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O uso consciente das energias verdes

Serão mesmo benéficas as energias verdes? Ou elas são benéficas e não estamos sabendo explorá-las?

Começo este pequeno ensaio literário com os versos da poeta Emily Dickinson que nos diz: “Menos usa a Natureza o Amarelo Do que qualquer outra Cor”.

Sugestão: Por que Emily Dickinson não queria publicar seus poemas? Assista: https://youtu.be/ZNXsj52DnA4?t=73

Sim, que a natureza possa continuar usando a cor verde que é tão linda e tão significativa às crianças e aos animais, pois quando as árvores deixam de ser verdes é sinal de que estão morrendo e a morte é uma coisa que na qual não queremos que aconteça com quem amamos, pensando aqui que todos vocês amam o verde do nosso meio ambiente. Que seja amarelo apenas o nosso Sol e que ele nos traga mais plantas e árvores verdes aos nossos olhos.

Para quem não conhece ainda, energias verdes são as energia que a própria natureza renova infinitamente e que têm feito tanto sucesso no Brasil e no mundo. Vou citar alguns exemplos para maiores esclarecimentos. Elas são as energias vindas da natureza como a fotovoltaica que é proveniente do Sol, a eólica que é proveniente do vento, a biomassa que é proveniente da lenha ou do bagaço da cana e a energia das marés e das ondas.

Especialmente falando das energias verdes elas são excelentes para a conservação e o desenvolvimento dos países causando menos impacto ambiental e proporcionando maior número de empregos. Além de serem inesgotáveis, não contribuem para o agravamento do efeito estufa.

O problema é que o homem usa e abusa do meio ambiente e quando percebe que uma coisa dá lucro e gera dinheiro não mede distância para explorá-la de uma forma agressiva ao meio ambiente. E tudo que é demais, que extrapola o limite da quantidade de uma garrafa, acaba causando malefícios à sociedade. Eu não queria que fosse assim, mas é o que tenho visto. Serão mesmo benéficas as energias verdes? Ou elas são benéficas e não estamos sabendo explorá-las?

Muitas vezes vocês já devem ter visto aqueles carros nas estradas das grandes cidades soltando fumaça e poluindo o meio ambiente, não é mesmo? Pois bem, substituindo esses combustíveis fósseis que tanto nos faz mal já existe no mercado e novas pesquisas estão sendo feitas assim como a fabricação de automóveis movidos a eletricidade, a hidrogênio e a gás natural.

É preciso urgentemente salvar o planeta dos perigos da energia provinda dos combustíveis fósseis e que gera tantos problemas ao mundo como conflitos entre países que brigam por territórios que mais produzem barris de petróleo por dia e assim como locais de extração que ficam em meio a florestas e áreas litorâneas do nosso país.

O uso descontrolado de veículos nas cidades grandes polui tanto o ar que evita possamos ver um céu azul e bonito. São os reflexos de um combustível ultrapassado e gerador de doenças respiratórias. Na verdade, mexer com a natureza seja qual a forma mais amena encontrada pelo homem ainda assim estará a machucando e isso deveria ser o maior possível evitado.

Sem contar com os problemas causados pelos empresários que financiam energia solar para residências e pequenos prédios por preços super vantajosos, fazem os contratos e depois desaparecem sem entregarem o serviço, sendo preciso acionar a justiça. Sem contar que as casas com essas placas solares já não podemos mais ouvir os miados dos gatos sobre os seus telhados, pois eles ficam assustados com aqueles quadros estranhos espalhados pelos lugares onde antes passeavam à vontade. O que é necessário fazer é quanto menos usarmos as energias no nosso cotidiano estaremos cuidando do nosso meio ambiente.

Não é porque as energias verdes não poluam que também não trazem prejuízos ao meio ambiente. Só para contar um exemplo na região semiárida de Pernambuco foram instalados parques eólicos e têm ocorrido problemas graves nesse local e em outros que já pude ver pela imprensa. As pessoas dessa região estão sofrendo com depressão, ansiedade, seus animais estão desaparecendo ou morrendo e uma energia que prometia ser limpa e saudável acabou causando um problema grave na região.

Então, o importante não é mexer no meio ambiente de forma agressiva e sem pesquisas mais atentas aos seres vivos e aos locais de onde serão produzidas essas energias, mesmo que elas indiquem um maior benefício para o mundo. Faz-se necessário anos de estudo e não a cobiça por dinheiro a curto prazo.

Uma outra coisa que tenho observado e me surpreende são a enorme maioria de parques eólicos nas áreas litorâneas do meu estado, o Rio Grande do Norte, locais onde as pessoas vão se divertir e tomar banho de mar. Outro dia vi uma foto de uma surfista que se destaca mais o grande parque eólico ao seu redor do que ela própria.

As hélices dos parques eólicos são um perigo para as nossas aves que voam ao redor delas e vez ou outra se chocam, vindo a morrer assim como outros fatores que têm levado peixes e outros animais a sumirem das regiões litorâneas onde instalaram esses parques.

Quanto aos automóveis é preciso que os carros elétricos sejam barateados e que toda a população possa comprar o seu demonstrando um interesse maior pelo meio ambiente, pois a poluição causada pelos gases que saem dos veículos automotivos nas grandes cidades causa doenças até mesmo emocionais, principalmente as de estresse e ansiedade, e malefícios grandes à população que precisa andar pelas ruas para sobreviverem.

As energias verdes chegaram e vêm para ficar. Elas têm os seus grandes benefícios se forem usadas com cautelas, como já disse acima. São benéficas aos seres humanos e aos animais, não agridem o meio ambiente e evitam esse monte de fio elétrico que tanto enfeiam as ruas das nossas cidades.

Voltando a falar da energia fotovoltaica, a energia solar, é uma maravilha para o bolso do consumidor, pois no calor pelo qual passamos nos últimos meses as pessoas ficam com mais calor ainda por não poderem ligar os seus ar-condicionados preocupadas com o valor da energia que precisarão pagar no final do mês, enquanto que a energia solar traz uma grande economia para as residências. Mesmo assim é preciso usá-la com cautela.

Eu, como boa ambientalista, acho, particularmente, feios aqueles parques de energia eólica espalhados pelo meu Estado e as placas de energia fotovoltaicas penduradas nos telhados das casas. Acredito que o Brasil deveria preocupar-se com energias verdes sim, mas pensando numa forma bonita e mais econômica com retorno de bem-estar às pessoas que necessitam viver ao lado de onde elas são produzidas.

Costumo chamar aquelas torres de energia eólica espalhadas pelo meu país de moinhos de ventos modernos e tenho certeza que se Dom Quixote chegasse ao Brasil novamente as confundiria com gigantes robotizados e desses mais perigosos ainda por usarem bits e bytes e um monte de ferro velho que logo enferruja. Pena que não tenhamos um Dom Quixote brasileiro para lutar contra essas torres e dá um jeito nelas proporcionando uma distância maior da região litorânea.

É verdade que o combustível fóssil produzido pelos milhões de barris de petróleo da nossa querida Petrobrás e pelos demais países envolvidos na sua produção já foi uma coisa boa e rentável, mas com o passar dos tempos e o crescimento desenfreado da tecnologia essa energia só tem nos trazido malefícios.

O ideal era que produzíssemos mais carros elétricos e que usássemos energia verde de uma forma sustentável ou que seus motoristas fossem instruídos a soltarem sementes por cada rua por onde passassem. Acho que seria uma boa ideia instruir os motoristas a andarem com saquinhos de sementes dentro dos seus carros para as esquecerem em parques, praças e canteiros das cidades grandes.

Contudo, se a gente for pensar e se preocupar com os problemas que aparecem aqui e acolá com a chegada de novas tecnologias não conseguiremos mais viver e o melhor a se fazer é representar as camadas mais pobres, os animais que não podem gritar como a gente e pedirmos aos senhores técnicos e pesquisadores das energias verdes que sejam mais cautelosos quanto aos seus investimentos e instalações em locais onde pessoas e animais precisam morar porque o precisar não é boniteza, mas necessidade que advém da pobreza extrema que toma conta do nosso país. Um pescador quer pescar o seu peixinho e uma criança quer brincar com seu gatinho sem que ele se assuste com os barulhos das hélices das torres de energia eólica.

Deixo vocês com os versos da nossa querida poeta brasileira Clarice Lispector que nos diz “Há verdades que nem a Deus eu contei. E nem a mim mesma. Sou um segredo fechado a sete chaves. Por favor me poupem.”

Tenho mais alguns segredos sobre as energias verdes para contar a vocês qualquer dia desses, por hoje já basta, pois já os contei para Deus.

Autora: Rosângela Trajano. Também publicou no site outros 124 textos e/ou reflexões. Destacamos “Pais jardineiros ou carpinteiros: quais são vocês? https://www.neipies.com/pais-jardineiros-ou-carpinteiros-quais-sao-voces/

Edição: A. R.

Ressentimento e feminicídio

Percebe-se que muitos homens não conseguem conviver, para dizer o mínimo, com as conquistas e lugares ocupados pelas mulheres por se sentirem reféns das suas vidas ridículas. Presos à impotência do estado psíquico de ressentido, acreditam que eliminar, impedir, tolher é o antídoto ao destino de homem fracassado e diminuto.

Longe de apresentar uma tese que poderia responder/corresponder como modelo explicativo para o feminicídio, tendo em vista que a violência contra a mulher implica fatores que não podem ser negligenciados e, inclusive, assumem maior ou menor relevância em momentos e culturas distintas, quero oferecer uma pequena contribuição para tentar “compreender” esse fenômeno.

Atenho-me a constatação de que as transformações histórico-culturais, as conquistas femininas, os avanços tecnológicos e epistêmicos que liberam a mulher de certos paradigmas, por exemplo, se de um lado pactuam uma condição social mais equânime entre homens e mulheres, por outro, são insuficientes para deter a escorchante violência praticada a cada segundo contra as mulheres.

A minha questão é tentar entender como e apesar dos avanços e independente do nível cultural e intelectual, homens são capazes de violentar e matar mulheres. Como já referido, há muitos aspectos que devem ser levados em conta, mas tenho pensando na estreita relação entre ressentimento e feminicídio.

A temática do ressentimento é um dos pontos nevrálgicos da filosofia de Nietzsche, permeando a cultura ocidental por meio de uma axiologia própria, cadenciando uma disposição psíquica padecente e passiva. O estado psíquico do ressentimento responderia, de acordo com Nietzsche, pela decadência da vitalidade humana.

O indivíduo ressentido é incapaz de criar valores afirmativos da existência, pois “Ao sofrer uma ofensa, tal indivíduo, impotente em reagir efetivamente, desenvolve no seu íntimo o anseio por uma reparação imaginária, motivada pelo sentimento de vingança. O ressentido sofre de enfraquecimento da vitalidade, e perde qualquer tipo de vínculo efetivo com a realidade” (BITTENCOURT, p. 1, 2009)

A “moral dos escravos”, que seria própria da condição do ressentimento e que prevaleceu na civilização ocidental, – muito em razão da moral cristã que inverteu os valores ativos pelos decadentes -, desentranha-se como uma espécie de incapacidade dos indivíduos para interagir com as diferenças e com os antagonismos, atribuindo ao outro a responsabilidade pelo seu fracasso ou decadência. Incapaz de responder ativamente a estímulos externos, acaba assimilando negativamente a experiência, deixando de agir efetivamente.

Escravo desse sentimento em que se sente cada vez mais ensimesmado e reagente ao mundo, o indivíduo desentranha-se imobilizado e avesso aos outros, responsáveis pelo seu insucesso. No caso, escravo do ressentimento, o homem ressentido busca, através da violência praticada contra a mulher, uma espécie “de reparação imaginária, motivada pelo sentimento de vingança”, entre outros, por ocuparem, as mulheres, um lugar (família, sexo, prazer, política, trabalho, etc.) que “seria” seu por “natureza”. Pelo interior de um registro psíquico, uma atração por aquilo que causa repulsa, sofrimento.

Claro que se trata de uma breve apresentação de uma tema caro e complexo que deve ser tratado com o máximo rigor teórico, mas percebe-se que muitos homens não conseguem conviver, para dizer o mínimo, com as conquistas e lugares ocupados pelas mulheres por se sentirem reféns das suas vidas ridículas. Presos à impotência do estado psíquico de ressentido, acreditam que eliminar, impedir, tolher é o antídoto ao destino de homem fracassado e diminuto.

Autora: Marli Silveira

Poeta e escritora. Acadêmica da Academia Rio-grandense de Letras. Também publicou no site a reflexão “A banalidade do mal”: https://www.neipies.com/a-banalidade-do-mal/

Edição: A. R.

Juventudes dispensadas

“A juventude vive hoje numa era sem esperança, uma era em que é difícil sequer imaginar uma vida além do capitalismo de livre mercado ou superar o receio de que qualquer tentativa de fazê-lo só pode resultar no agravamento dessa situação” (Henry A. Giroux)

As juventudes que não estão estudando, que não estão empregadas nem realizando qualquer tipo de qualificação profissional ou estágios que os capacitem para o mundo do trabalho estão sendo dispensadas pelo modelo econômico e social capitalista neoliberal de uma sólida formação básica integral (oferta integrada de educação técnica profissional ao ensino médio), do ensino superior de qualidade social, do acesso ao mundo do trabalho com dignidade e, inclusive, do direito à vida com liberdade e segurança.

“Vistos cada vez mais como outro encargo social, os jovens não estão mais incluídos no discurso sobre a promessa de um futuro melhor. Em lugar disso, agora são considerados parte de uma população dispensável, cuja presença ameaça evocar memórias coletivas reprimidas da responsabilidade dos adultos”, assim escreveu Henry A. Giroux em 2011 em um ensaio intitulado “A juventude na era da dispensabilidade”.

Sugestão de vídeo: Caminhos da Reportagem | Juventude – em busca de oportunidades: https://youtu.be/lKlMyyJmC2g?t=368

Retomo nesta coluna o tema das juventudes do Brasil que tratei na minha primeira colunaescrita em janeiro de 2017, quando defendi a ideia de que a nossa maior riqueza (“bônus demográfico” composto por mais de milhões jovens na época) e oportunidade de transformar o Brasil passavam pelo cuidado destes jovens, priorizando investimentos substanciais em políticas públicas de Estado e oportunizando uma educação de excelência para todos.

Porém, a realidade das juventudes brasileiras, especialmente das juventudes periféricas negras e pardas, é de exclusão, violência contínua, pobreza, desesperança, incertezas e negação dos seus direitos humanos básicos, como: Direito à Diversidade e à Igualdade; Direito à liberdade de Expressão; Direito à Cultura, à Educação, à Segurança Pública e o Direito à Vida. A garantia efetiva de todos estes direitos é dever do Estado (União, Estados e Municípios) e da Sociedade como um todo.

A dispensabilidade do direito à vida é comprovada pelas estatísticas de mortes e violências praticadas contra nossos adolescentes e jovens, evidenciadas em contínuas edições do Fórum Nacional de Segurança pública, por meio do Atlas da Violência de 2011-2023.

Desde 2011, o Brasil registrou 616.095 homicídios, sendo 326.532 de jovens de 15 a 29 anos. A cada 100 jovens mortos em 2021, 49 foram vítimas de homicídio.

Dos 47.508 mortos por violência intencional no país em 2022, 76,5% eram negros. O custo da violência juvenil no último ano ultrapassa o valor de R$ 150 bilhões.

Ou seja, continuamos praticando no Brasil o juvenicídio, matando nosso maior potencial humano e futuro civilizatório.

O crucial aqui é reconhecer que “os campos da política e da violência – uma violência que parece carecer de organização racional, sem excetuar a autodestruição – não estão mais separados.

Essa violência se amplia e estende contra pessoas negras (que representam 77% das vítimas, com risco 2,9 maior que pessoas brancas, com taxa de homicídio de 31%); contra crianças e adolescente com 1.031.283 casos entre 2011-2921; contra mulheres, povos indígenas, população LGBTQIAP+, idosos e deficientes.

Para Zygmunt Bauman o que salva as juventudes da total dispensabilidade e lhes garante um certo grau de atenção ainda é, somente, sua potencial contribuição à demando de consumo.

Pensa-se sobre juventude e logo se presta atenção a ela como “um novo mercado” a ser “comodificado” e “explorado”.

“Por meio da força educacional de uma cultura que comercializa todos os aspectos da vida das crianças, usando a internet e várias redes sociais, e novas tecnologias de mídia, as instituições empresariais buscam “imergir os jovens num mundo de consumo de massa, de maneiras mais amplas e diretas que qualquer coisa que possamos ter visto no passado”.

A evidência é a de que a educação empreendedora, inovadora e financeira já é concebida como mais relevante, mesmo nas juventudes de periferia, do que o direito à educação formal e formação de nível média e superior humanizadora.

O sociólogo polonês, no livro Sobre Educação e Juventude, reafirma um conjunto de evidências de que o “problema dos jovens” está sendo considerado clara e explicitamente uma questão de “adestrá-los para o consumo”, e de que todos os demais assuntos relacionados às juventudes são deixados numa prateleira lateral – ou eliminados da agenda política, social, educacional e cultural.

Uma demonstração são as sérias limitações impostas pelos governos ao financiamento de instituições de ensino superior, acopladas, também, a um aumento das anuidades cobradas pelas universidades privadas.

No Brasil, o financiamento estudantil (Fies) que beneficiava 21,3% dos estudantes matriculados no Ensino Superior (ES) em 2014 caiu para 0,9% em 2021.

A meta 12 do PNE que visava garantir 33% dos jovens de 18 a 24 anos na ES estagnou em 17,7% de acordo com censo educação de 2021.

Já a meta de certificar 40% das matrículas em Instituições Públicas está apenas em 11%, um quarto do previsto, conforme revela o censo de 2022.

Enquanto centenas de milhares são assassinados, outros são dispensados de formas diferentes. Me refiro a 45,3 milhões de adolescente e jovens de 14 a 29 anos (censo IBGE 2022), dos quais 61% são negros, vivendo em condições ampliadas de vulnerabilidade devido ao racismo estrutural, sendo 5,2 milhões desempregados, 55% desde jovens fora do mercado são mulheres pretas e pardas.

Dados do IBGE de demostraram que cerca de 18% dos jovens entre 14 e 29 anos no Brasil não completaram o ensino médio. A necessidade de trabalhar foi apontada como a principal razão para o abandono escolar, representando 40,2% das justificativas dadas por aqueles que deixaram a escola.

Esse índice é ainda mais alarmante entre os homens, atingindo 51,6%. Para termos consciência do que essas estatísticas significam, terminamos o ano de 2022 com 1 milhão de crianças e adolescentes fora das salas de aula no país, de acordo com o Censo Escolar da Educação Básica 2022 do MEC/INEP.

Vale notar que o primeiro decênio do século 21 no Brasil foi marcado por avanços significativos na constituição de um espaço próprio de institucionalização das políticas públicas para a juventude brasileira representada por mais de 50 milhões de jovens entre 14 a 29 anos. Desde a criação do Conselho Nacional de Juventude em 2004, da Secretaria Nacional de Juventude, das Conferências Nacionais de Juventude até a promulgação do Estatuto da Juventude (2013) observou-se um esforço de estabelecimento de uma agenda de participação com os jovens na construção das políticas e de suas prioridades nos vários espaços da sociedade.

Nesta perspectiva, segundo estudos recentes lançados pela Campanha Nacional Pelo Direito a Educação, a educação no Brasil tem leis avançadas, reconhecidas nacional e internacionalmente, mas essa estrutura legal não se traduz como deveria na implementação de políticas públicas.

As desigualdades educacionais geradas por essa ausência do Estado na vida de estudantes e trabalhadores da educação afetam especialmente mulheres, pessoas pretas e pardas e as populações do Norte e Nordeste do país.

Logo, a negação dos direitos das crianças, dos adolescentes e jovens, o descumprimento da legislação educacional vigente, bem como o descumprimento das metas dos Planos Nacional, Estaduais e Municipais de Educação e a descontinuidade de políticas por ciclos governamentais requer, que a sociedade civil seja mais participativa e efetiva na defesa dos direitos dos seus filhos estudantes.

Defender a educação e a democracia como forma de vida e a escola enquanto espaço comum público é um imperativo de todos cidadãos conscientes e comprometidos pela defesa das nossas crianças, adolescentes e jovens.

Quem sabe faz a hora, não espera acontecer, até porque se ficarmos esperando nada vai acontecer de mudanças no cenário exposto acima.

FONTE: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2024/01/juventudes-dispensadas/

Autor: Gabriel Grabowski. Também publicou “Educação para sonhar, esperançar e ser feliz”: www.neipies.com/educacao-para-sonhar-esperancar-e-ser-feliz/

Edição: A. R.

 

Timbres de clareza e leveza literária

Gilberto Cunha é uma daquelas pessoas que a gente quer sempre por perto, justamente porque concilia habilidades e detém um universo de conhecimentos gerais e específicos que envolvem filosofia, literatura, cultura e ciência. Cunha possui uma fala articulada, consistente e fundamentada pela experiência, pelas leituras e por muitos estudos que perpassam a trajetória de sua vida.

Possui graduação, mestrado e doutorado em Agronomia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. É pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária-EMBRAPA, desde 1989. Foi Chefe-Geral da Embrapa Trigo, de 2006 a 2010. Atua na área de Agrometeorologia, com ênfase em bioclimatologia de cereais de inverno, zoneamento agrícola, gerenciamento de riscos climáticos e uso de previsões de tempo/clima em agricultura. É autor da série de livros Meteorologia: Fatos & Mitos (1997, 2000 e 2003), Cientistas no Divã (2007), Galileu é meu pesadelo (2009), A ciência como ela é… (2011) e Ah! Essa estranha instituição chamada ciência (2021), além de ter sido editor e autor de diversos livros sobre história e tecnologia de produção de trigo no Brasil.

É membro da Academia Passo-Fundense de Letras, tendo presidido a agremiação nas gestões 2014-2016 e 2020-2022. Em 2009, foi patrono da 23ª Feira do Livro de Passo Fundo. É colunista de O NACIONAL desde 1995, editor da revista cultural Água da Fonte e Editor-Chefe de AGROMETEOROS, o periódico científico da Sociedade Brasileira de Agrometeorologia.

O jornalista de nossa cidade, Passo Fundo, RS, Celestino Meneghini assim o descreve:

“Sem apego aos pragmatismos elabora pensamento crítico de elevada consistência nas verdadeiras conquistas inabaláveis da ciência. Pela sua larga experiência de vida dedicada à pesquisa na Embrapa, acumula saber notável. Saliente é o talento na dimensão universal do conhecimento humano, orientando a ciência pela filosofia específica”.

E acrescenta: “Cunha alcança raro timbre de clareza e até leveza literária, ensejando fruir agradável à leitura. Tem o raro dom de compor as frases de modo criativo e com arte. A decidida atitude em relação às versões que contrariam o bom senso, ou a tentativa malsinada dos que desrespeitam a ciência como instituição, fica bem explícita. Esta justa ira contra os predadores do saber honesto vem fortemente nutrida pela argumentação do autor”.

Conheçamos um pouco mais de Gilberto Cunha, por ele mesmo.

Como, quando e por que a sua fascinação pelo universo da ciência?

Cunha – Talvez porque a atividade científica seja a minha profissão. Lá se vão 45 anos desde que comecei como auxiliar de pesquisa, em setembro de 1978, no extinto Instituto de Pesquisas Agronômicas (IPAGRO), em Porto Alegre. Passei, nesse período, por todos os postos dentro de uma instituição de ciência e tecnologia, de auxiliar, pesquisador, até dirigente, quando ocupei o posto de Chefe-Geral do Centro Nacional de Pesquisa de Trigo, a Embrapa Trigo, em Passo Fundo.

Eu tento exercer com certa competência aquilo que faço. E, até porque, nessa fase da vida, chegado aos 65 anos, não há mais volta. Mas, sim, independente de ser uma profissão, na qual me considero alguém bem-sucedido, eu gosto do mundo da pesquisa científica, pelos desafios que são postos e, acima de tudo, pela oportunidade de poder contribuir com coisas que podem ser relevantes para a sociedade.

Como vês ciência?

Cunha – É possível que, por vivenciar ao dia a dia e conhecer o ambiente científico pelo lado de dentro das organizações, a minha visão seja, radicalmente, diferente da idealização romantizada da ciência e dos cientistas que muitas pessoas têm. É um ambiente competitivo, normatizado, que tem, veladamente, o seu Ethos particular, cujas regras nem todos conseguem seguir sem sofrimento. Um ambiente onde a competição tem levado muita gente a abalos emocionais ao não se encaixar nos colégios invisíveis que controlam o mundo da ciência.

Mas, para o bem ou para o mal, eu vejo a ciência como a base da criação de conhecimentos e de inovações tecnológicas, que podem se materializar numa vacina ou numa mortal arma de guerra, como uma bomba atômica, a critério da sociedade que a patrocina e demanda. Os cientistas, na sua maioria, costumam acompanhar as sociedades que os financiam. E, geralmente, sabem menos do que supõem os leigos. De maneira nenhuma formam uma casta de “superdotados” que sabem de tudo e que todas suas opiniões mereçam ser levadas a sério.

Como se dá o processo de formação científica? Quais são os grandes marcos da ciência?

Cunha – A formação científica atual segue o formalismo acadêmico universitário. A especialização e a complexidade da atividade, cada vez mais, tem exigido que, após a graduação, os interessados em seguir uma carreira científica, cumpram programas de pós-graduação, envolvendo a busca de titulações de mestrado e doutorado. Mas, a massificação de cursos de pós-graduação no Brasil e no mundo, não assegura que apenas títulos sejam suficientes, como outrora fora, para garantir uma posição numa instituição cientifica, seja na esfera publica ou privada. Eu diria que a formação cientifica começa ainda na graduação, com o envolvimento em programas de iniciação científica das universidades. A maioria que segue essa carreira tem esse início. O grande desafio e saber transpor os limites das disciplinas, pois os grandes saltos, cada vez mais, se darão em zonas de fronteira das disciplinas. E, no caso, faz-se necessária a mudança de percepção da utilidade de um mestre ou de um doutor na iniciativa privada, pois o principal empregador desses profissionais ainda continua sendo o Estado no Brasil. As nossas academias precisam se preocupar, além de avançar o conhecimento, também materializar esse conhecimento em tecnologias que mereçam e justifiquem um instrumento de propriedade intelectual.

Os marcos da ciência, que realmente mudaram paradigmas e fizeram a diferença, são muitos e dependem de cada área do conhecimento. Nas ciências agrárias, onde eu tenho maior familiaridade, sem retroceder muito na história, eu destacaria, como principais, a redescoberta das Leis de Mendel, no começo do século XX, que deu forma ao chamando, hoje, melhoramento genético convencional das plantas cultivadas e que, termos de padrão de plantas cultivadas, nos trouxe até aqui. A descoberta da estrutura do DNA, 1953, o código genético, anos 1960, a técnica do DNA recombinante, na sequência, a clonagem de DNA pela técnica de PCR, a edição gênica e todos os desdobramentos da biologia molecular, que já deram e ainda darão muitos frutos na agricultura mundial. Esses são apenas alguns exemplos, muitos outros me vem, de imediato, à mente: Leis de Liebig, Haber-Bosch, fixação biológica de Nitrogênio, na área de nutrição de plantas, Sistema Plantio Direto, em agricultura conservacionista, etc., e, em tempos mais recentes, agricultura de precisão e toda a tecnologia digital que dão forma à chamada Agricultura 4.0.

Fale-nos sobre a essência das crônicas do livro “Ah! Essa Estranha Instituição Chamada Ciência”.

Cunha – Esse é mais um livro que, insisto nisso, foi ditado pelas minhas dúvidas, que não são poucas, sobre o que é ciência? que caracteriza a atividade científica? e para que serve a ciência? A busca do entendimento do que “é ciência” e do que “não é ciência” dá sustentação especial à primeira parte do livro. Depois, na sequência, encontram-se textos dedicados a Jorge Luis Borges, um dos escritores canônicos mais lidos e citados pela comunidade científica mundial. E, fechando a obra, ensaios diversificados que, sem outras pretensões, buscam unir literatura e ciência no trato de questões afetas à humanidade, como bem exemplificam os textos dedicados à pandemia da Covid-19, que assolou o mundo a parir de dezembro de 2019.

Já declarei, publicamente, que à primeira vista, por temática e estilo, este livro pode parecer uma espécie de dèjá vu de livros anteriores que publiquei: Cientistas no divã (2007); Galileu é meu pesadelo (2009); e A ciência como ela é…(2011). Eu diria que, em tese, sim, mas que são obras complementares e independentes. E, mais uma vez, volto a reiterar que não me alvoroço em reivindicação de originalidade. Em quase todos os ensaios/crônicas, com base no meu “direito de leitor”, usei ideias alheias, sempre que possível dando o devido crédito, e espalhei, acredito, pitadas de criatividade que, de tão dispersas e raras, talvez nem eu mesmo consiga identificar, embora, no primeiro momento, tivesse julgado serem as minhas melhores palavras e os meus melhores pensamentos.

E, reprisando o que escrevi no prólogo dessa obra, sigo atormentado por imaginar que, depois de lidas as 520 páginas desse livro, alguém ainda não consiga diferenciar o que “é ciência” do que “não é ciência”, ou que, a se ver desprovido de suas certezas, sinta-se mais confuso do que antes. Oxalá isso não aconteça!

Gilberto Cunha entre os finalistas do Prêmio Literário 2023

Como vês literatura?

Cunha – Não é tão simples quanto aparenta definir literatura. Nem perceber o valor da literatura. Ou a sua importância. Isso talvez explique a razão que distancia o discurso e a prática quando entra em jogo investir em literatura ou, mais simples ainda, a dificuldade, para muitos, sem qualquer limitação financeira, de se disporem ao mero ato de comprar um livro (e ler). Eu vejo a literatura como uma criação humana de valor imensurável. Uma obra, na minha visão, para ser considerada literária tem de interagir com a sensibilidade do leitor. Quando isso acontece, realidades, mesmo que seja no imaginário, podem ser transpostas e, por que não, futuros condicionados.

Lamentavelmente, ainda que o acesso tenha sido facilitado pelo ambiente digital, não se percebe a valorização que a literatura mereceria da sociedade, especialmente como fonte de produção de cultura e de geração e desenvolvimento social e econômico. Inclusive, para nossa tristeza, vale destacar, que vivemos tempos de muitos questionamentos equivocados em relação aos investimentos públicos na área cultural.

Qual é a tua trajetória de escritor e como se deu, até agora, a tua participação na Academia Passo-Fundense de Letras?

Cunha – Eu não sou escritor de ficção. E, sendo assim, tenho dificuldade em me perceber como escritor. Escrevo, até por obrigação profissional, mais textos técnicos e científicos. Dentro da chamada linha de popularização da ciência, desde 1995, tenho escrito sobre assuntos variados, em linguagem que intento seja acessível ao público geral, no formato de crônicas ou pequenos ensaios, para jornais e revistas de divulgação. Esses textos, de tempos em tempos, são reunidos em volumes, com alguma identidade, dando forma a livros. Os três primeiros, da série Meteorologia: Fatos & Mitos, para minha felicidade, foram e ainda são muito usados em disciplinas de climatologia de cursos de Agronomia e Geografia, em muitas universidades brasileiras. Essas obras, escritas semanalmente, nas páginas de O NACIONAL, me levaram, em 2001, à Academia Passo-Fundense de Letras, agremiação da qual fui alçado à presidência em duas gestões, e a ocupar o honorável posto de Patrono da 23ª Feira do Livro de Passo Fundo, em 2009. Sou muito grato à Academia Passo-Fundense de Letras, pela acolhida, e por tudo que tenho aprendido no convívio com os membros desse Sodalício.

Qual é a importância de editar a revista Cultural “Água da Fonte” desde sua primeira edição?

Cunha – ÁGUA DA FONTE, o periódico cultural da Academia Passo-Fundense de Letras, iniciou com a sua edição princeps, o número ZERO, em dezembro de 2003. Surgiu para suprimir a lacuna deixada por anuários e jornais que a agremiação publicara no passado, mas que, lamentavelmente, tiveram vida curta (nenhum durou mais de quatro edições). Uma nova proposta editorial, norteada pela pluralidade, primando pelo respeito à diversidade, aberta à comunidade e, acima de tudo, voltada à valorização dos escritores e dos artistas plásticos locais, que foram especialmente convidados para a assinatura das capas das revistas.

Os originais dessas capas compõem o acervo da Galeria das Capas, no auditório da agremiação. Além de, cada número, trazer entrevista central com uma personalidade de reconhecida relevância para Passo Fundo. Vinte anos depois, 22 números publicados (alguns em conjunto), ÁGUA DA FONTE não decepcionou os acadêmicos que, em 2003, foram unânimes no apoio à sua criação. Nas suas páginas, assim eu percebo, está registrada a história das letras locais no século XXI. É uma honra, em parceria com o acadêmico Paulo Monteiro, ter sido editor dessa revista. Acredito que essa revista, se não tivesse alguma relevância, não teria durado tantos anos. Vida longa para ÁGUA DA FONTE!

Como concilias e articulas ciência com literatura, através de tuas crônicas semanais, publicadas no jornal O NACIONAL?

Cunha – Na verdade, a intenção, ainda que nem sempre seja alcançada, é sempre, via essa união, tornar mais atrativo o tema ao leitor, sem perder a essência do conteúdo, dentro de uma proposta de popularização da ciência. E, embora eu tenha ciência que o establishment acadêmico tem preconceitos contra os chamados “popularizadores” da ciência, gente que escreve (ou procura escrever) de uma maneira inteligível para não iniciados, tenho feito isso, semanalmente, desde 1995. Isso fica claro na forma desdenhosa com que frequentemente são feitas referências a esse tipo de atuação acadêmica ou na valoração que é dada aos trabalhos dessa natureza no conjunto dos indicadores de produção científica: NENHUMA!

Como enxergas e vislumbras o futuro da humanidade?

Cunha – Eu gostaria de enxergar, embora os tempos atuais estejam embaçando o horizonte, um futuro promissor. Sei que, chegado aos 65 anos, já tenho mais passado do que futuro, mas ainda acredito que haverá de chegar o dia que nos daremos conta dos absurdos que muitas vezes defendemos e dos atos insanos que praticamos, seja contra o ambiente, contra outros seres vivos e, especialmente, contra outros seres humanos. Apesar de tudo, acredito na humanidade, mesmo ciente que utopias sejam lugares que não existam. Um pouco mais de respeito às diferenças, idealmente que nos tornemos indiferentes às diferenças, seria um avanço muito grande.

Uma mensagem final.

Cunha – Que deixemos cair o véu que nos impede de ver a necessidade de não darmos voz ao obscurantismo que grassa pelas redes sociais; que não se flerta com autoritarismo, pois a democracia deve prevalecer acima de qualquer outro regime que se apresente, uma vez que o verdadeiro democrata jamais lamenta resultado de eleição; que equidade social deve ser defendida sempre; e que empatia precisa ser melhor cultivada na sociedade.

Gilberto Cunha é convidado do site. Conheça algumas de suas crônicas: https://www.neipies.com/author/gilberto-cunha/

Edição: A. R.

Compro, logo existo?

O desafio está posto para você, para mim: fazer do necessário o suficiente, e viver mais simplesmente, para que simplesmente todos possam viver. Encaramos?

Hoje é dia de culto ao ‘deus’ mais venerado pela sociedade de consumo (e do descarte): o deus mercado. Ele ocupa o centro do altar do sistema capitalista, que predomina no mundo.

Mercadoria: essa palavrinha denomina algo pelo qual muitos matam e morrem. Um mito ao qual somos induzidos a adorar toda hora, pela propaganda, pela sedução permanente da ideologia do consumo contínuo. Ser é ter…

Eu não me comovo nem um pouco com as multidões se atropelando na porta das lojas, naquele afã tresloucado de comprar, aproveitar as “ofertas”, adquirir coisas, especialmente em épocas de maior apelo comercial nos meses finais de cada ano.

Ninguém vive sem bens materiais, claro. Mas temos que, cada vez mais, aderir ao chamado “consumo consciente”. O colapso climático, que devasta várias regiões do planeta e ameaça nossa sobrevivência na Terra, exige novo jeito de produzir, distribuir e consumir.

Como dizia Gandhi (1869-1948), “a Terra provê o suficiente para satisfazer a necessidade de todos os seres humanos, mas não a ganância de alguns”.

O desafio está posto para você, para mim: fazer do necessário o suficiente, e viver mais simplesmente, para que simplesmente todos possam viver. Encaramos?

Converse sobre hábitos de consumo com seus familiares, vizinhos, colegas de trabalho.

Professora(e)s: que “valores” estão sendo passados para a juventude?

Autor: Chico Alencar. Também escreveu: As aparências também enganam: https://www.neipies.com/as-aparencias-enganam-breve-reflexao-para-cristaos-ou-nao/

Edição: A. R.

Um milhão de acessos em busca de humanização

A ignorância atrofia o ser humano. O conhecimento o liberta. A ignorância prende uma alma humana. O conhecimento libera as almas para sonhar e buscar possibilidades de plena realização. A ignorância embrutece as pessoas. O conhecimento as humaniza, tornando-as melhores seres humanos.

O que significa um site autoral, feito à mão, de forma cuidadosa, criteriosa e responsável, alcançar a marca de um milhão de acessos? A resposta pode ser muito, quase nada ou pouco. Depende da percepção das coisas, das noções de grandeza e estatística, do valor que se dá ao conhecimento crítico e reflexivo, das noções de trabalho, ousadia e persistência implicadas num projeto como este.

Escolhemos 2023 como o ano do reconhecimento. Empenhamos todos os esforços para demonstrar a importância do site como uma ferramenta que promove humanização. E conseguimos afirmar e consolidar esta importante ideia.

Orgulhamo-nos pela trajetória de 09 anos projetando, construindo e publicando este site, através de muitas parcerias. Nos constituímos uma referência, uma ponte ou uma forma de conectar aqueles e aquelas que desejam publicar com aqueles/as que desejam ler e refletir sobre temas que abordam sobre educação, cidadania e espiritualidade.

Escolhemos como símbolo do nosso trabalho um cata-ventos, pois acreditamos que devemos estar abertos à possibilidades de interação e integração dos saberes e sabores que vem da vida e da natureza, permanentemente. Cumprimos função de irradiar diferentes conhecimentos, respeitando a diversidade dos pensamentos, a riqueza das diferentes formas e abordagens, o protagonismo de cada Convidado e Convidada que escreve no site.

Conheça os Convidados/as do site: https://www.neipies.com/autores_convidados/

Os cata-ventos inspiram permanentemente a nossa imaginação, as nossas ousadias e a nossa criatividade.

Os maiores desafios que enfrentamos buscaram pensar no leitor e na leitora, agora imersos no mundo digital. Queremos promover uma leitura interessante, prazerosa e dinâmica, utilizando imagens, destaques de textos, links de outros conteúdos, vídeos. Queremos promover o maior engajamento orgânico dos leitores às temáticas do site, através de leituras sistemáticas e recorrentes.

Acreditamos que a humanização é possível através de processos abertos e dialógicos. Quem escreve e quem lê pode, através da crítica respeitosa e responsável, oferecer oportunidades de mútua aprendizagem e crescimento pessoal e coletivo.

Ninguém é dono das palavras; somos todos seres que usufruem do poder que as mesmas tem de instituir, mudar e transformar o mundo.

Chegar a 1 milhão de acessos representa muito para nós que não perseguimos números e nem apostamos na pressa como forma de consolidação de conhecimentos. Ao invés de números, contam as pessoas, os processos e as ideias que, num processo acumulativo de conhecimento e numa perspectiva crítica e reflexiva, constroem redes de aprendizagem.

Todos os conhecimentos importam, mas somente os conhecimentos críticos e reflexivos são capazes de promover a humanização, aqui entendida como possibilidade de nos tornarmos seres humanos melhores.

Obrigado por tudo e por tanto, queridos leitores e leitoras! Obrigado pelo reconhecimento! Vocês são a razão da existência deste empreendimento de formação humana chamado site www.neipies.com

Acompanhem, leiam e compartilhem, cada vez mais, conhecimentos que geram humanização.

Citando e reverenciando Eduardo Galeano, encerro esta última crônica de 2023:

As pessoas escrevem a partir de uma necessidade de comunicação e de comunhão com os outros para denunciar aquilo que perturba e compartilhar o que traz alegria. As pessoas escrevem contra sua própria solidão e a solidão dos demais, porque supõem que a literatura transmite conhecimentos, age sobre a linguagem e a conduta de quem a recebe, e nos ajuda a conhecer melhor, para nos salvar juntos”. Leia mais: https://www.neipies.com/em-defesa-da-palavra/

Autor: Nei Alberto Pies, professor, escritor, editor do site, ativista de direitos humanos e membro da Academia Passo-Fundense de Letras.

Edição: A. R.

E se Jesus aceitasse a oferta do diabo e assumisse as terras? diálogo improvável: para rir, refletir ou pensar?

A literatura promove e provoca diálogos e realidades impossíveis ou imagináveis por pouca gente. É o caso nesta crônica, que remete a diálogos entre Jesus e o demônio. É um convite para você adentrar nesta história, livre de preconceitos. Daí, sim, podes rir, refletir ou mesmo pensar.

* Levou-lhe ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles, e lhe disse:  Tudo isto te darei se, prostado, me adorares. Mt 4-8,9

Bem, considerando que o diabo levou Jesus a um monte muito alto, teremos de supor que Jesus aceitou seu convite para a subida, caso contrário, poderia ter fuzilado o demo ali mesmo.  E ele aceitou, pois se tratava de uma tentação.  Você pode subir qualquer monte, como Jesus, mesmo as montanhas diárias, e nelas, sempre haverá fraquezas a romper. E você pode ainda subir mal acompanhado, tentado, com fome, farto de jejuns e de ausências, digamos. Mas suba!

A proposta em si não era ruim, do ponto de vista dos milhares de poderosos, hoje.  Um mundo de opulência e vaidade, uma quantia absurda de terras, colheitas, muitos escravos e empregados, muito poder.  E veja que para fazer uma oferta dessa magnitude, foi preciso levar Jesus ao monte, para que ficasse bem clara a proporção do latifúndio bíblico. 

Elas poderiam ter sido apresentadas ali mesmo, onde Jesus estava, em um mapa, por exemplo. Mas o diabo sempre anda sem mapas. E andar perdido, é a sua condenação eterna.

Subir ao monte muito alto, equivale a mostrar e impressionar a Jesus, apresentando a dimensão do negócio. 

Em uma terra disputada, já naquela época, imagine, uma terra fértil, a ainda sobre a posse, glória, ou seja, o poder, a aparência do poder, a extensão do poder.

Seria simples.  Jesus deveria se ajoelhar, fala o evangelho, prostrar-se. Uma equivalência a adoração. 

O diabo teria suas razões, mas foi com muita volúpia nesta oportunidade. Ele poderia ofertar os reinos, por exemplo, e mais tarde, combinar os termos, em um próximo Jejum, diante da fraqueza do Mestre, ou, mediante a incredulidade contínua de seus discípulos.

Mas, como o que vem do mal, vem precipitado e é sempre desonesto. Poderia o cão ofertar uma terra que não é dele?  Como pode ele tentar a Deus, se já estava escrito: ‘não tentarás ao senhor teu Deus’.  Temos um equívoco.  Senhor teu Deus?  Mas o diabo já não obedecia a Deus nenhum, uma vez que quis ser deus, ao seu próprio jeito.  E caiu.  Lucas, o evangelista, escreve inclusive que ele advogava para si este reino;  ‘ele me foi entregue e a dou a quem quiser.’ Lc 4-6. Como?  A sua pretensão nós a herdamos, decerto.

Primeiro tenta vender o que não é seu e depois afirma que lhe foi entregue?  Era o síndico da Galileia este diabo?

E não deu certo, não tinha como. 

O ponto é o seguinte:  quanto tempo Jesus e o diabo, caminhando, demoraram para chegar ao monte ‘muito alto?  A que distância do deserto e quanto tempo levaram para alcançar o cume? Uma hora de subida, mais ou menos?

-Mestre, não vai demorar minha proposta!  Já estamos chegando.  Sei de sua fome e sede, mas o que tenho a lhe dar, pode cancelar o ritual sangrento da cruz e ainda pode mudar  os rumos da humanidade, em seus próximos dois mil anos, por aí.

Jesus, cansado e faminto respondeu;

_ Seu demônio, procuras me tentar pois me sinto fraco.  Mas não tentarás o teu Senhor. E até porque tudo pertence ao meu Pai.

_ Mas, mas, eu fui excomungado da sua presença porque pedi demais.  Como não vou conseguir estes estádios de terra para um negócio futuro? E depois, Senhor?

Senhor? De quem?  Não de mim, pois eu fui expulso da família, esqueceu?  Só que porque brinquei de ser Deus, levei a pior e caí da presença de seu Pai.  Tudo sempre era com o anjo Gabriel… Nada pra mim.  Um dia, cansei.  Esqueceu que eu era da família? E então fui expulso, levando a culpa de tudo, até por coisas que nem fiz. E ainda o pior castigo: levar para sempre a culpa do que está no imaginário dos homens.  Por essa não esperava. Enquanto diabo, não me arrependo, mas dá vontade.

_ Apresse-te Satanás porque tenho pressa em ter com meus seguidores.  E muita fome.

_ Mas mestre, por que não transforma estas pedras em pão?

_ Porque não o quero.  O que tens para mostrar?

_ Aceita um cigarro?  Quer descansar? Eu sei que sou ruim, o centro de todos os males do mundo, vivo no seu meio. Sou mau de raiz, mas aprendo muito com os homens. E em meu nome, mesmo que não os autorize, você ainda verá a desgraça com que farão com a Terra, com ou sem a sua cruz. Com ou sem a sua salvação.

Abandona o seu sacrifício Mestre, assuma as terras, ponha seus discípulos a trabalhar, Pedro, o capataz, e, em seguida, pegue uma das galés e vá para Roma passar uns dias. Tenho um amigão chamado Pôncio, darei um jeito nas passagens.  Quer levar Madalena com você. Não há diabo que não goste de uma fofoca.

Vendo a impaciência de Jesus, desconversou.

_ Chegamos!  Estás vendo estas terras todas?  Estes Reinos? Expanda a vista.  É muito grande o terreno.  Veja a imensidão! Todas serão suas, basta me adorares. O negócio é rápido.  Ajoelhe rapidinho, fale que eu sou o teu senhor e assuma o pasto.

Mas o capeta não fez qualquer exigência. Conforme Lucas, foi de um tipo especial; ‘se prostrado me adorares’.  Ora, fazer um negócio deste tamanho, sem o consentimento de Herodes, o Rei do pedaço na época, seria temerário. Mas como não ouvir uma oferta tentadora, quando se está com fome, confuso?  Eis o momento em que a tentação toma forma. Agora, prostrado, seria demais.

Conversaram mais? Jesus teve paciência para a infinidade de mentiras ouvidas?  Foi uma caminhada em silêncio? Imaginando que tenha demorado três horas, Jesus faminto, 40 dias em oração e jejum pelo deserto, topa com uma tentação de poder, ao invés de uma tentação de alimento, fartura, uvas e vinhos sobre as pedras.  O diabo deveria ter pensado em outra estratégia. Desafiou Jesus a transformar pedras em pães. Um absurdo.  Oferecesse ele mesmo pães e água, e depois, satisfeito, a oferta das terras. 

Mas a estratégia sempre é o ponto mais fraco do tentador, em sua ânsia de seduzir e vender, atropelou os fatos e não encantou a Jesus, este sim, muito preparado para o que estava por vir. Nem o encantaria, claro.

E no topo do monte, que imagem!  A Galileia inteira sob seus olhos, uma imensidão de terras e pequenos povoados.  Jesus cansado, pelos dias no deserto e, agora, pela subida.  E ainda pelo sufoco em ouvir de alguém que lhe fizesse propostas, descansado. Vales a perder de vista, colinas com leves ondulações, onde o olhar o sol convinha a sonhadores e aos que pudessem ver…. Rios que se estendiam por mais vales, o Jordão, mais vilarejos…

O que de fato o diabo mostrou a Jesus?  Ali estava, representada, a Terra toda. A sua beleza, a sua herança, que, a frente de seu verdadeiro herdeiro, recebia a falsa oferta das mesmas paisagens, agora pelo usurpador. Como tem acontecido pelos séculos.

Tudo será seu, se me adorares!

Idiota! Nem um pão a oferecer, nada, nem um gole de água?  Que comerciante desumano, ops, pois que ainda não havia possuído a mente humana, até então, ficando apenas na descrição e no coração dos antigos.  Mas enfim, era o mesmo!

Descuidado e ganancioso, deixasse Jesus descansar um pouco, apreciar a paisagem, quem sabe esperar pela brisa do Jordão, para que a tentação da posse chegasse, e o fizesse um pouco interessado.

Porque era muito tentador, e satã o sabia muito bem.  Em tempo de disputas por palmos de deserto, ganhar de uma vez, um torrão bíblico nestas dimensões, poderia Jesus ter pensado…

E se ele aceitasse?  Tinha muitos irmãos a dar trabalho e pão, amigos, discípulos, gente de toda a Galileia, seguidores, quantos mais…

Aceitasse ele a oferta, no que seria a primeira posse de terras sem escrituras, porque não tinha como as transferir, Jesus estaria muito ocupado em fazê-las produzir e alimentar milhares.  Vinhas, oliveiras, campos de trigo, seus anos vindouros seriam os mais prósperos, em colheitas e poder.

O problema está no detalhe, o canto em que todos os diabos gostam de estar; a adoração que jurara ao cão.  Não haveria explicação ao seu Pai, evidente, pois que o enviou à Terra justamente para salvar os que que não queriam ser salvos. E o que dizer a sua Mãe, à João Batista, aos seguidores, a quantos mais?

_Senhores, dispersai a vossa fé, por ora, pois teremos uma cooperativa a administrar.  Imaginem na alegria dos fariseus e escribas?

E o mundo jamais seria o mesmo! Um mundo sem cruzes, sem santos, sem a quem adorar.  Um mundo sem fé é o que seguiria, sem qualquer amor ao próximo, sem empatia, sem devoção e muito desigual.

Ainda bem que Jesus resistiu à tentação e a vida dos que creem não é assim.  Antes, segue o curso da justiça, da piedade, da solidariedade… 

Ainda bem.

Esta crônica compõe a construção de uma peça de teatro: “A Tentação de Jesus”. Seguem alguns diálogos:

* A seguir, Jesus foi levado pelo Espírito, ao deserto, para ser tentado pelo diabo.

* E depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome…

* Levou-lhe ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles,

* e lhe disse:  Tudo isto te darei se, prostado, me adorares.

* Então, Jesus lhe ordenou:  Retira-te, Satanás, porque está escrito:

“Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele darás culto” Dt.6.13

* Com isto o deixou o diabo, e eis que vieram anjos, e o serviam.

(Mateus 4:1-11)

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu: A paz profunda do Natal dos que não tem nada:https://www.neipies.com/a-paz-profunda-do-natal-aos-que-nao-tem-nada/

Edição: A. R.

Uma vitrine literária feminina para encantar o leitor

PIBID foi um projeto de formação de professores realizado com muito êxito no Brasil. Para quem atua em escolas há um certo tempo, as boas memórias deste projeto reforçam a importância da formação de professores e professoras como uma política pública que, infelizmente, vem sendo negligenciada por diferentes governos e órgãos educacionais. Resolvemos publicar este texto, por sugestão de uma colega de profissão, para destacar a qualidade deste programa.

O Projeto do PIBID/Leitura 2014 teve como objetivo formar alunos leitores do ensino médio adeptos da leitura fruitiva e apreciação estética. Os eixos temáticos do Subprojeto de Letras evidenciados foram Encontro com a Mulher Autora e Leitura em meio eletrônico. Como em 2014 houve um movimento proposto por Joanna Walsh para se discutir a desigualdade de gênero no mundo da literatura e promover um equilíbrio de leitura tanto masculina como feminina, tendo em vista que há uma supremacia de autores buscamos nos inserir neste processo com a leitura da obra escolhida – uma autora que apresenta nove autoras de renome nacional e internacional.

Conheça mais sobre o PIBID: https://youtu.be/jezsXoedRZc?t=31

A questão proposta para reflexão foi por que editamos, publicamos, traduzimos, divulgamos, estudamos, discutimos menos a produção de ficção e de não ficção de mulheres? O que fazer para mudar isso? É importante então ler as obras de escritoras, valorizar outras profissionais mulheres do mundo editorial.        

Para tal a escritora criou um Tumblr com a tentativa de mobilizar as pessoas leitoras a abraçarem esta ideia. Os interessados podiam participar enviando trechos de livros de escritoras, fotos de pessoas lendo livros de mulheres, fotos das capas dos livros, listas de leitura, imagens de algum trecho, resenhas, links de vídeos no YouTube. Quem tinha Tumblr, era só usar a tag #leiamulheres2014. Se não tinha, podia enviar o conteúdo para leiamulheres2014@gmail.com. – See more at: file:///C:/Users/VAIO/Downloads/heloisa,+7+UMA+VITRINE+LITER%C3%81RIA+FEMININA+PARA+ENCANTAR+O%20(1).pdf

Todas estas informações foram compartilhadas com os alunos para que eles se incluíssem neste processo.

A leitura desvendando diálogos

Pensar na ficção de Adriana Lunardi em Vésperas é entrar num mundo labiríntico de histórias de vidas que se apresentam ao final e sintonizam dialogando entre si pela essência do fato de todas serem escritoras. É uma obra que engloba todas as outras obras num volume único, o que condiz com a conclusão de Roland Barthes (BARTHES, 1974, p. 77) de que “é isto o intertexto: a impossibilidade de viver fora do texto infinito”.  

Para Umberto Eco (1985) “só se fazem livros sobre outros livros e em torno de outros livros” (ECO, 1985, p. 40). Julia Kristeva (KRISTEVA, 1974, p. 64) apresenta o primeiro conceito de intertextualidade quando afirma que “todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto” que encontra influência da noção de dialogicidade textual de Mikhail Bakhtin, presente nesta complexa inter-relação entre todos os textos da obra.  

Compreendendo bem este jogo de vozes, as acadêmicas, em primeira instância, realizaram a leitura e análise da obra que foi ofertada aos alunos do Ensino Médio. Apesar da preocupação que as mesmas sentiam, tendo em vista que a temática dos contos era a morte, na verdade pela metodologia de leitura fruição e estratégias estéticas e literárias de aproximação com a obra, a aceitação foi plena pelos mesmos.

O olhar inovador da autora pelo qual foi possível transformar a vida de mulheres escritoras, poetas e romancistas em personagens da obra fez com que os alunos fizessem um passeio nos século XIX e XX: Virginia Woolf, Dorothy Parker, Colette, Katharine Mansfield, Sylvia Plath, Zelda Fitzgerald, Ana Cristina César, Júlia da Costa e Clarice Lispector para conhecê-las  como personagens e autoras em seus tempos e espaços, seus estilos e suas reflexões finais – as vésperas.

A cada encontro um tempo, um estilo e uma nova obra eram apresentadas como muito bem os alunos sintetizaram na elaboração de um túnel do tempo. Além do túnel, foi realizada uma viagem pelos espaços,para conhecer as cidades, países nos quais as autoras viviam o que possibilitou entender os costumes, comidas, flores, casas que dão vida a cada um dos contos. É a simbiose de realidade e ficção que se faz presente.

Para ampliar o conhecimento cultural das autoras fez-se uso do laboratório de informática para busca de mais histórias, vídeos e documentários, objetos referenciados, citações de outros autores ampliando a compreensão do texto para poder tecer todas as intertextualidades utilizadas no conto, sobre as autoras personagens. Esta busca histórica provocou uma grande mobilização por parte dos alunos, pois sentiam-se como numa caça ao tesouro, uma informação a mais que enriqueceria a história escrita pela Lunardi e eles quem sabe tornar-se-iam coautores do “texto infinito”. 

Foram realizadas inúmeras estratégias de aproximação com os contos entre elas: leitura oral compartilhada, leitura silenciosa, leitura dramática pelas licenciandas e pelos alunos, apresentações de vídeos, teatros, músicas, resumos, cronograma histórico das autoras personagens, passeio ao cemitério, inclusive. Como todos os alunos receberam um exemplar do livro, os mesmos podiam ainda lê-los no horário do almoço uma vez que em regime integral eles permanecem na escola. Quem sabe não haveria um túmulo de uma autora itajaiense com um belo epitáfio?  

Algumas reflexões pertinentes

Ler para e com os alunos essa obra representou ao grupo de licenciandas, não somente a experiência de refletir sobre a temática e ações docentes, mas também permitiu conhecer estas autoras clássicas da literatura universal.

Como houve este primeiro encantamento os alunos foram contaminados levaram a sério todas as atividades propostas e os momentos de leitura fruição.

Tal envolvimento provocou as pibidianas fazendo com que efetuassem planejamentos adequados e criativos para a realização das oficinas e leituras.

Ao final, ressalta-se a intertextualidade de conhecimentos na troca mútua de tudo entre todos para desvendar os segredos e pistas apresentados pela autora nesta obra aberta. Os objetivos foram atingidos ultrapassando as expectativas dos professores supervisores e da coordenadora de área.

Leia também: Escola boa é escola onde professores estudam: https://www.neipies.com/escola-boa-e-a-escola-onde-professores-estudam/

Autoras:

Deise Bressan: Acadêmica de Letras

Karine Maestri: Acadêmica de Letras

Natalia Mendes: Acadêmica de Letras

Cleide J M Pareja: Mestre em Letras pelas UFSC – Professora da UNIVALI – Coordenadora de área/PIBID

REFERÊNCIAS

BARTHES, R. O Prazer do Texto. Trad. M. M. Barahona. Lisboa: Edições 70, 1974.

BAKHTIN, M. Estética da Criação Verbal. Trad. P. Bezerra. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

COSSON, Rildo. Letramento Literário: teoria e prática. São Paulo: Editora Contexto, 2009.

KRISTEVA, J. Introdução à semanálise. Trad. L. H. F. Ferraz. São Paulo: Perspectiva, 1974.

LUNARDI, Adriana. Vésperas. Rio de Janeiro: Rocco, 2002.

Edição: A. R.

Do que você jamais deveria se arrepender

Ao fazer um eventual balanço existencial em mais um fim de ano, não se arrependa de haver doado, amado, perdoado, acolhido, pois o bem que fazemos durante o tempo de nossa vida terrena, ecoa por toda a eternidade. E lembre-se: a recompensa de quem ama é o bem de quem é amado.

Sempre que se aproxima o fim de mais um ano, proponho em meu coração que me empenharei ao máximo para que no novo ano que estar por nascer eu tenha cada vez menos motivos para me arrepender.

Sim, eu sei que as Escrituras nos exortam ao arrependimento constante (e aqui, não me refiro ao arrependimento simplesmente como metanoia, expansão de consciência, mas à tristeza que sentimos pelos erros cometidos, seguida pela determinação em não mais cometê-los). Todavia, se eu buscar errar menos, terei menos motivo de me arrepender, não é verdade? Não deveria ser este o nosso propósito, errar menos?

Geralmente, destacamos dois grandes motivos pelos quais devemos nos arrepender: pelo mal que fizemos e pela oportunidade de fazer o bem que desprezamos.

Dizem que os piores arrependimentos são justamente por aquilo que poderíamos ter feito, mas não o fizemos. Ambos os arrependimentos são legítimos e plenamente compreensíveis.

Todos conhecemos e já usamos alguma vez a expressão “se arrependimento matasse, eu já estava morto”, o que parece contrastar com a verdade bíblica de que Deus nos concede “arrependimento para a vida” (Atos 11:18) e de que “a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação” (2 Coríntios 7:10). Porém, há um tipo de arrependimento que, de fato, pode nos levar à morte, ainda que espiritual. Trata-se, na verdade, de um arrependimento que chega a ser ofensivo a Deus. Mas por incrível que pareça, é justamente este arrependimento que nos ocorre com maior frequência (ainda que não admitamos!).

Em Jeremias 34, a partir do verso 8, lemos que Deus havia feito um pacto com o Seu povo em Jerusalém através do rei Zedequias, exigindo que todos os escravos recebessem alforria. Ninguém mais poderia se servir de seu próximo como escravo.

Imediatamente, todos os príncipes e o povo em geral concordaram com os termos do pacto e libertaram seus escravos. Finalmente, uma mazela social que acompanhava a nação judaica desde sua formação estava com os dias contados. Judá seria a primeira nação a abolir a escravidão, servindo como modelo para todas as nações da terra.

Pode imaginar o sorriso no rosto de Deus?

O Criador de todas as coisas deu-lhes uma ordem, e eles, sem questionar, obedeceram… “mas depois se arrependeram, e fizeram voltar os escravos e as escravas que haviam libertado, e tornaram a escraviza-los” (v.11). Como assim? Se arrependeram de haver obedecido a Deus? É isso mesmo? Como é possível isso?

Este é o tipo de arrependimento que mata, pois nos afasta da fonte da vida, na medida em que nos desconverte, isto é, nos converte de volta a nós mesmos.

Toda conversão é resultado de arrependimento. Se há um arrependimento que nos leva de volta à fonte, há outro que nos aliena, provocando-nos uma conversão inversa.

Ninguém se arrepende de um bem que faz quando este lhe proporciona um bem ainda maior, principalmente se for imediatamente. A gente até se dispõe a obedecer, desde que esta obediência nos gere dividendos. Que benefício imediato adviria da libertação dos escravos? Nenhum! Pelo contrário, só prejuízo.

Sem os escravos a seu serviço, eles teriam que contratar mão-de-obra paga, ou arregaçar as mangas e trabalhar.

Triste constatar que muitos só fazem o bem que lhes traga vantagem. Por isso, muitos pregadores não fazem outra coisa que não seja prometer mundos e fundos, céu e terra, àqueles que se disponham a se submeter às regras. Até para contribuir com as obras da igreja precisam de garantias de que serão abençoados.

Sem que tenham vantagem, não movem uma palha. Ninguém parece fazer nada exclusivamente por amor. Quão distantes estamos de Deus ao pensarmos e agirmos com tal motivação, não?

Muitos pregadores acreditam que seu trabalho é convencer os fiéis das vantagens obtidas por se fazer o bem. Antes, as pessoas se contentavam com promessas que só seriam cumpridas na vida após a morte. Agora, não mais. Se o resultado de se fazer o bem não for imediato, não tem negócio!

Abolir a escravidão seria uma revolução que, antes de tudo, promoveria o bem dos próprios escravizados. De início, os que se achavam seus donos só teriam prejuízo. Por isso, se arrependeram. Enquanto eram exortados por Zedequias e pelos profetas levantados por Deus, na emoção do momento, todos toparam sem titubear. Mas quando a ficha caiu, deram para trás.

Jamais se arrependa de um bem que você faça, ainda que não resulte em qualquer benefício pessoal, nem mesmo num gesto de reconhecimento e gratidão. Às vezes, fazer o que é certo lhe trará muita dor de cabeça, prejuízo e ingratidão. Ainda assim, posso lhe garantir que terá valido a pena. Nada é mais gratificante do que saber que um gesto foi capaz de extrair um sorriso da face de Deus. E isso geralmente acontece quando tal gesto produz o bem de outros para além de nós mesmos.

Será que Jesus, o único que jamais pecou, alguma vez se arrependeu? Teria Ele se arrependido de haver escolhido Judas como um dos Seus apóstolos? Estou convencido de que não, mesmo levando em conta a traição de que fora vítima.

Dentre os textos atribuídos a Madre Teresa de Calcutá, nenhum me emociona mais do que o que nos admoesta a fazer o bem, ainda que nos custe caro.

Entre você e Deus

Muitas vezes, as pessoas são egocêntricas, ilógicas e insensatas.

Perdoe-as, assim mesmo.

Se você é gentil, as pessoas podem acusá-lo de egoísta, interesseiro.

Seja gentil, assim mesmo.

Se você é um vencedor, terá alguns falsos amigos e inimigos verdadeiros.

Vença, assim mesmo.

Se você é honesto e franco, as pessoas podem enganá-lo.

Seja honesto e franco, assim mesmo.

Se você tem paz e é feliz, as pessoas podem sentir inveja.

Seja feliz, assim mesmo.

O bem que você faz hoje pode ser esquecido amanhã.

Faça o bem, assim mesmo.

Dê ao mundo o melhor de você, mas isso pode nunca ser o bastante,

Dê o melhor de você, assim mesmo.

Veja você que, no final das contas é entre você e Deus e não entre você e os homens.

***

Portanto, ao fazer um eventual balanço existencial em mais um fim de ano, não se arrependa de haver doado, amado, perdoado, acolhido, pois o bem que fazemos durante o tempo de nossa vida terrena, ecoa por toda a eternidade. E lembre-se: a recompensa de quem ama é o bem de quem é amado.

“E vós, irmãos, não vos canseis de fazer o bem.” 2 Tessalonicenses 3:13

Autor: Hermes C. Fernandes

Edição: A. R.

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