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A morte do Joaquim das letras vivas

Quando é mesmo que vamos ler mais os vivos que os mortos?

Ele caminhava a passos lentos porque sempre tinha em mãos um bocado de livros. E falava baixinho, reclamava, sussurrava, como que para ele mesmo; bem! se ninguém o ouvia mesmo… e continuava, de porta em porta, em escolas e afins.

Carregava consigo livros, debaixo do braço e ia socando em todas elas.

_É preciso bater em muitas portas, porque elas se fecham automaticamente, resmungava.  Imagina que se, para estes meninos lerem, bate-se forte nestas entradas, mesmo que comprem alguns livros, o que pensar se não os comprassem?

Joaquim era de outros tempos, naqueles em que as caligrafias eram parecidas.

_Letras de taxistas, alguns brincavam.  Muito bem escritas, todas as palavras cursivas, apreciava-se ler. E era do tempo em que liam mesmo, todos.  Guimarães Rosa, Machado de Assis, Jorge Amado e tantos que os esquecia de falar.

_Ninguém se interessa por ler mais nada, brigava.  Até a Bíblia evitam.  E lendo-a, não entendem.  É uma geração de 300 palavras, quando muito, 500.  Não sabem o que falam, tudo se torna pobre e vulgar sob este céu de anil.

Pensava que depois dos 60, somente uma rabugice criativa poderia mantê-lo na ativa: falar o que se pensa, escrever o que inspira, andar com quem se quer e namorar; a quem surgir a sua frente.  Os anos aumentam e o funil das oportunidades se estreita. É o caminho apertado das partidas.

Aposentou-se Joaquim no mundo das vendas, e, sabe-se lá o que vendia.  Mas atravessou os anos apreensivo pois foi-lhe tirada a missão de ensinar.  Um sonho antigo e que o desanimou, quando, em sala de aula, uma professora amargurada, triste e acabrunhada, desceu críticas a sua letra.  E outra, que o reprovou porque faltava aulas demais, metido que estava na política.  E perdeu a disciplina.  No seu tempo não havia cadeiras em se aprovar e as ‘matérias’ eram mais simples.

E saindo das portas feias e malcuidadas da previdência, feliz com sua contribuição encerrada, falou: _ vou escrever.  O mundo vai me conhecer.  Vou começar pelas crianças, quem sabe as distraio e as tiro da letargia e da omissão de seus pais, igualmente estranhos aos livros.

Joaquim era um homem inconformado com a vida, insatisfeito desde o berço e escandalizado com as injustiças.  Muitas e muitas vezes prendera-se em seu pensamento, na ideia de mudar de país, fugir, acantonar-se em uma esquina do mundo e viver de contar histórias e estórias para os que ali passassem.

Um homem de rosto escanhoado, de raros sorrisos, sempre com roupas simples, pois simples era sua relação com o mundo. Sandálias, uma calça larga, um par de óculos embaçado e, volta e meia, uma gravata desmaiada.

Entretanto, complexa era sua intimidade com as letras, livros, ensaios, crônicas, artigos e tudo o que era escrito. Porque sua respiração dependia do que lia. Jornais, nos tempos em que os lia, todos os dias.  Agora, jamais.

E como via o mundo?  Uma soma de todas as ignorâncias, feito de pessoas vulgares, iletradas e incultas, semi-educadas, caminhando somente sobre as calçadas de seus desejos.  Exagerado este Joaquim!

Então, escrito e impresso seu primeiro livro, saiu à cata de leitores.  Uma história simples de amor, compaixão e amizade. Como tem de ser o amor.

Conheça: www.neipies.com/arvores-nao-conversam-sinos-nao-falam-no-jardins-das-rejeicoes-tudo-e-possivel/

_Vai vender muito, falava baixo, quando sozinho pelas ruas de sua cidade. E ainda mais baixo, em salas de espera, recepções e audiências por reuniões que nunca resultaram em nada. Encontros e promessas de interesses vazios.

_Pois não, senhor? perguntou a secretária da diretora.  O que o senhor nos trouxe?

_ Trouxe uma pequena história, linda, onde fala do valor da amizade, das diferenças a serem superadas, por crianças e jovens, pela vitória do diálogo e do respeito e do amor possível, nas salas e pátios de escolas.

– Muito bonito disse ela.  Parece bom.  Alguém certamente vai gostar e comprar, o que não é meu caso.

_Mas as crianças adoram a história!  Insistia.

_As crianças adoram muitas coisas, mas como não sabem escolher, escolhemos por elas. É um perigo que cheguem a elas, contos e lendas que as desviam da verdade…e as tornam apáticas.

_Meu Deus, exclamou.  Fique com a posse da verdade porque eu vou ao outro lado da rua, ver a que outras mentiras hei de ouvir.

_Boa tarde senhor.  O que você quer realmente?

_Olha, como é uma escola religiosa, pensei que vocês poderiam comprar umas unidades deste livro; é amor e amizade em meio a natureza.  Fala de crianças, e até as árvores falam por elas. Há harmonia e a vida é leve e equilibrada.

_Muito bonita a sua capa.  Parece muito bom.  Olha, vai vender sim.  Alguém vai se interessar, o que não é o nosso caso.

Saiu o Joaquim com a sua caixa debaixo do braço.  Atravessou a rua e retornou à secretária da diretora.

_ Senhora.  Vamos fazer o seguinte? Eu dou os livros de graça, tome-os!  O importante é que seus alunos os leiam.  A caixa está pesada, não vou conseguir andar muito com ela.

_Aos alunos, a esperança de um anil melhor, murmurava.

E assim ficaram seus livros em um canto da sala, aguardando por mais poeira sobre seus ombros, como os demais ali estavam, imagina-se lá por quanto tempo.  Um pequeno cemitério em sua sala, dissolvendo em vida muitas palavras a contemplar.

Na semana seguinte, retorna o seu Joaquim.  Com ar de professor, andava com a coluna firme e os ombros rijos, imitando uma autoestima ausente.  A segurança que se vê, em almas desnudas e ocultas. Caminhava pela calçada, em suas pernas de ferro e barro. Qualquer tropeço, todavia, esborralhava.

_Bom dia Secretária, posso falar com a diretora?  É da educação né?  Sabe o que é; tive uma ideia. E eis que ela aparece sem querer.

_Pois não?

_Sra. Escrevi um livro em que as crianças adoram.

_Há, já vi seu livro, lindo.  Vai vender muito, mas tem que ter bastante apetite.  Alguém vai gostar muito, vai comprar, o que não é nosso caso.

Desceu o bom Joaquim escada abaixo e assim que chegou à calçada, sentou-se à moda dos índios e devorou o seu livro; página por página.  Começou pelos agradecimentos…e subiu, comeu o prefácio e assim que rasgava as páginas enchia sua boca. A contracapa foi a última a ser devorada. E voltou.

_ Sra diretora.

Foi direto.

_Veja só. Desci a escadaria junto à rua e comi todas as páginas.  A sua ideia foi excelente. Você acredita que é muito saboroso?  Mas comece pela conclusão e vai voltando aos poucos.  Pense em uma alface saborosa! Quer provar?

Não obrigado.  Já almocei.  O seu livro tem sabor, com certeza vai vender.  Alguém vai gostar, o que não é meu caso.

Joaquim desceu novamente e foi até o seu velho carro, de joelhos.  Pegou mais livros e veio trazendo-os à cabeça, equilibrando 100 deles.  E nenhum caiu. Mas ele sim, e bateu seu nariz em um poste. E sangrou.

Subiu de joelhos 54 degraus e entrou na sala da diretoria, onde se decide o futuro da educação.

-Sra. Diretora, veja!  Os livros têm leveza e harmonia.  Não caem, nem desalinham.  Quer tentar?  Quem sabe você compra apenas alguns e eu mesmo os levo, de joelhos, a todas as escolas.  Tudo vale a pena se a alma não desdenha, ouvi de alguém, algo assim.

Ele de joelhos, sangrando sobre os livros, era a paisagem de um amor incondicional pelo saber. E do desprezo, igualmente, em sua proporção direta.

_Obrigado Sr.  Já percebi que os livros têm magnetismo e parecem que se abraçam, uns aos outros.  Alguém vai comprar muito e vai se interessar, o que não é meu caso.

Então Joaquim saiu e caminhou até a praça próxima. 

 _Quem os lerá? O ferro velho? E então se avizinha o perigo; em se tratando de conselhos e precipícios, sempre tem alguém que acha que o fundo não é o bastante.

Ouvindo atentamente a sua história, logo veio a proposta desonrosa, de quem passou a madrugada com a testa de fora. Um mendigo invisível, errante pela praça principal, cheio de ideias escondidas.

_Por que você não os queima todos?

-Olha, respondeu o infeliz escritor, que ideia!

_Sim, você foi a escolas, livrarias, empresas, e agora, justo na Educação…queime todos. Não há mais leitores. Sequer os professores os lerão, falou o metafísico ambulante das pingas e das valetas.

Correu Joaquim no seu velho carro e apanhou todas as caixas.  Empilhando uma a uma, fez como que uma torre de livros, a Babel da degradação linguística, sob uma linda árvore. Galhada, de um verde intenso e folhas pontiagudas. Depois, soube-se que estava em extinção, rejeitada a coitada.  Antes de ir, assistiu sob seus pés a tragédia de um leitor, agora escritor, carcomido pela desilusão de suas páginas não lidas e desprezadas.

E chamou mais mendigos, pedintes, gente desgraçada pelas praças da cidade, todos, em um ajuntamento da miséria humana e sua cultura; o público certo junto à neblina que não nunca parou de baixar na mente coletiva: a indiferença.

E riscou o fósforo!

E as chamas subiram. Ao conselheiro das sarjetas tentou falar, mas nada se ouvia. A mendicância ria, feliz com seu epílogo.  Mas a árvore não aceitava o desacato.  De suas folhas começaram a escorrer uma seiva branca tentando apagar o fogo. Em vão.  As letras de seus livros começaram a pular e corriam desesperadas pela grama e sumiam. Muitas morreram e algumas frases, perderam-se para sempre.

As palavras, começando pelas maiores, desesperadas, saltavam pelo meio fio, em busca de água. Tropeçavam entre si em um emaranhado de termos incompreensíveis e sem sentido, clamando por ajuda, como velhos livros abandonados por seus leitores, lamentando por noites a fio em bibliotecas esquecidas.

E o inesperado aconteceu; Joaquim vendo seus livros ficarem sem letras atirou-se ao fogo como que querendo juntá-las todas.  E foi indo aos poucos, aos olhos dos seus futuros leitores; os invisíveis deste mundo. Derreteu a vida de quem sonhava ensinar. Nem queria muito, ele. Quis ele salvar suas palavras, mas perdeu-se em vida. Morreu abraçado aos livros, agora sem impressão alguma. O vazio e o nada.

O tempo passou e a árvore também não quis viver.  Nada nasceu no seu espaço. Sua história, soube-se depois, também fora contada em livro por Joaquim.  Mas ninguém soubera.  Claro, ninguém a lia…

Como é comum entre as pessoas, sentirem prazer na ignomínia alheia, falava-se do louco Joaquim, onde seus livros o tragaram para a morte.

Passados alguns anos, soube-se também, a diretora enforcou-se na sua biblioteca.  Subiu sobre uma pilha de contos infantis e chutou os últimos. Sua assistente enlouqueceu, parece, porque em uma tarde, no banco da mesma praça, distraída, via uma multidão de letras soltas, correndo aos seus pés, por entre as gramas, como querendo juntar-se umas às outras. Ficaram conhecidas como as letras viúvas do seu Joaquim. Caminha em um sanatório, recitando em voz alta o livro rejeitado.

O ele vendeu horrores! E o mendigo metafísico das madrugadas mal dormidas, tornou-se um grande livreiro. Pensava muitas vezes em começar a escrever.

O céu é de anil, por aqui, mas no ar sente-se o odor da ignorância.

Morrendo o bom Joaquim, salvou seus livros. E cumpriu-se as escrituras; “assim como o homem imagina em sua alma, assim ele é”.

É que ele sempre falava:  _morro pelos livros!

Todo o cuidado com o que se pensa, portanto.

Quando é mesmo que vamos ler mais os vivos que os mortos?

Referências:

1.Parte do diálogo de Joaquim com a Secretária, foi inspirado no diálogo de uma filha com sua mãe, no livro de Judith Viorst, Perdas Necessárias.

2. O versículo citado é Provérios, 23:7

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também publicou no site a crônica “Há cinquenta países que leem mais do que nós: o que nos atrasa?”: https://www.neipies.com/ha-cinquenta-paises-que-leem-mais-do-que-nos-o-que-nos-atrasa/

Edição: A. R.

“Empresas de comunicação não sabem se comunicar com público mais jovem”

Em média, os usuários no Brasil passam 29,2 horas por mês no TikTok.

Segundo dados recentes da DataReportal, o Brasil conta atualmente com a marca de 82,2 milhões de usuários com 18 anos ou mais na plataforma TikTok. Este número pode ser ainda maior, considerando que a maioria desses usuários está em faixas etárias mais jovens e mentem a idade ao criar conta na rede social.

Diante desse cenário, surge o questionamento sobre como o jornalismo, em especial os grandes veículos impressos do país, como a Folha de São Paulo, Estadão e O Globo, estão lidando com essa plataforma, que, vale ressaltar, foi lançada em 2014.

Inicialmente reconhecido como uma plataforma voltada principalmente para conteúdo musical, o TikTok evoluiu ao longo do tempo, incorporando mecanismos e algoritmos próprios que ampliam o alcance dos conteúdos compartilhados. Hoje, podemos encontrar uma diversidade de conteúdo de todos os tipos, e o TikTok tem se transformado em uma ferramenta de pesquisa quase tão utilizada quanto o Google, pois os resultados não dependem de leitura em texto da web e sim aparecem em segundos nos vídeos hiper editados e atrativos visualmente. A explicação sai na hora em poucos segundos.

No entanto, onde exatamente estão os jornais de maior circulação nacional nessa plataforma? Surpreendentemente, eles parecem estar sendo superados por perfis anônimos que se dedicam a fofocas, de forma informal e descentralizada. Por exemplo, perfis como “Choquei” contam com quase 3 milhões de seguidores e registram milhares de visualizações em cada vídeo diariamente, enquanto os três jornais mencionados anteriormente, juntos, não conseguem alcançar essa marca.

 Juntos, os principais “@s” do gênero somam mais de 150 milhões de seguidores. FONTE: METRÓPOLES.

É importante ressaltar que as diferenças entre um perfil focado em fofocas e os jornais que produzem jornalismo sério e consciente são gritantes. No entanto, a reflexão que se impõe é: por que empresas constituídas por profissionais qualificados em comunicação não conseguem atingir o grande público?

Onde está o erro na adaptação das linguagens para cada rede social? Parece existir uma certa falta de compromisso por parte do jornalismo como instituição social em buscar um público mais amplo, visível e nesta faixa etária, especialmente diante da crescente onda de disseminação de fake news nos últimos anos.

A ineficácia na comunicação é evidente, e não parece haver interesse por parte dos usuários do TikTok em acessar conteúdos jornalísticos, visto que muitas vezes são simples réplicas de outras plataformas. Talvez, uma das razões para esse fracasso seja o enxugamento das redações e a alta demanda de desempenho exigida dos profissionais remanescentes, aliada à sobrecarga de tarefas que antes eram mais bem distribuídas. Outro fator pode ser a falta de investimento na capacitação dos profissionais existentes para se adaptarem a essa nova realidade, ou até mesmo o desinteresse desses grupos em alcançar esses usuários.

A preocupação que persiste é: se essa população jovem usuária do TikTok não for orientada a consumir produtos jornalísticos de qualidade, ou se esses produtos não conseguirem alcançá-los, como poderemos combater o problema das fake news e incentivar a busca por informações precisas? São questões para as quais o jornalismo brasileiro ainda parece não ter respostas concretas.

Autor: Anthony Buqui – Jornalista, ativista, produtor cultural, videomaker, fotografo e captador de recursos. Também publicou crônica Ministério da Cultura se destaca no primeiro ano de governo de Lula 3: https://www.neipies.com/ministerio-da-cultura-se-destaca-no-primeiro-ano-de-governo-de-lula-3/

Edição: A. R.

Borrachas no passado, para tocar em frente, nunca mais!

Aprender e dizer todo dia, de novo, cada vez com mais força, “nunca mais”, é fundamental para que a caminhada da humanidade seja de humanização, sempre alerta e fazendo a denúncia de todas as formas de sua destruição, por menores que sejam, sabendo que “não queremos mal a quase ninguém” e que há o que simplesmente “não queremos mais”.

É preciso “passar a borracha no passado” e anistiar em nome da “pacificação”. Nada de ficar “remoendo”, é preciso “tocar pra frente”. Falas de dois personagens, que ainda que sejam antagonistas na política nos últimos anos, neste tema, que não é de menor importância, parecem convergir e concordar. Chocante que Lula tenha dito o que disse, ainda que seja esperado de Bolsonaro o que falou. Mesmo assim, igualmente inaceitável. 

Não haverá paz, nem nos cemitérios, enquanto não houver justiça. Os crimes contra a humanidade, contra a democracia, as violações dos direitos humanos, precisam fazer “viver sobressaltado”, sem o que, tudo o que se propuser como saneador e restaurativo, pode não ser efetivo. 

sofrimento das vítimas não ficou no passado. Ele continua e pode significar revitimização e até produzir novas vítimas – seja por desqualificar aquelas do passado e as que poderão vir das repetições dele – se não for adequadamente enfrentado. A cura não passa pelo esquecimento da dor, mas sim por sua integração como parte das aprendizagens a levar para a vida, não somente como uma experiência pessoal, mas também como uma experiência coletiva. Aprender é parte do não “empobrecer” a experiência. 

História não é sinônimo de um passado congelado, ao qual se poderia retornar ou que nada tem a informar o presente e nem mesmo para orientar o futuro… até porque, em muitos aspectos, espera-se que o futuro “seja ancestral” (não arcaico e no sentido do tradicionalismo), e, em outros, que não repita o passado. Há passados ultrapassados, mas nem todos! E até estes hão de ser escrutinados. Fazer história é fazer memória, com verdade e justiça, com força crítica e criadora. Sem que estejam combinadas, podem abrigar e sugerir reproduzir “monstros”, aqueles típicos de fatalismos ou reacionarismos.

“Tocar pra frente” sem ficar remoendo o passado? Seria até possível se o tempo e a história pudessem ser entendidos como uma linha reta – uma seta irreversível – que progride sempre e só para o melhor, contendo a “decadência”… Nada mais falso… a história e o tempo se fazem combinando os mais diversos movimentos e sentidos, diversas temporalidades, em fluxos turbulentos e politemporais. Abrigar-se numa ideia assim de progresso é legitimar os “escombros”, ainda que se olhe para eles “angelicalmente” assustados. [Walter] Benjamin já sugeria que, em lugar de acelerar, talvez seja tempo de frear a “locomotiva”, não só por razões ambientais e climáticas, mas também por elas.

Aprender e dizer todo dia, de novo, cada vez com mais força, “nunca mais”, é fundamental para que a caminhada da humanidade seja de humanização, sempre alerta e fazendo a denúncia de todas as formas de sua destruição, por menores que sejam, sabendo que “não queremos mal a quase ninguém” e que há o que simplesmente “não queremos mais”.

A transição – travessia, que tem muitas margens, nem sempre totalmente seguras – para uma realidade reconciliada – desejável, ainda que difícil – cobra que se identifiquem as “maldades”, que aqueles que as tiverem praticado as reconheçam e estejam dispostos a se emendarem, que aqueles/as que as sofreram acreditem que seus perpetradores foram responsabilizados com justiça e com verdade, de modo que canais e caminhos sejam abertos para novas realidades. 

Não se trata de anistiar e nem mesmo de “passar borracha”. Também não se trata de pedir às vítimas que se calem ou que parem de “remoer”, pois, se o fizerem, “as pedras falarão”.

A justiça se pode exercer das mais diversas formas: retributiva, distributiva, transitiva, reparadora… e não se trata de escolher uma, mas de combinar aquelas que melhor forem capazes de “fazer justiça” às vítimas. Justiça que serve à opressão, de qualquer tipo, não é justiça…

FONTE: https://www.brasildefato.com.br/2024/04/01/borrachas-no-passado-para-tocar-em-frente-nunca-mais

Autor: Paulo César Carbonari, doutor em filosofia (Unisinos), membro da coordenação nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH Brasil). Contato: carbonari.paulo@gmail.com Também publicou no site crônica “O pensamento tornou-se cego”: https://www.neipies.com/o-pensamento-tornou-se-cego/

Edição: A. R.

O C a s c ã o   d e   A l h o

Morre, aos 95 anos, o homem mais sujo do mundo. Acreditava que a limpeza era a causa fundamental das doenças. Por isso, não tomou banho durante 75 anos.

A notícia acima pode não ser verdadeira, mas serve de pretexto para contar outra história similar e verídica, tanto que a vi com meus próprios quatro olhos. Conto tudo o que vi e ouvi dos vizinhos, que preferem o silêncio. O que não ouvi, inventei para ajudar a Literatura. Assim, movido pelo impulso de não me calar diante de criaturas tão singulares, encorajo-me a contar quase tudo o que cheirei, vi, ouvi e imaginei. Assim contribuo com Shakespeare para revelar que há mais coisas entre o céu e a terra do eu sonha nossa limitada filosofia.  

Tudo começou com a terrível guerra da fragmentação da grande Iugoslávia em seis pequenos países: Bósnia, Croácia, Macedônia, Eslovênia, Sérvia e Montenegro. Na ocasião, o Presidente russo Mikhail Gorbachev (1985- 1991) instituiu a famosa Perestroika, que significava reestruturação econômica.  

Além da ideia, ele tinha um mapa (mancha) na parte frontal da cabeça calva. Assim, como quase tudo tem um fim, a União Soviética começou a se desmanchar pelas beiradas. Foi daí que alguns voos chegaram à mãe gentil, que abriu as portas para acolher milhares de famílias de boa qualidade técnica.

Elásticus Nu Alius, que era um membro do exército sérvio, veio ao Brasil para se livrar das bombas lançadas pelos aviões da OTAN. Poderia morrer, pois era um espião a serviço do poderoso exército soviético.  Vendeu tudo o que tinha e pousou discretamente onde conterrâneos já tinham abertas algumas fronteiras profissionais.

Mais tarde, rumando mais ao Sul do Brasil, foi acolhido em uma grande empresa de eletrificação rural, onde ainda presta serviço de manutenção. E assim, como terceirizado, acredite quem quiser, aqui cravou o pé até quando der. Como uma discreta coruja, só trabalha à noite, nos finais de semana e nos feriados, preferindo andar pelas veredas escuras, enquanto a maioria da população dorme.  

Vindo de uma região muito fria, sempre gostou da Wodka feita com ameixas. Quando ébrio, na presença de certas pessoas, abre o lero, para defender fervorosamente a tese de que os humanos provêm da terra e da água. Depois de um certo tempo, a elas retornarão devagarinho, quer queiram ou não. Mas sempre carregadas de impurezas grandes ou pequenas.

Crê que a sujeira e a limpeza são muito relativas e que as causas de muitas doenças residem no fato do excesso de limpeza. Se viemos do lodo, lodo devemos carregar, não nos sujeitando aos enganosos produtos químicos que contaminam corpos, rios e mares. Sabão, sabonete, xampu, cremes, perfumes contêm elementos prejudiciais à saúde. Por isso as alergias e as endemias.       

Assim, há mais de duas décadas, prefere banhos de chuva, fontes naturais e cachoeiras, quer seja verão ou inverno para tornar o corpo resistente. Gosta dos extremos, tanto que no verão usa casacos grossos; no inverno, bermudas, camisetas para desafiar o corpo, tornando-se resistente a quaisquer oscilações climáticas.

– É, pois é! Suspiram alguns admiradores de Elásticus Nu Alius.

Somado à coerência de seus princípios e atitudes, usa um emplastro que o protege de todos os males do corpo e da alma. Alho in natura e em cápsulas. In natura, tipo dentes de alho nos bolsos, bolsinhos e no porta-luvas. Em cápsulas, nas viagens, fugindo do controle sanitário. Confessa que jamais ficou doente e que nunca se vacinou contra Covid, Dengue, Malária, Chikungunya e outras males.

Dependendo das pessoas com que se depara e prega seus princípios, recebe severas críticas, com exceção de poucos e raros simpatizantes que perderam o faro por força da Covid. Sempre que pode, indica a leitura do livro As Academias dos Sábios de Sião, que trata sobre a Teoria da Conspiração. Nega que é um livro Fake. Mas que existe, existe. Sugere consultar o Dr. Google para obter algumas informações adicionais.    

Gaba-se por estar livre dos mosquitos, abelhas, carrapatos, pulgas, moscas, vermes, vírus e bactérias. Não higieniza a casa, não lava o carro e não usa quaisquer produtos de higiene e limpeza. Para não viciar o corpo com vários tipos de alimento, consome apenas um por semana, tipo só melancia, só peixe cru, só sopão de verduras. E assim vai.  Aos sem-leitura, recomenda Os Miseráveis, Macunaíma, O Tatu, Dom Quixote, Urupês e Memórias Póstumas de Brás Cubas. Adora o antigo personagem Cascão, da Turma da Mônica. No entanto, não fala do seu cheiro.

Elásticus Nu Alius já programou como e onde dará fim a sua vida regular para entrar conscientemente noutra sem sair do planeta Terra. Poupa-se de uma longa viagem ao céu ou ao inferno. Não será incinerado, nem enterrado na terra e nem jogado nas águas. Quando sentir que deverá decidir onde ficará seu cascão de alho, irá até os confins da Sibéria. Lá cavará sua sepultura no gelo, bebendo Vodka até atingir um profundo e longo sono. Não haverá choro, dores e nem ranger de dentes. Os vermes não o consumirão, podendo, no futuro, ser encontrado por cientistas e, quem sabe, recomeçar uma vida nova.

Então será o herói de um novo tempo, pois no antigo foi incompreendido. Será um Deus, pois terá superado a morte, um problema insolúvel até então. Usará a Inteligência Artificial para criar um emplastro à base de alho para livrar a humanidade do problema da melancolia. Se Brás Cubas não chegou a finalizar o plano, Elásticus Nu Alius terá resolvido dois grandes problemas dos terráqueos: a morte e a tristeza. Por onde passará, será louvado.

– Elásticus: Nosso Rei Nu Alius!

Autor: Eládio V. Weschenfelder. Também publicou no site a crônica “Por que (não) contar histórias: https://www.neipies.com/por-que-nao-contar-historias/

Edição: A. R.

As formigas

Penso felicidade, mesmo tentando mantê-la em área restrita. Brota em frestas. Às vezes coincide com o reaparecimento das formigas, às vezes não. A literatura, a ciência e a religião têm coisas mais importantes por fazer.

Há formigas invadindo a casa. Escarafuncham o encanamento elétrico, trilham azulejos, habitam um vaso, varrem a cozinha. Inócuos todos os conselhos: pó de café, pimenta, cravo e canela, alho, folhas de cinamomo. Pinga um pingo na pia e uma perninha assoma entre azulejos. Quase microscópicas, da cor das coisas, nem sempre posso vê-las. Se cochilo no sofá, percebo um estranho carinho. São formigas em revezamento quatro por quatro correndo entre a orelha e a nuca.

Ontem, decidi pela coabitação harmônica. Deixei uma mescla de migalhas e açúcar na área de serviço. Elas entenderam a mensagem. Hospedaram-se num velho xaxim ao lado da lavadora de roupas. Formigas são especialistas em diplomacia.

Não fale de felicidade nos círculos literários. Demonstre bom gosto. Finais felizes afastam a crítica. Um romance premiável precisa ter homens e mulheres dilacerados, sofrendo horrores, correndo atrás do amor ou de um sonho que nunca chega. Finais felizes são contos de fada ou, no máximo, literatura infantil.

As ciências humanas não estudam felicidade. Salvo em alguma tendência marginal da psiquiatria ou da psicologia, a felicidade não doutora. Procuram-se leis naturais, causas e efeitos, verdades, fenômenos previsíveis e estatisticamente demonstráveis.

A religião tampouco deseja pessoas felizes. O homem precisa de salvação. Felicidade, no máximo, para depois da morte, se não abusar dos prazeres mundanos.

Por essas e outras, eu e a felicidade vivemos um amor conturbado. Oscilo entre o ridículo e essas formiguinhas. Quando menos espero, brotam desesperadas num vão qualquer, galopam pela face. Despudoradas me desmentem entre os amigos das letras, colegas da universidade ou meus leitores crentes. Vexame certo.

Tranquilizei-me porque alguns pensadores sérios, para além de livretos de auto-ajuda, andam escrevendo sobre. E todos defendem a mesma tese estarrecedora: o consumo é inversamente proporcional à felicidade. Comprove lendo “Felicidade” de Eduardo Giannetti, “A Filosofia e a Felicidade” do filósofo francês Philippe van den Bosch e “Choosing Simplicity”(Escolhendo a simplicidade) de Linda Breen Pierce.

Em outras palavras, a economia capitalista poderá entrar em colapso com a felicidade em massa.

Se pessoas felizes não consomem, se o consumo é o azeite da máquina econômica, infelicidade e insatisfação são justas salvaguardas da humanidade. Sendo claro: ninguém está interessado na felicidade. Desestabilizadora, nociva, corrosiva. Sem consumo cai a produção, aumenta o desemprego, estagna a ciência… Um caos.

Assista também documentário “A história das coisas”: https://youtu.be/7qFiGMSnNjw?t=3

As formigas, como a felicidade, são teimosas e invasivas.  Sempre insatisfeitos, procuramos doçura em migalhas.

Penso felicidade, mesmo tentando mantê-la em área restrita. Brota em frestas. Às vezes coincide com o reaparecimento das formigas, às vezes não. A literatura, a ciência e a religião têm coisas mais importantes por fazer. A economia põe e depõe governos, inicia e acaba guerras, financia bibliotecas e escritores, ergue os templos e igrejas. O que não se pode fazer é, por causa da felicidade, acabar com tudo o que a humanidade construiu em milhares de anos.

Alguns amigos me dizem “precisas desinfestar a casa o quanto antes”. Acho uma solução terrorista. Por ora.

Autor: Pablo Morenno. Também publicou no site crônica “Receita para amar gente e bichos”: https://www.neipies.com/receita-para-amar-gente-e-bichos/

Edição: A. R.

A construção de uma Pedagogia da autonomia

Pedagogia da Autonomia certamente é um dos livros mais lidos e conhecidos de Paulo Freire (2015), intelectual reconhecido no Brasil e no exterior. É nesse livro que o autor manifesta sua fé no processo educativo e justifica porque a educação requer formação docente permanente para que se assegure uma educação para a autonomia dos estudantes.

Em seu escrito Freire ressalta que ensinar exige um conjunto de requisitos: rigorosidade metódica, pesquisa, respeito aos saberes dos educandos, criticidade, estética e ética, corporeificação das palavras pelo exemplo, aceitação do novo e rejeição de qualquer forma de discriminação, reflexão crítica sobre a prática, reconhecimento e assunção da identidade cultural.

O tensionamento entre autonomia discente e autoridade docente e a possibilidade de uma relação salutar entre ambas no cotidiano escolar, situa-se nas assertivas freireanas de que “não há docência sem discência” e de que “ensinar não é transferir conhecimento, mas criar a possibilidade para a sua produção ou a sua construção” (FREIRE, 2015, p. 24).

De fato, ensinar, do ponto de vista gramatical, é um verbo transitivo que exige complemento, pois quem ensina, ensina alguma coisa (objeto direto) a alguém (objeto indireto); do ponto de vista democrático, toda ação constitui-se numa ação de alguma coisa em vista de alguém; do ponto de vista da radicalidade metafísica, na qual se apresenta a perspectiva freireana, os homens e as mulheres são seres históricos e inacabados.

Assim, diz Freire (2015, p. 25-26), “ensinar inexiste sem aprender e vice-versa e foi aprendendo socialmente que, historicamente, mulheres e homens descobriram que era possível ensinar”, assim como, era necessário “trabalhar maneiras, caminhos, métodos de ensinar” uma vez que “ensinar se diluía na experiência realmente fundante de aprender”. Assim, se faz necessário pensar de forma dialética o ato de ensino e de aprender.

No entanto, a implicação visceral entre ensinar e aprender não é um processo mecânico, instrumental, automático; não se apresenta como uma tecnologia gerencial de causa e efeito. Quando vivenciamos a autenticidade do ensinar-aprender, nas palavras poéticas de Freire (2015, p. 26) “participamos de uma experiência total, diretiva, política, ideológica, gnosiológica, pedagógica, estética e ética, em que a boniteza deve achar-se de mãos dadas com a decência e a seriedade”. É esta boniteza de experiência que produz a “curiosidade epistemológica” (FREIRE, 1995), a capacidade crítica de recusar a “educação bancária” (FREIRE, 2005) e a “pedagogia da indignação” (FREIRE, 2000).

Por isso se faz necessário uma pedagogia da autonomia que, mesmo numa prática “bancária” que possa continuar acontecendo em boa parte do tempo nos espaços escolares, o educando mantenha vivo o gosto da rebeldia, a curiosidade insatisfeita, o desejo de superar os condicionantes, a vontade de constituir-se um sujeito autônomo.

Mas como constituir uma pedagogia da autonomia?

O próprio Freire (2015) apresenta um conjunto de “exigências” sem as quais não é possível constituir uma prática educativa que produza processos de autonomia, as quais diferenciam um “educador bancário” e um “educador problematizador” nesta relação entre ensinar e aprender. A primeira delas é a “rigorosidade metódica” (FREIRE, 2015, p. 28) e não se trata de uma rigorosidade transmissível, “bancária”, formal, memorizadora, mas sim uma rigorosidade criadora, investigadora, inquietante, persistente, pensante, problematizadora. Nesta perspectiva, o educador problematizador não é o intelectual que “repete o lido com precisão” ou que “fala bonito em dialética mas pensa mecanisticamente”, ou ainda de alguém que se acha “cheio de si” e não tem a sensibilidade pedagógica de acolher as dificuldades dos educandos (FREIRE, 2015, p. 29).

O educador problematizador é aquele que ajuda “pensar certo”, tendo dúvidas das próprias certezas, pois deixa transparecer para seus educandos que “uma das bonitezas de nossa maneira de estar no mundo e com o mundo, como seres históricos, é a capacidade de, intervindo no mundo, conhecer o mundo” (FREIRE, 2015, p. 30).

“Pesquisa” e “respeito aos saberes dos educandos” são as outras duas exigências (FREIRE, 2015), sendo que a pesquisa é indicada como uma espécie de alimento intelectual para o professor que almeja se colocar na perspectiva da pedagogia da autonomia. Nas palavras do próprio Freire (2015, p. 31), “pesquiso para constatar, constatando, intervenho, intervindo educo e me educo”. Mais uma vez o movimento dialético que se efetiva no processo em que “pesquiso para conhecer o que não conheço e comunicar ou anunciar a novidade” (FREIRE, 2015, p. 31).

É na dimensão do professor que se coloca como sujeito pesquisador que se dá o deslocamento da “curiosidade ingênua” para a “curiosidade epistemológica” e é nesta dimensão que a pedagogia da autonomia requer “o respeito aos saberes dos educandos” (FREIRE, 2015, p. 33).  Não se trata de acolher acriticamente os saberes socialmente construídos naquilo que chamamos de absorver o “senso comum, mas sim problematizar e discutir com os próprios alunos a razão de existir destes saberes e como muitos deles possui conexões com o ensino de certos conteúdos específicos trabalhados na escola.

Trata-se pedagogicamente de aproveitar as experiências que os alunos construíram em seus próprios contextos e submetê-las a um processo de problematização, confrontação e indagação de suas próprias realidades. Indagar, por exemplo, por que algumas áreas da cidade são descuidadas pelo poder público, enquanto os bairros ricos recebem toda a atenção? Por que certos problemas de saneamento básico não são resolvidos? Que implicações políticas, ideológicas, culturais e científicas se apresentam diante de situações de descaso de certos problemas que envolvem principalmente os bairros mais pobres? Todas estas indagações problematizadas são estratégias poderosas que deslocam o trabalho pedagógico do conteúdo pelo conteúdo para um processo em que este está encarnado na vida, nas condições da existência, no tecido social dos educandos.

O movimento que vai da “curiosidade ingênua” para a “curiosidade epistêmica” não constitui para Freire (2015, p. 33) “uma ruptura, mas uma superação”, ou seja, um movimento que dá pela capacidade crítica de escrutinar as próprias experiências e vivências. No entanto, a capacidade crítica, por sua vez, não ocorre de maneira espontânea ou mecânica, mas exige apropriar-se de referenciais conceituais, compreensões teóricas, processos metodológicos consistentes que possam ultrapassar a experiência imediata.

Para usar uma expressão de Bachelard (1996, p. 17), trata-se de identificar os “obstáculos epistemológicos” que dificultam “a formação do espírito científico”. Neste aspecto é importante ressaltar que não se identifica os obstáculos epistemológicos sem problematizar sobre qual é o lugar que a teoria ocupa na pequisa sobre a formação de professores (FÁVERO; TONIETO, 2016)

“Decência e boniteza de mãos dadas” é a expressão poética de Freire (2015, p. 34) para caracterizar a exigência estética e ética na constituição de uma pedagogia da autonomia. Tal exigência está associada à firme posição da “corporeificação das palavras pelo exemplo”, ou seja, não é possível educar para a autonomia e para a emancipação baseado na fórmula farisaica “faço o que mando e não o que eu faço”, pois “pensar certo é fazer certo”.

Não promove e constrói pedagogia da autonomia o professor que em determinadas situações ensina proposições progressistas e críticas sobre uma determinada realidade, mas em sua vida cotidiana, como integrante da sociedade, posiciona-se em defesa de uma concepção fatalista e fundamentalista.

A coerência do discurso com a prática, torna-se aqui, um elemento fundante e imprescindível para a constituição de uma pedagogia da autonomia. No dizer do próprio Freire (2015, p. 38), “não há pensar certo fora de uma prática testemunhal” e, é nesse sentido, que se pode compreender a noção de que todo ato educativo se torna um ato político, pois se materializa na formação de cidadãos conscientes, críticos e comprometidos com um projeto de sociedade.

Por fim, cabe registrar seguindo a argumentação de Freire (2015, p. 36) que a pedagogia da autonomia exige “risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação”, “reflexividade crítica”, bem como “reconhecimento e a assunção da identidade cultural”.

Toda novidade e mudança implica riscos, incertezas, possibilidades e desconforto, porém, nem toda novidade e mudança significa, necessariamente, melhoria e progresso. Novidade e mudança também podem significar retrocessos, ilusões e interrupções, seja no plano político ou educacional, conforme inúmeros relatos históricos.

A novidade e a mudança se tornam formativas e possibilitam uma pedagogia da autonomia quando são mediadas por uma reflexividade crítica capaz de identificar discriminações, práticas preconceituosas, situações de dominação e dependência. Em outras palavras, são formativas a novidade e a mudança que envolvem a participação democrática dos envolvidos no processo de comunicar e compreender o que está em curso no processo educativo. “A tarefa coerente do educador que pensa certo”, ressalta Freire (2015, p. 42), “é, exercendo como ser humano a irrecusável prática de inteligir, desafiar o educando com quem se comunica e a quem comunicar, produzir sua compreensão do que vem sendo comunicado”, possibilitando dessa forma que a inteligibilidade “se funde na dialogicidade”.

A “dialogicidade”, por sua vez, é entendida por Freire (2015, p. 43) como sendo “uma prática docente crítica, implicante do pensar certo” que não se dá de forma espontânea ou mecânica, mas que “envolve o movimento dinâmico, dialético, entre o fazer o pensar sobre o fazer”. Trata-se, portanto, de uma renúncia do “saber ingênuo” ou da “prática espontânea” frequentemente invocada quando professores apelam para um certo basismo pedagógico que frequentemente povoa o cotidiano escolar.

A “dialogicidade” exige “a rigorosidade metódica que caracteriza a curiosidade epistemológica do sujeito”. É por isso que não se consolidam processos formativos constituidores da pedagogia da autonomia, sem o permanente e incansável processo de “reflexão crítica sobre a prática”.

Referências:

BACHELARD, Gaston. A formação do espírito científico: contribuições para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.

FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina. O lugar da teoria na pesquisa sobre docência na educação superior. In: FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina (orgs.). Epistemologias da docência Universitária. Curitiba: CRV, 2016. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/358740253_Epistemologias_da_docencia_universitaria

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 52 ed. São Paulo: Paz & Terra, 2015.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. São Paulo: Unesp, 2000.

FREIRE, Paulo. À sombra desta mangueira. São Paulo: Olho d’água, 1995.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 42 ed. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 2005.

Autor: Altair Fávero. Professor e Pesquisador do Mestrado e Doutorado do PPGEDU/UPF. Também publicou no site “A educação não pode ser reduzida a treinamento”: https://www.neipies.com/educacao-nao-pode-ser-reduzida-a-treinamento/

Edição: A. R.

Chegou a hora nona de Jesus

Em tempos de resgate da empatia, eis aí, o seu maior exemplo; Jesus! Oferecendo-se pelo outro, por todos, em seus delitos e descasos, praticou o maior ato de empatia jamais visto. Sem importar-se com a opinião alheia, caminhou firme para o seu propósito em salvar, inclusive, o soldado lanceiro agressor.

Falta pouco para a chegada da hora nona, (Mt 27:46) será pelas 15h, nestes dias.

No seu tempo, as trevas caíram sobre a Terra, e Mateus nos fala que duraram três horas (27:45). Era o ano 33. Sabe-se agora, que a ciência, já identificou um eclipse para o dia, no Gólgota. O que importa?

E quem assistia a tudo isso?  Seus seguidores e as Marias de sua vida: sua Mãe Maria e sua irmã, a mãe de Tiago, Maria Madalena, e a outra Maria, mulher de Clopas (Jo 19;25) E só!

Passaram-se exatos 1991 anos, e de paixão em paixão, o número de interessados a cada ano diminui. A cruz ficou vazia, assim como encontra-se vazia parte da humanidade. Pois em Lucas, cap 18, pode se ler a sua premonição: “Contudo, quando vier o Filho do homem, achará porventura fé na terra?”

Caso você não creia, siga a sua vida. Ao seu final, logo à frente, haverá tempo de sobra para refletir e pensar a sós. Vá caminhar pelo shopping, hoje.

Mas, uma vez crendo, pense que Jesus poderia liderar uma turba de Judeus contra o jugo romano. Preferiu a cruz. Afirmou-se, recentemente, nem era do seu tamanho, mas feita no molde para Barrabás. Sobrou cruz, portanto, para o ódio dos seus delatores.

Ainda em Mateus, lemos que foi considerado um “trapaceiro.” (27:63) E à Pilatos, pediram que guardasse muito bem o seu sepulcro. Pois poderia seu corpo ser roubado.

_Salvou os outros, a si mesmo não pode salvar-se, ainda falavam (27:42).

Portanto:

Experimente um milésimo de sua dor.

Foi por todos; os que creem, os que não.

Houve sangue demais, fala-se, incolor.

Uma fenda abriu-se ao lado. Foi em vão?

Em tempos de resgate da empatia, eis aí, o seu maior exemplo; Jesus! Oferecendo-se pelo outro, por todos, em seus delitos e descasos, praticou o maior ato de empatia jamais visto. Sem importar-se com a opinião alheia, caminhou firme para o seu propósito em salvar, inclusive, o soldado lanceiro agressor.

Leia isso todas as vezes que sentir-se desprezado ou ultrajado por suas intenções e ações.  Pois somos julgados todos os dias, por apenas sermos o que somos.

E se você aguarda por qualquer aceitação, lembre-se de sua rejeição, carregando um madeiro que nem era seu. Hoje, o arrastamos como réplicas de sua cruz, em nossa jornada incerta. Não ignore a sua mensagem. Bastou o desprezo em sua própria terra.

Mas o final o conhecemos todos.

Há uma esplêndida vitória à nossa espera. Considere, portanto, uma cruz onde cabem todos os temores. Deixe sobre ela a sua decepção, as afrontas recebidas por estes dias e procure imitar a sua empatia em vida, fazendo pelo outro, exatamente o que Jesus faria.

Feliz sexta-feira da paixão.

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também publicou crônica “Pedrinho pequeno e sua caminhada em busca de fé: uma história fascinante em livro”: https://www.neipies.com/pedrinho-pequeno-e-sua-caminhada-em-busca-de-fe-uma-historia-fascinante-em-livro/

Edição: A. R.

Os ovos da Páscoa e as crianças pobres

Sim, Jesus Cristo dá lucro, sabiam? Os fabricantes de chocolates, os donos de hotéis e pousadas, os restaurantes todos à espera do feriadão para comemorarem a chegada dos turistas com seus filhos a pedirem os maiores ovos de Páscoa que existirem naqueles lugares.

Era a Menina dos Fósforos que pregava os seus olhinhos nas janelas das pessoas e as viam comemorando a noite de Ano-Novo a riscar seus fósforos um por um até ficar sem nenhum. E quantas meninas assim não temos nós espalhadas pelo Brasil afora? Já imaginaram nisso? Já pararam para pensar o quanto dói querer comer algo que não temos?

Ontem saí pelas ruas da minha cidade à procura de ovos da Páscoa para meus sobrinhos e dei de cara com uma situação já conhecida nossa, mas que comoveu meu coração: uma menina de cabelos desalinhados e suja sentada na calçada de uma rua movimentada a chupar seu dedinho, quieta, sem dizer palavra alguma. Já viram esta cena também em algum lugar da cidade de vocês?

Enfim, um dos jornais da minha cidade noticiou que a Páscoa vai movimentar milhões de dinheiro e que o comércio vai crescer cerca de 10 a 20% nesta que é uma das maiores festas do Brasil.

Sim, Jesus Cristo dá lucro, sabiam? Os fabricantes de chocolates, os donos de hotéis e pousadas, os restaurantes todos à espera do feriadão para comemorarem a chegada dos turistas com seus filhos a pedirem os maiores ovos de Páscoa que existirem naqueles lugares.

Somos um país de mídias digitais muito bem fundamentado. Temos grandes agências de propagandas e elas sabem muito bem como manipular o perfil do consumidor brasileiro. As crianças são as mais atingidas quando vêm aqueles ovos belos de todas as cores e tamanhos pendurados nas vitrines das lojas.

Os pais entram em desespero e não sabem nem o que fazer diante da criançada a pedir o ovo de chocolate mais caro da vitrine, o mais bonito, talvez o mais gostoso e o mais atraente aos olhos daqueles pequeninos que ficam alegres ao terem seus pedidos atendidos e puderem levar para casa um ovo da Páscoa maior do que eles.

As crianças pobres que perambulam pelas calçadas, que limpam para-brisas de carros nos semáforos e que vivem de auxílios do governo federal não têm direito a viverem essa alegria acima. Seus pais não podem comprar um ovo da Páscoa que custa em média vinte reais o mais pequenino de todos. O ovo que abre o apetite que a criançada fica feliz talvez custe uns 120,00. Quase a metade do valor de uma mensalidade do Bolsa Família de uma família.

Mas, a menina que anda pelas ruas colou a sua carinha na vitrine da loja e todo mundo que passa ela pede um ovo de chocolate. Talvez fosse melhor ela pedir mais saúde, educação, segurança e afeto. Será que ela conhece essas coisas?

Por que o governo não dá pra ela um ovo de chocolate em plena Semana Santa? Por que os candidatos não enchem um caminhão de ovos da Páscoa e saem pelas cidadezinhas do sertão nordestino comprando votos já que é ano eleitoral? Estão perdendo tempo e eleitores. As crianças ficariam felizes mesmo se não tivesse um prato de feijão com arroz, mas um ovo da Páscoa bem grande para encherem a barriga de chocolate.

Na verdade, qualquer coisa agrada uma criança pobre. Ela não conhece ainda as mazelas tecnológicas do mundo contemporâneo, elas não veem as propagandas porque não têm televisão em casa, faltam-lhes energia elétrica. Então, se alguém se lembrasse delas compraria um ovo da Páscoa e lhes daria de presente nesta Semana Santa onde falamos tanto de pobreza, espiritualidade, amor, ressurreição.

Muitas crianças da cidade grande não sabem o que significa o verdadeiro sentido do Ovo da Páscoa, elas os comem, se sujam todas, brincam, correm, mas na verdade aquilo tudo é uma festa para elas. Ninguém teve o cuidado de lhes contar a história de Nosso Senhor Jesus Cristo e o significado daquele Ovo que diz ressurreição, vida, amor.

E sem a ressurreição, sem podermos todos os dias ressuscitarmos os nossos sonhos, as nossas histórias, as nossas crendices e tradições não seríamos quase ninguém neste mundo. Estamos matando o boneco Judas quando devíamos matar o nosso egoísmo e a nossa falta de amor ao próximo. Deixar uma criança plantada numa vitrine de uma loja desejando imensamente comer um ovo de chocolate em plena Semana Santa talvez seja um grande pecado.

É claro que não somos obrigados a ajudar crianças carentes e em situação de rua, para isso existem os órgãos governamentais que deveriam prestar-lhes um bom serviço e tirá-las das ruas, conforme reza o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Também reza a dignidade da pessoa humana no seu pequeno livro “A dignidade do homem” de Pico della Mirandola.

Dignidade essa que se perde no tempo e no espaço quando uma criança cola seu rosto na vitrine de uma grande loja de grife e fica desejando ganhar um ovo da Páscoa. A certa altura ela já deve ter ouvido falar em Jesus Cristo, mas não sabe nada daquela Semana Santa e muito menos de que o ovo só deve ser comido no Domingo de Páscoa por tradição do Cristianismo.

A menina é retirada da vitrine aos gritos e pontapés pelos seguranças da loja. Ela quer ficar ali, ela precisa estar ali, ela sente que ali é seu lugar. Sabe que ora ou outra alguém vai enxergá-la e vai ter compaixão dos seus olhinhos pidões. Ela não sabe dos seus direitos e deveres, pois era para estar na escola, mas quem vai lembrar isso a uma menina que não sabe de nada? Ou será que sabe e finge não saber? Às vezes nos surpreendemos com as crianças.

A Igreja tem a sua parcela de culpa por não evangelizar as crianças em situação de rua e contar-lhes a história de Jesus Cristo pelas ruas e abrigos. Já que essas crianças vivem longe de seus pais, e muitas nem sabe quem são precisam ouvir que um dia ouve um bom homem que deu a sua vida por nós e disse mais ainda “deixai vir a mim os pequeninos…”. Só se sabe a história de Jesus Cristo criança que vai à Igreja arrumadinha e cheirosinha para receber a comunhão. As crianças em situação de extrema pobreza não fazem ideia do que significa a Semana Santa para a humanidade.

O belo ovo da Páscoa está lá na vitrine da loja pendurado e a menina apesar de ter sido retirada à força dali, voltou. Ela quer um ovo. Ela quer comer chocolate. Eu penso que ela devia pedir por comida e roupa lavada. Um lugar para morar e um pouco de afeto, mas na sua pequena idade isso não importa. Apenas lhe ensinaram ou ela viu em algum lugar que um ovo daqueles na vitrine da loja é muito gostoso.

A menina cada vez que vê as crianças saírem da loja sorridentes e felizes com seus ovos da Páscoa fica mais nervosa e ansiosa. Uma senhora com a sua bolsa descuidada que caminha pela calçada da loja, nem percebe a rapidez com que a menina se aproxima e toma a sua bolsa. Ela corre para longe. Ninguém consegue alcançá-la. Mais tarde senta-se no batente de uma igreja e conta o dinheiro que tem dentro da bolsa roubada. Quase nada. Só dá para comprar um pão. Melhor do que dormir com fome, pensa a garotinha.

Passou na televisão, no rádio, no jornal impresso que em todas as lojas venderiam ovos da Páscoa em promoção naquela Semana Santa. A menina rezou. Ela sabia rezar, pois o povo da rua lhe ensinou. Tudo que sabia tinha aprendido na rua. Foi na rua também que lhe disseram que crianças iguais a ela não têm direito a ovos da Páscoa. Ela chorou. Dormiu com vontade de comer um ovo daqueles da vitrine da loja.

Muita gente não sabe que Jesus Cristo ama as crianças, por isso as castigam com palmadas. Outras pessoas nunca contaram sobre Jesus Cristo aos seus filhos porque pensam ser coisa de gente grande e que eles não entenderiam. Talvez se a nossa menina dos fósforos brasileira que queria um ovo da Páscoa soubesse que Jesus Cristo foi uma criança pobre igual a ela a história fosse outra e quem sabe não roubasse ou cobiçasse as coisas alheias.

Toda criança, mesmo as que estão em situação de rua, vê propagandas em algum lugar, principalmente nos outdoors.

Assim como essas propagandas são feitas para despertar desejos nos diversos consumidores também despertam nessas crianças que não podem ter acesso a um ovo da Páscoa, mas que deveriam ganhar um das diversas instituições governamentais das suas cidades, pois verbas para isso sabemos que existem.

Se o dinheiro devolvido aos cofres públicos da corrupção dos empreiteiros e políticos que todos os dias aparecem na televisão ou o dinheiro das obras superfaturadas viessem a público, fossem utilizados para uma vida com dignidade às crianças brasileiras tenho certeza de que cada uma delas ganharia um ovo da Páscoa nesta Semana Santa e que no Domingo a história de Jesus Cristo seria escrita nos seus corações porque estariam limpinhas e cheirosas. Não é todo padre ou freira que abraça criança suja e pobre! Eu sei disso! Eu já fui criança negra, feia e pobre. Quando vim saber quem era Jesus Cristo tinha doze anos de idade e comi um ovo de chocolate com trinta e cinco anos de idade.

Boa Páscoa!

Autora: Rosângela Trajano. Também publicou no site a crônica “Criança amada cresce segura”: https://www.neipies.com/crianca-amada-cresce-segura/

Edição: A. R.

60 anos do golpe e eles não mudam!

O mito de neutralidade das Forças Armadas na História brasileira colou, apenas, para desavisados e para uma massa de brasileiros que não leem, fruto de um ensino precário e de uma intensa ação de mídia para acobertar as barbaridades cometidas pelas três armas que a compõe.

Os militares, não fartos do golpe de 1964, queriam mais poder, mais repressão, mais força ditatorial e nos impuseram o Ato Institucional n° 5, AI5 em 1968. Quem levou a culpa foi o combativo deputado federal Márcio Moreira Alves. Não foi por seu discurso da Tribuna; pois este Ato sairia mais dia menos dia. Foi o álibi para ampliar o golpe, a censura, as torturas e as mortes em nome da moralidade, do combate à “corrupção”, ao comunismo. Sempre em nome da Pátria, da Família e da Propriedade. Não por acaso estas palavras de ordem foram retomadas na campanha, durante e depois do governo do Inominável. E na ditadura mataram, torturaram, fizeram desaparecer pessoas até os incêndios a bancas de jornal, da bomba na OAB com a morte de uma pessoa, até o caso da bomba no Riocentro, cujo estouro saiu pela “culatra”. Já estávamos sob a “ordem” de abertura lenta, porém gradual.

Por que os militares conseguiram ficar nos governando por longos 21 anos? De onde vinha sua força?

Um deles preferia o “cheiro dos cavalos ao cheiro do povo”; por isso o povo nas ruas, com os gritos de Diretas já, derrotou a ditadura. E neste ano aqui, em Porto Alegre, em 13 de abril, vamos lembrar os 40 anos do grande Ato pelas Diretas. E a pergunta fica: de onde vinha a sua força?

Agora, o mesmo podemos perguntar sobre o bolsonarismo. Como podem fazer um ato com força como foi o da Paulista, se foram derrotados nas urnas, fracassaram com o golpe de 8 de janeiro, tem “seu” presidente prestes a ser preso, com outros tantos “líderes” já presos?

Neste momento, graças à frágil democracia que criamos, graças ao STF, à PF e outros setores de Estado, com as amarras ditatoriais cortadas, o Estado volta a funcionar, já condenando vários golpistas, mesmo ainda não tendo ido á prisão os militares planejadores do golpe. Neste sentido, como foi o grito das Diretas há 40 anos, agora, tem que ser o grito de SEM ANISTIA, ecoando nas ruas de norte a sul do país.

Mais de seis anos depois do marte de Mariele seus mandantes e o chefe da Polícia do Rio são presos. A força desta gente vem pela união da Banalidade do Mal nos quatro cantos do país, por dentro do Estado, por fora dele, como são as milícias e o narco.

Creio que é preciso sempre e necessariamente ir às raízes da construção da Nação. Assim, permitam-me um olhar reflexivo.

Quando se olha para o passado, quem eram os governantes e mandantes nas regiões em nome do governo de Portugal? Militares e militares por todos os lados. E mandavam e desmandavam, criando-se uma cultura autoritária.

No caso do Rio Grande do Sul, olhem para os nomes de ruas de sua cidade: é uma rede de nomes de militares de alta patente. Todo mundo virava coronel ou general.

Claro que no meio das FFAA, em especial do Exército Brasileiro (EB), havia militares rebeldes, até mesmo o PCB – Partido Comunista Brasileiro – chegou a ter alguma influência sobre certos setores. Haja vista o movimento tenentista e outros.

É forçoso lembrar o nascedouro da República o autoritarismo dos militares, em especial o Marechal Floriano.

Na República Velha tivemos Deodoro da Fonseca (1889-1891), Floriano Peixoto (1891-1894), Prudente de Morais (1894-1898). Ou seja, ela começou sob o tacão dos militares.

Hermes da Fonseca e Eurico Dutra, no passado, como Bolsonaro foram eleitos pelo voto popular.

Estes dados são pouco lembrados.

No Rio Grande do Sul, fomos governados pelo General Flores da Cunha, Ernesto Dorneles e Valter Perachi de Barcelos, militares, e Euclides Triches, ex-militar.

Creio que enumerei sobrados dados que mostram o poder militar nas entranhas do poder.

Claro que, no caso da Legalidade, tivemos o Exército local como a Brigada Militar do lado da lei. Também uma demonstração que nem sempre a caserna está unida. Como ficou evidente na última tentativa de golpe, orquestrada a partir de Bolsonaro, tendo oposição do Exército e da Marinha.

Repetindo, nos episódios que vieram à tona recentemente com a tentativa de golpe de 8 de janeiro, fica evidenciado o papel golpista dos militares.

No caso Mariele, foi Braga Neto na intervenção do Rio quem indicou o delegado à chefia de polícia e agora está preso.

É claro que houve rejeições, vacilações, dúvidas, o que inviabilizou entre outras razões os golpes tentados pelo bolsonarismo.

Aí vem novamente a pergunta: de onde vem esta força? Sabemos como foi a força dos “coronéis” do cacau, dos senhores de engenho, dos escravizadores, dos cafeicultores, dos donos de grandes empresas. Hoje, sabemos a força do agro, da indústria da construção civil, dos bancos etc. Sem nunca esquecer a mídia. Lembro aqui a Federação sob Júlio de Castilhos, Chateaubriand, os Marinhos e outros sempre disse o que era verdade, mesmo sendo mentira.

Na atualidade, o bolsonarismo foi turbinado pela ganância da mídia, parte substantiva da mídia, de segmentos do Judiciário, de certas igrejas pentecostais. Vale lembrar que a Igreja Católica em vários locais se somou aos integralistas, como foi o caso de nosso arcebispo Dom João Becker. Depois dele tivemos o Dom Vicente Scherer que combatia a reforma agrária de Brizola.

Logo, não há de se espantar que certos credos pentecostais tenham aderido ao bolsonarismo. Um dos deputados mais à direita do Rio Grande do Sul esteve com os Republicanos para só depois aderir ao PL.

Nacionalmente fomos a grande vergonha com o vereador de Caxias acusado de racista, que não foi cassado pela Câmara, mas responde processo criminal por suas palavras e atos.

Tivemos vários casos de racismo nos campos de futebol, desde o caso contra o árbitro Márcio Chagas no Estádio em Bento Gonçalves e agora dois casos recentes nos estádios em Caxias do Sul.

Nunca se ouviu, nunca se leu, nunca se ouviu uma entrevista de militar das três forças por aqui condenando tais atos.  Nunca se ouviu um alto dirigente das PMs e das PCs. A omissão neste caso também existe.

No caso de Escravidão Contemporânea, acontecida em 2023, em Bento Gonçalves vimos que forças policiais e militares estiveram coniventes ou colaboravam com os escravistas.

Aqui, como no restante do país, foram os militares que deram sustentação aos acampamentos de golpistas celerados.

Até aqui, não se viu ainda uma investigação acerca do papel do III Exército.

A perseguição a nós democratas nas redes sociais é brutal. Não são só calúnias e difamações, como também ameaças.

Não vai parar por aí. Pois assim como os golpistas de 64 ainda hoje tem suas “viúvas” e isto ficou evidente nos tais acampamentos nos quartéis, sem serem incomodados, foi também o que se viu no “Parcão” na capital e noutros locais do Estado.

O mais aterrador foi a força mostrada pelo bolsonarismo nas estradas, trancando-as, ameaçando pessoas, turbinados com recursos do agronegócio.

Agora, com a prisão dos mandantes do assassinato de Mariele Franco fica claro o uso do poder do Estado para as políticas contra o povo, para matar, para calar, como foi há 60 anos. Eles são e continuam os mesmos.

Nós, a esquerda esclarecida deste país, temos a obrigação de lutar para que este país tenha Memória, lembrando e mostrando o que foi o golpe de 1964. Pela democracia, pela liberdade de expressão, contra todas as formas de autoritarismo.

Autor: Adeli Sell, professor, escritor, bacharel em Direito, vereador do PT. Também já publicou no site a crônica “Os gaúchos”: https://www.neipies.com/os-gauchos/

Edição: A. R.

Receita para amar gente e bichos

Em qualquer espaço onde o coabitar seja entre pessoas, é preciso resgatar a emoção do cultivo, da criação e da paciência da espera. Necessário ir além. Animais também precisam de segurança para amadurecer uma relação afetiva, sem atropelamentos do tempo e na mútua renúncia.

Li nos jornais sobre petshops que oferecem “test drive” de bichos de estimação. O cliente chega, escolhe um gato, um cachorro ou porquinho-da-índia, deixa um cheque condicional, e o leva para casa por alguns dias. Se não pintar clima nem química entre dono e animal, permite-se que seja devolvida a mercadoria à loja, com a restituição do investimento.

A devolução por falta de clima é compreensível. Se o dono for quente demais e o animalzinho muito frio, ou vice-versa, clima não há. Aqui no Sul, só pintaria clima entre um gaúcho e um pinguim. No Nordeste, o clima só se daria com um lagarto do deserto que adorasse Sol.

Sem química, torna-se também justificável o fim do negócio. Com donos muito ácidos, os animais podem ter ataques histéricos. Essa tal de química entre as partes deve ser uma reação sem liberação de elementos cáusticos entre os envolvidos. Xixi na almofada libera gases incompatíveis com o perfume da dona, justo motivo para o fim do período de experiência.

Os bichos estão sofrendo as consequências desse péssimo hábito humano da descartabilidade. Há tempos venho observando que o consumo invade, sorrateiramente, o lar da afetividade.

Parece que perdemos a ternura do “cultivar” e do “criar”. Quando eram mais raras as lojas de animais, o homem exercitava-a cotidianamente. Um pé de alface levava meses para chegar à mesa; um cachorrinho, anos para ser o melhor amigo. Por isso, para quem cultivava, depois de tanto investimento, alface sempre era aproveitável, mesmo se pouco formosa, e tinha-se paciência com um cãozinho que mordia os sapatos, aguardando seu aprendizado no controle do instinto.

Entre as pessoas a descartabilidade é bem mais grave. Há poucos dispostos a “cultivar” vínculos afetivos, “criar” relacionamentos. A gente prova e tem que gostar logo, e o quanto antes, e em todos os sentidos. Se não pintar clima nem química, abandonamos o barco e partimos para outro – ou outra. Pensamos pouco em “aprender” a amar, em “construir”, em “criar”, em “crescer” nas diferenças.

O amor, a amizade, a simpatia só são válidos se automáticos, instantâneos e, se não acontecerem à primeira vista, descarta-se o objeto ou o sujeito. Se não pintar clima entre mim e minha “gata”, amanhã não a quero mais. Se entre mim e meu “tigrão” não acontecer a química, a gente “fica” só nesse fim de semana. Em qualquer espaço onde o coabitar seja entre pessoas, é preciso resgatar a emoção do cultivo, da criação e da paciência da espera. Necessário ir além. Animais também precisam de segurança para amadurecer uma relação afetiva, sem atropelamentos do tempo e na mútua renúncia.

Seres vivos, em geral, não são dignos de um “test drive”, mas, se você for adepto dessa ideia, já pode fazê-lo. Se não der certo, você entrega o bichinho na segunda-feira e pega seu cheque de volta. No caso de pessoas, como ainda não há lojas ou código do consumidor para isso, devolução do investimento não há. Perde-se algo valioso, mas como se trata de coisas sem preço, a gente dá pouca importância.

*Esta crônica compõe a obra Por que os homens não voam? Segue vídeo Proposta de roteiro de leitura da obra: https://youtu.be/eunUMVL6IXY?t=20


Autor: Pablo Morenno, do livro “Por que os homens não voam?” Physalis Editora, 2020. Também publicou no site a crônica “Afeto não fere”: https://www.neipies.com/afeto-nao-fere/

Edição: A. R.

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