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Você fala a verdade para o seu filho e para a sua filha?

 

Cuidar de filhos é tarefa dos pais,
por que “quem ama, cuida”.
E também da escola e também
de toda a sociedade.
Por que a verdade liberta!

 

Ainda somos assolados por medos infundados, mesmo diante de evidências irrefutáveis. Estou falando em HIV, ou AIDS. A cada campanha em favor do uso da camisinha ouvimos argumentos de que estão estimulando a prática sexual, não só entre os adolescentes, mas por parte de qualquer pessoa. Desconfio que por parte das mulheres. Os homens são licenciados sem questionamentos.

Sonegar informação aos filhos não muda o fato de que o desejo sexual é algo poderoso. Cabe aos pais certificar-se de que os valores que passaram a vida toda através dos testemunhos de respeito a si e ao outro, estejam devidamente incorporados. Isso não é garantia de comportamento sem riscos. Seria ingenuidade imaginar que temos santinhos castos dentro de casa.

 

Sueli Ghelen Frosi, da Escola de Pais do Brasil afirma que pais e mães sempre são educadores e que devem ser parceiros da escola, para a humanização dos filhos. Os filhos são educados pela linguagem, pelas emoções, pelo respeito e pelos exemplos.

Sabe-se que a AIDS está aumentando por aqui e é uma boa notícia o que a ciência nos diz hoje em dia. As farmácias podem vender kits de testes de AIDS caseiros, imagina! Frente a isso é importante saber que há um protocolo de cuidados com soropositivos disponível na rede pública de saúde, o que permite que, uma vez a sorologia testada em casa dê positiva, dá acesso a essa rede. A medicina conta com medicamentos capazes de tornar o vírus indetectável. Isto quer dizer que, uma vez uma pessoa tenha o vírus indetectável, ela para de infectar outra, o que sinaliza uma diminuição de casos novos.

A informação a respeito do teste de AIDS de farmácia é um dever de todos. O acolhimento aos infectados também. Dizer da gravidade da doença, mesmo que tratável, é obrigatório, por que não tem cura. O que existe são tratamentos que permitem a continuação da vida com uma qualidade impossível há poucos anos. Recorrer à testagem do vírus, sabendo disso, arranca do imaginário o medo que cerca a AIDS ainda hoje. Sem tanto medo diminui o contingente dos que não se sabem soropositivos e são potenciais contaminadores.

Mesmo sendo leiga no assunto encorajei-me a trazê-lo, respaldada no que aprendi no Saia Justa (GNT). Senti a seriedade da pauta e comemorei as novidades trazidas por profissionais da área. Todavia, leiga que sou, pensei muito antes de passar este conteúdo, mas os preconceitos que ainda cercam a sexualidade e a hipocrisia que mata por falta de informação encorajaram-me a conversar com os pais, o que faço há anos.

Meu intuito aqui é de enfatizar a necessidade de cuidarmos uns aos outros. Debelar medos patológicos dá um alívio danado! Cuidar de filhos é tarefa dos pais, por que “quem ama, cuida”. E também da escola e também de toda a sociedade. Por que a verdade liberta! Sempre devemos estar capacitados a dar respostas, se não científicas, mas aquelas que dão colo, acolhimento e capacidade de compreender as dificuldades que cercam a adolescência, as mulheres que ainda não sabem exigir proteção sexual, aos que deixam de viver sua sexualidade por medo e ignorância.

Nutrição e comensalidade

Os pobres merecem mesa, pratos, talheres,
comida diversificada e saudável para alimentar o corpo,
pacificar a alma e liberar os sonhos de uma
sociedade justa, fraterna e solidária.

 

Há alguns ditos, fatos e temas que, pela carga simbólica neles conectados, viralizam e tomam conta do debate público, para o bem ou para o mal. Nem tudo o que viraliza, isto é, se espalha rapidamente, é merecedor de análise e de alguma reflexão mais apurada.

Fofoca também viraliza e nem por isso merece atenção acadêmica. Contudo, a polêmica que tomou conta das redes sociais em torno da Farinata, um composto alimentar que reaproveita alimentos em fase de vencimento de validade, merece a nossa atenção, não pelo poder de nutrição ou não da ração humana, como alguns pejorativamente definiram, mas pelo poder simbólico que a compõe.

O poder do símbolo está em sintetizar e simplificar realidades complexas. Nesse aspecto a Farinata é o que há de mais simbólico.

Em primeiro lugar é símbolo da lógica capitalista. Você sabia que o que move os empresários a colaborar no projeto da prefeitura de São Paulo nem é tanto pelo benefício que isso pode eventualmente trazer para a nutrição das crianças e pobres assistidos pela rede municipal, mas a vantagem que eles podem tirar do processo todo?

Sim, o custo das empresas para descartar alimentos prestes a vencer é muito alto e o projeto lhe beneficiam sobremaneira. E não só isso, a prefeitura tem sinalizado para a isenção fiscal das empresas que colaborarem no projeto. Não imaginem vocês que os empresários viraram humanistas da noite para o dia…!

 

 “Estamos, agora, a um passo de perder a inocência alimentar, inocência no prato. O prato e o que entra nele é algo tão natural que, raramente, e poucos se interrogam, seriamente, quanto à necessidade de pensar e escolher consciente e responsavelmente o que se come. O ato de comer é um ato ético, ou anti-ético. É um ato ético sempre que nele entra o outro reconhecido como outro, respeitado como outro em seus direitos, e anti-ético quando negamos a alteridade do outro enquanto outro”. (Gilmar Zampieri)

Ética, alimentação e espiritualidade

Eles são solidários por egoísmo. Seguem a lógica da filósofa americana Ayn Rand que diz que há uma virtude no egoísmo, na medida em que ao estimular o egoísmo de alguns, o resultado é bom para todos.

Isso é grave, mas não é o mais grave. O mais grave vem da fala conjugada do prefeito da cidade, Dória, e do cardeal Dom Odilo Scherer. A síntese é: “Pobre não tem hábito alimentar, pobre tem fome”!

Para um desavisado essa é apenas mais uma frase de efeito e de marketing. Mas é mais que isso. Ela é, antes de tudo, a síntese mais acabada da mentalidade elitista e pós-humana que tem tomado conta do país. As elites têm flertado com a volta da escravidão, com a exclusão da mulher, com a degradação da natureza e com o sofrimento e morte sistemática dos animais e com o total descaso para com os pobres.

Tudo está conectado, diz o Papa Francisco. E esse é um caso de conexão profunda. Dizer que pobre não tem e não se importa com hábitos alimentares, com boa alimentação, com confraternização, com comensalidade, mas só quer comer, como sinônimo de nutrição, é reduzir uma pessoa a uma árvore.

Comer não é sinônimo de nutrição, como a fala dos ilustres parece pretender dizer. A nutrição é um ato biológico. As árvores também se nutrem! Comer é um ato humano e espiritual.

O que faz do comer um ato espiritual e humanizador, entre outras coisas, é a comensalidade. A comensalidade, comer juntos, comporta ritos! Ao redor da mesa nos reunimos na paz e alimentamos também a alma!

A “ração humana” é uma afronta a pessoalidade e humanidade dos pobres que merecem projetos de libertação da condição de pobreza e não a sua perpetuação, para serem objeto de assistencialismo egoísta e pacificador das consciências, através de “bolotas” nutritivas.

Os pobres merecem mesa, pratos, talheres, comida diversificada e saudável para alimentar o corpo, pacificar a alma e liberar os sonhos de uma sociedade justa, fraterna e solidária.

Qualquer projeto que não tenha isso como horizonte, não pode merecer apoio de quem segue Jesus, que deseja vida em abundância para todos e não migalhas humilhantes.

Não acredito em mérito!

Precisamos falar das desigualdades e reconhecer que existem privilégios,
injustiças e oportunidades desiguais para as pessoas no Brasil.
Sou uma mistura de sorte, oportunidades agarradas,
contexto favorável e algum nível de dedicação.
Isso não pode ser generalizado…

 

O caminho mais fácil agora, seria defender que a conquista do meu doutorado, por exemplo, é resultado de mérito pessoal e familiar, mas não! Não!

Não compartilho com pensamento simplificador apenas para ganhar os louros das conquistas.

Em primeiro lugar, sou branco em um país altamente racista. Sou homem em um país altamente machista.

Terminei minha faculdade em um contexto de amplo expansão do Ensino Superior e a Pós-graduação no Brasil.

Tive acesso também à bolsa de mestrado (CNPQ), que o governo atual tem cortado de todos os lados, isso permitiu me dedicar a atividade de pesquisa durante dois anos, em caráter exclusivo. Sem ela, não teria conseguido amadurecer intelectualmente e me projetado com sucesso para o Doutorado.

Sou filho de professora de Artes do Município de Porto Alegre (mestre na sua área), que pôde me aconselhar e dialogar comigo em casa sobre muitos teóricos e indicando livros que utilizei (ter alguém para dialogar sobre teorias, em casa, já imaginou?). Minha família sempre me apoiou, falavam do quanto se orgulhavam (reconhecimento das pessoas que te amam, faz toda a diferença).

Vivo no Brasil, falar de mérito individual é tão hipócrita e individualista, que beira a falta de noção. O Brasil é um país muito injusto, sem reconhecer os privilégios que alguns estão cercados, te faz um ser menos humano.

Tive esforço sim, algum nível de esforço individual, claro que abri mão de muitos momentos de diversão e tranquilidade. Mas precisamos falar das desigualdades e reconhecer que existem privilégios, injustiças e oportunidades desiguais para as pessoas no Brasil. E eu sou uma mistura de sorte, oportunidades agarradas, contexto favorável e algum nível de dedicação. Isso não pode ser generalizado…

Enfim, antes de me acomodar com essa e outras conquistas, tenho o dever humano de lutar para que o máximo de pessoas possíveis tenha chances iguais às minhas de crescer profissionalmente, intelectualmente e como um ser.

A construção de sujeitos responsáveis

A descrição do adulto como um sujeito psiquicamente maduro e juridicamente responsável, se confronta com o entendimento que atribui inteligência e liberdade plenas para a criança. Ocorre uma inversão e desorientação dos papéis sociais, na qual os sujeitos psiquicamente maduros e juridicamente responsáveis estão fragilizados nas suas funções de orientar e apontar caminhos para a construção novos sujeitos sociais.

 

 

É comum ouvirmos a frase: “As crianças de hoje são muito inteligentes!” Além de comum a frase tem respaldo nos fatos, visto que as crianças são bastante incentivadas com estímulos e com acesso precoce de informações. Outro pensamento reproduzido, com certa frequência, precisa ser assimilado em seu impacto subjetivo e social: “As crianças são mais inteligentes do que os adultos”!

Para um entendimento adequado deste pensamento, se faz necessário identificar o modelo de sociedade verticalizado, centralizado, a partir da figura masculina do pai e a sociedade organizadas por laços horizontalizados. Além disto, é importante identificar o que significa ser criança e o que significa ser adulto.

Nas últimas décadas, o mundo vem passando por mudanças na estrutura dos laços sociais, com consequências na política, nas famílias, nas escolas, nas empresas e na sociedade em geral. Uma avaliação adequada das influências inconscientes é indispensável, pois o respaldo comportamental do simbolismo apoiado na figura paterna decresceu vertiginosamente.

Em decorrência desta realidade social, em que as crianças foram elevadas e os pais rebaixados nas relações de hierarquia, as estratégias para a construção de novos sujeitos devem ser ressignificada com o restabelecimento dos papeis sociais, que possibilitem relações mais horizontais, especialmente na convivência entre adultos e crianças.

Os referenciais rígidos, das relações verticais e hierárquicas, passaram a ser caracterizados como desmotivadores e agressivos. Em decorrência, a orientação das práticas subordinadas aos referenciais pré-estabelecidos, passam a ser entendidos como violentadores de subjetividades, que dificultam ou impedem a construção de sujeitos criativos e com autonomia significativa.

Os sujeitos adultos, que possuíam acessos privilegiados das referências a serem repassadas e seguidas, não tem mais este função, pois as mesmas estão sendo feitas pelas crianças. No entanto, esta inversão dos papeis, no qual o comportamento passa a ser orientado pelas crianças, significa a predomínio do comportamento orientado por mentes psiquicamente imaturas e juridicamente irresponsáveis.

A descrição do adulto como um sujeito psiquicamente maduro e juridicamente responsável, se confronta com o entendimento que atribui inteligência e liberdade plenas para a criança. Neste contexto, ocorre uma inversão e desorientação dos papéis sociais, na qual os sujeitos psiquicamente maduros e juridicamente responsáveis estão fragilizados nas suas funções de orientar e apontar caminhos para a construção novos sujeitos sociais.

A construção de novos sujeitos com liberdades irrestritas, tem contribuído para um inversão dos papéis sociais e institucionais entre adultos e crianças. A construção de relações mais equilibradas com ênfase na responsabilidade do adulto e na responsabilização gradativa da criança é uma das condições necessárias para construção de sujeitos responsáveis.

O desmonte educacional

 

Educação com qualidade está atrelada ao respeito com o profissional da educação, e isso, começa com a valorização e a oportunidade de condições de trabalho adequadas e suas pertinências, tais como: garantia de manutenção das escolas, repasse das verbas em dia, respeito a autonomia pedagógica e de gestão, a merenda escolar, material de uso contínuo, suprir com as necessidades de recursos humanos (Orientador, psicólogos, psicopedagogos e funcionários).

 

Embora muitas pessoas ainda não estejam sentindo o desmonte que vem acontecendo na educação estadual e nacional, ela acontece de maneira desenfreada e inconsequente.

Dessa forma, a educação sonhada e idealizada por muitos precursores da nossa história acaba ficando por terra. Tudo é feito de um jeito a desrespeitar os princípios pedagógicos e direitos educacionais, tanto do ângulo do estudante como do educador.

Segundo MARX apud TOMELIN e SEIGEL (2007, p. 89) numa sociedade onde vivem exploradores e explorados fica difícil a percepção primordial de valores como liberdade, racionalidade e felicidade. Estes são valores tidos como hipócritas. Com essas palavras dos autores, é dolorido analisar que numa sociedade de utopias e de histórias fantásticas tenhamos que olharmos para trás e nos orgulharmos apenas pelo que tivemos e não pelo que estamos construindo.

Na trajetória, historicamente falando, já construímos muito, passamos pela consciência mítica, a consciência religiosa, a consciência racial, consciência de uma educação crítica e, tão recente, estamos passando pela consciência inclusiva. No entanto, parece que aqui no Rio Grande do Sul segue o modo devassador adotado pelo Estado Brasileiro que vive um momento de retrocesso, um duro retrocesso, visto a olhos nus pelos educadores e diretores de escolas.

 

O RS tem saída?

Tudo é muito bem pensado, planejado de uma forma, apenas, numérica. Neste pensamento neoliberal de reduzir a zero a instituição pública, o que menos interessa são as pessoas e a qualidade educacional (FREIRE, 1996 apud TOMELIN e SEIGEL, 2007, p. 57) já dizia que quem manda e oprime elabora a teoria de sua ação, necessariamente sem o povo, pois é contra ele.

 

Confira o ponto de vista do Secretário Estadual de Educação do RS sobre situação nas escolas públicas estaduais.
Veja mais aqui.

Aqui no estado a situação anda desenfreada no que tange a usurpação dos direitos adquiridos há muitos anos, sem falar no desmonte da estrutura educacional, desde a estrutura física à humana, pois o educador está sendo tratado menos que lixo, por consequência uma comunidade de direito prevista na Constituição Brasileira sofre duras penas.

Tudo isso acontecendo, e tem gente que não conseguiu perceber essa avalanche e quem sente na pele são os diretores, coordenadores das escolas porque são os que estão na linha de frente e é de quem o povo cobra, mesmo sem poder solucionar muitas questões, não por querer, mas porque a eles é negada a estrutura do estado. Para explicar melhor o que digo, trago aqui uma carta que organizamos há tempos atrás juntamente com os demais professores da Escola Estadual Nicolau de Araújo Vergueiro (EENAV – Passo Fundo).

Vimos através de esta esclarecer a comunidade rio-grandense o que está se passando com a Educação do Estado do Rio Grande do Sul, a partir de algumas medidas tomadas ilegalmente por parte do Governo do Estado. Com isso, os profissionais da educação demonstram sua indignação pelo desrespeito, parcelamento do salário, não pagamento do décimo terceiro, sendo que os nossos compromissos temos que cumprir de forma efetiva. Dessa forma, acarretando um transtorno financeiro e emocional, pela humilhação sentida na pele do trabalhador e, por consequência, sua família e de todos que de alguma forma dependem dele.

Outro fator que nos incomoda, é ter o salário “a conta gotas”, sendo que o contracheque, no Portal do Servidor aparece integral, entendemos que isso, demonstra, por parte do governo, a falta de transparência.

Diante de muitas questões que nos atingem, de uma forma ou de outra, nos questionamos: Onde fica a dignidade de um profissional que cumpre com suas obrigações com respeito e dedicação, que estudou, pagou seus estudos, muitas vezes com dificuldades, tem família e se vê inadimplente com seus compromissos atrelados a uma administração falha, de um governo que não nos paga o Piso Nacional da Educação e agora, para completar, nem mesmo o salário que já está defasado? E, em contrapartida, por que o Senhor governador mantém o salário dos políticos e de outras categorias em dia e com reposições de perdas? Por que o dinheiro público é usado para injetar em empresas privadas como, por exemplo, R$ 75 milhões para Italac Passo Fundo, como bem percebemos na fala do próprio governador: “Os investimentos anunciados hoje são resultado de um círculo virtuoso: decisão, planejamento, ação, caminho para o desenvolvimento social e econômico da região e do Estado. É prova de confiança no Rio Grande do Sul. Mesmo num cenário com incertezas, o estado segue atraindo investimentos que geram emprego, renda e impulsionam o crescimento no campo e na cidade. É disso que precisamos cada vez mais: de gente que constrói o Rio Grande que dá certo”.

Quer dizer que educação não dá confiança? Que educação não significa desenvolvimento de um estado, é isso?

Mediante há tantos comportamentos inadequados, como sermos formadores de opiniões, de tornar nossos alunos cidadãos reflexivos, autônomos, críticos e participativos, diante de um Governo que nos tira direitos básicos?

A educação como um todo vem adoecendo, física e emocionalmente, diante deste contexto sombrio e incerto, neste momento, em que corremos o risco de perder a garantia à saúde, através do nosso Instituto de Previdência Estadual (IPE) que está ameaçado de sofrer alterações que vão prejudicar, ainda mais, o atendimento médico e hospitalar da categoria. Decisões nada democráticas! Desfavorecendo seus contribuintes.

 

Precisamos falar de educação, atividade promovida pela UPF e Escolas Notre Dame, com apoio do CMP Sindicato de Passo Fundo, RS.

A Secretaria de Estado da Educação age de forma fria quando considera que uma boa educação está apenas em cumprir as horas e os dias estabelecidos na LDBEN, porém acreditamos que educação com qualidade está atrelada ao respeito com o profissional da educação, e isso, começa com a valorização e a oportunidade de condições de trabalho adequadas e suas pertinências, tais como: garantia de manutenção das escolas, repasse das verbas em dia, respeito a autonomia pedagógica e de gestão, a merenda escolar, material de uso contínuo, suprir com as necessidades de recursos humanos (Orientador, psicólogos, psicopedagogos e funcionários).

Portanto, diante de tantos fatos entendemos que a luta por uma educação de qualidade não é responsabilidade apenas do professor, ela depende de uma economia estável em todos os seus setores e isso perpassa por uma administração competente e preocupada com seu povo em todos os seus níveis. Pois uma má administração causa um efeito dominó na sociedade como um todo.

Na mesma linha desoladora, o Governo Federal “risca” a maior lei já elaborada para a educação nos últimos anos, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDBEN. Sendo que, no Artigo 4º da LDB o inciso primeiro e segundo está suprimido, isso é o que tange a obrigatoriedade e gratuidade da educação, ou seja, o Estado fica isento com seu compromisso social e educacional com os cidadãos brasileiros em formação. Ainda, no inciso terceiro foi suprimido o que se refere à gratuidade com os PCDs – Pessoa com Deficiência na rede pública, que é grave, pois tantas lutas foram travadas para que se chegasse ao nível de que as PCDs pudessem frequentar o ensino regular. E no inciso quarto o governo se descompromete com o ensino gratuito CDI – Centro de Educação Infantil. E, nessa linha, outras aberrações que a população deveria tomar conhecimento.

Não cessando as aberrações, segue uma bem preocupante que diz respeito ao ensino da Educação Física que fica restrito à Educação Infantil e Ensino Fundamental, porém é facultativa ao aluno. Além do que Filosofia e Sociologia foram extintas e a única obrigatoriedade que aparece no Ensino Médio é Língua Portuguesa e Matemática.

Portanto, tanta coisa negativa que temos a dizer tanto do Governo Estadual e Federal em relação a educação que nos sentimos sufocados e acreditarmos que realmente a educação está sendo encarada pelos dois níveis governamental como despesa e não investimento humano, social, cultural e econômico, infelizmente.

 

Um pintor do nosso tempo

Os três polos de um circuito artístico (autor-obra-público) devem, necessariamente, estar interligados? Alguns entendem que não. Postulam estes que a obra de arte (pintura, escultura, literatura, música etc.), uma vez produzida, autonomiza-se de tal forma que o autor não importa mais. Outros, como é o nosso caso, entendem diferente.

Que a obra pode até ganhar outros significados derivados da relação direta com o público. Mas, para sua compreensão plena, conhecermos o seu significado intencional, ou seja, aquele que o próprio autor quis conferir, sempre será imprescindível.

Nos dias de hoje, de hiper-interatividades, via mídias sociais, mais do que nunca é possível alcançarmos esta compreensão mais completa da obra de arte. Especialmente quando o artista se dispõe a se utilizar destas mídias para falar do processo criativo.

Caso de Manoel Soares Magalhães, jornalista, literato e pintor, cujo trabalho acompanha há quatro anos. Seus naifes de uma intensa, variada e por vezes surpreendente paleta pictórica, composições arrojadas, serenamente simétricas, porém uma rigorosa perspectiva nos escorços, por si só contam com encantos suficientes para nos enlevar e elevar.

Além de seus degradês esfumados, a técnica da paciência, precisão e perseverança, com a qual Manoel obtém suas passagens de luz e sombra. Mas, para além destes aspectos formais, o que também qualifica a obra de Manoel é a escolha dos temas.

Suas obras contemplam o imaginário de Simões Lopes Neto, recantos de Pelotas e outros lugares por onde o artista passou, evocações da infância, meninas lendo, arco-iris e, ultimamente, a revisitação aos clássicos. É aqui onde se revelam o poeta, o pensador, o observador atento e sensível, um humanista no mais elevado sentido da palavra. Parabéns aos idealizadores da presente amostra.

Autor: Arnoldo Walter Doberstein, doutor em História pela PUCRS, onde lecionou, entre outras a disciplina História da Cultura Artística. Autor dos livros Estatuária e Ideologia e Estatuários, Catolicismo e Gauchismo. Coordenador dos livros Emilio Sessa, Pintor – Primeiros Tempos e Emilio Sessa, Pintor Tempos Intermediários.

A problematização na educação

 

 

A problematização do mundo aberto, que se baseia na condição própria da natureza humana como inquisitiva, a uma ação transformadora, trata da condição social na produção do conhecimento como fundamental na crítica do próprio conhecimento, bem como na sua condição política e ideológica.

 

Paulo Freire propôs diversos saberes necessários à prática pedagógica ao longo de sua obra, desde o esboço do livro “Pedagogia da Autonomia” e até mesmo, indiretamente, em suas reflexões posteriores em “Cartas a Cristina”.

De acordo com reflexões internacionais são cinco as principais ideias de Freire: (i) pedagogia da pergunta ou problematização; (ii) ensinar exige respeito pelo conhecimento dos alunos; (iii) ensinar exige respeito pela autonomia de ser aluno; (iv) ser alfabetizado não é aprender a repetir palavras, mas aprender a dizer sua palavra; (v) e ensinar exige escutar.

Este trabalho traz um recorte sobre a pedagogia da pergunta ou problematização através de uma história de vida focal autobiográfica, apresentada em dois momentos. O primeiro momento trata-se da problematização do meu processo de construção como educadora e o segundo momento apresenta uma reflexão sobre a problematização em si mesma.

 

Problematizando meu processo de construção como educadora

“Nenhum vento é favorável quando não se tem rumo.” Quem nunca ouviu esse ditado? Esse provérbio expressa um pouco de minha trajetória pessoal e profissional, além de que, em uma linguagem mais direta indica que a definição de objetivos é um passo fundamental para o sucesso.

Da época dos bancos escolares até o atual momento, passando pela experiência de ser professora na rede pública brasileira e em universidades privadas nos Estados Unidos, onde atualmente sou professora adjunta no Onondaga Community College, esse provérbio está entre algumas considerações que se tornaram essenciais na minha carreira.

Nesta minha trajetória pude constatar que a definição de objetivos impacta, sim, os fatores de aprendizagem.

Nutro empatia por Paulo Freire, para o qual devemos “nos colocar no lugar do educando”. Assim, fazendo um breve resgate do meu tempo de estudante e avaliando minha educação, acredito que as séries iniciais do ensino fundamental foram satisfatórias, sob meu ponto de vista.

Aprendi a ler, somar e dividir e devo recordar que fui considerada uma “aluna” normal, até que os conflitos próprios da adolescência se acumularam na expressão de um intenso senso crítico. Talvez, aquela “aluna” que questiona o porquê dos conteúdos, as amarras do sistema, os conflitos do mundo, enfim, imersa naquela sensação de não saber qual a função da escola.

Esses questionamentos me acompanharam ao longo de minha formação final na educação básica e parte do ensino superior em Ciências Biológicas, quando recebi um convite para lecionar ciências em uma comunidade precária no sul do Brasil.

Confesso que hesitei, pois afinal sou filha de professora e além do mais, quem quer ser professor quando essa profissão, embora nobre, sofre um processo de desvalorização ao nível nacional há várias décadas?

Para ser professor é necessário ter coragem e perseverança, pois os desafios são imensos… Ah, Desafios? Aceitei.

Dificuldades de várias ordens surgiram devido à situação da educação atual, que muitos autores atribuem à crise econômica, desestrutura familiar, falta de incentivos e políticas públicas, ruptura social, entre outras palavras complexas que aprendi no Mestrado em Educação no Brasil, Ph.D. e pós doutorado nos EUA, e em meu Ed.D. no México.

Contudo, meus objetivos ajudaram a manter o foco e guiar minha paixão pela educação, ressignificando meus próprios saberes e fazendo com que eu reconstruísse minha práxis cotidiana e não desistisse… Aqui vale resgatar o ditado popular de que “uma vez professor, sempre professor”.

 

A problematização em si mesma

Um dos tópicos dessa história focal que elegi na obra de Freire aborda as seguintes assertivas “se faz necessário desenvolver uma pedagogia da pergunta. Estamos sempre ouvindo uma pedagogia da resposta. Geralmente, os professores respondem às perguntas que os alunos não têm”.

Ao problematizar minha própria formação como educadora, foi possível observar traços de uma educação tradicional ou bancária baseada na memorização e transmissão de conteúdos, que caracterizam a pedagogia da resposta.

A falta de adaptação no ensino fundamental e médio (no meu caso e de muitos outros) pode ser um resultado da falta de autonomia dos alunos proporcionada por essa educação. Felizmente, nas últimas décadas têm-se observado um reconhecimento global sobre a importância da problematização na formação do pensamento crítico e para manter os estudantes motivados visando o sucesso escolar.

A problematização do mundo aberto, que se baseia na condição própria da natureza humana como inquisitiva, a uma ação transformadora, trata da condição social na produção do conhecimento como fundamental na crítica do próprio conhecimento, bem como na sua condição política e ideológica. A importância desse método pode justificar-se na tríade antropológica em Freire:

  1. O ser humano é um ser em transição, ou seja, é um projeto inacabado, que está em constante busca de si mesmo; é incompleto, finito, temporal e não sabe de maneira absoluta.
  2. O ser humano é um ser de relações. “Ninguém educa ninguém, os homens se educam em comunhão”, mediatizados pelo mundo.
  3. O ser humano é um ser em busca – estando em permanente procura, curioso, “tomando distância” de si mesmo e da vida que porta; esta capacidade de reflexão dialógica e crítica assume a si mesmo e ao mundo como realidades inacabadas.

Este vídeo é um pequeno resumo do livro “PEDAGOGIA DA AUTONOMIA” de Paulo Freire.

 

A problematização como minha construção

Através desta história de vida focal autobiográfica, realizei um resgate sobre a problematização, iniciando pelo meu processo de construção como educadora até a problematização em si mesma. Nesse resgate, foi possível observar que apesar de receber uma educação tradicional na educação básica, passei pela ruptura com a mesma e recebi a influência da obra de Freire na minha formação profissional. Posso concluir que a problematização tem um papel fundamental na formação do pensamento crítico e na motivação dos estudantes.

300 anos da Mãe Aparecida nas águas

Para a fé cristã, 2017 é celebrativo: 500 anos de reforma luterana, 100 anos de aparição em Fátima, 300 anos de Nossa Senhora Aparecida. Foi em 1717 o encontro de uma imagem que transformou a fé do povo da Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá e proclamada em 1930 Padroeira do Brasil pelo Papa Pio XI.

Em Fátima, Maria apareceu visivelmente a três pastorinhos, que a Igreja reconheceu ser sobrenatural. Aqui a três pescadores e certamente escravos, que recolheram a imagem negra do Rio Paraíba.

Os pescadores, não tendo pescado nada, encheram depois suas redes. Ofereceriam um banquete aos magnatas portugueses do Brasil colônia, no regime de escravidão. A imagem negra da Virgem encontrada vinha a ser uma mensagem de Maria ser mãe de todas as raças e culturas.

Católicos são acusados de serem idólatras, por venerarem imagens de santos. O mandamento primo do decálogo proíbe fazer escultura e imagem alguma (Ex 20,3-5).

A verdadeira razão desse mandato é Deus ser o único.

Os deuses ou ídolos não são nada. A representação de Deus com imagens é por não ter a forma de criatura e não ser um objeto manipulável.

A fabricação da serpente de bronze que Deus ordena a Moisés (cf. Num 21, 6-9) não configura uma idolatria. Essa imagem não era mágica e milagrosa por si só. O olhar de fé para ela, acreditando na Palavra que Deus tinha pronunciado, realizou a cura da morte física àqueles que eram picados pelas serpentes venenosas.

Ninguém adora uma fotografia de sua mãe porque a guarda com carinho. Somos simbólicos, numa era da imagem, do virtual, do ícone, do representativo. A iconografia sempre foi uma pedagogia dos cristãos, desde as catacumbas. A própria Bíblia é imagem, ícones impressos no papel. Incontáveis milagres comprovados em 300 anos de devoção à Nossa Senhora Aparecida, não se devem a uma simples imagem quebrada, encontrada um dia por pescadores, como eram os apóstolos. Não somos iconoclastas.

Maria, representada por imagens devocionais, não é taumaturga ou deusa milagreira. Tudo se deve a fé de um povo que caminha rumo a Cristo, apoiado a sinais, figuras e sacramentais da vida, por meio daqueles que já O amaram mais. Maria conduz ao Salvador e Senhor. Ou duvidamos que a mãe de Cristo está no céu e que pode rezar por nós pecadores?

Resistência pelos direitos

 

A rigor, a luta por direitos sempre é luta de resistência.
E, em sentido atual… significa angariar forças para imunizar-se
e imunizar a sociedade de posições neoconservadoras,
neonazistas atentatórias à dignidade humana.

 

 O tema é super oportuno e se põe numa conjuntura complexa de retrocessos em vários sentidos. Assim que, compreender o sentido de resistência requer situar-se nestes contextos. Mas também requer perceber os múltiplos sentidos e usos da noção de resistência, na biologia, na física, na história, na geografia, na política, na filosofia…. e também sua raiz etimológica, formada por “re” = de novo + “sistere” = continuar existindo.

Em termos histórico-políticos o uso contemporâneo foi associado ao movimento antinazista, especialmente na França (resistência francesa) – no campo contrário ao dele os colaboracionistas, daí porque, no jargão político, resistência é o movimento que faz oposição a uma proposta, política, governo ou poder considerado ilegítimo e ilegal por ser opressor e totalitário (sendo que aquele que contribui com estes tipos é colaboracionista – no sindicalismo brasileiro estes últimos foram apelidados de “pelegos”).

O sentido político de resistência articula dois aspectos: a oposição – o que significa que nele está contida a ideia de conflito, de divergência, de contradição e também a ideia de posicionamento o que leva à luta (agón) contra determinada posição (o que inclui pelo reverso ser a favor de outra determinada posição). Por outro lado, recolhendo o sentido vindo da biologia (immunitas – imunidade) também tem o sentido político de defesa, de defender-se, de proteger-se – o que novamente requer ler a realidade de modo a identificar oposições e exigir posição.

O modo de resistência pode ser diversificado, sendo que, em termos estruturais, pode ser de ação ou de inação. No caso da ação há um envolvimento direto para promover processos, movimentos, dinâmicas e atuações capazes de incidir sobre os fatores geradores da necessidade de resistência.

Ela pode ser ela direta ou indireta, sutil ou forte, pacífica ou violenta. Inclui perspectivas instituintes e constituintes no sentido de afirmar dimensões utópicas e hererotopicas. No caso da inação há promoção de processos, movimentos e dinâmicas que inibem a ação, que a desinstalem, que a desmontem, que a tornem inoperativa (é o agir para não agir) – uma espécie de puxar para trás com força equivalente ou maior do que aquela a quem se pretende oferecer oposição. Inclui perspectivas destituintes no sentido de afirmar dimensões distópicas.

Em termos ideológico-políticos, a resistência pode ser do tipo progressista ou do tipo conservador. No primeiro caso estará estribada em posições que querem mudanças de tipo reformistas, transformadoras ou revolucionárias; no segundo caso em posições de manutenção (conservadoras) ou de restauração (reacionário). Imagino que aqui nos interessa o tipo progressista de resistência.

As formas históricas de resistência são as mais diversas e se expressão em rebelião, revolução, burla, comédia, escracho, greve, não-violência, desobediência civil ou mesmo até o monasticismo.

No Brasil os escravos desenvolveram diversas formas de resistência. São exemplos o sincretismo religioso, a capoeira, o banzo. Neste último caso, a palavra vem do quimbundo mbanza, que significa “aldeia”), entendida como a “melancolia” dos escravos com saudade” de sua terra – o banzo era uma prática de protesto dos escravos que se traduzia em greve de fome, em sentido mais forte, o suicídio, o aborto, o infanticídio, as fugas e, de modo mais organizado, a formação de quilombos. A desqualificação fez transformar banzo em sinônimo de dengo ou choramingo.

Em suma, resistência exige luta contra práticas e formas de organização do poder que sejam ilegítimas. Também significa organização para defender os direitos diante de práticas e propostas austericidas a aporofóbicas.

A rigor, a luta por direitos sempre é luta de resistência. E, em sentido atual… significa angariar forças para imunizar-se e imunizar a sociedade de posições neoconservadoras, neonazistas atentatórias à dignidade humana; também para enfrentar, pondo-se à frente na frente de propostas e políticas que sejam destrutivas de direitos e acima de tudo, exercer a criatividade ético-política para gestar novas formas de vida, fazendo a vida brotar nas fendas da “terra seca”. Uma cunha numa pequena rachadura pode parecer nada, mas se mantida em perspectiva de resistência pode significar a destruição daquilo a que se oferece como resistência.

Paulo César Carbonari, professor do Instituto Superior de Filosofia Berthier (IFIBE) e militante de direitos humanos no Brasil, faz importantes reflexões sobre o significado da ética em nossa vida cotidiana. Partindo de uma concepção de que somos seres em relação, o professor afirma que a humanidade está nas mãos dos seres humanos. Somos abertos, inconclusos, podemos sempre ser diferentes e mais do que somos. Ao mesmo tempo que pode estar na perspectiva de potencialização e afirmação positiva, a humanidade pode também estar na perspectiva da destruição e dominação de uns sobre os outros.

 

O segredo da resistência é a persistência e a resiliência. Isso tudo para que se possa realizar o que está no radical etimológico da resistência que é insistir para re-existir.

Desconstruindo mitos e idealizações do ser gaúcho

 

 

Decretou-se a morte do gaúcho real e, de suas cinzas,
como uma fênix grega, renasceu o
gaúcho sul-rio-grandense idealizado – romanceado.
Um trabalhador sincero, franco, bondoso, honesto, servil,
ético, patriótico, etc. um exemplo de dedicação ao estancieiro.

 

Na região platina [Rio Grande do Sul, Argentina, Paraguai e Uruguai] um personagem polêmico ocupa lugar de destaque na historiografia sul-rio-grandense contemporânea: o gaúcho-gaucho. De consenso historiográfico, apenas a sua origem: o gaúcho teria se formado do nativo destribalizado, desgarrado, do contato do europeu com o indígena e vagueava pelos campos platinos.

Nos períodos setecentista-oitocentista os trabalhadores do campo eram identificados como peões, cavaleiros, gaúchos, camiluchos, gaudérios, gauchos e changadores e considerados a ralé do Rio da Prata e Brasil. Colonos contrabandistas que comercializavam, ilegalmente, couros de gado.

Os couros eram entregues aos traficantes europeus. Viviam as margens da lei. Homens de má índole. Aproveitavam-se das guerras territoriais fronteiriças entre Portugal e Espanha para pilhar gado nas estâncias portuguesas. A caça ao gado era a principal atividade do gaúcho e lhes rendia algum dinheiro e produtos como a aguardente, garantindo assim, sua sobrevivência e seu modo de vida. Donos de uma liberdade invejável com moral, gosto e costumes irrefreável pela ordem social vigente.

Eram excelentes cavaleiros e se identificavam com o cavalo. O cavalo era sua extensão. Sentia-se um homem superior no lombo de um cavalo. A pé, era “um homem ordinário”. A habilidade no cavalgar estava, em certa medida, definida antes mesmo que o gaúcho tivesse condições de determiná-la. Ainda crianças, essa atividade era o principal meio de sobrevivência dos gaúchos. Manuseavam com maestria a boleadeira, lança, facão e laço. Passavam as noites ao relento e se alimentavam basicamente de carne.

A maioria dos viajantes que estiveram pelo território sul-rio-grandense, no século 19, referem-se aos gaúchos como um ser irresponsável, que não se apegava à família, ao trabalho, era um ladrão de gado e passava a maior parte do tempo nos bolichos-pulperias, bebendo, cantarolando e jogando cartas.

 

Peão de estância

O gaúcho contemporâneo idealizado e materializado no Rio Grande do Sul resulta da unificação dos modos e costumes do peão de estância, trabalhador assalariado, que vendia a sua força de trabalho ao estancieiro, com o gaucho ladrão de gado, contrabandista, sem chefe, sem lei, sem polícia e sem governo.

Os peões de estância eram, na sua grande maioria, nativos guaranis. Devido as suas habilidades na montaria e domesticação do gado, sobretudo, cavalar-muar, eram muito requisitados para trabalho nas Estâncias do Rio Grande do Sul. Eram os trabalhadores das lides do campo, responsáveis pelo amansamento e vigilância dos rebanhos.

Deduz-se nos relatos dos viajantes que estiveram nos territórios do Rio Grande do Sul que os nativos, com a destruição dos sete povos em meados do século 18, acabaram se estabelecendo nas estâncias exercendo o trabalho de peão. Os gaúchos se empregavam esporadicamente como peões de estância, quando estavam sem dinheiro.

Setembrino Dal Bosco, em 2015, lançou livro Escravidão e pastoreio no Rio Grande do Sul 1780-1889. Conheça mais sobre a obra.
Veja mais aqui.

 

O contato dos imigrantes interno e externo com os peões nativos, trabalhadores escravizados e com o gaúcho nas lides campeiras aproximou costumes e modos de vida diferenciados. Os primeiros já domesticados e estabelecidos nos limites da estância. O segundo levando uma vida sem chefes, sem leis e sem polícia, mas com uma habilidade enorme em laçar, caçar, courear, cavalgar, arrebanhar, vigiar etc., permitindo a apropriação por parte dos peões das qualidades dos gaúchos.

 

O mito do bom gaúcho

Possivelmente, o mito do bom gaúcho tenha surgido de uma forma paralela e concomitante, acompanhando a evolução de outro mito da historiografia sul-rio-grandense: a democracia pastoril.

De uma maneira geral, a historiografia tradicional do Rio Grande do Sul apresenta uma sociedade homogeneizada, onde a atividade pastoril imprime traços característicos especiais ao gaúcho, de simplicidade e igualdade. Onde todos cultivam os mesmo ideais, hábitos e costumes. Em um ambiente que não tem diferenças sociais, o esforço é o trabalho comum entre latifundiários e seus servidores. Gerando homens leais e corajosos, dispostos a qualquer ato de heroísmo ou bravura pelo bem comum.

No contexto do desenvolvimento da sociedade pastoril latifundiária do século 19, onde o fazendeiro, dono da estância, era, de acordo com o mito da democracia pastoril, benevolente até mesmo com seus trabalhadores escravizados, aos poucos, de uma forma lenta e gradual, o mito ideológico do bom gaúcho foi sendo construído, desconsiderando as características do gaúcho histórico, suprimindo os seus defeitos e preservando as suas qualidades.

Decretou-se a morte do gaúcho real e, de suas cinzas, como uma fênix grega, renasceu o gaúcho sul-rio-grandense idealizado – romanceado. Um trabalhador sincero, franco, bondoso, honesto, servil, ético, patriótico, etc. um exemplo de dedicação ao estancieiro.

 

O gaúcho idealizado

O gaúcho apareceu, na sua feição primitiva, em terras do rio da Prata. E começou a esboçar-se, como tipo social, a partir de 1536, data da primeira fundação de Buenos Aires. Apesar de existirem traços comuns entre os gaúchos que vagueavam na região platina, como o cavalo e o boi; a carne assada e o mate amargo; o couro e o sebo; o luxo dos aperos e outros apetrechos de montaria; indumentárias de uso comum – chiripá; armas – a faca, a lança e as boleadeiras – etc., a historiografia tradicional sul-rio-grandense defendeu, e defende com unhas e dentes, que naquela região existiriam três tipos de gaúchos: o argentino, o uruguaio e o rio-grandense.

Escorando-se no mito da democracia pastoril, a figura do bom gaúcho sul-rio-grandense começou a ser construída na literatura romântica, em 1868, tendo o jornalista e professor Apolinário Porto Alegre como um dos principais construtores desse mito. Apolinário foi um personagem atuante na literatura sul-rio-grandense do século 19. Foi poeta, contista, romancista, dramaturgo, ensaísta, pesquisador, crítico literário etc., e um dos principais fundadores do Partenon Literário.

O Paternon literário foi fundado em 1868 por literatos liberais, republicanos e abolicionistas de Porto Alegre, entre eles Apolinário Porto Alegre e o romancista Caldre e Fião, com o objetivo de agregar intelectuais para discutir filosofia, política, cultura e comportamento e sociedade.

A tese orientadora do “bom gaúcho” provavelmente tem origem nas elaborações do tradicionalista Antônio Augusto Fagundes, por volta de 1940, que escreveu sobre os hábitos e costumes diferenciados dos gaúchos sul-rio-grandenses, em relação aos diferentes tipos de gaúchos que vagueavam pelos campos da região platina.

O eixo central das elaborações apresenta o gaúcho dos pampas do Rio Grande do Sul como um homem honrado, destemido, bondoso, valente, franco, defensor da pátria, honesto, etc. Ataca ferozmente a visão pangauchista e, sobretudo, os historiadores que andam em busca do gaúcho real.

 

Sem chefes, sem lei, sem polícia

Enquanto os gaúchos da banda de cá eram enaltecidos pelos literatos sul-rio-grandenses como sinônimo de liberdade, honradez, valentia, bravura, hospitaleiros, responsáveis, honrados, violentos apenas quando “lhe pisavam no poncho”, o gaucho da banda de lá – Argentina, Uruguai e Paraguai – eram estereotipados como selvagens, violentos, assassinos, ladrões de gado, saqueadores, mulherengos, bêbados, jogadores, irresponsáveis etc. apesar de que, na sua origem, possuíssem as mesmas características.

Os gaúchos construíram um modo de vida próprio, um grupo social que vivia sem chefes, sem leis, sem polícia. A desobediência dos gaúchos das normas e regulamentações vigentes, sua relutância em se estabelecer definitivamente, despertou nos estancieiros da região platina, à vontade de enquadrá-los no modelo de organização social existente. Os estancieiros na tentativa de refrear o modo de vida dos gaúchos impunham regramentos inócuos, sem efeito prático, aos bolicheiros, como fechar o estabelecimento aos domingos, proibição dos jogos de cartas, da venda de bebidas alcoólicas.

 

Gaúchos diversos e difusos

Na tentativa de encontrar uma justificação plausível para diferenciar o bom gaúcho sul-rio-grandense do mau gaúcho que vagueava pelos pampas da Argentina, Uruguai e Paraguai, criou-se um processo evolutivo de gaúcho: gaudérios, guaso, gaucho, gaúcho. A figura do pré-gaúcho exerceu importante papel na construção do mito do bom gaúcho. No começo o conceito gaúcho era muito vago. Por ser vago açambarcava todos os errantes e vagos dos pampas platinos – gaudérios, changadores, guapos, gaúcho malo, gauchos e gaúchos – sob sua guarda. Em regra, os adjetivos que acompanhavam o personagem eram depreciativos.

No entanto, nos relatos dos viajantes que aqui estiveram, e presenciaram in loco o modo de vida daquele ser de disposições taciturnas e apáticas, todos eram nascidos na região platina, tocavam muito mal uma guitarra, cantavam desafinadamente, caçavam gado com suas boleadeiras e lanças, comiam carne assada, dormiam ao relento, eram bons cavaleiros, usavam botas, esporas de latão, sombrero, poncho, chiripá, ganhavam dinheiro com o contrabando de couro, não tinham patrão, não trabalhavam a terra, não sabiam o que era governo, freqüentavam bolichos-pulperias onde jogavam, bebiam aguardente e se divertiam com as mulheres.

A historiografia tradicional sul-rio-grandense tratou de diferenciar cada um deles. Os de boa índole, os bons, habitavam única e exclusivamente os pampas do Rio Grande do Sul. Os de má índole, os maus e os feios – gaudério, guapo, gaúcho malo, gaúcho etc. – habitavam os territórios pampeanos do Paraguai, Uruguai e Argentina.

Utilizando este expediente, sem sequer ficarem enrubescidos, nossos historiadores tradicionais determinaram que o gaúcho violento, mau caráter, ladrão de gado, eterno inimigo da sociedade, indomável, aventureiro, jogador. etc. pertencia às populações castelhanas. Por outro lado, o gaúcho do Rio Grande do Sul era sóbrio e ordeiro. Um exemplo!

 

Todos gaúchos platinos

Apesar dos criadores do mito do bom gaúcho sul-rio-grandense terem e continuarem se esforçando ao máximo para tentar sustentar a surrada tese, justificando esta tentativa de diferenciação em gaúchos diversos e difusos como gaudério, guapo, gaúcho malo, todos adjetivos que identificam o gaúcho da banda de lá, ou seja, o mau gaúcho, criando, inclusive, numa concepção darwinista, a existência do pré-gaúcho, não há mais espaço para negar que o gaúcho do Rio Grande do Sul era o mesmo gaucho da região platina.

O gaúcho real morreu com o cercamento dos campos em 1870. A cerca transformou o gaúcho em invasor. O roubo do gado, que nas palavras do viajante francês August Saint-Hilaire, que esteve nos pampas do RS em 1820, era considerado como “cousa legítima”, passou a ser tratado como crime de abigeato passível de condenação pela justiça. O gaúcho ultrapassava a cerca, caçava o gado e era preso e condenado.

Aos poucos, com a evolução da atividade pastoril latifundiária na região do Prata, a estância foi engolindo o gaúcho real, reduzindo seu espaço vitalício, demarcando os pampas sul-rio-grandense e platino e, o seu lugar foi tomado pelo peão de estância, que possuía algumas características dos gaúchos como agilidade no laço, bons nas lides campeiras e no cavalo mas que não era o gaúcho histórico, pois o peão de estância aceitava de uma forma passiva e submissa a exploração da sua força de trabalho pelo latifundiário.

Acordo historiográfico há quando se trata da origem do gaúcho. Não há acordo quando se trata da possível diferenciação existente entre as características do gaúcho da região platina com o gaúcho do Rio Grande do Sul. O gaúcho – gaúcho era o ser errante e vago que, no lombo de um cavalo, portando apenas suas armas para caçar e se defender, campeava pelos campos da região do Prata tendo uma vastidão ao seu alcance. E as autoridades do Rio Grande do Sul insistem em enaltecer, anualmente, em setembro, durante a Semana Farroupilha, a eternização do mito.

 

Referências

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Veja também