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Crenças do estudante de filosofia

O mais difícil para o estudante de filosofia é esse passo:
saber que só vai poder ser filósofo se puder se perder
e se reconstruir de modo tão incansável que corre
o risco de ver sua vida entrar em pane.

 

Há uma esperança matreira na cabeça de muitos estudantes de filosofia. Eles imaginam que podem entrar num curso de filosofia e saírem sabendo mais e, no entanto, com a mesma identidade. Ora, até podem, mas se isso acontece, não entraram num curso de filosofia, mas em um bacharelado de um algum saber de ordem não filosófica.

A filosofia obriga à troca de identidade.

A filosofia, disse Platão, é um saber morrer. Entrar no curso de filosofia e realmente cursá-lo, é um aprendizado para a morte que, enfim, em algum nível deve ocorrer realmente. A pessoa que efetivamente faz o curso de filosofia sai como outro. O anterior, o que entrou, realmente morre. A filosofia obriga a essa passagem, a essa troca de identidade, a essa, digamos, conversão. Conversão à doutrina dos homens e mulheres sem guardas.

O trabalho do filosofar não se faz sem o trabalho de adentrar o pensamento de alguns filósofos. Essa entrada é uma armadilha. Entramos no pensamento de filósofos consagrados, mas então percebemos que só podemos assim realmente fazer se deixarmos as coisas se inverterem: é o filósofo que adentra em nós e nos utiliza para voltar a pensar. Perdemos nossa identidade nisso.

Quando voltamos a nós mesmos, não temos mais nenhuma garantia de que somos nós mesmos. O processo de quatro anos de filosofia em uma boa escola é desse tipo, uma contínua abertura de alma de modo que, ao final, não fazemos mais ideia de quem éramos quando demos os primeiros passos.

Acreditamos e desacreditamos. Utilizamos pensamentos que execrávamos. Viemos a amar filósofos que não conhecíamos, e outros que arrependemos amargamente de amar. Em geral, estes que nos deram arrependimento, são os que ainda amamos.

“Só tem rumo o jovem filósofo que não é filósofo […]”

Ao final de quatro anos, somos alguma coisa suada, cansada, renascida. Alguma coisa sem rumo. Só tem rumo o jovem filósofo que não é filósofo, mas apenas um filisteu da cultura procurando bolsa de estudos. O que realmente fez o curso de filosofia pode procurar o mestrado, mas está de pernas bambas, atordoado por excesso de consciência.

Por isso o curso de filosofia implica em inteligência e certa ingenuidade. Não coragem, e sim ingenuidade. Devemos ser suficientemente tolos para nele estar e nos deixar levar por seres de outro mundo que querem adentrar nosso cérebro. Temos de ser suficientemente tolos, talvez volúveis, para na hora em que estamos já casados com um filósofo, o deixemos de lado para traí-lo com outro.

A filosofia é, em seu aprendizado básico, um jogo de traições, de amores desfeitos e de busca do sangue da virgem. A filosofia tem algo de vampirismo. Não se faz filosofia com militância e juras de amor eterno que podem ser confiáveis. Militantes eternos são energúmenos eternos.

“No máximo será bolsista.”

O mais difícil para o estudante de filosofia é esse passo: saber que só vai poder ser filósofo se puder se perder e se reconstruir de modo tão incansável que corre o risco de ver sua vida entrar em pane. Por isso, quando algum aluno diz que pode entender a aula, mas continua com as suas crenças, eu sei que ele não será filósofo. No máximo será bolsista.

Ética, alimentação e espiritualidade

A comensalidade, comer juntos, é um ato humano ético e espiritual.
Não basta comer e comer sem vítimas, é bom comer com o outro, festejar,
banquetear, conversar, reunir e pacificar os espíritos ao redor da mesa.

 

Apresento-vos temas em forma de teses. Progressivas, traçam conexões entre si, como num grande mosaico que envolve os desafios da ética, alimentação e espiritualidade.

 

Ética e moral

Primeiramente faz-se necessário uma distinção importante entre Ética e moral. Ética e moral não são sinônimos. Moral é o que uma cultura, uma tradição, um povo considera correto e bom. Moral é relativa e particular, ancorando-se e expressando-se nos hábitos e nos costumes. Ética pretende ser imparcial, universal e crítica. Crítica no sentido de ser ciência da moral e, enquanto tal, capaz de legitimar e fundamentar normas morais vigentes em uma determinada comunidade histórica, ou deslegitimá-las. Enquanto universal não depende de hábitos e costumes particulares das culturas, mas se sustenta com pretensão de validade para todos.

A moral é, portanto, do âmbito do ser, a ética é do âmbito do dever ser.

O que é bom, eticamente falando, é bom sempre e em todos os lugares e o que não é bom o é da mesma forma. Exemplificando: mesmo que dependa de contextos, torturar nunca será bom, muito menos torturar crianças por exemplo. A moral é, portanto, do âmbito do ser, a ética é do âmbito do dever ser. Enquanto imparcial a ética não depende do grau de poder político, religioso e econômico do agente moral. Isso também vale para os hábitos e costumes alimentares, como veremos.

 

O outro no face a face

A necessidade não conhece lei, nem positiva nem ética.

A ética começa lá onde o outro se apresenta e reclama reconhecimento, respeito, ou simplesmente nos convoca a justiça e direitos com a sua face e olhar. Onde houver o face a face e olhar, aí entra a ética. O outro, por si só, lança-me um apelo ético de justiça e de trato igual ao que considero bom para mim. Não devo fazer ao outro, mesmo que possa, o que não gostaria que me fizesse. A ética se faz urgente e ainda mais pertinente quanto o outro, no face a face e olhar, torna-se vítima contra sua vontade. Sem vítimas não há problema ético. E mais, são as vítimas que julgam se uma ação é ou não ética.

Os usurpadores, os corruptos e os violentadores sempre encontrarão justificativas para suas ações. Aliado a isso associa-se a ideia de consciência e liberdade como condições da ética. Onde impera a necessidade, não há certo ou errado, bom ou mau. A necessidade não conhece lei, nem positiva nem ética.

A ética pressupõe consciência e liberdade. Só há uma questão ética quando estamos diante de possibilidades e condições de dizer não. Ética é, pois, opção. Podemos ser ou não ser éticos; não somos obrigados a ser. Ninguém é obrigado a ser ético. Mas para o nosso bem e dos outros, melhor seria que o fôssemos.

 

Evolução moral e a ética

A ética colabora na evolução da moral. O nosso senso do certo e do errado evolui. O nosso senso de valor e de juízo ético evolui também. Nós evoluímos, por exemplo, no reconhecimento e na ampliação do círculo de inclusão do outro e no reconhecimento do outro como vítima e, por consequência, no reconhecimento da impossibilidade de justificação ética de práticas que historicamente foram consideradas como morais. Escravidão, submissão da mulher pelo homem são exemplo disso.

A consciência moral, também, precisa passar por revisão.

Perdemos a inocência em relação ao mal que causamos aos negros e às mulheres na tradição. Se o racismo e o sexismo já foram aceitos e moralmente tolerados, já não podem mais ser. Se, por acaso ainda houver gente que acha que há superioridade e inferioridade natural por conta da cor da pele e do sexo, precisa passar urgentemente por uma revisão intelectual e moral. Na prática, sabemos que não há só carros e motos que precisam passar por revisão. A consciência moral, também, precisa passar por revisão. E quando fazemos isso, estamos fazendo ética, ciência da moral.

 

Ética na alimentação

Estamos, agora, a um passo de perder a inocência alimentar, inocência no prato. O prato e o que entra nele é algo tão natural que, raramente, e poucos se interrogam, seriamente, quanto à necessidade de pensar e escolher consciente e responsavelmente o que se come. O ato de comer é um ato ético, ou anti-ético. É um ato ético sempre que nele entra o outro reconhecido como outro, respeitado como outro em seus direitos, e anti-ético quando negamos a alteridade do outro enquanto outro.

 

Os animais como “os outros”

De forma direta e sem rodeios, pressupondo já conhecimento de vocês, a comida, a alimentação que inclui dieta animalizada (ovos, leite, carnes e seus derivados) precisa ser confrontada com o juízo de valor: é certo, é justo, é bom?

Não se pergunta se é agradável, se é prazeroso, se é delicioso. A questão não é de gosto, ou de estética, é de ética.

A pergunta que pode ser feita é: é possível se alimentar bem, sem vítimas inocentes como são os animais? Se sim, então por que não?

A decisão ancorada na consciência livre é uma decisão, não somente do âmbito da saúde física, mas da saúde mental, psíquica, espiritual e ética. Aqui a conversa poderia ir longe, evidentemente. Tanto do lado do reconhecimento da enorme crueldade que nós humanos cometemos, imponto sofrimentos bárbaros aos animais no processo de produção, no manejo e na morte, quanto da já plena condição de vivermos muito bem de saúde e até melhor, sem a dieta animalizada. Além da questão ecológica propriamente dita. Quanto a isso, parece não haver contestação teórica, mas tão somente hesitação e resistência a mudar de hábitos.

 

Peter Albert David Singer (Melbourne, 6 de julho de 1946) é um filósofo e professor australiano. É professor na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. Neste vídeo, faz uma grande reflexão sobre a relação humana e os demais seres vivos.

 

 

Alimentação e comensalidade

De passagem, mas não sem importância, é bom lembrar que deveríamos sempre associar a alimentação à comensalidade. Alimentar-se tem um caráter ético pelo que vai no prato, o que comemos e o que não deveríamos comer, mas também é um ato ético e espiritual pela forma como comemos. Alimentar-se é um ato biológico solitário, ninguém mastiga por você, ninguém faz a digestão por você etc.

A comensalidade, comer juntos, por sua vez é um ato humano ético e espiritual. Não basta comer e comer sem vítimas, é bom comer com o outro, festejar, banquetear, conversar, reunir e pacificar os espíritos ao redor da mesa.

A vida nos separa, nos faz competitivos, nos faz até violentos, mas na mesa nos reunimos na paz. Que só é tal se for fruto da justiça, claro. A questão a ser pensada aqui seria a quantas anda a nossa comensalidade. Comemos ao redor da mesa? Com a família, com os amigos, ou sozinhos e com estranhos? Quanto tempo reservamos para a comensalidade diária? O que falamos à mesa? Como espiritualizamos esse ato? Ou fazemos tudo mecanicamente e sem peso e importância?

 

Espiritualidade e alimentação

Talvez seja oportuno acrescentar à ideia da comensalidade que, em si mesma já porta uma dimensão espiritual, a ideia de que alimentar-se sob um horizonte espiritual do bem significará, no mínimo, prestar atenção para três atitudes básicas espirituais: a gratidão, o perdão e a solidariedade.

 

Gratidão

Raramente, somos os produtores do que comemos e nos alimentamos. A fase industrial da produção de bens de consumo, inclusive a alimentar, na sua divisão social do trabalho, nos faz a todos devedores e gratos uns dos outros. Temos alimentos na mesa, fruto do trabalho coletivo da humanidade. A gratidão é o reconhecimento da graça em ação. Não há mérito, ou pouco mérito. Há graça pela ação de Deus, quem acredita, ou pela ação da natureza generosa misturada com a ação de incontáveis mãos que possibilitam o alimento chegar até o nosso prato.

Deveríamos fazer uma profunda genuflexão e uma reverência diante de um prato de comida. O arroz, o feijão, o soja, as verduras, os legumes, as frutas, os grãos, as raízes, o pão… tudo o que comemos passou por mãos generosas e pelo suor do outro. Reconhecer a graça e o dom generoso dos outros e da natureza é sinal de saúde mental e espiritual.

 

Documentário “A carne é fraca”, do Instituto Nina Rosa, sobre o impacto do consumo de carnes nas pessoas e na natureza. O Trivial Gourmet é um programa de televisão sobre reeducação alimentar, que trabalha estes conceitos de forma lúdica durante o preparo de receitas lacto-vegetarianas ou vegetarianas restritas (veganas).

 

 

Perdão

A experiência do perdão é algo da essência mesma da religião. Mas não só, é da essência do próprio humano, falível que é. O mal, que a narrativa bíblica chama de pecado, atinge a todos, mesmo que em níveis e proporções desiguais. Diante do prato, somos todos pecadores, devedores.

Mesmo os que não se alimentam de produtos animalizados, todos participamos de um mal, mesmo que sutil.

Se comemos soja, arroz, feijão, frutas em geral, legumes, verduras, raízes, de onde vêm esses produtos? Quem os produziu? Em que condições? Quanta exploração humana e, até animal, há nos produtos que nos alimentamos?

Às vezes, sem saber, podemos consumir produtos, fruto de escravidão e, se forem alimentos animalizados, imagine o processo de criação-produção, manejo e morte dos animais implicados nesse processo, inclusive dos animais humanos que são submetidos a processos de insensibilização diante do sofrimento e mortandade permanentes.

Em qualquer produto de consumo, imagine a deterioração da natureza, o uso de agrotóxicos, pesticidas que degradam e deterioram a natureza. Não há inocentes diante de um prato.

A atitude de perdão-penitência só pode ser efetiva se, acompanhada de informação, conhecimento e compreensão da dinâmica do sistema de produção, transporte e comercialização-distribuição da qual participamos e colaboramos na reprodução sempre que, na ponta da cadeia, compramos e consumimos. Sem pensar na saúde-doença por causa das escolhas erradas na alimentação. Somos culpados, em parte, pelas próprias doenças que contraímos no consumo de alimentação errada… Ao lado de famintos, há muitos obesos!

 

Solidariedade

A espiritualidade se une à alimentação e à comensalidade, porque é bom que todos tenham de comer. E nem todos têm o que comer! A seguridade alimentar de qualidade é privilégio de alguns, não é ainda direito de fato a todos. É necessário continuar insistindo que a paz e um mundo não-violento só é possível e efetivo com justiça. Justiça é uma das palavras mais pronunciadas e menos realizada. Mas, nem por isso, devemos baixar a guarda na busca da Justiça.

Até que a justiça não se concretize, pelo menos, pratiquemos a solidariedade com os desafortunados e injustiçados.

Mas, não só. Penso que também podemos estender a solidariedade como nota da espiritualidade para os produtores de produtos orgânicos e com sustentabilidade comprovada. A toda forma cooperativada de produção e distribuição menos agressiva e não-violenta. E a toda forma de produção ecologicamente correta, por que não? Para isso, um longo caminho de educação e informação terá que ser percorrido.

 

 

Papa Francisco na Laudato Si’ nos recorda que pensar ecologicamente é pensar integralmente. Tudo está conectado e interligado. Ele dizia em relação à crise social e à crise ambiental. Se há uma crise ambiental essa crise não está dissociada da crise maior que afeta os pobres por um sistema de produção e consumo desumano de exclusão e de morte. Nós, aqui, poderíamos dizer que tudo está interligado na tríplice relação ética, alimentação e espiritualidade.

E o que une e unifica essas três dimensões, ética, alimentação e espiritualidade é uma atitude redentora que nós chamamos de cuidado.

O cuidado é uma dimensão unificadora. Há de haver uma ética do cuidado, uma alimentação cuidadosa e uma espiritualidade do cuidado.

Então, gostaria de encerrar evocando um mito antigo, uma lenda, que dá o que pensar. O filósofo Heidegger resgatou esse mito no seu clássico livro o Ser e o Tempo e Leonardo Boff muito bem o tratou no livro “Saber Cuidar”. O mito diz:

“Um dia, quando Cuidado pensativamente atravessava um rio, ela resolveu apanhar um pouco de barro e começar a moldar um ser, que ao final apresentou a forma humana. Enquanto olhava para sua obra e avaliava o que tinha feito, Júpiter se aproximou. Cuidado pediu então a ele, para dar o espírito da vida para aquele ser, no que Júpiter prontamente a atendeu. Cuidado, satisfeita, quis dar um nome àquele ser, mas Júpiter, orgulhoso, disse que o seu nome é que deveria ser dado a ele. Enquanto Cuidado e Júpiter discutiam, Terra surge e lembra que ela é quem deveria dar um nome àquele ser, já que ele tinha sido feito da matéria de seu próprio corpo—o barro. Finalmente, para resolver a questão os três disputantes aceitaram Saturno como juiz. Saturno decidiu, em seu senso de justiça, que Júpiter, quem deu o espírito ao ser, receberia de volta sua alma depois da morte; Terra, como havia dado a própria substância para o corpo dele, o receberia de volta quando morresse. Mas, ainda disse Saturno, “já que Cuidado antecedeu a Júpiter e à Terra e lhe deu a forma humana, que ela lhe dê assistência: que o acompanhe, conserve sua vida e lhe dê o apoio enquanto ele viver. Quanto ao nome, ele será chamado Homo (o nome em latim para Homem), já que ele foi feito do humus da terra”.

O tatu filosofante

Quando o tatu acordou,
descobriu que podia viver sem tudo,
menos sem os sonhos.
Pois um homem sem sonhos não existe.
Foi a partir daquele sonho que o tatu reiniciou a sua vida.

 

O tatu resolveu mudar de casa, mudar de nome, mudar de emprego, mudar de cor, mudar de raça, mudar os sonhos, mudar de roupa, e mudar de problemas. Juntou tudo e colocou na lata do lixo. Lá se foi o tatu sem endereço, sem nome, sem cor, sem raça, sem sonhos, sem roupa e sem problemas. No começo foi bom, mas depois a coisa começou a complicar.

O tatu não sabia contar dinheiro, pois tinha jogado no lixo tudo o que sabia. Para comprar um pão pagou um milhão.

O tatu não sabia do seu nome, pois o tinha jogado no lixo. No lugar de assinar o nome colocou: “Não sei meu nome, não.”

O tatu não sabia o que fazer, pois tinha esquecido a sua profissão. E sem profissão seu dinheiro logo acabou, pois também não sabia contar dinheiro e o desperdiçava de montão.

O tatu não sabia pra onde ir, pois tinha jogado no lixo o endereço da sua casa. Ficou vagando nas ruas, perdido, no meio do tempo.

O tatu sem cor passava despercebido por toda gente. E aquilo não o agradava coisa nenhuma.

O tatu sem raça não sabia sua origem e como contar ao povo de onde tinha vindo?

Ainda bem que o tatu não tinha cor, pois andava nu, envergonhado.

O melhor de tudo foi esquecer dos problemas! Tirou um peso das suas costas. Não precisava mais se preocupar com nada. Mas por isso mesmo com o tempo o tatu descobriu que não se preocupar com nada era um problema e tanto. Começou a inventar problemas: como fazer uma casa para morar, comprar roupas para vestir, aprender a assinar o nome, saber contar dinheiro e descobrir sua raça.

O tatu há muito não dormia, pois não queria mais sonhos. Mas descobriu que a vida sem sonhos não tem graça. Era um sujeito sem casa, sem nome, sem roupa, sem problemas, sem saber. Mas sem sonhos, para que viver?

Certo dia, o tatu resolveu dormir e sonhou que era um tatu chamado Janibal, morava numa casa amarela perto do rio, vestia camisas e calçava botas de couro, era sapateiro e tinha muitos problemas. Mas aquele não era ele! Era um outro tatu.

Quando o tatu acordou, descobriu que podia viver sem tudo, menos sem os sonhos. Pois um homem sem sonhos não existe. Foi a partir daquele sonho que o tatu reiniciou a sua vida.

 

Causo de caça de um tatu canastra no Rio Grande do Sul.

 

 

Deforma da Previdência sob a ótica das mulheres

 

Dia 15 de março eu fui pra rua protesta contra a reforma da previdência.
Em vez de reclamar de um dia sem ônibus,
prefiro reclamar dos 20 anos a mais que terei de contribuir.
Em vez de reclamar do trânsito parado pela manifestação,
agradeço aos que lutam para que eu consiga me aposentar antes dos 70.

 

Quando a gente é jovem não tende a pensar muito sobre aposentadoria, pois é algo que parece muito distante do que ainda temos para viver. Por sua vez, essa distância está prestes a se tornar ainda maior. A proposta feita pelo governo federal e propagandeada como uma ótima saída para “consertar o rombo da previdência” se mostrou um ataque sem precedentes à classe trabalhadora.

Podemos dizer tranquilamente que a PEC 287/2016 tem como principal objetivo restringir e até impedir a aposentadoria das trabalhadoras e trabalhadores brasileiros. Digo isso porque caso a Reforma passe valer, a idade mínima de aposentadoria aumentará para 65 anos tanto para homens quanto para mulheres.

Quem sentirá ainda mais a nova medida, serão as trabalhadoras mulheres, que enfrentam dupla e até tripla jornada de trabalho. As professoras então, que deixam de contar com aposentadoria especial, podem ter que aumentar em até 20 anos o período trabalhado para poder se aposentar.

Reforma da Previdência impede professor de se aposentar.

 

O tempo mínimo de contribuição sobe para 25 anos e para conseguir receber uma aposentadoria integral, será preciso trabalhar 49 anos. O governo ainda pretende aumentar a contribuição previdenciária de 11% para 14% no caso dos servidores federais, regra que também deve se estender aos servidores estaduais (conforme acordo fechado entre Temer e governadores).

Sem contar os outros ataques que atingem diretamente os trabalhadores, como o fim do regime especial para professores e policiais civis, o aumento de 65 anos para 70 anos aos idosos e deficientes de baixa renda que contam com benefício do governo.

 

 

As mulheres trabalhadoras rurais também serão duramente atingidas pela Reforma da Previdência do Governo Temer. Em uma entrevista, uma mulher agricultora convidou os senhores deputados e senadores para ficarem um mês numa propriedade familiar para experimentar a dura realidade das mulheres trabalhadoras rurais.

 

Quem recebe pensão por morte ou quem precisar deste benefício também será lesado, já que de acordo com a nova proposta do governo a pensão por morte deixa de se integral, sendo reduzida para metade do valor, mais 10% para cada dependente menor de idade.

Novamente as mais prejudicadas são as mulheres, já que os pensionistas são predominantemente mulheres, que na maioria das vezes sobrevivem somente desta renda. Como se não bastasse, será desvinculada do reajuste do salário-mínimo, que permite ganho real.

No dia 15 de março de 2017 milhares foram às ruas em todo o país para gritar NÃO para essa reforma. Aqui em Passo Fundo, RS, a maioria das pessoas sequer quis ouvir as reivindicações da mobilização. Sequer quiseram se inteirar sobre essa “deforma” que vai interferir na vida de todo trabalhador. Todo mesmo, desde o que ganha o salário-mínimo até o que acha que pertence à elite social. Todo e qualquer trabalhador que depender da previdência será direta e duramente atingido por essa reforma.

A analogia feita nas redes sociais, infelizmente, cai bem quando compara a Reforma com a lei que ficou conhecida como “gargalhada nacional”. Promulgada no tempo da escravidão, libertava os escravos sexagenários e ficou conhecida assim porque quase nenhum escravo sobrevivia aos 65 anos de idade.

Dia 15 eu fui pra rua, em vez de reclamar de um dia sem ônibus, prefiro reclamar dos 20 anos a mais que terei de contribuir. Em vez de reclamar do trânsito parado pela manifestação, agradeço aos que lutam para que eu consiga me aposentar antes dos 70.

Eu sou mulher, sou resistência, contra a reforma da previdência.

 

 

 

 

Saci-Pererê: um dos mais importantes mitos brasileiros

Mentira ou verdade, Saci-Pererê representa o espírito
de liberdade, paz força e espontaneidade do povo brasileiro.
Antes festas em homenagem ao Saci para resgatar a fantasia da criançada do Brasil,
ao invés de copiar os estrangeirismos que manipulam as crianças e os jovens.

 

Os mitos e lendas são parte importante do folclore linguístico e literário de um povo. Comemorá-los, estudá-los e entender suas significações são fundamentais ao entendimento da história, da alma e da identidade brasileira.

Saci-Pererê, o mais simpático dos mitos brasileiros, surge como contraponto aos monstrengos internacionais, como os contidos no Halloween, tanto é que a cada dia 31 de outubro foi criado o Dia do Saci e seus amigos.

O escritor Monteiro Lobato foi, dentre outros escritores e estudiosos, um dos pioneiros no resgate do folclore literário brasileiro.

Eládio Wilmar Weschenfelder, homenageado como agente cultural, lembra que Monteiro Lobato tinha convicção de que um país se faz com “homens e livros”. “Um país se faz com homens, mulheres, crianças, livros e leitores”. Eládio disse ainda que num país desigual como o nosso, além da falta de acesso aos meios como a terra, aos alimentos, à dignidade, à saúde, não existe também o acesso aos livros à nossa população, pois bibliotecas não estão abertas ou nem existem em muitos lugares e cidades.
Veja a reportagem completa aqui.

 

Em 1917 procedeu a uma consulta popular através de cartas, nas quais solicitava aos leitores do jornal O Estado de São Paulo, relatos e experiências com o simpático, travesso e moleque de uma perna só. Com a riqueza das informações recebidas, publicou a obra O Saci-Pererê: resultado de um inquérito.

Anos mais tarde, Pedrinho, já no sítio de Dona Benta, movido pela curiosidade, ouvirá da boca do Tio Barnabé, que tinha mais de oitenta anos, os relatos de que viu o Saci quando menino, ainda no tempo da escravidão, na fazenda de Passo Fundo.

Quem não conhece a obra lobatiana O Saci, que teve as primeiras edições publicadas pela Companhia Editora Nacional! Por sua vez, também o estudioso Câmara Cascudo teve como objeto de estudo o mito do Saci, sendo que o tema, a partir de então, rendeu uma série de livros, teses, filmes e artigos na imprensa.

 

 

Contamos para vocês como surgiu o Saci Pererê, sua lenda e história. Divirta-se com esse novo personagem do programa Que Legal! Vídeo

 

Fisicamente, Saci é um menino afro-descendente que só tem uma perna, usa carapuça vermelha, leva na boca um cachimbo aceso e tem um furo na mão.

Psicologicamente, Saci é um ente livre e que, por isso, vive fazendo artes do tipo: azeda o leite, quebra a ponta das agulhas, embaraça os novelos de linha, esconde as tesouras, coloca sujeirinhas na comida, gora os ovos, vira os pregos para cima, atropela as galinhas, espanta os cavalos. Enfim, diz Tio Barnabé: “O Saci não faz maldade grande, mas não há maldade que não faça”.

Sendo um menino livre da escravidão negra no Brasil, Saci, para ter visualidade, apronta, como todo garoto, suas artes. No entanto, é especial, pois fruto da brutalidade, perdeu uma perna, significando que e a escravidão foi feroz também com as crianças afro-descendentes.

Seu cachimbo incorpora a tradição indígena, pois seus caciques selavam acordos, fumando o “cachimbo da paz”. Usa a carapuça vermelha, visto que assimilou, em parte, a cultura europeia, lembrando os imigrantes europeus e emblemas da liberdade na Roma antiga. Lembra também o barrete (gorro) adotado pelos camponeses ibéricos e os republicanos após a Revolução Francesa de 1789, assim como a força de Sansão que estava nos cabelos. Tem um furo na mão para fazer mágicas com as brasinhas acesas, as quais também sevem para acender o cachimbo.  Portanto, estão presentes no Saci as características dos três povos que deram origem ao povo brasileiro: os índios, os afro-descendentes e os europeus.

Mentira ou verdade, Saci-Pererê representa o espírito de liberdade, paz força e espontaneidade do povo brasileiro, juntamente com seus comparsas da boa fantasia: Boitatá, Caipora, Cuca, Negrinho do Pastoreio e tantos outros.

Antes festas em homenagem ao Saci para resgatar a fantasia da criançada do Brasil, ao invés de copiar os estrangeirismos que manipulam as crianças e os jovens. Deu pra ti, Halloween. Viva o Saci-Pererê!

 

Alegria e tristeza: dimensões da existência humana

A frustração e a tristeza são elementos constitutivos inevitáveis da existência
e condições de possibilidade para a percepção da felicidade.
A existência humana sempre está acompanhada de tristeza e de alegria,
sendo que é possível perceber com maior ênfase uma das dimensões.

 

 

O aumento no consumo de substâncias que atuam no sistema nervoso central, caso dos psicofármacos, atende a razões cuja investigação é de grande relevância. As influências da ingestão química no funcionamento da percepção são complexas e devem ser cuidadosamente avaliadas, visto que as percepções das situações de vida contemporânea, independentemente de intervenções químicas na mente, podem ser entendidas como sofrimento ou como oportunidade.

A existência humana sempre está acompanhada de tristeza e de alegria, sendo que é possível perceber com maior ênfase uma das dimensões. No entanto, não é possível perceber adequadamente uma sem ter consciência da existência da outra.

Os cuidados na promoção da saúde mental podem ser entendidos como um exercício relevante na ampliação dos espaços de intervenção da psicologia. Os méritos desta intervenção podem ser visualizados nos conceitos de cuidado e de promoção da saúde.

O significativo aumento da patologização e dos tratamentos químicos de sintomas podem ser um indicativo não explícito do confronto entre os interesses dos indivíduos na própria saúde e os interesses do conjunto de empresas envolvidas com a fabricação e comercialização de psicofármacos.

A explicitação e a mediação dos interesses diversos, que envolvem as partes desta relação, é um campo fértil para a atuação da ciência que trata da mente.

De acordo com a análise de Zygmunt Bauman, o modo de vida no atual modelo de sociedade é precário, vivido em condições de incerteza e falta de segurança. Com um alto índice de violência e a aceleração das atividades cotidianas, seja na profissão ou nos estudos, somos influenciados a viver supostamente protegidos da insegurança material e do sofrimento existencial.

 

“O mundo debocha de nossas fórmulas de felicidade. A vida é feita de forma robusta pela tristeza”.
Interessante vídeo de Clóvis de Barros Filho: Sobre Caminhos e escolhas.

 

 

Na intensidade da vida cotidiana, com avanços do conhecimento, o uso da tecnologia representa facilidades sedutoras, com a promessa de atingir um nível melhor de bem estar físico e mental. Atendendo a expectativa de um melhor funcionamento mental, inclui-se o aumento do consumo de substâncias químicas.

Buscamos, por diferentes meios, alternativas para escaparmos das experiências dolorosas, vislumbrando um utópico estado de satisfação.

O acesso aos avanços tecnológicos nos proporcionam satisfações e, em muitas circunstâncias, um aprimoramento da qualidade de vida, favorecendo a dinamização e o uso do tempo para atividades mais aprazíveis.

Simultaneamente ao fato de termos obtido um considerável desenvolvimento material, nos diluímos enquanto pessoas, pois orientamos, consciente ou inconscientemente, nosso comportamento por um ideal equivocado de felicidade exclusiva. A frustração e a tristeza são constitutivos inevitáveis da existência e condições de possibilidade para a percepção da felicidade.

 

 

O professor, o conhecimento da história e a ditadura

 

Um colégio não deveria ter esses medos.
Uma escola é o lugar para que se ilumine, e não para que se
jogue o conhecimento da História em quartos escuros.
Os professores que sobrevivem às pressões precisam do
apoio dos que estão dentro e fora do colégio.

 

O golpe foi consumado, a direita fez a partilha do poder entre PMDB, PSDB e seus satélites e ninguém mais ouviu falar dos defensores de uma intervenção militar.

As passeatas com o pato da Fiesp sempre tinham a turma do golpe fardado. Pregavam a volta de um governo “de força” com o argumento de que tal saída estava prevista na Constituição. Se há roubo e baderna, diziam eles, os militares devem ser chamados. Era mais uma ameaça do que um desejo.

O golpe civil aconteceu, os corruptos da direita ocuparam o lugar de quem consideravam corruptos de esquerda, e os defensores da nova ditadura desapareceram junto com os batedores de panela.

Há quem pense que os adoradores de governos militares são uma minoria insignificante. Não são tão minoria assim. Apenas estão calados e constrangidos com a ajuda que deram para que a quadrilha do Jaburu chegasse ao poder.

Mas leio agora, em reportagem de Fernanda Canofre, no Sul21, http://www.sul21.com.br/jornal/professor-que-coordenava-projeto-critico-a-ditadura-militar-e-desligado-da-escola-costa-e-silva/ que o professor José Luís Morais foi mandado embora da Escola Estadual Presidente Costa e Silva, de Porto Alegre, porque estudava a ditadura com os alunos. Ele e outros professores também defendiam que a escola trocasse de nome.

 

Medo de quem: dos professores ou dos ditadores?

O professor contou ao Sul21 que foi informado pela direção de que seria dispensando por mexer demais com o passado. E o passado, dependendo de como se passou, deve ficar jogado num canto das escolas.

Morais não tinha estabilidade, por estar ali por nomeação e convocação, é o que se sabe. O caso não quer dizer que os responsáveis pela demissão (de onde veio a ordem?) sejam defensores do acervo ético e moral de ditadores.

Mas um episódio como esse deve ter relação com alguns medos e ‘respeitos’ que sobrevivem até hoje a todos os esforços para que não se elimine a memória do que foi a ditadura e do que foram os prepostos ferozes e/ou medíocres como o general Costa e Silva.

“As disciplinas de filosofia, sociologia e história são importantes na compreensão do ser humano, consciente e conhecedor de si mesmo e, igualmente, inserido em seu contexto social. Com a Reforma do Ensino Médio, serão optativas, correndo risco de não mais serem estudadas”. (Nei Alberto Pies)

 

Um colégio não deveria ter esses medos. Uma escola é o lugar para que se ilumine, e não para que se jogue a História em quartos escuros. Os professores que sobrevivem às pressões precisam do apoio dos que estão dentro e fora do colégio.

Torcemos para que os colegas de Morais resistam ao cerco dos simpatizantes de Costa e Silva, fortalecidos pela inspiração dos que resistiram à ditadura. E que todos se preparem para a revanche sem fim da direita. Eles agem não só nos espaços formais da política, mas nas escolas, nas empresas, nas ruas, na imprensa, na Justiça e onde a democracia puder ser pisoteada.

 

Veja um exemplo intrigante de um professor na sala de aula caso seja aprovado o “Escola sem Partido no Brasil”.

 

 

Foto: Guilherme Santos, Sul21

 

A honestidade como horizonte de um Brasil ético e com decência

 

Num cenário onde imperam a impotência,
o cinismo, a cultura do ódio e a falta de esperança,
a honestidade é o horizonte de um Brasil
que pode se reconhecer um país ético e decente.

 

Se houvessem meios de aferir a vontade dos brasileiros creio que, agora, seríamos quase uma unanimidade. Estamos quase todos cansados do sentimento de impotência diante da possibilidade de construírem-se cercas entre países, do cinismo que move políticos que agem no sentido de blindarem-se das consequências de seus ilícitos, da cara de pau de um governo que nomeia, sem pudor, suspeitos e notórios ladrões da coisa pública.

Elegemos (meia culpa) políticos que ascenderam por herança. Grande parte deles é remanescente de famílias historicamente assentadas em cadeiras de poder e, ouso dizer, historicamente ignorantes do que seja público e do que seja privado.

 

Ética e política sempre andam juntas. Veja este trabalho de estudantes, juntando charges sobre ética e política.

 

Acredito que a maioria de nós gostaria que fossem banidos por perpetuarem práticas notórias de compra de votos, de engodos tão bem arquitetados a ponto de angariarem eleitores pela repetição de políticas de convencimento pela força argumentativa e pressão psicológica. Os brasileiros, em grande medida, são reféns de políticos profissionais.

 

Impeachment de Dilma feriu a democracia

Está escancarado o plano criminoso de destituir a Presidente Dilma, ferindo de morte a democracia tão arduamente conquistada. Abriram-se precedentes perigosos, com argumentos frouxos e com o convencimento de que um partido, uma vez apontado à exaustão e pela força da repetição, seria sozinho responsável pela corrupção epidêmica no nosso país.

A profusão de “verdades viralizadas” nas redes sociais faz um estrago enorme. Perdemos a credibilidade, uma vez que, sem a devida verificação, reproduzimos pérolas, como uma que ouvi recentemente: “sabia que Marisa Letícia era funcionária do Congresso Nacional e recebia R$ 68.000,00 e agora Lula vai receber pensão?”

Você tem tempo para reproduzir isso e não tem tempo de verificar se é boato? Meu amigo, minha amiga, você está de má fé! Pensa bem!

Se quisermos unificar nossa indignação como povo brasileiro, sejamos verdadeiros, mesmo que, às vezes, como todo mundo, estejamos equivocados. Sejamos honestos conosco e com os outros.

O professor, escritor e ativista de direitos humanos Nei Alberto Pies defende o combate à corrupção como um dever cívico de todos os brasileiros e brasileiros. Reconhece a corrupção endêmica, sistemática e fruto de um sistema político falido e que não representa o conjunto de interesses da população brasileira. Veja mais.

Precisamos de alguma forma de aferição da nossa vontade, que é, para todos, que o Brasil seja respeitado, seja uma nação democrática e que o trabalho dos brasileiros reverta em benefícios dele mesmo.

A honestidade, quando exercida, abre nossos olhos, para que enxerguemos a desonestidade onde ela está. Sem subterfúgios, com boa vontade.

Os norte-americanos têm a vantagem de conhecer as verdadeiras intenções do seu Presidente. Ele é notoriamente uma caricatura, que não esconde o que pensa.

No nosso caso, lidamos com interesses escondidos e escamoteados por uma camarilha despudorada e carente de princípios éticos. Durma-se com um barulho desses! Carecemos de inteligência e de boa vontade para desmascarar mentiras, mesmo que, travestidos de povo indignado, estejamos procurando por justiça nos lugares errados.

Anseio por meios de unificação do que nos dividiu nos últimos anos. Sejamos brasileiros, antes de sermos de esquerda e direita, do bem e do mal e, na medida da honestidade com nós mesmos, sejamos honestos publicamente.

 

Humanização da humanidade: sobre a realização dos direitos humanos

Direitos humanos se realizam por crença em unicórnios,
por promessas da modernidade ou pelo reconhecimento da própria humanidade?
Se quisermos que direitos humanos façam sentido,
então não os penduremos em chifres, mas os vivamos como
luta de humanização da humanidade.

 

Alsadair MacIntyre, em Depois da Virtude (1984), fazendo uma análise das consequências do projeto moderno, que inclui a compreensão de que existem direitos naturais, entre eles os direitos humanos, conclui taxativamente que: “a verdade é simples: não existem tais direitos e crer neles é como crer em bruxas e unicórnios” (p. 127), ou seja, a universalidade dos direitos humanos equivaleria, sob este ponto de vista, a uma ficção. É uma reedição das teses comunitaristas que se opõem veementemente aos liberais.

Minha perspectiva não é nem de uns e nem de outros. Trago esta referência, pois esta afirmação tem crescido com ênfase nos últimos tempos, mesmo que não tenha sido sob a inspiração direta deste autor, mas certamente vem das hostes conservadoras e ultraconservadoras que por vezes nele se alimentam.

“Não acredito em unicórnios, mas acredito nos/as humanos/as […].”

É parte dos direitos ter direito a não acreditar em bruxas e unicórnios, ou seja, é parte dos direitos achar que os mesmos sejam ficções e, inclusive, manifestar-se contra eles, contra sua possibilidade, seja por razões naturais, sejam por motivos racionais ou mesmo emocionais, ou por outras razões. Advogar que os direitos compõem o campo da ficção não necessariamente equivale a negar tout court os direitos, O que pode é equivaler sim a negar uma certa compreensão de direitos que, a depender das crenças nas quais estão estribados, poderia se converter exatamente no seu contrário: em negação de direitos.

Não acredito em unicórnios, mas acredito nos/as humanos/as e na sua condição de construtores/as de sua própria humanidade – e paradoxalmente também de sua destruição – e, por consequência, das potências que guardam condições para tal, entre as quais estão os direitos.

 

Direitos humanos e promessas da modernidade

A modernidade inventou várias ficções, é verdade. Uma delas é o sujeito autônomo, protótipo dos direitos humanos numa certa concepção do que são os direitos humanos. A exigência de autonomia em modelos deontológicos fez dos humanos seres inexistentes fora do mundo dos fins.

Contraditoriamente, o desejo irrealizável de uma humanidade perfeita se fez realização de negações inaceitáveis da humanidade real. Alguns exemplos: mulheres não foram reconhecidas como autônomas por “dependerem de seus pais ou maridos”, por isso, impedidas de exercer a participação e foram mantidas trancadas (em casa ou nas fábricas); os trabalhadores e as trabalhadoras, por não serem proprietários, portanto, por não terem outra liberdade que não fosse a de fazer contratos nos quais tivessem que empenhar seu próprio corpo vivo, contratos de trabalho, ainda que precários e amplamente desfavoráveis a eles, tiveram sua autonomia adstrita à venda de sua própria força de trabalho, alienando sua subjetividade no produto de seu trabalho.

A modernidade prometeu liberdade e autonomia, mas entregou um novo modo de manter a submissão, até porque dela se alimentou largamente, visto que toda a acumulação primitiva que deu lugar à formação da sociedade capitalista foi erigida sobre o trabalho escravo de negras e negros africanos, para quem a autonomia não chegou, nem mesmo depois da abolição da escravidão, visto ter se traduzido em segregação e discriminação mais ou menos intensas.

Não nos esqueçamos das crianças e jovens que, por sua dependência econômica da família, sequer foram reconhecidos com qualquer possibilidade de participação até há poucas décadas – e ainda há muitos pais e mães que os tem por sua propriedade, ao modo do pater família romano.

Os exemplos de fracasso das promessas de autonomia da modernidade são muitos. Mas eles também mostram, paradoxalmente, que são estas mesmas promessas, quando tomadas pelos próprios sujeitos como obra de sua organização e de sua luta, que alimentam a superação da opressão e a construção de humanidade, de humanização de si próprios e da humanidade que está nos outros humanos, mesmo aqueles que são refratários a reconhecer neles humanidade.

 

Humanização da humanidade

Para não seguir acreditando em ilusões, há que se acreditar na humanidade, mas não a humanidade abstrata e universalista de todos que exclui as maiorias. Há que se acreditar na humanidade que se encarna em cada ser humano, em sua corporeidade, em sua espiritualidade, em sua historicidade. Esses todos e todas, encharcados de imanência, se fazem na realização de humanidade como luta e como processo.

Os direitos são construção como luta e como processo; não são dados naturais e nem concessões de autoridades benevolentes, ou mesmo de privilégios econômicos ou de classe.

Pelo contrário, direitos humanos são conquistas que resultam da denúncia da violação dos direitos, dos processos de despotenciação dos sujeitos, de sua vitimização; mas também resultam da proposição de soluções de reconhecimento das alteridades e de afirmação de que os bens necessários ao bem viver estão para serem usados mais do que para serem apropriados e concentrados privativamente. Aprender isso é aprender a compreender que os direitos humanos somente são humanos porque são desta humanidade imanente em cada humano que, ao mesmo tempo os irmana pela igualdade, também os irmana pela diversidade.

Se quisermos que direitos façam sentido, então não os penduremos em chifres, mas os vivamos como luta de humanização da humanidade.

Daí porque, acreditar nos direitos humanos é acreditar numa realidade, não numa ficção, mas na realidade que se faz em cada humano: humanização de cada humano. Realidade que desafia a reconhecer direitos em cada um dos seres do mundo, rompendo hierarquias, formando redes. Alimentar esta crença é alimentar um processo de construção de convencimento permanente e aberto no qual não há verdades previamente estabelecidas e definitivas, mas há diálogos abertos e em construção, há lutas por serem feitas, resistências por serem construídas, agendas novas por serem pautadas.

A vida é movimento e criatividade, a humanidade, como parte da vida, também se alimenta destas qualidades. E, se quisermos que direitos façam sentido, então não os penduremos em chifres, mas os vivamos como luta de humanização da humanidade.

 

O sociólogo Eduardo Alves faz uma interessante reflexão sobre “humanizar a política e politizar a humanidade”, destacando a importância do Estado na formação cultural pautada na generosidade, na convivência e no direito à diferença. Veja mais.

 

“Deveríamos ter a coragem e a ousadia de transformar nossas escolas em permanentes laboratórios de diálogo e de escuta, envolvendo diferentes tempos e lugares, com alunos, pais e professores. Separados ou misturados. A nossa persistência nesta tese nos levará, inevitavelmente, a seres humanos mais humanizados e equilibrados. Humanizar-se é o maior desafio humano”. (Nei Alberto Pies)

 

Em homenagem às mulheres, assumamos: somos machistas!

Sou solidário às lutas feministas.
Além de solidariedade, quero dividir convicção de que o conhecimento,
a valorização e a participação ativa na vida da sociedade são
as mais importantes ferramentas para enfrentar a discriminação e a violência
a que são injustamente submetidas mulheres do Brasil e do mundo.

 

Não condeno e nem questiono os apaixonados que usam dia 08 de março – Dia Internacional das Mulheres – para prestar-lhes justas e bonitas reverências e homenagens. Mas prefiro entender este dia como uma oportunidade de reflexão que toda sociedade deveria fazer neste dia que foi instituído como um dia de memória às lutas de tantas mulheres que se desafiaram a lutar por mais condições de igualdade.

 

Masculino sou. Machista me torno

Certo dia, numa atividade educativa, uma estudante me interpelou perguntando: “professor, o senhor falou tão bem das relações respeitosas entre homem e mulher. O senhor é machista?”. E eu respondi, tornando para mim a resposta como uma aprendizagem, recém descoberta: “sou machista, sim, pois vivo e convivo numa cultura machista. Se lhe dissesse que não, estaria dizendo uma inverdade; sou daqueles poucos que procuro me assumir para me corrigir.

Desde então, quando dialogo com alguém o tema “Relações de Gênero”, tomo esta aprendizagem como uma referência para a disposição masculina de corroborar com as lutas feministas. Não acredito que alguém mude seu posicionamento sem antes assumir a condição histórico-social em que esteja envolvido. Se o machismo não for assumido pelos homens, não haverá sinalização de mudança de pensamentos, atitudes e ações que enfrentem os problemas decorrentes deste.

 

Mulheres “perigosas” quando organizadas

Em duas oportunidades ímpares, colaborei, de forma orgânica e sistemática, com processos de formação e organização de mulheres.

Ajudei a coordenar Campanha de Superação da Violência contra a Mulher e de afirmação de seus direitos, num município do interior gaúcho, onde pude verificar a “ânsia represada” das mulheres daquela localidade na temática “dominação masculina”. Imagino, não seja privilégio daquele lugar. Como único homem (masculino) presente em todos os 12 encontros de formação e organização, recolhi ressentimentos, queixas, medos, constrangimentos.

A experiência vivenciada me remeteu ao pensamento de Aldous Huxley: “os fatos não deixam de existir porque são ignorados”. Sim, o fato que ignoramos é que nós homens gostaríamos de continuar “dominando as mulheres”, controlando sua ascensão social, sua sexualidade, seus sentimentos, suas atitudes, suas ideias.

Ajudei a coordenar equipe multidisciplinar de um Projeto do governo federal, em parceria com o município de Passo Fundo, Mulheres da Paz. O projeto foi executado pela Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo. Num trabalho de um pouco mais de um ano, envolvendo organização, formação e atividades sociais com mulheres vítimas de violência doméstica, pude testemunhar o quanto ainda falta apoio, incentivo e segurança para que as mulheres possam denunciar, com segurança, as agressões e a violência que sofrem, cotidianamente.

Não suportando mais serem espancadas, maltratadas e inferiorizadas, exigem dignidade e dizem Basta à violência. Mas, por outro lado, empodeiradas de conhecimento e organização, tornaram-se “mulheres temidas e perigosas” aos olhos da sociedade que ainda não se assume machista.

 

[quote_box_center]“Por onde passam ou falam, nas atividades ou eventos que promovem ou são convidadas, as Mulheres orgulham-se de sua identidade: MULHERES DA PAZ. Vestem, com orgulho, a sua identidade de promotoras de uma cultura de paz e de direitos humanos. Sentem-se cidadãs de nossa cidade, valorizadas, reconhecidas e com voz ativa no combate à violência contra as mulheres. E se perguntam se tudo isto vai acabar dentro em breve, desconstruindo sua identidade e seu poder coletivo de cidadania”. Veja mais.[/quote_box_center]

 

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Reportagem sobre o trabalho das Mulheres da Paz em Passo Fundo, RS.

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Quando interessará aos homens discutir a dominação masculina?

Às mulheres interessa há muito tempo enfrentar o tema da dominação masculina. Quando este assunto interessará a nós homens? Assim diziam as mulheres na Campanha: “mas quando a gente conversará isto com os nossos maridos, os pais de nossos filhos. Eles é que deveriam estar ouvindo sobre os direitos da mulher e não a gente”. E a reação dos homens não tardou para chegar aos nossos ouvidos: “só estão ensinando às mulheres os direitos. Cadê os deveres?”

O que os homens ignoram, em relação às mulheres, é que cada direito já traz implícito também os deveres. Quando insistem que mulheres só têm direitos, expressam, tão somente, a vontade de perpetuar a dominação masculina.

 

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Memórias de uma mulher impossível – Cinco sobre cinco (Rose Marie Muraro)

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Rose Marie Muraro, feminista e estudiosa do assunto, diz que “nas sociedades de caça iniciam-se as relações de força, e o masculino que passa a ser o gênero predominante, vem a se tornar hegemônico no período histórico – há oito mil anos-, quando destina a si o domínio público e à mulher, o privado”. Esta ideia, que se tornou histórica, não pode ser eterna.

O que as mulheres gostariam de construir conosco (os homens) são relações mais respeitosas, mais compartilhadas, complementares e que trouxessem, na prática, mais oportunidades para o cuidado consigo mesmas, para a sua valorização, para o respeito de sua dignidade, para a sua felicidade.

Sou solidário das lutas feministas. Além de solidariedade, quero dividir convicção de que o conhecimento, a valorização e a participação ativa na vida da sociedade são as mais importantes ferramentas para enfrentar a discriminação e a violência a que são injustamente submetidas mulheres do Brasil e do mundo.

 

 

*Foto do post: Ato público realizado pela Organização Não Governamental (ONG) Rio de Paz em junho de 2016 na praia de Copacabana, zona sul do Rio. A ação foi promovida para denunciar e repudiar abusos sexuais sofridos por mulheres. Veja mais.

 

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