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Um contrato social em defesa do bem comum

Vivemos um tempo em que soa estranho defender um contrato social que prime pelo bem comum. Nosso cenário é marcado pelo individualismo, pela competitividade, pela ganância, pelo desejo insaciável de poder e de dinheiro que caracteriza o modo de vida da grande maioria das pessoas.

Sabemos que não é possível a vida individual sem o contato com os outros, mas esquecemos que viver com os outros implica em reciprocidade, escuta, respeito, honestidade, compaixão e tantas outras virtudes que frequentemente são invocadas, mas pouquíssimas vezes são vividas e praticadas. Nossas relações com os outros, consciente ou inconscientemente, frequentemente são mercantilizadas, e quando isso acontece, tratamos os outros como objetos e não como sujeitos que precisam ser reconhecidos pelas suas singularidades. Talvez por isso seja tão estranho defender um pacto social que defenda o bem comum.

Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), foi um dos filósofos que se debruçou sobre estas questão. Nascido em Genebra, foi um dos mais influentes e importantes pensadores franceses do Século XVIII no campo da política, da filosofia moral e da educação. Suas ideias foram centrais para o desenvolvimento do pensamento iluminista e para a Revolução Francesa que introduziu mudanças radicais na sociedade da época e cujas repercussões chegam até os dias atuais na forma como é compreendido o poder, as relações sociais, a infância, a desigualdade e a própria natureza humana. Rousseau foi um leitor de Locke, e como este desenvolveu uma teoria sobre a origem da sociedade a partir da ideia do contrato social.

Escreveu diversas obras dentre as quais destacam-se Discurso sobre a desigualdade entre os homens, Emílio ou da Educação, Contrato social e Confissões.  Também colaborou, elaborando o verbete “Economia Política”, com a Enciclopédia, um famoso compêndio editado em 1755 por Diderot que marcou o pensamento iluminista em diversos aspectos. Se correspondeu por diversos anos com importantes pensadores da época tais como Voltaire, D’Alembert, David Hume dentre outros. Compôs peças musicais e, quase no final da vida, dedicou-se aos estudos de botânica.

Devido as críticas que fazia à sociedade da época, foi perseguido e teve de viver por longo tempo no exílio onde pode conhecer outras culturas e difundir seu pensamento.

Ao contrário de Hobbes, que dizia que o homem por natureza é mau (“o homem é lobo do próprio homem”), o ponto de partida da filosofia de Rousseau é de que “o homem nasce bom, a sociedade o corrompe”. Inicia seu livro Contrato Social com o seguinte dizer: “o homem nasce livre, e por toda a parte encontra-se acorrentado. O que se crê senhor dos demais, não deixa de ser mais escravo do que eles”. É essa escravidão que impede o ser humano de desenvolver suas potencialidades e viver uma vida digna.

A grande questão para Rousseau consiste em saber como preservar a liberdade natural do homem e ao mesmo tempo garantir as segurança e o bem-estar que a vida em sociedade pode lhe dar. Sua resposta se encontra justamente no Contrato Social.

Podemos dizer que temos em Rousseau os fundamentos das democracias modernas, pois na sua teoria do contrato social, a soberania política pertence ao conjunto dos membros da sociedade, tendo seu fundamento na vontade geral que não resulta apenas na soma da vontade de cada um.

A vontade particular e individual de cada um diz respeito a seus interesses específicos, porém, enquanto membro cidadão e membro e de uma comunidade, o indivíduo deve possuir também uma vontade que se caracteriza pela defesa do interesse coletivo, do bem comum. A educação, por sua vez, possui o papel insubstituível de constituir a formação dessa vontade geral, transformando assim o indivíduo em cidadão, membro de uma comunidade.

A valorização da experiência individual, o culto à natureza, a importância dos sentimentos e das emoções, a relação entre arte e a filosofia, a necessidade de cuidar da infância, o desafio de formar cidadãos educados para compor uma sociedade justa, a luta para superar a escravidão e a corrupção dos costumes, os pressupostos para construir um contrato social que viabilize uma sociedade decente são temáticas que compõe a extensa obra de Rousseau.

Mais de 250 anos nos separam da época em que ele viveu. Muitas transformações ocorreram na forma como se organizou a sociedade e suas distintas instituições. Ideias que eram consideradas impossíveis em sua época se tornaram realidade na sociedade contemporânea. No entanto, ainda estamos longe de construir uma sociedade, bem como estamos ainda distantes de um processo educativo compatível com os ideais propostos por Rousseau de formar um cidadão comprometido com o bem comum e a vontade geral.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Edição: A. R.

Vamos convidar nossos adolescentes a trocar empatia? Somos exemplos?

Vamos falar sobre rejeição, empatia e superação com nossos adolescentes?  Ainda haverá tempo para ajudá-los?

A empatia é o sentimento e a ação que devem ocupar todos os vazios na escola, originadas em dias de incompreensão, discriminação e desrespeito, a uma multidão de alunos.

O bullying e as demais agressões que assistimos são o gatilho comportamental de relacionamentos desajustados e intolerantes, muitas vezes vivenciados em famílias disfuncionais, nos pátios escolares ou até nas salas de aula.  E que são alimentados pelos anos, em mágoas e frustrações, manifestando-se no ritual de preparação para a vingança.

Na base desta violência, encontramos os seus motivos prováveis, as rejeições e hostilizações silenciosas, sofridas em corredores e afins, e que, em alguma manhã, farão retornar ao colégio o aluno, agora o próprio algoz, para extravasar seu ódio incontido.

Junto às famílias, o alcance sempre será limitado mas, através escolas, poderemos prevenir?

Ainda haverá tempo para semear empatia?

Todos os caminhos da infância e da pré-adolescência conduzem para o fim de um mundo de imaginação e fantasia. Ao terminar esta passagem, enfrentam, finalmente, os contos e as histórias reais de seus adultos.

Os adultos somos nós que, normalmente submersos e comprometidos em todas as nossas realidades, não percebemos que os jovens precisam muito pouco, mas do que nos é mais caro nestes dias de carga emocional intensa:  nosso tempo.

Alguns adolescentes demoram para despertar em sua caminhada, à maturidade, à responsabilidade e as contradições da vida adulta. E acontece em uma velocidade tal que a eles não é permitido o tempo necessário, para lhes explicar que a vida que os chama, de fato, pode ser uma jornada de mais cores e menos dores.

Há um desamparo que os aguarda, contudo. Um vazio que deve ser discutido com seus presentes, ou, ausentes. 

Estes jovens, que vivem a transformação de seus sonhos pelas primeiras experiências, têm que ser ouvidos.  Não será apenas um moletom a abraçá-los, mas que todos em seu entorno os ouçam, vejam-nos e os acolham. Em seus delírios aparentes e em suas soluções descabidas, há planos, desejos e inconformidades. 

Dos dias de juventude, com a sua impetuosidade e sua percepção aguçada, de quem tem de mudar este mundo de incompreensões, pode lhes restar somente a fantasia, de que nada nessa vida, até agora, fez sentido. Isso se não os ouvirmos e se a eles não forem estendidas algumas frações de horas, pelo menos as que dispomos ao final do dia, cansados, para ouvir suas primeiras batalhas.

Senão, forma-se o vazio do desamparo, porque no tempo lúdico e no hiato de quaisquer compromissos, seus pensamentos se inclinam a todas as promessas de um mundo utópico, mais justo, em sua opinião, este mundo fácil que os vendedores de sonhos têm a oferecer.

É o tempo de uma passagem rápida, onde passeiam na ponte da imaginação, entre os suportes e pesadelos dos adultos, que ora os aplaudem, ora os censuram.  No desconforto de sua família ou de professores exaustos, na convivência com as rejeições silenciosas, bullyings de todas as dimensões, forma-se o vácuo de desamparo, onde sempre se acha uma porta de saída, para o prazer e a vertigem que as drogas se prestam a prometer.

Livrar ou resgatar os jovens de promessas de uma vida surreal, depois de iniciados no caminho de morte da alienação, é muito mais difícil do que acolhê-los, enquanto há tempo.  Não é uma tarefa fácil, entretanto, a sua prevenção.

Por esse motivo, antes que um vendedor de utopias venha a adotar um jovem já cansado, de sonhar e sofrer, e a ele ofereça a viagem lúdica e enganosa, em uma trouxa de drogas qualquer, é preciso conversar, ouvir, pensar ou até chorar ao seu lado.

Porque o acolhimento de uma pessoa que não tem o seu interior consolidado e desenvolvido com as sementes da esperança, resta a desilusão de uma vida sem rumo e amarga, pois muitas vezes veem espelhadas em outros adultos, igualmente perdidos e sem auxílio a lhes oferecer.

Que tal falarmos sobre empatia com nossos jovens?  A atitude de colocar-se no lugar do outro, não somente lembrar, mas ver e sentir sua dor, enfim, ajudar.  Porque não há antídoto melhor para a aparente falta de sentido na vida e seu propósito, do que acolher o nosso igual, ou, desigual, colocando-se ao seu lado e participando no resgate de sua angústia.  Não há vazio que resista à nossa escolha, em salvar da aflição e da solidão, quem está crescendo em seu abandono.

Trocar cadernos e livros, borrachas e lápis, trocar horas de conversas e risos, segredos, compartilhar nossa caminhada com o colega mais próximo, fazer o bem, enfim, pode se constituir em uma barreira repelente a pensamentos tóxicos, individualistas, e que acham que a alegria ou a felicidade genuína, dependem de uma dose de qualquer promessa de alucinação, em uma viagem, sem destino e sem volta.

Descobrindo que mãos que se estendem e se doam à sua família, amigos e colegas, crescendo juntos, em alegria e cumplicidade, pode-se alcançar a felicidade possível, a plenitude do gosto pela vida mais cedo e dela nunca mais afastar-se.

Autor: Nelceu A. Zanatta

Edição: A. R.

Uma feira de livros sob o olhar e as lentes do fotógrafo

Os leitores e leitoras, os escritores e escritoras, os visitantes e a comunidade em geral tem diferentes percepções sobre um evento como uma Feira de Leitura, 35ª Feira de Livros de Passo Fundo, realizada no mês de outubro de 2023. Geralmente quem registra as atividades através de fotografias não é lembrado nem mencionado pelas repercussões dos eventos culturais que estão sob o crivo de suas lentes.

A Prefeitura Municipal de Passo Fundo juntamente com a APLetras, retomaram e promoveram a Feira do Livro de 12 a 22 de outubro no Espaço Roseli Doleski Preto, envolvendo os participantes e comunidade passofundense em atividades entre os prédios do Teatro Múcio de Castro, Academia de Letras, Instituto Histórico de Passo Fundo e Biblioteca Pública Municipal.

Entrevistamos Augusto Albuquerque, fotógrafo que registrou e documentou, através de suas lentes, os momentos mais importantes e peculiares da 35ª Feira do Livro de Passo Fundo.

Como foi receber o convite para ser o fotógrafo oficial da Feira do Livro de Passo Fundo?

O convite surgiu através da minha ex-professora e amiga que havia falado com a Secretária de Cultura e ficou sabendo que estavam precisando de um fotógrafo para a Feira do Livro. Como já havia fotografado outros eventos culturais, aceitei na hora. 

Quais foram seus maiores desafios e suas maiores realizações na cobertura deste importante evento cultural de nossa cidade?

Confesso que não foi fácil. A programação era bem grande e eu cobri toda a feira sozinho. Tinha que fazer os registros, descarregar os arquivos no computador e tratar as fotos. Isso tudo durante 8 dias, todas as manhãs, tardes e noites.

Foram mais de 1300 registros de toda a programação em que fotografei, creio eu, todos os artistas e escritores que participaram dessa edição da feira. Esses registros foram enviados para eles e ficarão armazenados em uma pasta que ficará à disposição da Secretaria de Cultura.

Não podia deixar de fora a questão do mau tempo. A chuva atrapalhou um pouco, mas felizmente, não comprometeu o resultado final.

Na sua visão, o que representa a retomada da Feira do Livro num lugar aberto, público, de tanta importância na história da cidade como é o Espaço Cultural Roseli Doleski Preto?

Creio que o espaço foi uma das melhores novidades da Feira. A estrutura, contando com o Teatro Múcio de Castro, Academia de Letras, Biblioteca Municipal e Instituto Histórico, possibilitou que todas as atividades da programação fossem realizadas sem comprometer o andamento da Feira, mesmo com a forte chuva que tivemos ao longo da semana.

Detalhe: auditório da APLetras, um dos locais utilizados para realização de atividades.

Como vês a fotografia? Como um registro ou como uma arte?

Uma coisa não isenta a outra. Pode-se fazer registros com um olhar mais artístico do ponto de vista da estética. Como sou Jornalista, minha preferência sempre será por fotografar os fatos e acontecimentos da nossa sociedade/cidade. Entretanto, não deixo de lado a parte que se deve pensar em como deixar a fotografia mais atrativa, acredito que isso vai muito da vivência e da carga cultural que cada um carrega.

Como é fotografar nesta era do photoshop, dos filtros, das redes sociais, do instantâneo, num tempo em que todos podemos registrar, produzir e reproduzir imagens?

Do ponto de vista técnico, o fotojornalismo exige uma agilidade maior para fazer os registros. Não é qualquer celular que vai dar conta de fotografar certos acontecimentos, pois na maioria das vezes os movimentos rápidos do que é fotografado e a principalmente a luz do ambiente não nos dão as melhores condições de fotografar. Logo, um bom equipamento faz bastante diferença e se faz extremamente necessário se você quiser ter um resultado acima da média. Por enquanto, quando o assunto é fotojornalismo, acredito que um celular ainda não tem a melhor capacidade técnica de substituir uma boa câmera fotográfica, mas vale salientar em certas situações, principalmente quando o objeto a ser fotografado está estático, os celulares de última geração podem quebrar um bom galho.

Qual foi a imagem da Feira do Livro que mais o marcou?

Acho que nessa Feira as imagens que mais me marcaram não foram aquelas em que havia uma estética melhor e bem pensada, e sim aquelas imagens que apresentaram os resultados de uma Feira do Livro que superou as expectativas devido às novas iniciativas. Como por exemplo, o novo espaço em que foi realizado, muito mais acessível para a comunidade. Outra iniciativa que achei interessante fotografar foram as crianças utilizando o passaporte literário, que foi uma iniciativa da Prefeitura Municipal para incentivá-las a lerem cada vez mais. Do ponto de vista artístico e simbólico é extremamente difícil escolher uma, pois foram muitas apresentações realizadas nesta feira e acredito que em cada uma deve ter tranquilamente umas 5 fotos que podem representar muito bem a 35ª Feira do Livro de Passo Fundo.

Uma frase sobre fotografia.

“Você deve exigir o melhor de si. Você deve procurar por imagens que ninguém mais possa fazer. Você deve aproveitar as ferramentas que tem de maneira cada vez mais profunda” (Willian Albert Allard)

Fotos: Augusto Albuquerque

Edição: A. R.

Os limites do barulho

Helena é uma mulher doce, com alma de menina. Ou melhor dizendo, podemos defini-la como de sabor caramelo salgado ou agridoce. Isso porque, a sua compaixão se altera entre críticas fundamentadas que, por vezes, podem soar nem um pouco agradáveis aos paladares do senso comum. Com vocês, apresento uma nova personagem de minhas narrativas: Helena!

Fazia um bom tempo que Helena desejava refletir sobre o barulho, ou melhor, sobre os seus limites, aliás sobre a falta deles, e até mesmo significados. Na verdade, ela se “inspirava” toda vez que:

  1. Helena se emputecia com um vizinho infeliz acordando cedo e se sentindo no direito de colocar uma música para todo o prédio ouvir, e acordar também;
  • Quando aquele carro rebaixado com som alto passava, e fazia os vidros da sua casa tremer, enquanto ele achava que estava arrasando, Helena pensava que o tempo daria um jeito de deixá-lo surdo!
  • Quando a seita religiosa de “sei lá o que desta vez” considerava que sua fé era superior a qualquer bem-estar coletivo e gritava EM NOME DE JESUS!!! Fora quando eles não tentavam exorcizar alguém;
  • Quando os sinos da igreja tocavam tipo tele-cena, de hora em hora, para nos situar no tempo, sem ninguém solicitar essa “gentileza” barulhenta;
  • Quando as lojas próximas à casa de Helena resolviam enfiar a caixa de som para fora, e considerar que era seu direito colocar o volume no máximo porque era dia de promoção;

Foi justamente em um belo dia desses, enquanto era dia de promoção, que Helena, trancafiada em seu quarto, como de costume, ao som de uma música ensurdecedora,  começou milagrosamente a divagar sobre o barulho (acho até mesmo que foi uma estratégia de sobrevivência do seu cérebro, sabe, quando a pessoa sai do seu corpo? No caso de Helena ela se escondeu no corpo mesmo, ou na mente).

Bem, podemos pensar que um barulho ou uma frequência de sons indesejada e relativamente alta, existe na humanidade desde que os nossos ouvidos foram capacitados a captar o som. Podemos alegar que ele até mesmo deva ter a sua relação com o processo evolutivo. Por exemplo, um rugido de um leão pode ser ouvido a 8Km de distância e esse som pode ter vários sentidos, desde comunicação, demarcação de território e até mesmo acasalamento.

Na verdade, muitos humanos ainda utilizam um tom de voz elevado para impor medo, ameaçar e demarcar certa superioridade. Inclusive, a voz masculina possui mais propriedades de robustez que a feminina, e talvez, em função disso, uma certa propensão a utilizar mais esse recurso. O único, porém, é que, em uma sociedade adaptada ao complexo jogo das relações sociais, com o mínimo de respeito, já aprendemos que falar alto pode amedrontar, mas, não vai resolver os nossos problemas, não de forma inteligente ou efetiva. O mesmo vale para a violência, pensou Helena.

E é curioso traçar um paralelo também com a questão do acasalamento. Por exemplo, na cidade onde Helena mora, havia um evento, em que um bando de adolescente se reúne, estacionam os carros, aumentam o som, e bebem ao redor daquele barulho infernal. Mais infernal ainda, porque, você não sabe nem o que está ouvindo, porque aquilo vira uma competição de quem tem o som mais potente. Então, podemos dizer que as pessoas também não conversam por lá, porque conversar, requer que você não só ouça, como também entenda o que o outro está dizendo!

O ponto que Helena observou é que talvez, quanto mais potente for o seu som, mais gente ele atraia. Geralmente, quem possui os carros são os meninos, e quem é atraído pelos carros com sons potentes? As meninas. Então, sim, talvez, esse caos seja uma reflexão entre a relação de barulho e acasalamento influenciando a sociedade contemporânea.

Mas, até o momento, Helena refletia apenas sobre o som alto, no entanto, como ela alegou anteriormente, o barulho também se constitui como uma frequência de sons indesejados. Ou seja, podemos refletir que dependendo do ponto de vista, um barulho pode não ser um barulho. Por exemplo, a caixa de som da loja projetada para fora no dia de promoção, não era um barulho para os funcionários da loja, que pareciam estar curtindo aquele “som”.

Por outro lado, pra Helena, em casa, que tentava esperançosamente ter paz, era um barulho. Era um intruso indesejado na harmonia de sua atmosfera. Por vezes, Helena até mesmo tentava se convencer que aquele poderia ser um desafio para conseguir aprimorar o seu foco. Na verdade, isso funciona para muitas contrariedades que ela encontrava por aí, que também as ajudam a expandir os seus limites de paciência. No, entanto, ela também constatou que tudo tem limite, até mesmo, a sua paciência!

Falando em limites, Helena refletia que um dos principais problemas do barulho, é que a gente não consegue ver ele. Isso porque a nossa ideia de limites parece estar estritamente relacionada a visão. Ou seja, parece ser infinitamente mais fácil dizer os limites de algo, quando conseguimos visualizar ou ter uma noção espacial. Por exemplo, Helena imaginou aquele barulho transformado em uma bola gigante arrebentando a sua parede. Bem, nesse caso ficaria muito mais fácil alegar que alguém estava passando dos limites, não é mesmo?

Eu lembro que uma das coisas que ajudava Helena a se acalmar era o fato de pensar que aquele barulho infernal daquela maldita loja seria apenas um dia – o dia de promoção.

Apesar disso, Helena se assustava ao observar o seu corpo reagindo àquele barulho, ela se sentia incomodada, desnorteada e exausta ao mesmo tempo. Isso talvez, seja em função de sua hipersensibilidade, mas, talvez, seja só pelo fato de Helena ser humana e ter bom senso?

Por outro lado, não saber quando o barulho irá acabar pode mesmo ser enlouquecedor. Helena alega isso com muita propriedade, porque, essa mesma loja, há um tempo, projetava todo o santo dia a caixa de som para fora. Até que depois de várias tentativas de conversa, eles resolveram deixar ela dentro da loja. O irônico mesmo foi o fato de que, quando Helena conseguiu isso, uma outra loja abriu com o mesmo “sistema”. Quando Helena foi conversar, ela recebeu a seguinte resposta: são ordens superiores.

Aqui entramos com uma observação interessante que Helena intitula como hierarquia engessada. Ou seja, a ideia de que aquele funcionário era peça de um mecanismo maior, e simplesmente executava ordens. Com isso ficava até mais fácil de não se responsabilizar pelos seus atos, como acontece com muita gente alienada. A culpa era de seus superiores, e ele nada tinha a fazer. Será mesmo?

Helena refletia: e se o seu chefe mandar matar o gato que entra todo dia na sua loja sem pedir, você vai matar também? E também não vai se sentir culpado, pois, quem mandou matar foi o seu chefe? (Se você não gosta de gatos, pode substituir por cachorro ou até mesmo uma pessoa).

Naquele momento o cérebro de Helena foi longe, ao observar que aqueles modelos de funcionários são ótimos para sistemas fordistas, em que ele precisa executar um trabalho repetitivo sem precisar raciocinar o que está fazendo. Também são eficazmente substituídos por robôs. Se você chefe, quiser ter controle total da sua empresa, contrate-os. Por outro lado, não se sinta exausto ou até mesmo indignado quando você precisar falar para ele fazer tudo, ao invés de promover o pensamento crítico e a autonomia.

O mais trágico de observar é que Helena refletia o quanto esse sistema contaminava desde a educação brasileira, até mesmo o sistema político. E eu compreendo a tamanha preocupação na contemporaneidade, onde estamos eficazmente sendo substituídos por máquinas, e projetamos um futuro de muitos desempregados. De fato, se algo aqui não mudar, serão muitos desempregados. O ponto de discussão é: impedimos a ascensão das máquinas, ou alteramos o sistema para que essas pessoas sejam capacitadas a não agirem mais como uma? Mas, talvez, isso será tema para outra reflexão, voltemos ao barulho.

O porém é que, em amplo espectro, Helena observava que todos os exemplos citados giravam em torno de uma visão individualista. Seja pelo fato do vizinho colocar a música alta e achar que todo mundo quer ou deve ouvir, ou seja, que ele é o centro do universo e que talvez o mundo deveria pensar e ter os mesmos gostos musicais que ele, seja pelos interesses privados das lojas que se sobrepõem ao bem-estar coletivo.

A conversa acaba ganhando ainda mais profundidade, quando entramos no domínio religioso. Ou seja, Helena tinha parado para se dar conta no quanto parecia absurdo questionar uma passeata religiosa, em que eles buzinavam ininterruptamente por 8h seguidas, ou criticar o sino da catedral, que faz barulho de hora em hora, ou até mesmo o barulho que aquele determinado culto faz e que incomoda o quarteirão inteiro. Em nome de Deus, ou de algo “maior” tudo parece ser permitido ou até mesmo justificado!

Apavorada, Helena se deu conta de quanto essa visão poderia ser perigosa. Isso porque, uma visão egocêntrica de mundo, que considera que a nossa forma de ver, a nossa religião, os nossos hábitos e costumes, são os verdadeiros (e a história está aí para comprovar o quanto a verdade financia atrocidades), parece fazer desmerecer e se impor a qualquer opinião contrária.

O único porém, é que Helena considerava não haver maior desrespeito divino do que quebrar a harmonia, do que desrespeitar a pluralidade, considerando que a sua fé é superior a de outro. Se colocando acima de alguém. E é isso que fizemos toda vez que nos sentimos no direito de fazer barulho, sem considerar o bem-estar coletivo. 

Helena deu risada, com essa reflexão ela havia lembrado de sua avó, que gritava toda vez que falava ao telefone. Helena imaginava que sua avó acreditava que o som precisava chegar até o outro lado do mundo, era instintivo. Ela considerou que algo parecido acontecia com os eventos religiosos que faziam muito barulho. Parece que para Deus ouvir a gente precisa gritar, ou buzinar bem alto, até o som chegar lá em cima! É um contrassenso quando paramos para refletir que o maior exemplo de espiritualidade ou conexão que temos com o divino acontece no silêncio.

Então, a sugestão seria repensarmos conscientemente essas manifestações de fé. Por exemplo, não estaria muito mais de acordo com os preceitos religiosos, ao invés de buzinar para comemorar o dia de um santo, fazer uma campanha de arrecadação de alimentos e ajudar a quem precisa? Fazer um mutirão para restabelecer a beleza em alguma praça da cidade? E que tal um levantamento dos pontos críticos do trânsito e um movimento popular para reivindicar melhoras nisso e prevenir acidentes?

Helena acreditava que São Cristóvão ficaria orgulhoso da gente, além de não precisar utilizar o seu protetor auricular nas comemorações! Se vocês considerarem que não é uma boa ideia, tudo bem, acho que o importante aqui é refletir sobre e aprender a fundamentar a sua opinião.

Mas, como Helena já havia refletido, o barulho também tem o papel de informação. Um evento bem alto, pode fazer com que nos perguntamos o que está acontecendo, e fazer com que participemos. Uma sirene pode alertar para o perigo.

Já o barulho de uma passeata para comemorar um campeonato pode significar alívio, isso porque gritar, colocar para fora toda a tensão, acalma mesmo, e podemos fazer isso por uma extensão que chamamos de buzina. Também pode significar um certo tipo de provocação. Fazemos barulho para incomodar o lado adversário e lembrar que eles foram derrotados. E sim, não há nada pior que além de perder um campeonato, ainda sermos obrigados a ficar ouvindo o barulho dos outros. Falando nisso, aqui entram os foguetes.

Que também podem ter o objetivo informar, provocar ou comemorar. Quando Helena lembrava dos foguetes, ela sentia que ainda havia esperança para a humanidade (não a entendam mal). Isso porque ela observava que a quantidade de pessoas que andam se organizando contra aquele barulho que parece tiro ou explosão é significativa. Eis um reflexo que as pessoas estão questionando os seus hábitos corriqueiros com consciência e refletindo sobre formas de comemorações mais pacíficas.

Falando em tais organizações, chegamos a uma área em que Helena tinha paixão. A qual intitularei como gerenciamento político.

Helena costuma definir “Evolução moral” como uma certa tendência a buscarmos por melhores condições de vida, reduzindo o sofrimento. Exemplos que ela vê tal qual, talvez, no sentido Darwiniano, é a busca por igualdade ou melhor, equilíbrio de gênero, compreender como insano ou desumano escravizar alguém na atualidade, utilizar a violência para resolver os nossos problemas, dentre outras questões que eram “normais” em tempos remotos e que hoje não são tão bem vistas.

Mas, o que tudo isso tem a ver com barulho? Pensava Helena. Digamos que esse movimento basicamente identifica o que causa sofrimento e propõe soluções políticas a fim de reduzi-lo. Sofrimento pode ser compreendido também como quebra de harmonia, ou um espectro com vários graus de incômodos. Falando especificamente sobre moral, que pode ser compreendido como um conjunto de ações norteadoras, Helena lembrava que Kant nos lembrava o seguinte:

“Age sempre de tal modo que o teu comportamento possa vir a ser princípio de uma lei universal”. Vamos a um exemplo. Imagine que todo o dia eu projeto a caixa de som para fora, na loja que eu trabalho, fazendo muito barulho. Como julgar se essa ação é moral? Simples, imagine se todo mundo resolvesse fazer o mesmo. Iria ficar insuportável, você não concorda? De tal modo que teríamos que fazer alguma coisa.

     

É por essas que Helena considerava que precisamos fazer alguma coisa. Porque isso é respeitar o bem-estar do outro, é pensar no coletivo, é colocar limites, é se organizar. Você já ouviu falar da Suíça? Ela é considerada um dos melhores países para se viver. Sabe por quê? Porque, ao menos pelo que Helena havia lido a respeito, eles parecem ser um país extremamente organizado, com intensa participação popular, conduzidos por uma democracia direta (nem presidente eles têm). Eu não vou me ater a esses detalhes, porque pretendo fazer uma outra reflexão especificamente sobre organização política.

O que para nós é importante evidenciar, é o mecanismo de participação popular, os Suíços vão para as urnas em média quatro vezes por ano, para se posicionar sobre questões com implicância direta na vida da comunidade. Isso repercute em exercitar o pensamento coletivo, além de financiar aquela sensação gostosa de que o seu voto importa e realmente faz a diferença, fazendo-nos sentir ainda mais parte de uma comunidade.

Tá e o barulho, Helena? O silêncio é bastante valorizado na Suíça e sim, para mim isso é um exemplo do bom senso e dessa visão de comunidade. Nos finais de semana impera a lei do silêncio, ou seja, ligar aquele som para limpar o seu carro ou até mesmo cortar a grama, são motivos suficientes para a polícia bater a sua porta. Porque lá o limite do som, é o ouvido do outro. A mesma regra vale para todos os dias das 22h às 6h.

E acho que nem precisamos comentar se existe algo na Suíça do tipo sinos badalando, comemorações religiosas com buzinas, foguetes, lojas com caixas de som projetadas para fora, carros com som alto, ou até mesmo eventos como rodeios ou carnaval.

Falando nesses dois últimos, Helena refletiu que eles se enquadram em uma categoria que talvez não ela ainda não havia refletido! Os eventos, incluso as comemorações religiosas, festas junina, carnaval, rodeio e tudo mais parecido, também são demonstrações culturais da comunidade, e eles têm a sua importância, com certeza!  

O que Helena considerava é que às vezes nos faltava, sair um pouco do piloto automático, e nos questionar sobre a necessidade de fazer tanto barulho para comemorar algo. Será que precisamos gritar, colocar um som ensurdecedor para podermos nos divertir? Tudo bem, esses eventos são de vez em quando, e não costumam durar muito. Mas, não é sobre isso, é sobre tudo o que conversamos até aqui.

Para finalizar, eu e Helena convidamos você a fazer um minuto de silêncio. Mas, calma! Ninguém morreu, e você não precisa associar negativamente o silêncio. Ele pode ser a paz que você procura em um mundo frenético, ele também é a base de um estado meditativo, que traz vários benefícios a saúde mental.

Inclusive, no youtube eu tenho um vídeo sobre como a meditação mudou a minha vida, fica dica:

https://www.youtube.com/watch?v=OtuX5tcujOE

Autora: Ana P. Scheffer

Edição: A. R.

Do apagão à esperança. Viva as Professoras e os Professores!

Se resta esperança na educação é porque professores resistem e existem, inventam e reinventam a luta e a pedagogia, carregam sonhos e movem-se pela utopia do direito de todos e todas as crianças, adolescentes e jovens à educação de qualidade, à aprendizagem e desenvolvimento integrais para uma vida de direitos, sem violência.

O iminente apagão de professores é título das reportagens retratando pesquisa recente que mostra a diminuição drástica de ingressantes e formandos nos cursos de licenciatura no Estado do Rio Grande do Sul. Já há evidências dessa falta em todas as escolas estaduais e municipais de Porto Alegre, por exemplo. Muitos e muitas dos formados não se dispõem mais a ocupar vagas temporárias e precárias – que são práticas recorrentes desses gestores.

A baixa atratividade das carreiras e salários somados à complexidade crescente da atividade de educar, às cobranças frequentes por resultado e a imposição de métodos e rotinas pedagógicas, têm desestimulado até os e as formados/as, que dirá os que olham seu futuro no momento de optar por seu curso e área de atuação profissional.

As notícias da educação são majoritariamente ruins: aulas no escuro, salas com goteiras, prédio interditado de escola interrompe aulas; a internet não é suficiente, a biblioteca está fechada; mães e pais se queixam que estudantes saem mais cedo todo o dia – faltam professores; só servem lanches simples na escola – a fome atrapalha a sala de aula; os salários estão congelados e todos que trabalham com educação estão endividados;  a aposentadoria minguou e tirou esperanças de uma vida digna depois dos anos de trabalho e no cotidiano as tarefas só aumentam.

Hoje a profissão de professor e professora faz sucesso como conteúdo cômico de stand up, nas plataformas virtuais e teatros, onde o talento de artistas promove diversão e gargalhadas ao relatar as inúmeras mazelas de seu cotidiano.

As mudanças educacionais sem diálogo nenhum desrespeitam a autonomia e autoria intelectual das professoras e professores, esvaziam o Planejamento Político Pedagógico das Instituições Escolares, resultando em improviso, fragmentação e desestímulo generalizado. “Temos que dar conta dos “Projetos de Vida, sem poder projetar as próprias vidas”, afirmam.

Nenhum governante vai melhorar os indicadores educacionais agindo desse modo. Por isso, nossa denúncia, mobilização e defesa da gestão democrática são formas de homenagear as professoras e os professores.

Acreditamos que, se resta esperança na educação é porque professores resistem e existem, inventam e reinventam a luta e a pedagogia, carregam sonhos e movem-se pela utopia do direito de todos e todas as crianças, adolescentes e jovens à educação de qualidade, à aprendizagem e desenvolvimento integrais para uma vida de direitos, sem violência. A eles, a elas, nosso respeito, apoio e parceria!


Autora: Sofia Cavedon

Edição: A. R.

Ler, escrever e publicar

O tema da leitura, da escritura, da publicação tem sido colocado por mim em vários meios, pois acredito que é uma das mais importantes discussões no momento. Com o tal “novo ensino médio”, com tanta gente sem terminá-lo, com tão poucos chegando à Universidade, é preciso repensar muitas coisas.

Antes de tudo, o que é ser escritor/a? Qualquer dicionário dirá mais ou menos isso:

Escritor/a é um/a profissional que redija textos e obras literárias (ficcionais) ou de cunho científico, pesquisas, história            e correlatos. Sua carreira envolve a elaboração de livros,   artigos, críticas, resenhas, crônicas, entre diversos outros gêneros textuais.

Qual sua leitura? Qual sua visão? O que é ser escritor/a?

Ninguém nasce escritor/a. Quem escreve lê antes de escrever. Quem não lê não escreve. Um não leitor ao colocar algo no papel será precário e de duvidoso valor.

Se no Brasil temos tantos/as analfabetos/as, que nem o nome desenham, outros/as tantos/as analfabetos/as funcionais, afora os/as digitais, quem lê de fato?

Muitos que “sabem ler” dizem que não leram qualquer livro no último ano.

Permitam-me fazer esta citação longa, redigida por Cristiano Heredia – fotógrafo e escritor:

            “(…) Já são 300 petabytes de dados armazenados, o que torna o Facebook o maior e mais poderoso banco de dados da vida alheia do mundo. Uma espécie de “CRM pós-moderno” (Customer Relationship Management – em português, Gerenciamento de Relacionamento com o Cliente).

É claro que a vaidade não é a única mola propulsora desta gigantesca engrenagem. Mas é um dos mais importantes combustíveis que alimenta todo este Sistema. A ponto de muitos criminosos tornarem-se réus confessos por serem vítimas da sua própria vaidade. Quantas ostentações – outro codinome da vaidade – são diariamente flagradas nas redes sociais? A questão é que a nossa Cultura, de um modo geral, legitima e incentiva todas as manifestações de Vaidade e Ostentação como uma necessidade de autoafirmação. E batiza esse costume com o carinhoso conceito de “Amor Próprio”.

O tema da leitura, da escritura, da publicação tem sido colocado por mim em vários meios, pois acredito que é uma das mais importantes discussões no momento. Com o tal “novo ensino médio”, com tanta gente sem terminá-lo, com tão poucos chegando à Universidade, é preciso repensar muitas coisas.

Quanta gente escreveu de tudo sobre o governo do Inominável. Teses, textos, textinhos, textões. E depois veio de tudo no 8 de janeiro. De um lado e de outro. É claro que a fascistada faz elogios à burrice. Por isso, estes dados alarmantes que o Cristiano Heredia nos apresenta devem ser levados em conta.

Tem gente no Facebook, o centro de todas as vaidades, que escreve sem nada ler. Nem lê o que seus malucos iguais escrevem, quando muito a manchete ou parte de um vídeo ou áudio. E saem disparando.

Todos tem pressa de falar, de escrever “daquele (seu) jeito”.

Creio que muitos dos que não lêem já sabiam um pouco disso.

Tem gente que começou a escrever no Facebook. Tinham jeito e acabaram publicando. Eu mesmo incentivei alguns e deu certo. Sabem escrever. Tem conteúdo a nos dar. E todo o bom conteúdo deve achar um/a leitor/a.

Erros elementares de escrita e dados errôneos

Por melhor que a pessoa possa escrever, vai cometer alguns erros. Por isso, antes de publicar, o/a bom/boa autor/a faz a sua revisão, passa seus escritos a um/a bom (boa) revisor/a. Isto é essencial.

E, mesmo assim, com os corretores automáticos, com nossos teclados malucos, pode sair algum errinho.

Na semana li dois livros que me chamaram a atenção pelos títulos, tratavam de questões de Porto Alegre, tema que pesquiso e estudo. Que decepção!

No primeiro, encontrei erros variados não de escrita, pois a autoria era de uma jornalista. Mas dados históricos errados. No segundo, fui á loucura, porque não havia revisão, o portuguêscastigado por todos os cantos. Alguém que escreve Memórias ou algum texto histórico tem que verificar nomes citados. Imagina citar um prefeito numa data na qual ele nem estava nas lides políticas.

Por isso, achei legal que uma pessoa que prepara um romance histórico, que se passa em Porto Alegre, queria de mim dados sobre o Café Colombo. Quando alguém escreve sobre o passado tem que cuidar para saber qual era o nome daquela via X no ano Y.

Mas trocar “a” por “há” aí não dá mesmo. Perde toda a credibilidade.

Amadurecer

Creio que uma boa ideia seja deixar os escritos amadurecerem. Até mesmo um artigo a ser publicado no dia seguinte, se possível, deve permanecer como rascunho uma noite, para uma adequada releitura na manhã seguinte e as necessárias correções.     

Sempre soube que os grandes poetas escrevem, reescrevem, jogam fora poemas completos e voltam à dura labuta com a palavra.

Já viram os originais de alguns escritores? O Érico escrevia às margens, riscava, escrevia acima.

No escrever tem uma dose de inspiração, com muito suor, traquejo, arruma daqui e dali para dar forma ao que se quer expressar.

Não vejo com bons olhos publicações de “toque de caixa”. Não estamos postando no LinkedIn, nem gravando um micro vídeo no Tik Tok.  

Quando e onde publicar

Há poucas grandes editoras no Brasil. Nem se pode imaginar aqui no Rio Grande do Sul uma empresa da era da Livraria e Editora Globo. Nem tenho uma dimensão do que é nos dias atuais uma Companhia das Letras.

O que estas grandes editoras publicam? Grandes autores; em geral alguém já publicado em editora menor, em editora regional, até mesmo um autor que fez sua própria publicação para entrar neste difícil mercado.

Com o quase sumiço das distribuidoras, as coisas se tornam mais difíceis. Em Porto Alegre temos poucas distribuidoras, sendo que boas editoras não tem distribuição no Rio Grande do Sul. Ficamos nas mãos da Amazon. Hoje, a Estante Virtual cumpre um papel importante, porque muitos sebos dependem dela para vender. E ali achamos muito dos que procuramos.

Há muitas editoras, com louvável trabalho, porém há no mercado editorial um bando de caça-níqueis, que inventam “concursos”, “seleções”, “antologias” ou ficam mandando recados para que mandemos nossos escritos para análise. Vários destes oportunistas cobram “o olho da cara” do autor, não tem distribuição, não tem como ajudar na divulgação, deixando de publicar com editoras locais, de qualidade, podendo rodar em boas gráficas, como temos por aqui.

Como vender?

Como vender, se fecham tantas livrarias? Como vender se muitas têm pouco espaço, muitas vezes ocupados por autores tipo “best seller”, autoajuda e quetais, sem uma estante, um espaço, para “autores/as locais”.

Literatura rio-grandense está no meio da Brasileira e História do Rio Grande do Sul está em História Geral.

Já fui livreiro. Já tive sebo em local minúsculo, mas sempre cuidei de dar destaque adequado para as “cores locais”.

Nós temos anualmente em Porto Alegre, desde 1955, nossa Feira do Livro por duas semanas em espaço público, em pleno Centro Histórico, na Praça da Alfândega. Neste ano, serão 600 autores/as dando autógrafos. Haverá uma banca especial para os autores/as independentes.

Há saraus, lançamentos em botecos e cafés. A Feira do Chalé chega a sua 12ª edição. Foi importante a Feira de três dias dentro do Hospital Conceição.

Há feiras em quase todas as cidades do interior o Estado. Cresce o número de grupos literários, de academias de todos os tipos. Temos o “Banco do Livro” que repassa livros usados doados.

Afinal, como estamos, como andamos? As queixas de que lemos pouco é real? Estamos melhorando, começando a ler mais?

E a qualidade?

Em parte, já está respondida a questão. Temos problemas com gente escrevendo e publicando qualquer coisa, a começar pelas redes sociais. Há outros problemas de má qualidade saindo por aí.

Mas, enquanto se escreve, enquanto se publicam livros, ideias vão surgindo, críticas podem ser feitas, bons autores serão conhecidos. Logo, é nosso dever debater mais e mais o que se escreve.

Por que sumiram os espaços de críticas e resenhas nas grandes mídias, em especial nos jornais diários e de grande circulação?

Em seu lugar surgiram publicações importantes, como o Matinal e seu Parêntese, Literatura RS, Paranhana Literário.

O Paranhana Literário é um dos melhores exemplos do que se pode fazer pela escrita em nosso país. Surgiu fora da capital, em Igrejinha.

Queria ainda dar destaque aos vários grupos literários que surgiram pelo RS afora.

Tudo indica que a nossa AGES fará um grande encontro de escritores em 2024. Já estamos perfilados para ajudar.

E você, caro/a leitor/a?

Autor: Adeli Sell

Edição: A. R.

Boas Práticas Pedagógicas da Rede Pública do RS ganha Livro e Exposição


Caderno: No link: https://bit.ly/3rSp0QS  a íntegra do livro Boas Práticas Pedagógicas da Rede Pública de Ensino do Rio Grande do Sul.

Durante a homenagem aos professores e professoras pela passagem do seu dia, a Comissão de Educação da Assembleia Legislativa, presidida pela deputada Sofia Cavedon, lançou o Caderno e a Exposição: Boas Práticas Pedagógicas da Rede Pública de Ensino do Rio Grande do Sul. A cerimônia contou com a palestra do professor e biólogo Paulo Brack sobre Educação, a biodiversidade e os desafios atuais; de distribuição de mudas do Centro Agrícola Demonstrativo de Porto Alegre e apresentação musical com o grupo de professores Teachers Trio do Colégio Estadual Ildo Meneguetti.


A publicação traz 69 projetos de trabalho, selecionados para a 1ª Mostra das Boas Práticas da Escola Pública do RS realizada em 2019 pela Comissão de Educação, na época também presidida pela deputada Sofia Cavedon que teve como tema: A Escola Pública e seu compromisso com o conhecimento, a cultura, a inclusão, a cidadania e a democracia.


A Exposição, que será instalada no dia 23 de outubro e irá até o dia 27, no espaço Deputado Carlos Santos no térreo da Assembleia Legislativa apresenta, em dez banners, o protagonismo de professores, alunos e comunidades escolares, com os projetos que desenvolvem com temas nos campos da aprendizagem, gestão, formação, diversidade, cultura e tecnologia. “Queremos dar visibilidade às boas práticas pedagógicas que muitas vezes ficam restritas ao âmbito da escola onde são desenvolvidas e melhorar a sintonia da Assembleia Legislativa com as comunidades escolares do Estado, a fim de avaliar e propor iniciativas legislativas, bem como acompanhar a execução destas políticas na área da educação” afirma a presidente da Comissão.

Mais do que se imagina, são muitas escolas que desenvolvem projetos de sucesso, no sentido de resultarem em felicidade e aprendizagem em sala de aula.

Atividades aparentemente comuns são criadas, reinventadas e adaptadas, com um toque especial, que se modifica e faz a diferença, evidenciando a boniteza de ensinar e de aprender, como diz Paulo Freire”, enfatiza a parlamentar.

As notícias da educação são majoritariamente ruins: aulas no escuro, salas com goteiras, prédio interditado de escola interrompe aulas; a internet não é suficiente, a biblioteca está fechada; mães e pais se queixam que estudantes saem mais cedo todo o dia – faltam professores; só servem lanches simples na escola – a fome atrapalha a sala de aula; os salários estão congelados e todos que trabalham com educação estão endividados; a aposentadoria minguou e tirou esperanças de uma vida digna depois dos anos de trabalho e no cotidiano as tarefas só aumentam.

As mudanças educacionais sem diálogo nenhum desrespeitam a autonomia e autoria intelectual das professoras e professores, esvaziam o Planejamento Político Pedagógico das Instituições Escolares, resultando em improviso, fragmentação e desestímulo generalizado. Nenhum governante vai melhorar os indicadores educacionais agindo desse modo. Por isso, nossa denúncia, mobilização e defesa da gestão democrática são formas de homenagear as professoras e os professores.

Os registros foram selecionados por uma comissão e trazem diferentes olhares que pudessem perceber e identificar a diversidade de abordagens e caminhos pedagógicos, além de características culturais das diferentes regiões do nosso Estado. “É um espaço de registro da qualidade da Escola Pública e muito nos honra a confiança depositada na Comissão de Educação pelos professores que aqui partilharam como ensinam e como aprendem no processo de formação integral dos seus estudantes com seriedade, engajamento e compromisso”.


Representando as escolas, a professora Adriana Titol Balatin e o professor Kleiton Muller falaram sobre o imenso prazer de participar da atividade destacando a sua importância especialmente neste momento em que a Educação é tão fragilizada e sem investimentos. “Essa homenagem nos dá ânimo de levar para a escola que nossas iniciativas valem à pena”, frisaram.


Exposição:
A Mostra apresentará dez projetos extraídos do livro Boas Práticas Pedagógicas da Rede Pública de Ensino do Rio Grande do Sul, sendo eles:


– Alternativas Viáveis de Desenvolvimento de Caixa Entomológica Sem Crueldade, da
EEEM São José, de Constantina


– Horta Orgânica escolar: Meu pedacinho de chão, da EEEF Tomé de Souza, de Alpestre
– Feirão do João: Conectando Escola e Comunidade, da EEEM João Przyczynski, de Guarani das Missões


– Sacola Ecológica: Ajude a Natureza, da EEEF Dr. Jorge Guilherme Moojen, de Montenegro


– Bicelétrica: Transformando Energia Corporal em Eletricidade, da EEEF Aurélio Reis, de Porto Alegre


– Alimentação Saudável: Um dos Tesouros da Vida, da EMEF Lauro Rodrigues, de Porto Alegre


– Aproveitar e Produzir Alimentos de Forma Sustentável, do Colégio Estadual Monsenhor Assis, de Santiago


– O Gosto e o Encantamento Pelas Lidas do Campo, da EEEM São José do Maratá, de São José do Sul


– Trilha Interpretativa no Parque Estadual de Itapeva: Uma Verdadeira  Aula de Valorização Ambiental, da EEEF Justino Alberto Tietboehl, de Torres
– Eco Saberes As Panc na Merenda Escolar, da EMEF Guerreiro Lima, de Viamão

FOTOS: Fotos: Debora Beina (lançamento com público) Lua Kliar (Sofia Cavedon)


Autora: Sofia Cavedon, autora da crônica: A educação de volta para a democracia: https://www.neipies.com/a-educacao-de-volta-para-a-democracia/

Edição: A. R.

A inteligência de Valentine seduziu

Gostamos de saber de pequenas (grandes) coisas da vida. E é fato: pessoas com alta inteligência emocional nos seduzem e nos levam a “voar” com elas.

O terminal antigo do aeroporto da nossa cidade era pequeno. Antes da entrada do prédio principal, havia uma praça redonda com bancos curvos, de onde se viam ao longe campos e campos, e, mais longe ainda, os edifícios da cidade. E o silêncio! Aquele silêncio absoluto.

Quando soa forte a turbina de um avião, eu me levanto. Estou aguardando a chegada de um familiar. Associo viagem a alegria, nunca a tristeza. Ainda criança, meu coração batia mais forte ao imaginar que um dia, quem sabe, poderia entrar em um dos aviões que passavam por cima da nossa casa.

— Professor! – ouço uma voz feminina me chamar.

Valentine e Rosária me contam que completaram cinco dias na nossa cidade, visitando Diego, primo de Rosária, e outros familiares. Seus nomes são outros e, na verdade, não tenho certeza se me lembro deles. Foram tantos os alunos que tive… Iniciavam viagem de retorno ao México, onde vivem há vários anos. Sempre simpatizei com elas e creio que elas também comigo. Por isso não nos esquecemos.

Diego se junta a nós. Ficamos os quatro a lembrar das aulas na faculdade.

Valentine tem uma inteligência emocional acima da média. Percebe fácil os sentimentos do outro e sabe colocar as palavras na medida e no tom certos. Nas aulas, fazia colocações a partir de um ângulo novo. Me surpreendia.

Valentine nos conta que foi um ato falho de Rosária que a fez perceber que havia reciprocidade em seu amor.

Lembra a nós do ano em que o fundador da psicanálise escreveu “A psicopatologia da vida cotidiana”: 1901. Freud, disse ela, certa vez, atraído por uma jovem, cometeu o seguinte ato falho: em vez de agarrar uma cadeira para alcançar a quem chegava, agarrou “as cadeiras” da jovem. E o que ele fez? O que todos faríamos: retirou as mãos o mais rápido que pôde e disfarçou.

A chamada para o embarque fez com que nos despedíssemos.

Qual ato falho de Rosária teria feito com que Valentine percebesse a reciprocidade do amor por ela? Perguntei ao Diego, que ficou ao meu lado, aguardando o avião levantar voo.

— Professor, não sei. Mas sei o que fez minha prima se apaixonar por Valentine: sua inteligência muito acima da média. Inteligência emocional. Ela consegue nunca magoar.

— E rapidamente torna a conversa em uma conversa íntima.

— Retira o outro da solidão existencial.

 — Diego, quando descobrir qual o ato falho de Rosária que atraiu Valentine… Me conte!

Pois é, gostamos de saber dessas pequenas (grandes) coisas da vida. E é fato: pessoas com alta inteligência emocional nos seduzem e nos levam a “voar” com elas.

Autor: Jorge Alberto Salton, autor da crônica: A culpa não serve para nada: https://www.neipies.com/a-culpa-nao-serve-para-nada/

Edição: A. R.

Estratégia Nacional de Escolas Conectadas e ONGs empresariais que disputam recursos públicos

O grande empresariado brasileiro traz para o ambiente escolar as ideias de modificações que são implementadas nos âmbitos da produção, reorganizando o processo educativo “de maneira a torná-lo objetivo e operacional” (Dermeval Saviani), planejando a educação para ser eficiente, neutra e produtiva, caracterizando deste modo, uma pedagogia das competência e tecnicista que coloca tanto o professor quanto o alunado em segundo plano.

Na terceira década do século 21, já em tempos de Inteligência Artificial (IA) e controverso ChatGPT, após uma pandemia que evidenciou e aprofundou as desigualdades tecnológicas de quase metade dos estudantes das escolas públicas brasileiras, entra na pauta e na disputa a Estratégia Nacional de Escolas Conectadas, iniciativa do Ministério da Educação (MEC), prevendo investimentos de 8,8 bilhões de reais, para universalizar a conectividade das escolas públicas de educação básica até 2026.

Ancorada em alguns eixos, como: garantir energia elétrica com fontes renováveis; expandir a qualidade do acesso à internet com rede de fibra ótica e outras soluções; disponibilizar Wi-Fi para garantir conexão a turmas inteiras em conjunto com equipes pedagógicas; e comprar equipamentos e dispositivos eletrônicos portáteis de acesso à interneta estratégia prevê beneficiar 138,3 mil instituições em todo o país.

Cabe relembrar que cerca de 3,4 mil escolas no País não tinham acesso à rede de energia elétrica até o fim de 2022, segundo dados da Anatel. Outras 9,5 mil não dispunham de acesso à internet e 46,1 mil não possuíam laboratórios de informática. Estudos e diagnósticos do Censo da educação Básica (Inep/MEC) e da Associação dos Tribunais de Conta (TC) evidenciam e comprovam a falta de equipamentos, rede de internet, laboratórios, professores formados e monitores na maioria das escolas públicas dos diversos estados e municípios brasileiros.

“Estratégia Nacional de Escolas Conectadas” tem reservados em recursos para investimentos entre R$ 7 a 8 bilhões. Os identificáveis serão recursos provenientes de R$ 3,2 bilhões do Leilão do 5G sob gestão da Entidade Administradora da Conectividade de Escolas (Eace) e, do financiamento de novas redes de telecomunicações através do Fundo de Universalização dos Serviços de Telecomunicações (Fust), que disponibiliza R$ 2,1 bilhões geridos pelo BNDES. Outros R$ 1,7 bilhões de recursos advirão da Lei 14.172/2021; mais R$ 350 milhões da PIEC (Política de Inovação Educação Conectada) e R$ 250 milhões do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT).

O Fundo de Universalização dos Serviços de telecomunicações (Fust) -, foi instituído pela Lei nº 9.998/2000 cujas finalidades preveem estimular a expansão, o uso e a melhora da qualidade das redes e dos serviços de telecomunicações, reduzir as desigualdades regionais e estimular o uso e desenvolvimento de novas tecnologias de conectividade para a promoção do desenvolvimento econômico e social. Portanto, este fundo existe há quase 24 anos, é resultado de contribuições da sociedade quando do pagamento de serviços de telecomunicações e energia. Este fundo prevê que um percentual seria aplicado na melhoria de conectividade das redes de serviços da saúde e educação (unidades básicas, escolas, centros comunitários e outros), porém, tais recursos têm despertado a cobiça e a disputa por grupos econômicos e fundações empresariais.

Por exemplo, no ato de lançamento desta estratégia dia 26 de setembro, marcou presença a MegaEdu, uma coalização que envolve 14 ONGS interessadas em ditar a política educacional digital do Brasil, que contam com o apoio institucional e financeiro de empresários como Abílio Diniz, Moreira Salles, Pedro Passos, Luiz Trajano, além de fundos americanos. A MegaEdu é comandada por Cristieni Silva de Castilhos, com assento no Conselho Gestor do FUST, órgão que investirá R$ 2,1 bulhões neste programa. Esta vaga no Conselho foi conquista com apoio da “Coalizão de Tecnologia na Educação”, entidade formada pelo Conselho de Inovação pra Educação Brasileira (CIEB), da Fundação Lemann e o Instituto natura. Os 14 ONGs ratificaram o nome dela para o referido Conselho.

As entidades que apoiam a MegaEdu são: Instituto Península (Carrefour, de Abílio Diniz); Instituo Natura (empresário Pedro Passos); Fundação Lemann (Jorge Pedro Lemannn); Ensina Brasil (maior empresa bio-farmacêutica); Nova Escola (criada em 2015 com apoio Lemann); Instituto Gesto (organização que tem como parceiros Fundação Lemann e Instituto Natura);  Reuna (parceria com Fundação Leman e Itaú Social e apoio do Conselho Nacional de Secretários de Educação (CONSED) e “Movimento pela Base”, que se empenharam na construção desta BNCC vigente e a reforma no Novo Ensino Médio; Vector Brasil; Instituto Singularidade e Fundação Itaú Social (ligado a família Moreira Salles).

Uma estratégia por trás da estratégia

O movimento empresarial atua de forma organizada e institucionalizada há bastante tempo. Desde 2013, por meio do “Movimento pela BNCC”, grupos vem influenciando as políticas educacionais no Brasil, justificando suas intervenções como forma de tirar a educação deste quadro de caos que compromete a competitividade do país no cenário internacional e pautam uma educação baseada em resultados.

O grande empresariado brasileiro traz para o ambiente escolar as ideias de modificações que são implementadas nos âmbitos da produção, reorganizando o processo educativo “de maneira a torná-lo objetivo e operacional” (Dermeval Saviani), planejando a educação para ser eficiente, neutra e produtiva, caracterizando deste modo, uma pedagogia das competência e tecnicista que coloca tanto o professor quanto o alunado em segundo plano.

A pandemia do Covid-19 deu um grande impulso a expansão sem precedentes de uma “indústria global da educação” fortemente assentada no digital, com ofertas privadas, mas interessada sobretudo na produção de conteúdos, materiais e instrumentos de gestão para a educação pública.

Vários entes da federação (estados e cidades grandes) estão formando parcerias com as ONGs citadas e ignoram as potenciais contribuições e parcerias com as Universidades que se dedicam a formação de profissionais e pesquisas de alta qualidade.

No livro Escolas e Professores: proteger, transformar, valorizar, António Nóvoa, com a colaboração de Yara Alvim, apontam como o grande “mercado global da educação” vai continuar a crescer nos próximos anos.

O que fazer? Pela nossa parte, afirmam os pesquisadores, o mais importante é reforçar a esfera pública digital, desenvolver respostas públicas na organização e “curadoria” do digital, criar alternativas sólidas ao “modelo de negócios” que domina a internet, promover formas de acesso aberto e de uso colaborativo. É com base nestes princípios que podemos imaginar uma apropriação do digital nos espaços educativos e a sua utilização pelos professores, sem cairmos no disparate de reproduzir “à distância” as aulas habituais ou na ilusão de que as tecnologias são neutras e nos trazem soluções “prontas-a-usar”.

Outra obra, de Christian Laval, “A Escola não é uma empresa. O neoliberalismo em ataque ao ensino público”, demonstra a forte intervenção das organizações internacionais (OMC, OCDE, Banco Mundial, FMI) na conformação da ideia das contratações de pessoal na educação. Esse fenômeno, que aqui no Brasil se reflete no número excessivo de contratações temporárias em nossas redes de ensino, burla a determinação constitucional que indica a exclusividade do concurso público para ingresso no serviço público.

Segundo Laval, esses organismos internacionais também atuam no processo de comparações, especialmente através do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), realizado com aplicação de provas de Matemática, Ciência e a disciplina da Língua local. Essa avaliação internacional promove comparações de países com situações econômicas e sociais diversas. Para impulsionar estas medidas em cada país, estes organismos internacionais em muitas ocasiões fabricam um discurso global que tira a força ou autonomia das políticas educacionais específicas de cada país.

Trabalhar com educação e produção de conhecimento, com as atuais gerações da era digital, implicam acolher as novas tecnologias e inovações no campo educativo. Não importa quantos dispositivos existem ou que serão lançados, o importante é termos as diversas ferramentais como aliadas e educar as pessoas para seu uso.

Pierre Lévy, em As Tecnologias da Inteligência, propõe o fim da pretensa oposição entre o homem e a técnica. Critica o mito da “técnica neutra”, nem boa, nem má. Demonstra que ela está sempre associada a um contexto mais amplo e precisa estar vinculado a um projeto social coletivo. As sociedades ditas democráticas, se merecem seu nome, devem ter o interesse e o compromisso em reconhecer nos processos sociotécnicos fatos políticos relevantes.

A partir desta perspectiva, é preciso que as diversas tecnologias e plataformas, estejam a serviço de um projeto educacional e pedagógico qualificado, ampliando as condições de aprendizagem de todos, especialmente estudantes e professores, sob gestão e coordenação da esfera pública, em detrimento dos interesses econômicos e ideológicos das ONGs empresariais.

A previsão de Giles Deleuze de 1990 faz muito sentido no contexto atual brasileiro:

“Pode-se prever que a educação será, cada vez menos, um meio fechado, que se distingue do meio profissional como olho meio fechado, mas que todos os dois desaparecerão, em proveito de uma terrível formação permanente, de um controle contínuo exercido sobre o operário-aluno ou sobre os dirigentes da universidade”.

FONTE: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2023/10/estrategia-nacional-de-escolas-conectadas-e-ongs-empresariais-que-disputam-recursos-publicos/

Autor: Gabriel Grabowski, professor, pesquisador. Autor da crônica: Unesco alerta sobre o uso excessivo da tecnologias educacionais: https://www.neipies.com/unesco-alerta-sobre-uso-excessivo-das-tecnologias-educacionais/

Edição: A. R.

Aretê/virtude/excelência

Pela paz. Fim das guerras. Trata-se de sermos solidários com os povos em geral, vivendo em território israelense, vivendo na Faixa de Gaza ou nos países vizinhos atingidos, com mortes que se contam às milhares.

“Aretê” era um conceito grego usado nas guerras, era ser forte e astuto para vencer, mas tendo respeito ao vencido. Era um estado de excelência.

Garibaldi foi um lutador aqui na Guerra dos Farrapos, lutou no Uruguai, como foi o lutador da unificação da Itália. Aqui, num confronto em São José do Norte, não deixou que degolassem um jovem, pois ainda poderia lutar por sua pátria. Bento não deixou que queimassem a mesma vila neste confronto, para não matar civis. Estes foram dois exemplos de aretê.

Outro caso de aretê foi-nos dado pelo General Netto, depois de Porongos, largando seu “inimigo” interno Canabarro, vai com seus adeptos, inclusive negros sobreviventes ao Uruguai. Netto teve a excelência de não compactuar com Canabarro.

Nem Putin, nem Zelensky, nem Netanyahu, nem o Hamas tem aretê. Nem o presidente Biden.

São velhos guerreiros que querem sangue, mortes, ranger de dentes.

Querem poder e glória, mesmo tendo a morte de seus irmãos a lhes perturbar suas almas pela eternidade afora.

Veja que há quase 200 anos atrás havia, numa guerra de degolas, momentos de aretê, o que não tem nas guerras atuais.

Virtude é resgatar nossos compatriotas, sem pedir reconhecimento. Até porque os fascistas que também estavam entre os mais de 1 mil resgatados dão reconhecimento a quem nada fez. É a aretê fake.

Vivemos um mundo da Banalidade do Mal. Leia: https://www.neipies.com/a-banalidade-do-mal/

Vivemos a modernidade líquida das coisas “fake”.

Que sirvam as façanhas de excelência de modelo a toda terra!

Pela paz. Fim das guerras. Trata-se de sermos solidários com os povos em geral, vivendo em território israelense, vivendo na Faixa de Gaza ou nos países vizinhos atingidos, com mortes que se contam às milhares. Leia mais: https://www.neipies.com/a-guerra-chegou-aqui/

Autor: Adeli Sell

Edição: A. R.

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