentos.

 

Não quero mais ser o seu amigo. E o menino vai embora. E o menino, de repente, esquece do amiguinho que ia à sua casa brincar de trenzinho todos os dias.

Parte-se para novas amizades, esquecido está o amiguinho de outrora. Investe-se em outras diversões como tablets e celulares. Não há mais espaço para o amiguinho.

A fragilidade dos laços na criança do mundo contemporâneo tem crescido nos últimos anos, igual à fragilidade dos laços no mundo dos adultos. As crianças não ficam mais presas a um amigo, animal ou brinquedo. Tudo é trocado por objetos tecnológicos de última geração.

Não sente a criança mais tanta falta da brincadeira na praça, na rua, no campinho de futebol. Tudo passou rápido. Quem viveu essa época sabe do que falo. Era muito bom brincar de esconde-esconde no meio da rua com a iluminação da lua.

A criança não tem mais apego às suas coisas, aos seus animais e aos seus amiguinhos. Tudo é descartável, tudo é líquido, como dizia o sociólogo polonês Zygmunt Bauman.

O tempo que as crianças ficam longe dos pais não causam mais tanto sofrimento, elas se distraem com os aparelhos celulares cheios de aplicativos de jogos e redes sociais.

Outro dia eu estava numa clínica e vi por duas horas uma criança brincando com o celular enquanto ao seu lado eu lia um livro pouco sem graça, talvez. As nossas crianças já não amam mais seus brinquedos como antigamente, e permitem que esses sejam abandonados ou doados sem o menor sentimento de emoção. As crianças vivem o amor líquido.

Na minha rua tem muitas crianças que brincam nas ruas, que correm ladeiras, que pulam amarelinha e que se jogam no meio de um dia de chuva, mas também percebi nesses meninos e meninas que a fragilidade dos seus laços de amizade tem crescido, pois esquecem uns dos outros rapidamente quando chega um amiguinho novo na rua ou quando chega alguma novidade no bairro o outro é deixado de lado, esquecido, abandonado.

Tudo é descartável. Tudo passa rápido pela infância. As crianças não têm mais tantos amigos, como antigamente. No máximo se tem um amiguinho. E esse só é visto nos fins de semana, nos passeios nos shopping centers, nos parques de diversões ou na escola.

Não quero dizer que as crianças estão deixando de amar, não é isso. Estou querendo alertar pais e professores para o problema da fragilidade dos sentimentos das nossas crianças presas ao mundo da tecnologia e da inovação.

O que é novo sempre nos chama a atenção, ficamos curiosos e admirados com a presença do novo nas nossas vidas, diante disso esquecemos o passado, com quem estávamos antes, com quem brincávamos ontem, esquecemos dos nossos amiguinhos.

Precisamos alimentar os sentimentos das crianças com afeto, com laços duradouros e fortes, com amizades que perdurem pela vida inteira, que se apeguem aos seus brinquedos e por eles tenham amor, que se apeguem aos seus objetos escolares e cuidem deles com dedicação e carinho.

As crianças costumam imitar os adultos, por isso faz-se necessário uma família onde os laços de emoção e afeto sejam bem aceitos e que a criança possa se espelhar na sua família para construir os seus sentimentos de afeição pelo outro. Tenho medo de que as nossas crianças deixem de amar e aprendam a sentir pequenos e passageiros afetos.

É necessário cultivar na criança os laços duradouros de afeto por tudo o que a cerca. Aprender a cuidar e conservar as suas coisas, a respeitar os seus amigos, a cuidar de si mesmo, e a cuidar do ambiente em que vive. A todo instante nossas crianças são convidadas a trocar de super heróis, a trocar de roupas, a trocar de brinquedos e de animais.

A velocidade com que a mídia chega aos nossos lares proporciona o abandono do antigo pela novidade, e qual criança não gosta de experimentar o novo? Se a criança não estiver preparada para amar delicadamente uma flor, essa correrá o risco de morrer tão logo apareça um gato.

Sabemos que os laços afetivos nas crianças ainda estão em fase de construção, mas é para isso e por isso que chamo a atenção dos pais e professores para que ensinem às suas crianças a aprenderem a cuidar dos seus sentimentos.

Conheço um menino que ficou doente por meses devido a mudança de endereço de um amiguinho seu e quando o viu depois de passados alguns anos o abraçou com saudades, isso sim, podemos chamar de laço duradouro.

Que tenhamos tempo de ensinar às nossas crianças a cuidarem dos seus laços afetivos e que sejam fortes e intensos igual ao brincar na infância!

Razões para um balanço

São os anos sessenta, e vida decorre
sem grandes atrativos, exceto a leitura.
Mas temos uma utopia; não podemos desfrutar
as inconsequências da juventude. Somos a mocidade
precocemente amadurecida, que há de conduzir
o Brasil de volta à Democracia.

 

São os anos sessenta, e vida decorre sem grandes atrativos, exceto a leitura. Estou percorrendo a obra de Erico Verissimo.

A renúncia de Jânio Quadros é o primeiro susto. Depois, o episódio da Legalidade: Leonel Brizola tenta garantir a posse do Vice João Goulart, que volta de uma viagem à China. Brizola prepara-se para defender o Palácio Piratini contra um bombardeio anunciado.

(*) Oswaldo França Júnior foi autor, entre outras obras, de Jorge, um Brasileiro (1967), que inspirou seriado de tevê e filme, O homem de macacão (1972), Aqui e em outros lugares (1984), Recordações de amar em Cuba (1986) e No fundo das águas (1987). Morreu jovem, num acidente de trânsito, em 1989.

Aliás, quem irá evitar essa tragédia é um futuro escritor, Oswaldo França Junior(*), mineiro, então muito jovem, servindo à Aeronáutica. Ele, juntamente com alguns colegas, sabotaram os aviões que atacariam o Palácio do Governo. Naturalmente, Oswaldo sofreu as consequências de seu ato.

Passo no Vestibular de Filosofia Pura. Na UFRGS: a única possibilidade de cursar uma Faculdade. O estudo me apaixona; grandes professores como Gerd Bornhein e Frei Antônio do Carmo Cheuiche. A um ano do Golpe de Estado, a vida anda de cabeça para baixo.

Começam as perseguições, as pessoas simplesmente desaparecem da noite para o dia. Ouve-se histórias de horror. Colegas da Filosofia são presos; professores foram e são demitidos e exilam-se no Uruguai, Argentina, Chile, depois na Europa, corridos pelos golpes que se sucedem na América Latina.

Começamos a nos reunir sob o patamar da Faculdade de Filosofia, centro de grandes debates e tensões. Iniciam-se as passeatas, silenciosas ou falantes, da Faculdade ate ao centro da cidade. A polícia nos acompanha pelo trajeto, alguns infiltrados do DOPS, fotografam-nos para os inquéritos, as pessoas do povo nos aplaudem e seguimos pela Paulo Grama, Sarmento Leite, João Pessoa, Salgado Filho, Borges de Medeiros, Rua da Praia. Na Praça da Alfândega os líderes discursariam, nos arrancando gritos e aplausos…

… não, na Praça da Alfandega somos reprimidos por cavalos e policiais, e espancados aos golpes de cassetetes. Corremos para as lojas do centro, e lá nos refugiamos. Os lojistas descem as cortinas de ferro: som que jamais haverei de esquecer. Dentro, no escuro, esperamos por minutos e horas, até poder voltar para casa. Nossos pais, naturalmente, nos imaginam na Biblioteca, que é, na verdade, onde gostaríamos de estar.

Mas temos uma utopia; não podemos desfrutar as inconsequências da juventude. Somos a mocidade precocemente amadurecida, que há de conduzir o Brasil de volta à Democracia.

Avançamos nosso intento, em 21 anos de dores e perdas, com nossa jovem coragem e com o medo de nossos pais.

Na mesma Praça da Alfândega, a Feira do Livro persiste.

Assista à reportagem sobre a escolha de Valesca de Assis
como patrona da 63ª Feira do Livro de Porto Alegre.
Acessse o link aqui.

Conheça um pouco mais da Patrona da 63ª Feira do Livro de Porto Alegre.
Acesse o link aqui.

Booktrailes 03 Valesca de Assis

 

 

, patrona da 63ª Feira do Livro de Porto Alegre 2017.

Pobreza sacralizada: engano do povo e seus enganos

Usar a pobreza e as desigualdades como moeda de troca, sacralizar o assistencialismo ou a pobreza a ponto de parecer enganosamente privilegiado, porém, nunca efetivamente atendido e responsabilizado, para barganha política e emocional de comoção ideológica, é um crime contra a inteligência e o potencial humano.

Não se trata de defender os pobres, trata-se de defender um povo, uma nação e seu desenvolvimento equânime nas proporções também psicológicas, individuais e sociais. Que cada ser humano possa ser aquilo que ambiciona realisticamente ser e fazer, e no conjunto de oportunidades geradas coletivamente para o bem comum.

O uso da pobreza como argumento, é real e existe, foi poluído e capitalizado por toda sociedade para hipotecar a consciência humana na política, na preguiça e no sarcasmo, se tornou pejorativo e tarjado de populismo, assistencialismo e muitos ismos que subvertem a urgência de solução das desigualdades programadas por um sistema perverso que se esconde atrás de uma luta de classes estéril.

O fato é que, ao invés de centrar a realidade como ela é na sua desigualdade social e resolver os problemas daí derivados, seja na psicologia da pobreza que precisa mudar, seja na esperteza de quem usa isso como deficiência a ser capitalizada para fazer política assistencial, que não é igual a programas de governo efetivos e eficazes, mas visa a manutenção eterna do ponto força problemático, acaba-se por sacralizar a pobreza e fazer dela um ponto turístico e de captação de recursos que depois não são revertidos em solução.

A piedade e a caridade, por certo, são grandezas do espírito humano, mas desviadas da sua finalidade e usadas para alimentar egos, fé cega e os subterrâneos de uma política assistencial viciante, é crime contra a humanidade. A Humanidade é um potencial aberto à realização, não um potencial a ser capitalizado em redes de baixa racionalidade e intenções questionáveis.

A grande confusão está em não sermos mais capazes de avaliar com isenção e análise de resultados o que chamamos de políticas públicas. Estamos distorcendo tudo, ferindo as soluções para manter a ignorância do ponto de vantagem a outros, que não o povo como um todo.

Se avaliarmos seriamente e com isenção o programa Bolsa Família, veremos que é um programa seríssimo, não assistencial, validado pelo mundo, mas que virou guerra política e cegueira do povo, invalidando o programa como um mero jogo político.

 

O que é o Bolsa Família? Universidade Metodista de São Paulo Escola de Comunicação, Educação e Humanidades – Curso de Jornalismo.

Neste jogo, pela ignorância, jogamos contra nós próprios, contra a nação, para defender o indefensável jogo destrutivo de partidos hipócritas. Para o povo e para nação não deveria importar o partido, mas as políticas públicas eficazes, que deveriam ser mantidas, independente da alternância das siglas no poder.

Mudar nem sempre significa o que dizem, mudar por mudar, sem seriedade de avaliação dos interesses por trás das mudanças, é inépcia do povo, inépcia nossa.

Nunca deveríamos permitir que boas políticas públicas fossem destruídas em nome de interesses que não os nossos. Não é inteligente da nossa parte.

Usar a pobreza e as desigualdades como moeda de troca, sacralizar o assistencialismo ou a pobreza a ponto de parecer enganosamente privilegiado, porém, nunca efetivamente atendido e responsabilizado, para barganha política e emocional de comoção ideológica, é um crime contra a inteligência e o potencial humano.

 

Desigualdade social no Brasil.

Programas de governo, políticas públicas devem ser avaliados á luz dos resultados e não por meio de distorções abusivas do seu escopo real. É frio, é lógico, é competência, é fazer o certo e ser votado quantas vezes for o caso por ser o melhor programa e propósito social.

Nesta questão, quem precisa acordar somos nós, precisamos sair de um jogo que não nos representa e jogar o nosso jogo, ao nosso escopo e ao bem comum. Ao invés de joguetes, jogadores, sérios jogadores.

Qual é o jogo certo, nosso jogo, nosso papel na política e no desenvolvimento do país?

Andamos que nem baratas tontas num tabuleiro e num jogo sobre o qual conhecemos só o que nos dão a conhecer, sem consciência e sem jogos inteligentes e pontuais, sempre seremos pontos força a vantagem de outros.

Vamos virar esse jogo, vamos aprender a jogar o bom jogo, vamos vencer, porque esse é o único caminho que realmente nos cabe como humanidade, como indivíduos e como nação. Em primeira e última instância, está em nossa mão mudar a realidade para a compatibilidade do bem que queremos evoluir.

Bons programas de governo devem ser qualificados sempre, corrigidos, quando for o caso. Esse processo é contínuo e depende de nós, do Estado e da competência coletiva para mudar as coisas!

Mudar é primeiro psicológico, depois empenho, depois resultados. É sempre responsabilidade pessoal a bem social. Hora de deixar de ser platéia e assumir o protagonismo soberano do povo e para povo, a nosso bem e pela finalidade na responsabilidade intrínseca ao fato vida.

Como se faz uma mulher

Uma mulher não se faz sob o jugo e o desterro. Uma mulher se faz deixando-a bordar todos os tecidos sociais. Uma mulher se faz permitindo-lhe cozinhar tenra e ternamente política e ciência. Jamais haverá rosto humano sem a face feminina.

 

Foi muito sem querer, na festinha de aniversário de sua filha. Observando os presentes, minha amiga se deu conta de como uma mulher é feita.

No aniversário de seu menino, outros presentes: jogos lógicos, carrinhos, livros. Sua filha recebeu bichinhos, bonecas, vestidos, estojos de maquiagem.

Mulher é uma instituição histórica. Tal como a conhecemos, é muito mais costela da cultura que da natureza.

Ao menino, jogos, carrinhos, livros. Quem fez de tais coisas objetos de varão? A cultura. Um quarto azul para ele, um rosa para ela. Jogos para o cérebro. Carrinhos de tecnologia. Livros para os saberes.

A Banda Mágica- Coisa de menino é coisa de menina (Clipe)

Aliás, salvo os culinários, é mister manter as mulheres longe dos segredos. Na maçonaria, por exemplo. Ou na Igreja Católica, onde podem servir, rezar, limpar, bordar a estola e quarar o manutérgio. Tudo, menos participar da hierarquia.

Para justificar essa declarada preferência de Deus pelo sexo masculino, a teologia produziu os mais estrambóticos silogismos.

Minha amiga observa os presentes de sua filha. Ela precisa ser meiga, doce, bonita. Essa é a ideia de menina que os convidados à festa reafirmam. A filha de minha amiga, mesmo sem saber de feminino e de masculino, vai aprendendo a conformar-se – isto é, adquirir a forma da fôrma – ao mundo pronto. Bonecas. Claro, maternidade.

Se, por um descuido da natureza, ela não puder fazer-se mãe, terá de administrar a frustração imposta por si mesma e pelo meio. Milhares de anos depois de Sara, não ter filhos ainda é um castigo divino. Um castigo não expresso, mas dolorosamente tácito e ácido, implícito e lícito. Ai das estéreis!

Mulheres bem-sucedidas tornam-se devoradoras de homens ou fagocitam o masculino. Para vencer os machos, as armas de varões. Se muito femininas, perdem a credibilidade e o cargo. Os homens usam ternos para serem respeitados, as mulheres terninhos. Prostituta ou santa. Sob o homem ou acima dele. Lado a lado não?

O mundo público é assaz masculino. É o mundo da razão, da lei, da guerra, da objetividade. Às mulheres o confinamento dos espaços privados. É preciso controle, e não apenas da fêmea como indivíduo da raça. Características femininas como a solidariedade e a amorosidade foram banidas da hierarquia e da lógica públicas. Destruição do meio ambiente, guerras, racionalidade muita, ternura pouca. É o império patriarcal.

Uma mulher não se faz sob o jugo e o desterro. Uma mulher se faz deixando-a bordar todos os tecidos sociais. Uma mulher se faz permitindo-lhe cozinhar tenra e ternamente política e ciência. Jamais haverá rosto humano sem a face feminina.

Mulheres, que dão à luz, amamentam e, ainda, educam meninos e meninas, mais do que ninguém, sabem: pequenos gestos podem estar grávidos de grandes mudanças. E se o sonho de um mundo diferente para seus filhos tornar-se causa de insônia, podem começar a pensá-lo na próxima festinha de aniversário.

A armadilha

A direita soltou a franga e vai inventando pautas em que a arte é um bom pretexto, porque assim pretende glamourizar até um Alexandre Frota. E a esquerda sempre embarca e fica entretida. E assim as esquerdas vão oferecendo à direita uma interlocução há horas inviabilizada pelo impasse do debate político.

 

A direita mais rasa vem pautando as esquerdas no Brasil. Depois das controvérsias da exposição Queermuseu no Santander e da performance do homem nu tocado por uma criança em São Paulo, eles vieram com o ‘plebiscito’ separatista gaúcho.

E virão com outras provocações.

A direita soltou a franga e vai inventando pautas em que a arte é um bom pretexto, porque assim pretende glamourizar até um Alexandre Frota. E a esquerda sempre embarca e fica entretida. E assim as esquerdas vão oferecendo à direita uma interlocução há horas inviabilizada pelo impasse do debate político.

Como não dá pra debater política no que interessa, que se debata se uma criança tocando num homem nu é pedofilia. E a partir daí qualquer abordagem está liberada, sob o argumento de que nos envolvemos agora com questões culturais misturadas a conceitos sobre costumes. Estamos num simpósio medieval ou mesmo pré-Platão.

Durante muito tempo foi o contrário. A minha geração viu as esquerdas pautando a direita, e a direita virando-se como podia para se defender. Da segunda metade do século passado até agora, a direita só se defendeu.

O Brasil golpeado anda agora a reboque do que o reacionarismo mais rasteiro propõe.

Há alguma vantagem nisso, ou não se tira proveito nenhum de um embate entre o presumido pensamento de um militante do MBL e de um doutor da UFRGS e de Alexandre Frota com Caetano Veloso?

A vantagem pode ser que assim lemos textos do Luis Augusto Fischer, da Céli Pinto e do Francisco Marshall e nos divertimos com o sarcasmo do Zé Adão Barbosa.

Mas eu não queria que eles fossem pautados por essa gente. Isso é regressivo demais. Daqui a pouco estaremos discutindo com chimpanzés amestrados (o que talvez até seja mais interessante). A direita nos levou pra jaula.

Moisés Mendes é convidado deste site e já tem outros oito artigos publicados desde novembro de 2016. Seus textos são destacados e bem lidos. Fazemos referência a um dos artigos mais acessados “A manada de José Mayer e a Globo”.

A manada de José Mayer e a Globo

Meio ambiente: cuidados por ética ou por etiqueta?

A diferença está entre os que pregam a ética
e os que pregam a etiqueta como formas de colaborar
com a sobrevida do planeta, entre quem se dispõe a promover
mudanças na organização econômica e social e entre aqueles que
buscam apenas compensar o planeta com “atitudes politicamente corretas”.

 

Estamos diante de uma crise ambiental real. O mundo inteiro se conscientiza e se mobiliza em defesa da sobrevivência planetária.

A diferença está entre os que pregam a ética e os que pregam a etiqueta como formas de colaborar com a sobrevida do planeta, entre quem se dispõe a promover mudanças na organização econômica e social e entre aqueles que buscam compensar o planeta com “atitudes politicamente corretas”.

Ao mesmo tempo que pode estar na perspectiva de potencialização e afirmação positiva, a humanidade pode também estar na perspectiva da destruição e dominação de uns sobre os outros. Por vezes, ao invés de ética, somos impelidos a agir mais por etiqueta do que por ética. Agimos mais por aparência ou imposição das conveniências.

 O que muda é se assumimos compromissos a partir das nossas ações humanas no planeta ou se estamos preocupados somente com o status social que recomenda “dosar” e qualificar nosso consumo como mais sustentável.

… a crise é terminal porque todos nós, mas particularmente o capitalismo, encostamos nos limites da Terra. Ocupamos depredando todo o planeta, desfazendo seu sutil equilíbrio e exaurindo excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não conseguir, sozinho, repor o que lhe foi sequestrado” (Leonardo Boff, 30/06/11)

O fundamento das diferenças acima descritas está alicerçado em conceitos bem distintos, historicamente construídos pelo ser humano a partir de suas relações com a natureza e com o mundo: o conceito de sustentabilidade e o conceito de interdependência.

“Sustentável” provém do latim sustentare (sustentar; defender; favorecer, apoiar; conservar, cuidar). Já interdependência “ é um conceito que rege as relações entre os indivíduos onde um único indivíduo é capaz de, através de seus atos, causar efeitos positivos e/ou negativos em toda a sociedade. Ao mesmo tempo, esse mesmo indivíduo, por sua vez, é influenciado pelo todo. Com isso, é possível dizer que todas as pessoas e coisas que rodeiam a vida dos seres humanos estão interligadas e afetam a vida de todos de forma significativa”.(Wikipedia)

Arriscamos afirmar que o conceito de sustentabilidade foi concebido no Ocidente, enquanto o conceito de interdependência nasceu no mundo oriental. Que o conceito sustentabilidade está associado à necessidade de compensar o já destruído; que o conceito interdependência está associado a um modo de vida e de relação entre os indivíduos e os seres vivos. Que a tentativa de transformar ética em etiqueta nada mais é do que apequenar a responsabilidade que o ser humano tem diante do “clamor” e do sofrimento do planeta.

A ética diante da vida e do planeta inscreve-se no compromisso com a vida no seu conjunto, seja ela a própria vida da gente e a vida dos demais seres vivos.

A ética do cuidado, proposta por Boff, está embasada em quatro princípios fundamentais: o amor universal e incondicional, o cuidado, a solidariedade universal e a capacidade e a vontade de perdoar. Estes princípios ensejam mudança de posturas e comportamentos do ser humano com relação à natureza e o mundo, tornando o mundo mais do que sustentável: interdependente; onde os seres vivos possam ser considerados na relação de um para com o outro sem juízos de valor ou de importância.

 

Renato Janine Ribeiro fala sobre a diferença entre ética e etiqueta.

A mudança que devemos fazer implica em dar novos sentidos à relação conosco mesmos, com a natureza e com o mundo. O exercício de reciclar algo que descartamos é pedagógico, uma vez que nos faz repensar a nossa existência diante dos demais seres vivos.

Como escreveu Leonardo Boff, ao falar de ethos, palavra que dá origem à ética: “Na casa cada coisa tem seu lugar e os que nela habitam devem ordenar seus comportamentos para que todos possam se sentir bem. Hoje a casa não é apenas a casa individual de cada pessoa, é também a cidade, o estado e o planeta Terra como casa comum”. Sejamos, pois, responsáveis pela vida que compartilhamos juntos. Se não há compromisso com a vida, só há etiqueta.

 

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