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O que dizem seus stories?

Consideremos que a linguagem humaniza o homem e que por seu intermédio expressamos sentimentos, elaboramos pensamentos e passamos a interagir com o ambiente e com os outros. Qual o cuidado que temos com o que postamos na internet, com a mensagem que levam tais stories como nossa palavra?

Tem gente que não liga, enquanto outros, são ávidos por “abri-los”, seja no facebook, instagram ou no whatsapp®. Refiro-me aos stories, aquelas mensagens identificadas por um círculo colorido contornando a foto do perfil e que, de duração efêmera, podem ser vistas brevemente e por apenas uma única vez, pois são desabilitadas em 24hs. 

Numa rápida olhada em minhas redes sociais encontrei alguns desses sobre um passeio de final de semana de alguém, outros de alguma pessoa mandando indiretas ao parceiro de relacionamento, alguns com preces fervorosas de suas religiões (por louvor ou por estarem angustiados e com sofrimentos) e, também, o storie daquele que anuncia algum produto para venda. Há tantas outras formas de manifestações as quais, enfim, estão lá, lançadas ao espaço global e com um alcance inimaginável.

Por óbvio, me questiono: tais mensagens chegaram onde deveriam? Ou, ao menos, onde seus autores intencionavam? Não há dúvidas de que a WEB nos trouxe uma vida diferente; ainda que com seus perigos e suas desvantagens, é possível termos mais conforto, qualidade de vida e informações por seu intermédio.

Dentro de uma linha temporal, consta que a milhares de anos a forma mais primitiva de comunicação humana foi originária de sons, de gestos e de sinais, sendo que a escrita surgiu mais tarde, algo como há 15 mil anos a.C e decorrente das pinturas rupestres.

Consideremos que a linguagem humaniza o homem e que por seu intermédio expressamos sentimentos, elaboramos pensamentos e passamos a interagir com o ambiente e com os outros. Qual o cuidado que temos com o que postamos na internet, com a mensagem que levam tais stories como nossa palavra?

Em sua obra “Os quatro compromissos”, Don Miguel Ruiz nos apresenta um livro que trata da filosofia Tolteca, um povo de milhares de anos atrás localizado no sul do México e conhecido por ser de homens e mulheres de sabedoria. O primeiro compromisso daquele povo era o de ser “impecável com sua palavra”. É por meio da palavra que nos apresentamos ao mundo, ela carrega nossa intenção. Mais do que um símbolo que possa ser escrito, desenhado ou manifestado por uma ilustração, a palavra é força, ela tem o poder de elevar ou de arruinar alguém (não esquecendo que este alguém pode ser nós mesmos). 

Há uma mensagem cristã que diz que a boca fala daquilo que o coração está cheio; há uma letra musical de Pepeu Gomes que diz que o mal é o que sai da boca do homem; há um provérbio que diz que a ansiedade no coração do homem o abate, mas a boa palavra o alegra.

Isso entra em sintonia com uma das citações de Don Miguel Ruiz: “Você pode medir a impecabilidade de sua palavra pelo seu nível de amor-próprio. Quanto você ama a si mesmo e como se sente em relação a si mesmo são diretamente proporcionais à qualidade e integridade de sua palavra. Quando você é impecável com suas palavras, sente-se bem, feliz e em paz”.

Então, nas ditas redes sociais, para que nossa palavra (simbolizada pelos stories) chegue onde queremos e com a clareza de nossa intenção, tomemos mais cuidado, pois, como visto, nos apresentamos pela forma como dizemos as coisas. Prestando mais atenção sobre a maneira como nos expressamos estaremos realizando um belo exercício de autoconhecimento capaz de elevar nossa autoestima, de nos proporcionar momentos agradáveis além de, é claro, contribuirmos para um mundo mais pacífico e harmonioso.

Reserve suas angústias, ranços e rabugices para a sessão de psicoterapia, o psicólogo é o profissional que, além de compreendê-lo, poderá lhe prestar auxílio.

Autor: César A R de Oliveira.

Também escreveu 50 mensagens do Final do ano: https://www.neipies.com/50-mensagens-de-final-de-ano/

Psicólogo – whats app (54) 99981 6455 www.homemnapsicologia.com.br

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Edição: A. R.

A Paz profunda do Natal aos que não tem nada

Escrever aos que nada tem e ainda mais, aos que perderam o que tinham, é como abandonar nossas referências, que nos remetem quase que somente a posses.  É sobre encontrar parentes distantes, que visitam no Natal para apresentar seus bens, conquistas, compras, viagens. E a eles nada ter a dizer ou mostrar, apenas ouvir, pensar, aborrecer.

Há uma frase enigmática de Álvaro de Campos: “E a luxúria única, de quem já não tem esperanças?” 

Depois, Rubem Alves a parafraseia, dizendo: “não ter esperança é estar em paz, não ter causas por que lutar, o fim do esforço… Viver o presente, o presente apenas, como se o futuro já não se anunciasse, como se fosse inútil saber o que ele anuncia.”

Por isso resolvi dedicar este tempo e escrever aos que não tem nada neste Natal. É a contramão da contramão, é não querer estar em um mundo de fugitivos, andando na direção contrária e sempre parecendo estar fugindo (T.S.Eliot).

Escrever aos que nada tem e ainda mais, aos que perderam o que tinham, é como abandonar nossas referências, que nos remetem quase que somente a posses.  É sobre encontrar parentes distantes, que visitam no Natal para apresentar seus bens, conquistas, compras, viagens. E a eles nada ter a dizer ou mostrar, apenas ouvir, pensar, aborrecer.

Então escrevo a você, que nada tem a apresentar aos seus, ou que tem até menos do que acumulava em janeiro. Será uma conversa inócua, em sua família, sem nada a se orgulhar, nada a contrapor. E nada acumulado, nada comprado, nada entesourado. Nada investido, igualmente, nenhuma viagem planejada, nem reformas em casa, troca de carro, sem troca de nada.

Será uma visita curta neste feriado, neste Natal, uma fala protocolar, pois nada há para ser exibido. Talvez contas, atrasos, pendências, juros de todos os pesos a pagar e um calendário cruel, ameaçador, que nos observa o mês inteiro, avisando que que nada se pode gastar, além do dia 5.  Mas o Natal é 25. Mas quem irá ouvi-lo?

Por outro lado, este pode ser um tempo de salvação.  Uma possibilidade única ao se apresentar a quem faz aniversário, de fato, e uma oportunidade para rezar. Que tal a sugestão abaixo?

_ não tenho bens para agradecer meu Senhor, nem terras ou casas. Meu saldo é nenhum. Mas hoje estou ao seu lado e aqui será meu lugar.

Tenho carências, de todos os tipos, em preces não atendidas, em uma fé despedaçada, em doenças que se acumulam, em filhos que exigem, vizinhos que ostentam muitas coisas, anúncios que me tentam e que não quero tê-los, convites para comprar e comprar, e ser feliz comprando.

Portanto, perdoa meu caro Senhor, se hoje, no seu dia, não o agradeço por bens. Nada trago a sua mesa. Agradeço por respirar. Tenho tempo, muito tempo para ouvi-lo, parabenizá-lo, contemplá-lo. Mas nada em mim prosperou este ano, e no banquete que se forma logo mais, até a gratidão desvanece.

Neste dia, apresento a minha vida pelo seu nascer e pela sua cruz.  Ela deveria ser minha, pelo menos em parte, e o seu peso, marcar meu caminho.  Mas você a tomou para si.  Nada mais importa.  Preciso dividir sua dor e suas lágrimas, para que sua carga seja menor.  Não estava lá, nem aqui estou.  Vivo na passagem dos que dizem segui-lo, mas não o seguem por inteiro. De suas palavras no calvário, permanecem somente as que lhes são suaves. Porque nada me é dividido e a ninguém divido, igualmente.  Em seu clamor e dor intensa, em seu abandono, Senhor, ficamos todos aqui, de costas ao seu nascimento e morte e em frente à festa do que nos é conveniente brindar.

Exatamente como o fizeram todos os que o seguiam, pois assim não foi mais dividido e, a cruz baixada, ninguém o acudiu.

Logo será meia-noite, fogos e brindes, em alegrias a que não fui convidado. Nem você. Nem o seríamos, uma vez que não há nada para levar ou comer e o que estava reservado a mim e aos meus, para o dia, esgotou-se pela manhã.

Será a ceia dos ausentes, dos invisíveis deste tempo, dos que se sentam à mesa apenas para rezar e contar as horas.

Vivo agora, o conforto dos que nada esperam. Fique em paz meu Jesus, hoje nada vou pedir, nada quero receber. Neste dia, onde haveremos de lembrar sua vinda, hoje, tudo importa.  Amanhã, os presentes não devolvidos, retornarão aos seus armários.

Permita seguir os seus passos, então, pois sabemos que os que nada tem, sempre serão aceitos. E luto comigo mesmo para que neste vazio em possuir agora, jamais me abrace a esperança. Como em seus últimos dias. Deixe-me segui-lo para qualquer lugar, e ter o pão de hoje, somente, como nos ensinou, e em troca nos dê a paz profunda dos que anseiam pela insignificância. Viver como o Senhor viveu, este será o meu propósito de vida. Não ter nada, ser tudo!

E ao encerrar a sua oração, como aqueles sem paladar, nem sede a saciar, livre de desejos, repousará em sua alma a paz dos que não carecem. Apenas seu Deus!

Então, eis o espírito de Natal.

Mas e a esperança? 

_ Meu caro leitor, sempre haverá, se entender que, sim, há um propósito em nada possuir, uma essência inexplicável, que aproxima criatura e criador. E nessa ausência de tudo, em meio ao deserto, vê-se uma partícula de esperança, um retalho de luz, que sempre esteve ao seu alcance. A escassez, nunca foi e nem o será para sempre. Percebendo-se filhos de Deus, somos condenados à espera de sua fonte de riquezas.

Não esqueça, que para além dos 40 dias no deserto, após sua solidão e tentação, jesus foi servido pelos anjos. Daí que o seu deserto pessoal, hoje, não é definitivo. E o seu caminhar nesta hora, neste vale estéril, tornará seu desejo mais forte. Na solidão do ano, em todas as suas perdas, em sua cesta vazia ao fim de cada mês… O futuro sombrio e distante, a se perder de vista, não é e nem será eterno. 

Atravesse o deserto!

Sobretudo, se ele se formou a pouco! Pense um segundo nos que já nasceram nele e que, em sua rafa, nunca saíram desde a infância. São os nômades da esperança, sempre, e que habitam as periferias, as baixadas, o que restou, e onde a beleza da vida em toda a sua abundância os abandonou.

Creia, você nunca esteve só!

Mas caso desistir, e não agarrar o fiapo de esperança que lhe será entregue nesta noite, assim como a maioria dos que rejeitam seus fardos desistiu, tome alento, e aproveite mais um Natal sem sentido. E o faça bebendo as gotas que borbulham em sua garrafa, juntamente com o seu vazio.

Feliz natal, se for o caso.

Referência:

Querida Marina… (Rubem Alves. Folha de S. Paulo, 13 de out de 2009)

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu “Um novo Natal para pensar”: https://www.neipies.com/um-novo-natal-para-pensar/

Edição: A. R.

Educação para sonhar, esperançar e ser feliz

“A gente não quer só comida, /A gente quer comida, diversão e arte. /A gente quer saída para qualquer parte. /A gente quer bebida, diversão, balé. /A gente quer a vida como a vida quer” (Titãs)

Pergunta-se frequentemente: Qual é a necessidade dos estudantes, particularmente as crianças, adolescentes e jovens excluídos? Aos pobres basta a comida? Basta o acesso à escola ou universidade? Esses são direitos fundamentais, mas não são suficientes.

Os estudantes e excluídos tem fome de dignidade, de serem reconhecidos como “pessoas”, necessitam afeto, amor e felicidade. A alegria, a felicidade e a liberdade são necessidades tão fundamentais como a “comida”, o abrigo, a saúde, a proteção e a reprodução.

Nas últimas cinco décadas as nossas sociedades ficaram obsecadas com a economia, com o Produto Interno Bruto, com melhorias em indicadores de diferentes áreas. Isso criou muito estresse e pôs o foco nas conquistas, mas não na saúde física e mental. Com a pandemia as pessoas têm abordado o bem-estar geral a partir de uma perspectiva individual: spas, academias, mindfullness, resiliência, viagens, prazeres e desejos baseados em mais consumo.

Consumo traz felicidade? 

Para Gilles Lipovetsky, em A Felicidade Paradoxal, a “civilização do desejo” está alicerçada no hiperconsumo, mercantilização dos modos de vida, exacerbação do gosto pelas novidades, cujo Cogito diz: “Compro, logo existo”. Se antes se tratava de consumir para exibir posição social, agora se busca, no imediatismo dos prazeres, maior bem-estar, mais qualidade de vida e felicidade por meio de um consumo intimizado, emocional, voltado para as satisfações privadas.

Para formar a mentalidade humana cuja felicidade se expressa no hiperconsumismo, requer-se uma educação baseada na narrativa do sucesso meritocrático e na retórica da ascensão, a promessa de que as pessoas que trabalham duro e seguem as regras, merecem ascender até onde os seus talentos e sonhos os levarem.

Atenção para a armadilha: esta educação meritocrática reforça o discurso das responsabilidades pessoais e transfere os riscos para os indivíduos, no caso, os jovens estudantes, livrando governos, empresas e instituições de suas corresponsabilidades. Porém, a causa dos níveis exagerados de sofrimento emocional entre pessoas jovens, inclusive de famílias abastadas, tem muito a ver com o imperativo meritocrático: a severa pressão por desempenhar, realizar, alcançar o sucesso profissional individual.

Paradoxalmente, a felicidade está mais no coletivo do que no sucesso pessoal, mais na comunidade e na vida escolar e acadêmica do que no sucesso profissional individual. Logo, a educação, tem o dever ético em contribuir com a felicidade e o bem-estar de nossos estudantes, através de uma pedagogia dialógica, de escuta e de olhar atentos, de respeito aos saberes discentes, das culturas e sonhos de cada sujeito estudante.

Nos últimos anos, cada vez mais sociedades – muitas delas com líderes mulheres – têm se concentrado na qualidade de vida, para além do desempenho ou da posição econômica. Nossa proposta é que, nas escolas, pensemos em como ajudar os jovens a refletir sobre a qualidade de vida deles e seus propósitos, projetos, sonhos, sentindo-se felizes, sujeitos de um modo de viver que os realizem.  

Alegria e tristeza são, pois, os dois afetos, os dois sentimentos fundamentais de todo ser sensível. Eles permanecem totalmente tributários das causas exteriores que os produzem.

Todos os nossos afetos, explica o filósofo Espinosa, são fruto de nossa natureza própria, de nossa condição humana, de nosso ser e de nossa potência de agir específica. Portanto, cada um de nós deve aprender a se conhecer para descobrir o que nos faz feliz ou infeliz, o que lhe é apropriado ou não, o que aumenta a alegria e diminui a tristeza. Por esta razão não deseje a felicidade de Outrem, pode não ser a sua e ainda ser nociva para você, adverte o filósofo da alegria.

Na perspectiva educacional, a principal contribuição, segundo o filósofo Espinosa, é a recuperação da importância das emoções ao desenvolvimento humano e social. Ele associa de forma original e genial as paixões tristes à servidão, porém isto não significa que ele demoniza as emoções ou nos incita a combatê-las. Ao contrário, ele coloca na afetividade a possibilidade de superação de todas as formas de desmesura do poder, individual ou social.

O objetivo de sua filosofia e da educação é a desvalorização das paixões tristes e a denúncia daqueles que a cultuam e delas dependem, no jogo político das relações de poder. Mas também é o estímulo a afetos positivos, derivados da alegria, por considerá-la a base da autonomia. Daí sua recomendação de que, para se atingir a democracia, é preciso fortalecer emoções alegres e a felicidade – recomendações importantes à educação. 

Não é semeando o medo que se reforçam laços de solidariedade, porque ele destrói o desejo, reduzindo os seres humanos à condição de feras ou de autômatos. Também não é propondo receitas ou ditando imperativos de seja feliz.

É preciso repensarmos a escola, não somente como fonte de sucesso ou evolução de toda uma sociedade, mas como um dos primeiros locais institucionalizados pelos quais passa um ser humano em formação, seja ele criança, adolescente ou jovem. É um dos locais em que ele estabelecerá as primeiras relações, após a família; é onde terá importantes experiências de vida em grupos.

Esperamos que a escola forneça importantes orientações na vida deste estudante e os auxilie a desenvolver-se como cidadão, ser humano, de forma a desenvolver conhecimentos, autonomia e capacidades de reflexão.

A vida escolar e a vida universitária são momentos extraordinários para promovermos a convivência, a formação de laços de amizade e afetividades positivas, relações desinteressadas e sólidas, vida escolar e vida universitária como referência e propósitos prazerosos, em instituições justas e ambientes agradáveis de convivência, orientados por perspectivas de gestão acadêmica humana, profissional, comunitária, horizontal, democrática e feliz. Enfim, quanto mais humanos formos no espaço e no tempo de vida escolar e universitária, mais felizes seremos.

Como programa, a desesperança nos imobiliza e nos faz sucumbir no fatalismo onde não é possível juntar as forças indispensáveis ao embate recriador do mundo. Não sou esperançoso por pura teimosia, mas por um imperativo existencial e histórico, dizia Paulo Freire. Por uma educação para esperançar, sonhar e ser feliz. É possível!

Consumir: um desejo universal, que nos cerca em todo o lugar. Consumimos para suprir necessidades básicas, mas também para sermos felizes e encontrar o nosso lugar no mundo moderno. Neste programa, Leandro Karnal percorre o universo de lojas populares, conversa com especialistas e personagens da alta sociedade em busca da resposta para a pergunta: o que nos faz comprar? https://youtu.be/Uv3KGDYihCk?t=5

Autor: Gabriel Grabowski. Também escreveu: “O que nos educa é a esperança”: https://www.neipies.com/o-que-nos-educa-e-a-diferenca/

Edição: A. R.

Quem vem lá? Quem vem lá para fracionar e levantar as pedras ao Sul do Brasil?

O autor João A Sartori fez seu primeiro lançamento de livro. A obra nasce no contexto missioneiro, tem 300 páginas e possui vários blocos diferenciados e que se interligam naturalmente.

O conteúdo reporta à história jesuítica-guarani. Retrata, em suas páginas, também a inclusão do trabalho do escravo negro na construção dos sítios dito jesuíticos-missioneiros.

Excelente leitura, apaixonante, vai te levar da vida na aldeia à luta da mulher nos períodos de crises para o sustento do lar, à influência das forças da natureza, à caça, ao enfrentamento rude entre o homem e as feras, à guerra, ao misticismo, à racionalidade, à humanidade posta à prova, ao peso do alimento nas sociedades não acumuladoras, às pajelanças e à chegada do homem pálido e de diversas nacionalidades.

As perplexidades, a interação entre culturas diferentes, as culturas do homem tecnicista e do homem natural nos sertões da colônia Brasil; a visão do homem de pele com pigmentação negra e destes de seus destinos e sua nova condição social nas fazendas e em engenharia de seus senhores.

Depois, vai para o Jesuíta, seus projetos, suas análises, considerações e seu domínio.
Mais adiante, como o escravo negro se inseriu no processo de fracionar e levantar as pedras (as mais pesadas e não ditas pelo autor) para levantar paredes ao Sul do Brasil.

Reserve o seu e tenha acesso a este inédito material.

Contato João A Sartori: (55)9 9995 2955.

E-mail: sepegritaliberdade@hotmail.com

Edição: A. R.

Um pouco de poesia

Por muitas vezes desejei que a vida tivesse gosto de mistério; que minhas certezas, tão pouco prováveis, soçobrassem aos caprichosos devaneios que nos entregam devedores de respostas.

Acredito que algumas pessoas compõem com o mundo, se colocam de tal modo que parecem atender a uma espécie de destinação. É como se ouvissem um clamor próprio e habitassem o mundo em uma proximidade poética. Criam um modo de vida incapaz de provocar o que existe, encantando o tempo para que a crueza dos dias seja menos estúpida.

O poeta é um encantador do tempo, sabe acolher o passado, o presente o futuro, abertos em suas inteirezas, dispondo-se ouvindo a voz da sua própria condição. “Encantar o tempo, é isso que devemos fazer a todo instante, laçar a vida e ir segurando no exato limite que ela, ao ir se soltando, não nos deixe com a sensação de que não somos nada”.

Quanto mais encantamos o tempo, mais contamos histórias, pois somente as contamos porque, de alguma forma, nos sobramos no tempo. É como se permanecêssemos nas pequenas coisas, por alguns instantes, e pudéssemos narrar uma história sobre nós mesmos.

Saber ler sem a pressa dos “alfabetizados” que devoram informações; ler como quem compreende menos a palavra e mais o dizer; demorar-se e ao esticar-se no espaço-tempo, experimentar a completude de uma vida singular. Da altura da minha percepção enviesada, desejo encantar o tempo para entregar a cada um dos outros uma história menos difícil de ser vivida.

Meus sonhos estão cá fora do mundo, lugar devido das paradas reais, os outros, heróis de carne, homens simples, príncipes eventuais…”

Por muitas vezes desejei que a vida tivesse gosto de mistério; que minhas certezas, tão pouco prováveis, soçobrassem aos caprichosos devaneios que nos entregam devedores de respostas. Sei que nada nos impede de sermos açambarcados pelos pasmos dos encontros primeiros, mesmo que cansativamente acontecidos, mas temo que a explicitação absurda das cruezas humanas impossibilite as experiências e nos entregue ainda mais empobrecidos.

No limite, poderíamos compreender nossa própria existência como repetição, pois de alguma maneira antecipamos nosso modo acontecendo, assumindo possibilidades já lançadas. Creio, contudo, que há algo que resvala, que fica ali, a mexer conosco, tentando empurrar espessura para nossa fisionomia existencial.  Não sei o tamanho e nem o quanto, mas podemos fazer algo, “tenho por isto a entrega do que me sou”.

Autora: Marli Silveira. Poeta e Escritora. Acadêmica da Academia Rio-grandense de Letras. Também escreveu: “O dizer poético”: https://www.neipies.com/o-dizer-poetico/

Edição: A. R.

Formaturas de Ensino Fundamental na perspectiva dos pais e mães

O mês de dezembro de todos os anos letivos marca a história de uma Escola de Ensino Fundamental. A chegada dos estudantes ao nono ano do Ensino Fundamental é a maior conquista e o maior troféu que a escola pode exibir. É a demonstração de uma caminhada que se traduz em uma história que envolve superação, dedicação, amor e afetividades, desafios de aprendizagem e muita convivência.

Esta matéria destaca a fala de uma mãe que, no dia 19 de dezembro de 2023, em nome dos pais e mães presentes, manifestou-se de maneira emocionante e contundente, valorizando o empenho dos estudantes, o trabalho dos professores e professoras e a participação ativa dos pais e mães na vida dos estudantes formandos 2023 da Escola de Ensino Fundamental Zeferino Demétrio Costi.

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Prezados formandos, professores, familiares e convidados especiais!

Hoje é um dia de grande alegria e emoção: um dia em que celebramos não apenas a conclusão do ensino fundamental, mas também os laços que foram criados e fortalecidos aos longo desses anos de estudos, vivências e aprendizagens.

Queridos formandos: olhamos para cada um de vocês com corações cheios de orgulho e admiração e também reconhecemos o desenvolvimento de suas habilidades, caráter e personalidades únicas.

Tenho certeza que, para nós pais e mães, lembramos do primeiro dia de aula, quando segurávamos as suas mãozinhas enquanto entravam na escola, ansiosos e cheios de curiosidades.

Desde então, testemunhamos a evolução de cada um, as primeiras palavras escritas, as primeiras palavras lidas, as amizades se fortalecendo, tivemos a pandemia e passamos por ela, foram tantas provas, trabalhos, apresentações, desafios que contribuíram para o crescimento, aprendizado e para construção de uma base sólida para cada um.

Vocês se tornaram não apenas estudantes dedicados, mas jovens adultos prontos para enfrentarem as surpresas e desafios que o Ensino Médio trará.

Nunca esqueçam: o aprendizado vai além dos livros e das salas de aulas, a resiliência, a amizade e a empatia que cultivaram aqui serão fundamentais para o sucesso em todas as jornadas futuras.

Neste momento, queremos incentivar cada formando a abraçar o futuro com dedicação e entusiasmo, pois a cada ciclo que se inicia, surgem oportunidades e descobertas incríveis. Estamos confiantes de que vocês estão preparados para enfrentar qualquer desafio que possa surgir. Sejam compassivos, perseverantes e mantenham viva a chama da curiosidade que os trouxeram até aqui.

Professores, professoras, diretora, coordenadora e demais funcionários: queremos expressar nossa sincera gratidão, seu compromisso incansável. Vocês foram mais do que instrutores, foram mentores, guias e inspirações. O impacto que tiveram nas vidas desses jovens foi imensurável, e estamos agradecidos por seu empenho e amor pela educação.

Filhos e filhas, sempre estaremos aqui para apoiá-los em suas escolhas, continuem a perseguir seus sonhos com paixão e determinação. E não esqueçam: o aprendizado, o conhecimento é contínuo e ninguém no mundo tirará isso de vocês.

Parabéns a todos os formandos e agradecemos a cada um de vocês por encherem nossas vidas com alegria e orgulho e que o futuro reserve muitas realizações e sucesso.

Amamos vocês!!! Obrigada!

Mãe: Rosiane de Quadros

Filhas: Ana Clara de Quadros Colla (formanda ZDC 2021) recebeu medalha de honra ao mérito no Ensino Médio – Colégio Tiradentes. Rafaela de Quadros Colla (formanda 2023) conquistou Bolsa integral Integrado UPF. Estudantes estudaram na Escola EMEF ZDC desde o primeiro ano do Ensino Fundamental.

Em 2022, também repercutimos formatura de estudantes EMEF Zeferino Demétrio Costi: www.neipies.com/a-importancia-de-uma-formatura-de-ensino-fundamental-sob-a-otica-de-uma-escola/

FOTOS: Divulgação/arquivo pessoal/Escola EMEF ZDC.

Edição: A. R.

Democracia e Educação

Defender a democracia como forma de vida e a escola como espaço de experiências democráticas constituidoras de uma sociabilidade solidária e de respeito a singularidade dos sujeitos significa combater a mentalidade tecnicista que aparelha os espaços escolares para formar mentes e corpos subservientes.

Não resta dúvida de que John Dewey (1859-1952) está sendo reconhecido como um dos mais importantes filósofos e educadores do século XX e que sua obra foi responsável por influenciar processos educacionais e filosóficos de diversos países.

Dewey contribuiu imensamente para a metafísica, a epistemologia, a filosofia da mente, a filosofia da ciência, a filosofia da arte, a filosofia da educação e a filosofia social. Ele concebia o aprendizado como um processo continuo que dura a vida inteira e para tanto, a educação tem um papel imprescindível durante toda a vida humana, uma vez que nosso filósofo/educador acreditava que o mais significativo de um aprendizado é a solução habilidosa de problemas.

A educação para Dewey não é um processo que se limita ao âmbito formal da escolarização.

Em Democracia e educação, uma de suas principais obras, ele faz uma distinção entre educação no sentido geral e a educação formal. Esta (educação formal) é um ambiente controlado e simplificado, onde são simuladas situações sociais para que jovens e crianças possam ser estimulados e guiados para a solução de problemas. A educação geral, por sua vez, resulta das interações normais e pessoais de pessoas que convivem em um determinado contexto.

O grande erro, diria Dewey, reside no falso pressuposto concebido por muitos de que a capacidade de aprender tenha atingido um estágio final de maturação e que, portanto, em uma determinada fase, não há mais necessidade de modificação. Para nosso filósofo/educador todos nós precisamos de educação ao longo da vida, porque a necessidade de buscar uma melhor solução de problemas é um desafio que nunca se esgota.

Historicamente, muitas teorias e escolas educacionais tentaram fixar hábitos de controle comportamental, de atenção, de disciplina, de imitação de habilidades. No entendimento de Dewey, tais teorias e escolas não deram conta da complexidade das experiências formativas e acabaram se tornando uma forma medieval e hierárquica de sociedade que necessitam ser superadas.

Uma sociedade democrática requer um sistema educacional que possa ir além de processos mecânicos de memorização ou de aquisição de habilidades previamente estabelecidas. A efetiva participação de uma sociedade democrática pressupõe muito mais do que a aprendizagem de uma forma de vida fixa postulada por fatos, regras e habilidades estipuladas previamente por uma autoridade, pois uma democracia não pode cair na suposição errônea e perigosa de que há uma lista fixa de informações e saberes ou mesmo de habilidades e competências que permite a um adulto ser bem-sucedido durante toda a vida.

Nas análises de Dewey, essa forma errônea de compreender a educação apartada da vida é resultado de um dualismo que provém de um longo processo histórico e que se instaurou na nossa cultura filosófica e educacional. Por isso, podemos dizer que um dos principais objetivos de Dewey é combater e superar as concepções dualistas que estão presentes nas nossas formas de ver o mundo tais como teoria e prática, mente e corpo, interesse e esforço, trabalho e lazer, juízos físicos e juízos de valor, saber científicos e saber moral, pensar e agir, mundo sensível e mundo inteligível.

Num cenário conturbado em que estamos vivendo, fortemente polarizado pela forma como são apresentados os acontecimentos que estão em curso, tempos em que se coloca em questionamento a democracia, as conquistas sociais e os direitos humanos; tempos em que emergem certos posicionamentos reacionários e que ameaçam o estado de direito; tempos de discurso de ódio, de louvação à irracionalidade; tempos de apologia às armas, de violência física e verbal, de proliferação dos mais perversos preconceitos; o pensamento de John Dewey pode se apresentar como luz para combater o obscurantismo e a decadência humanitária que ameaça a convivência plural, a diversidade e a forma de vida democrática.

Defender a democracia como forma de vida e a escola como espaço de experiências democráticas constituidoras de uma sociabilidade solidária e de respeito a singularidade dos sujeitos significa combater a mentalidade tecnicista que aparelha os espaços escolares para formar mentes e corpos subservientes.

Se almejamos uma sociedade justa, promotora de equidade, sensível aos problemas ambientais e ao combate à pobreza, a concentração de renda, à violência e a todas as forma de preconceito, então necessariamente a escola deve ser um tempo e espaço democrático de humanização, socialização e singularização.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero altairfavero@gmail.com

Professor e Pesquisador do Mestrado e Doutorado do PPGEDU/UPF. Também escreveu: Educação não pode ser reduzida a treinamento: https://www.neipies.com/educacao-nao-pode-ser-reduzida-a-treinamento

Edição: A. R.

Como se produziu o ódio atual no Brasil?

Relatório problematiza algumas questões: “Como se produz o ódio atual no Brasil e quem são seus agentes? Quais são as motivações e que estratégias mobilizam e alimentam o ódio? A quem interessa a produção e a manutenção do ódio? Que possibilidades se apresentam e que perspectivas existem para o seu enfrentamento? A educação tem alguma contribuição a oferecer?

O Relatório do Direito Humano à Saúde no Brasil 2022 objetiva refletir a temática do direito humano à saúde a partir do discurso do ódio que abalizou o país naquele ano. Se é amplamente aceito que esse discurso do ódio, anulador da alteridade, é uma das marcas da história brasileira, também é verdade que a partir do governo Bolsonaro ele ressurge e se acentua. Como decorrência direta do bolsonarismo direitos foram violados, as eleições de 2022 se tornaram um campo de Fake News e a democracia brasileira assistiu a uma das suas maiores crises em função de mais um golpe em curso.

Eis uma das grandes tarefas das forças democráticas e dos movimentos e entidades que lutam pelo direito à saúde: manter-se vigilante. Afinal, como nos lembra Bertold Brecht, “a cadela do fascismo está sempre no cio”, e não há saúde sem democracia, assim como não há democracia sem saúde.

Leia também: Sempre no cio…: https://www.neipies.com/sempre-no-cio/

Nessa esteira, o Relatório problematizou algumas questões: “Como se produz o ódio atual no Brasil e quem são seus agentes? Quais são as motivações e que estratégias mobilizam e alimentam o ódio? A quem interessa a produção e a manutenção do ódio? Que possibilidades se apresentam e que perspectivas existem para o seu enfrentamento? A educação tem alguma contribuição a oferecer?” Essas questões são postas como centralidade pelo professor Eldon Muhl, ao refletir sobre o tema em A cultura do ódio e o ódio à racionalidade: os desafios das lutas populares no Brasil.

Para a produção do Relatório do Direito Humano à Saúde 2022, adotaram-se metodologia e formato diferentes das edições anteriores, pois compreendeu-se que o momento exigia uma reflexão acerca do tema e busca de estratégias de resistência e enfrentamento; como diz a epígrafe do texto “A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas para a educação” (Adorno, 1995, p. 119). E poderíamos acrescentar: para a luta dos direitos humanos e do direito humano à saúde.

Neste sentido, a riqueza do texto está na sua grande capacidade de “radiografar” os tempos atuais a partir das contribuições da Escola de Frankfurt e de ter sido discutido junto aos movimentos e entidades do Fórum DH Saúde.

No entanto, como escreve Eldon, no quarto item do texto, intitulado “Perspectivas e desafios das lutas populares no Brasil”,

“[…] não podemos ser ingênuos sobre o poder destrutivo do ódio, suas práticas ampliadas pela indústria cultural e a economia sustentada na violência. O enfrentamento dos mecanismos de manipulação e das patologias produzidas exige esclarecimentos sobre a produção e a reprodução do ódio e, ao mesmo tempo, a manutenção das condições que tornam possível o seu enfrentamento.”

O Relatório quer se constituir em um recurso, dentre muitos outros, que contribua nesse enfrentamento, pois faz-se necessário desvelar o ocultamento da discussão para construir estratégias de resistência e enfrentamento. Com isso, reafirmamos o objetivo do Relatório: contribuir com afirmação da democracia, do controle social, da organização social popular e da luta pelo direito humano à saúde.

Assim como nas edições anteriores, o Relatório Direito Humano à Saúde no Brasil 2022 é uma iniciativa do Fórum DH à Saúde e conta com o apoio da Misereor. Reiteramos o nosso desejo de que este Relatório, feito a várias mãos, fortaleça e nutra nossa esperança de estarmos sempre em movimento, comprometidos com a luta pelos direitos humanos e por um mundo melhor para todas e todos.

O ódio e o discurso do ódio na sociedade atual

O ódio com um fenômeno social decorre de contextos e de indivíduos que o mantêm. Sem a manutenção individual e grupal, o ódio não se desenvolve e não se reproduz. Ainda que possamos ter desejos destrutivos como indivíduos, eles somente se tornam efetivos quando os compartilhamos em grupos e os desenvolvemos em práticas objetivas. Ou seja, o ódio somente se manifesta de forma efetiva quando surge o discurso do ódio, isto é, o “discurso oral ou escrito que seja abusivo ou ameaçador e expresse preconceito contra um grupo específico, principalmente com relação à raça, religião ou orientação sexual” (Dicionário Oxford, apud Gomes, 2021, p. 474).

O ódio não é uma manifestação instintiva e espontânea, mas um ato que envolve alguma intencionalidade e determinação coletiva. Ele se configura nas interações que o instruem e alimentam, o que significa que ele precisa sempre da agregação entre os indivíduos para se tornar uma força capaz de promover ações de violência e agressão.

Nos termos de Gomes: os ideais que sustentam o discurso de ódio estão engendrados no tecido social, determinando o modo de agir de certos grupos da sociedade, organizados ou não. Assim, o afeto “ódio” se materializa por meio da linguagem, inserindo-se na forma de um conjunto de valores, no registro simbólico que dita tanto as relações entre os sujeitos quanto aquilo que cada um se percebe capaz de tolerar (2021, p. 474).

Discurso de ódio é a comunicação pública que procura degradar simbolicamente grupos e pessoas historicamente oprimidos ou sistematicamente discriminados. Como já dissemos, trata-se de uma forma consciente e intencional de gerar simbolicamente iniquidade entre pessoas por conta de uma categoria coletiva: origem, cor da pele, gênero, religião, orientação sexual, entre outras.

As intenções desses discursos podem variar, expressando sentimentos, xingamentos, defendendo ideologias, justificando desigualdades, relativizando a violência e a discriminação, expressando crenças religiosas, buscando visibilidade, mobilizando seguidores, coordenando atos de violência, sustentando governos retrógrados, além de através de outras expressões.

Assim como no antissemitismo, o ódio hoje existente é o ódio do indivíduo frustrado sobre si mesmo e seus iguais, igualmente fracassados. No entanto, é preciso atentar que o ódio não é essencialmente alimentado pela emoção ou pelo afeto, mas por uma ação afetiva que tem levado ao desenvolvimento de um dos elementos centrais desse conceito: o de que se trata de uma forma de discriminação concreta, objetiva, ou seja, de uma forma de exclusão construída sobre relações de poder baseadas em características coletivas, racionalmente justificado.

O ódio já não mais se apresenta como um sentimento de negação, mas como uma atitude de negação justificado por explicações históricas ou por argumentações consideradas resultantes de uma racionalidade cientificamente desenvolvida.

Os resultados desse processo são o embrutecimento humano e a submissão do indivíduo à condição de sentir-se incapaz de agir e reagir ao processo de dominação existente. Nessa situação, corpo e mente são paralisados pelo medo e ficam enrijecidos como cicatrizes, tal qual esclarecem Adorno e Horkheimer:

[…] no lugar onde o desejo foi atingido, fica uma cicatriz imperceptível, um pequeno enrijecimento, onde a superfície ficou insensível. Essas cicatrizes constituem deformações. Elas podem criar caracteres, duros e capazes, podem tornar as pessoas burras – no sentido de uma manifestação de deficiência, da cegueira e da impotência, quando ficam apenas estagnadas, no sentido da maldade, da teimosia e do fanatismo, quando desenvolvem um câncer em seu interior. A violência sofrida transforma a boa vontade em má. E não apenas a pergunta proibida, mas também a condenação da imitação, do choro, da brincadeira arriscada, pode provocar essas cicatrizes. Como as espécies da série animal, assim também as etapas intelectuais no interior do gênero humano e até mesmo os pontos cegos no interior de um indivíduo designam as etapas em que a esperança se imobilizou e que são o testemunho petrificado do fato de que todo ser vivo se encontra sob uma força que domina (1947-1985, p. 240).

O conteúdo do discurso do ódio se baseia na depreciação de grupos que vivem experiências crônicas de violência, longos processos de subordinação, um histórico de condições de vida precárias e fracassadas.

Além de alimentar mentiras e inverdades sobre grupos e indivíduos, o produtor do discurso do ódio alimenta o sentimento de inferioridade, desqualifica os conhecimentos populares, deprecia a moral e os costumes das populações pobres, ridiculariza a visão de mundo que apresentam. ]

Sua prática de comunicação é de incitação ao ódio, do desprezo pelos diferentes, da discriminação dos não iguais, a negação pública de genocídios e dos crimes contra a humanidade; sua prática é a promoção de xingamento, de escárnios e de insultos contra adversários e opositores. Produzem e sustentam em nome de seus interesses notícias falsas e o negacionismo.

O cancelamento se torna a prática comum quando se sente ameaçado em sua certeza. O discurso do ódio é um grande desafio da atualidade. A própria ONU, em 2019, apresentou um documento intitulado “Estratégia e Plano de Ação sobre o Discurso de Ódio” e estabeleceu, em 2021, por meio de Resolução A/RES/75/309, o dia 18 de junho como o “Dia Internacional de Combate ao Discurso de Ódio”.

Em 2023, o secretário-geral da ONU, António Guterres, por ocasião dessa data, manifestou-se afirmando que

“o discurso de ódio é usado para alimentar o medo e a polarização, frequentemente para ganhos políticos e com um custo imenso para as comunidades e as sociedades. Incita a violência, exacerba as tensões e impede os esforços para promover a mediação e o diálogo. É um dos sinais de alerta de genocídio e de outros crimes atrozes. O discurso de ódio é frequentemente dirigido a grupos vulneráveis, reforçando a discriminação, o estigma e a marginalização. Minorias, mulheres, refugiados, migrantes e pessoas de diversas orientações sexuais e identidades de gênero são alvos frequentes. As plataformas de mídia social podem amplificar e espalhar o discurso de ódio à velocidade da luz. […]. Os nossos escritórios e equipes em todo o mundo enfrentam o discurso de ódio implementando planos de ação locais com base nessa estratégia. Iniciativas de educação, campanhas 23 de discurso positivo, pesquisas para entender e abordar as causas profundas e esforços para promover a inclusão e a igualdade de direitos têm um papel importante. Os líderes religiosos, comunitários e empresariais também devem desempenhar o seu papel (ONU, 2023).

Leia relatório completo: https://ceap-rs.org.br/relatorio/relatorio-direito-humano-a-saude-2022/

Edição: A. R.

O presente de natal

Como? Pensou Helena. Consumindo, ou melhor, comprando algo que ela deseja e entregue? Doía mais porque no fundo, o que estávamos ensinando para uma criança é que a felicidade se encontrava nas coisas materiais.

Helena estava no shopping (não era um lugar que ela costumava frequentar com frequência, mas, o mercado que ela frequentava ficava no shopping, então sim, podemos dizer que ela frequentava parte do shopping com frequência!).

Como de vez em quando a vontade dela por doces, principalmente na TPM, superava tudo que ela sabia sobre os malefícios do açúcar, ela resolveu comprar um sorvete (com bastante cobertura de chocolate e caramelo! Mais doce que batata doce).

Ao sair do mercado, rumo ao seu objetivo maior, o sorvete!

Helena se deparou com os enfeites natalinos, e uma árvore com algumas cartinhas. Ela resolveu espiar. Espiou várias.

Todas elas seguiam um padrão: endereçadas para o dito Papai Noel, solicitando os seus respectivos presentes: que iam desde uma boneca até uma bicicleta, ou um vídeo game.

Ao fechar e devolver a última cartinha lida, Helena olhou para a placa que dizia “faça uma criança feliz neste natal”.

Como? Pensou Helena. Consumindo, ou melhor, comprando algo que ela deseja e entregue? Doía mais porque no fundo, o que estávamos ensinando para uma criança é que a felicidade se encontrava nas coisas materiais.

Ela respirou fundo e foi em busca do seu sorvete até que, ao invés de aproveitar o seu sabor, a cabeça dela insistia em pensar nas crianças. Prometeu a si mesma que depois do sorvete ela voltaria à árvore.

– Oi moça. Você por acaso tem o contato de algum responsável por essas cartinhas?

– Sim, só um minuto que vou lhe passar.

– Contato salvo, muito obrigada!

. . .

No dia de Natal, Helena foi até uma comunidade carente da cidade. Onde havia pedido permissão para organizar um encontro com a criançada.

Um abraço gostoso e demorado com cada criança, uma apresentação e um convite estendido aos pais para participarem do momento. Sentados em círculos, Helena pediu aos pais que compartilhassem com as crianças, como eles costumavam brincar antigamente.

A cada nova história, Helena anotava atentamente as brincadeiras, uma em cada bilhete, acrescentando tudo em uma caixa.

– Por favor, alguém pode pescar um papel dessa caixinha!

– Gabi, uma criança de 5 aninhos levantou o seu dedinho e pescou um papel.

Esconde-esconde…pega-pega… pular corda …

Helenas, as crianças e seus pais passaram um dia inteiro brincando juntos. Ao final, todos estávamos cansados, mas, com algumas certezas: que elas dormiriam bem naquela noite e que provavelmente nunca mais esqueceriam aquele dia.

Autora: Ana P. Scheffer. Também escreveu crônica: “Um fenômeno intitulado Final de ano”: https://www.neipies.com/um-fenomeno-intitulado-final-do-ano/

Edição: A. R.

Natal na faixa de Gaza

Jesus nasce em Gaza e, agora, já não podem matá-lo, pois haverá de ressuscitar em cada criança, em cada jovem, em cada cidadão palestino consciente de que a terra das vinhas e das oliveiras guarda em seu solo as cinzas de seus mais longínquos ancestrais.

Neste Natal, Jesus nasce em Gaza. Não na manjedoura exposta em um curral, mas entre escombros do que resta das moradias de seus habitantes.

Não nasce cercado de animais, e sim de bombas detonadas, balas de fuzis Tavor Ctar atiradas contra a população civil (950 tiros por minuto), granadas e gases letais. E os voos assassinos dos caças F-35.

Jesus nasce e ignora que seus pais, que pretendiam se refugiar no Egito, foram atingidos mortalmente por uma chuva de bombas “bunker buster” jogadas pelas tropas israelenses.

Agora não é o rei Herodes que passa centenas de crianças ao fio da espada. É o governo sionista de Netanyahu, na ânsia de vingança e de exterminar aqueles que são considerados “animais humanos”, segundo declaração do ministro da Defesa de Israel, Yoav Gallant.

Jesus e seus pais não encontraram acolhida em Belém. Tiveram que se abrigar em um curral. Do mesmo modo, famílias palestinas foram sumariamente expulsas de seus lares para dar lugar aos colonos sionistas que não reconhecem o direito de a nação palestina instituir o seu legítimo Estado. Escorraçadas, essas milhares de famílias foram confinadas nos estreitos limites de Gaza e da Cisjordânia, controladas por tropas israelenses como se fossem subumanas, sobrevivendo em condições análogas a campos de concentração a céu aberto.

Jesus nasce hoje sem que magos venham presentear-lhe com ouro, incenso e mirra. O que ele ganha agora são 12 mil toneladas de bombas desde 7 de outubro (33 toneladas de explosivos por quilometro quadrado), equivalente à potência de uma bomba atômica.

Não há coro de anjos nem cânticos de glória a Deus, e sim o grito estridente de sirenas de alarme e o silvo aterrorizante de projéteis disparados pelos canhões mortíferos dos tanques Merkava.

Jesus nasceu sob o selo da discriminação: por ser palestino, por ser filho bastardo de um casal nazareno (tanto que José quis abandonar Maria ao sabê-la grávida), por ser um sem-teto, por sua família ter ocupado a terra de uma chácara em Belém, por ser considerado blasfemo e usurpador do título de Filho de Deus.

Jesus, mais uma vez, é rechaçado em sua própria terra. Se seus conterrâneos são impedidos de formar seu Estado, qualquer ação de autodefesa que desencadeiem será qualificada de “terrorista”. Epíteto que jamais a grande mídia utilizou quando Menachem Begin, em 22 de julho de 1946, explodiu, em Jerusalém, o Hotel King David e matou 91 pessoas. Nem quando mais de 200 mil pessoas, todas inocentes, foram cruelmente assassinadas no maior atentado terrorista de todos os tempos – as bombas atômicas atiradas pelo governo dos EUA sobre as populações civis de Hiroshima e Nagasaki.

Sim, o Hamas rompeu a linha da “guerra justa” ao sequestrar mais de 200 pessoas, a maioria civis. Mas quem reage às “detenções administrativas” feitas pelo governo de Israel e que mantém nas prisões cerca de 5 mil pessoas sem acusações formais?

Jesus nasce em Gaza e, agora, já não podem matá-lo, pois haverá de ressuscitar em cada criança, em cada jovem, em cada cidadão palestino consciente de que a terra das vinhas e das oliveiras guarda em seu solo as cinzas de seus mais longínquos ancestrais.

Leia também: O sonho da terra prometida deve ser sustentável, mas a reação desmedida e injustificada a toda população da Faixa de Gaza, como pensam alguns, não suporta a tese do direito à proteção, tão defendido por Israel. Há Terra para todos, todos podem respirar, há dias ensolarados para todos, mas há mísseis para todos, igualmente, sem a vontade de perseguir, obsessivamente, por PAZ duradoura”. (Autor: Nelceu Zanatta) https://www.neipies.com/ha-odio-demais-ha-terror-e-misseis-demais-temos-de-parar-esta-guerra-comecemos-rezando/

FONTE: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/634913-natal-na-faixa-de-gaza-artigo-de-frei-betto

Autor: Frei Betto, escritor, autor de “Um homem chamado Jesus” (Rocco), entre outros livros. Livraria virtual: https://www.freibetto.org/

Edição: A. R.

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