Como tem passado? Sinto-me melhor nestes últimos dias. Há um mês você veio me ver, mas parece que faz anos, pois hoje a saudade sua me bateu fortemente.
Gosto de conversar com você e do seu olhar de borboleta quando me observa atentamente a falar as minhas palavras de velha que já não tem mais paciência para as pessoas sem corações desse mundo cruel.
Menininha, ontem queimei a minha mãe com água fervente. Aprontava-me para fazer uma xícara de café quando tomei um susto ao ver, ao longe, um pássaro azul cantar no meu jardim florido. O pássaro fez-me lembrar do azul dos seus olhos, desse olhar assustado que só você tem, desse olhar que carrega o mar dentro de si sem ondas bravas. Os meus dias têm sido tranquilos, sem novidades.
A mesma solidão de sempre, a ausência de um não-sei-o-quê dentro de mim, a dúvida em relação à existência de pessoas de bom coração e aquela vontade de retomar a costura da colcha de retalhos largada no fundo do baú há mais de dez anos. Parece até que estou perdida dentro da minha morada, não falo da minha casa de tijolos, mas da minha morada-ser, existência fugaz em mim, que me toma de arrebatamentos e me enche o peito de angústias a pensar nas criaturas que viraram pedras e esqueceram a bondade, a caridade, o amor. Quero salvar o pássaro azul que brinca em meu jardim do medo de ser esquecido em lugares que habitam a existência.
O bolo de chocolate que me trouxe na sua última visita estava gostoso e comi quase todo quando você partiu.
Gosto de bolos com café. O café me faz parecer mais gente fora de mim, pois tenho sentido a presença de monstros ao meu redor.
Monstros da ignorância e da insensatez humana que descobriram a estrada da minha morada. Menininha, a casa está cheia de poeira e há num porta-retratos a nossa foto juntas. Estou abraçada a ele neste momento. Tenho o seu sorriso nos meus braços. Você que gosta de sorrir e dá bom dia à vida.
Você que não se assusta com os monstros das madrugadas, porque no seu quarto de dormir vivem anjos que a protegem. Como eu queria ter um anjo protetor! Sabe, menininha, chega uma hora na vida que é melhor pintar telas com os dedos e rabiscar a areia com pincéis de madeira. Faz dias que tenho procurado, em vão, pintar o seu sorriso. Você que é doce igual ao mel.
Preciso parar de escrever. A noite vem caindo e tenho que tirar a roupa do varal. Lavei roupa hoje cedo. As roupas gostam de sabão que cicatrizam a sujeira de dizer-se não à solidão de serem largadas ao léu, quando já não servem mais para vestirem o corpo, pois têm o cheiro de cansaço. Ninguém quer cansar-se. Todos querem fôlego para descobrirem novas ruas dentro e fora de si. Vou indo, menininha. Fique com Deus. Venha me visitar sempre que puder.
Um abraço,
Rosângela Trajano.
Observação: Gosto de escrever cartas para pessoas imaginárias. Criei esse personagem e tenho escrito cartas filosóficas para ela. “Menina do vestido vermelho” representa todas as crianças deste querido Brasil.
Antonio Mesquita Galvão sempre foi um autor referência em moral e ética na perspectiva que aprendi na minha formação crítica-humanística: não haverá paz sem que haja justiça.
Em 1997, escreve livro com o título “A crise da ética: o neoliberalismo como causa da exclusão social”. Tenho este livro e reli o mesmo para escrever esta reflexão.
Em seus 90 livros escritos, Antônio Mesquita Galvão revela-se profundo conhecedor dos temas que relacionam ética, moral e cristianismo.
Assim se revela: “enganem-se ao me imaginar cristão de sacristia: sou atuante, trabalho em comunidades (…), ministro da esperança, dou aulas em casas de formação, assessoro workshops de teologia, coordeno círculos bíblicos e animo retiro de padres, religiosos e leigos. Inscrevam-se! Se querem currículo, deixei de dizer “Mestre em escatologia”. Desculpem por eu ter estudado. Ok?”
Em 97 escreveu: “A falta de ética pode ser encontrada no fim de muitos raciocínios indagadores a respeito da desordem social que há em nosso país”. Naquele contexto, o Brasil sofria as consequências nefastas das ideias neoliberais que eram aqui implantadas.
Crise da ética e ausência de justiça hoje
Vinte anos depois, o Brasil descobre-se corrupto. A corrupção, embora reconhecida problema grave, está longe de ser um problema suficientemente sério para ser levada a sério por todos os brasileiros.
Prossegue Galvão: “A ética, como ethos (bom comportamento moral vivido à luz do direito natural), não é vivida nem buscada, e, por configurar-se uma situação de injustiça, não há paz.
“A justiça produzirá a paz!” (Is 32,17), ensinou o profeta.
“a falta de paz numa sociedade é indicador da ausência de justiça. E, nesse particular, ética e moral funcionam como colunas de justiça”.
Redescubro Galvão agora em setembro de 2016, afirmando seu histórico de estudos e reflexões na área: (eu lecionei Ética na universidade e escrevi dois livros sobre o tema, Crise da ética e Ética cristã e compromisso político) publicando um artigo no Zero Hora.
Neste artigo, o autor afirma que no Brasil acontecem coisas curiosas se não fossem trágicas e imorais, que vistas com olhos da ética formal chegam a revoltar e nos levar a duvidar da instauração de um Estado decente.
Questiona o uso indiscriminado e abusivo do Instituto da Lei Penal, a delação premiada: “Não é porque o bandido “entrega” o resto da quadrilha que ele mereça credibilidade para tomar parte ativa no processo, ou se torna menos bandido”.
Escreve também: “nos subterrâneos da ética constata-se a prática pragmática dos fins que justificam os meios. O cara é criminoso, corrupto ou calaveira, mas para ajudar a justiça ele recebe o placet, como se testemunha honesta fosse”.
“Incentiva-se os jovens às atitudes morais, mas ensinamos a delação premiada, que é uma ruptura ética”.
No final do livro, em 1997, Antônio Mesquita Galvão apresenta a reforma da consciência política como solução para o resgate da justiça, da equidade e da vida abundante para o povo, o que parece ser uma exigência contemporânea.
Assim escreveu: “a sociedade cristã tem na conscientização e responsabilidade política quem sabe o único caminho para estabelecer a maior revolução de todos os tempos: transformar a sociedade pelo amor, pela reconciliação e pelo entendimento”.
Concordo e retomo as sugestões de Galvão. Perspectivas de ação cidadã e da ética e da moral, com novos desdobramentos para as novas gerações. Enquanto não praticarmos a justiça, não haverá possibilidades de paz!
A crise assola o país
como a crase aflige a escrita.
O kraquen não está nos mares,
mas o craque está em campo,
o crack está na rua!
Por trás das cortinas do teatro abandonado
mofa um espetáculo que nunca foi censurado.
A vida só ganha um pouco de graça
quando de graça é a cachaça.
Os dias estão cada vez mais longos
e o dinheiro diário já não quita as 24 horas.
A vida passa feito um curta-metragem
girando eternamente no rolo da rotina…
A TV não te vê, mas te hipnotiza!
É o espelho da beleza
que não reflete o que agoniza.
O céu escuro não leva chuva para o sertão.
E o ser, tão frágil, acha que fumaça é nuvem.
Nu vem o saldo,
nu vem o prato…
Talvez uma prece
ou o apreço de um deputado.
Talvez um desvio
ou um dinheirinho roubado…
A fé,
a febre do ouro.
O suor frio que escorre no couro
e desejo de ter
que supera o de ser
Lutamos com espadas cegas,
sem fio.
Como esses olhos que já não enxergam,
mas que tapam os buracos
de um crânio
vazio…
O melhor lugar do mundo é onde somos capazes de ser amantes e amados. Há um mês vivo a experiência de descobrir e amar um novo mundo. A África, ainda que desconfiada pelas tantas estranhezas que carrego, me mostrou que a melhor acolhida acontece na simplicidade e na ternura.
Dia 13 de setembro fui recebida com cantos, batuques e sorrisos na comunidade missionária da Igreja do Rio Grande do Sul em Moma, distrito da Província de Nampula, norte de Moçambique. Aqui, atendemos duas paróquias e cerca de 150 comunidades.
A chegada e a recepção calorosa do povo africano
Assim que cheguei ganhei de presente da outra missionária de nossa equipe uma capulana. O pano, sempre colorido, retrata cheio de poesia a vida e a cultura deste povo. Utilizada para vestir, a capulana acolhe também o alimento sobre a mesa e a criança nas costas de sua mamá. Com o presente, lembrei-me de Jesus ao lavar os pés de seus amigos. “Ele se levantou da mesa, tirou o manto, pegou uma toalha e amarrou-a na cintura”.
Assista vídeo da chegada (minha e de Dom Jaime Kohl)
Para mim, foi assim que Jesus ensinou que precisamos sair do nosso egoísmo, do nosso casulo, para ir ao encontro dos outros. Quando nos desfazemos do nosso manto, nos despojamos dos fechamentos, preconceitos, medos e inseguranças que nos limitam ou bloqueiam no serviço ao irmão. A capulana foi para mim a porta deste mundo cheio de novidades.
Certamente um mês é pouco para qualquer impressão, mas uma coisa é certa: cada mão estendida nos lugares que chego me ajuda a compreender que caminho nos trilhos da felicidade. Especialmente nestas horas sinto que minha vida é útil e ganha sentido no olhar ainda curioso daqueles que me acolhem.
Se tem uma coisa que já aprendi é que aqueles que pouco ou nada têm a perder são ótimos anfitriões.
Seus sonhos e suas esperanças – os maiores bens que têm – não podem ser roubados pelos que chegam.
Aos poucos Moçambique se revela na história e na vida do seu povo. Quando comemos com eles, sentamos a sombra de cajueiros e mangueiras, caminhamos em suas trilhas e partilhamos seus alimentos, é que podemos perceber seu dom de transformar a angústia em esperança.
Seguimos juntos, em ação missionária pela vida e pelo novo mundo que acreditamos.
No mês do professor, a entrevista da série “Profissões Educadoras” faz uma homenagem aos Mestres, apresentando o perfil da professora Marta Borba. Sua história com o magistério iniciou há 30 anos, é formada em Letras com especialização em Língua Portuguesa, atualmente, leciona na Escola Municipal de Ensino Fundamental Wolmar Salton, de Passo Fundo, RS.
Mesmo após três décadas, ainda, é possível perceber que o tempo não tiro o encantamento do olhar de quem continua apaixonada pela profissão. “Tive um encantamento pela leitura e foi ela que me conduziu ao curso de Letras”, lembra emocionada a professora.
A sua abnegação pelas causas do magistério e sua paixão pelo fazer pedagógico refletem-se em cada palavra dita com amorosidade, no sorriso largo e no brilho dos olhos.
Marta se define como uma militante na educação, “nesses 30 anos de atividades em diferentes escolas, com diferentes gestores, só tive satisfação ao longo da minha caminhada profissional e sigo nela porque acredito nessa militância do professor que aprende todo dia”, destaca.
Durante a entrevista percebi Marta, não só como a professora que ensina, mas como uma educadora que aprende. E vou além! Compreendi em poucos minutos de conversa que para essa professora, sua profissão tem outros significados: encantamento, militância e paixão.
Entrevista
Márcia Machado: Como a senhora analisa seus 30 anos de profissão ?
Profª Marta: A academia te oferece a fundamentação teórica e práxis se vai adquirindo com o passar do tempo. Eu tenho 30 anos do que chamo “militância na educação”, sou uma apaixonada pelo fazer pedagógico, pelas causas da educação, nesses 30 anos de atividades em diferentes escolas com diferentes gestores da área, só tive satisfação ao longo da minha caminhada profissional e sigo nela porque acredito nessa militância. Militância do professor que aprende todo dia, principalmente, nos cenários atuais nos quais estamos inseridos. Essa postura de que não somos mais os detentores do saber, nos leva a interação do aluno com professor e assim vamos colocando em prática o que a teoria nos diz.
Militância do professor que aprende todo dia, principalmente, nos cenários atuais nos quais estamos inseridos.
Márcia Machado: Poderia traçar um paralelo entre a educação há 30 anos e a educação na atualidade?
Profª Marta: A gente tem ouvido de alguns palestrantes, nos momentos de formação, a seguinte reflexão: se um profissional do século passado voltar, por exemplo um cirurgião, vai se espantar pela evolução que ocorreu nas salas cirúrgicas, já um professor se retornar do passado, vai encontrar a mesma sala de aula. O que será diferente é a clientela que irá encontrar lá dentro. O caminho para humanizar é o mesmo caminho, entretanto, as ferramentas são outras, o sujeito é outro. No cenário atual temos um conhecimento muito efêmero, muito rápido, e o professor tem que estar atento a isso, para que este sujeito que está com você seja criança, adolescente ou adulto, seja percebido em sua individualidade. Lembrando que a questões humanísticas passam sempre pelo sujeito e as ações e ferramentas tecnológicas, devem contribuir para que o aluno se torne um cidadão de direitos e de deveres, uma pessoas humana de fato. Essa é a dificuldade nos dias atuais diante de cenários tão adversos.
Márcia Machado: A senhora fala da humanização do sujeito, como o professor colabora nessa formação?
Profª Marta: Eu utilizo a literatura como ferramenta. Na literatura no “O Livro dos Abraços”, de Eduardo Galeano (escritor uruguaio), no conto do menino que não conhecia o mar e que pediu para que o pai o levasse para vê-lo, e quando chegaram diante aquela plenitude toda, o menino agarra-se na mão do pai e diz a seguinte frase: Pai me ajuda a olhar! Então a minha profissão, através da literatura tem o objetivo de que o sujeito que passa pela minha sala de aula desenvolva sua capacidade, sua habilidade de olhar o mundo, de olhar os seres que o compõe.
Márcia Machado: Como percebes a contribuição da sua profissão na sociedade?
Profª Marta: Como muito importante. Do ponto de vista de que nós professores sabemos muito bem o quão é importante a nossa ação, nossa militância diante de uma sociedade tão díspare, tão diferente, e a cada ano tantos desafios surgem na área da educação. Nós estamos sempre com uma corda no pescoço, em termos de investimentos na aŕea da educação e isso para o professor é mais um desafio. Além da função que temos, do compromisso que temos, nós sabemos que os nossos gestores, ao longo das décadas não vêm fazendo a sua parte e isso dificulta prá nós.
Márcia Machado: Quais os desafios de ser professora na atualidade?
Profª Marta: Os desafios de sala de aula são o encantamento. Nós temos hoje uma geração que ao mesmo tempo que ela tem acesso à informação, temos notado que existe uma memória muito curta e isso tem nos desafiado. O que tem me encantado, principalmente nesses últimos anos, em especial neste ano trabalhando com crianças de 10 a 12 anos em sala de aula, os sextos anos, eu percebo de que quando faço um paralelo de memória longa trazendo fatos eles se sentem mais atraídos pela disciplina. Essa semana um menino me disse “não sei o que o meu filho vai dizer no futuro, mas quando vocês me falam que estudaram com disquete, com video cassete eu fico pensando que os meus filhos vão dizer: poxa isso era de passar o dedo? Pois eu penso que no futuro seremos teleguiados”. Quando a gente traça esses paralelos conseguimos dialogar com as memórias, traz um encantamento para a gente. As crianças são muito questionadoras, um exemplo, os pronomes de tratamento, quando citei Vossa Senhoria, Vossa Excelência e Digníssimo, um aluno interpelou-me, “mas professora onde que se usa isso, com quem se usa?” Informei-lhe com autoridades e sem terminar minha frase ele questionou, “mas os deputados quando usam o Vossa Excelência é um tratamento muito irônico”. E essa análise veio de uma criança de 10 anos. É esse ser crítico que está aí e que anima a gente a continuar, mesmo diante a todos os desafios da educação. O futuro tem que ser construído hoje.
Os desafios de sala de aula são o encantamento.
Márcia Machado: A sua profissão por si só é educadora. E o que mais?
Profª Marta: Percebo que o professor hoje, está desafiado para além da sala de aula, eles precisam estar sim envolvidos nas questões que dizem respeito a sua profissão, porque a importância dela vai além da escola. Então a militância no seu sindicato, a militância junto dos seus pares me parece que poderá fortalecer sim a classe para buscar esse respeito na sociedade que não o temos.
A militância no seu sindicato, a militância junto dos seus pares poderá fortalecer sim a classe para buscar esse respeito na sociedade que não o temos.
Márcia Machado: Como analisa o atual momento pelo qual a educação passa no nosso país?
Profª Marta: No meu ponto de vista, em relação aos gestores, com esse corte de investimentos em nível de país, com a aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição 241/16 – PEC 241) que congela todos os investimentos na área por 20 anos, as dificuldades nossas serão enormes provavelmente não haverá investimentos em infraestrutura, em ampliação reformas, por exemplo, teremos mais dificuldade que já vínhamos tendo e imagina com esses cortes anunciados, vejo com temeridade essa situação.
Márcia Machado: Já que citou a PEC 241, qual a sua opinião sobre a Medida Provisória de Reestruturação do Ensino Médio (MP 746)?
Profª Marta: Como defensora da escola pública eu vejo que ela é quem sai perdendo porque o filho do trabalhador tem os mesmos direitos do filho do patrão e se lhe é negado ter acesso aos bens culturais ao longo da história construídos, é novamente uma discriminação muito grande porque não ter acesso à música, à arte, sendo que é fundamental para as outras áreas esse desenvolvimento das crianças. Claro que a reforma está voltada para os alunos do Ensino Médio, e isso tem trazido a reflexão que essa reestruturação vai dobrar a responsabilidade do Ensino Fundamental e já são tantos os desafios para oferecer essa primeira alfabetização da criança. Vamos ter que rever também os nossos currículos de atividades, para que estendam o quanto mais puderem no atendimento da arte, da educação física, por exemplo. Questiono muito a forma pela qual o governo optou por fazer a reforma sem consulta as bases.
Márcia Machado: Para onde se encaminha a educação?
Profª Marta: Se depender dos professores com certeza nós não vamos deixar que nosso país tenha uma baixa qualidade, ainda não é mais baixa porque eu acredito na valoração do que o professor faz diante de tantas dificuldades, principalmente salarial. Nós temos uma carga horária excessiva e precisamos nos desdobrar para conseguir sobreviver.
Acredito muito no potencial do professor, não sei te precisar assim se vai conseguir ter avanços, mas de coração dizer que a utopia que está no coração dos professores é o que nos move.
Márcia Machado: Defina numa frase sua missão enquanto professora na sociedade.
Profª Marta: Posso citar Mario Quintana “o jardim não morre por falta de cuidado, ele morre pela indiferença de quem passa por ele e não lhe vê “
O modo inadequado como as sociedades vem utilizando os recursos naturais de tem levado a muitas consequências, sobretudo para o meio ambiente que vem sendo cada vez mais degradado e onde o ser humano tem visado apenas o lucro em detrimento da degradação ambiental.
Diante dessa situação, o Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Alto Jacuí (COAJU) realiza atividades de educação ambiental, tendo como um dos principais objetivos a consciência de coletividade em prol dos Recursos Hídricos e a compreensão de que a responsabilidade pela solução é de todos.
Atividades do COAJU nas escolas
No período de abril a novembro de 2016, o Comitê Alto Jacuí visitou escolas públicas dos municípios de Carazinho, Santo Antônio do Planalto, Chapada, Saldanha Marinho, Quinze de Novembro, Mato Castelhano, Colorado, Tio Hugo, Mormaço, Ibuirapuitã e Vitor Graeff.
Essas localidades fazem parte da Bacia Hidrográfica do Alto Jacuí. Durante os encontros, o comitê debate com alunos e professores temas como gestão dos Recursos Hídricos, democratização o poder de decidir, qualidade e disponibilidade da água, preservação dos recursos naturais e a importância dos rios e suas nascentes.
O que é uma bacia hidrográfica?
O que é uma bacia hidrográfica, um comitê de bacia e quais suas atribuições são conceitos apresentados ao público presente, por meio da cartilha de educação ambiental do COAJU. Denominada “Água – tão preciosa quanto a vida”, a cartilha foi desenvolvida pelo Comitê, juntamente com Agencia de Comunicação (Agecom), da Universidade de Passo Fundo. O público alvo são crianças e adolescentes entre 9 e 15 anos e utiliza como estratégia de comunicação o “Coajuzito”, um Jacu ave símbolo do COAJU. A cartilha também divulga ações do COAJU e cuidados com a água.
Essas atividades fazem parte do projeto “COAJU nas Escolas” que tem como principal objetivo construir valores e relações sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências que contribuam para a participação das crianças, familiares e comunidade escolar na preservação das águas e seu uso racional na Bacia Hidrográfica do Alto Jacuí.
Entenda mais sobre o COAJU
O Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Alto Jacuí (COAJU) é conveniado com a Vice-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários, da Universidade de Passo Fundo. É composto por representantes dos usuários de água, da população da bacia e de órgãos públicos. O COAJU foi criado em 2001 e abrange 42 municípios. É uma instância social, democrática e deliberativa, onde a população e usuários da água, juntamente com os órgãos do governo, interagem para gerenciar a qualidade e a disponibilidade das águas da Bacia Hidrográfica do Alto Jacuí.
Municípios de abrangência
Alto Alegre, Arroio do Tigre, Boa Vista do Incra, Campos Borges, Carazinho, Chapada, Colorado, Cruz Alta, Ernestina, Espumoso, Estrela Velha, Fortaleza dos Valos, Ibarama, Ibirapuitã, Ibirubá, Jacuizinho, Júlio de Castilhos, Lagoa Bonita do Sul, Lagoa dos Três Cantos, Lagoão, Marau, Mato Castelhano, Mormaço, Não-Me-Toque, Nicolau Vergueiro, Passa Sete, Passo Fundo, Pinhal Grande, Quinze de Novembro, Saldanha, Marinho, Salto do Jacuí, Santa Bárbara do Sul, Santo Antônio do Planalto, Segredo, Selbach, Sobradinho, Soledade, Tapera, Tio Hugo, Tunas, Tupanciretã e Victor Graeff.
[quote_box_right]Somemos diferentes protagonismos para ocuparmos e transformarmos nossos espaços públicos numa Cidade Educadora![/quote_box_right]
O prédio histórico da Viação Férrea, Antiga Estação de Passageiros, restaurado por fora, rodeado por obras de revitalização, é um monumento arquitetônico e cultural da nossa cidade.
Eu vivi essa história, percorri os trilhos dos trens nas idas e vindas pela cidade durante minha fase juvenil. Vi, por exemplo, amigos embarcarem nos trens para defender a Legalidade em um movimento civil e militar, após a renúncia de Jânio Quadros.
Em 1961 o levante liderado por Leonel Brizola, com o intuito de defender a ordem jurídica e a posse de João Goulart – vice-presidente -, levou jovens daqui, levando o choro de famílias, namoradas e amigos, para Porto Alegre. A imagem desse episódio está muito vivo na minha memória.
Com o desmantelamento da Rede Ferroviária, o espaço foi abandonado e subaproveitado, quando merecia outra coisa.
Com o tempo, a Feira do Produtor abrigou um movimento em prol dos produtores organizados protagonizado pelo Dr. Edson Nunes, que conseguiu implementar a fiscalização dos abates de animais, de higiene e racionalização da indústria familiar, criando uma nova cultura. Foi o marco para novas exigências sanitárias e a valorização dos que trabalham no campo.
Com a revitalização do Parque da Gare, os produtores ganharam um novo espaço, que adoro frequentar. É lá que a cidade gira, se encontra, aprende o que tem valor.
Cabe a nós discernir, agora, o que é produzido aqui, em detrimento ao que é somente revendido. Nosso produtor rural não pode ser somente um atravessador, mas alguém que realmente pretende qualidade como Edson Nunes um dia sonhou.
Um espaço de suporte para uma Cidade Educadora
A Associação dos Livreiros de Passo Fundo (ALPF), inteligentemente, após a desocupação do prédio histórico, com o espírito dos protagonistas da história, solicitou o espaço para a Mini Feira do Livro, em preparação à Feira do Livro, tão do gosto e tão consagrado em nossa cidade.
Foi um festival de alegria, espírito comunitário e muito trabalho. Entraram em cena pessoas e mui trabalho para desinfetar e limpar o ambiente. O prédio ficou um brinco! Tudo limpo e cheiroso e virou palco do que mais gostamos: livros a mancheias! Livros pra que te quero! Uma belezura!
Deste cenário nasceram ideias! Queremos mais! Queremos o espaço Roseli Preto com a mesma beleza dos canteiros que fazem frente aos três prédios históricos. A Academia Passo-Fundense de Letras, O Museu Ruth Schneider e o Teatro Múcio de Castro merecem um largo revitalizado, no espaço que lhes faz costas.
Imaginamos o galpão do Comitê da Cidadania, agora desativado, como um espaço de arte. Imaginamos nossos grafiteiros, nossos amantes do hip-hop, nossos esqueitistas ocupando e dando vida colorida ao galpão. Por que não? E aquele espaço à frente da Biblioteca Pública não merece ser um jardim? Com quiosques? Hein?
Cidade Educadora se faz com parcerias
A UPF (Universidade de Passo Fundo) tem um Projeto que chamou de Univercidade educadora. Este projeto tem como concepção “o entendimento da cidade como território educativo. Nele, seus diferentes espaços, tempos e atores são compreendidos como agentes pedagógicos, que podem, ao assumirem uma intencionalidade educativa, garantir a perenidade do processo de formação dos indivíduos para além da escola e com ela, em diálogo com as diversas oportunidades de ensinar e aprender que a comunidade oferece”. Este projeto pode dar a esta cidade o suporte para a compreensão e dimensão da Cidade Educadora que queremos.
Sonhar não ocupa espaço. E é dos sonhos que nascem as ideias. Que venham mais protagonismos para ocuparmos e transformarmos nossos espaços públicos numa Cidade Educadora!
Que venham mais ideias! Que venham mais sonhos! Nunca ficaremos satisfeitos, por que somos algo novo para quem não sabe. Fazemos parte de uma nova categoria. Somos uma Cidade Educadora, coisa nova que está ganhando corpo. Aguardem o desenvolvimento e a realização deste conceito.
Unamo-nos para que a revitalização dos espaços públicos não sirva para interesses privados, mas para que os mesmos sejam lugares vivos de cidadania, de demonstração pujante das nossas artes e dos nossos artistas locais.
“Vivemos esperando dias melhores / …O dia em que seremos melhores / Melhores no Amor / Melhores na Dor / Melhores em Tudo.” (Jota Quest, canção Dias Melhores)
Ao sermos perguntados sobre como estamos, é comum respondermos que estamos com pressa, “sempre correndo”.
Mas correndo de quem? Correndo para onde? Correndo atrás de quem? Ou nossas respostas estão vazias de sentido ou, talvez, revelem que estamos a correr, desesperadamente, sem rumo e direção. Queremos vida na liberdade, mas estamos vulneráveis e vítimas da própria estupidez e violência humanas.
Não há razões para justificar a violência nossa de cada dia que decorre de coisas banais. A violência, agora rotina, passa a ideia que tudo podemos resolver impondo a força, a esperteza, o despudor, a estupidez ou a eliminação física daqueles que, porventura, “atravancam” o nosso caminho.
A violência não está a nos revelar que a estupidez é que tomou conta da gente e que o que só nos restou administrá-la? Será possível vencer a estupidez humana?
A estupidez fundamenta-se na idéia de que não sou humanidade, sou somente eu. Se somente é eu que valho, tudo o resto é secundário, passível de manipulação. O outro, que se vire, que se imponha, que se apresente forte e arrogante como eu.
Não sou capaz de reconhecer que a minha dignidade depende ou que pode ser complementada na convivência com os outros. Então, se o outro em nada me ajuda, que pelo menos não me atrapalhe. E, se resolver atrapalhar, nada melhor que julgá-lo, humilhá-lo ou mesmo eliminá-lo.
Adolescentes e jovens: vítimas da estupidez e violência humanas
Muitos adolescentes e jovens operam condutas e ideias na mais absoluta relatividade, menos quando se trata da exaltação do próprio eu (egocentrismo). Para muitos, tudo é razão de competição ou de etiqueta. Representar é mais importante do que ser. Ter é muito mais importante do que ser.
Viver, na máxima velocidade e intensidade, é o melhor do que se tem para fazer. Então porque pensar no futuro?
Hoje é imprescindível retomar valores que são a base de nossa convivência social, como de nossa civilização. A generosidade, o convívio e a compreensão, por exemplo, são geradas pela escutatória. A escutatória é a nossa capacidade de desprender-se um pouco de si para tentar compreender as atitudes e pensamentos dos outros. Mas será que ainda estamos a fim de perder tempo para ouvir alguém?
Ainda temos paciência para compreender que determinadas atitudes resultam de nossa vivência pessoal atribulada e pela falta de habilidade de conviver? Ainda seremos capazes de reconhecer que tão importante quanto falar é também saber ouvir?
A violência é a face mais perversa de nossa estupidez humana
Na medida em que viver, matar ou morrer viraram obras do acaso ou da sorte, vamos perdendo noção de humanidade, sempre latente em cada um e cada uma de nós. Esta humanidade, presente e latente em cada um e cada uma de nós, requer ser reinventada e recriada em cada momento histórico. Nem sempre vivemos do jeito que vivemos hoje e, no futuro, poderá ser que viver seja ainda muito mais diferente e complexo.
Vivemos esperando dias melhores. Dias melhores virão se formos capazes de perceber que vivemos enozados, interdependentes, frágeis, desejosos de comunhão e trocas, mesmo que quase todo o mundo conspire contra a gente.
Vivamos, pois, escolhendo caminhos de liberdade; não de estupidez.
“À medida que formos mais livres, que abrangermos em nosso coração e em nossa inteligência mais coisas, que ganharmos critérios mais finos de compreensão, nessa medida nos sentiremos maiores e mais felizes.” (Anísio Teixeira, 1900-1971).
É urgente e necessário perguntar o que é uma boa escola, uma escola com qualidade social. Responder o que é uma boa escola nos desafia a pensar as escolas que fazemos, cotidianamente, para torná-las cada dia melhores. Da mesma forma, cada ser humano precisa responder o que é uma vida boa.
Vida e escola se entrecruzam, cumprindo finalidades distintas e complementares na vida das pessoas, com o objetivo de nos humanizar, nos tornarmos seres humanos melhores.
Escola é passagem, certo tempo onde nela convivemos, brincamos, aprendemos e nos desafiamos à construção do nosso próprio conhecimento. Para muitos, o término do tempo de escola coincide com cessar compromissos. Para outros, gera frustração quando acaba o tempo de escola. Para estes, a escola foi mais que um tempo, foi uma grande experiência.
Vida e conhecimento são desafios permanentes; nunca prontos e sempre em construção.
Vida é permanência, é tempo de aprendizagem e acúmulo de experiências e de conhecimento. Na vida também se faz escola que denominamos “escola da vida”.
Paulo Freire concebeu escola com qualidade social como “lugar onde se faz amigos, onde não se trata só de prédios, salas, quartos, programas, horários, conceitos”. Para ele, escola é gente que estuda, que trabalha, que se alegra, que se conhece e que se estima, onde todos são gente. No seu ideal de escola, “nada de ser como um tijolo que forma a parede indiferente, frio, só”. Nela há espaços para criar laços de amizade e ambiente de camaradagem. Conclui dizendo que nesta escola, vai ser fácil se amarrar, estudar, crescer, fazer amigos, educar-se, ser feliz.
Freire priorizou a relação entre os sujeitos o aspecto mais relevante para os processos de ensino-aprendizagem, concluindo que “ninguém educa ninguém. Ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”.
Rubem Alves, escritor das metáforas, distingue escolas que são gaiolas e escolas que são asas. Insiste na ideia de que não deveríamos nos preocupar em formatar ninguém na escola, mas oportunizar a cada criança, adolescente, jovem ou adulto as suas possibilidades de ser melhor, a partir do conhecimento de si mesmo, dos outros, da natureza e do mundo. Sua visão de escola com qualidade social assim poderia ser resumida:
“Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do voo. Escolas que são asas não amam pássaros engaiolados. O que elas amam são pássaros em voo. Existem para dar aos pássaros coragem para voar. Ensinar o voo, isso elas não podem fazer, porque o voo já nasce dentro dos pássaros. O voo não pode ser ensinado. Só pode ser encorajado”.
Acredito e luto para que nossas escolas sejam de qualidade social e espaços de humanização.
Humanizar-se é tornar-se melhor ser humano, a partir do conhecimento.
As escolas deveriam cuidar, substancialmente, de duas dimensões inerentes ao ser humano e à própria escola: a integração e socialização das pessoas e a construção de conhecimentos. Se estas dimensões não estiverem bem organizadas nas escolas, elas esvaziam seu sentido e perdem sua importância.
A escola pública deveria sempre almejar, primeiramente, o desenvolvimento humano e social da maioria da população brasileira.
A escola nunca deveria se distanciar da vida concreta das pessoas, pois esta deve e pode ser aperfeiçoada através do conhecimento. Acredito que as finalidades da escola deveriam sempre convergir com as finalidades da vida.
Anísio Teixeira, no ano de 1934, ao discutir as finalidades da vida e da educação inicia dizendo que “a única finalidade da vida é mais vida. Se me perguntarem o que é essa vida, eu lhes direi que é mais liberdade e mais felicidade. São vagos os termos, mas, nem por isso eles deixam de ter sentido para cada um de nós”.
“A finalidade da educação se confunde com a finalidade da vida.”
(Anísio Teixeira)
A escola e a vida servem para nos humanizar, através do conhecimento e da experiência da convivência social. Assim, escolas cumprirão com a finalidade ser espaços de qualidade social.
Há alguns anos percebi, não diferente de muitos jovens que conheço, que a minha felicidade não chegaria com a formatura.
O sonho de concluir a faculdade, trabalhar e casar não era meu. Era a expectativa dos outros para mim – e para qualquer menina da minha idade. Queria mais que isso, necessitava ir além.
Agora, aos 25 anos, parto para a experiência que deve concretizar o meu desejo. Trilhando este caminho, compreendi que apenas viveria tão feliz quanto esperava, quando me desafiasse a sair de mim e de tudo que sempre concebi como mundo. Assim, decidi ser missionária.
A Igreja Católica do Rio Grande do Sul mantem um projeto de apoio à Arquidiocese de Nampula, em Moçambique. Lá, a Igreja-Irmã acolhe há 23 anos missionários e missionárias gaúchos. A pequena vila de Moma, no litoral leste da África, será minha casa a partir do dia 12 de setembro.
Missão é serviço
Na preparação para este tempo, compreendi que missão é serviço. E servir com amor. Primeiro servir no sentido de se colocar à disposição às necessidades do outro, mesmo que talvez não seja aquilo que eu ache que é necessidade.
Aí entra o amor. Compreender que o outro precisa e oferecer o que tens na gratuidade. As necessidades de cada um, os anseios, as angústias e as alegrias também se tornam meus quando me disponho a caminhar lado a lado.
Eu me faço, me construo, me reconheço quando me encontro no outro.
Vou para servir a partir da realidade e não do meu desejo. Um novo mundo se constrói quando somos capazes de compreender com compaixão e empatia a cultura, a religião, os costumes, as opções e os contextos sociais, políticos e históricos de um povo.
Por isso, ao contrário do que normalmente se espera, não se sugere ao missionário grandes obras ou feitos extraordinários.
A marca de uma missão começa pelo ouvir. Escutar e ver as aflições do outro, ir ao seu encontro e, com ele, construir a libertação.
A vida plena se alcança e amadurece à medida que é entregue para dar vida aos outros. Isto é, definitivamente, a missão. As expectativas? Todas as possíveis. Às vezes tenho medo, angústias, um monte de perguntas. Entretanto, em grande parte do tempo, me inundo de alegria pela possibilidade de poder construir em Moma novos caminhos.
Há os que questionam: “Mas aqui não é muito melhor?”, os que avisam “Conheço gente que morreu de malária” e, ainda, os que anunciam “Quero ver como vai ser na volta”.
Tem também os que, duros para compreender, lançam o diagnóstico: “Você não está bem certa”.
Se assim for, que a minha loucura seja perdoada, porque metade de mim é amor e a outra metade também.(Oswaldo Montenegro)