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Do fascínio do circo ao desafio do cinema

sandro aliprandini 3No mês do estudante, nossa quarta entrevista da série “Profissões Educadoras”, traz o perfil de um jovem universitário e a contribuição da sétima arte na discussão de temas relevantes como relacionamento familiar e bullying nas escolas.

Um menino que gostava de circo e era fascinado pelo palhaço, encantamento que o levou à ingressar no curso de teatro da escola. A intenção era tão infantil quanto o gosto pelo palhaço: ele só queria fazer as pessoas rirem.  Mas quem sorriu astuciosa para ele foi a vida, e, do teatro amador para o cinema, foi o tempo de um telefonema. A história é do jovem ator Sandro Aliprandini, 17 anos, passo-fundense e protagonista do filme Ponto Zero, que estreiou em maio nos cinemas.

Aliprandini destaca que o palco faz parte de sua vida desde os sete anos de idade e que cursar Teatro na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, é a realização de um sonho que acalenta desde criança. O jovem estudante afirma que pretende seguir a carreira de ator “quero estudar para fortalecer a minha carreira e continuar fazendo cinema e teatro”, enfatiza.

Para quem ainda não assistiu Ponto Zero, o filme conta a história de Ênio (Sandro Aliprandini), um adolescente de 14 anos sufocado pelos desafios do amadurecimento, tanto em casa quanto na escola, onde não é exatamente um dos garotos mais populares. O pai, um radialista (Eucir de Souza), é rude e ausente. A mãe (Patricia Selonk) sofre com a frieza do marido. Neste contexto, o adolescente se vê diante da realidade da vida adulta chegando. O filme é ambientado em Porto Alegre e tem a direção de José Pedro Goulart.

Ponto Zero deve ser o primeiro de muitos trabalhos de Aliprandini, pois mesmo mantendo certo suspense, afirma que em breve poderá retornar à telona: “estou fazendo novos testes e pode ser que em breve tenhamos novidades no cinema” declara.

Márcia Machado: Como surgiu o teatro na tua vida?

Aliprandini: Desde pequeno eu sempre ia com meu pai ao circo, eu tinha muito gosto por palhaço, me fascinava muito e, por causa disso, procurei o Curso de Teatro na escola para fazer comédia, fazer as pessoas rirem. Comecei e não parei mais. Iniciei o teatro no Colégio Menino Jesus/ Notre Dame em Passo Fundo.

Márcia Machado: Como uma peça escolar te oportunizou à ingressar no cinema?

Aliprandini: No Notre Dame (colégio) a gente montou uma peça de teatro e levamos para o Festival Intercolegial de Teatro Notre Dame que aconteceu no Rio de Janeiro e eu recebi o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante. A notícia saiu em jornais de Porto Alegre, o diretor (do Filme Ponto Zero) viu e achou que eu tinha o perfil do ator que ele estava procurando para o filme e me ligou convidando para fazer o teste. Fiz três testes eliminatórios e fui chamado para protagonizar o filme.

Márcia Machado: Como foi a experiência de sair do teatro amador e estrear como ator principal na telona?

Aliprandini: Nunca passou pela minha cabeça começar logo no cinema, com a responsabilidade de ser o protagonista. Mas toda a equipe compreendeu muito que eu estava no inicio da carreira, que eu não conhecia como funcionava o cinema. Foram muito atenciosos, me explicaram como ocorria todo o processo de filmagem e tudo deu certo.

Márcia Machado: Como foi filmar Ponto Zero?

Aliprandini: O Ponto Zero é um filme diferente porque nenhum dos atores teve acesso ao roteiro para começar. O diretor não nos deixava ler o roteiro, ele só nos informava um pouco antes de cada cena o que ocorreria. A ideia era que o ator fosse descobrindo junto com o personagem o que iria acontecer, então ele queria uma forma de atuação bem natural. O Ponto Zero fala de libertação, da transição entre a infância e a adolescência, fase em que você não é mais criança, mas também não é homem e tem que lidar com essa transição. No caso do Enio (personagem de Sandro), ele fazia o papel do pai em casa porque o pai dele saia de casa e voltava só de manhã, traía a mãe dele.  A mãe do Enio via nele uma forma de proteção, ele (o personagem) acaba agindo como se tivesse mais idade, tendo que proteger a própria mãe, consolar. E tem a fase do filme que seria o Ponto Zero que ele (Enio) sai de casa e decide se libertar dessa vida, mostrar que ele pode ser independente, então, sai à noite e passa a viver sozinho. O pai (de Enio) é muito ausente em casa e ele nunca fala com o pai, tem um momento no filme em que eles trocam um olhar, mas nenhuma palavra, eles são bem distantes.

sandro aliprandini 1Márcia Machado: O autor do filme aborda essa questão do relacionamento familiar e também a questão do bullying?

Aliprandini: O Enio sofria bullying na escola e uma das primeiras cenas do filme é, justamente, ele apanhando de um colega sem motivo nenhum, ele não tem amigos no colégio, tem cena que estão todos os colegas jogando futebol e Enio está sentado sozinho porque ele não se encaixava em nenhum grupo, nem na família, nem no colégio, então, ele fica alheio a todos estes grupos.

Márcia Machado: O filme vem sendo usado pelas escolas para abordar a questão do relacionamento familiar, mas principalmente, o tema bullying com os alunos. Como você percebe a influência do filme nessas discussões?

Aliprandini: Gosto muito quando o Ponto Zero é assistido por esse público. Há uma necessidade das escolas perceberem o jovem da maneira como o filme o retrata. Têm muitos alunos que vão se identificar, não só por sofrer bullying na escola, mas por não se encaixar mesmo no mundo. Nós adolescentes temos essa sensação de que nada é pra nós, sensação de não pertencimento. O filme é uma forma de conforto. Até a questão da relação conturbada com os pais, a partir do filme verão que é uma fase normal de adolescente.

“Nós adolescentes temos essa sensação de que nada é pra nós, a sensação de não pertencimento.”

Márcia Machado: Você já passou por uma situação de bullying na escola ou presenciou entre colegas?

Não. Eu nunca vivi, nem presenciei, tanto bullying como a questão de relacionamento familiar.  O personagem traz uma imagem bem diferente de mim.  Para fazer o Enio eu procurei interpretar o personagem com a sensação de não pertencimento mesmo, isso eu tive e tenho muito ainda, a sensação de não pertencer a nenhum grupo e a sensação de estar um pouco sozinho. Eu busquei isso em mim para emprestar para o Enio. Eu não tive problemas de bullying na escola, mas quem teve acredito que é possível superar isso.

“Eu não tive problemas de bullying na escola, mas quem teve acredito que é possível superar isso.”

Márcia Machado: Enquanto estudante como você vê o posicionamento da escola, professores, direção e alunos em relação ao bullying?

Aliprandini: Acho importante o professor estar atento para momentos em que ocorram questões relacionadas ao bullying e que ele busque confortar o aluno que passa por isso, mas sem expôr na frente dos colegas. O professor é a figura mais importante no momento em que o aluno está em sala de aula, é referência, então, se o professor, o diretor vem tratar do assunto com o aluno, este se sente mais acolhido pela escola e sabe que terá o apoio necessário para continuar frequentando as aulas, sem medo. Se o professor conversa com o aluno ele se sente confortável, seguro.

“O professor é a figura mais importante no momento em que o aluno está em sala de aula, é referência, então, se o professor, o diretor vem tratar do assunto com o aluno, este se sente mais acolhido pela escola e sabe que terá o apoio necessário para continuar frequentando as aulas, sem medo”.

Márcia Machado: Você já visitou escolas e teve contato com os alunos que assistiram o filme?

Aliprandini: Sim, conversei como os alunos. É tão bom ver eles falando comigo sobre a identificação com o personagem e isso é gratificante para mim. Eu espero que  a minha profissão de ator gere  identificação nas pessoas e que de certa forma contribua para mudar o pensamento delas. Ao assistir o filme que o expectador consiga se sentir mais confortado, mais seguro. E em outros trabalhos também, que eu não viva nenhum personagem alheio ao mundo. Eu quero fazer personagens que as pessoas consigam se identificar e acreditar na história dele, saber que podem ser reais.

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“Eu espero que  a minha profissão de ator gere  identificação nas pessoas e que de certa forma contribua para mudar o pensamento delas.”

Márcia Machado: O teu personagem teve uma grande empatia do público?

Aliprandini: Sim, os jovens vêm emocionados, chorando falar comigo. Alguns afirmam que passam pela situação do personagem e, a partir do filme, vão tentar conversar com os pais para buscar melhorar o relacionamento. Os pais também me procuram e acho positivo que vejam o filme porque há cenas do casal ( pais de Enio) brigando e é interessante que esse público que tem filhos adolescentes vejam como os filhos se sentem durante as brigas de casal e como isso afeta os filhos e passem a refletir sobre isso.

“Os jovens vêm emocionados, chorando, falar comigo. Alguns afirmam que passam pela situação do personagem e, a partir do filme, vão tentar conversar com os pais para buscar melhorar o relacionamento.”

Márcia Machado: Como você analisa o contexto do filme em relação a educação dos jovens? Em que a narrativa contribui?

Aliprandini: É muito bom que a escola abra as portas para o filme e utilize outros meios de linguagem em sala de aula. É muito bom que os alunos vejam que a escola não é separada do mundo, a escola é o mundo e os alunos precisam desenvolver o pensamento crítico na escola. É gratificante a gente poder mostrar o filme para os estudantes, os professores e diretores, eles têm gostado muito. Então que cresça ainda mais esse tipo de ação nas escolas.

“É muito bom que a escola abra as portas para o filme e utilize outros meios de linguagem em sala de aula. É muito bom que os alunos vejam que a escola não é separada do mundo, a escola é o mundo e os alunos precisam desenvolver o pensamento crítico na escola.”

Márcia Machado: Em uma frase como você definiria a missão da tua profissão.

Aliprandini: Gerar identificação com o público e fazer as pessoas refletir sobre o assunto.

 

Fotos: Divulgação/Arquivo Pessoal Aliprandini

Família saudável: sonho ou realidade?

Famílias felizes têm o entendimento que é bom tocar, de que é bom abraçar, de que é saudável mimar-nos e mimar aos outros. São famílias amorosas, que distribuem todo o carinho que recebem e, sabiamente, generosamente, transcendem seus lares, transmitindo para a sociedade o que vivem.

Nós estamos doentes, consequentemente, as famílias também estão. Necessitamos de algo que nos alimente melhor, para conseguirmos vigor para os novos tempos tão desafiadores.

Famílias mais saudáveis deve ser meta viável, com propósitos densos e ditados pelas nossas necessidades humanas mais elementares. Para tanto, devemos cuidar de nós mesmos e cuidar dos outros sabendo perceber nossa biologia que, sabiamente, nos convida a ouvir, ver, cheirar, degustar e, principalmente, sentir na pele a nós mesmos e aos outros.

Provocar proximidade e contato é uma necessidade primordial em qualquer idade. Tocar com carinho e respeito é o alimento que nos falta, na medida em que constatamos essa carência. Somos capazes de proezas inimagináveis, podemos alcançar novos planetas, mas ainda ficamos constrangidos com o contato físico, ainda negamos abraços e beijos a quem vive conosco.

Quanto mais racionais somos, quanto mais estudamos, mais nos fechamos em nós mesmos. Quanto mais amigos virtuais conquistamos, mais solitários e carentes nos mostramos.

Temos à mão fontes de prazer que não custam nada e limitamo-nos a viver assepticamente, sem sentir a pele do nosso amor, sem sentir o cheiro dos nossos filhos. Fazemos contatos tímidos com nossos netos por medo de estragá-los com nossos mimos.

As famílias felizes têm a concepção de que é bom tocar, de que é bom abraçar, de que é saudável mimar-nos e mimar aos outros. São famílias amorosas, que distribuem todo o carinho que recebem e, sabiamente, generosamente, transcendem seus lares, transmitindo para a sociedade o que vivem.

Devemos parar de olhar para os problemas das famílias, que erroneamente chamamos de desestruturadas, por que todas elas têm uma estrutura, para investigarmos por que as famílias felizes conseguem driblar tão bem o consumismo, os vícios, conseguindo ser tão gentis e humanamente produtivas.

Certamente nossa investigação mostrará que não há nada de especial com elas, que não há pressupostos acadêmicos, nem necessariamente QI elevado, mas um potencial amoroso inerente, aprendido lá no berço.

O contrário também é verdadeiro, por que, uma família violenta também transcende suas paredes, leva para fora sua desgraça.

As escolas são um exemplo do que se pode fazer com as crianças. É lá que constatamos verdadeiras contendas físicas e psíquicas, na forma de agressões de toda ordem. As escolas são a vitrine do que acontece dentro das nossas casas.

Ashley Montagu radicaliza quando fala que nossas maternidades foram concebidas para servir ao obstetra e não à mãe, muito menos aos bebês. A constatação é feita para alertar-nos de que devemos ouvir nossa natureza, aconchegar nossos bebês, ficar com a criança junto ao corpo, repudiando a distância que os berçários impõem no momento mais importante da vida.

Estudos contemporâneos mostram que sempre estaremos carentes de proximidade, sempre necessitaremos sentir o corpo das outras pessoas, por mais velhinhos que sejamos. Montagu reproduz em Tocar: o significado humano da pele, um bilhete que uma mulher de 90 anos escreve para as enfermeiras:

“Velha ranzinza
O corpo em ruínas. A graça e a energia desaparecidas.
Hoje há uma pedra onde antes havia um coração.
Mas dentro dessa velha carcaça, uma mocinha ainda existe.
E vez e outra incha este velho coração.
Lembro-me da dor, e me recordo das alegrias
E estou viva e consigo amar, por inteiro, novamente.
E penso que nada durará.
Por isso, abram os olhos, enfermeiras, abram os olhos e vejam
Não uma mulher ranzinza
Olhem mais de perto. Vejam a mim.”

O sonho de termos famílias felizes é possível, desde que façamos do amor algo concreto, palpável e não um lugar comum cantado em verso e em proza, sem substância. Nossas famílias serão uma linda realidade se levarmos em conta outra máxima de Montagu: “ … humanizar-se é viver aprendendo e sendo cada vez mais gentilmente amorosos.”

Eládio Vilmar Weschenfelder: um encantador de leitores

eladioQual seria o melhor sinônimo para definir um encantador de leitores? É a primeira pergunta que surge quando o autor interage com seus leitores no momento que leem os causos, as lendas e os contos constantes no novo livro in­fanto-juvenil intitulado Histórias Preciosas, de autoria do Prof. Eládio.

E como não ficar encantado, por exemplo, com a lenda do nosso primei­ro Santo Gaúcho, o defensor das terras dos guaranis: “Essa terra tem dono!”. E, como não ficar maravilhado com a fantasia, sutilmente presente, nas histórias do Prof. Eládio, este Don Juan das letras! Claro, depende de quem está lendo, encantando-se! Pois “(…) uma flor não é bela por si só, mas é belíssima a partir dos olhos de quem sabe olhar.”

Como não ficar curioso e intrigado, com o que as meninas logo sacaram de primeira, e os guris, ainda não? Ou, eufemismos à parte, como não morrer de tanto rir? Como não se emocionar com as belas histórias de amor que nem o tempo pode apagar! Ou pode?

Essas e as demais histórias deste livro é que fazem jus ao codinome encanta­dor de leitores, que é o Prof. Eládio. Este lutador com as letras e com as palavras, como diria o poeta Drummond. Ele, de semeador, transformou-se em fruto! Era uma vez, um semeador que plantou, no coração de seus alunos e alunas, o gosto pela leitura! Uma delas, de nome Sxlvxa Aivlis, que guardou algumas dessas sementes, plantando­-as em muitos outros corações, tanto nos de seus alunos e alunas, como nos corações dos professores do Sistema Municipal de Ensino, em Soledade/RS. Por efeito, nasce­ram belos frutos, dentre os quais o projeto Garimpando Escritores, Lapidando Leito­res! Agradecemos a ele por estar participando deste importante projeto, que “valoriza a leitura como fonte do saber”.

Por fim, para o encantador de leitores, eu elencaria três sinônimos: mágico, pois seus contos, lendas e causos nos deixam maravilhados; cativante, pois suas histórias nos deixam fascinados; e, magnífico, assim como são magníficas suas Histórias Preciosas.

Prof. Dr. Juliano Tonezer da Silva

O fetiche das ditaduras

“Não existe uma verdade igual para todos.
As leis, as regras, a cultura, tudo deve ser definido para
um conjunto de pessoas; o que vale para um lugar pode não valer para outro.”

D’ Silvas Filho

O atual momento histórico exige afirmação dos ideais democráticos. As ditaduras (políticas, de consumo ou de mercado) são as maiores inimigas das palavras em diálogo e em movimento (que denominamos democracia). As ditaduras são extremamente hábeis em reduzir e simplificar o sentido e o significado das coisas que podemos pensar. Só a democracia permite alargar os horizontes das ideias que vamos construindo na história. Somente ela é capaz de considerar contradições e imperfeições dos pensamentos, para aperfeiçoá-los. Por conta disso, convivemos em permanente tensão entre aqueles que querem fazer das ideias exercício de liberdade e aqueles que desejariam dizer aos outros “o que podem e devem pensar e fazer”.

Nossa democracia ainda precisa ser muito mais exercitada, vivida e experimentada, para ser apreendida. Vivemos, por vezes, uma equivocada disputa entre ter posição e ser contra. As disputas, demasiadamente ideologizadas, não permitem que as palavras/conceitos se revelem em todos os aspectos, sob os mais diferentes pontos de vista. Ser democrático não significa ser dono da verdade. Significa estar aberto à construção do conhecimento, considerando as mais diferentes interpretações das coisas e dos fatos, num processo dialético de aprendizagem. A verdade surge no exercício do consenso, nem sempre fácil, mas sempre necessário.

Conquistamos a liberdade de pensar, mas ainda somos moldados em nossas ações por obra das ideias dominantes. Temos, então, a sensação de que nossas ideias pessoais nada resolvem, de que são fracas e impotentes. Isto comprova de que o mundo e as pessoas são movidos por ideias, que sempre estão em disputa na sociedade. E comprova que, isoladamente, nossas ideias perdem fôlego, não conseguindo concretizar-se. Somente as ideias gestadas e praticadas coletivamente conseguem romper com a lógica ideológica dominante, e conseguem traduzir-se em prática da vida cotidiana daqueles que resolvem assumir-se como sujeitos de seus conhecimentos e de sua história.

O problema é que nas ditaduras não somos educados para a cooperação e a solidariedade. Prevalece a cultura hedonista (de culto ao eu), que reproduz a ideia e o conceito dos vencedores. Aos vencedores, a
glória. Aos vencidos, os sentimentos de incompetência, revolta e impotência. E estes últimos sentimentos geram muitas tensões sociais e de convivência, desfavorecendo nossa condição de seres em relação.

A autonomia dos sujeitos é o maior marco da concretização de uma democracia real e verdadeira. A luta por democracia invoca novas relações interpessoais, baseadas na interdependência e na reciprocidade. Jean Piaget, ao estudar o juízo moral das crianças, nos ajuda a considerar que “a autonomia só aparece com a reciprocidade, quando o respeito mútuo é bastante forte, para que o indivíduo experimente interiormente a necessidade de tratar os outros como gostaria de ser tratado”.

Não é democrática a sociedade que não tolera os pensamentos divergentes e que combate as diferentes formas de organização social que buscam praticar e viver as ideias coletivas. Democrática é a sociedade que permite aos homens e mulheres realizarem-se em sua dignidade, preservando seu modo de ser, pensar e agir, individual e coletivamente. Pratiquemos e aprendamos, pois, a democracia, intensamente, sem nenhum culto às ditaduras.

Afirmemos, definitivamente, a democracia como a solução dos problemas coletivos. Fora da política (e da democracia) não há caminhos que promovam a dignidade e a liberdade humanas!

Poesia e cosmovisão: Cecília Meireles e Rubem Alves

Ouvi, em uma única palestra que assisti do grande educador Rubem Alves uma
poesia que achei fosse sua. Tempos depois, em vídeo, vi o mesmo
educador recitar a mesma poesia. Li ainda em dois livros seus
referências ao mesmo texto. Passei então que se tratava de uma poesia
de sua autoria. Ao verificar autoria, descobri que era de Cecília
Meireles.

Sempre achei que esta poesia encerra, em si mesma, uma cosmovisão, uma
visão de mundo. Por isso mesmo, ao trabalhar com sextos anos do Ensino
Fundamental as cosmovisões da religiosidade indígena e africana,
comecei recitando este belo texto. Por intuição, sugeri aos alunos e
alunas que quisessem, fizessem livre interpretação da poesia através
do desenho. Disse a eles que estudaria uma forma de publicar seus
desenhos no meu site.

Para minha surpresa, recebi vários desenhos super interessantes
representando os cenários e os personagens que envolvem a poesia.
Seguem, numa sequência de slides, abaixo.

 

CANÇÃO MÍNIMA

No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;

no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.

Poema de CECÍLIA MEIRELES
In Vaga Música, 1942

 

Desenhos criados por alunos dos sextos e sétimos anos da Escola Municipal de Ensino Fundamental Zeferino de Costi de Passo Fundo, RS. Alunos participantes: Giórgio, Igor Detoni, Ana Laura, Lívia Hahn, Ketly Macedo e Isabely).
Desenho em destaque: aluna Maria Gevana L. Cassasola.

Poeta Passarinho – Israel Portela de Farias

Sou Israel Portela de Farias (Passarinho) nasceu na cidade de Passo Fundo em 29 de setembro de 1989. Poeta, contista e amante da natureza. Um eterno menino que sempre gostou de brincar na rua com as coisas mais simples possíveis, e que descobriu nos livros de Mario Quintana e nas letras de Cazuza a simplicidade de uma vida em versos. Aos 14 anos de idade, entre a rotina de escola e amigos, já escrevia em seus cadernos algumas letras de música e pequenos poemas inspirados em tudo o que lia e ouvia. Dois anos mais tarde, quando eu trabalhava em uma loja de doces, usava o “tempo vago” para rabiscar em caixas de chocolate seus versos e rimas que falavam da sua rotina juvenil. Desde então sigo escrevendo seus versos tentando descrever grandes sentimentos através de poucas palavras. A vida, a liberdade, o amor e a dor são as inspirações para as minhas criações.

A partir do mês de julho de 2016 passarei a publicar, periodicamente, fragmentos, contos, poesias e poemas neste site.

Publicações e Prêmios: 

  • Antologia do 1° Concurso Nacional Novos Poetas 2011 – Premio Augustro dos Anjos, organizado pela Videira Editora.
  • Ganhador do concurso Conto Premiado Colombo, organizado pelas lojas Colombo na 14° Jornada Nacional de Literatura.
  • Revista Estudantil Pirocormo n°9 – 2014 – Universidad Autónoma de Aguascalientes
  • Revista Digital Cuestionarte Magazine n°4 Junio-Agosto 2014
  • Coletânea de poemas 2015 – Projeto Passo Fundo.

Não somos soltos no mundo

Chegamos à terceira edição da série “Profissões Educadoras”, e nesta abordagem, vamos conhecer o trabalho realizado pela psicóloga Ana Manoela Detoni.

Formada em Psicologia pela Universidade de Passo Fundo (UPF), Ana Manoela conta que, desde criança, sempre teve uma empatia muito grande pelas pessoas e foi com o intuito de ajudá-las que escolheu a profissão. Mas a inquietude da psicóloga levou-a além, e na busca por respostas para suas indagações, foi cursar Filosofia, que confessa ser sua “grande paixão”.

ana manoela 1Tal como a paixão, Ana Manoela, tem um espírito inquieto e provocador, que busca movimento e, nesta busca constante, foi levada pela filosofia à trilhar o caminho da educação. Ela enfatiza que a educação é responsabilidade de todos os profissionais, independente da área que atuam, pondera que “não somos indivíduos soltos no mundo, mas fazemos parte dele e nossas ações podem transformar o todo”. É esse anseio por mudanças e o constante questionamento que fazem da psicóloga e futura filósofa, uma educadora.

Márcia Machado: Você foi da psicologia para a filosofia, trajeto que te levou à educação. Como analisa essa “conversa” entre as profissões que escolheste?

Ana Manoela: Independente da profissão que se exerce, a educação permeia todas as profissões de alguma forma. Antes de ingressar na Psicologia, cursei um ano de Filosofia, e mesmo optando por outro curso, a questão da filosofia sempre ficou presente na minha vida, assim como a educação, pois a minha mãe é professora, minhas tias são professoras, outra tia é psicóloga, e a educação sempre esteve presente.  Também trabalhei numa escola como psicóloga no projeto Mais Educação. Não fui em busca da educação, fui em busca de uma paixão que me levou à outra.

 “Não fui em busca da educação, fui em busca de uma paixão que me levou à outra”.

Márcia Machado: No seu entendimento qual a contribuição de sua profissão para a sociedade?

Ana Manoela: Meu sonho é que toda a escola pudesse ter um profissional da psicologia, para atender alunos e professores, seria fundamental para que as coisas fluíssem de maneira mais adequada. Eu não acredito em aluno que não tenha vontade de aprender, acho que não é uma questão de vontade, acho que por alguns motivos essa criança está impossibilitada de despender energia para o estudo.  Nós temos o hábito de pensar que só as crianças de periferia têm dificuldades de aprendizagem, mas não é a realidade, as dificuldades emocionais são inerentes a qualquer classe social. Não tem criança que não queira aprender, que não tenha inteligência para aprender. É preciso pensar aquela criança, em como fazer com que ela se apaixone pelo aprender, algo que deve ser iniciado já na Educação Infantil. A questão do aprender é algo que deve ser trabalhado desde do início e deve ser a valorizado pela sociedade, pela família, o que já não ocorre tanto.

“Não tem criança que não queira aprender, que não tenha inteligência para aprender. Épreciso pensar aquela criança, em como fazer com que ela se apaixone pelo aprender, é algo que deve ser iniciado já na Educação Infantil”

Márcia Machado: Quais os desafios da sua profissão hoje?

Ana Manoela: Há muitos!  Primeiro a dificuldade que as pessoas têm em aceitar um profissional no espaço educacional, tem muitas práticas consolidadas no ambiente escolar que o profissional da psicologia percebe e ao buscar algumas mudanças estas muitas vezes não são bem aceitas, pois o profissional desacomoda e, na maioria dos casos, não é o que se deseja, pois as pessoas se habituam como estão. Ao despertar o desejo de aprender numa criança, vamos torná-la um indivíduo crítico e ela vai tirar toda uma estrutura da zona de conforto, pois vai questionar, vai querer ir mais a fundo sobre várias questões. Indivíduos críticos mobilizam toda uma estrutura, não só dentro da escola, mas como um todo, e as vezes, não sei o quanto isso é interessante para aquele contexto.

“Indivíduos críticos mobilizam toda uma estrutura, não só dentro da escola, mas como um todo, e as vezes, não sei o quanto isso é interessante para aquele contexto”.

Márcia Machado: Um grande desafio hoje é a humanização, no sentido da busca do indivíduo em se tornar um ser humano melhor, como sua profissão colabora com essa humanização?

Ana Manoela: Só colabora! Até porque não tem como você pensar no outro, sem pensar em si mesmo. Para eu pensar a educação, ou, para pensar a questão dos meus pacientes na área clínica, eu tive que me pensar muito antes e vou ter que me pensar pelo resto da vida. Não existe forma de pensar a questão da humanização sem, antes disso, questionar as tuas próprias posturas. Não adianta eu querer ajudar de um lado, sem ter a consciência do todo, e não ajudar do outro. Você não é um indivíduo aos pedaços, você é inteiro! Portanto, ou você é humanizado por inteiro e tem uma preocupação social com você e sua vida cotidiana ou vira uma prática vazia.

“Você não é um indivíduo aos pedaços, você é inteiro! Portanto, ou, você é humanizado por inteiro e tem uma preocupação social com você e sua vida cotidiana, ou, vira uma prática vazia.”.

Márcia Machado: Como a sua profissão colabora com a educação e formação humana?

Ana Manoela: Eu fiquei por um período trabalhando com o projeto Mais Educação. Atuava como psicóloga dentro da escola, acompanhando alunos e professores, atuei por dois anos no programa. Hoje minha contribuição é através de palestras, com participação por exemplo, no Saberes em Ciranda, realizadas pelo Centro Municipal de Professores (CMP) de Passo Fundo, debatendo sobre relações humanas na escola.

Márcia Machado: Como a sua profissão pode ser educadora?

Ana Manoela: As pessoas têm que se sentir responsáveis pelas coisas, não somos indivíduos soltos no mundo, mas fazemos parte dele e nossas ações podem transformar o todo. Temos que pensar a educação como responsabilidade de todos. Os pais dentro de casa têm que ter essa preocupação, não só como questão de formação, mas de formar um cidadão, um indivíduo. É preciso assumir as questões da escola, não deixar a educação como responsabilidade só do professor.  De maneira alguma a escola é a segunda casa. A função da escola é muito específica, a função de educar o indivíduo é da família, a escola vem como um complemento, mas não é uma segunda casa, de certa forma toda a sociedade é responsável por isso. Quando os professores reclamam dos salários, toda a sociedade tem que se fazer presente nessa discussão, fica tudo muito isolado, como se os setores não se conversassem.  Eu sou psicóloga e trabalho com clínica, então, se essa é minha função, não posso pensar nada além disso? As pessoas devem sentirem-se responsáveis pelo todo, pensar, ler, interagir, sobre o assunto.

“De maneira alguma a escola é a segunda casa. A função da escola é muito específica, a função de educar o indivíduo é da família, a escola vem como um complemento, mas não é uma segunda casa, de certa forma toda a sociedade é responsável por isso”.

Márcia Machado: Uma análise da educação no atual momento político e econômico que vivemos. O que deveria melhorar e o que deveria ser priorizado?

Ana Manoela: É uma questão de paixão. Sem sombra de dúvida, o professor devia ser muito melhor remunerado pelo trabalho que faz, o que não ocorre, por isso digo que realmente é uma questão de paixão. O professor tem todas a as ferramentas de transformação do sujeito nas mãos, mas ele pode optar em fazer o “feijão com arroz”, ou então, se apaixonar por isso, e, fazer disso uma possibilidade de transformação indo além da profissão. A dificuldade não é só do professor, é também das instituições, pois às vezes, o professor tem toda essa paixão e muita vontade de realizar a transformação, de que as coisas mudem, acreditando no poder da educação, mas não tem o apoio da instituição. Dificuldades existem em todas as profissões, porém, é preciso encontrar uma forma de superar tudo isso. Acredito que a paixão é o caminho, independente das dificuldades, é preciso continuar tentando e crendo que a educação é possível.

“Acredito que a paixão é o caminho, independente das dificuldades, é preciso continuar tentando e crendo que a educação é possível”.

Márcia Machado: Uma frase para definir a missão de sua profissão na sociedade.

Estou aqui para contribuir com as pessoas, para que se sintam melhor, para que pensem de forma diferente e espero que tal atitude contribua para melhor conduzirem suas vidas.

Fotos: Divulgação/CMP

Planejamento participativo: passos na construção do sonho coletivo

Por: Adriano José Hertzog Vieira[1]

Introdução

A gestão que se propõe pautar por um planejamento coletivo terá muito mais possibilidades de alcançar êxito do que uma administração enclausurada em suas percepções, encaminhamentos unilaterais ou procedimentos autoritários. Quando a comunidade, ou o grupo, encontra espaços para manifestar seus sonhos e reconhece nos procedimentos da gestão, a presença de suas vozes e seus anseios, a execução também passa a ser assumida por todos, ganha força de concretização e fortalece o espírito comunitário.

A gestão municipal de Lagoa Vermelha, no Rio Grande do Sul, por compreender a força, a profundidade e a eficácia do sonho compartilhado e coletivizado, buscou assessoria da Universidade de Passo Fundo para engendrar um processo de planejamento participativo com a comunidade lagoense. O percurso do planejamento iniciou em meados de 2014 e teve sua primeira etapa, com a entrega dos produtos, finalizada em junho de 2016.

A partir de um estudo de caracterização do município, das peculiaridades da gestão pública e do enfoque pretendido pela administração municipal, os assessores da UPF propuseram o método ZOPP (Zielorientierte Projektplanung = Planejamento de Projeto Orientado por Objetivo) de planejamento. Trata-se de uma proposta desenvolvida pela Cooperação Técnica Alemã e utilizada em todo o mundo por várias organizações e instituições. Algumas instituições especializadas em gestão, como a Fundação Getúlio Vargas (FGV), estudam o método, aperfeiçoando-o e implementando-o em muitas das assessorias que oferece.

Partindo de oficinas, desenvolvidas com os principais grupos de interesse, de acordo com Carneiro (2007), o método ZOPP constitui-se em estrutura sistemática para a identificação das situações da organização, seu planejamento e indicações basilares para a gestão. Os dois principais objetivos do ZOPP são: a) definir objetivos claros e realistas e b)  melhorar a comunicação e a cooperação entre os envolvidos, através do planejamento conjunto, claras definições e documentação do projeto (CARNEIRO, 2007).

lagoa planejamento

Esta abordagem possibilita, ainda, que os envolvidos participem ativamente das decisões,determinando as áreas de abrangência e criando indicadores claros para a avaliação, acompanhamento e monitoramento. A gestão que opta por um planejamento participativo tem como principal foco o desenvolvimento, a otimização de serviços e a melhoria da qualidade de vida dos sujeitos a ela relacionados. O planejamento participativo tem por principal foco a construção da realidade social (GANDIN, 2001).

Escutar: o primeiro passo

De modo geral, existe uma percepção, mais ou menos elaborada, da situação em que se vive, e a qual se quer modificar. Entretanto, qualquer projeto que se pretenda eficaz não pode basear-se somente nesta primeira percepção. É necessário aprofundar, detalhar, focar e priorizar aquilo que está se percebendo. Quando a realidade em questão diz respeito à organização pública, esta necessidade de um olhar mais aguçado se faz ainda mais contundente. Daí que, o primeiro passo de um planejamento sério, bem estruturado e que responda às reais necessidades da população precisa partir de uma escuta sensível, qualificada e sistematizada das grandes questões da comunidade.

Com base nas premissas do método ZOPP, a equipe de profissionais que assessorou o processo de planejamento, juntamente com o poder executivo de Lagoa Vermelha, elencou as principais áreas de abrangência da gestão pública. Foram, assim, listadas as seguintes dimensões: institucional, econômica, social (educação e cultura), infraestrutura e território, saúde e meio ambiente. A partir daí, organizou-se um plano de ação com os seguintes produtos: 1) plano de capacitação dos sujeitos do processo de planejamento; 2) plano de mobilização social; 3) diagnóstico; 4) matrizes de planejamento e 5) relatório final.

Os vários instrumentos de escuta permitiram o diagnóstico a partir do qual é possível precisar os objetivos e os meios para alcançá-los. Um plano de mobilização social, com uma proposta que partiu do chamado aos membros da comunidade, convidando-os a participação, construiu os instrumentos que foram organizados em reuniões temáticas, diálogos com coletivos específicos (sindicatos, associações, comunidades), distribuição de urnas de coleta de sugestões, visitas aos bairros e zonas rurais, questionários online, entre outros. Todo o tipo de manifestação da comunidade foi acolhido pela equipe do planejamento.

Para cada dimensão levantada foram organizados dois encontros temáticos. O convite à participação era aberto a comunidade e amplamente divulgado. O primeiro encontro contava com a participação de um especialista da área em questão. O convidado apresentava os grandes conceitos do tema, trazia dados com foco na realidade do município e fazia uma análise da conjuntura e da situação de cada área. Depois, abria-se o diálogo para questões, esclarecimentos e manifestações do grupo. Num segundo momento, os participantes organizavam-se em pequenos grupos a fim de discutir o tema, com as questões levantadas e focalizar as peculiaridades do município em relação ao que foi apresentado. Finalmente, socializa-se a síntese das discussões no grupo.

O segundo encontro tem por objetivo levantar os principais problemas, sistematizá-los e priorizá-los. Os grupos são convidados a elencar os problemas percebidos na dimensão em foco. Utiliza-se a imagem da “árvore” como esquema de sistematização de cada problema. No tronco da árvore escreve-se o problema. A partir daí propõe-se uma discussão tendo como metáfora a raíz: de onde provém este problema? Quais suas causas? Depois, dialoga-se sobre as consequências (galhos), a partir das questões: o que este problema produz na comunidade, na cidade? Quais as consequências deste problema? A árvore de problemas expressa a rede causal, ou seja, a complexidade de causas e efeitos no qual o problema a ser superado está envolvido. Este diagnóstico é fundamental para que, ao elaborarem-se os objetivos, estes sejam o mais operacionais possíveis, propiciando um resultado mais eficaz.

O diagnóstico

A partir do conjunto das informações coletadas, o grupo coordenador do processo de planejamento fez um estudo e uma nova sistematização. O produto deste trabalho, um relatório diagnóstico, é novamente submetido aos grupos da comunidade que estão colaborando no processo. Esta etapa é muito importante, será neste momento que a comunidade faz um elenco de prioridades em cada área ou dimensão. Para isto, a construção de consensos é fundamental. O coordenador desta etapa terá como tarefa mediar os interesses pessoais ou de grupos, ponderando, a partir de argumentos objetivos, sobretudo considerados nas raízes e nos galhos das árvores de problemas. Com base nas discussões, o grupo é, então, convidado a elencar, de forma ordinal, as prioridades a serem consideradas na etapa seguinte do planejamento.

As matrizes do planejamento

As matrizes constituem-se em um primeiro instrumento operacional do planejamento. Em cada uma delas, construídas a partir das dimensões (uma matriz para cada dimensão), formula-se o problema, de forma completa e abrangente. A partir do problema e considerando-se a hierarquia de prioridades, elaboram-se os objetivos. Os objetivos são elaborados a partir de verbos escritos no infinitivo, considerando-se, ainda, a operacionalidade.

A partir do objetivo, estabelecem-se as ações a serem desenvolvidas para alcançá-lo. As ações precisam ser realistas e factíveis. É importante, também, que se tenha clareza de uma sequência de ações progressivas e relacionadas entre si. É possível que, diante da complexidade da administração de um munícípio, seja necessário trabalhar com a ideia de pré requisitos. Tendo-se clareza das ações a serem desenvolvidas, é hora de definir os indicadores. Como o próprio nome define, os indicadores “indicam” a execução da ação. Também com características bem realistas e factíveis, os indicadores precisam ser claros e, se possível, quantificáveis. Os indicadores serão elementos fundamentais para o acompanhamento e a avaliação do cumprimento do objetivo.

Outro elemento fundamental para o sucesso de um planejamento é ter uma equipe responsável por cada objetivo. Com o mesmo espírito cooperativo e participativo que mobiliza o planejamento, faz-se necessário que os envolvidos no processo de escuta, diagnóstico, elaboração, também contribuam com a execução. No grupo que coordenará cada objetivo, é necessário definir papéis: coordenação, relatoria, avaliação, ou outras funções que sejam necessárias, de acordo com a peculiaridade do objetivo.

A equipe responsável pelo objetivo definirá, a partir da realidade administrativa, um cronograma para a execução de cada ação. Os prazos precisam ser bem definidos, considerando-se a característica da ação em questão e a realidade na qual ela será executada.

Finalmente, para chegar a bom termo, o objetivo precisa ser monitorado. O monitoramento será fundamental para uma avaliação precisa do cumprimento do objetivo. Para tanto, faz-se necessário que, através de um instrumento simples, em uma planilha, deixe-se claro os indicadores e o cronograma. A partir da relação entre estes dois elementos, estabelece-se um quadro do status da ação. Ao alcançar-se o objetivo, é importante que a comunidade seja informada, apresentando-se, também, um relatório da execução das ações. Reforça-se, aqui, a importância de um envolvimento da comunidade em todo o processo de planejamento.

Conclusão

Comunidade feliz é aquela que participa. Ninguém conhece melhor a vida de uma cidade do que os cidadãos e cidadãs que nela vivem. Uma gestão que convoque a sociedade civil para a construção das grandes propostas a serem executadas, parte do pressuposto fundamental do respeito àqueles e àquelas que formam a sociedade. O acolhimento dos desejos, sonhos e esperanças da população é atitude basilar para quem quer fazer uma gestão de qualidade, com foco na melhoria da vida das pessoas e do serviço a elas prestado.

A esperança é condição identitária do ser humano (FREIRE, 1992), que é vivenciada na expressão dos desejos e na concretização de sonhos. Nenhum ser humano é feliz sem um sonho a ser perseguido. Quando o sonho é partilhado, encontrando companhia em outros sonhos, transforma-se em projeto e ganha força de realização. A gestão que convida os sujeitos dela pertencentes ao sonho coletivo, reposiciona as pessoas em um novo campo de ação no qual todas e todos se reconhecem autores da realidade, construindo sentido para viver o cotidiano da comunidade. O planejamento participativo é caminho para este envolvimento capaz de conclamar cidadãos e cidadãs de uma cidade inteira à reconstrução da comunidade municipal em vista de uma melhor qualidade de vida e da cultura do bem viver. A atual gestão de Lagoa Vermelha, por meio do planejamento participativo, está se posicionando na vanguarda de um novo projeto de cidade.

Referências

CARNEIRO, M. C. ZOPP. Recife: NESCON, 2007.
FREIRE, P. A Pedagogia da Esperança: Um Reencontro com a Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.
GANDIN, D. A Posição do Planejamento Participativo entre as Ferramentas de Intervenção na Realidade. Em: Currículo Sem Fronteiras, V.1, N.1, pp.81-95, jan./jun.2001.
RAIMUNDO, J. S. Procedimentos de Gestão Social na Escuta Qualificada: Elementos Para um Programa de Formação Continuada em Serviço de Saúde. Dissertação de Mestrado: Centro Universitário UNA. Belo Horizonte, 2011.


Este texto é uma versão reduzida do capítulo de mesmo título publicado no livro do Planejamento Estratégico de Lagoa Vermelha.

[1] Doutor em Educação: Aprendizagem, Currículo e Formação Docente (2014/UCB); Mestre em Educação: Currículo, Cultura e Sociedade (2003/UNISINOS); Bacharel e Licenciado em Filosofia (1998/UNILASALLE); Licenciado em Pastoral Catequética (1992/UNILASALLE); Curso Técnico em Magistério (1990/CEL); Formação em Psicanálise Clínica (2007/ANPC); Formação em Acompanhamento e Discernimento Vocacional (1998/UNILASALLE). Atualmente é Diretor do Instituto Transdisciplinar de Formação Saber Cuidar. Assessor Pedagógico da Editora Edebê Brasil (desde 2014). Assessor Pedagógico da Vice-Reitoria de Extensão da Universidade de Passo Fundo/RS (desde 2014). Consultor Para a Formação Docente na Rede Salesiana de Escolas do Brasil (desde 2014); Atuou como Docente no Curso de Pedagogia da Universidade Católica de Brasília (UCB) de 2003 a 2015. Nesta instituição, foi Diretor de Programas de Pastoral (2007 a 2009), Diretor do Curso de Pedagogia (2009 a 2012), Diretor de Programas Comunitários e de Extensão (2012 a 2014). Na UCB, também participou do Comitê Assessor de Extensão (2003 a 2006), Comissão Própria de Avaliação (2004 a 2009), Conselho Consultivo da Reitoria (2007 a 2011) e do Conselho de Ensino Pesquisa e Extensão (2009 a 2011). Coordenou o Projeto Sonho Possível, que criou a Escola Fundamental La Salle de Sapucaia do Sul/RS (1997 a 2002). Foi professor de Ensino Fundamental 1 em 1990/91, de Ensino Fundamental 2 de 1994 a 1998 e Ensino Médio de 2002 a 2003. É membro do Grupo de Pesquisa (CNPq) Ecologia dos Saberes, Docência e Transdisciplinaridade. Autor do livro “Eixos Significantes: Ensaio de Um Currículo da Esperança na Escola Contemporânea” (Brasília: Universa, 2008), Organizador com Maria Cândida Moraes e Juan Miguel Batalloso do livro “A Esperança da Pedagogia: Paulo Freire – Consciência e Compromisso” (Brasília: Liberlivro, 2012). Autor de inúmeros artigos científicos. Palestrante e conferencista em nível Nacional e Internacional. Temas que aborda: Pensamento Complexo e Transdisciplinaridade; Formação Docente; Aprendizagem; Extensão Universitária; Currículo; Pedagogias Inovadoras.

Por todas elas: contra a cultura do estupro

A notícia de que uma adolescente de 16 anos foi estuprada por mais de
30 homens no Rio de Janeiro e além disso teve imagens dessa violência
divulgadas na internet chocou os brasileiros nos últimos dias. A
indignação surgida após o ocorrido tomou as rodas de conversa, as
redes sociais e acabou pautando a grande mídia sobre um assunto ainda
considerado tabu nos lares brasileiros.

A cada onze minutos uma pessoa é violentada sexualmente no nosso país.
Esses dados assustadores foram declarados pelo estudo mais recente do
Ministério da Justiça, que aponta que 50 mil mulheres são estupradas
por ano no Brasil. Os números são apavorantes e correspondem a 26,1
estupros por grupo de 100 mil habitantes. No Rio Grande do Sul são
18,4, estupros por grupo de 100 mil habitantes. Esses números de
ocorrências registradas, por sua vez, não contemplam todos os casos
que acontecem. Milhares deles são abafados e ficam escondidos envoltos
em um mar de vergonha e culpa. Em até 65% dos casos o agressor é
familiar ou conhecido da vítima.

Filtro nas fotos, denúncia no Ministério Público, atos públicos ou
textão nas redes, o fato é que todos que se sentiram tocados pelo fato
precisaram externar de alguma maneira a sua indignação. E quando esse
crime tão comum (mas tão pouco comentado) vira assunto na mesa da
família tradicional, acaba sendo tão simplesmente para culpar a
vítima. Seja pela sua roupa, pelo local que estava, pelo seu passado.
A culpa é da mulher que disse não e não foi ouvida. É da mulher que
não teve sua escolha respeitada. A culpa é da mulher que teve seu
corpo invadido e sua alma dilacerada.

Essa culpabilização da vítima se deve ao fato de cultuarmos a
normalização e naturalização de situações de abuso como o estupro, por
exemplo. Portanto o que chamamos de cultura do estupro só é possível
por estarmos inseridos em um contexto com profunda desigualdade entre
os gêneros, a desumanização das mulheres e a objetificação de seus
corpos. Isso não é minha opinião, mas os fatos que a sociedade nos
confirma diariamente quando, por exemplo, dizemos que a culpa é dela
porque estava lá. Quando ensinamos que as meninas devem se esconder,
ao invés de ensinar aos meninos que devem receber consentimento antes
de fazer qualquer coisa.

A cultura do estupro está na nossas casas, todos os dias, quando o
corpo da mulher é usado em propagandas para vender cerveja, carro,
barra de cereal… Quando censuramos as roupas das meninas (que saia
curta!) ao invés de reprovar o menino que acredita que tem o direito
de enfiar sua mão dentro da roupa dela. Ou ainda quando os garotos, ao
receberem mais liberdade que as garotas, passam a sentir-se superiores
e em posição de tratá-las com violência verbal, física ou psicológica.

E o estupro está no topo dessas expressões de superioridade. É quando
alguém é violado a tal ponto que tem seu corpo invadido por um corpo
que não tem permissão para estar ali.

É o não sendo calado.

Vale lembrar que a legislação é clara e enquanto o atual governo não
aprovar qualquer retrocesso, segue sendo definido como estupro
“Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter
conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique
outro ato libidinoso”. Portanto se a moça do Rio disse que ia dar pra
boca inteira o fato é que na hora do vídeo ela estava desacordada e
outras pessoas tocaram seu corpo sem o seu consentimento.

Cultura do estupro é a rapidez com que uma barbárie como uma mulher
sendo abusada por 30 homens muda a versão para “ela que quis”, “ela
tava drogada, pediu”, estava bêbada” ou qualquer outra coisa que
minimize a culpa daquelas dezenas de homens que não respeitaram o
limite daquela mulher.

Como milhares de homens não respeitam o limite de nenhuma de nós. Seja
com a mão boba na balada, seja te obrigando a beijá-lo na festa para
poder passar, seja na encoxada no ônibus ou nas palavras de baixo
calão que somos obrigadas a ouvir todos os dias da nossa vida, pelo
simples fato de sermos mulher. Ou o professor que fica te elogiando e
usando da hierarquia acadêmica para pedir favores sexuais. Ou o colega
de faculdade que “tentou” transar mesmo quando você havia bebido
demais… E ainda ouvir que a culpa é nossa por tentarmos viver
normalmente e não deles, que se comportam como animais! Já pensou usar
os mesmos argumentos para justificar o porquê de um homem ter sido
estuprado? “Mas ele estava bêbado, drogado, sozinho ou a regata era
muito decotada, pediu!”

Sabe porque soa estranho?

Porque não está certo! Porque é desigual!

E desumano!

Esse desabafo é por todas elas.

Obs.: Homens que respeitam as mulheres e não propagam a cultura de
estupro: não percam tempo se ofendendo, já que essa conversa não é com
vocês. E ninguém se ofende pelo que não faz, não é?!

Foto: FEMMA Registros Fotográficos (por Fernanda Cacenote)

Não existe neutralidade na educação

Afirmações fundamentalistas e simplistas tendem constituir falsas verdades. Caso típico das absurdas afirmações dos que defendem as ideias de uma “escola sem partido”. O viés do debate que se coloca deve ser mesmo pela afirmação das diferentes ideologias, mesmo daqueles que imaginam ser possível existir neutralidade na educação, dizendo ser possível “uma escola sem partido”. Eles também agem por ideologia.

Verdade é que não existe a possibilidade de uma educação neutra. Os diferentes conhecimentos sempre se apresentam permeados por diferentes ideologias. Mesmo quando tratamos de métodos, estes nunca são isentos de ideologia. As ideologias são as diferentes ideias que estão em permanente disputa na sociedade. Quando se tornam fortes, chamamos as mesmas de ideologias dominantes. Se as ideologias estão na sociedade, como não estarão na escola? A escola nunca foi e nunca será uma redoma de vidro; sempre será o reflexo e espelho da sociedade.

A educação sempre acontece em dois movimentos: ou para manter o “status quo”, deixando tudo como está ou ser uma ferramenta de emancipação humana, afirmação das liberdades e transformação da realidade. Pelas ideias que defendemos e pelas atitudes que tomamos podemos ser avaliados como liberais ou conservadores, libertários ou opressores, democráticos ou autoritários.

A alegação de que professores das escolas da rede de ensino fundamental e de ensino médio fazem doutrinação política-ideológica carece de qualquer fundamento. Pois, vejamos. Os professores sempre exercem certa influência sobre seus alunos, mas jamais a ponto de doutrina-los. O poder da educação é muito mais relativo do que imaginamos. Paulo Freire, nosso grande pedagogo brasileiro, entendeu o papel da educação: “a educação não muda o mundo. A educação muda pessoas e as pessoas (se quiserem) mudam o mundo”. O discernimento e o conhecimento dos alunos, com tantas outras informações e vivências, jamais os coloca na condição de doutrinados. Quem acha que os jovens estão perdidos é porque não fez nenhuma visita aos estudantes que ousaram ocupar suas próprias escolas.

O alvo deste movimento da “escola sem partido” parece mesmo ser o ataque à dignidade, reputação e liberdade de cátedra dos professores. Uma espécie de ditadura institucionalizada, agora com força em leis e regimentos. Uma forma de mudar radicalmente a escola que afirmamos e construímos nos últimos 30 anos, com fundamentos reformistas e progressistas, sem perguntar nada aos maiores interessados: os professores, os alunos e a comunidade escolar como um todo (pais, mães, funcionários, comunidade geral). Com que segurança trabalharão os professores sabendo que, a qualquer hora, por motivos adversos e alheios ao seu controle, terão de explicar e justificar a forma e o conteúdo que estão trabalhando nas salas de aula?  Com que método trabalharão? Como abordarão os temas sociais não previstos como violência, drogas, sexualidade, construção de relações de solidariedade e paz e direitos humanos? Ainda haverá a possibilidade de escolher livros didáticos (mais de um livro didático já trará problemas ideológicos). O que apresentarão de conteúdo aos estudantes sempre terá que ter fonte e autoria, mas o que fazer quando os estudantes perguntarem pela opinião do professor? Em caso de dúvidas sobre a neutralidade ou não dos conteúdos, a que instâncias o professor recorrerá? Serão proibidos o uso de anéis, de símbolos ou adereços religiosos no corpo e nas vestimentas dos professores? Ainda será possível assumir-se professor e educador? O que faremos com nossos Projetos Políticos e Pedagógicos e com Regimentos Escolares que descrevem o que desejamos construir, através da educação, como ser humano, como sociedade e como escola num viés crítico, emancipatório e libertário (mesmo que na prática ainda tenhamos dificuldades de realizar práticas democráticas e emancipatórias na escola)?

O político na educação não é o ideológico-partidário. O político na educação refere-se sempre às ações e intervenções na sociedade, ou seja, possibilidades de mudança concreta na vida das pessoas. Por isso, talvez, ninguém fale sobre o verdadeiro temor dos defensores desta absurda ideia de controlar a escola pública, para que ela não tenha qualidade social. “Quando se nasce pobre, estudar é o maior ato de rebeldia contra o sistema”. No atual momento histórico, os pobres, os filhos de trabalhadores ousaram formar-se na faculdade. Aí, bem, aí já é demais, não acham?

A defesa da democracia e da liberdade de expressão de todos são os maiores contra-argumentos da “escola sem partido”. Os fundamentalistas, que se dizem sem ideologia, não passarão! Nós, os professores, com liberdade para ensinar, “passarinhos”.

A escola tem de ser um lugar de livre pensamento! Não existem soluções para a coletividade fora da democracia e da política.

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