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Operação Cruzeiro do Sul   

O Senhor ordenou a Noé que construísse uma arca na qual sua família e “tudo o que vive, de toda carne fossem salvos do Dilúvio, Suas águas destruíram os iníquos e todas as criaturas que viviam na terra, exceto as que estavam na Arca. (Gênesis 6:19)

Sensibilizados pela campanha de ajuda aos flagelados pelas enchentes no Estado do Rio Grande do Sul, quatro membros da Academia Passo-Fundense de Letras e mais alguns amigos dirigiram-se até a cidade de Cruzeiro do Sul/RS para fins de levar donativos aos desabrigados e prestar-lhes solidariedade. A cidade e seu interior foram as mais penalizadas pela força das águas do rio Taquari.  Foi num sábado de junho/2024 de intenso sol radiante, exatamente uma semana depois da grande inundação que atingiu, principalmente as cidades de Roca Sales, Muçum, Encantado, Arroio do Meio, Lajeado, Estrela, Cruzeiro do Sul e Venâncio Aires.  

Começamos a sentir os efeitos dos temporais no caminho de descida da serra de Pouso Novo devido aos deslizamentos das encostas sobre a pista da BR 386, também nomeada como rodovia Leonel de Moura Brizola. Enfrentamos algumas paradas por meia pista, solavancos, pequenas cachoeiras, pedras, lama e água na pista até a chegada na ponte curva do rio Fão. Dali em diante, o cenário era uma verdadeira terra arrasada: desmoronamentos das margens dos afluentes do rio Taquari, árvores arrancadas pelas raízes, restos de casa dos agricultores, casas de veraneio, lavouras varridas, crostas das terras levadas, pedras e lajes no meio do caminho, roupas e colchões, sofás nos galhos das árvores das margens dos rios, cujas águas apressadas pediram apenas passagem, inclusive ao longo das duas margens.

Chegando na cidade de Cruzeiro do Sul, deparamo-nos com mais de 50% da cidade arrasada, especialmente nas margens curvas e nas partes mais planas e baixas. As águas passaram fortes e rápidas, tomando conta das residências, lojas, escolas, ruas e praças, deixando no caminho muita lama, restos de tudo, inclusive animais mortos e algumas vítimas humanas até então não encontradas. O lixo e o pó escuro marcavam presença em toda parte. Tudo era tão real, dando a impressão de que um Tsunami tinha passado em direção ao lago Guaíba e ao mar.

E depois veio a bonança. Agora, passada uma semana, ali estava o rio Taquari em seu leito normal. Damo-nos conta de que os rios têm três estados: rio em tempo de seca, rio em tempo normal e rio em tempo de enchente.  Em tempo de seca parece desidratado, fraco e de pouca vida. O rio em tempo normal é saudável, piscoso, navegável e tranquilo. Por fim, o rio em tempo de enchente é agressivo, violento, intolerável com tudo o que estiver a sua frente e as suas margens próximas. Desde crianças aprendemos que há de se recuar das fúrias destruidoras das águas e do fogo. Com elas não se brinca, ensina um provérbio.    

Nossa caravana, constituída por 7 pessoas em 3 camionetes lotadas de donativos, especialmente livros, material didático, roupas e cobertores foi gentilmente recebida, no Centro de Acolhimento, pelo Tenente Pedro, aposentado da Brigada Militar, o qual nos guiou para outros locais onde estavam os desabrigados, bem como para os principais pontos onde as águas causaram danos irreversíveis no município de Cruzeiro do Sul. Os donativos de ordem escolar, como livros infantojuvenis e material didático, ficaram por conta da diretora e professores de uma escola municipal seriamente danificada, pois de tudo só restaram as paredes e o telhado.  Sabíamos que os cenários seriam fora do imaginário comum. Porém, a realidade trágica encontrada parecia um pós-guerra sem o uso de armas. Além estavam, diante dos nossos olhos, os sinais da fúria da natureza. Uma escola, longe e no alto, no meio do caminho de um afluente, parecia um prédio mal-assombrado. Sem portas e janelas. Nada de cadeiras, mesas e escrivaninhas e biblioteca.      

As pessoas atingidas pela fúria do rio Taquari, pareciam, ao mesmo tempo tristes e esperançosas, dizendo que logo tudo isso iria passar que tudo ficaria bem novamente, pois tudo é impermanente. Recuperariam as casas, as coisas perdidas e a alegria por estarem num lugar onde criaram raízes, seus filhos e donde tiraram seus sustentos. E nos perguntaram:

– Sair dali e ir aonde? A culpa é de quem, nos perguntavam.  Respostas não tínhamos a dar. Só ouvimos.  

Almoçamos com um grupo de professores junto à Secretaria Municipal de Educação.  Há um restaurante panorâmico onde se visualiza a cidade de Cruzeiro do Sul, o rio Taquari e as cidades de Lajeado e Estrela.  Vista que deve ser linda à noite e em dias de boa visibilidade. Sentamo-nos em uma das mesas do restaurante vazio. Alguns haviam trazido um lanchinho de casa. Outros aceitaram marmitas prontas a serem distribuídas, mas que haviam sobrado. Nelas havia arroz, feijão, maça e carne de panela. Tudo estava bem temperado e gostoso. A quentinha dava para duas pessoas.  Serviram-me também uma garrafa com água mineral. Tudo era produto de doação e do trabalho de muitos voluntários. E assim matamos a fome do meio-dia. A solidariedade nos marcou profundamente.  

À tarde, guiados gentilmente pelo Tenente Pedro, a caravana rumou às margens do rio Taquari. O cenário deu-nos a impressão de estarmos sozinhos no silêncio de um cemitério de casas, árvores, lixo de todas as espécies, além do cheiro nauseabundo. Estávamos na rua beira rio onde outrora havia comércio, casas de moradia e de veraneio. Que silêncio perturbador! Alguns ex-moradores indicaram onde estiveram suas ex-residências. Nada, além de um piso de banheiro, um muro, ou um teimoso toco. Tudo tão pouco e nada! Lembrei-me da frase inicial do romance Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa:

– Nonada!

Na cidade de Cruzeiro do Sul, constituída por descendentes com fortes marcas da colonização alemã, perguntei ao um idoso que circulava pela área:

– O que será feito do que restou? A resposta foi:

– Sei lá! Talvez um parque florestal, um memorial, um aterramento…

Saindo dali, fomos ao Centro de Acolhimento, onde já tínhamos passado. Contaríamos histórias às crianças. Havia uma meia dúzia. Todos com idade em torno de 5 anos. Não havia coordenação. Mesmo assim, conseguimos juntá-las num pequeno círculo ao chão.

Enquanto nos esforçávamos para obtermos a atenção das crianças, duas ficaram bem atentas ao que lhes era narrado. Outras subiram nas costas, outras no colo da contadeira, outro puxava a barba e o cabelo do narrador. Eu, que estava de pé a mostrar livros para crianças, ganhei uma boa mordida na barriga da perna. O menino só não me tirou um naco de carne, pois era muito dura: exatos 70 anos. Mancando, tive que resgatar um Livro de Animação que uma criança havia selecionado, pois julgou que o teria ganho de presente. Estava com seus avós.

Finalizada a sessão de contação de histórias, vi uma colega buscando se livrar de um menino que não saia do seu colo. Essa foi nossa primeira sessão de contação de histórias no Centro de Acolhimento. É mais uma boa história para se escrever e contar nessa vida de professor. Tão simples!  Elas estão em todos os lugares.   

Depois nos dirigimos a outros dois Centros de Acolhimento.  Ambos em clubes cedidos pelas comunidades do interior.  Por ser sábado e se desestressarem, muitos tinham saído para visitar amigos e familiares. Enfim, saíram daqueles ambientes improvisados, sem privacidade e com muita gente desconhecida. No entanto, lá permaneceram alguns casais de idosos, adoentados, sem parentescos. Um outro morador de rua. Tudo muito tétrico!

Nos últimos Centros de Acolhimento das pessoas desabrigadas pelas enchentes também buscamos contar histórias às crianças. Em um deles, em paralelo, havia um torneio de futebol e um grupo de voluntários distribuindo pipocas feitas na hora. Ao final restaram duas ou três crianças para ouvir nossas histórias, pois pipocas feitas na hora, se consome no agora. E para lá se foram as crianças.

Era chegada a hora do retorno da caravana a Passo Fundo, pois o caminho era longo e perigoso na Serra de Pouso Novo.  Estava quase finalizada a Operação Cruzeiro do Sul por conta de uma pequena equipe de confrades e confreiras da Academia Passo-Fundense de Letras. Em nome dos demais, ela exerceu a legítima solidariedade em favor das pessoas atingidas pelas enchentes da serra e da metade sul do RS/2024.

Avaliando a Operação Cruzeiro do Sul, no retorno, discutimos as reais causas das reiteradas enchentes no RS. Há certeza de que as secas, as enchentes, as micro explosões climáticas, os incêndios, os tornados, os tufões, dentre outras tragédias da natureza, são consequências humanas do aquecimento global verificado em vários países – efeito estufa – consequências, da queima dos combustíveis fósseis.  Seria uma simples conversa entre o motorista e o caroneiro no caminho de volta a Passo Fundo. Parece-nos que o Aquecimento Global também é um caminho que tem volta.  Bastam atitudes urgentes de caráter pessoal e universal para combatê-lo.

FOTOS: Divulgação/ arquivo pessoal

Autor: Eládio V. Weschenfelder. Também escreveu e publicou no site “Rios do céu e da terra”: www.neipies.com/rios-do-ceu-e-da-terra/                                                                   

Edição: A. R.

Caminhos da reconstrução

“Sei que nada será como antes, amanhã”

Neste momento em que nós do Rio Grande do Sul vivemos o luto dos infortúnios das enchentes de maio de 24, num dia de Santo Antônio e do Bará, não tem como não se lembrar da canção de Milton Nascimento e Lô Borges:

“nada será como antes, amanhã”.

Nem poderá, pois, a História quando se repete será uma farsa.

A farsa tem que acabar. Arrozeiros não podem se achar donos de baixios que trancam o desaguamento natural da Lagoa dos Patos para o mar.

A farsa não pode persistir. Não se pode ter um Estado com tantos microclimas, imensidões de águas, planícies, planaltos e montanhas para plantar soja e eucaliptos torto a direito.

Não se poderá tolerar um parlamento como o nosso que abaixa a crista para o governador e aprove passar a tesoura nas leis ambientais, como na capital deixa ao deus dará os licenciamentos.

Não se pode deixar que a fúria imobiliária na capital derrube árvores, detone pedreiras no meio de edifícios, construindo arranha-céus, espigões à moda Camboriú, como se aqui fosse Dubai.

Aqui precisamos voltar a ter matas ciliares, recompor as nascentes, proibir que se tire a última gota de água dos arroios para suprir a ganância dos fazendeiros com o seu gotejamento de plantações.

Chegou a hora dos Planos Diretores, com a participação de técnicos e da sociedade civil, para tirar as pessoas de áreas de risco sem jogá-las às periferias sem estrutura.

Não bastasse o drama que vivemos com casas destruídas, com a perda de tudo dentro delas, das memórias que se foram nas águas sujas e turbulentas da enchente, vem os arrozeiros chantagear o governo, para tirar seus lucros à custa do consumidor já tão castigado.

Não podemos aceitar que os defensores do Estado Mínimo com a Federação das Indústrias e da Federação da Agricultura venham pedir bilhões ao governo federal, quando este está presente desde o início no Estado, sendo que Lula criou um Ministério Extraordinário.

Os primeiros recursos que caíram na conta do povo foram os 5.100 reais dados do governo federal

O Pronampe ainda é insuficiente, e a burocracia dos bancos é uma vergonha nacional.

O pagamento como subsídio de dois salários mínimos pelo Governo Federal a cada empregado é uma resposta aos pequenos empresários que pediam três.

O governo federal vai comprar casas, construir outra tantas.

Já o governo local e estadual quer “casas provisórias” com custos que se igualam às permanentes.

O governo do Estado traz um Secretário bolsonarista para “reconstrução do Estado”, e o governo de Porto Alegre chama a empresa Alvarez e Marsal, cuja história é tramar gentrificação e privatização.

Nós da oposição aos governos do Estado e de Porto Alegre, irmanados com os propósitos do governo do Presidente Lula, lutaremos pelo povo, contra as iniquidades dos mandatários locais.

Vamos mover montanhas para termos um meio ambiente equilibrado e socialmente justo.

Proporemos políticas de incentivo à pequena agricultura agroecológica, com existência digna ao produtor rural.

Combateremos o desmatamento, o uso de venenos nas lavouras, denunciando todo e qualquer ataque ao ambiente natural.

Vamos buscar junto aos órgãos federais incentivos à cultura, ao esporte e ao turismo. Já louvando o ato da Ministra da Cultura em apoio ao Rio Grande do Sul.

Queremos um Outra Amanhã, que nada será como antes!

Autor: Adeli Sell, professor, escritor, bacharel em Direito e vereador do PT em Porto Alegre. Também escreveu e publicou no site “60 anos de golpe e eles não mudam!”: https://www.neipies.com/60-anos-do-golpe-e-eles-nao-mudam/

Edição: A. R.

Aos olhos do outro

É fundamental, para o sucesso do relacionamento, conhecer bem a pessoa. É importante haver similaridades. Mesmo assim, podemos correr riscos de entrega e depois nos depararmos desiludidos, decepcionados.

Quando nos apaixonamos por alguém, os olhos enxergam o que desejam enxergar. Ao objeto de amor são atribuídas qualidades, dons e aptidões que ele ou ela, eventualmente, não tem. E não é que se queira ser generoso com aquela pessoa que nos atraiu no primeiro olhar. É que a imaginação, através da emoção, corre longe.

Queremos amar e ser amados por alguém que nos cause admiração, alguém cujo amor valeria como lisonja. Queremos um par com quem valha à pena dividir a vida. Alguém que tenha virtudes, valores claros de vida, com os quais compactuamos.

É fundamental, para o sucesso do relacionamento, conhecer bem a pessoa. É importante haver similaridades. Mesmo assim, podemos correr riscos de entrega e depois nos depararmos desiludidos, decepcionados.

Só se consegue desenvolver respeito e admiração pelo “outro” se realmente ele nos causar esse efeito e que sejam reais as qualidades. Com isso, ocorre um desdobramento de entrega de simpatia e empatia de ambas as partes. Queremos verificar que somos amáveis aos olhos da nossa própria idealização amorosa.

Tomados pela fantasia, colocamos a pessoa “escolhida” num templo, seduzidos pela idealização de um amor tão sonhado. Seguimos com obstinada esperança de amar e ser amado. Teríamos condições prévias para sentir verdadeiro esse amor? Em termos práticos, penso que não. Só o tempo de convivência pode trazer respostas.

— Mas aconteceu! — declarou-me uma pessoa em terapia. — O que eu faço? Eu preciso de um amor para minha vida — prosseguia a pessoa em seu discurso amoroso, como se o amor ainda não vivido fosse um remédio para todos os males.

Soledade, RS, 12 de junho de 2024.

Autora: Elenir Souza. Também escreveu e publicou “Cuide de suas amizades em qualquer estação”: https://www.neipies.com/cuide-de-suas-amizades-em-qualquer-estacao/

Edição: A. R.

Um ambiente desafiador chamado Sala de Professores

Este texto, prezados colegas, em momento algum tem o objetivo de ofender e sim de levar a reflexão de como recebemos os novatos, de que forma alguns dos nossos comentários, por mais verdadeiros que sejam, assustam e agridem aqueles que estão chegando e como isso pode impactar no desempenho de quem está começando.

Concluí a graduação em 2018. Por esse motivo, ainda me considero um professor recém-formado e, consequentemente, com pouca experiência de sala de aula. Quando estava por terminar a faculdade, muitas foram as dúvidas e incertezas passando em minha cabeça. Ficávamos pensando em como seria em sala, se iríamos conseguir ter um bom relacionamento com nossos alunos. Durante praticamente toda a graduação, somos preparados e lembrados que, por muitas vezes, a sala de aula é um território pouco convidativo e que, necessariamente, vamos ter problemas com os alunos.

Mas não somos preparados ou avisados sobre o quão hostil pode vir a ser a sala dos professores. Principalmente aos que estão iniciando sua carreira. É sempre importante ressaltar que não tenho o intuito de generalizar, e sim mostrar o quanto as ações pontuais de alguns professores e a omissão de outros marcam a nossa trajetória.

Logo depois de formado, fui contratado em alguns colégios e, de um modo geral, fui muito bem recebido pelas coordenações e pelos colegas. Contudo, algumas falas e atitudes destoantes merecem entrar neste relato. Ao ser apresentado à equipe de uma das escolas, por exemplo, alguns professores entenderam que seria legal e divertido fazer piada com a minha pouca idade e nenhuma experiência.

Fui colocado no meio da roda e os seguintes comentários foram proferidos: “não existia professor mais experiente para contratar?”, “sua primeira experiência?”, “os alunos vão te massacrar”. “Esse menino é muito novo, os alunos vão achar que ele é um colega.” “Esse aí é muito novo, não vai ter nenhum domínio de sala de aula.”

Também me chamou atenção a normalidade e a naturalização desse tratamento. Pude perceber que essas falas são bem comuns no ambiente escolar, entendidas por alguns quase como um processo de iniciação. Se para aqueles professores foi engraçado, para mim esse tipo de comentário serviu para aumentar ainda mais minha insegurança e verdadeiramente duvidar da minha capacidade. Por alguns dias, evitei ao máximo entrar na Sala de Professores, pois assim era mais fácil evitar aqueles que desconfiavam do meu potencial.

Em outro momento, percebi não só a hostilidade, mas o racismo. Aproveitando que a escola deixa disponíveis computadores na Sala de Professores, optei por lançar as presenças em um deles. Alguns professores que não me conheciam, ao me verem sentado usando o computador, entenderam aquilo como um insulto ou afronta. Afinal, o que faz um jovem negro sentado em uma sala que é ocupada por homens e mulheres brancos?

Eles perguntavam em volume audível à secretária responsável pela sala o que eu estava fazendo ali, e pude concluir que a pergunta tinha a intenção de me constranger. Foram exatamente quatro professores que fizeram esse comentário ao entrar. No entanto, quando a quarta pessoa fez o mesmo questionamento dos anteriores, eu levantei, pedi a palavra, me apresentei, informei que era o novo professor de História e que poderia usar a sala e os computadores como qualquer outro professor. É claro que os olhares de reprovação vieram a seguir, mas, como nenhum outro professor se manifestou, voltei a lançar as presenças.

Este texto, prezados colegas, em momento algum tem o objetivo de ofender e sim de levar a reflexão de como recebemos os novatos, de que forma alguns dos nossos comentários, por mais verdadeiros que sejam, assustam e agridem aqueles que estão chegando e como isso pode impactar no desempenho de quem está começando.

Posso afirmar que a maioria dos colegas com quem tive o prazer de trabalhar me recebeu muito bem, mas a falta de empatia de alguns acaba por marcar e muito esse início. Entendo a importância de estar contando um pouco dessa experiência aqui: alertar aos que estão iniciando suas carreiras e fazer refletir os mais experientes. Pois a educação libertadora se faz não só com os alunos, mas com toda a comunidade, inclusive nas relações entre os profissionais de educação.

FONTE: https://conexao.ufrj.br/2021/03/da-sala-de-aula-um-ambiente-desafiador-chamado-sala-de-professores/

Autor: Renan de Sá. Professor de História de Ensino Fundamental e Médio

Edição: A. R.

A privatização da Educação

O brasileiro precisa aprender de vez que “privatização” foi, e ainda é, literalmente em todos os casos, apenas um eufemismo enganoso para o roubo da riqueza pública e do futuro do país para o bolso de uma meia dúzia de ricaços.

A aprovação pela Assembleia Legislativa do Paraná do projeto do governo Ratinho Jr. que permite privatizar a gestão administrativa e financeira de 204 escolas públicas no estado é um aviso sombrio do que está por vir.

O que está em jogo aqui é a ganância interminável de um tipo de capitalismo que deseja transformar tudo em mercadoria vendável. Isso passa a valer, inclusive, para a Educação, a Saúde e a Previdência, ou seja, as áreas que o avanço democrático do último século tinha definido como dimensões da vida a qual todos têm que ter acesso independente da renda familiar eventual.

Esse é o acordo civilizatório que permitiu a educação e a saúde como um bem público para todos. É este acordo que agora começa a ser quebrado no Brasil.

A educação pública é o fundamento principal de uma sociedade democrática, posto que não apenas um meio de generalizar o acesso ao conhecimento científico, mas, também, possibilitar a reflexão autônoma dos indivíduos.

Não existe educação real sem estimular o espírito crítico, que é o que o indivíduo irá precisar para pensar com a própria cabeça, tanto a Ciência e seus vários ramos, quanto a Política. Só o Estado democrático possui essa visada pedagógica como o ponto essencial.

O mercado só quer, como sempre, uma nova forma de ganhar dinheiro fácil. E eles estão conseguindo isso no Brasil pós-golpe de Estado de 2016.

Como denunciam o professor Daniel Cara, da USP, um dos melhores especialistas que o país dispõe, e Luís Nassif, exemplo de coragem no jornalismo investigativo brasileiro, o próprio MEC já está sendo privatizado por dentro pela mera influência das assim chamadas “fundações privadas educacionais”.

O nome “fundação” é enganoso porque nos faz lembrar da filantropia, mas é só mais um modo de fazer lobby indireto para ganhar ainda mais dinheiro, fingindo que pretendem ajudar a educação pública, mas, na verdade, o interesse real é por mais dinheiro público para bolsos privados.

O projeto paranaense prevê que apenas instituições com experiência efetiva na área sejam as que podem participar das concorrências. Ora, alguém tem dúvida de que a fundação Lehmann e outras iguais serão as principais beneficiadas neste projeto?

Essa é a corrupção real do país: um país que vende o seu futuro, hoje, por um punhado de moedas, para possibilitar o absoluto controle privado das máquinas públicas. Só que nenhum jornal chama isso de corrupção, porque é uma corrupção da elite.

O avanço da extrema direita e sua agenda anti-Estado está no comando aqui. Tarcísio de Freitas e Ratinho Jr. estão sucateando a educação pública para favorecer os que investem em suas campanhas políticas. É um jogo de toma lá dá cá. Também uma corrupção descarada, mas o Brasil aprendeu que quando os ricos roubam é progresso e empreendedorismo, nunca um crime.

O interesse real é o de se apropriar dos R$ 300 bilhões de orçamento do Ministério da Educação e outros tantos dos governos estaduais. Se fossem R$ 600 bilhões, perfazendo os 10% do PIB constitucionais para a Educação, poderíamos ter escolas integrais de qualidade para todos, o que mudaria significativamente o país no espaço de uma geração. Mas nossa elite não tem projeto algum para o país nem nunca teve.

O brasileiro precisa aprender de vez que “privatização” foi, e ainda é, literalmente em todos os casos, apenas um eufemismo enganoso para o roubo da riqueza pública e do futuro do país para o bolso de uma meia dúzia de ricaços.

FONTE: https://iclnoticias.com.br/a-privatizacao-da-educacao/

Autor: Jessé Souza. Escritor, pesquisador e professor universitário. Autor de mais de 30 livros dentre eles os bestsellers “A elite do Atraso”, “A classe média no espelho”, “A ralé brasileira” e “Como o racismo criou o Brasil”. Doutor em sociologia pela universidade Heidelberg, Alemanha, e pós doutor em filosofia e psicanálise pela New School for Social Research, Nova Iorque, EUA

Edição: A. R.

Bença, Chica!

“Desde o tempo em que nasci/ Logo aprendi a lição/ Cuidar do outro é cuidar de mim/ Cuidar de mim é cuidar do outro”, diz a cantiga entoada por uma das facilitadoras, como se fosse o mergulho em outra dimensão.

O braço de Dona Chica é como colo de vó. Quem chega vai se deixando ficar, no embalo da sua reza, pode até cochilar. Há quem chore de emoção, outros observam, contemplativos. Dona Chica, miudinha, orienta os presentes a formarem um corredor, em que todo mundo cuida de todo mundo. No final do túnel humano, lá está ela, calma, com um sorriso leve, feito uma ancestral encarnada.

Assim funciona o Corredor de Saúde, método que Dona Chica utiliza em hospitais e unidades de saúde de Sergipe e outros estados. “O Corredor de Saúde é para cuidar do cuidador. Se o médico cuida de você, alguém tem que cuidar dele”, conta. Apoiada por algumas facilitadoras, Dona Chica organiza o Corredor numa tarde abafada de julho, 17ª Conferência Nacional de Saúde, em Brasília, na Tenda Simone Leite e Wanderley Gomes: a melodia suave da canção e o convite ao abraço são uma pausa em meio ao burburinho de vozes de um encontro como esse.

“Desde o tempo em que nasci/ Logo aprendi a lição/ Cuidar do outro é cuidar de mim/ Cuidar de mim é cuidar do outro”, diz a cantiga entoada por uma das facilitadoras, como se fosse o mergulho em outra dimensão. Uma senhora desmaia, de emoção ou calor: Dona Chica, tranquila, aproxima-se dela e aplica o que seria um passe. Pelo estalar de dedos e balbuciar dos lábios, logo se percebem as influências africanas e indígenas. Estamos diante de uma legítima benzedeira.

Depois de quase uma hora de atividade (em que o tempo parece passar de outra maneira), peço para conversar com Dona Chica. Ela aceita, de pronto. A primeira pergunta só podia ser sobre sua origem. “Meu filho, eu sou de um monte de lugar”, começa a responder, para em seguida fazer uma pausa brusca: “Já está gravando? Ave Maria!” 

Dali em diante, conhecemos a história da maranhense de 81 anos que reside em Cristinápolis, cidade de Sergipe próxima à divisa com a Bahia. “Eu nasci no Maranhão. Sou uma Ka’apor. Com a ditadura, eu me espalhei, fugida, corrida. Andei aqui na Bahia. Ajudei muita gente”, narra. Ela define parte de sua vida como uma tempestade — até que, levada pelos ventos, foi parar em Sergipe. Hoje é assentada da reforma agrária e atua no Movimento Popular de Saúde (MOPS) do estado de Sergipe.

“Sou rezadeira. Meu nome hoje é Chica. Chica parteira, Chica benzedeira, Chica curandeira. Chica Pereira das Neves Silva”. São muitas definições, nenhuma delas capaz de descrever em palavras a nobreza dos gestos, a firmeza da fala, a clareza de pensamento e a generosidade no olhar daquela que conta ter trazido ao mundo mais de 780 bebês. “Tive 23 filhos em Sergipe. São meus aqui da barriga. E sou mãe ‘adotada’ de 22”, completa.

“Sou rezadeira. Meu nome hoje é Chica. Chica parteira, Chica benzedeira, Chica curandeira. Chica Pereira das Neves Silva”

O dom da raiz

Dona Chica alia saberes tradicionais com as práticas em educação popular no SUS.
— Foto: Eduardo de Oliveira.

“De onde vem a sua sabedoria?”, pergunto. Dona Chica faz uma pausa para refletir. “Todos têm um dom. Independente de onde vem a raiz dele, que vai diferenciar um do outro”, responde, enquanto o vento parece balançar os brincos de penas amarelas. Ela mais uma vez reforça sua raiz indígena. “Eu sou uma Ka’apor. Eu vim com o meu dom: o dom da raiz”.

O registro de nascimento data dos anos 1960, mas Dona Chica conta que nasceu em 1942. Expulsa de sua região por conflitos territoriais, durante a ditadura civil-militar, ela percorreu o mundo. “Por causa da ditadura, eu vivi na rua. Vim morando, passei por muitos estados”, recorda. “Hoje eu falo porque não tenho mais medo, já estou velha. A ditadura não foi brincadeira. Existiam os coronéis que tomavam as nossas terras, a gente teve que sair da nossa casa”.

Se uma parte dos seus saberes vieram dos povos originários, como o conhecimento sobre as ervas, outra parcela é herança de África. “Minha mãe conheceu um africano que deu amparo a ela, não casaram, mas tiveram cinco filhos. Meu nome é Angorê Caxumucá”, cita a forma como é conhecida dentro das tradições Congo-Angola.

Por onde passa, Dona Chica leva seus galhinhos de ervas, suas folhas e sementes. “Lá na minha cidade, sou coordenadora das PICs [Práticas Integrativas e Complementares]. Sou educadora da saúde popular”, enumera mais uma de suas atribuições. Ela atua no SUS com conhecimentos tradicionais. “Trabalho com ervas medicinais. Todas as ervas são curadoras”, ressalta.

Mãos de parteira

Dona Chica não somente viu o SUS nascer, como pode ser considerada uma de suas parteiras. Ela integra o MOPS de Sergipe desde o tempo em que saúde ainda não era definida como direito de todos e dever do Estado, na Constituição Federal de 1988. “Desde 1978, a gente já estava brigando. Foi muito difícil. Primeiro, a gente começou com reuniões como essa aqui. Depois das reuniões, vieram os seminários. Hoje nós estamos na Conferência”, relembra.

Em Sergipe, ela testemunhou o embrião das lutas pelo direito à saúde, organizadas por camponeses e trabalhadores urbanos. “Aquele povo que vinha dos interiores para fazer a fila, receber remédio, passava mais de 24 horas esperando. Eu pedia água e comida para alimentar o povo”, narra. “Lá, a gente se uniu, eu era da rua e a juventude apoiava a gente”.

Dona Chica relembra o papel que teve Simone Leite, enfermeira formada pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), que ajudou a organizar os movimentos populares de saúde em Aracaju e no interior do estado. Falecida em 2021, aos 64 anos, Simone deu nome à tenda erguida durante a Conferência Nacional de Saúde para abrigar experiências de arte e educação popular em saúde — local onde Dona Chica organizou seu Corredor de Cuidado. 

Nada é por acaso. A benzedeira e a enfermeira eram companheiras de luta. “Ela era uma estudante muito inteligente. Tinha sonhos de mudanças na saúde. Ela juntou alguns amigos e eu juntei alguns da rua e começamos a trabalhar”, relembra.

Há décadas, Dona Chica exerce o ofício de parteira. “Fazia parto na rua, nas roças, nos interiores. O povo mandava me chamar, eu ia”, descreve. Também trabalha com fitoterapia e desenvolve estratégias de cuidado para profissionais de saúde. “Uma enfermeira cuida de uma ferida, dá banho, mas ela precisa também ser cuidada”.

Depois de cruzar o mundo, Dona Chica fincou raiz em Cristinápolis, que ela conta já ter se chamado “Chapada dos Índios”. Ali, ergueu o mastro com a bandeira branca da nação Angola e tornou-se guardiã de conhecimentos ancestrais. “Hoje eu tenho a minha casa, tenho os meus filhos, o meu terreiro, o meu mastro. Não pude ter na minha aldeia, mas hoje tenho na minha casa”.

Sobre um passado de perseguições ainda presente na memória, ela conta que já foi proibida de exercer o seu principal ofício, que era levar bênçãos às pessoas. “Antigamente, a gente não podia nem vestir uma saia comprida, porque eles rasgavam. Chamavam a gente de macumbeiro, feiticeiro, mandingueiro”. Agora, todo esse conhecimento está presente nas práticas que ela emprega na saúde. 

“Hoje aceitaram”, resume, antes de completar: “Você está vendo esse menino?”, aponta para um rapaz indígena. “Esse menino é indígena, ele tem a fé dele. A crença nos astros”. Sorri. “A fé é para todos. O astro é único. Deus é único”. Em seus olhos calmos, parece morar alguma coisa infinita que poderíamos chamar de paz.

Conheça também: Matéria publicada no site sobre a ponte entre os terreiros de matriz africana e o SUS (Sistema Único de Saúde):  https://www.neipies.com/a-ponte-entre-os-terreiros-de-matriz-africana-e-o-sistema-unico-de-saude-sus/

Proposta de atividade em salas de aula do Componente Curricular Ensino Religioso:

Sugerimos que, após leitura deste texto, os estudantes podem fazer pesquisas sobre como outras tradições religiosas desenvolvem práticas de espiritualidade em situações como vida, gratidão, alegria, tristeza, acidentes, doenças, fenômenos da natureza, de forma individual ou coletiva. Os estudantes podem ser divididos em grupos, conforme relação de religiões ou tradições a serem pesquisadas. 

Esta atividade contempla as habilidades (EF07ER02RS-01) Identificar práticas de espiritualidade vivenciadas em situações, tais como: vida, gratidão, alegria, tristeza, acidentes, doenças, fenômenos da natureza de individual ou coletivas e EF07ER02: Identificar práticas de espiritualidade utilizadas pelas pessoas em determinadas situações (acidentes, doenças, fenômenos climáticos).

FONTE: https://radis.ensp.fiocruz.br/reportagem/saberes-populares/benca-chica/

FOTOS: Eduardo de Oliveira.

Autor: Luiz Felipe Stevanim é Editor e Repórter da Revista Radis. Mestrado e Doutorado em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e graduação em Comunicação Social (Jornalismo) pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). É Tecnologista em Saúde Pública (Especialidade: Comunicação) na Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), onde exerce a função de jornalista e editor no Programa Radis – Comunicação e Saúde, vinculado à Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz).

Edição: A. R.

Quais respostas a sociedade pode esperar da educação pública?

“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda.” (Paulo Freire)

Os novos gestores municipais, que serão eleitos em outubro, herdarão grandes desafios para seus mandatos, especialmente para a educação básica, num momento histórico no qual enfrentamos uma pandemia e, mais recentemente, no RS, uma tragédia humana e ambiental a partir de enchentes. Na condição de professor de uma rede municipal de ensino, ousamos “palpitar” sobre aspectos que consideramos fundamentais para alavancar uma educação de qualidade.

Os desafios para uma boa gestão em educação pública precisam dar conta de aspectos estruturais, funcionais e pedagógicos.

Muito se fala e se discute a respeito do papel da educação no desenvolvimento cultural e econômico de uma nação. Se é verdade que a “educação precisa dar respostas”, tão verdadeiro é que as mudanças que esperamos a partir da educação não se farão sozinhas. Mudanças de postura, comportamento, inovação e criatividade virão se forem acompanhadas de outras políticas públicas capazes de elevar a condição social de nossa gente e das condições objetivas para fazermos uma educação de qualidade. Neste sentido, não podemos afirmar que “tudo passa pela educação”, embora, sem ela, nenhuma grande mudança terá condições de acontecer e/ou prosperar.

A criatividade, a inovação e a ousadia sempre foram bases para os grandes avanços da humanidade. Mas, antes, os gestores precisam conhecer e reconhecer a realidade de sua rede municipal de ensino, as expectativas da comunidade e os “pensamentos” que movem os seus professores e suas professoras. Após este reconhecimento, devem traçar metas e “marcas” que estejam alicerçadas nos potenciais e nas fragilidades da rede de ensino.  Estas, por sua vez, devem constituir o rumo do trabalho político e pedagógico de cada escola e da rede de ensino, como um todo, sempre preservando as peculiaridades e singularidades das realidades nas quais se inserem as comunidades escolares.

Os aspectos estruturais envolvem o cuidado, a preservação e o “embelezamento físico” dos prédios e salas de aula. Os ambientes escolares precisam uma boa pintura, uma boa organização e distribuição de espaços, um ambiente agradável e aconchegante, um mobiliário bom e adequado. Nossos estudantes merecem e precisam sentir-se bem, e bem acomodados, para o pleno envolvimento com as aprendizagens.

Os aspectos funcionais referem-se ao bom e respeitoso tratamento que será dispensado aos funcionários e professores das escolas. O trabalho árduo e cotidiano dos professores precisa ser reconhecido em sua dignidade humana e profissional.

Os aspectos pedagógicos, tão importantes quanto os demais, devem levar em conta a gestão democrática e a experiência acumulada de cada educandário e de cada professor e professora, apresentando aos mesmos/as novos desafios para dinamizar as metodologias e aprendizagens, em cada momento histórico. Deve incorporar novas tecnologias, como um meio e não como um fim em si mesmas. A formação continuada dos professores precisa ser combinada e dialogada com o corpo docente, antes de ser executada, para que ocorra verdadeiro envolvimento. Deve-se, ainda, propiciar a sistematização e discussão das práticas pedagógicas. Estas, sim, poderão fomentar novas posturas e compreensões para intervenções nas salas de aula.

As respostas que dependem da educação nunca estarão plenamente definidas. O que sabemos é que uma educação que leva em conta os desejos da comunidade, dos professores e dos estudantes colabora, substancialmente, no desenvolvimento de habilidades, atitudes, conceitos e conhecimentos que farão diferença para o futuro do Brasil e de cada cidade.

Ademais, nossa educação precisa colaborar para o exercício e a prática da cidadania, esta sim, capaz de operar as grandes mudanças de que o nosso país precisa. Nossas escolas devem ser “o primeiro e maior lugar de vivência de direitos”. Os gestores municipais que entenderem isto farão uma grande diferença na educação brasileira.

Leia também: é possível trabalhar cultura de direitos humanos na escola formal? https://www.neipies.com/cultura-de-direitos-humanos-na-escola-formal/

Autor: Nei Alberto Pies, professor, escritor e editor do site. Também escreveu e publicou “O que aprender e ensinar nas escolas a partir de tragédias ambientais como a do RS?”:  https://www.neipies.com/o-que-aprender-e-ensinar-nas-escolas-a-partir-de-tragedias-ambientais-como-a-do-rs/

Edição: A. R.

“Morrer faz parte do jogo”

Enquanto o jogo prossegue aqui, surge uma série de interrogações. Se ele terminasse nesse campo de terra, seria vã nossa fé? De que adiantaria nossa esperança, nossa caridade e nossa luta por um mundo melhor? Mas, e quem não tem fé, não alimenta a esperança e não pratica a solidariedade, poderá participar desse jogo alhures, na hipótese de ele ter seguimento?

A afirmação acima foi feita por um amigo que diz não acreditar em Deus. Chamou a atenção, pois não é usual ouvir esse jogo de palavras relacionadas à morte. Tantas coisas fazem parte do jogo da vida, mas logo a morte fazer parte do jogo! Fiquei intrigado. Pensei: a morte pode fazer parte do fim do jogo, porém não do jogo em si. Se fosse para fazer parte do jogo, seria coerente pensar que tal jogo deveria ter continuidade. Mas, não, segundo meu amigo, a morte seria o fim da partida e a partida para o fim.

Acreditar em Deus é um direito de cada pessoa. E o jeito de relacionar-se com a divindade o é igualmente, embora as instituições religiosas busquem sempre organizar maneiras coletivas de estabelecer tais relacionamentos. Do mesmo modo é direito não acreditar, uma vez que a fé é uma adesão livre.

Ninguém pode ser obrigado a ter fé, embora ela possa ou até deva ser estimulada e fortalecida. Também, é direito crer que a vida não é um jogo que termina com a partida, no caso, com a partida desta vida. Equivale dizer, um jogo que tem sequência no campo eterno, não obstante, totalmente desconhecido. Apenas esperado e pretendido por todos quantos tem fé na imortalidade da vida.

Enquanto o jogo prossegue aqui, surge uma série de interrogações. Se ele terminasse nesse campo de terra, seria vã nossa fé? De que adiantaria nossa esperança, nossa caridade e nossa luta por um mundo melhor? Mas, e quem não tem fé, não alimenta a esperança e não pratica a solidariedade, poderá participar desse jogo alhures, na hipótese de ele ter seguimento? E ainda, confirmada essa hipótese, será gratuita a entrada ou reentrada em tal jogo? E o que dizer daqueles que são retirados ou se retiram do jogo prematuramente? As indagações se vão em várias direções.

Se um ateu é solidário, luta pela justiça social, defende a vida em todas as suas expressões, é humanista, não estará ele também com a partida ganha? Disse São Tiago (2, 17) que a fé sem as obras está completamente morta, mas podem ser bem vivas e vivificantes as obras de quem as pratica mesmo sem crer.

Os declaradamente ateus ou supostamente pecadores poderão preceder a outros jogadores no Reino definitivo. É de Jesus esta afirmação, feita diante dos chefes dos sacerdotes e os anciãos do povo: “…os cobradores de impostos e as prostitutas vão entrar antes de vocês no Reino do Céu” (Mt 21, 31).  A matemática do jogo da vida nem sempre é uma equação cartesiana.  

Praticar o mal em nome da fé é a pior jogada. E não é raro observar esse tipo de comportamento. Infelizmente também segue comum a intolerância religiosa, racial e por outras motivações. Práticas que tornam a vida tensa e insuportável em todos os campos. Por outro lado, vale reafirmar sem parecer piegas, que as melhores jogadas são aquelas feitas com solidariedade, justiça e cuidado. E que o melhor e o essencial de qualquer religião é o amor.

As possibilidades sobre o jogo da vida são diversas. Muitas faltas, derrotas, vitórias e empates podem ocorrer enquanto essa partida acontece. O importante, antes da partida (derradeira ou passageira), é procurar cometer menos faltas possível e almejar vencer o campeonato. Essa vitória, com certeza, não será possível obtê-la de forma individual. Por certo, também não se poderá comprar a premiação. Ou ela será gratuita ou não será de fato e pra valer. Mas, quem acredita, se esforça e agradece por merecer. Quem não sabe a hora, não espera acontecer!

Para maiores aprofundamentos sobre o tema, sugerimos vídeo que segue: https://youtu.be/f3_8x1-I-oM?t=1092

Autor: Dirceu Benincá. Professor Universitário na área de Ciências Humanas (FURG). Também escreveu e publicou no site “O bem-viver depende do bem pensar”: https://www.neipies.com/o-bem-viver-depende-do-bem-pensar/

Edição: A. R.

Os relacionamentos na modernidade líquida

Os recursos tecnológicos têm sido um dos grandes fomentadores dessas mudanças comportamentais, não deixando assim o amor imune a eles (recursos tecnológicos). Nesta sociedade, os vínculos ocorrem por uma espécie de conexão, que assim como as ligações moleculares de uma substância em estado líquido, são mais fáceis de serem desfeitas, quando comparadas aos átomos de um elemento sólido.

O tempo presente vem sendo considerado como o tempo das incertezas e mudanças, tempo de contradições e paradoxos, tempos de abundância e penúria. Os opostos continuam sendo demarcados com forte intensidade. Essas mudanças e incertezas vêm produzindo um processo de mutação na educação, gerando novas crises para a educação escolar, colocando em cheque o modelo, os conteúdos, as metodologias e o próprio sentido da educação vigente inaugurada nos primórdios da modernidade sólida.

Em análise sobre a educação, seus fins e a atuação do educador nesse panorama atual, Bauman (2002, p. 58) ressalta que em nenhum outro momento decisivo da história, os educadores foram confrontados com um desafio realmente comparável ao que o divisor de águas contemporâneo apresenta. Simplesmente, jamais estivemos nesta situação antes. A arte de viver (Bauman, 2009) em um mundo supersaturado de informação ainda está por ser aprendida. Da mesma forma que a arte de viver, ainda mais difícil, de preparar a humanidade para a vida dos relacionamentos humanos num mundo líquido.

A sociedade tem experimentado mudanças drásticas nos relacionamentos. Os recursos tecnológicos têm sido um dos grandes fomentadores dessas mudanças comportamentais, não deixando assim o amor imune a eles (recursos tecnológicos).

Nesta sociedade, os vínculos ocorrem por uma espécie de conexão, que assim como as ligações moleculares de uma substância em estado líquido, são mais fáceis de serem desfeitas, quando comparadas aos átomos de um elemento sólido. Nessas relações, segundo Bauman (2004, p.132) há “uma incerteza em relação ao futuro, fragilidade da posição social e insegurança existencial”.

Esta incerteza se aplica aos mais diversos âmbitos como o político, o econômico e o amoroso. É este último que Bauman trata com maior ênfase na obra Amor Líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos (2004).

O autor desencadeia uma série de conceitos, entre eles, a “cultura do passageiro”, que tem influenciado os relacionamentos, principalmente, os namoros, de modo que os valores consumistas são observados nestes relacionamentos. A partir disso, relacionar-se de modo fixo significa fechar-se para outras possibilidades, assim como num relacionamento comercial. A diferença é que no mercado há consultorias e pesquisas que tem por objetivo a execução financeira mais rentável; já nas relações amorosas, o objetivo é a conexão em que a empatia pelo parceiro torna-se fragilizada.

Nesta possibilidade, para desvincular-se afetivamente basta desconectar-se já que o “silêncio equivale a exclusão” (BAUMAN, 2004). O prejuízo emocional do término de uma relação é minimizado com uma simples eliminação de contato, possibilitando, pelo caráter flexível das relações, a entrega emocional a outro laço amoroso. Assim, o ato de conectar e desconectar é o agente mantenedor dos relacionamentos na modernidade líquida.

Para Bauman (2004, p. 22) numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro. “A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a “experiência amorosa” à semelhança de outras mercadorias”, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço.

Na sociedade líquida, tememos o amor “desenvolvemos o crônico medo de sermos deixados para trás, de sermos excluídos” (BAUMAN, 2008, p. 29). Por isso, preferimos diluir as relações para consumi-las. Os relacionamentos tornaram-se comercializáveis como qualquer outra mercadoria. As redes sociais tornam-se utensílios quantitativos para maior obtenção de amigos, likes e relacionamentos que se dissolvem pelos dedos. Nossas relações são cada vez mais “flexíveis”, gerando níveis de insegurança sempre maiores.

“Fabricamos a pressa, a velocidade das coisas, do tempo, perdendo-nos no espaço onde habitamos. Não nos permitimos mais perder tempo para celebrar o amor verdadeiro, para parar no tempo. Não queremos mais perder tempo nas pequenas coisas mais simples e cotidianas. Temos grandes negócios a resolver, a decidir, e precisamos correr atrás de uma máquina. Somos robôs de uma engrenagem que nós mesmos criamos. (Pe. Gerson Schmidt) Leia mais: https://www.neipies.com/o-amor-no-tempo-eterno-agora/

As relações amorosas passam a ser vivenciadas de uma maneira mais insegura, com dúvidas acrescidas à já irresistível e temerária atração de se unir ao outro. Nunca houve tanta liberdade na escolha de parceiros, nem tanta variedade de modelos de relacionamentos, no entanto, em nenhum outro tempo os casais se sentiram tão ansiosos e prontos para rever, ou reverter, o rumo da relação como agora.

Neste sentido, as relações liquefeitas se desfazem ao término do interesse que as mantinha. Vínculos e compromissos são considerados grilhões que impedem diferentes consumos e o estabelecimento de novas relações pautadas em interesses concretos. No entanto, a solidariedade, fundamental para o bem-estar da comunidade, ainda não é consumível, pois é decorrente de laços mais estreitos que envolvem obrigações e responsabilidades em relação ao outro.

Sob esta ótica, amor e felicidade estão cada vez mais relacionados ao objeto de consumo, sendo descartável ou não, não importa, o que “permanece” são apenas os desejos próprios de uma sociedade cada vez mais egoísta e egocêntrica, em que, os laços humanos são desfeitos com a mesma rapidez que uma “descurtida” em alguma página do facebook que não favorece mais.

Esta sociedade de consumidores instigados, forçados e induzidos pelo mercado do consumo, de relações líquidas e “bom enquanto dure”, as chances de libertação dos ditames do mercado são mínimas, o que ocorre também na perspectiva da educação voltada para o mercado.

Para pensar em outras possibilidades, é necessária a revolução cultural que questione esse sistema dominado pela ‘ética’ da privação, do individualismo alienado, da ganância e do lucro. Em uma sociedade dividida como a nossa entre os “poucos que têm muito” e os “muitos que tem pouco”, a cultura é o terreno onde se dá a luta pela manutenção ou superação das divisões sociais. “Nada menos que uma “revolução cultural” pode funcionar” (BAUMAN, 2013, p. 31).

Para Bauman (2013), embora os poderes do atual sistema educacional pareçam limitados, e ele próprio seja cada vez mais submetido ao jogo consumista, esse sistema ainda tem poderes de transformação suficientes para ser considerado um dos fatores promissores para essa revolução. Há um menosprezo desalentador com que se trata a escola, principalmente por aqueles que querem transformá-la numa empresa, numa engrenagem de formatar mentes e corpos para o mercado consumista e de servidão voluntária.

Entretanto, é pela escola que deveríamos recomeçar. Não uma escola empresarial que emita o mercado e transforma as experiências formativas em mercadorias instrumentais que podem ser trocadas por dinheiro, mas uma escola do conhecimento, das vivências solidárias, do espirito cooperativo, das experiências formativas éticas.

Uma escola que cultive a virtude, o amor, a coragem, a justiçam a prudência, a liberdade, o bem viver. Uma escola que seja promotora de humanidade e não de robôs. Uma escola aberta a diversidade, ao pensamento crítico e criativo e onde se torna possível a boa convivência. Uma escola que seja o centro da vida pulsante de uma comunidade que prima pela vida cidadã. Utopia? Algo impossível de acontecer? Talvez não se tivermos a coragem de dar a educação a centralidade que ela merece no hierarquia de nossas prioridades.

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. Desafios educacionais da Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Revista TB, 2002.

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

BAUMAN, Zygmunt. Tempos Líquidos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2007.

BAUMAN, Zygmunt. Vida para o consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

BAUMAN, Zygmunt. A arte da vida. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

BAUMAN, Zygmunt. Sobre educação e juventude: conversas com Ricardo Mazzeo. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero Email: altairfavero@gmail.com Professor do Mestrado e Doutorado em Educação da UPF. Também escreveu e publicou “A promessa da felicidade na modernidade líquida”: https://www.neipies.com/a-promessa-de-felicidade-na-modernidade-liquida/

Edição: A. R.

Retomar a educação ambiental e climática e tentar superar o capitalismo

Essas catástrofes ambientais e socioambientais têm muitas causas. O modo pelo qual os humanos produzem e consomem, o sistema de produção capitalista essencialmente depredador, as formas de organização social e os fins éticos das sociedades e dos indivíduos estão na raiz dessas causas.

Estamos vivenciando a maior catástrofe ambiental da história do Rio Grande do Sul e iniciando mais uma Semana do Meio Ambiente que se repete a cada ano, pautando temas importantes, mas não mudamos nosso modo de pensar e de viver. A Lei Federal nº 9.795/1999 que instituiu a Política Nacional de Educação Ambiental (Pnea) completou 25 anos de vigência na véspera das enchentes e está relegada pelas reformas educacionais recentes, pelos gestores públicos e pelas instituições ensino.

Até recentemente, a maioria de nós permaneceu alheia aos alertas que a comunidade científica vem, há muitas décadas, emitindo sobre as mudanças climáticas, o declínio da biodiversidade, a intoxicação dos organismos pela poluição químico-industrial, aquecimento global, as ilhas de calor e possibilidade de eventos climáticos extremos e intensos.

Em 2013 foi elaborado um documento denominado “Consenso científico sobre a manutenção dos Sistemas de Suporte da Vida da humanidade no século XXI”, assinado por mais de 1,3 mil cientistas, pesquisadores, ONGs, estudantes e demais cidadãos, que alertava:

A terra está rapidamente se aproximando de um ponto crítico (tipping point). Os impactos humanos estão causando danos alarmantes ao nosso planeta. Como cientistas que estudamos a interação dos homens com o resto da biosfera, valendo-nos de um amplo espectro de abordagens, concordamos que é imensa a evidência de que os humanos estão deteriorando os ecossistemas que suportam a vida. Predizemos também, com base na melhor informação científica disponível, que, mantida a via atual, a qualidade de vida humana sofrerá substancial degradação por volta de 2050.

Cooperar ou perecer

Na abertura da 27ª Conferência das partes (COP 27), em Shamrm el-Sheikh no Egito, em 2022, António Guterres, Secretário-Geral das Nações Unidas sentenciou: “A humanidade tem uma escolha: cooperar ou perecer. Ou fechamos um pacto de solidariedade climática ou um pacto de suicídio coletivo”.

O cenário catastrófico produzido pelas enchentes no Rio Grande do Sul (RS) não é uma exceção, ao contrário, é uma reprodução, em larga escala, das tragédias em anos recentes no litoral paulista, na Baixada Fluminense, no sul da Bahia, em Recife e, há poucas décadas, em Santa Catarina.

Em todas as situações, há centenas de mortes, milhares de pessoas desabrigadas e desalojadas, casas destruídas, empresas danificadas, cidades inteiras debaixo d’água e traumas de várias ordens.

O mais angustiante é que os estados, cidades e gestões não estão preparadas para lidar com os efeitos das mudanças climáticas, o que agrava os riscos e os impactos.

Essas catástrofes ambientais e socioambientais têm muitas causas. A maioria deriva das ações humanas no planeta e sobre a natureza. O modo pelo qual os humanos produzem e consomem, o sistema de produção capitalista essencialmente depredador, as formas de organização social e os fins éticos das sociedades e dos indivíduos estão na raiz dessas causas. E, ainda, a crise ambiental é concebida, também, como uma crise civilizacional.

Em 2020, na revista científica Nature, foi publicado um estudo que demonstrava que o total dos objetos construídos pela humanidade acabava de superar, pela primeira vez, a massa somada das formas de vida na Terra.

A transformação de matérias-primas naturais em artefatos humanos cresceu de forma tão vertiginosa que, a cada semana, os novos objetos feitos pela nossa espécie superam o peso corporal de cada pessoa viva hoje, afirmava o estudo.

A chamada massa antropogênica, como decidiram designá-la, ultrapassou a marca de 1,1 teratonelada (ou 1,1 trilhão de toneladas) em 2020 e tem dobrado de tamanho a cada 20 anos ao longo do último século, segundo os autores do estudo.

Esta catástrofe de maio no estado do RS é um evento climático potencialmente destrutivo demais para ser considerado como uma mera intercorrência climática, evento natural ou evento apocalíptico segundo a narrativa dos negacionistas.

Eventos climáticos extremos têm sido reportados com maior frequência em diversos locais no mundo, especialmente na presente década. Enchentes devastadoras ocorrem após períodos de estiagem, revelando uma crise de gestão hídrica a ser enfrentada pelo estado.

São 447 municípios atingidos, e no início de junho, o total de vítima fatais já ultrapassava 170, além de centenas de feridos, dezenas de pessoas desaparecidas e mais de 600 mil pessoas desalojadas. São ao menos 532 escolas danificadas, com centenas de milhares estudantes matriculados prejudicados.

Além das perdas ainda não contabilizadas de animais de criação, a perda parcial ou total de lavouras, comprometimento da indústria, a destruição de pontes, rodovias e a estrutura de cidades inteiras, levando o estado a decretar estado de calamidade pública.

O professor pesquisador Roberto Rafael Dias da Silva (Unisinos), lembra que ao estudarmos as implicações do Antropoceno, certamente conhecíamos que as ações humanas têm produzido efeitos globais.

O planeta sente um conjunto de transformações – pelo clima, pelas águas, pela paisagem – e, talvez em nosso estado estejamos descobrindo da forma mais dura: nós, humanos, estamos sentindo em nossos corpos a nova condição.

Nova agenda socioambiental

“Precisamos, agora, retomar a educação ambiental formal e não formal, integral, crítica, comprometida com a justiça climática, com a ética socioambiental e proteção de todos os seres vivos da natureza”

As políticas educacionais precisam trazer para o seu interior um novo direcionamento para tratar questões ligadas à justiça climática. Não um projeto, não um tema transversal, não uma cartilha para ser aplicada nas escolas: mas uma nova agenda na perspectiva socioambiental.

A maioria dos brasileiros e gaúchos se mostraram solidários para com o sofrimento alheio, porém, a maioria não se dispõe a questionar e lutar por mudanças que reduzam o aquecimento global, a crise ambiental, a promoção do consumo consciente, da justiça ambiental e o cuidado da natureza.

Entre tantas urgências e novas agendas que se apresentam no contexto atual é fundamental retomarmos a Educação Ambiental e Climática com a seriedade em todas as instituições de ensino, públicas e privada, da educação infantil a pós-graduação.

A Educação Ambiental foi praticamente extinta pelas recentes reformas educacionais nos currículos escolares. No seu espaço está sendo priorizada a educação financeira, empreendedora e inovadora, na perspectiva do sucesso profissional individual e do capital financeiro.

Precisamos, agora, retomar a educação ambiental formal e não formal, integral, crítica, comprometida com a justiça climática, com a ética socioambiental e proteção de todos os seres vivos da natureza.

Já há gestores educacionais propondo, mais uma vez, “rever os currículos”, repensar a “formação de professores para o mundo incerto e imprevisível” e intensificar a formação socioemocional dos estudantes reconstruir as mesmas escolas nos mesmos territórios.

É mais relevante e urgente retomarmos as políticas, os programas e os projetos de educação ambiental em todos as escolas e em todos os cursos nas universidades públicas, comunitárias e privadas, bem como nas empresas, ONGs, GTGs, meios de comunicação, centros comunitários e espaços comuns coletivos.

O Brasil tem uma política e um marco legal de educação ambiental bem desenhado e avançado. No papel. Não implementado. Agora, é necessário cessar de negligenciar e assumir a implementação disseminada da Educação Ambiental, desenvolvendo uma compreensão integrada do meio ambiente e suas múltiplas e complexas relações, envolvendo aspectos ecológicos, psicológicos, legais, políticos, sociais, econômicos, científicos, culturais e éticos.

É imperativo, também, que todas as instituições educativas assumam e incorporem a agenda das mudanças climáticas nos currículos de todos os níveis de ensino; que formem professores de todas as áreas do conhecimento para abordar o tema; que empoderem as juventudes para participarem das decisões da agenda climática e, integrem estratégias educacionais às políticas públicas sociais e ambientais.

A Política Nacional de Educação Ambiental (Lei nº 9.795/1999) e a Política Estadual de Educação Ambiental (Lei nº 11.730/2002), atualizada pela lei nº 13.597/2010), já estabelecem que todos estudantes e cidadãos têm direito à educação ambiental, incumbindo:

– o poder público a definir e implementar políticas pública de EA;– às instituições educativas, promover a educação ambiental;– aos meios de comunicação de massa, colaborar de maneira ativa e permanente na disseminação de informações;– às empresas, entidades de classe, instituições públicas e privadas, promover programas destinados à capacitação dos trabalhadores e,– à sociedade como um todo, manter atenção permanente à formação de valores e atitudes voltadas para a prevenção.

As políticas e programas de Educação Ambiental, também, já estabelecem como objetivos primordiais: desenvolver uma compreensão integrada do meio ambiente e suas múltiplas e complexas relações, envolvendo aspectos ecológicos, psicológicos, legais, políticos, sociais, econômicos, científicos, culturais e éticos; estimular o fortalecimento de uma consciência crítica sobre a questão ambiental e social; incentivar a participação comunitária, ativa, permanente e responsável na proteção, preservação e conservação do equilíbrio do meio ambiente; construção de uma sociedade ambientalmente equilibrada, fundada nos princípios da liberdade, igualdade, empatia, solidariedade, democracia, justiça social, responsabilidade e sustentabilidade; fortalecer os princípios de cidadania, solidariedade e autodeterminação dos povos tradicionais e comunidades locais, entre outros.

Educação ambiental

O Conselho de Educação do Rio Grande do Sul (CEEd/RS) elaborou e instituiu em 2021 as Diretrizes Curriculares Estaduais para a Educação Ambiental no Sistema Estadual de Ensino, por meio da Resolução 363/2021, após escuta ativa à sociedade, as redes de ensino e especialistas.

Essas diretrizes estaduais reafirmam e ampliam a concepção de que a “Educação Ambiental envolve o entendimento de uma educação cidadã, responsável, crítica, participativa, em que cada sujeito aprende com conhecimentos científicos e com o reconhecimento dos saberes tradicionais, possibilitando a tomada de decisões transformadoras, a partir do meio ambiente natural ou construído, no qual as pessoas e demais seres se integram”.

As diretrizes estaduais de Educação Ambiental estabelecem que as escolas públicas e privadas devem prever, em suas atividades pedagógicas prático-teóricas, a adoção do meio ambiente local, incorporando a participação da comunidade na identificação dos problemas e de suas causas.

Também preconiza a realização de ações de acompanhamento e de participação em campanhas de proteção ao meio ambiente; a incorporação do conhecimento e o acompanhamento de programas e projetos em curso, no âmbito de regiões, bacias e microbacias hidrográficas.

A orientação é também para que as escolas próximas a mananciais hídricos, como arroios, rios, áreas úmidas, lagoas, lagos e lagunas, bem como de áreas de recarga de aquíferos, deverão contemplar em seus trabalhos pedagógicos a proteção, a defesa e a recuperação destes corpos hídricos, em parceria com municípios, comitês de bacia, organizações não governamentais e outros.

As enchentes surpreenderam muitas comunidades exatamente por não conhecerem essas realidades e possibilidades.

O marco legal gaúcho determina que as escolas de educação básica e instituições de ensino superior, pertencentes ao sistema estadual de ensino, devem incorporar e abordar um conjunto de temas transversais, em seus currículos, tais como: desertificação e erosão; uso de agrotóxicos; queimadas e incêndios; resíduos sólidos; saneamento; conhecimento sobre o desenvolvimento de programas de microbacias; segurança alimentar, alimentação saudável, orgânica, vegetariana e natural; mudanças climáticas; direitos ambientais, direitos dos animais e direitos humanos; ecologia e gênero; agroecologia e racismo ambiental.

Temos consciência que a educação ambiental e climática não resolverá essas causas estruturais de natureza econômica, social, política e ambiental. Porém, ensina a pensar, refletir e desenvolver uma consciência crítica capaz de transformar os seres humanos que poderão repensar nossa forma de viver neste planeta terra que não somos donos e dependemos dele para existir.

Acúmulo e colapso ambiental

Nesta perspectiva, Luiz marques, pesquisador da Unicamp, autor de Capitalismo e colapso ambiental (Ed. Unicamp, 2016) e coautor de O decênio decisivo: propostas para uma política de sobrevivência (Ed. Elefante, 2023) reafirma a importância de todas essas estratégias, porém, adverte que sistema econômico capitalista é o maior responsável pela crise climática mundial e a ameaça real de vida humana no planeta terra.

“O sistema econômico capitalista triunfou porque se mostrou, de todos, o mais capaz de acumular riqueza, de criar excedente, e de se expandir. Mas, justamente porque prima por essas qualidades, justamente porque essas qualidades o definem, esse sistema econômico é prisioneiro delas. Ele não tem a liberdade de se autolimitar. Dito de outra maneira, ele é incapaz de não destruir, em sua engrenagem acumulativa, a riqueza biológica de nosso planeta e os equilíbrios do sistema Terra que o permitiam ao longo do Holoceno toda civilização. Hoje, a escolha é desmontar peça a peça essa engrenagem ou nos condenarmos a sofrer suas consequências, vale dizer, no melhor dos casos, nos condenarmos a condições de vida muito mais adversas que as que essa civilização da acumulação nos proporcionou”, afirma o autor à página 655 deste último livro.

Para Marques, o fato simples, incontornável e insofismável que constitui nossa agenda é que ao homem contemporâneo não resta outra alternativa senão tentar o que parece hoje, e talvez mais do que nunca, inverossímil, tentar superar o capitalismo, “se por isso se entende superar, ao mesmo tempo, a engrenagem insana da acumulação e a miséria filosófica do antropocentrismo”.

Educação ambiental e climática já para conscientizar e esperançar, ou seja, mudar!

FONTE: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2024/06/retomar-a-educacao-ambiental-e-climatica-e-tentar-superar-o-capitalismo/

Autor: Gabriel Grabowski, professor e pesquisador. Também escreveu e publicou no site “Crises climáticas e educação ambiental”: https://www.neipies.com/crises-climaticas-e-educacao-ambiental/

Edição: A. R.

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