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Te vejo!

Perdendo a capacidade de “ouvir” e “ver”, passamos a atuar, por mais elevadas que sejam as titulações acadêmicas, como imbecis funcionais que acreditam ser possível encontrar a solução dos problemas usando o mesmo paradigma que criou os problemas.

Quem sabe, antes de nos embrenharmos na defesa da necessidade de construção uma nova ética para lidarmos melhor com as grandes questões que afligem a humanidade, o que precisaríamos, de fato, não seriam uma nova ótica e uma nova óptica? É isso mesmo: uma nova ótica e uma nova óptica. Afinal, essas são as ciências que, na física, estudam o som e a luz e têm as suas contrapartes em biologia, que tratam da audição e da visão.

Pois, foi com o enfoque de, antes de qualquer coisa, “ouvir” e “ver”, que Roberto Crema (psicólogo e antropólogo da Unipaz/Universidade Internacional da Paz) elaborou a linha mestra da conferência magna que proferiu no VIII Workshop de Editoração Científica promovido pela ABEC-Associação Brasileira de Editores Científicos, em Campos do Jordão, SP, de 10 a 13 de novembro de 2014, sob o título “Liderança na área da autoria científica”.

“Ouvir” e “ver”, antes de qualquer coisa, são peças fundamentais por serem a base da hermenêutica (a ciência da interpretação) ou, para quem preferir, por estarem essas palavras expressas no primeiro mandamento das Leis de Deus e na tradição xamanística dos zulus na África do Sul.

 “Ouve/Escuta Israel!” (Deuteronômio 6:4-9) ou o “Shema Israel!” (da Torá), que formam a base do monoteísmo judaico-cristão. É pela relevância não só de ver, mas de sentir a presença nas relações interpessoais que os zulus, em vez dos nossos protocolares cumprimentos – “bom dia/boa tarde/boa noite”, “como vai?”, “Oi, tudo bem?, “Olá, eu vou bem, obrigado/obrigada!”, etc. – , optam  pela peculiar saudação “sawubona”, que significa “TE VEJO!”, e pela inusitada resposta  “sikhona”, que literalmente traduz-se por “ESTOU AQUI!”. É isso. Simples assim: TE VEJO… ESTOU AQUI! E se foi o Senhor Deus que ordenou e se os Xamãs assim o querem, quem somos nós para questionar?

Roberto Crema tratou do exercício da liderança alheia aos cargos ou posições ocupados na hierarquia das corporações, que se dá, acima de tudo, pela escuta, pelo olhar e pelo sentir a presença do outro. Algo aparentemente simples, mas de difícil concretização prática no mundo das organizações, que, não raro, são territórios em que reinam absolutos chefetes de plantão, cujo respeito que recebem dos pares não transcende os contornos dos cargos que ocupam.  

Entenda-se que escutar não é meramente ouvir. Audição é função biológica, mas a nossa referência é INTERPRETAR, que exige a pluralidade dos sentidos, num mundo em que, metaforicamente, vivemos a crise da surdez, decretando-se a falência da hermenêutica.

Precisamos, especialmente no universo científico, transgredir a NORMOSE, expressão forjada por Jean Yves Leloup, na França, e por Roberto Crema, no Brasil, que significa a patologia da normalidade ou a doença da estagnação evolutiva, da qual muitos de nós, mesmo imperceptivelmente, sofrem, quando nos deixamos dominar pelas coisas pequenas, pela mediocridade e pelo egocentrismo exacerbado, perdendo a capacidade de “ouvir” e “ver”, passando a atuar, por mais elevadas que sejam as titulações acadêmicas, como imbecis funcionais que acreditam ser possível encontrar a solução dos problemas usando o mesmo paradigma que criou os problemas.

Roberto Crema tem uma fala suave e uma aura espiritualizada, estilo guru “Nova Era” que, mesmo abusando de frases de efeito, cuja autoria original, para ouvidos atentos, pode ser facilmente identificada, se não nos convence, pelo menos nos deixa mais reflexivos.

Assista vídeo: https://youtu.be/g-i0kz4asak?t=460

São referências coisas como: “O maior perigo da humanidade é um cientista alienado” (Robert Oppenheimer); “O pior naufrágio é não partir” (Amyr Klink); “Vida é o que acontece enquanto estamos ocupados fazendo outros planos” (John Lenon); e “É preciso parar o mundo para conseguir ver” (Carlos Castañeda. A erva do Diabo, 1968). E as que eu não consegui identificar as fontes: “Nenhum vento é favorável pra aquele que não sabe aonde quer chegar”; “Todo mundo quer renascer, mas ninguém quer morrer”; “Nós não nascemos humanos, nós nos tornamos humanos”; “Este não é um mundo de perfeição, mas de aperfeiçoamento”; “Acenda uma vela em vez de apenas reclamar da escuridão”; “Não haverá outra Arca de Noé”, “Utopia é o que não tem espaço ainda para acontecer”; e, a minha preferida, “Ressentimento é um veneno que a gente bebe e fica esperando que o outro morra”.

Se você leu até aqui, então você está aqui… Te vejo!

(Do livro A ciência como ela é…, 2011.)

Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site “Depois daquele olhar”: https://www.neipies.com/depois-daquele-olhar/

Edição: A. R.

Por que boas práticas educativas não são reconhecidas como elementos potentes para melhoria da educação básica?

Entendemos que, nas diferentes redes de ensino, em especial, nas escolas públicas, deveriam ser implementadas iniciativas de socialização, discussão, sistematização e divulgação de boas práticas de aprendizagem, feitas de professores para professores, realizadas por grupos afins ou por áreas de conhecimento.

Definitivamente, escrever sobre educação ainda não é tarefa reconhecida, nem atribuição dos professores e professoras do Brasil. Mas, deveria ser, pois possibilitaria à estes/estas maior apropriação do seu trabalho pedagógico, passando da condição de tarefeiros e aplicadores de atividades a sujeitos que induzem e promovem aprendizagem de maneira coerente, reflexiva, consistente e programada.

No Brasil, nas últimas décadas, a mídia tradicional procura valorizar e mostrar experiências educativas que levam em conta um certo heroísmo, destemor, ousadia e intuição de professores, professoras e instituições. Não se valoriza, nem se incentiva, nas diferentes redes de ensino, a prática sistemática de reflexão e escrita dos professores sobre as suas práticas. Ao contrário, buscam-se receituários prontos, propostas de atividades já projetadas ou elaboradas por “iluminados” que fazem parte de editoras ou, mais recentemente, de fundações ou institutos educacionais privados. Estes receituários não exigem muita reflexão ou planejamento, mas almejam o cumprimento de metas e objetivos alcançados, para preenchimento de formulários ou planilhas, estatísticas e números.

Nesta perspectiva, professores e professoras podem ser comparados a números e/ou máquinas que precisam comprovar suposta eficácia educacional: contam suas horas/aula, o número de estudantes por sala de aula, suas horas atividades, as burocracias e registros estéreis de planejamento, planilhas com anotações sobre aprendizagem/habilidades/competências advindos da BNCC. Neste contexto, qual é o tempo destes professores e professoras estudarem na escola? Qual é o tempo para refletirem sobre alguma de suas atividades que geraram significativas aprendizagens ou apresentaram os maiores desafios de seu trabalho junto aos estudantes?

A prioridade do trabalho dos professores e professoras deve ser o pedagógico, deve ser a relação com os estudantes, deve ser a exploração dos seus potenciais criativos, o uso de novas tecnologias e ferramentas educacionais e a mediação da construção dos conhecimentos. As quinquilharias da excessiva burocracia na educação só enchem tabelas de relatórios e os olhos dos burocratas que pouco entendem de educação. (Leia mais: https://www.neipies.com/estao-matando-a-essencia-da-educacao/ )

Os poucos professores que se preocupam com a qualidade da educação, a partir de seu protagonismo e de suas atitudes reflexivas, quando levantam perguntas sobre possibilidades e tempo para reflexão e sistematização de práticas educativas, tem seus pleitos tratados como “caso particular”, ou como atividade não condizente com o fazer docente. Definitivamente, são incompreendidos nas suas proposições, pois remam contra a maré dos tecnocratas que reservam ao professor uma única função: dar aulas.

As reflexões e ponderações, neste ensaio, surgem de leituras, observações e vivências onde o planejar, o executar e o avaliar (a partir da sistematização de práticas pedagógicas) são uma prática recorrente. Nestes processos, há ainda a socialização das aprendizagens e das escritas, como forma de trocas e enriquecimento mútuo dos envolvidos. No mesmo sentido, fazemos do site www.neipies.com um laboratório de aprendizagens onde mesclamos artigos, crônicas, textos com sugestões de atividades, como formas de enriquecer e fortalecer o trabalho docente.

Confira a experiência de uma Seção específica no site para proposição e sistematização de práticas educativas: https://www.neipies.com/reflexoes-e-atividades/

Entendemos que, nas diferentes redes de ensino, em especial, nas escolas públicas, deveriam ser implementadas iniciativas de socialização, discussão, sistematização e divulgação e boas práticas de aprendizagem, feitas de professores para professores, realizadas por grupos afins ou por áreas de conhecimento. Estas iniciativas, por fim, deveriam estar disponíveis, publicadas em sites ou meios específicos, para o conjunto de professores e professoras daquela rede. Para além de valorizar as experiências individuais (de professores) ou coletivas (de escolas), a própria rede de ensino poderia ver nestas atividades uma espécie de retrato do trabalho docente, atestando-lhe qualidade e reconhecimento. Poderia, também, sugerir a multiplicação destas experiências em outras salas de aula, em outros lugares ou contextos escolares.

Esse trabalho pautado na reflexão sobre a prática docente é o melhor, se não o único meio de fazer a formação continuada coerente com as necessidades de cada contexto. Em “comunidade de investigação”, como fora bem fundamentado por pensadores como Elli Benincá, cuja concepção de formação fundamenta-se numa antropologia que considera o ser humano aberto a aprendizagem, ou no dizer de Paulo Freire “inacabado, inconcluso, vocacionado a ser mais”.  Esse fazer, longe de se tornar efetivo nas redes de ensino, requer espaço – tempo para encontro com os pares, registro das práticas, estudo das mesma e re-encaminhamento para a ação. Essa proposta não é bem acolhida por portadores de uma concepção tradicional de ensino, a qual centra-se na figura da autoridade. Em oposição a essa postura, aprendemos com Benincá que:

 … os professores que possuem uma visão dialética do mundo percebem que o saber é um processo permanente de construção. Nessa mesma perspectiva, o ser humano, por sua ação, torna-se transformador, não só dos contextos sociais como também da natureza. Como a transformação pode produzir algo de original e inédito, sua compreensão precisa de aprendizagem. Havendo transformação, supõe –se a existência de conflitos. Tal processo requer sempre nova aprendizagem. Em decorrência, pode-se dizer que as transformações na natureza e na sociedade, embora não sejam produzidas especificamente, pela escola, penetram no seu interior, construindo um espaço privilegiado de aprendizagem. (BENINCÁ, 2010).    

“As publicações de Elli Benincá (1936-2020) eram uma forma de contribuição para que outras pessoas exercessem a tarefa pedagógica e teológico-pastoral na perspectiva que sempre sonhara: formação profunda e autonomia em ser e agir. A leitura dos textos leva a pessoa a interagir com o seu contexto de vida e trabalho em uma perspectiva crítica e aberta às transformações necessárias”. (Ari Antônio dos Reis)

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Sistematização de práticas docentes e formação de professores

Sistematizar as práticas educativas, pensar sobre as intervenções cotidianas de uma sala de aula à luz das teorias e dos pensadores é parte de um desafio mais ousado de formação de professores e professoras.

Embora já sejam bastante estudadas, a sistematização e a escrita das práticas pedagógicas ainda não foram internalizadas entre os professores e professoras e nem entre os gestores educacionais como estratégia de mudança e ressignificação do “fazer docente”. Parece estar ainda restrita ao fazer pedagógico que embasa as experiências educativas sociais e populares. Ou a estudos do “pessoal da pedagogia”.

Em matéria da Revista Nova Escola, podemos reconhecer a importância de observar, registrar e refletir as práticas docentes e a parceria entre gestores escolares e professores. “Quando há parceria com colegas e gestores, o processo formativo se amplia, mas Tamara crê que o ato de escrever já contribui para seu aperfeiçoamento. “O registro faz com que o momento não fique para trás e o aprendizado se consolide.” A escuta sensível e o olhar para o que as crianças dizem e pensam têm sido o caminho para melhorar sua prática e se fortalecer como professora”. Leia mais aqui:  https://novaescola.org.br/conteudo/1882/registros-que-fazem-o-professor-refletir-sobre-a-pratica

Afirmamos, por fim, a importância da formação na vida pessoal e profissional dos docentes. Cremos, sobretudo, que são necessárias mudanças de posturas e de práticas, para melhorarmos a qualidade de nossa intervenção pedagógica, conectada com o mundo e com as necessidades dos estudantes.

Não acreditamos que projetos, metodologias ou propostas pedagógicas unilaterais que são oferecidos como receitas de melhoria da qualidade da educação por universidades, institutos ou fundações promovam as mudanças didáticas e pedagógicas que precisamos implantar em nossas escolas. Todas as iniciativas devem estar acompanhadas do protagonismo, reflexão e sistematização das práticas dos professores envolvidos.

Os professores são protagonistas da educação, mas, na medida em que estes não tem tempo para escrever, discutir e promover suas práticas educativas, dão margem para outros profissionais que, fora da educação ou das salas de aulas, dizem o que precisamos fazer na escola.  Podemos, e devemos, ousar mais!

Leia também: O professor Altair Fávero defende que “o professor se torna melhor quando consegue pensar sobre sua própria condição profissional.Nesse sentido, concordo com António Nóvoa quando diz que “a formação não se constrói por acumulação (de cursos, de conhecimentos ou de técnicas), mas sim através de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal” (1995, p. 25). https://www.neipies.com/escola-boa-e-a-escola-onde-professores-estudam/

Iniciativas de sistematização de práticas pedagógicas

Já existem iniciativas, em âmbito estadual, do RS, que buscam valorizar as iniciativas dos professores e professoras, bem como de escolas da rede estadual. Conheça 2 experiências que procuram oportunizar a socialização de projetos e de iniciativas educativas de professores da rede estadual do RS.

2ª Mostra das Boas Práticas Pedagógicas – Assembleia Legislativa do RS

Nesta edição 2024, a Mostra abrangerá a temática “A Escola Pública e o seu compromisso com o conhecimento e a cidadania e tem como objetivos conhecer, registrar, incentivar, valorizar e compartilhar o protagonismo e a autoria de professores, estudantes e comunidade escolar, ao dar visibilidade às boas práticas pedagógicas em sala de aula. Desta vez, a mostra pretende envolver a Assembleia Legislativa com as comunidades escolares do RS.

A edição de 2024 será composta por relatos de experiências das escolas; ciclo de debates da Educação com relatos e exposição e a publicação de um livro com os relatos selecionados. A seleção dos trabalhos ficará a cargo de integrantes da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa, representantes de universidades, entidades educacionais e representativas de professores e alunos. Os relatos de experiência contemplam todos os níveis e modalidades de ensino.

A Comissão desenvolveu quatro linhas temáticas pedagógicas para esta edição: leitura e escrita como estratégia de desenvolvimento cultural e social, tanto de estudantes como de professores, servidores e a comunidade escolar; a valorização das meninas e mulheres e a prevenção da violência; o meio ambiente no contexto de preservação e garantia de desenvolvimento sustentável do planeta e a pesquisa e a tecnologia como instrumentos de construção do conhecimento, desenvolvimento e cidadania.

Para participar da Mostra é necessário ser escola pública do RS e apresentar um relato da experiência em forma de texto, observadas as temáticas pedagógicas do edital. O relato inscrito deverá apresentar práticas ou ações concluídas ou em andamento.

As inscrições para a Mostra vão até o dia 31 de maio. O período de avaliação dos trabalhos inscritos se estende entre junho e julho. A exposição e apresentação dos trabalhos acontecerá no dia 18 de outubro, nas dependências da Assembleia Legislativa, durante todo o dia.

Conforme a deputada Sofia Cavedon, é preciso valorizar o que existe de trabalho bem feito, dedicado e inovador das escolas estaduais.

Após a fala da deputada, foram relatados dois projetos de boas práticas pedagógicas. Um, da Escola Estadual de Ensino Médio Patrulhense, de Santo Antônio da Patrulha, denominado projeto Momento Literário, que, em março, destacou o Dia Internacional da Mulher. Conforme a diretora da Escola, Bianca Salazar dos Santos, os assuntos abordados nas rodas de conversas foram escolhidos a partir das leituras relacionadas ao tema abordado.

Outro, da escola André Leão Puente, de Canoas, relata a criação, em 2019, de um Podcast com o finalidade de trazer para a comunidade escolar assuntos de interesse geral, relacionados com cultura, educação, leitura, literatura, cinema e conteúdos abordados em sala de aula. “A nossa intenção é ampliar e transformar os canais digitais e redes sociais da escola em meios agregadores, fomentando alunos e ex-alunos a produzirem conteúdo”, relatou à Comissão o diretor da Escola, idealizador do projeto e âncora de vários episódios, Felipi Fraga.

Presenças
Participaram da reunião as deputadas Eliana Bayer (Republicanos) e Sofia Cavedon (PT), presidente, e os deputados Carlos Búrigo (MDB), Elizandro Sabino (PDR), Kaká D Ávila (PSDB) e Leonel Radde (PT).

FONTE: https://ww4.al.rs.gov.br/noticia/335886

Edição Estadual da 4ª Mostra Pedagógica do CPERS (2023)

A Mostra Pedagógica do CPERS é uma oportunidade para compartilhar iniciativas e experiências bem-sucedidas de todo o estado e é também uma chance de fortalecer ainda mais a nossa comunidade escolar e promover o intercâmbio de ideias e conhecimentos.

Ao inscrever seu projeto, você estará contribuindo para a construção de um ambiente de aprendizagem cada vez mais inclusivo, dinâmico e enriquecedor. Sua participação é fundamental para inspirar outros educadores(as) a inovarem suas práticas e alcançarem melhores resultados.

Rosane Zan, da Comissão de Educação do CPERS, destaca que todas as iniciativas são bem-vindas. “Acreditamos que todas as escolas têm experiências valiosas para compartilhar, independentemente do tamanho ou localização. Não importa se você atua no interior do estado ou na capital, em uma escola pequena ou em uma grande instituição. Cada projeto inscrito terá a oportunidade de ser reconhecido e valorizado”.

Os 42 núcleos do CPERS realizarão mostras regionais de agosto a novembro, e educadores(as) devem se inscrever com até cinco dias de antecedência ao evento na sua região. Os projetos e trabalhos mais significativos terão lugar na etapa estadual da Mostra, que ocorrerá em Porto Alegre em data a ser definida. As experiências selecionadas também serão compiladas em uma publicação especial.

Participe e não perca a chance de mostrar ao nosso estado a excelência da educação que construímos juntos, apesar da desvalorização e descaso do governo Eduardo Leite (PSDB) com a educação e os educadores(as). 

Inscreva seu projeto e faça parte dessa grande celebração do conhecimento e da dedicação dos profissionais da educação. Juntos(as), podemos construir uma escola pública cada vez mais inclusiva, transformadora e presente na vida de nossos estudantes.

FONTE: https://cpers.com.br/inscricoes-abertas-participe-da-5a-mostra-pedagogica-do-cpers/

REFERÊNCIAS:

1. https://vivescer.org.br/dicas-sistematizacao-praticas-pedagogicas/

2.https://profuturo.education/pt-br/observatorio/solucoes-inovadoras/boas-praticas-educacionais-o-que-sao-e-como-conta-las/

3. https://novaescola.org.br/conteudo/1882/registros-que-fazem-o-professor-refletir-sobre-a-pratica

4.https://www.enfoc.org.br/system/arquivos/documentos/90/f1289sistematizacaouminstrumentopedagogiconospdsjoaofrancisco.pdf

* Esta publicação teve participação do professor Marciano Pereira, um dos convidados do site que produz sistematicamente reflexões sobre educação e religiosidade.

Autor: Nei Alberto Pies, professor, escritor e editor do site. Também escreveu e publicou no site a matéria “O que aprender e o que ensinar nas escolas a partir de tragédias ambientais como a do RS”:  https://www.neipies.com/o-que-aprender-e-ensinar-nas-escolas-a-partir-de-tragedias-ambientais-como-a-do-rs/

Edição: A. R.

O que a tragédia do RS tem a nos ensinar?

Eventos climáticos extemos são desequilíbrios do clima que afetam diretamente o nosso cotidiano, causando perdas e destruição; abalando a nossa saúde física e mental, além de influenciar em fatores econômicos, sociais e ambientais de uma região.

Julgo que se faz de extrema importância refletirmos sobre esses eventos, principalmente, no contexto atual em que o Rio Grande do Sul, um estado da região sul do Brasil, passou por uma das maiores enchentes da história, sendo que, no ano passado, já havíamos passado por um evento semelhante.  

Não há como ignorar a reincidência de chuvas intensas em um curto período de tempo. E fica difícil de entender isso como meramente uma ação da natureza, como se ela fosse um ente isolado, e nos abster de nossa influencia no meio em que vivemos.

Nesses últimos dias, argumentos como “o homem não tem influência no clima”, acompanhado de teorias conspiratórias que não agregam em nada na resolução de nossos problemas, foram bem recorrentes, mesmo com o alarme das mudanças climáticas, embasadas na ciência. 

Mas, responda-me, quando você acende uma lareira, queimando lenha em sua casa, você consegue alterar o clima daquele ambiente? Fica mais quente, né? Então, podemos dizer que sim, não é mesmo?

– Aí Ana, mas se eu acender um fogo em um campo aberto, a minha influência é insignificante.

Quando você contabiliza um campo aberto, você tem que contabilizar a influência de 8 bilhões de pessoas, acrescido as indústrias que criamos, os veículos que utilizamos e tudo mais que de alguma forma influencia no clima, geralmente, acrescentando calor por meio da queima de combustíveis fósseis.

Como resultado de nossas ações, temos o aumento de dióxido de carbono na atmosfera, que curiosamente, após a revolução industrial aumentou em 120 partes por milhão em apenas 150 anos. Um aumento muito significativo em curto período de tempo. Que por sua vez, age no clima, aumentando a tendência de reações extremas e mecanismos compensatórios.

Digamos que a natureza pode ter o seu ciclo de chuvas intensas, períodos de muito frio ou muito calor, mas, isso não significa que esse contexto não possa ser agravado pela ação humana, porque somos parte da natureza, e é justamente o que parece estar acontecendo.

Se há algo que possamos aprender com esses eventos é o quanto parece não existir fronteiras para o clima ou quando o assunto interfere na vida de todos os seres aqui no planeta. E que ações isoladas, por mais que tenham a sua importância e seu papel mitigatório, não serão o suficiente. Precisaremos estabelecer uma sinergia enquanto humanidade em prol do mesmo objetivo.

Ao mesmo tempo, cabe aos principais envolvidos nesses eventos climáticos extremos, desenvolver meios com a finalidade de se reestabelecer, se aprimorar, e se proteger. Diante do exposto, esta produção tem por interesse apresentar aspectos a serem refletidos, tendo como referência o evento de chuvas intensas aqui no Rio Grande do Sul.

Farei isso com base em minhas vivências nesse período, além dos conhecimentos que adquiri por meio de minha formação como arquiteta e urbanista e filósofa. Longe de ser um manual de como fazer as coisas, meu principal interesse é abrir um espaço para que possamos pensar em meios de aprimoramento, a fim de que sejamos mais eficazes quando o assunto for a nossa segurança e bem-estar.   

Convido você a utilizar os comentários como meio de também compartilhar a sua experiência, as dificuldades mais observadas neste período e suas sugestões de como o gerenciamento das questões relacionados aos eventos climáticos extremos pode e deve ser aprimorado.

Deixo aqui a minha esperança que possamos ser ouvidos!

Caso você não possuir sugestões e mesmo assim desejar contribuir, compartilhe este texto, fazendo com que mais pessoas possam ter contato com essas ideias!

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Sabe, se tem uma questão que me alinha toda vez que eu cometo um erro ou uma falha, é destinar um tempo para refletir sobre o que aconteceu, e estabelecer diretrizes de como evita-lo quando um contexto semelhante surgir. Essa estratégia costuma aliviar meus sentimentos incômodos graças a sensação de que eu estou fazendo algo por isso.

Portanto, talvez a pergunta que todos nós possamos nos fazer, e nossos governantes precisem encarar, é o que poderia ter sido feito, que não foi, para que esse contexto fosse no mínimo amenizado?

E aqui eu sigo com as minhas reflexões…

1. Sobre os planos, os papéis e o gerenciamento político.

A primeira sugestão que me vem em mente se trata de um plano de contingência. Que muito mais que um documento formal, visa estabelecer diretrizes, procedimentos e ações a serem adotadas em caso de ocorrência de desastres naturais entre outros eventos adversos que possam colocar em risco a nossa segurança e bem-estar.

Agora eu lhe pergunto: a sua cidade tem um plano de contingência? Você recebeu alguma orientação de como agir em situações como essas? Indo um pouco além, se existe esse plano, como ele dialoga com a região, o estado e o país? E como podemos fazer com que o plano não seja mais um papel caro e engavetado aqui no Brasil?

Se algo ficou evidente neste período de enchentes foi o quanto necessitamos ter mais clareza de como agir em situações como estas, além de um diálogo claro e coordenado pelo órgão de referencia com as pessoas que desejam ajudar. É por isso que precisamos de um plano.

Mas, por onde a gente começa? Pelos interessados, ou seja, nós. Porque se há algo que está ficando cada vez mais escancarado, é que delegar questões que dizem respeito diretamente a nossa qualidade de vida, para instâncias maiores, excessivamente burocráticas, pouco efetivas e muito distantes de nossa realidade, não está dando certo. Em resumo, a gente pode contar com o apoio deles, mas precisaremos ser protagonistas.

Eu recomendaria, após o encaminhamento das questões urgentes, aproveitar o momento para reunir as lideranças da sociedade civil e redigir um documento solicitando o apoio do poder municipal na elaboração de um plano de contingenciamento.

Começar com perguntas básicas como qual é o objetivo deste plano e como a gente cumpre com ele, pode ajudar na hora de colocar as coisas no papel. Convocar pessoas que entendam do assunto também, além de dar ouvido a população e as principais dificuldades enfrentadas neste período.

Outra questão fundamental é o mapeamento. Podemos utilizar este evento para favorecer o mapeamento das áreas de risco como ter em mãos uma estimativa de habitantes desta região. Aos poucos, conforme formos nos organizando, podemos criar até mesmo uma rede compartilhada de soluções, para que mais municípios possam refletir e implementar, e aqui sim entra o papel do estado e porque não dos conselhos, como orientador, condutor e conector de nossas ações. 

Falando em papel… é importante aproveitar o momento para estabelecer ou no mínimo ter mais clareza sobre o papel dos órgãos federais, como também dos conselhos, universidades, associações e entidades nesses eventos. Dar nome ao problema e compreender como cada um pode contribuir com a resolução e o que é mais indicado cada um fazer, tendo em vistas o objetivo último, deve reduzir essa sensação caótica de sentir que nossos esforços são insignificantes. Ou de fazer tudo ao mesmo tempo e no final sentir que não estamos fazendo nada.

Outra questão que podemos nos questionar é como garantir que de fato tais planos sejam implementados. E aqui, além de estabelecer estratégias claras e indicadores a fim de que consigamos medir o progresso, quem sabe possamos ajustar alguns papéis.

Por exemplo, eu vejo que é uma prática legal do conselho de arquitetura e urbanismo fiscalizar obras para conferir se elas têm o devido responsável, isso também é feito pelo conselho de engenharia, e também é dever dos fiscais municipais. Resumindo, são três entidades fazendo a mesma coisa.

Mas, quem é que fiscaliza a prefeitura por elaborar, seguir e implementar os planos? Por exemplo, não é incomum ver cidades elaborando planos, como o de mobilidade, apenas para o cumprimento legal, mas sem a real efetivação. Ou de planos diretores sendo elaborados para o favorecimento de alguns ao invés de todos. Ou nos casos, geralmente de municípios menores, em que as normativas estão defasadas e o setor de planejamento urbano é praticamente inexistente?

Digamos que em uma sociedade ideal, as pessoas devem fazer algo não por medo de punição, mas por compreender que aquilo é o certo a fazer. E assim na pessoa adulta cresce a capacidade de autogerenciamento. Em outras palavras, ninguém precisa cobrar uma prefeitura que entende a importância da implementação de um bom plano, porque ela vai buscar implementar.

Mas, talvez, os municípios que fazem um plano apenas para cumprir a lei, ou em muito dos casos, não o efetivem por questões de interesses pessoais, ou por plena ignorância, precisem de uma mãozinha. Ou melhor, um conselho de conselhos não só de arquitetura e urbanismo e engenharia, como também de advocacia, contabilidade, psicologia dentre outras áreas fundamentais e que tem muito a contribuir no gerenciamento político e por consequência no planejamento e efetivação de ações em nossas cidades. 

Já que não podemos garantir que a pessoa mais indicada assuma o cargo de prefeito, dentre outros cargos importantes que muitas vezes é a base indicações pouco fundamentadas, ao menos que possamos garantir que independentemente de quem esteja lá, receba uma orientação e possa compreender a importância de certas ações, sendo também cobrado por isso. E aí, ao invés de fiscalizar as obras, a gente possa ajustar algumas atribuições e fazer com que os conselhos fiscalizem e orientem a prefeitura que vai não só fiscalizar obras, como também executar os planos.

1.1 Alertando sobre os alertas

Outra questão evidente que veio à tona neste período foi a necessidade de se estabelecer uma rede de avisos eficiente, em que cada município tenha um responsável por receber e repassar informações oficiais e embasadas nos estudos meteorológicos sobre o alerta de possíveis eventos climáticos extremos. Isso porque, não dá para avisar as pessoas apenas pelas redes socias. Precisamos aperfeiçoar esse mecanismo e aqui vale abrir um edital para receber muitas ideias. Desde aplicativos, cadastro de números para chamadas no celular com mensagens automáticas, sirenes enfim, o momento é de captar e organizar ideias e aplica-las.

Mas, digamos que a gente recebeu o alerta, e agora, a gente faz o que? Aqui vem a importância da orientação, treinamento e de um plano. A população precisa ter clareza de onde ir e como agir em situações como esta.

1.2 Definição e gestão de Alojamentos

Ou seja, alerta eficaz e evacuação da área com destino aos alojamentos elencados pelo plano de contingenciamento. Esses espaços, principalmente para cidades menores, poderiam ser de uso hibrido, como por exemplo um salão de festas, que vira alojamento.

Sim, isso é o que está acontecendo, mas podemos nos aperfeiçoar, como por exemplo: ampliando os banheiros e acrescentando chuveiros; ter uma planta setorizada a fim de orientar a instalação de divisórias leves e removíveis, que podem ser aquelas que a gente vê nas feiras. Ações como essas podem tornar espaço habitável e menos caótico, por um tempo maior, principalmente àquelas pessoas que perderam até mesmo a sua casa.

Outra questão seria um manual básico de gerenciamento de pessoas, que pode ser um para todo o estado. Quando criado por quem entende do assunto é uma estratégia que poderá adiantar muito o processo, porque já antecipa os principais problemas, apresentando soluções. Porque acredite, manter pessoas assustadas e desconhecidas reunidas em um espaço não é uma tarefa fácil. E fica muito pior quando a gente não tem experiência. E eu não sei se você percebeu, mas novamente, eu recorro a necessidade de sistematizarmos e otimizarmos o conhecimento, porque eis uma ferramenta poderosa e subutilizada.

Pensemos que quando essa evacuação é feita de forma planejada e antecipada, dá tempo de levar consigo o essencial que é comida, água, medicamento e higiene. E caso isso faltar, fica mais fácil de entender a demanda quando as pessoas estão reunidas e contabilizadas.

Falando em demanda…entramos aqui em uma das questões que, na minha opinião, mais carecem de um plano. É natural que em uma situação como a que passamos, sem a devida orientação, as pessoas solicitem ajuda ao maior número de pessoas possíveis, sem muito detalhe; e isso não está errado quando analisado um cenário desesperador. Mas, isso pode gerar um certo desequilíbrio como pessoas não recebendo o que precisam e pessoas recebendo algo que elas não precisam e que pode estar faltando em algum lugar.

É por isso que se faz indispensável aplicar um sistema de gerenciamento de demanda. Aqui vale a sugestão de um aplicativo de captação de demandas, conectando pessoas que precisam de ajuda e pessoas que querem ajudar. Mas, de forma sistematizada com levantamento de demanda, a fim de compreender qual é a prioridade para aquelas pessoas e com base nessa análise organizar as campanhas; adoção de pedidos, a fim de que consigamos distribuir a ajuda de forma otimizada, não concentrando o envio em um só lugar; além do acompanhamento por geolocalização e confirmação de entrega.

Agora, voltando ao contexto de evacuação, podemos pensar também que com antecipação, podemos inclusive ajudar a relocar os móveis e eletrodomésticos. Mas, o detalhe vem agora: se há algo que possamos aprender com esse contexto, é o quanto precisamos nos unir como sociedade e transcender a noção de que o órgão municipal vai fazer tudo. E acreditem, a nossa força e a nossa visão das coisas podem transformar o estado. 

É por isso que ao invés de esperar que o município faça esse serviço, podemos nos organizar como voluntários cadastrando caminhões e camionetes, pessoas para carregar e locais de recebimento desses objetos. No entanto, vale a reflexão que quanto mais frequente for a necessidade de evacuação mais pessoas vão se sentir cansadas em ajudar. Porque, mais vai ficar óbvio que essa ação não é sustentável e que essas pessoas precisam sair de lá.

Talvez, você esteja se perguntando, porque eles não saem agora? E aqui eu lembro de uma história de um casal de idosos com seus 80 anos que tiveram a sua casa inundada perdendo muita coisa. E o que mais fica evidente neste contexto é que precisamos constatar a recorrência para tomar medidas mais extremas como sair da própria casa. Precisamos sentir que vale o esforço de tanta mudança e isso talvez possa ficar mais claro no decorrer do tempo, quando nos sentirmos incentivados e amparados.

2. Reconstrução com orientação

Existem também os casos de cidades que ficaram de baixo d’água. De casas que foram destruídas pela enchente, incluso àquelas em situação irregular, construídas em áreas de preservação permanente que de alguma forma escancara a nossa incapacidade de resolver problemas sociais que também são problemas de gestão urbana.

Quando o dinheiro é pouco, fica evidente a necessidade de priorizarmos os investimentos em medidas eficazes. Receber uma verba do estado para reconstruir da mesma maneira uma cidade que tem alta probabilidade de ser inundada novamente, é o mesmo que investir em uma empresa com altas chances de falir e a falência significa risco de vida dessas pessoas.

Nesse caso julgo que as cidades interessadas em verba necessitem apresentar uma proposta, deixando evidente o problema com números, e uma estratégia de solução sustentável no contexto ambiental, social e financeiro. Algo bem diferente do que uma corrida por verba, feita sem o mínimo planejamento.

E para tanto eu insisto, precisamos de planejamento, caso contrário a verba que poderá faltar estará sendo empregada em “soluções” que não se sustentam.

O papel do estado nessa fase deve ser orientativo, organizando metodologias para o levantamento e a condução das propostas, prevendo parcerias com os conselhos e inclusive com as universidades. Há muito venho salientando o quanto estabelecer vínculos entre a teoria dos estudos universitários com a prática da implementação publica beneficiaria a todos nós. É um disparate não fazer isso!

Em alguns, casos medidas de engenharia e urbanismo para o escoamento da água pode ser suficiente e compensatório. Em outros, talvez, fique evidente o quanto que a migração dessas pessoas para outros locais ou cidades será necessário. Aqui entra algo que já deveríamos ter faz tempo e que eu nomeio como o acompanhamento social.

2.1 Acompanhamento social

A lógica em teoria é simples. Você se muda, consegue um emprego, aluga uma casa e recomeça. Mas, existe emprego para essas pessoas? O salário que ela recebe será suficiente para pagar as suas contas? Ela tem estrutura emocional para se manter em um emprego? Ela sabe o básico de educação financeira para administrar os seus gastos?

Diante do exposto o plano de acompanhamento social seria estabelecido por meio de uma sinergia em três eixos: emprego, gestão de finanças e gestão emocional.

Facilitar a busca por vagas de emprego

A primeira sugestão seria lançar um site ou app de referência preferencialmente com uma parceria entre o governo e uma plataforma existente, mas simplificada, porque quanto mais complicada for a ferramenta, menor será a adesão. Algo que possamos visualizar todas as vagas disponíveis, separadas por categoria e cidade, com um mecanismo de atualização eficiente, para que ninguém perca tempo indo atrás de uma vaga que já foi preenchida. O segredo aqui é centralizar a informação e utilizar a tecnologia como propulsora.

Instruir quanto ao gerenciamento financeiro

Mesmo quando uma pessoa consegue um emprego, será que o salário que ela recebe é o suficiente? O detalhe, é que a gente só consegue responder essa pergunta com eficácia quando temos um controle mínimo de quanto está entrando e quanto está saindo. E com base nisso, traçar estratégias. Isso nos ensina a ter autocontrole, a ter consciência de nossas escolhas, a compreender como se capacitar pode resultar em um retorno financeiro melhor. Existe muitas questões importantes sobre finanças que poderia fazer a diferença na vida de muita gente, e infelizmente, a gente não vê nenhuma condução nesse sentido. Uma metodologia simplificada, vídeos e um acompanhamento pontual, seria uma proposta em prol de capacitar essas pessoas a fazer escolhas conscientes e gerenciar a sua própria vida.

Instruir quanto ao gerenciamento emocional

E agora vem a questão que para mim é chave, e talvez dada a complexidade, negligenciada, que é o gerenciamento emocional. Porque muitas pessoas não tem estrutura psicológica para se manter em um emprego; para lidar com os seus traumas ou ameaças reais e constantes que são muito fortes. Nesses casos, quando não é possível fazer um acolhimento individual, podemos trabalhar com rodas de conversas orientadas por profissionais da saúde mental, que além de favorecer uma rede de apoio, também nos mostram que não estamos passando por isso sozinhos. A ideia de uma plataforma com conteúdos sobre gerenciamento emocional também é válida e eu diria que extremamente necessária.

Em resumo, se tivermos uma estratégia clara e bem organizada de acolhimento dessas pessoas em situação de vulnerabilidade, e um suporte desses três pilares, implementados por uma sinergia que empregue, que oriente financeiramente e emocionalmente essas pessoas, é muito mais provável que as nossas políticas sociais sejam efetivas e com toda certeza o reflexo delas será sentido por toda a sociedade.

Por mais que haja uma boa intenção em uma política assistencialista, ela não é sustentável quando não capacitamos essas pessoas a gerenciar a própria vida. E aqui eu questiono se realmente estamos fazendo o básico, que é ensinar a pescar.

Mas, Ana. O estado está quebrado, ele vai ter condição de criar aplicativos, contratar consultores financeiros e psicólogos? É aqui que entra o exemplo que estamos vivenciando no Rio Grande do Sul, cuja organização da sociedade civil está sendo protagonista no amparo as vítimas.

Em verdade, está mais do que na hora da gente assumir que a estrutura política que deveria nos gerenciar não dá conta de resolver os nossos problemas inclusive de caráter social, e com isso ampliar o nosso campo de possibilidades.

É o momento de pensar para além das estruturas estatais, organizando parcerias público-privadas, trabalhando junto aos conselhos e universidades. É a hora de reconhecer a importância e incentivar o voluntariado por meio de isenções fiscais e outros mecanismos que de algum modo estime a nossa participação.

Quando nos organizamos, podemos fazer tudo isso sem sobrecarregar ninguém. O trabalho de formiguinha constrói um formigueiro quando a orientação for clara, respeitosa e bem conduzida. Com isso também podemos preencher o vazio que nos inunda pela falta de sentido, ao fortalecer o nosso espírito comunitário e nos sentirmos amparados pela sensação de pertencer e estar contribuindo com algo maior.

E esse seria o maior legado que poderia emergir em uma sociedade naufragada, não apenas pela água.

Autora: Ana P. Scheffer. Também escreveu e publicou no site “Crise ambiental, ética e sustentabilidade”: https://www.neipies.com/crise-ambiental-etica-e-sustentabilidade/

Edição: A. R.

Por que Deus permite as enchentes?

“É o meu Rio Grande do sul, céu, sol, sul, terra e cor. Onde tudo que se planta cresce, o que mais floresce é o amor” (Os Serranos)

As divindades estão em todo lugar (onipresentes), possuem todo poder (onipotentes). Será que elas se ausentaram propositalmente do Estado, outrora jardim no qual tudo que se plantava crescia? Teria Deus, ou os deuses, motivos para enviarem destruição, tristeza e morte sobre o bioma sulino? Quem vamos culpabilizar por tamanho infortúnio? Que pessoas e ou instituições responsabilizaremos pelas pesadas águas que descem do céu, enchem rios, invadem casas, provocam desmoronamentos e soterram o projeto de tantas, diferentes gentes? 

A reflexão que esse escrito propõe tem como objetivo sugerir a superação do “pensamento mágico”, da explicação falaciosa e a urgente necessidade de recriarmos a cultura do cuidado integral com a vida que emana da terra, das águas, do ecossistema.

Em uma primeira análise, nas perguntas que iniciam essa reflexão, se insere a superficialidade de respostas fornecidas por pessoas e grupos religiosos desprovidos do conhecimento Teológico, entendido como ciência que trata sobre a relação do humano com o divino.

É importante se perguntar sobre as causas deste destempero climático que vem assolando o Rio Grande do Sul, no entanto a pergunta não deve ser direcionada para uma instância superior que para alguns é Deus e para outros entidades transcendentes.

As perguntas certas são: qual é a nossa responsabilidade? Como participamos das decisões, que cada vez mais flexibilizam as políticas ambientais? De que forma nossa cultura contribui com a destruição do ecossistema do qual somos uma pequena porção?

O filósofo alemão Hans Jonas aborda a questão da ética, usando o conceito de responsabilidade, tomando este como princípio, sem o qual a continuidade da vida no Planeta é inviabilizada.  De acordo com o filósofo, antes de qualquer ação deveríamos pensar em garantir o futuro da vida em todas as suas formas. Antes de abraçar um sistema político-econômico, deveríamos pensar nos impactos ambientais e sociais do mesmo.  Para elaborar esse princípio ético Jonas se inspira no Imperativo Categórico de Kant e, através dos seus escritos segue nos exortando a agir de modo a que os efeitos da (nossa) ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a terra” (JONAS, 2006, p. 47)[1].

A cultura do consumo, fundada na lógica do lucro e na “obsolescência programada” não favorece em nada para que uma existência genuína no planeta continue possível. Importante atualizarmos este imperativo incluindo nele todas as formas de vida, visto que a destruição da “mãe natureza” coloca o planeta em risco.

Políticos agem com irresponsabilidade ao flexibilizar as leis ambientais, especialmente as que discorrem sobre o desmatamento, uso de agrotóxicos, garimpos, descarte de resíduos orgânicos e inorgânicos. Nós agimos com irresponsabilidadequando elegemos ideologias que se opõem à vida, quando em nome do lucro buscamos legalizar a derrubada das matas, o aterramento de rios e de vertentes de água, e o já mencionado uso de substâncias danosas para a saúde.

Egoisticamente, buscamos a felicidade comprando coisas que não necessitamos para saciar o desejo de sentido que nos habita. Empilhamos ilusões na forma de mercadorias que são “ jogadas fora”, como se o “fora” designasse um espaço mágico no qual as coisas desaparecessem. Infelizmente, esse comportamento fundado na irresponsabilidade resulta no aumento do buraco da camada de ozônio e no superaquecimento do planeta.

E agora? A natureza não tem “consciência de classe”, atinge a todos, alaga o Shopping Center com a mesma fúria que destrói a casa de três cômodos, ou a “meia água”. É claro que os menos favorecidos são os mais prejudicados, visto que é muito difícil para subempregados, assalariados, reconstruírem suas vidas, no entanto, é impossível para pessoas de qualquer situação sócio econômica ressuscitar os mortos. Neste sentido, somos o Estado mais enlutado do Brasil e invadidos por traumas sem precedentes, que muitos chamam de “cenário de guerra”.  O sofrimento nos iguala e “queiram as divindades” que nos humanize, nos transforme em responsáveis cuidadores da vida, em seres empáticos.

“Atuar de forma que os efeitos de nossas ações sejam compatíveis com a permanência de uma vida humana genuína sobre a terra” é um imperativo que precisa perpassar a educação, especialmente a que acontecesse no espaço escolar, visto que o fazer pedagógico não deve treinar para a repetição de um modelo de vida, cujos resultados o clima tem escancarado. Cabe à educação ensinar ética da responsabilidade, consciência ecológica, relacionamentos comprometidos com uma existência genuína das gerações vindouras. E neste sentido, educação ambiental, sustentabilidade não podem ser apenas os temas transversais que perpassam o currículo escolar.

 É preciso repensar com urgência o modelo econômico e a finalidade do consumo, é urgente buscar o sentido que não estaciona na mercadoria e na descartabilidade da vida. Será que podemos, começando pela imaginação, vislumbrar outros horizontes de sentido?          

A onda de solidariedade que vivenciamos no Rio Grande do Sul nos ensina que, irmanados por tantas dores, perdas e lutos podemos construir outra forma de relacionamento uns com os outros e com a natureza da qual somos parte. Unido pelo espírito fraterno que faz de todos irmãos e irmãs podemos nos responsabilizar pela formação de consciências éticas, por construir e fomentar formas de consumo sustentáveis e biodegradáveis.

E ainda, aos teístas cabe a responsabilidade de viver a fé através de atitudes pautadas no cuidado como, genuína expressão de amor à vida. Premissa esta que se fundamenta no livro cujo título já é uma mensagem, Gênesis, ou seja, origem, nascimento. Neste livro, entendemos que do CAOS Deus fez o Universo com o ser humano, cuja tarefa consistia em cuidar do jardim, usufruindo com responsabilidade do que fora feito, diferente do domínio destruidor que está inviabilizando a vida. O que temos feito para garantir a continuidade da vida no Planeta Terra?

Desde a revolução industrial, o Planeta Terra vem sofrendo cada vez mais, devido a escolhas infelizes feitas pela própria humanidade. Invocar Deus ou os deuses solicitando respostas e socorro não nos isenta da responsabilidade. Culpabilizar o ateísmo e a diversidade religiosa, especialmente a umbanda, fere gravemente o direito à liberdade religiosa, soa como atitude insana e fundamentalista. Correr na direção de respostas mágicas e recorrer a intolerância religiosa não resolverá em nada a crise que já está posta e avolumada pelas ações nossas de cada dia.

O Conteúdo que expomos acima se opõe a todo discurso fundamentalista como o mencionado na entrevista disponível no link: https://www.cartacapital.com.br/cartaexpressa/prefeito-sugere-que-enchentes-no-rs-tem-relacao-com-a-presenca-de-menos-igrejas-e-mais-centros/amp/

Autor: Marciano Pereira. Também escreveu e publicou no site “Cuidar de si, do outro, da coletividade e da natureza como expressão da vida”:  https://www.neipies.com/cuidar-de-si-do-outro-da-coletividade-e-da-natureza-enquanto-expressao-de-valor-da-vida-propostas-de-atividades-pedagogicas/


[1] JONAS, H. O princípio responsabilidade: ensaio de uma ética para a civilização tecnológica. Tradução de Marijane Lisboa e Luiz Barros Montez. Rio de Janeiro: Contraponto; Ed. PUCRio, 2006.

Edição: A. R.

Depois da tempestade vem a bonança

A reflexão sobre o dito popular que afirma: “depois da tempestade vem a bonança”, de certa forma, nos ajuda a enfrentar com mais coragem a tragédia ambiental que está sendo vivida no Rio Grande do Sul e mostra pequena luz de esperança no fundo do túnel.

Em nenhuma outra época, nas regiões atingidas pelas chuvas intermitentes no mês de maio de 2024, a luz do sol e o céu azul foram tão esperados. Os olhos dos gaúchos, olhando para cima, buscavam   enxergar, entre as nuvens cinzas, nem que fosse uma pequena nesga de luz de ouro, vinda de um humilde raio de sol no fundo de um pequeno espaço de azul celeste, todo o esforço era em vão por dias e dias, enquanto os problemas da tragédia se avolumavam.

Refletindo sobre esta situação e buscando encontrar  novos caminhos para percorrer os espaços alagados e enlameados para chegar onde era necessário a ajuda, acabamos percorrendo as lembranças de nossa longínqua infância, quando, aos sete anos  de idade, na sala de aula da primeiro ano do Colégio São Luís, no bairro Teresópolis, em Porto  Alegre, a professora, uma jovem e querida freira nos contava as histórias da Bíblia,  do Velho Testamento sobre o dilúvio ( Gênesis, cap. 6 e 7) de Noé e sua arca, sua família e animais e os quarenta dias  e noites de chuvas e o dia glorioso da bonança quando a arca ficou firme, sobre um lindo monte.

Na plasticidade de minha mente infantil as cenas se desenrolavam como num filme. E a professora explicou que Deus usava dois processos para acabar com o mundo e os pecadores: era por dilúvio, água ou fogo. Para ilustrar a narrativa mostrou um quadro pintado que retratava os pecadores, após a morte, no inferno, eternamente entre as chamas do fogo.  Fiquei preocupada com o fim do mundo. Neste dia, já em casa, durante a sesta obrigatória da tarde, após o almoço, deitada na cama, passei a refletir sobre as informações recebidas.

Como o mundo poderia acabar?  Como tudo ficaria? Resolvi, com o pensamento concreto característico da idade, ir acabando com tudo que conhecia e comecei pelo que estava mais distante: o colégio, a praça, as ruas, a minha casa, a minha família, tudo consumido, primeiro pelo fogo e depois pela água, mas sempre restava alguma coisa e concluí, aos sete anos, que o nada não existe e fiquei aliviada, pois a informação recebida estava equivocada, confiando ainda mais no “Papai do Céu”. 

Nesta época, em casa, eu era responsável por acender o fogão à lenha, era perita nesta atividade e ficava alimentando o fogo com a lenha para não apagar e, por conhecimento empírico, percebia que o fogo consumia a lenha em cinza, era impossível as pessoas ficarem queimando eternamente no inferno. Lembrei também das histórias contadas sobre a enchente de Porto Alegre, em 1941, que, na época havia ocorrido fazia 11 ou 12 anos, e o mundo não tinha acabado…

O que está passando na mente das crianças e adolescentes que estão vivenciando a tragédia real?  

Para muitos, tudo foi por água abaixo, casa, escola, igreja, roupas, utensílios domésticos, material escolar, foram-se as coisas materiais e para alguns, pessoas queridas também partiram.  Agora o futuro é incerto. Como será o retorno à rotina?  Ao lar, a escola, a vida de relação, com tantas perdas?

A escola e os mestres, muitos também atingidos pela tragédia, como se reorganizarão para recomeçar a atividade pedagógica?

Agora vai ser preciso  investir  no planejamento pedagógico dentro de uma  proposta de educação ambiental com o objetivo de formar o sujeito ecológico, que deve ter um olhar sobre as relações entre indivíduo, sociedade e natureza numa visão multidisciplinar que favoreça  a  compreensão diversa e multifacetada das inter-relações  que  constituem o mundo e a vida, ou seja, perceber que os seres vivos interagem entre si, sempre  relacionados  e interconectados, formando  complexo  sistema de trocas.

Na escola torna-se necessário abrir espaço interdisciplinar para organizar campos de conhecimento teóricos e práticos para propiciar a rearticulação das relações ser humano, sociedade e natureza.

A educação ambiental tem que transitar entre os múltiplos saberes científicos, populares (empíricos) e tradicionais.

Os educadores precisam buscar novos modos de compreender, ensinar e aprender, rompendo com a organização estanque, disciplinar, levando em consideração a devida problematização do contexto histórico, de produção, dos interesses econômicos e das condições ambientais do seu município, do Estado e da nação.  A construção de práticas inovadoras e a condução de discussão sobre aquecimento global e os desequilíbrios climáticos, a poluição dos rios, mananciais e mares, os organismos geneticamente modificados (transgênicos), aumento da emissão de resíduos tóxicos e como preservar o material genuíno, na sua força original, de acordo com a sua própria natureza. Para tal questão é preciso compreender os complexos processos biológicos, geográficos, históricos, econômicos e sociais geradores de problemas.

Não podemos descartar, no momento crítico que estamos vivendo, uma análise mais profunda sobre “o ser humano”, suas condições físicas, emocionais, sentimentais e religiosas no contexto de ensino e aprendizagem na escola.

Oportuno trabalhar a questão social, começando pelo papel da família, como grupo social primário e base da sociedade que apresenta, na fase atual, problemas e desafios urgentes. Onde buscar amparo nos demais grupos sociais da comunidade que dão suporte à saúde física, mental e espiritual?  Organizar uma rede de informações dos grupos e espaços disponíveis ao amparo individual e familiar.

Destaca-se o papel relevante também da disciplina do Ensino Religioso pois não podemos esquecer que, dentro do aporte do conteúdo da Filosofia encontra-se a Teoria do Conhecimento, ou Gnosiologia, ramo filosófico que estuda a natureza do conhecimento que o ser humano tem condições de dominar e que o libertam da ignorância, são: o conhecimento científico, o filosófico e o religioso, caminhos importantes que precisam ser trilhados por todos nós.

O conhecimento científico parte do conhecimento vulgar, empírico e leva a compreensão da lei física de causa e efeito. O conhecimento filosófico reflete sobre as causas primárias, mais remotas chegando até as questões éticas e morais nas relações dos seres humanos entre si, e demais seres vivos que fazem parte do reino mineral, da flora e da fauna, culminando com o conhecimento religioso que é transcendental, que pertence à razão pura, que antecede a qualquer experiência material, que transcende, indo além do normal, e que não depende de qualquer denominação religiosa. É a ligação da criatura com o Criador, a religiosidade básica, que é inata no ser humano. Nascemos com a ideia de Deus e buscamos, naturalmente, o caminho de volta para Ele, para nossa origem. A educação bem feita, no lar e na escola ajudam a desabrochar esta inclinação de equilíbrio e harmonia que temos no âmago de nosso ser.  É o autoconhecimento.

O educador lúcido cultiva sempre uma postura de abertura e escuta para a complexidade real de cada situação, apresenta disposição para atuar em grupos de diferentes formações e competências, numa ação compartilhada, com uma atitude questionadora, querendo saber mais, ciente de que não sabe tudo e que se deve construir ideias de convivência amistosa, respeitosa e prudente com os demais saberes dos colegas e alunos.

A acolhida dos alunos no retorno às atividades escolares deve revestir-se de muito carinho, alegria do reencontro, com as rodas de conversa para relatos individuais do drama vivido, a exteriorização das emoções, o olho no olho, a mão no ombro, o abraço, a troca das experiências, as mensagens positivas de trabalho e superação compartilhada serão indispensáveis. A contação de histórias, o desenho, a pintura representando o ocorrido, a dramatização, a música, o canto, a prece em conjunto, a troca de correspondência com alunos de outras escolas, são recursos pedagógicos que ajudarão a superar o grande desafio do recomeço afetivo.

Dura lição a natureza está nos oferecendo, numa reação à ação desenfreada do ser humano em alterar, por ganância ou ignorância, o equilíbrio ecológico. Não podemos considerar como castigo de Deus, mas procurar novos caminhos para reverter esta situação, com base nos conhecimentos científicos que a humanidade já possui e que, com paciência, critério, planejamento comunitário e recursos dos poderes público e privado alcançaremos novamente clima de paz, harmonia e prosperidade.

Para reflexão do leitor, oferecemos a posição lúcida de Otávio Mangabeira que foi político, engenheiro, professor e escritor (In Luzes do Alvorecer, Divaldo Franco, página 56):

“A falência tem sido dos sistemas educacionais, resultado dos governantes inescrupulosos que sabem ser a educação o seu adversário mais poderoso, enquanto a ignorância, que gera o temor, é seu fâmulo especial e melhor serviçal… A Política, pouco a pouco, assume a postura de ciência, substituindo a politicagem que ainda predomina, mas que vai sendo desmascarada, para ceder lugar a novos comportamentos respeitáveis. Os partidos políticos devem compreender que têm a missão de velar pelo povo, pela nacionalidade e não pelos interesses dos grupos que os dirigem, das coligações interessadas em cargos sem encargos…quando deveriam unir-se com elevação para a preservação das Leis… Hoje a crítica aberta aponta as calamidades de comportamento de autoridades e administradores que, embora não punidos, são desmascarados”.

Temos que considerar que vivemos num regime político democrático, somos nós que elegemos nossos representantes na administração dos municípios, do estado e do país, temos que ter consciência de que os representantes que elegemos estão realmente capacitados para   gerir os nossos destinos, se conhecem, em profundidade, os problemas e desafios a serem sanados. Aos dezesseis anos, o adolescente já exerce seu poder de voto; compete à família e à escola esclarecê-los sobre essa grande responsabilidade. Através do voto consciente podemos mudar para melhorar as condições do nosso município, do estado e do Brasil.

Temos certeza na bonança que aguarda o povo gaúcho que vai superar a tempestade que o abate. É questão de tempo e muito esforço, sacrifício, união, fraternidade. Uma nova aurora vai surgir, as nuvens da borrasca vão passar, o sol voltará a brilhar no céu azul do Rio Grande do Sul. Daqui a alguns anos cantaremos com toda a força de nossas vozes: “Sirvam, nossas façanhas, de modelo a toda Terra!  Sirvam nossas façanhas de modelo a toda Terra!”

Sugestões de fontes de pesquisa para os professores:

1.Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade global – Google

2. AGENDA 21;

3. AMBIENTE BRASIL – https://www.ambientebrasil.com.br/

4. FEPAM – Fundação Estadual de Proteção Ambiental;

5. MEC – EDUCAÇÃO AMBIENTAL;

6.REDE GAÚCHA DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL;

7. CARVALHO, Izabel Cristina – Em Direção ao Mundo da Vida/A Invenção Ecológica/Educação Ambiental – a formação do sujeito Ecológico;

8. IBAMA – Educação para um mundo sustentável;

9. LANGENBACH, Miriam – A rede Ecológica; 9. SEGURA, Denise Baena – A Educação Ambiental na Escola Pública;

10. UNGER, Nancy Mangabeira- Da Foz à Nascente – Recado do Rio

Autora: Gladis Pedersen.  Email: gladispedersen@gmail.com Também escreveu e publicou no site “Só uma aldeia inteir pode educar uma criança”: https://www.neipies.com/so-uma-aldeia-inteira-pode-educar-uma-crianca/

Edição: A. R.

Rios do céu e da terra

Tudo está em movimento: sol, lua, terra, rios, águas e ventos. Respeitar as leis da natureza é preciso. Violá-las não. (Professor Sabiá)

Lilian e Luan, irmãos gêmeos, adoram olhar a terra e o céu. Não importa se for durante o dia ou à noite. Curiosos, observam as nuvens passageiras, especialmente dois tipos: as de algodão branco-cinzento e as mais escuras.

Dizem que as nuvens são os rios do céu. Elas irrigam as florestas, as plantações e abastecem os rios e lagos da terra.

Lilian, a perguntadeira, quis saber por que os rios do céu andam derramando tanta água sobre os rios e lagos da terra do planeta terra.

– Não há quem aguente tantos ventos e chuvas. Por que isso tudo, mano?

– Coisa do Aquecimento Global, mana!  A culpa é do ser humano. Fica derrubando as florestas próximas dos rios, aterrando as baixadas, construindo nas beiradas, poluindo, inclusive mudando as leis ambientais.

– É mano! E tem mais. Queimam tanta coisa, deixando os rios do céu doidinhos. Parecem lágrimas causadas pela fumaceira. Até os ventos se indignam, causando tempestades e furacões.  Nem adianta fazer novena, acender velas e queimar ramos bentos para acalmar a fúria dos ventos e dos rios do céu e da terra.

– Os seres humanos têm que mudar de atitude o quanto antes, mana!

Nisso, o Chico Papagaio, que ouviu a prosa, meteu o bico e disse:

– Danados e danadas!  Me tirem da gaiola. Já!

A saracura, que adivinhava o tempo, mas que perdeu o lugar no banhado, recitou um poema:

   As saracuras das pernas finas

   Quando cantam até desafinam,

   Já não saram e nem curam.

   Mas o dilúvio às gentes anunciam.

A mãe dos filhos gêmeos avisou os dois:

– Hora de dormir, corujedo!  Amanhã tem aula!

Antes do intervalo, o professor Sabiá, que sabia das coisas, escreveu:

– Tudo está em movimento: sol, lua, terra, rios, águas e ventos. Respeitar as leis da natureza é preciso. Violá-las não. 

– Gente, lá vem a enchente de novo!

– Olha o recreio!

Autor: Eládio V. Weschenfelder foi professor de Literatura na Universidade de Passo Fundo.  E-mail: eladiovilmarw@gmail.com Também escreveu e publicou “Lenda do Sepé Tiaraju”: https://www.neipies.com/lenda-de-sao-sepe-tiaraju/

Edição: A. R.

Povos que sofrem os horrores de um conflito

Na antessala da poesia, quase sempre me sento ao lado da dor e da agonia.

E Israel? Quem, quem, imaginaria?!

Agora, os responsáveis por tamanho sofrimento.

Que judeus, perseguidos do holocausto

Agora massacram um povo faminto e exausto.

¨

Barbárie na tevê, internet, rádio e jornal

Basta escolher, e sintonizar o canal.

Para alguns, só notícias, no café matinal.

Para um povo, sangue e sofrimento infernal.

¨

Violência outrora sofreram, mas será que já esqueceram?

¨

O Estado de Israel acha isso um grande feito.

Palestino encurralado nem consegue ralar peito.

Enquanto bombas do céu caem a torto e direito.

¨

A caneta assina a ordem, agora é dedo no gatilho.

Mata mãe, mata pai, mata irmão e filho.

Soldado não questione, pois eu sou um caudilho!

Diz o fantoche Ianque, de olhar sem nenhum brilho.

¨

Biden e companhia deveriam sentir vergonha.

Que de suas armas e dólares, Israel as disponha.

E apresentar atitude, tremendamente medonha.

Onde fascismo e covardia cabem, no canhão e na coronha.

¨

Como pode um povo não aprender sua lição?

E assombrar o outro com a sua maldição?

Em plena terra santa da ressurreição

A maldade se impõe, uma imensa contradição.

¨

São questões que me colocam para refletir.

E na escrita destes versos não me omitir.

A ideia com o semelhante, quero repartir.

E se preciso for, também vou discutir.

¨

Pra cada bomba ou míssel, disparado

Em algum canto, alguém já deve ter lucrado.

Enquanto o futuro inocente é brutalmente ceifado.

E o soldado pra matar, foi por você remunerado.

¨

A guerra não é só ambição do Estado.

Entra nessa equação, também o livre mercado.

E o imoral então é finalmente escancarado.

Heroísmo na tragédia, só mesmo pra deslumbrado.

¨

E quando penso que, enquanto escrevo, mais uma vida finda!?

E o mercado de ações, mais uma alta brinda.

O ocidente, ao Sionismo, certamente blinda.

Enquanto a Palestina, padece na berlinda.

¨

Enquanto o mundo assiste o triste fim de Gaza.

Crianças, feridas e confusas ardem em brasa.

Fome e desabrigo, sem poder voltar pra casa.

Enquanto mais um bombardeiro, municia-se para o ataque.

¨

Carl Sagan já dizia: Somos uma fina película de vida.

E eu complemento: arrogante e atrevida.

Que ceifa existências, de forma cruel, indevida.

De amor e compaixão, totalmente desprovida.

Autor: Ricardo Germani, em 27/05/2024, no dia em que Israel fez mais um ataque a Rafah. (Leia aqui) Germani também escreveu e publicou no site a crônica “A luta por um projeto civilizatório”: https://www.neipies.com/a-luta-por-um-projeto-civilizatorio/

Edição: A. R.

A chuva é uma menina bela e boa

Se você prestar atenção, a chuva se parece um pouco conosco porque ela tem um bom coração não deixando ninguém com fome, pois é por causa dela que as plantações de arroz, feijão e milho crescem e os agricultores ficam felizes.

A chuva é uma menina de laço de fita, bela e boa. Quando ela cai na Terra aquela sementinha que você plantou no vaso há algum tempo cresce e fica bem bonita igual a você e eu!

Quando a chuva cai na Terra também ela enche açudes e lagos, não deixando que animais e pessoas morram de sede e fome.

Ela gosta de deixar as árvores felizes e enche os corações das crianças de sonhos lindos quando elas se encontram no meio da rua para tomarem um gostoso banho com seus pingos.

Se você prestar atenção, a chuva se parece um pouco conosco porque ela tem um bom coração não deixando ninguém com fome, pois é por causa dela que as plantações de arroz, feijão e milho crescem e os agricultores ficam felizes.

Você sabia que não é culpa da chuva as enchentes nas grandes cidades? Isso mesmo! A chuva é uma menina boa demais para causar danos, ela nunca faria isso! Quando há enchentes é porque o homem construiu prédios e casas em lugares errados ou porque ele derrubou árvores.

Não deixe que culpem a chuva pelas enchentes! Ela fica muito triste quando isso acontece! Não é culpa dela que você tenha perdido os seus brinquedos e roupas, juro que não, ela nunca faria isso!

Os responsáveis pelas enchentes são os homens que pensam saber tudo dela, mas na verdade se eles soubessem que a chuva gosta mesmo é de criança que faz birra, xixi na cama e chupa o dedo eles nunca diriam que ela é culpada disso ou daquilo.

Lembrem-se sempre que Papai do Céu fica feliz quando a gente aprende a amar a chuva porque ela vem lá das nuvens cheia de alegria para molhar a Terra e assim nos proporcionar alimentos e comida na mesa o ano inteiro.

A chuva não é má! Ela não faz mal a ninguém, mas quando os homens derrubam árvores, jogam lixo nas ruas ou constroem em lugares errados como morros e montanhas ela causa danos a quem vive nesses lugares provocando as enchentes e muita tristeza porque não tem para onde ir!

Você já viu alguém feliz quando não tem para onde ir? É o que acontece com a chuva quando os homens interferem na natureza!

Um beijo para você, meu e da chuva, que só queremos ser amigas de todas as crianças do mundo inteiro! Feliz chuvinha!

Autora: Rosângela Trajano

Edição: A. R.

O que o algoritmo quer de nós?

Ninguém consegue ser feliz com o seu corpo, sua vida, seus amores e suas escolhas. O capitalismo se apropriou de tudo. Não pense, faça! O algoritmo dita a minha vida. Será que tenho saída?

Acho que cansei. A mente não consegue reter mais tanta informação. Preciso de uma pausa.

Nesses últimos dias me questionei sobre o excesso de informações que nos circulam e nos vitimam. E em qual tipo de pessoa estamos nos transformando.

Isso é sobre as redes sociais e o excesso de informações que chegam a cada minuto, e nós nos deixamos levar, sem fazer o crivo necessário. A sociedade capitalista enche nossos olhos, mentes e corações, com as melhores publicidades que o algoritmo pode nos oferecer, as melhores vidas e performances, e nós nem questionamos o quanto de mal isso nos faz.

Já parou para pensar nisso? Eu paro e vez ou outra me afasto e me forço a não acompanhar o ritmo que me querem imputar, à força.

O algoritmo das redes sociais passou a conduzir as nossas vidas, ditar regras de beleza, normas de convivência, e de como fazer amigos e influenciar pessoas, parafraseando o escritor Dale Carnegie. Basta uma conversa despretensiosa com alguém ou uma busca aleatória na internet que o algoritmo dita a nossa vida: o que devemos comprar, onde devemos comer, que músicas devemos escutar, quem devemos amar ou odiar, qual gênero de filmes assistir. Em que cursos devo me matricular para continuar sempre “bem” informada e “atenta” a cada novo detalhe que surge, que pode dar um “up” no meu negócio ou na minha carreira. A vida moderna se tornou o paraíso dos coach. Tem coach para solucionar tudo.

O algoritmo me aponta para qual lugar devo viajar nas férias, com as várias opções de hospedagem e os melhores roteiros turísticos, de preferência ressaltando aquele “point” da ocasião.

O algoritmo me diz que não posso ter excesso de peso, nem unhas curtas, nem lábios originais, nem a tez rugosa ou os cabelos prateados da maturidade, pois a “tendência” mercantilista é vender todo tipo de procedimento estético que o padrão social exige.

Seja bela, linda e magra, como a atriz de TV. O algoritmo só não me pergunta se serei feliz seguindo esse padrão, mas, para isso, o capitalismo tem a solução: vender remédios para a crescente ansiedade do mundo moderno.

Ninguém consegue ser feliz com o seu corpo, sua vida, seus amores e suas escolhas. O capitalismo se apropriou de tudo. Não pense, faça! O algoritmo dita a minha vida. Será que tenho saída?

Talvez o nome adequado nem seja algoritmo, mas, eu decidi por esse codinome. Agora, eu dito a regra, porque me peguei cansada desse excesso de tudo.

Eita, será que estou fazendo um texto panfletário contra as redes sociais? Poderia e deveria, mas não rende likes (risos). A questão aqui é ficar atenta para não me deixar manipular pelas “belezas” e “sucessos” alheios que nos tornam reféns das vidas dos outros.

Por hora, não quero tanta informação pairando em minha mente. Não quero ter que estar constante e freneticamente alinhada e atenta às novidades. Quero fazer pinturas no papel, com lápis de cor, que eu adoro. Quero ler meus livros, sem dia ou hora para acabar. Quero cuidar das plantas, dos bichos de casa, das pequenas coisas que o algoritmo não pode interferir.

Ou será que pode?

Vejo pessoas adoecidas, reféns da sociedade do espetáculo. Sem saber que rumo seguir e sendo tragadas pela massa ensandecida por likes, disputando espaços nas redes sociais e nas produções teóricas que convidam a partilha de mais informação.

Mas, por que isso? Você não gosta das redes sociais? Sim, a tecnologia chegou para encurtar distâncias, promover encontros, e produzir informações em tempo real, mas, por outro lado, vem produzindo o aumento crescente de ansiedade nas pessoas. Ansiedade para produzir conteúdos para as redes sociais, ser e estar como as pessoas e vidas tão perfeitas nas telas dos celulares.

Acho que preferiria pausar um pouco o tempo. Escolheria ter mais tempo para refletir sobre as informações, conhecer as notícias, sem que no minuto seguinte ela esteja obsoleta. Por isso gosto dos livros. Nunca estarão obsoletos. O que foi escrito registra o seu tempo histórico, social, cultural.

Cuidemos de nós, pois, estamos caminhando para um abismo de informações truncadas, textos mal escritos e mal interpretados, leituras curtas e rápidas, diálogos e debates cada vez mais polarizados e perigosos.

Sonhe, cante, dance, pinte, escreva, leia… Não se deixe levar pelo algoritmo que conduz as vidas na sociedade do consumo.

FONTE: https://reporternordeste.com.br/o-que-o-algoritmo-quer-de-nos-por-alessandra-buarque/

Autora: Alessandra Buarque 

Edição: A. R.

A promessa de felicidade na modernidade líquida

Certamente, um dos grandes fatores que mobiliza e seduz os insaciáveis consumidores na sociedade de consumo é a promessa de felicidade. Não precisamos fazer grandes esforços, nem sequer recorrer a um olhar teórico sobre o assunto para constatar tais evidências.

Se prestarmos atenção aos comerciais que diariamente circulam pela televisão ou por outras formas de propaganda, de forma fácil perceberemos esse apelo constante que vem de diversas formas: “a felicidade mora aqui”, “está esperando o quê para ser feliz”, “deixe feliz a quem você ama”, “para que este Natal seja repleto de felicidade”. São apenas alguns exemplos dos slogans constantes que invadem nossas casas todos os dias.

A felicidade é comprada a crédito e a satisfação dos desejos tem de ser imediata, mesmo que isso custe “suaves” prestações que levam até quatro a cinco anos para pagar. Como diz Bauman (2000, p. 55), a sociedade de consumo “é uma comunidade de cartões de crédito, […] uma sociedade do ‘hoje e agora’; uma sociedade que deseja, não uma sociedade que espera”. Por isso não se necessita de “normas reguladoras” que impõe limite aos desejos, ou que disciplinem o compulsivo anseio de comprar.

A sedução torna-se a grande estratégia que os afortunados diretores de marketing bem remunerados que expõe “as maravilhas não experimentadas” e “as promessas de sensações desconhecidas”. Por isso, os consumidores devem estar pautados pela “estética do consumo” e não pela “ética do trabalho” e “o consumo, sempre mais variado e rico, aparece ante aos consumidores como um direito para desfrutar e não uma obrigação para cumprir”.

A estética torna-se o elemento agregador na sociedade de consumidores. A estética bonifica as mais “intensas experiências” que podem ser desfrutadas a cada ida ao shopping, pois esperar para desfrutar algo significa “perda de oportunidade”. Viver uma experiência estética não requer preparação e nem justificativa, pois chega sem anunciar-se e desaparece de forma rápida. Por isso tem de ser desfrutada no “presente fugaz”, onde “cada momento é bom para que se desfrute”.

Adverte Bauman (2000, p. 56) “não cabe ao consumidor decidir quando surgirá uma oportunidade para viver uma experiência alucinante; o consumidor deve estar sempre disposto a abrir a porta e recebê-la”. Por isso o alerta constante, a prontidão para reconhecer a oportunidade e a disposição para fazer tudo que for preciso para aproveitá-la da melhor maneira possível. Não existem receitas infalíveis, nem cálculos matemáticos, para mover-se no “universo das oportunidades”: a bússola para nos movermos não é nem cognitiva, nem moral. Este é o “segredo” e a promessa de felicidade na sociedade do consumo.

O trabalho não desaparece na “sociedade de consumo”. No entanto, sua função e seu status se modificam completamente. Ele perde seu “lugar de privilégio” e sua “condição de ser o eixo” estruturador da ordem social e da construção da identidade dos sujeitos. Com isso deixa de ser uma referência ética e passa a ser apreciado pela avaliação estética, ou seja, o trabalho passa a ser julgado pela “sua capacidade de gerar experiências prazerosas” (Bauman, 2000, p. 57). A partir desse critério são avaliadas as profissões e as formas de trabalho: algumas profissões são fascinantes e refinadas, pois são capazes de “brindar experiências estéticas”; outras são enfadonhas e somente asseguram a sobrevivência. Da mesma forma que ocorre na relação com as mercadorias, a possibilidade de escolha é o critério que demarca quando uma profissão ou trabalho são fascinantes ou enfadonhos. Aos que não são afortunados, com a estética do consumo e nem com a satisfação do trabalho, sobra as “amarguras” deste.

O trabalho pautado pela “estética do consumo” deixa de ser um dever moral e se transforma em um poderoso fator de estratificação social.

Para os afortunados das “profissões fascinantes” não existe mais uma linha divisória entre “trabalho e hobby”, entre as “tarefas produtivas e as atividades de recreação”, pois o próprio trabalho é elevado a “categoria de entretenimento supremo e mais satisfatório que qualquer outra atividade”. Os afortunados se jogam no trabalho 24 horas por dias, os 7 dias da semana, com a “doce e suave sensação” de escolheram viver a vida dessa forma, intensamente. Não se sentem escravos do trabalho; ao contrário, se sentem que fazem parte de uma elite de afortunados e exitosos consumidores. Como diz Bauman (2000, p. 58): “um trabalho como entretenimento é o privilégio mais invejado. E os afortunados que o tem se lançam de cabeça às oportunidades de sensações fortes e experiências emocionantes oferecidas por esses trabalhos”.

E o que significa ser pobre numa sociedade de consumo? Como fica a condição de felicidade na estética do consumo?

Na leitura de Bauman (2000, p. 64), a pobreza não se resume a falta de comodidade e ao sofrimento físico; ela é acima de tudo uma condição social e psicológica, ser pobre nessa condição significa estar excluído do que se considera uma vida normal, o que gera sentimento de vergonha ou culpa. A pobreza implica um fechar de portas de uma vida feliz por não usufruir das oportunidades que a vida oferece.

Na estética do consumo, como ressalta Bauman (2000, p. 64), uma vida feliz é aquela em que todas as oportunidades se aproveitam. Nessa definição, os pobres não têm uma vida normal e, portanto, não podem ter uma existência feliz, pois são consumidores defeituosos ou frustrados, consumidores imperfeitos, deficientes e incapazes de adaptar-se ao nosso mundo. Essa incapacidade e deficiência causam uma profunda degradação social e um exílio interno, que se converte em ressentimento provocado pela exclusão do banquete social no paraíso da estética do consumo. Se a felicidade é fazer parte do afortunado grupo que pode consumir e escolher diante de tanta abundância ofertada pelo mercado, então os pobres dificilmente poderão ter acesso à felicidade.

 Em estudos realizados na Inglaterra nos anos de 1980, com o objetivo de compreender os modo de vida dos trabalhadores, ao analisar sobre os efeitos psicossociais do desemprego, revelaram que os termos “aborrecimento” e “frustração” foram as palavras mais frequentemente utilizadas pelos entrevistados. A vida na estética do consumo se propõe erradicar o aborrecimento, pois promete uma vida de excitação contínua, renovada que se dá na possibilidade de obter algo novo, inédito, desde que se tenha dinheiro para pagar.

Se há quase um século Sigmund Freud anunciava que a felicidade não existe como estado, que somente somos felizes por momentos e que logo nos aborrecemos, a estética do consumo, estrategicamente e engenhosamente criou uma sistemática em que “os desejos surgem mais rapidamente que o tempo que leva para saciá-los, e que os objetos de desejo são substituídos com mais velocidade do que se tarda em acostumar-se e aborrecer-se com eles” (Bauman, 2000, p. 66). Na estética do consumo não há espaços e chances para o aborrecimento, esta é a regra.

No entanto, para entrar nessa sistemática é necessário dinheiro, pois é ele que possibilita alcançar o “estado de felicidade”. Como diz Bauman (2000, p.66) “desejar é grátis; porém, para desejar de forma realista e deste modo sentir o desejo como um estado prazeroso, há que ter recursos. O seguro de saúde não dá remédios contra o aborrecimento”. Ter dinheiro é adquirir o “ingresso” para se fazer presente no lugar onde é possível afastar o fantasma do “aborrecimento”, lugar onde os desejos são permanentemente renovados, realimentados e potencializados.

Na estética do consumo aos pobres é reservada a condição de serem subservientes a um estigma de consumidor defeituoso e por isso sua função é esfregar pisos, cuidar dos jardins dos afortunados e prestar-se aos trabalhos mais básicos com a ilusão de que talvez um dia possam ter dinheiro suficiente para usufruir do paraíso do consumo.

Na estética do consumo “os ricos se transformam em objeto de adoração universal” (Bauman, 2000, p. 68). Se na ética do trabalho os ricos se colocavam como modelos de heróis, “homens que haviam triunfado por seu próprio esforço”, agora a riqueza se torna objeto de veneração, pois é ela que possibilita o estilo de vida extravagante oferecido pelo paraíso do consumo. Os ricos são idolatrados, pois possuem uma extraordinária capacidade de escolha da forma de vida e mudá-la se for necessário.

Na avaliação de Bauman (2000, p. 68), o crescimento econômico no cenário da estética do consumo, significa substituição de postos de trabalho por “mão de obra flexível”, a substituição da segurança laboral pelos “contratos renováveis”, empregos temporários e contratações ocasionais. O próprio Bauman (2000, p. 68-69) denuncia essa dura e agressiva realidade quando constata que a Grã Bretanha posterior à era Thatcher, aclamada como o êxito econômico mais assombroso do mundo ocidental, se tornou também o país que ostenta a pobreza mais agressiva entre as nações ricas do planeta. Nesse cenário “quanto mais pobres são os pobres, mais altos e caprichosos são os modelos colocados frente aos seus olhos: há que adorá-los, invejá-los aspirar a imitá-los”.

Uma das possibilidades de saída alternativa para aqueles pobres que almejam sonhar ou ter parte das “migalhas” da estética do consumo é hipotecar sua própria vida através da “vida a crédito”. Neste cenário, não somente a felicidade está à mercê do consumismo, o amor, bem como, os relacionamentos, estão sendo cada vez mais voláteis e fugazes, são tão líquidos que são difíceis de durar.

Para os que tiverem interesse em aprofundar esse debate do consumismo, além das referências do Sociólogo Zigmunt Bauman, indico o capítulo “A Fragilidade dos laços humanos e a felicidade efêmera na sociedade de consumo: implicações formativas” (Fávero; Rosa, 2019).

Referências:

BAUMAN, Zygmunt. Trabajo, consumismo y nuevos pobres. Barcelona: Gedisa, 2000.

FÁVERO, Altair Alberto; ROSA, Francieli Nunes da. A Fragilidade dos laços humanos e a felicidade efêmera na sociedade de consumo: implicações formativas. In: FÁVERO, Altair Alberto: TONIETO, Carina; CONSALÉR, Evandro (orgs.). Leituras sobre Zygmunt Bauman e a Educação. Curitiba: CRV, 2019, p.139-152.

Dr. Altair Alberto Fávero Email: altairfavero@gmail.com Professor do Mestrado e Doutorado em Educação da UPF. Também escreveu e publicou “O sentimento moral como virtude”; https://www.neipies.com/o-sentimento-moral-como-virtude/,

Edição: A. R.

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