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O velho e a enchente

Neste país de cultura de preconceitos onde se avolumam as ofensas de todas as naturezas, o crime de etarismo se faz presente. É intolerável o descarte da pessoa idosa Precisamos encetar um movimento da sociedade civil, pois a pessoa Idosa por si só não terá a força necessária para impor as políticas públicas necessárias por uma existência digna.

A leitura de “O velho e o mar” me ajudou entender as enchentes de maio. Escrito, em 1951, Ernest Hemingway mostra a luta de um velho pescador em busca da pesca. Ele apanha o maior peixe de todos os tempos. Luta contra força dele, é arrastado pelas águas. O velho continua na luta, vence e mata o peixe de 700 quilos. Ao tentar trazê-lo à margem, os tubarões avançam e o destroçam. Ele chega à praia apenas com a espinha.

O velho é reconhecido pelos pescadores e ajudado. Lembrei-me dos velhos de agora, lutando contra as águas barrentas e volumosas de maio de 2024. Velho, idoso, velha, idosa…. Pessoas Idosas….que domaram o Tempo, o frio e o albergue improvisado. Aos pedaços, venceram. Foram vitoriosos, sobreviveram, porque houve solidariedade, como foi o conforto dos amigos pescadores ao velho pescador.

O conforto recebido pelas pessoas idosas desalojadas foi a quentinha doada, e às vezes o velho custo salvo ao seu lado.

Os governos não os alertaram no momento adequado, nada fizeram antes para que o infortúnio não acontecesse. São os tubarões devoradores. 

Depois da luta contra as águas, a busca dos albergues, as esperas sem fim por abrigos adequados, veio o “amargo regresso”.

O “amargo regresso”

Em 1978, o filme “O amargo regresso” deu a Jon Voight e Jane Fonda o Oscar de melhor ator e atriz. O filme começa com um jogo de sinuca (a imagem não é fortuita) e os “aleijados” pelas granadas jogam e falam dos infortúnios da Guerra do Vietnam. Em 2024, em junho, começa aqui o “amargo regresso” com a busca dos “desalojados” por suas casas, várias delas levadas pelas águas, outras danificadas, sujas de lama e nenhum objeto a ser salvo, esperando limpeza.

Além das Memórias que as águas sujas e turbulentas levaram para não se sabe aonde, havia o vazio: vazio da casa, vazio nas almas, o boteco da esquina também vazio. Nem jogo de carta, pois a mesa do jogo de damas da Praça as águas levaram. E me assomam perguntas: quem sabe quantos idosos acamados existem morando com suas famílias? Quem sabe quantos voltaram para morar sozinhos? Quantos foram ou são deixados em “geriatrias” que não passam de depósitos de velhos?

Registre-se: o regresso de um pobre à favela é diferente daquele idoso da classe média.

Entrar num bairro destroçado, com entulhos tomando ruas, pessoas labutando pela limpeza é uma cena de guerra também como as lembranças vistas naquele filme.

Este “amargo regresso” é viver os traumas, a saúde mental abalada, o vazio existencial. Muitas pessoas não resistem. Se uma senhora de 94 e um senhor de 100 anos.- como me contaram.- vão “começar tudo de novo” é uma brecha para construir os “caminhos da reconstrução”. É um raio de luz na fria capital. E uma mudança de mentalidade da sociedade, sempre tão difícil de acontecer, seria um luar nesta noite fria.

Perdi tudo, e agora?

Os autores que, em 2023, produziram o livro “Metamorfose da vida”, volume 1, conseguiram naquele momento dar aos leitores elementos essenciais e básicos sobre o “envelhecer”, sabendo das suas lacunas. Faltaram temas a tratar, como não se analisou a desgraça da Covid 19 sobre o mundo dos idosos. Só não sabiam, apesar de seus estudos e lides, o quanto ainda havia por ser feito.

Começou-se a planejar, entre eles e outros, o segundo volume, e surpreendidos pelas enchentes de maio, com a visível falta de preparo para lidar com as Pessoas Idosas, alguns daqueles resolveram lançar um livro de bolso “Perdi tudo, e agora”.

No mínimo já se teve o impacto da agilidade da resposta ao infortúnio. Quem leu o pequeno volume e retornou garante diz que foi um aprendizado. Dentre estes, destaco a falta de políticas dos poderes públicos. Vamos aos fatos.

No dia 06 de julho de 2024, no Xalé da Praça XV, ocorreu lançamento do livro “Perdi tudo, e agora”?

Seguem registros.

Ausência de políticas públicas

A capital Porto Alegre, com o maior contingente de 60+ do país e com altos índices de longevidade, conheceu o desconhecido: o problema da falta de trato com a pessoa idosa. E isto que estamos falando da capital do “turismo de saúde” desde abril de 2003, quando um Manifesto foi lançado. Serviços de excelência em sua rede hospitalar de atendimento de alta complexidade, recebendo pacientes do Estado e fora dele, muitas vezes de outros países, dado aos tratamentos de alta especialidade. A catástrofe, porém, desnudou um lado precário e desdenhado: a atenção à pessoa idosa.

Ao estourar a catástrofe, somos colhidos pela falta de quase tudo em relação à pessoa idosa. Evacuações e salvamentos amadores, é certo que, com coragem e abnegação, servidores públicos e voluntários foram heróis. Porém, ficou evidente a falta de preparo da cidade e das pessoas para as intercorrências climáticas e os cuidados com idosos.

O mais chocante é que, no site da Prefeitura, há apenas uma página de “Atendimento ao Idoso”, sem quaisquer responsáveis, sem fone, sem whatsapp, sem e-mails!

Criou-se uma narrativa que, no episódio que vivemos e vamos viver por muito tempo, não há responsáveis e culpados. Há responsáveis. Não temos quaisquer políticas de atenção à pessoa idosa nem na capital nem no Estado. Logo, os gestores são sim os culpados.

Em Porto Alegre, no quesito de “Atenção ao Idoso”, como qualquer outro, os atuais gestores fazem de tudo para esconder fatos e omissões, omitem e mentem, falsificam dados.

Já nos setores privados, como as casas geriátricas, de repouso, hotelaria para idosos também não tinham o devido preparo, deixando pessoas idosas sem água, sem banho, sem se prepararem com geradores de energia pela falta dela. Sem luz à noite gerava-se um caos, colocando pessoas idosas em risco.

Somos levados a pensar na importância da criação de protocolos específicos de prevenção, preparação a resgates. Devem partir do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil, para então oferecer capacitação à sociedade, para os “bombeiros civis”, corpos de voluntários, cuidadores, parentes. Urge a criação de políticas e programas mais eficazes, incluindo a prevenção de acidentes, especialmente quedas e o desenvolvimento de produtos específicos para idosos, seja no cotidiano, mas em especial em situação de risco.

Em Porto Alegre, ficou evidenciado que as edificações antigas não têm condições adequadas para resgates de emergência, sobretudo no Centro Histórico, onde temos o maior contingente de pessoas acima de 60 anos.

O que despontou foi a solidariedade de todos os cantos, com seu voluntariado, este mesmo que criou um abrigo para as pessoas idosas. A Prefeitura não tomou qualquer cuidado ou atenção, deixando idosos, doentes, “acamados” largados em alojamentos com colchões rente ao chão, impedindo muitos de se levantarem sem uma mão solidária ajudando.

Disto decorre o repensar, a articulação da sociedade civil, capaz de, pela reflexão e ação, erguer políticas públicas, essenciais para uma existência digna aos idosos.

Legislações existem em todos os níveis, formalmente temos os conselhos que são afrontados pelos executivos. Isto nos deve levar a buscar os órgãos de controle e fiscalização para que sejam efetivos e respeitados.

O velho e a enchente

Ainda não fomos capazes de fazer as necessárias reflexões sobre a pessoa Idosa e a covid, deve ficar para o 3° volume do Livro “Metamorfose da vida”, pois o tempo nos cobrou falar das enchentes.

E neste país de cultura de preconceitos onde se avolumam as ofensas de todas as naturezas, o crime de etarismo se faz presente. É intolerável o descarte da pessoa idosa Precisamos encetar um movimento da sociedade civil, pois a pessoa Idosa por si só não terá a força necessária para impor as políticas públicas necessárias por uma existência digna. Assim, sejamos nós a partir de agora a faísca para o necessário movimento de efetivar os direitos das Pessoas Idosas.

Os livros mencionados nesta publicação podem ser solicitados pelo whatsapp 51.999335309. Serão enviados pelos correios.

Autor: Adeli Sell, professor, escritor, bacharel em Direito. Também escreveu e publicou no site outras 13 reflexões, dentre as quais “Caminhos da reconstrução”: https://www.neipies.com/caminhos-da-reconstrucao/

Edição: A. R.

A Coluna do Colunista e a Coluna Vertebral: trajetórias de vida entre Linhas e Vértebras

Gilberto Cunha é o quiropata literário que ajusta e realinha as memórias da cidade, dando forma e sentido a histórias que poderiam ser esquecidas.

Na quietude das manhãs de domingo, enquanto o mundo se despreguiça das travessuras da noite, um colunista de jornal prepara-se para sua rotina singular. Ele, um artesão de palavras, sabe que sua coluna semanal transcende a mera “sopa de letras”; é a coluna vertebral da cultura de sua cidade, sustentando histórias que desafiam a gravidade do cotidiano. Cada palavra que escolhe é um ajuste quiroprático, alinhando medos e expectativas até que a confiança surja plena. Essas histórias são sopros de vida nos espaços intersticiais entre L2 e L4, onde o possível e o impossível se encontram e se reconciliam.

Ao escrever sobre dois colegas da Academia Passo-Fundense de Letras (APL), ele observa a dança das vértebras transformando-se em um balé de superação. As vidas de Welci Nascimento e Daniel Viuniski, colunas vertebrais que enfrentaram escoliose e lordose, agora se endireitam com a força de seus feitos.

A coluna semanal do Cientista Gilberto Cunha no jornal “O Nacional” é uma espinha dorsal que sustenta a memória viva de Passo Fundo.

Acesse: https://www.onacional.com.br/colunistas/gilberto-cunha,231

Cada palavra escolhida por ele carrega algo íntimo e profundo, um toque de alquimia que transforma o banal em essencial. Neste sábado, 6 de julho de 2024, ele desvela a homenagem da APL a duas pessoas cujas trajetórias são vértebras firmes na espinha dorsal cultural da cidade: Welci Nascimento e Daniel Viuniski.

Gilberto Cunha é o quiropata literário que ajusta e realinha as memórias da cidade, dando forma e sentido a histórias que poderiam ser esquecidas. Sua coluna não é apenas um espaço de opinião e informação, mas uma artéria vital que bombeia inspiração e resiliência, reconfigurando trajetórias e criando uma sinfonia vertebral onde antes havia desarmonia, uma verdadeira “esculhambose” (híbrido de lordose com escoliose).

Acesse também sua coluna no site: www.neipies.com/author/gilberto-cunha/

Mais que um simples texto semanal, a coluna de Gilberto é a espinha dorsal de Passo Fundo, um monumento de palavras que mantém viva a chama da memória e da cultura. Assim, a coluna no jornal “O Nacional” se mantém ereta, robusta, sustentando histórias que, como uma coluna vertebral bem ajustada, permitem que a vida siga em frente com mais leveza e menos dor. Ao homenagear a Academia Passo-Fundense de Letras por lançar mais luz na direção de Welci Nascimento e Daniel Viuniski, ele reafirma o poder da escrita de sustentar, inspirar e iluminar nossos caminhos.

Imagens do evento/homenagem da APLetras.

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LITERATURA LOCAL – A Poesia de Jaime Caetano Braun – outro homenageado neste evento: https://youtu.be/nKtx8ba91Q4?t=931

Fotos: Divulgação/ redes sociais da APLetras

Autor: Prof. Dr. Mauro Gaglietti. Titular da Cadeira 31 da Academia Passo-Fundense de Letras (APL)

Edição: A. R.

Filosofia, cultura digital e combate ao Bullying

Estas propostas pedagógicas servem para atividades pedagógicas das séries finais do Ensino Fundamental ou de turmas do Ensino Médio.

Um dos propósitos do site é realizar publicações sobre práticas educativas que apresentem diferentes metodologias e reflitam aprendizagens feitas por professores e professoras e pelos estudantes. Neste caso específico, trataremos de roteiro com conteúdo de apoio que conecta Filosofia e Cultura Digital no combate ao Bullying e Cyberbullying. Trata-se de uma oportunidade para gerar percepções valiosas e promover mudanças positivas na forma como interagimos com os outros e nos comportamos no mundo digital.

Estas propostas pedagógicas servem para atividades pedagógicas das séries finais do Ensino Fundamental ou de turmas do Ensino Médio.

(EF08FL01PF04) Analisar e compreender a relação dos jovens com as mídias, grupos sociais;

(EF08FL02PF02) Reconhecer e valorizar situações morais e éticas presentes nas relações do homem em sociedade, para melhor pensar e criar saídas para problemas cotidianos;

(EF08FL04PF05) Formular hipóteses, apropriar-se da argumentação, saber ouvir outras possibilidades argumentativas e assumir uma postura dialógica na análise de temas éticos;

(EF09FL02PF01) Respeitar a diversidade e agir por uma sociedade não violenta;

(EF09FL04PF02) Analisar temas e problemas que envolvem a vida cotidiana do adolescente.

Objetivos:

Esta proposta de trabalho objetiva avaliar como a filosofia pode abordar o bullying de maneira significativa explorando as raízes éticas, morais e sociais desse fenômeno, além de buscar interfaces com a Cultura Digital, a fim de combater o Bullying e o Cyberbullying.

Investigação sobre as diferentes formas de bullying (cyberbullying) e suas ramificações psicológicas, sociais e éticas.

Bully = palavra em inglês que pode ser traduzida por brigão, valentão e agressor.

Bullying = palavra em inglês que pode ser traduzido por intimidar ou amedrontar.

Cyber = é o diminutivo da palavra cybernetic, que em português significa alguma coisa ou algum local que possui uma grande concentração de tecnologia avançada, em especial computadores, internet etc.

Cyber + Bullying = Cyberbullying = Implicância, discriminação e agressões feitas através de meios de alta tecnologia ou internet, como por exemplo, através das redes sociais.

Trabalhar com os estudantes o passo a passo de pesquisa em fontes confiáveis.

Sugestão de tema para trabalhar em grupos: identificar os principais contextos onde o bullying (cyberbullying) ocorre, como por exemplo, nas escolas, grupos de amigos, redes sociais, jogos multiplayer, etc.

Sugestões para apresentar os dados após pesquisa:

Jamboard / PADLET / Apresentação colaborativa no Google

Criar uma WORDCLOUD com os estudantes a partir das reflexões realizadas em aula.

Precisamos discutir conceitos filosóficos como identidade digital, comunicação mediada por computador e a natureza da realidade online!

Investigar as questões éticas relacionadas ao comportamento online, como anonimato, privacidade, liberdade de expressão e responsabilidade digital.

Examinar como os valores éticos tradicionais se aplicam ou precisam ser adaptados aos mais diferentes ambientes.

Você conhece a Lei Geral de Proteção de Dados?  (Pesquisar: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2018/lei/l13709.htm )

Fazer uma observação on-line nas redes sociais.

Pedir para os estudantes identificarem comportamentos que eles identificam como antiéticas.

Pode ser de forma individual ou uma atividade colaborativa com os pais.

Abra uma discussão em sala de aula para os alunos exporem os achados a partir do seu histórico de navegação.

Usando a criatividade!!! Vamos produzir um jogo com os alunos na Sala Maker ou no computador, utilizando o Canva ou outros recursos!

JOGO “Truth or Tale” (Verdade ou Ficção)

Objetivo do jogo: O objetivo do jogo é educar os participantes sobre a diferença entre notícias verdadeiras e falsas, bem como promover uma discussão saudável sobre liberdade de expressão e responsabilidade na disseminação de informações.

Materiais Necessários: Cartas com manchetes de notícias reais e fictícias. Um tabuleiro para marcar o progresso. Peças para cada jogador. Um cronômetro. Um conjunto de regras claras e concisas.

Como Jogar:

 -Os jogadores se sentam ao redor do tabuleiro.

– Cada jogador recebe uma peça e coloca no ponto de partida.

– Um jogador começa virando uma carta que contém uma manchete de notícia, lendo-a em voz alta para todos.

– Os outros jogadores têm um tempo limitado para decidir se a manchete é verdadeira ou falsa. Eles discutem e depois escrevem suas respostas.

– Uma vez que o tempo acabou, as respostas são reveladas e a verdadeira natureza da manchete é discutida.

– Se um jogador acertar, ele avança uma casa no tabuleiro. Se errar, fica onde está.

– O próximo jogador faz o mesmo, e o jogo continua até que todos tenham tido a oportunidade de jogar várias vezes.

 – O jogador que alcançar a linha de chegada primeiro ganha.

Variantes:Adicione cartas de desafio que exijam que os jogadores justifiquem suas respostas com evidências. – Introduza cartas que não apenas apresentem manchetes, mas também fontes e argumentos usados para apoiar ou refutar as manchetes. – Incentive a discussão após cada rodada para explorar mais a fundo a diferença entre liberdade de expressão e a responsabilidade na disseminação de informações.

Pontos de Discussão:

– O que diferencia uma notícia verdadeira de uma falsa?

– Quais são as responsabilidades dos consumidores de mídia ao compartilhar informações?

– Como podemos discernir a veracidade das informações em um mundo onde as Fake News são abundantes?

 – Qual é o papel das plataformas de mídia social na propagação de informações falsas?

– Até que ponto a liberdade de expressão deve ser protegida, mesmo quando se trata de informações erradas ou enganosas?

A relação entre a filosofia e a cultura digital é fascinante e complexa. A filosofia tem sido fundamental para entendermos as implicações éticas, sociais, políticas e epistemológicas da era digital. Por sua vez, a Cultura Digital participa da aproximação desses conceitos.

A filosofia moral e ética tem um papel crucial na discussão sobre o comportamento online, como privacidade, segurança cibernética, liberdade de expressão, e o impacto das tecnologias digitais na sociedade, bem como, suas implicações com a cultura do Bullying.

A filosofia da tecnologia investiga a natureza das tecnologias e seu papel na vida humana, questionando como as tecnologias digitais moldam nossa percepção do mundo, nossa identidade, nossas relações sociais e nosso modo de pensar. Questões sobre a confiabilidade da informação, a validade das fontes online e a natureza do conhecimento em um mundo conectado são cada vez mais relevantes.

A ascensão da inteligência artificial e da robótica levantam questões filosóficas profundas sobre a natureza da mente, da consciência, da inteligência, validade e autonomia das IAs. Como a Filosofia explora conceitos como dados, informação e conhecimento, especialmente em um contexto digital. A mídia digital levanta questões sobre representação, autenticidade e poder. A filosofia investiga como as tecnologias de comunicação digital influenciam a percepção pública, a cultura e a política. Em suma, a filosofia desempenha um papel vital na análise crítica da cultura digital, ajudando-nos a compreender as implicações profundas das tecnologias digitais em nossas vidas individuais e em nossa sociedade como um todo.

Estudo de casos reais de cyberbullying e suas implicações éticas e filosóficas com pesquisas online.

Círculos de Discussão: Organize círculos de discussão regulares onde os alunos possam falar abertamente sobre suas experiências com o bullying, compartilhar histórias e discutir estratégias para lidar com isso.

Palestras e Visitas de Especialistas: Convide palestrantes ou especialistas em bullying para falar com os alunos sobre o impacto do bullying e estratégias para preveni-lo e combatê-lo.

Programas de Mentoria: Estabeleça programas de mentoria entre alunos mais velhos e mais novos para promover um ambiente de apoio e amizade na escola e de forma digital, onde os alunos se sintam seguros para pedir ajuda se estiverem sendo intimidados.

Treinamento em Habilidades Sociais e Resolução de Conflitos: Ofereça atividades que ajudem os alunos a desenvolver habilidades sociais, como comunicação eficaz, empatia e resolução de conflitos, para que possam lidar melhor com situações de bullying.

Debates Éticos sobre Tecnologia: Escolha um tópico relevante, como privacidade online, inteligência artificial, ou o impacto das redes sociais na sociedade, e organize um debate em sala de aula. Divida os alunos em grupos e peça que pesquisem diferentes perspectivas filosóficas sobre o tema. Eles podem apresentar argumentos éticos a favor e contra, e discutir as implicações dessas tecnologias em nossa vida cotidiana.

Análise de Filmes ou Séries: Exiba filmes ou séries que abordem questões éticas relacionadas à tecnologia, como “Black Mirror” ou “Her”. Também, questões diretamente ligadas ao Bullying como “Extraordinário” ou “Te pego lá fora”. Após a exibição, promova uma discussão em sala de aula sobre os dilemas morais apresentados e como eles se relacionam com os princípios filosóficos estudados.

Projeto de Ética em Tecnologia: Divida os alunos em grupos e peça que criem um projeto sobre ética em tecnologia. Eles podem escolher um tema específico, como o uso de algoritmos de recomendação em plataformas de mídia social, e desenvolver uma apresentação que analise o impacto ético dessa tecnologia, propondo possíveis soluções ou diretrizes éticas. Simulações Éticas: Crie simulações de situações éticas envolvendo tecnologia. Por exemplo, você pode apresentar um cenário em que os alunos são responsáveis por tomar decisões sobre o desenvolvimento de uma nova tecnologia controversa, e depois discutir as implicações éticas de suas escolhas.

Desenvolver estratégias para prevenir o bullying (cyberbullying), incluindo educação digital (netiqueta), promoção de empatia pessoal e online criando ambientes sociais e digitais mais seguros e inclusivos a partir da Escola. Promover a conscientização sobre os impactos psicológicos e sociais negativos do bullying e fornecer recursos para as vítimas.

O que podemos fazer?

Elaboração de materiais gráficos de conscientização para a campanha da escola. Sugestão: usar o CANVA Elaboração de vídeos. Sugestão: usar o CapCut Refletir sobre onde rodar a campanha: blog de conscientização; redes sociais da escola; meios de comunicação da comunidade.

Teatro e Dramatização

Criar, junto com os alunos, esquetes envolvendo situações de bullying, que possam ser encenadas e apresentadas não apenas em sala de aula, como também para toda a escola. Essa atividade pode ser desenvolvida junto com o professor de Língua Portuguesa e Arte, uma vez que envolve a preparação do roteiro, cenário, figurino. Promover a encenação de situações de bullying e conflito em sala de aula. Essa ação ajuda os alunos a entender melhor o impacto das ações deles e dos outros. Na sequência podem ser introduzidas discussões sobre como as situações poderiam ter sido resolvidas de forma mais positiva. Essa atividade pode ser um trabalho integrado com o professor de Artes. Dica: A atividade pode ser filmada e então, trabalhar ferramentas de gravação e edição de vídeo, como CAPCUT.

Jogos on-line ou desenvolvimento de jogos nos Espaços Maker de aprendizagem. (O jogo on-line pode ser desenvolvido em softwares como o Scratch, OctoStudio e WordWall)

Redação Criativa: Peça aos alunos que criem poesias ou histórias que promovam a conscientização sobre o bullying e incentivem a empatia e o respeito. Dica: Fazer a produção textual de modo colaborativo do google docs.

A avaliação pode ser realizada por meio de participação em debates, apresentações individuais ou em grupo, produção de ensaios ou relatórios sobre temas relacionados ao bullying e suas implicações filosóficas, bem como pela participação e contribuição nos projetos ou campanhas anti-bullying desenvolvidos. Essa ideia pode servir como base para envolver os alunos em reflexões profundas sobre o bullying, não apenas como um problema social, mas também como um desafio filosófico, ético e digital que exige uma resposta ponderada e fundamentada.

Sugestões: textos, vídeos e atividades

 Cyberbullying atinge 1/3 dos jovens de 13 a 24 anos: https://youtu.be/MCp31i2-VWM?t=5

Vídeo Bullying na escola: https://youtu.be/EeJsPF-aL9E?t=6

Texto Bullying na escola: https://activesoft.com.br/bullying-na-escola/

Outros materiais (como sugestão):

Autor: Rodrigo Gomes Rodrigues. Professor de Filosofia da Rede Municipal/ Coordenador do Componente Curricular de Cultura Digital na Secretaria Municipal de Educação de Passo Fundo.

Escola não é empresa, policial não é educador

A escola não é uma empresa nem a educação um bem do capital. Policiais militares não são educadores e nunca estiveram no rol de profissionais autorizados a exercer esta função pública tão relevante. A autoria pedagógica do professor é decisiva para pensar as mudanças na educação e na escola.

As reformas empresariais da educação avançam em vários estados brasileiros em duas perspectivas concomitantes: privatização da educação básica e militarização. Estados como Paraná, São Paulo e Brasília são as mais expressivas evidências do momento.

Está em curso a implementação de um sistema de desfinanciamento gradual do sistema escolar estatal e fortalece-se o mercado educacional na direção da extinção do sistema público da educação. Trata-se de um programa conservador (da direita) que quer privatizar tudo e eliminar ao máximo o Estado.

O que está em jogo aqui é a ganância interminável de um tipo de capitalismo que deseja transformar tudo em mercadoria vendável. Isso passa a valer, inclusive, para a Educação, a Saúde e a Previdência, ou seja, as áreas que o avanço democrático do último século tinha definido como dimensões da vida a qual todos têm que ter acesso independente da renda familiar eventual. (Autor: Jessé Souza) Leia mais: www.neipies.com/a-privatizacao-da-educacao/

Para o especialista e estudioso do tema, professor Luiz Carlos de Freitas (Unicamp), esta ação visa facilitar o cumprimento do programa libertariano:

a) permitir maximizar o controle sobre o conteúdo e forma das escolas colocando-as nas mãos de agentes ideologicamente seguros (empresas, incluindo as confessionais ligadas às religiões), maximizando dessa forma o controle ideológico sobre a escola; e

b) também permite criar um patamar de operação para as escolas privadas que aumente as margens de lucro e o interesse pela exploração econômica da educação.

Desde o início do século XXI vêm crescendo e se intensificando as tendências de críticas à escola e, principalmente, à escola pública e aos educadores. As razões são variadas, mas uma se sobrepõe: expansão sem precedentes de uma “indústria global da educação”, fortemente calcada no digital, com ofertas privadas, mas interessada sobretudo na produção de conteúdo, materiais e instrumentos de gestão para a educação pública.

Chistian laval, autor de A escola não é uma empresa: o neo-liberalismo em ataque ao ensino público, afirma que a evolução mercantil do serviço educativo não se explica somente pelo aspecto ideológico. Ela se inscreve no processo em curso de liberalização das trocas e no desenvolvimento das novas tecnologias de informação e comunicação em escala mundial. A tendência do período é colocar em competição mais direta os sistemas educativos nacionais, em um mercado global. Nesta perspectiva, a instituição escolar estatal seria enviada para o lixo da história.

Por mais que alguns pais e mesmo professores acreditem em um mundo competitivo, os estudantes e jovens também precisam ser competitivos, é preciso ter responsabilidade e reconhecer que haverá consequências não somente ao acesso no direito à educação pública, a aprendizagem e desenvolvimento integral do estudante, mas na saúde mental de estudantes perdedores e ganhadores. Não podemos colocar nossas juventudes em jaulas de competitividade.

Vivemos em uma constante competição, que separa o mundo entre “ganhadores” e “perdedores” que esconde privilégios e vantagens. Esta corrida por desempenho e status social transforma o colega em um adversário e provoca enorme frustração e sofrimento quando não se transforma em um dos poucos vencedores.

Outra grande consequência é o aumento da ansiedade, depressão e mesmo a escalada de casos de suicídio entre crianças e jovens, conforme diversos estudos rigorosos realizados no mundo todo e mesmo no Brasil.

Diversas são as causas para toda esta angústia estudantil e juvenil, como as crises econômicas, climáticas, uso excessivo de celulares (geração smartphone), jogos, autodiagnósticos simplistas, não sendo necessário a educação meritocrática e de desempenho agravar ainda as preocupações estudantis como seu presente e futuro.

A privatização e a militarização agravam este cenário para a grande maioria de estudantes matriculados (86%) na educação básica que possuem apenas uma oportunidade: a escola pública de qualidade e necessariamente democrática.

Preocupados, mais de uma centena de entidades da sociedade civil e acadêmica se manifestaram publicamente contra o Programa de Militarização das escolas públicos, alertando e argumento para os graves danos à educação, tais como:

– “Por sua natureza disciplinar voltada para a promoção da obediência à hierarquia ancorada em bases militares, a militarização fere princípios constitucionais do ensino, como a liberdade de aprender e ensinar, o pluralismo de ideias, a valorização de profissionais da educação e a gestão democrática (Constituição Federal, art. 206, incisos II, III, V e VI); fere o direito à liberdade, ao respeito e à dignidade de crianças e adolescentes (Estatuto da Criança e do Adolescente, art. 15, 16 e 18-A); e o respeito à identidade e à diversidade individual e coletiva da juventude (Estatuto da Juventude, art. 2º, inciso VI)”, entre outras normativas;

– Os programas de militarização, em todos os entes federativos, não estão amparados em nenhuma das diretrizes, objetivos, metas e estratégias de implementação inscritas no Plano Nacional de Educação (Lei n. 13.005/2014);

– Policiais militares não são educadores, não estão no rol de profissionais autorizados pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (art. 61) a atuar na gestão das escolas ou em qualquer outra função típica dos trabalhadores da educação. Escolas militarizadas, também, violam liberdades de expressão, de organização e de associação sindical dos profissionais da educação, aumentando o fenômeno de autocensura e censura de professores;

– As escolas militarizadas não são mais seguras, ampliam violações de direitos e violências; há diversas denúncias de situações de assédios moral e sexual e abusos físicos e psicológicos contra estudantes praticada por agentes militares;

– O modelo militarizado não contribui para o desenvolvimento integral dos estudantes, seu preparo para o exercício da cidadania e para a promoção de sua autonomia e emancipação;

– Os programas de militarização ampliam as desigualdades educacionais, introduzindo desigualdades no financiamento internas às redes de educação e mecanismos de exclusão de estudantes em maior vulnerabilidade socioeconômica, com deficiência, com distorção idade-série, dificuldades de aprendizagem e de se adequarem às normas e padrões;

– Escolas militarizadas reforçam os estereótipos em relação aos papéis masculinos e femininos na sociedade, que limitam a liberdade dos indivíduos, coíbem a expressão da diversidade de gênero e sexualidade e a demonstração de afetos, principalmente de jovens LGBTQIAPN+.

Camila Rocha, pesquisadora da USP, em recente artigo “Tarcísio e Nunes querem educação para a ditadura”, em vez de ordem e progresso, o futuro com escolas militarizadas promete retrocesso e ditadura, ou seja, é para preparar um novo ataque à democracia e ao estado democrático de direito.

Afirma a pesquisadora que “violações de direitos humanos ocorridos nas escolas militarizadas já foram denunciadas à ONU. No entanto, em meio a omissão do governo federal e do STF sobre a flagrante inconstitucionalidade de tal “modelo escolar’, governos estaduais (como São Paulo) e Assembleias Legislativas em vários e insistem em aprovar e implementar escolas militarizadas.

Neste contexto, é necessário reafirmar a escola como um espaço público comum da educação.

Para o educador e pensador António Nóvoa (Universidade Nova de Lisboa), esse espaço público comum só terá sentido no cenário de uma forte participação social, com capacidade de deliberação e exercício de cidadania. Não se trata, apenas, de consultar, mas de organizar processos de decisão sobre as políticas de educação.

Em outra perspectiva e concepção, um grupo de pesquisadores, pesquisadoras, professores e professoras, estudantes e gestores, especialistas e investigadores, reunidos na Unicamp em junho do corrente ano, por ocasião da realização do IX Simpósio Internacional de Estudos e de Pesquisas do Grupo Paidéia, publicaram a Carta de Campinas de 2024, onde nos reafirmam um horizonte para o debate sobre a educação e escolarização no Brasil.

Destacamos, a seguir, alguns posicionamentos expressos na Carta de Campinas que se contrapõem ao modelo escolar privatista e militarizado defendendo uma concepção histórica e republicana da educação não como propriedade individual, mas como pertencente, por essência, à comunidade e à sociedade (Pólis). Os participantes do Simpósio expressam na Carta que:

– Reafirmamos o pleno e irrevogável compromisso com a Educação pública, laica, universal, gratuita e obrigatória, tal como determina nossa Constituição Federal, quando prescreve que a “educação é direito subjetivo e social, dever do Estado e das famílias”, em suas diversas e autônomas formações sociais, institucionais e culturais ( Brasil, CF, Art. 205, 1988);

– Reiteramos o reconhecimento pleno da concepção de Educação como direito e do direito à Educação, sempre compreendida como prática social, cultural, antropológica e histórica, como processo de hominização e de humanização;

– Manifestamos veemente protesto e repúdio ao processo de privatização da gestão escolar pública, pelo Estado do Paraná, e pela concepção perversa de inserção de tecnologias digitais na educação, em detrimento da autonomia dos docentes e dos gestores, legitimamente formados para realizar o ensino e a docência nas escolas, na produção de sua autônoma, livre e criativa atuação na educação escolar, como se anuncia nas políticas estaduais paulistas;

– Repudiamos, também, a proposição das Escolas Cívico-Militares que tem sido lamentavelmente continuada no atual governo como forma de enquadramento militarizado das crianças e dos jovens das periferias urbanas e sociais, com a falsa ideologia da formação disciplinarista da ordem;

– Declaramos plena adesão à concepção de Educação Integral, sobre uma concepção omnilateral, de totalidade e de conjunto, para a formação escolar e educacional.

– defendemos a retomada da concepção de Currículo como a formação para a vida, democrática e humanizadora, em grupos e na sociedade, para a apropriação polifônica da cultura e da vida política, coletiva e comum, para a geração da qualidade social da Educação Pública, com a Filosofia, a Sociologia, a Arte, a Cultura Popular, a Educação Física, a Educação de Jovens, Adultos e Idosos ao longo da vida, a Educação do Campo a partir de suas características e de sua autonomia, a Educação nas Aldeias e Quilombos, a formação autônoma nos núcleos culturais ribeirinhos e nos espaços resilientes, com a Educação Inclusiva efetiva, a defesa da formação para a pesquisa e para a Educação Socioambiental e Sustentável.

Sim, percebam que são projetos de sociedade, de educação e de escola em disputa, com perspectivas, concepções e fins bem diferentes. Um à serviço da reprodução e da acumulação do capital, da riqueza e das oportunidades para poucos bilionários planetários, o outro na defesa da educação pública, democrática e cidadã para a grande maioria da população. Faça sua escolha e lute. Numa ditadura não teremos escolhas e a luta será muito mais árdua!

FONTE: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2024/07/militarizacao-e-privatizacao-escola-nao-e-empresa-policial-nao-e-educador/

Edição: A. R.

Por que estamos trocando árvores por concreto?

As árvores são crianças abandonadas que não sabem onde se amparar da chuva, do sol e da maldade humana. Estão adoecendo e morrendo de tristezas as mais diversas porque perderam a briga para o concreto faz alguns anos. Quero ser a voz das árvores neste pequeno ensaio.

Quero ser a voz das árvores neste pequeno ensaio onde penso chamar a atenção de quem ainda tem tempo para ler um texto que pode falar apenas simplicidades, mas que pede socorro pelas árvores da minha cidade e do mundo inteiro porque o passarinho que sou virou árvore antes do poema do meu querido Manoel de Barros que nos diz

“Um passarinho pediu a meu irmão para ser uma árvore. / Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho. / No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de sol, / de céu e de lua mais do que na escola…”

Que muitas crianças possam aprender e exercitar ser uma árvore por um instante na vida, sentindo as dores da faculdade de uma existência que parece ter deixado de ser boniteza num mundo de concreto feito de cimento, areia e pedras. As árvores são crianças abandonadas que não sabem onde se amparar da chuva, do sol e da maldade humana. Estão adoecendo e morrendo de tristezas as mais diversas porque perderam a briga para o concreto faz alguns anos.

A beleza dos canteiros de uma cidade está nas suas árvores com galhos enormes espalhados pelos quatro cantos de uma avenida dando-nos sombra e frescor com o vento nas suas folhas. Eu que amo as árvores sei bem do que é abraçar uma delas e receber um acalanto na alma daquelas que pouco recebem de nós e nos dão tantas coisas boas.

As árvores deveriam ser imortais e nunca derrubadas pelos homens. As crianças precisam aprender desde cedo a respeitarem as árvores assim como idosos e adultos. Outro dia, eu vi uma mulher grávida quase dar à luz a uma criança embaixo de uma velha árvore na periferia da minha cidade. Nas periferias é onde a vida acontece de verdade, leitor lindo.

Fico me questionando por que algumas pessoas ainda insistem em dizer que as árvores sujam as ruas e atrapalham o trânsito nas grandes cidades se elas chegaram primeiro, a história é meio parecida com a colonização do nosso país, pois os indígenas estavam aqui bem antes dos portugueses, mas isso é outra história que quero contar outro dia.

Hoje quero falar para vocês de que os homens estão ficando malucos com essa ideia de desenvolvimento, inteligência artificial, smartphones e compras pela internet.

Vi uma pessoa comprar uma plantinha num site até fofinho, mas planta a gente consegue em qualquer canteiro, não é mesmo? Pois acreditem isso não acontece mais. Os canteiros estão deixando de existir. Nos lugares das árvores placas de sinalizações, postes de iluminação pública ou radares de segurança e outras bugigangas que os homens inventam para prejudicar a si próprios.

Se quisermos ter uma plantinha dentro de casa teremos que ir a um site e comprarmos porque elas já não estão mais onde deveriam estar: espalhadas pela cidade. Nos seus lugares estradas de concreto, edifícios enormes, supermercados e até mesmo escolas para crianças derrubam árvores para construírem seus prédios.

O mundo virou um concreto e o verde já não está mais no seu lugar. Se você olhar atentamente verá poucas ou nenhuma árvore na sua cidade caso more numa metrópole. Os homens esqueceram que o verde da natureza nos traz ar puro e é necessário para a vida humana, trocando-o por concreto.

Eles dizem que é preciso desenvolver as cidades, que é preciso acompanhar o mundo contemporâneo, que é necessário se igualar as grandes megalópoles. Ora, ora, e o nosso desenvolvimento sustentável? Fica somente no papel, leitor. Na hora de construir um prédio de vinte ou trinta andares aquelas cinco lindas árvores são esquecidas no que diz respeito aos seus benefícios para os pulmões dos engenheiros e pedreiros. Elas são derrubadas violentamente por grandes carros que parecem mais umas geringonças de fazer medo a qualquer criança.

Já teve um tempo que quis nascer árvore, mas hoje teria medo, muito medo. Os homens estão fazendo com as árvores o mesmo que o prefeito da província romana da Judeia, Pôncio Pilatos, fez com Jesus Cristo, ou seja, forçando-as a pagarem um pecado que nunca cometeram. Estou cansada demais para continuar a minha luta pelas árvores e seus encantos, pelos seus mundos imaginários que nos mostram o quanto é lindo ver o desenho de uma criança brincando debaixo de uma delas.

Estamos trocando as nossas árvores por concreto porque somos humanos demasiados humanos ratificando o que diz o livro do grande filósofo Nietzsche, ou seja, a ausência da liberdade, as ações humanas são contingentes e precisas num mundo de caos e político masoquista.

A liberdade das árvores de poderem reivindicar os seus direitos; os homens têm sido meio animais cheios de instintos regidos por uma coisa chamada: desenvolvimento. As árvores estão com taquicardia, com ansiedade, com depressão e todos os problemas mentais que um ser vivo pode ter neste último grande século em que estamos vivendo porque temem os malditos corações dos homens de paletó e gravata.

Eu queria mesmo era que as árvores deixassem de ser generosas e fizessem uma revolução no mundo inteiro saindo em passeatas pelas ruas das cidades dizendo aos homens más que eles precisam delas, que elas são indispensáveis à vida. Deus criou a árvore da vida, quem foi lá e a derrubou? O homem pecador. O homem cruel. Certamente um homem que queria o desenvolvimento do seu lugar de moradia.

Na minha cidade todos os dias árvores são derrubadas para serem construídos prédios, viadutos, estacionamentos, shopping centers e ninguém diz nada. Todos ficam calados com medo de serem expulsos do paraíso do concreto onde atrás dos muros que se escondem têm uma vida pacata. Não precisam brigar por sombra ou água fresca porque compram com o dinheiro se possível até mesmo a vida imagine uma árvore. Isso é coisa de gente que não tem com o que se preocupar ficar brigando por uma árvore.

Porque toda árvore que é derrubada nas cidades grandes é para o bem do seu povo, alegam as autoridades. Só que elas não sabem que o bem do povo é conservar o verde das florestas e saber conviver com a natureza e os prédios num lugar só. Acho que ninguém ousa perguntar se é preciso mesmo derrubar árvores para construir um shopping em uma dessas reuniões chiques de engenheiros e empresários. Quem vai perder tempo com uma arvorezinha qualquer? Elas não são nada para esses homens loucos por dinheiro e mentirosos ao ponto de dizerem que praticam o desenvolvimento sustentável.

Eu conheço bem as árvores. Sou amiga íntima de várias delas, principalmente as das periferias da minha cidade, as que ninguém dá nada por elas, aquelas que o povo tem mania de colocar entulhos e lixos nos seus troncos e a prefeitura com raiva prefere derrubar a árvore para impedir que essas coisas aconteçam. As árvores estão com medo de continuarem sendo elas mesmas, e já começam a se vestirem de monstros para assustarem esses homens ambiciosos que só pensam em dinheiro.

Nos livros didáticos das crianças a gente vê muito desenho de árvore, mas quantas delas não foram necessárias serem derrubadas para a fabricação do papel daquele livro? Que adianta insistir com as crianças de que a natureza é linda se já não damos o verdadeiro exemplo para elas de cuidado e respeito com as árvores ao nosso redor? As árvores vão morrer de infarto qualquer dia desses porque seus corações não resistirão a maldade humana.

Num lugarzinho serrano do meu Estado foram derrubadas várias árvores para a construção de um hotel. Eu fiquei bastante triste quando soube disso e fui lá, fiz um trabalho com as crianças sobre as árvores onde elas brincavam e que tinham sido derrubadas para a construção do tal hotel, mas elas foram enganadas pelos seus pais e responsáveis que lhes disseram que no hotel teriam parquinho de diversões, piscinas e áreas de lazer para elas se divertirem à vontade. Já viu criança pobre entrar em hotel de luxo?

Mentem para as crianças, mentem para os idosos, mentem para a sociedade e assim vão derrubando as nossas árvores para construírem seus prédios com muros altos e portarias cheias de seguranças onde ninguém se aproxima sem se identificar.  Nem as árvores são bem-vindas em alguns desses prédios, pois elas sujam muito com as suas folhas e será preciso contratar um jardineiro para cuidar delas, um gasto desnecessário para muitos moradores.

As árvores perderam a batalha contra o concreto até nas cidades pequenas. A grama de um estádio de futebol moderno é sintética e não real como a grama do campinho do bairro de dona Maria. O verde perdeu a sua audácia, a sua estada, o seu oceano, a sua Terra e a sua dignidade. E quando se perde a dignidade não nos resta mais nada a não ser morrermos para o mundo. Nos silenciar e deixar que as coisas aconteçam conforme a necessidade dos homens que controlam as armas nucleares capazes de fazer deixar de nascer plantas e gente em lugares aonde elas chegarem por vários anos.

Estamos todos mortos, principalmente as árvores. Delas vão sobrar alguns poucos desenhos de crianças que ainda podem brincar com elas na casa dos avós que não as derrubaram para acimentar o quintal de casa e assim ficar mais fácil a limpeza. Até os avós estão usando cimento no lugar de grama nas suas casinhas de sapê.

Para encerrar este pequeno ensaio um pouco tristonha, mas sabendo que a minha luta pela vida das árvores continua ainda mais forte deixo vocês com o poema de António Gedeão que nos diz

“…As árvores, não. / Solitárias, as árvores,
exauram terra e sol silenciosamente. / Não pensam, não suspiram, não se queixam. /Estendem os braços como se implorassem; / com o vento soltam ais como se suspirassem; / e gemem, mas a queixa não é sua…”

Ao contrário do que diz o poema de António Gedeão eu acredito que a queixa das árvores é o silêncio de estar presente num mundo que era seus e hoje pertence ao concreto dos homens ambiciosos que só pensam em construir prédios e fazer estradas para irem onde nunca saberão.

Leia também: www.neipies.com/as-arvores-sao-guardiaes-das-historias-dos-nossos-ancestrais/

Autora: Rosângela Trajano. Também escreveu e publicou no site “As arvores são guardiães dos nossos ancestrais”: https://www.neipies.com/as-arvores-sao-guardiaes-das-historias-dos-nossos-ancestrais/

Edição: A. R.

“O livro dos pontos de vista” em forma de pizza literária

Um dos propósitos do site é realizar publicações sobre práticas educativas que apresentem diferentes metodologias e reflitam aprendizagens feitas por professores e professoras e pelos estudantes. Neste caso específico, trataremos de uma prática leitora com estudantes de sétimos anos do Ensino Fundamental.

A EMEF Zeferino Demétrio Costi, em Passo Fundo, RS, desenvolve, em 2024, um projeto de leitura chamado “Ler um livro é ler o mundo”. Quinzenalmente, um período é dedicado à leitura por todos os estudantes e professores da escola. Nessa experiência leitora, surgiu a obra “O livro dos pontos de vista”, do autor Ricardo Azevedo, para a realização de uma atividade interdisciplinar.  Foi realizada uma leitura compartilhada com a turma, utilizando também períodos de Filosofia e de Língua Portuguesa. A leitura necessitou de vários períodos para ser finalizada, fazendo-se leitura de um personagem por período (são 8 personagens no livro).

Chamou-nos atenção o livro tratar de pontos de vista, que nada mais são do que vistas do diferentes pontos. Cada sujeito, cada personagem, manifesta sua opinião a partir de seu contexto, de suas vivências e de suas percepções sobre a realidade, como é o caso desta história onde os personagens compartilham o mesmo lugar, mas veem o mesmo e também aos demais de maneira muito diferente.

Como ilustra a poesia abaixo, cada um tem seu ponto de vista.

Pontinho de vista (Pedro Bandeira)

Eu sou pequeno, me dizem,
e eu fico muito zangado.
Tenho de olhar todo mundo
com o queixo levantado.

Mas, se formiga falasse
e me visse lá do chão,
ia dizer, com certeza:
— Minha nossa, que grandão!

Em seguida, a professora de Língua Portuguesa fez uma discussão sobre os diferentes pontos de vista de cada personagem da obra que habitavam uma casa e seu entorno, um jardim: mãe, pai, filho e quatro animais de estimação: um cachorro, um gato, um sapo e uma tartaruga.

O autor descreveu, de maneira genial, as percepções do ambiente e das relações vividas pelos personagens.

Em grupos, definiu-se por um trabalho de sistematização da obra através da confecção de uma pizza literária.  Criou-se o grupo dos personagens humanos, dos personagens animais, do cenário da história e dos relatos da história.

A construção da pizza, como um dos resultados finais do processo, é representada pelos diferentes pedaços da mesma, como trabalho de cada grupo.

Aprendizagens

Para a professora de Língua Portuguesa, Ângela da Fontoura, “a ideia de “montar” uma pizza literária foi uma forma diferenciada de estimular realização da leitura e sem aquela tradicional cobrança da síntese da obra. A metodologia da leitura compartilhada oportunizou uma discussão a respeito da visão de cada personagem em relação aos demais. Instante também  do compartilhamento das impressões e vivências pessoais atreladas ao texto.   Foi também o momento da argumentação: a discussão com outros leitores enriquece a capacidade argumentativa e desenvolve as habilidades da oralidade, como   também o respeito à opinião do outro. 

Durante a leitura, foi preciso anotar as possíveis palavras desconhecidas, já que a prática leitora permite o contato com novas palavras. É o enriquecimento vocabular estimulado pela leitura. A atividade de montagem da pizza desenvolvida em grupo estimula a integração de vivências e de saberes.

Diante das etapas vivenciadas nas atividades, foi possível perceber que, como os personagens, nós também temos percepções diferentes diante de um mesmo contexto. Embora pensamos diversamente, podemos conviver de forma harmônica e respeitosa.  Também percebemos quão chato seria se pensássemos e agíssemos da mesma forma. O que nos enriquece como humanos é exatamente a nossa forma individual de pensar e agir.

Sugestões de aplicabilidade

Imaginamos que essa experiência de uma prática leitora possa inspirar outros colegas professores e professoras para realização de leituras de obras compartilhadas entre diferentes Componentes Curriculares ou mesmo diferentes áreas de conhecimento, gerando conhecimentos interdisciplinares e complementares, bem como diversificando metodologias de ensino e aprendizagem, tão necessárias para ressignificar a educação no contexto atual.

FOTOS: rede social EMEF Zeferino Demétrio Costi

Edição: A. R.

Temos que nos ocupar em desconstruir a estupidez

Pensemos e perguntemo-nos: é assim, mas poderia ser de outra forma? É assim, mas e se fosse de outra forma?

A estupidez, “notável falta de jeito para entender as coisas”, quando é um traço individual incomoda, mas quando faz parte da cultura de uma época é perigosa porque a naturalização irresponsável de tudo é o passo anterior ao autoritarismo e à aniquilação do pensamento.

Quase tudo no mundo que habitamos conduz-nos, empurra-nos sem resistência para formas de vida superficiais, para uma banalidade que inunda quase todos os níveis da nossa vida cotidiana, mesmo a das pessoas com níveis de formação sofisticados; sutilmente incutida na nossa vida de relacionamento, na educação, na política, na construção de representações do mundo, do outro ou da família.

Exercitamos formas utilitárias e rápidas de dar ação rápida, impensada e não criativa a qualquer situação que nos obrigue a pensar sobre por que fazemos o que fazemos, ou a rever as razões do nosso comportamento; Por esse caminho, passamos a qualificar como genialidade aquilo que nada mais é do que imbecilidade, a aderir alegremente a julgamentos de valores baseados em opiniões formadas levianamente.

Muitas vezes trata-se de microbesteiras, de simplificações, de repetições de lugares-comuns, da criação de uma forma de estar no mundo sem nos perguntarmos se essa forma é a única, se não existem outras, se respondem a que em algum momento, quando tivemos sonhos, pensamos no nosso pouco sentido existencial.

Temos uma tendência alarmante de aceitar como boa qualquer opinião coberta de dados e, não de acordo com isso, reproduzimo-la criando um emaranhado desordenado de ideias, sentimentos, opiniões, falsidades entre as quais às vezes escorrega uma meia verdade; não temos interesse em duvidar ou verificar nada. Em vez disso, repetimos, degradamos ideias, sentimentos, cultivamos um interesse pelos nossos semelhantes que é testado na primeira adversidade: o outro não responde o que esperamos ou não o faz imediatamente, ou o faz com nuances quando olhamos para uma resposta monolítica.

Somos fascinados pelas redes, verdadeiros esgotos do que é execrável num mundo criado ad hoc, em que, por exemplo, a sexualização da vida cotidiana vestida de transgressão engraçada causa estragos, especialmente entre os mais jovens que confundem a vida sexual com pornografia, que até uma criança acessa facilmente ou que nos invade compulsivamente.

Temos que fazer uma tarefa simples, mas chata: pensar contra o bom senso e até contra nós mesmos, em linguagem pugilística, colocar-nos como o outro contra as cordas, fazer o mesmo com o outro e perguntar e nos perguntar repetidas vezes por que, em relação a tudo aceitamos como evidente, ao que normalizamos.

Façamos isso repetidas vezes até que estejamos honestamente convencidos de que atingimos um ponto de convicção que admite dúvida razoável; não nos contentarmos com uma explicação que sabemos ser inconsistente e que, no entanto, aceitamos.

Pensemos e perguntemo-nos: é assim, mas poderia ser de outra forma? É assim, mas e se fosse de outra forma? E não importa que não tenhamos clareza sobre esse outro caminho ou maneira, mas que abramos espaço para a possibilidade de que isso possa acontecer.

O que mais desconcerta quem se alimenta de ódio, ignorância e simplificação são perguntas e afirmações sábias e bem elaboradas. (Nei Alberto Pies) Leia mais: https://www.neipies.com/minha-tolerancia-nao-alimente-sua-estupidez/

 Autor: Eduardo Corbo Zabatel. Ensayista, Psicólogo, Profesor de Historia, Magister en Ciencias Sociales. Mora em Buenos Ayres e está começando a ocupar a sua coluna neste site com esta publicação. Bem-vindo!

Edição: A. R.

Interrogações fazem falta

… a alegria está sempre ameaçada… para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.

Camus, A Peste, 1999, p. 269

O título faz uma afirmação [ainda que sem ponto final]. Constata que interrogações já não são tão comuns; adota o lado de quem as entende relevantes; formula um juízo indicativo de sua carência… e, ainda mais, que esta talvez seja a razão da sua própria irrelevância… viciosamente falando: a falta de interrogações leva à irrelevância da interrogação! [com uma exclamativa]. Está expressa a situação? [numa interrogativa].

A questão levanta a hipótese de vivermos um tempo no qual se evita ao máximo a interrogação e a reflexão anda escassa, senão ausente. E isso ocorre não porque teria havido um atrofiamento cerebral em consequência do uso excessivo de telas e algoritmos – ou talvez sim, por este motivo –, mas de cerco ao espírito, que passa a se proteger assentado em certezas e em tudo quanto for absolutamente absoluto e definitivamente pronto, dando vazão a fundamentalismos de todo tipo. Ainda haveria espaço para a vida do espírito? Eis a questão, melhor formulada.

A interrogação poderia ser não mais do que um simples sinal gráfico de pontuação, como qualquer outro. Mas, ela é muito mais. É uma questão [que é bem mais que uma pergunta], que denota uma dúvida, ainda mais, uma busca, na expectativa de resposta. Estaria na sua origem a palavra “quaestio”, já que seria uma figuração de sua primeira e última letras compostas “q” e “o”, que virou o “q” sobre o “o”: ? – assim, ou de ponta cabeça, como no espanhol, posto ao início e no final da frase interrogativa.

Victor Klemperer, que se dedicou a estudar a linguagem do Terceiro Reich (LTILíngua Tertii Imperii) (2009), mostra a análise de um filólogo que, tendo vivido o período, procurou entender como a linguagem foi usada para a manipulação ideológica pelos nazistas. Ele defende a tese de que a consolidação do nazismo foi acompanhada de sua dominação da linguagem que conseguiu permear o meio intelectual e popular: “o nazismo se embrenhou na carne e no sangue das massas por meio das palavras, expressões e frases que foram impostas pela repetição milhares de vezes, e foram aceitas inconscientes e mecanicamente” (2009, p. 55).

Ele mostra o uso de certos termos pelo nazismo. É o caso do termo “liquidar” (liquidiert). Oriundo do campo dos negócios, com sentido de fechar, finalizar, transposto para o campo militar, acaba por “reificar” o inimigo, já que “liquidar” estava associado a eliminar os inimigos como coisas, bens materiais. Outro aspecto para o qual chama a atenção é o dar ordens, comandar, que era entendido como determinação superior inquestionável a ser cumprida cegamente (blindlings) transformando subordinados em automatizados, máquinas de cumprir ordens, acionados com sincronização (gliechshalten).

O filólogo também faz a análise do uso de siglas, muito comuns na linguagem nazista. Isso ocorre, por exemplo, com a sigla “SS”, com mostra no capítulo 11, intitulado “Limites mal definidos”, onde diz que “SS é, ao mesmo tempo, imagem e sinal gráfico abstrato, é transposição da fronteira para o lado pictórico, é retrocesso ao aspecto visual dos hieróglifos” (2009, p. 129).

Este mesmo capítulo é concluído com algo que tem relação direta com o que estamos tratando aqui. Diz: “Também neste caso os limites se confundem, surgem insegurança, hesitação e dúvida. Ponto de visa de Montaigne: Que sais-je, o que sei? Ponto de visa de Renan: o ponto de interrogação é o mais importante de todos os sinais de pontuação. É a posição de extremo antagonismo à teimosia e à autoconfiança nazistas” (2009, p. 131).

E, logo em seguida, arremata: “O pêndulo da humanidade oscila entre ambos os extremos, procurando o ponto de equilíbrio. Antes de Hitler e durante o período de Hitler afirmou-se inúmeras vezes que todo progresso se deve aos obstinados e todos os empecilhos se devem aos simpatizantes do ponto de interrogação. Não se pode afirmar isso com certeza. Mas se pode afirmar, com certeza, que mãos sujas de sangue são sempre de obstinados” (2009, p. 132).

O capítulo seguinte, 12, trata exatamente de “pontuação”, sendo que é nele que vai comentar como a linguagem nazista usa “ad nauseam” as “aspas irônicas” [não é o caso do uso de aspas que estamos fazendo agora] como recurso para fazer referência nada neutra a um adversário a ser rebaixado. Um recurso, aliás, ainda muito usual na chamada guerra cultural e nos discursos de ódio em nossos dias.

Uma das características do modo fascista de vida – tão comumente semelhante ao modo neoliberal de vida – foi caracterizado por Theodor Adorno como “ausência de consciência” (2003, p. 121) e de “consciência coisificada” (Verdinglichung) (p. 130). Ele também usa outras expressões, entre elas: “índole dos algozes” (p. 124), ideal da “severidade”, “véu da técnica” (p. 132), naturalização do “ser-assim” (p. 132), indiferença e falta de empatia (p. 134), individualismo (p. 134), neutralidade (p. 136) e “assassinos de gabinete” (p. 137). É exatamente em Educação após Auschwitz (publicado em 1967), onde diz que “a barbárie encontra-se no próprio princípio civilizatório” (2003, p. 120) e que “a barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que tem de fundamental as condições que geram esta regressão” (2003, p. 119). Outro crítico, Walter Benjamin, na VII das teses Sobre o Conceito de História (1940) diz que“Nunca há um documento de cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie” (2005, p. 70). Diagnóstico feito… na ausência da interrogação está a morte da consciência, da reflexão, da crítica… barbárie! Alertas potentes, nem sempre escutados.

Hannah Arendt também já tinha percebido a corrosão da consciência como parte da experiência nazista no livro-reportagem sobre o julgamentode Eichmann em Jerusalém (1999). Ela classificou o que assistia numa expressão que ficou famosa e polêmica: a “banalidade do mal”. Ela mostrou como a ausência do espírito reflexivo leva à resposta burocratizada e funcionalizada que, na verdade, busca “resolver problemas de consciência” invertendo a posição da vítima e do algoz, transformando o segundo na primeira: “em vez de dizer ‘que coisas terríveis eu fiz com as pessoas!’, os assassinos poderiam dizer ‘que coisas horríveis eu tive que fazer na execução dos meus deveres, como essa tarefa pesa sobre os meus ombros’” (1999, p. 122). A rigor, transforma algozes em heróis!

Outro diagnóstico vem de Dardot e Laval, em A Nova Razão do Mundo (2016), que mostra o “sujeito neoliberal”, a “subjetividade empresarial”, caracterizada como uma “subjetivação pelo excesso de si em si ou, ainda, pela superação indefinida de si” (2016, p.  357). Uma subjetividade cheia de si, mas ao mesmo tempo sempre insatisfeita, visto ter um gozo que está “além de si sempre repelido”. Um sujeito que precisa estar o tempo todo fazendo coisas, competindo com os outros – aliás não há outros, há outros coisificados, instrumentalizados – num realismo raso que nunca pode ir além do si mesmo, por si e para si mesmo, numa rotina do mesmo, a todo o tempo. Nada há fora da disputa e da competição, da acumulação, da eficiência, expressão e garantia de sucesso, de “realização”, que nunca pode parar e sequer perguntar pelos meios e menos ainda pelos fins implicados no “desempenho”. Tudo isso reduz a subjetividade à apreensão factual, quando não a dispensa, reproduzindo-se em “pós-verdades”, e “slogans”, estereótipos simplistas, que desestimulam (para ser mais exato, interceptam) todo tipo de parada, de silêncio, de sono, de ponderação, de hesitação, de introspecção, de reflexão… é o império do “doers” – parar é um risco pois pode alimentar o desejo de não seguir… e não dá para aceitar que há limites!

Adorno indica a superação destas condições pela formação da consciência para a reflexão e a autorreflexão crítica e para a resistência (2003, p. 122), já que, o “único poder efetivo contra o princípio de Auschwitz seria a autonomia, para usar a expressão kantiana; o poder para a reflexão, a autodeterminação, a não participação” (2003, p. 125). Sugestão dada… recolocar estas exigências na mesa.

Em Ensinando a Transgredir, bell hooks pede que todos/as: “[…] abram a cabeça e o coração para conhecer o que está além das fronteiras do aceitável, para pensar e repensar, para criar novas visões, celebro um ensino que permita as transgressões – um movimento contra as fronteiras e para além delas. É esse movimento que transforma educação na prática da liberdade” (2013, p. 24).

Há caminhos… mas inacessíveis sem frear a “locomotiva”… há um trabalho ético, político e pedagógico urgente… recuperar o lugar e o tempo da interrogação…

Referências citadas

ADORNO, Theodor W. Educação após Auschwitz. In: Educação e Emancipação. 3. ed. Trad. Wolfgang Leo Maar. São Paulo: Paz e Terra, 2003. p. 119-138.

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Trad. José R. Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

BENJAMIN, Walter. Sobre o Conceito de História. In: LÖWY, Michael. Walter Benjamin:aviso de incêndio. Uma leitura das teses Sobre o Conceito de História. Trad. W. N. Caldeira Brandt [Tradução das teses por J. M. Gagnebin e M. L. Müller]. São Paulo: Boitempo, 2005.

CAMUS, Albert. A Peste. Trad. Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: Record, 1999.

DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A Nova Razão do Mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.

HOOKS, bell. Ensinando a Transgredir:a educação como prática da liberdade. Trad. M. B. Cipolla. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.

KLEMPERER, Victor. LTI: a linguagem do Terceiro Reich. Trad. Miriam B. P. Oelsner. Rio de Janeiro: Contraponto, 2009.

Autor: Paulo César Carbonari. Doutor em filosofia (Unisinos), militante de direitos humanos (MNDH/CDHPF), educador social. Também escreveu e publicou no site “O pensamento tornou-se cego”: https://www.neipies.com/o-pensamento-tornou-se-cego/

Edição: A. R.

Educar para humanizar e resistir à racionalidade neoliberal

O sistema educacional brasileiro, com suas reformas alinhadas aos princípios e preceitos neoliberais, caminha a passos largos na direção do paradigma da “educação para o lucro” caracterizado por Nussbaum (2015, p.13-26) como uma educação que produz “gerações de máquinas lucrativas” em vez de formar “cidadãos íntegros”.

Em seu manifesto ‘Sem fins lucrativos: por que a democracia precisa das humanidades”, a filósofa americana Martha Nussbaum (2015) faz referência a crise silenciosa da educação provocada pela forma como as reformas educacionais tem pautado seus rumos.

“Obcecados pelo PNB, os países – e seus sistemas de educação”, denuncia Nussbaum (2015, p.4), “estão descartando, de forma imprudente, competências indispensáveis para manter viva a democracia”.

Ao centrarem a educação no lucro deixam de considerar o desenvolvimento humano em sua essência. A retirada das disciplinas humanísticas e as artes dos currículos escolares, contribuem para o embrutecimento da civilização. “Se essa tendência prosseguir”, alerta Nussbaum (2015, p.4), “todos os países logo estarão produzindo gerações de máquinas lucrativas, em vez de produzirem cidadãos íntegros que possam pensar por si próprios, criticar a tradição e entender o significado dos sofrimentos e das realizações dos outros”.

Na perspectiva de Nussbaum formar “cidadãos íntegros” é imprescindível para “o futuro da democracia” e com isso ela justifica a presença das humanidades e das artes nos processos formativos, pois estas possibilitam a pavimentação de três dimensões da cidadania democrática: pensamento crítico, cidadania universal e imaginação narrativa.

A dimensão do pensamento crítico, também pode ser entendida como pensamento ou pedagogia socrática. Sócrates, pontuou sua vida, bem como a perdeu, defendendo que a capacidade de pensar e argumentar é indispensável e “valiosa para a democracia”. (Nussbaum, 2015, p.48). Em tempos obscuros e de incertezas, onde o sentimento é que a lei do mais forte prevalece, a autora traz o ideal socrático como modelo a ser seguido, pois acredita que, especialmente nas sociedades plurais da contemporaneidade, é salutar que os alunos aprendam a pensar criticamente e desenvolvam a capacidade de argumentar por si mesmos, responsabilizando-se pelo seu raciocínio, com ênfase no respeito mútuo quando ocorrer a troca de ideias, seja no seu ambiente, ou nos diferentes espaços globais.

Nussbaum (2015) defende que a argumentação é uma prática social e pode ser ensinada e aprimorada no processo educativo. Salienta que não é utópico querer transformar as salas de aula de acordo com a pedagogia socrática, pois basta criar ambientes de respeito à inteligência das crianças e estar atento às suas necessidades. E, é nesse sentido que Nussbaum defende a filosofia, e, demais disciplinas das ciências humanas como competências que a humanidade precisa “desesperadamente para manter as democracias vivas, respeitosas e responsáveis” (Nussbaum, 2015, p.77).

A segunda dimensão diz respeito à cidadania universal. Nussbaum (2015) aponta que os problemas ambientais, econômicos, políticos e religiosos, ao mesmo tempo que “têm um alcance global” precisam ser resolvidos. E para que isso aconteça é necessário a cooperação. Nesse sentido, a autora aposta na educação, independente do nível, para que os estudantes consigam desenvolver “a capacidade” de se descobrirem sujeitos de uma nação e mundo heterogêneos, apropriando-se da natureza e da história desses grupos, tornando-se assim “[..]cidadãos do mundo, ou seja, pessoas que percebem que seu país faz parte de um mundo complexo e interligado e que mantêm relações econômicas, políticas e culturais com outros povos e nações” (Nussbaum, 2015, p. 91).

Nussbaum (2015) salienta que a cidadania universal precisa de conhecimentos verdadeiros, que podem ser adquiridos sem uma formação humanista. Porém, a cidadania responsável requer a capacidade de avaliação, de compreensão, de entendimento, em especial, de como a narrativa foi construída, e, por esse viés, é a formação humanista que vai proporcionar ao aluno as condições necessárias de aprendizagem. A autora endossa que “a história do mundo e o conhecimento econômico […] devem ser humanísticos e críticos se quiserem ter alguma utilidade na formação de cidadãos do mundo inteligentes”, que estes sejam capazes de fornecer “uma base útil para os debates públicos que devemos realizar se quisermos cooperar na solução dos principais problemas da humanidade” (Nussbaum, 2015, p.94).

A terceira e última dimensão que trataremos nesse texto diz respeito à imaginação narrativa, também entendida como a capacidade de pensar e se colocar no lugar do outro, no que tange as emoções, os desejos, os anseios. Nussbaum (2015) defende que compreender esse desenvolvimento é um conceito fundamental “sobre a educação democrática”.

A autora reconhece que tais ensinamentos devem se originar na família, porém as universidades e escolas também desempenham um papel importante para a concretização de tais capacidades, bem como, para que os objetivos sejam atingidos, faz-se necessário “um lugar de destaque no currículo para as humanidades e para as artes” (Nussbaum, 2015, p. 95), dessa forma, se desenvolve uma educação participativa que estimula e aprimora a capacidade do sujeito dando-lhe condições de manifestar a sua  imaginação narrativa, bem como “[…] desenvolver a capacidade de compreender os outros para além de um corpo, reconhecendo a existência de uma alma, fortalecendo os recursos emocionais e criativos da personalidade, possibilitando que nos maravilhemos conosco mesmo e com os outros.” (Fávero, Agostini, Uangna, Rigoni, 2021, p.177)

Para potencializar esse desenvolvimento, Nussbaum (2015) indica e justifica a importância das brincadeiras lúdicas na infância, as canções infantis, as histórias, a poesia, a literatura, as belas-artes, a dança, a música e o teatro. Manifestações necessárias para o desenvolvimento humano saudável e democrático, capazes de proporcionar, “tanto às crianças como aos adultos a motivação para ir à escola, formas positivas de se relacionar entre si e prazer com o esforço dedicado à aprendizagem” (Nussbaum, 2015, p. 118) consideradas imprescindíveis e necessários para mantermos viva a chama da resistência em prol da democracia, aspecto que passaremos a discutir na próxima seção.

O sistema educacional brasileiro, com suas reformas alinhadas aos princípios e preceitos neoliberais, caminha a passos largos na direção do paradigma da “educação para o lucro” caracterizado por Nussbaum (2015, p.13-26) como uma educação que produz “gerações de máquinas lucrativas” em vez de formar “cidadãos íntegros”.

Essa direção se torna explícita quando analisamos a reforma do ensino médio, a BNCC e mesmo a BNC-Formação. Empreendedorismo, flexibilização, competências, habilidades, gerencialismo, itinerários formativos, inovação, dentre outros, gestão da sala de aula, empresário de si mesmo, são termos do mundo empresarial que aos poucos foram sendo incorporados pelo currículo e passam a fazer parte da formatação da escolarização das crianças e jovens.

A democracia passa a sofrer sérios abalos quando instituições importantes como a escola, a universidade e mesmos os poderes instituídos do Estado passam a ser instrumentalizados pelos donos do capital e, no caso do Brasil, pela elite do atraso. Em seu estudo A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato, o sociólogo Jessé Souza (2017) analisa com detalhes o pacto feito entre os donos do poder (elite do atraso) no Brasil com processos pseudodemocráticos para perpetuar uma sociedade cruel forjada na escravidão, ou seja, uma forma perversa de instituir com requintes de democracia um processo de dependência dos mais pobres marcados pela lógica da casa-grande/senzala.

Nas análises de Souza (2017), torna-se temerário e quase impossível avançar num processo de democracia profunda, quando impera na mentalidade da elite do atraso o imaginário de que o único problema do Brasil é a corrupção na política, de que o Estado patrimonialista é corrupto, enquanto que o mercado é santo e de que a solução de todos os problemas, inclusive na educação, é resolvida pela ação livre do mercado. Essa mentalidade possibilita a naturalização de um processo cruel da criação da ralé de novos escravos como continuação da escravidão do Brasil moderno. A mercantilização da educação contribui para pavimentar este processo, na medida em que desconstrói o princípio constitucional da educação como direito e passa a tratá-lo como privilégio de quem tem dinheiro para pagar.

Educar para humanizar e resistir à racionalidade neoliberal significa desenvolver nos espaços escolares processos de conscientização e de leitura crítica da realidade. Tal processo pode acontecer quando a sala de aula não for limitada um simples espaço e tempo de ocupação dos alunos com atividades mecânicas ou com o treinamento da recepção passiva de saberes técnicos.

Tornar a sala de aula um espaço vivo, dinâmico, colaborativo, dialógico, propositivo e provocativo para pensar outros mundos possíveis, é uma forma de resistência à racionalidade neoliberal. É dessa forma que a vida se mais importante que a ganância por lucros, o conhecimento mais significativo que a performance e a convivência fraterna, mais apreciada que a competição destrutiva. Assim, talvez teremos mais chances de fazer da educação um processo de humanização e de democratização da vida coletiva.

Para as que desejarem aprofundar e ampliar as leituras sobre essa temática indico os diversos capítulos que compõe a coletânea Humanidade: futuro comum, organizada pelos amigos Luiz Carlos Bombassaro e Paulo Cesar Nodari. Segue o link de acesso da coletânea completa:

https://www.researchgate.net/publication/376499707_O_NEOLIBERALISMO_PEDAGOGICO_NA_EDUCACAO_O_GERENCIALISMO_EDUCATIVO_EM_DETRIMENTO_A_HUMANIZACAO

Referências:

FÁVERO, Altair Alberto; AGOSTINI, Camila; UANGNA, Elia Maria Leandro; RIGONI, Larissa Morés. Educação das emoções e formação humana: a imaginação narrativa na perspectiva de Nussbaum. In: FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina; CONSALTÉR, Evandro; CENTENARO, Juniro Bufon (orgs.). Leituras sobre Martha Nussbaum e a educação. Curitiba/PR: CRV Editora, 2021, p. 173-188.

NUSSBAUM, Martha. Sem fins lucrativos porque a democracia precisa das humanidades; tradução Fernando Santos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015.

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

Autor: Altair Alberto FáveroE-mail: altairfavero@gmail.com Professor e Pesquisador do Mestrado e Doutorado em educação UPF. Também escreveu e publicou no site “Ética e docência: desafios do tempo presente”: https://www.neipies.com/etica-e-docencia-desafios-do-tempo-presente/

Edição: A. R.

Sala de professores e professoras: que lugar é este?

Alguns aspectos julgo importantes: que a sala dos professores e professoras seja um ambiente acolhedor, de camaradagem, de socialização de angústias e dificuldades naturais do ato de ensinar e aprender, de suporte e acolhimento emocional de cada professor e professora, de respeito e reverência às singularidades formas de ser de cada um e cada uma.

Há muito tempo me chama atenção o espaço e a finalidade das salas de professores nas escolas, principalmente nas escolas públicas, que são as que mais conheço. Já trabalhei em 06 diferentes escolas e, a partir delas, reúno condições para considerar alguns aspectos desta reflexão que segue.

Querido leitor/a, seja você professor ou não, talvez lhe interesse muito saber de algumas coisas sobre salas de professores ou ser capaz de reparar outras coisas de uma sala de professores de uma escola que você conheça.

Particularmente, eu gostaria que as salas de professores refletissem um pouco sobre o que acontece nas escolas e que traduzissem filosofias, métodos e formas de organização escolar. Não importa o tamanho, nem a forma de uma sala de professores: importa como cada escola trata um dos sujeitos principais da aprendizagem escolar: os professores e professoras.

A sala dos professores é uma janela de cuidado, um intervalo de tempo onde professores e professoras se fortalecem e se apoiam mutuamente.  Daí entra o papel dos gestores que deveriam sempre valorizar o trabalho docente. Descuidar da sala de professores é uma forma sutil de controlar professores e professoras.

Li, há um certo tempo, mas não achei mais, texto que dizia que sala de professores é um lugar de humanização, como também um lugar de resistência e da valorização docente, como também um lugar de construção de resiliência. Concordo com todas estas finalidades, mas percebo que não é em todas as escolas que este ambiente tão importante para os professores e professoras é assim tratado.

Neste contexto, recebo de uma colega professora a seguinte mensagem:

Oi. Você não gostaria de escrever um texto sobre a sala dos professores? Estamos sendo proibidos de comentar sobre várias coisas nesse ambiente, desabafar, lamentar…penso que se nos tirarem o sagrado direito de nos acolhermos e solidarizarmos entre os pares não nos sobrará mais nada. Gostaria que escrevesse sobre isso.

Queremos ter nesse ambiente a escuta e a voz que perdemos. Não é sala da direção, é sala dos professores. Eu quero rir, chorar, reclamar, calar…

Não adianta mobiliário legal, cafezinho, AC, etc, se a gente não se sente bem. Mais vale um barraco onde tem felicidade do que um palácio de opressão. Tem professor que fica na sala de aula no recreio ao invés de frequentar a sala de professores…

Esta mensagem acima, nua e crua, que trato como um relato dramático de uma colega professora, é a motivação para esta reflexão de agora.

Fiquei a me perguntar: como é que transformaram algumas salas de professores em ambientes tão tóxicos que levam alguns professores e professoras a não quererem estar lá? Quem está falhando? Como trabalham professores e professoras em escolas que não oportunizam o seu sagrado direito de descansar, tomar um cafezinho (é claro) e jogar conversa fora para se distrair ou, quiçá, descansar?

Inquietei-me e fui, então, fazer uma busca no Google! Lá encontrei poucos textos sobre Sala de professores. Pesquisei, então, o título: reflexão de professores sobre sala de professores. Encontrei nada!

Mas um texto, chamou-me particular atenção. O texto chama “Sala de professores: a escola precisa investir neste espaço”, escrito por Carla Helena Lange, 18 de maio de 2023.

Segue o link do texto: https://www.sponte.com.br/sala-dos-professores-entenda-por-que-voce-deve-investir-nesse-espaco/

Deste texto listado acima, farei alguns recortes que julgo importantes e relevantes. Seguem.

  1. “Assim como os alunos precisam de ambientes adequados para fazer os intervalos entre as aulas, os professores também necessitam de um local para descanso, interação e atividades individuais.
  2. O pesquisador Telmo Caria, que trabalhou, em sua tese de doutorado, com a temática da cultura profissional, concluiu que o espaço de coletivização docente é parte integrante e importante da cultura escolar, pois traduz o nível de interação e de aprendizagens entre pares. Isso porque é onde os professores passam a maior parte do tempo quando não estão em sala de aula. 
  3. Caria diz ainda que a sala de professores deveria ser um lugar privilegiado de coletivização do trabalho dos professores, e também de informalização e internalização das atividades deste grupo. 
  4. … em aspectos gerais, esse espaço, em vez de ser destinado à partilha de experiências e integração social da profissão, é destituído da sua função quando abre espaço para que circulem e permaneçam vários outros profissionais que não estão ligados à estrutura técnico-pedagógica da instituição.
  5. Também não se pensa em sua arquitetura ou disposição dos móveis, as mobílias são desconfortáveis, geralmente é um lugar mal equipado, sem graça, nem conforto. Mas deixar a sala dos professores de lado é um erro. Esse tipo de tratamento ao ambiente inibe qualquer prática ou interação positiva, uma vez que os próprios docentes não se sentem acolhidos ou à vontade para conviver, trabalhar e estudar. 
  6. Uma estrutura inadequada tem impacto direto na produtividade, na motivação, no relacionamento da equipe, no intercâmbio e fluxo de ideias e, consequentemente, na qualidade dos serviços prestados em sua escola. 
  7. Sendo assim, o espaço destinado aos professores merece atenção, não apenas para atender o tempo de pausa dos docentes, mas por propiciar um ambiente que incentive a interação, o trabalho em conjunto, a troca de ideias e, consequentemente, o desenvolvimento de técnicas pedagógicas a serem aplicadas em sala, o debate, o lazer e bem-estar da equipe e o engajamento entre os professores.
  8. Tão importante quanto a estrutura, o clima da sala dos professores é primordial para que o ambiente cumpra seu propósito de integrar e servir como apoio aos educadores para mantê-los engajados. Nesse sentido, a escola pode interferir ativamente nas relações que ocorrem dentro dela, como o relacionamento entre colegas, gestores e alunos, estimulando um ambiente de diálogo, empatia e reflexão.
  9. Mesmo que a escola não tenha muitos recursos, se a sala for pensada e concebida com essa finalidade, será um movimento natural que os educadores se sintam convidados a frequentar esse espaço e conviver”.

Na mesma linha de pensamento, localizei documento em PDF com o título: “Sala de Professores: espaço de socialização profissional?”. Segue link: https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/20893/20893_6.PDF

Acreditamos que as salas de professores e professoras deveriam ser ambientes acolhedores, de camaradagem, de socialização de angústias e dificuldades naturais do ato de ensinar e aprender, de suporte e acolhimento emocional de cada professor e professora, de respeito e reverência às singularidades formas de ser de cada um e cada uma. Desta forma, este espaço único e singular traria aos professores e professoras um ambiente de valorização e consideração, num contexto onde sala de aula e sociedade duelam para questionar, sem tréguas, a sua nobre e insubstituível função de humanizar através dos conhecimentos.

Os professores e professoras reclamam e querem de volta a sala de professores como um espaço de acolhida, descanso, amparo e liberdade (individual e coletiva). Querem também que este lugar acolha sentimentos, ideias, críticas e angústias que envolvem sua vida profissional, justamente com quem convive sob as mesmas condições: seus pares.

Fica, como sugestão, breve resenha do filme “A sala dos professores”, lançado em 2023:

“A Sala dos Professores é uma abordagem inteligente e ousada à profissão de docente, aos protocolos no domínio educativo. Quem pensa que o filme exagera faria bem em dar uma olhada em qualquer instituição de ensino hoje. Obviamente, trata-se de ficção, e a equipe do filme sabe criar um ritmo sensacional, administrando as informações com muita habilidade, evitando tramas secundárias que prejudicariam a enorme tensão deste thriller, que em nenhum momento é uma paródia. A inclusão na história do jornal escolar, as conversas com o pessoal administrativo, a conduta da diretora, etc., é muito inteligente nesse sentido”. Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/cultura/thriller-escolar-a-sala-dos-professores-aborda-educacao-como-poucos-filmes/

Em outra publicação do site, um relato do desafio de um professor novato numa sala de professores. Recomendamos leitura! www.neipies.com/um-ambiente-desafiador-chamado-sala-de-professores/

Autor: Nei Alberto Pies, professor, escritor e editor do site.

Edição: A. R.

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