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Conflitos e mudanças

Conforme se revelam as dificuldades, são exigidas novas abordagens na constituição de novas formas sociais e afetivas. O desenho com que se fazia uma casa já pode não mais servir diante dos temporais, sem esquecer o principal: a vida em busca de seus caminhos.

Na vida são oferecidas muitas opções. E em cada opção existem ainda diversas dimensões.

Assim sendo, pensemos: Pode-se optar pelo tamanho da solidão ou viver com a liberdade de retirar o máximo que a vida nos oferece ou ainda pela liberdade que temos de provocar além daquilo que a vida nos provoca.

Podemos nos contentar com a dependência das oportunidades ou estender nossas redes de apoio, o que nem sempre é fácil.

Podemos substituir a morte ou distância de nossos familiares por novas formas de vínculos. Podemos limitar nossos vínculos sociais ou redimensionar nossa solidariedade.

Podemos substituir a independência dos filhos por novas formas de filiação social ou ainda redimensionar nossas relações afetivas atraindo ainda mais o benefício de nos corresponder com a gente de nosso sangue. Se ainda os filhos se distanciam em razão das preocupações das novas famílias, por novas formas de comunicação ou relativizar o distanciamento por novas relações afetivas.

Se nossas falas estão defasadas ou já não servem para muita prosa em razão de novas formas de comunicação, é urgente renovar nossa cabedal comunicativo: urge renovar nosso potencial de conversas por novas redes sociais ou aderir a novos meios comunicativos: urge, muitas vezes, renovar as formas de nos comunicar.

Muitas vezes estamos cristalizados em conceitos e nas formas de amar e nos comunicar e ficando defasados até no jeito de ser. Volta e meia é bom rever nosso maniqueísmo afetivo limitando o poder de amar enquanto presos em velhos conceitos, tornando-nos preconceituosos. Se os netos ou até os filhos andam de pouca expressão é bom que nós os mais velhos renovemos as formas de chegar e bater nas portas do amor.

Muitas vezes acontece que privamos de uma autonomia de pequenos conceitos e, possivelmente, tenha chegado o tempo de pensar em novas leis ou costumes mais livres pensando numa nova ecologia. Por vezes, é bom rever nossa banalidade do bem e do mal e nos renovar em conceitos e atitudes. Faz bem sair da banalidade costumeira da velhice renovando o que nos foi imposto. 

 E muito mais se pode dizer tendo com novos chamamentos da existência:

* a solidão na velhice X criação de liberdade;

* na precipitação da dependência X redes de apoio;

* na distância das gerações X novas formas de vínculos;

* ver o egoísmo social X solidariedade;

* ver as relações com filhos X autonomia dos pais;

* cristalização de conceitos x relativismo;

* maniqueísmo afetivo x liberdade afetiva

*ajudar os Netos em baixa proteção X presença dos avós.

* a sacralidade familiar X naturalização de rompimentos;

*uniões sem filhos X egocentrismo afetivo;

*autonomia X heteronomia;

*conjugalidade bissexual X conjugalidade unissexual;

*além de velhos princípios x busca afetiva;

* a complexidade da velhice X cuidados;

* cuidados novos X família reduzida;

* identidade  X banalidade da velhice;

*abandono X prevenção. 

Isso nos mostra: 

Em muitos casos, os filhos carecem de novas proteções assim como os pais estão diante de possíveis fragilidades. Isso significa que a velhice, com novas características demográficas, pede novas intervenções conceituais, políticas, sociais, educacionais, familiares e pessoais.

Conforme se revelam as dificuldades, são exigidas novas abordagens na constituição de novas formas sociais e afetivas. O desenho com que se fazia uma casa já pode não mais servir diante dos temporais, sem esquecer o principal: a vida em busca de seus caminhos.

Autor: Agostinho Both

Edição: A.R.

Praia do cassino, RS

A Praia do Cassino, a maior do mundo em extensão, fica na cidade de Rio Grande, no extremo sul do Rio Grande do Sul. São 240 quilômetros, desde o município do Rio Grande até o Chuí/Uruguai, descrita como a mais extensa faixa de areia pelo Guiness Book de 1994.

A história do Balneário Cassino remonta ao final do século XIX, quando ainda não existiam balneários na costa brasileira.

Cada vez mais o balneário foi ganhando adeptos e em 1885, aproveitando uma linha férrea que ligava Bagé a Rio Grande, através da Lei 1551, o poder público outorgou à Companhia Carris do Rio Grande o direito de explorar o balneário.

Inaugurado oficialmente em 1890, o Balneário Cassino abrangia 3 quilômetros da costa e possuía um hotel com 136 quartos, salões para concertos e bailes, salas de jogos e leitura e tudo mais que fosse necessário para receber os visitantes. Além do hotel, o balneário tinha também chalés de estilo suíço que tornavam o lugar ainda mais charmoso. Os visitantes eram transportados até a praia através de bondes puxados por burros que percorriam a avenida principal.

O Balneário Cassino recebeu esse nome devido aos jogos de roleta que eram realizados no Hotel Cassino (que atualmente faz parte do Hotel Atlântico) mas que foram proibidos em 1946. Em 1966, a Praia do Cassino foi palco do lançamento de foguetes da NASA durante um eclipse total do sol. Esse evento atraiu a presença de vários cientistas vindos dos Estados Unidos, do Japão e de países da Europa, além de vários curiosos. Isso fez com que Rio Grande fosse a primeira cidade brasileira usada como base para o lançamento de foguetes espaciais pela NASA.

Vagonetas

Ao chegar ao início dos molhes da barra, logo se avistam vagonetas e vagoneteiros prontos para conduzir os visitantes ao encontro das belezas da vida marinha que se pode observar na praia do Cassino.

E Cassino tem história: é considerado o balneário marítimo mais antigo do Brasil, com 133 anos.

A visão do encontro do Oceano Atlântico com a Lagoa dos Patos, a maior lagoa costeira da América do Sul, faz do passeio (4 km) de vagoneta realizado no balneário Cassino um dos mais procurados, já que é possível visualizar navios entrando no canal de acesso ao Porto do Rio Grande, aves da fauna local, como gaivotas e andorinhas do mar e principalmente a área de descanso e alimentação de leões e lobos marinhos.

Navio

O navio Altair, embarcação encalhada desde junho de 1976 no Cassino, sofre com a ação do tempo e da maresia e lentamente vai desaparecendo na areia. Quem passa pelo local, 12 quilômetros ao sul da estátua de Iemanjá, enxerga um esboço do que ele foi um dia, já que seus destroços exibem os efeitos da corrosão à beira-mar. Na praia, virou costume tirar foto junto aos mastros enferrujados e cada vez menos reconhecíveis. O local também é muito procurado para a pescaria esportiva, já que buracos no entorno facilitam a concentração de peixes O

Abismo horizontal

A praia do Cassino, na sua extensão até o Chuí é conhecida pelos aventureiros como “abismo horizontal” por ser uma grande extensão costeira, praticamente, sem habitantes. Esta gleba de terras localiza-se dentro do que foi chamado de “Campos Neutrais” pelo Tratado de Santo Ildefonso (1777), a uma faixa de terra desabitada no Sul do Estado do Rio Grande do Sul cuja posse não seria de nenhuma das partes em conflito, (Portugal e Espanha). A Espanha também teve posse das terras do sul do RS.

A cidade de Rio Grande ficou 13 anos sob a posse dos Espanhóis. Alguns lugares sinalizam muito bem esse fato histórico. No distrito do Taim, que pertence a Rio Grande e que margeia a Lagoa Mirim, tem uma praia chamada de “praia da Capilla” em alusão a capela construída pelos espanhóis e que hoje encontra-se totalmente restaurada.

Algumas imagens da praia do Cassino podem ser vistas nestes dois vídeos: https://www.youtube.com/watch?v=tYBOZ9Dqubo

 (Pesquisa feita por Rubens M S Franken, em 06/06/2023)

Mudança para o Cassino…

Foram dois fatores que levaram-me a mudar para a Praia do Cassino.

O primeiro foi o fato de querer viver, após a aposentadoria, em um lugar com mais qualidade de vida, no litoral.

O segundo motivo foi o resultado de uma pesquisa por imóveis, feitas no litoral de SC e do RS. Na época Rio Grande passava por uma baixa nos preços de imóveis, em função do fechamento do Polo Naval, (efeito devastador da Lava Jato), quando 27 mil pessoas perderam o emprego.

Muitas pessoas que tinham a sua profissão ligada a indústria naval, mudaram-se da cidade. A lei da oferta e da procura fez o resto: imóveis desocupados no Cassino baixaram de preços. Depois que mudei, veio o encantamento ao conhecer as riquezas da região das águas.

Rio Grande é uma península dentro da Laguna dos Patos, além disso, tem a Ilhas dos Marinheiros, do Machadinho e a do Torotama, formando um arquipélago lacustre Riograndino. A 20 km do centro da cidade fica a Praia do Casino. A maior praia em extensão do mundo, segundo o Guiness Boock. Tem ainda algumas outras pequenas lagoas. Também pertence ao município de Rio Grande a reserva do Taim, que abriga a bela Praia da Capilla, na Lagoa Mirim.

A Lagoa Mirim, fica uma parte no Brasil e outra dentro do território uruguaio, onde denomina-se Lago Merín. Quem conhece as belezas arquitetônicas, históricas e naturais da região fica encantado. Além disso, a proximidade com o Uruguai nos proporciona ir lá e voltar, no mesmo dia, para compras ou passeios.

Fotos: arquivo pessoal Rubens Franken

Autor: Rubens Mário dos Santos Franken, autor da crônica 1824- 2024: duzentos anos de imigração alemã no Brasil: https://www.neipies.com/1824-2024-duzentos-anos-da-imigracao-alema-no-brasil/

Edição: A.R.

A banalidade do mal

A humanidade não está livre do fascismo/nazismo e de toda e qualquer violência cometida contra a vida, a integridade e a liberdade humanas não porque são forças que transcendem nossas escolhas e nossa habilidade para freá-las, mesmo que envolvam sofrimento e injustiças, mas porque somos capazes de nos somar com relativa naturalidade aos indivíduos e situações comprometidos com a desumanidade.

O conceito de banalidade do mal foi introduzido, na história do pensamento (político/moral), pela filósofa Hannah Arendt, a partir da sua obra Eichmann em Jerusalém (1963). Enquanto muitos esperavam que a pensadora, após acompanhar o julgamento de Eichmann, o descrevesse como um monstro, alguém persuadido por forças malignas, é apresentado como uma espécie de servidor que seguia ordens. Um funcionário que realiza o que a ele cabia, na sua falta, segundo seu entendimento, outros fariam o mesmo. Tratava-se, portanto, de um indivíduo desprovido de pensamento, de criticidade e de amparo ético.

A força do conceito de banalidade do mal nos remete a uma dura e inegável condição: o ser humano, dadas certas circunstâncias e, principalmente, na ausência e ou recusa da sua capacidade/habilidade de pensar, é capaz de cometer as maiores atrocidades.

A manifestação do ato de pensar, nos dirá a filósofa, não é, em um primeiro plano, o conhecimento, mas a habilidade de distinguir o bem do mal. É a capacidade de pensar que permite que o ser humano possa fazer juízos morais e não recusar a própria humanidade.

Claro que podemos reconhecer o empenho dos afetos políticos que acompanham e atravessam os desdobramentos históricos nos quais os indivíduos pautam suas existências, mas, no caso do pensamento em questão, o ponto é o colapso moral e a mediocridade humana que se seguem da inabilidade ou recusa de se pensar, inclusive, do colocar-se em jogo, inscrevendo o processo autoformativo no diálogo ético e estético consigo mesmo.

Outro ponto que merece destaque, a meu ver, é a tênue relação (ou diz respeito ao âmbito) entre resistência e cooperação.

Já temos experiências suficientes para saber que nem sempre encontramos, em determinados contextos, condições de resistir, até que novos elementos engendrem possibilidades reais de se enfrentar a força da violência e a catástrofe fascista. Contudo, a dificuldade de se construir instrumentos de resistência quando da explicitação ardida da barbárie, não deve ladrilhar o caminho para se justificar posturas que pactuam (também silenciosamente) com o que pode parecer inevitável. Quantos de nós já não consideramos natural seguir, mesmo sabendo que muitos não estarão conosco.

Todos os dias continuamos vivendo nossas vidas, talvez muitos incomodados com a situação em que a humanidade está enfiada, mas quantos são capazes de resistir e enfrentar a mediocridade cotidiana, a atrofia moral e o embestamento ético e estético?

Freud tematizou o narcisismo das pequenas diferenças, ou seja, sempre temos e ou consideramos (julgamos) outras pessoas inferiores a nós, pessoas que podemos pisar, maltratar.  Somos subservientes aos “fortes” e “superiores” e desejamos submeter quem julgamos inferiores.

A humanidade não está livre do fascismo/nazismo e de toda e qualquer violência cometida contra a vida, a integridade e a liberdade humanas não porque são forças que transcendem nossas escolhas e nossa habilidade para freá-las, mesmo que envolvam sofrimento e injustiças, mas porque somos capazes de nos somar com relativa naturalidade aos indivíduos e situações comprometidos com a desumanidade.

Autora: Marli Silveira

Filósofa, Poeta e Acadêmica da Academia Rio-Grandense de Letras, autora da crônica: “Se perdermos, sequer os mortos estarão a salvo”: https://www.neipies.com/se-perdermos-sequer-os-mortos-estarao-a-salvo/

Edição. A.R.

Leituras e anotações de um leitor angustiado

Mesmo com a produção exponencial da Internet, com vídeos, cursos, artigos, sites etc. e tal, temos visto muita produção de livros. Qual a sua apreciação sobre o tema? Anda angustiado como eu ando?

Revirando anotações, encontro um dado de 2020, dizendo que “no Brasil, existem cerca de 100 milhões de leitores, que compõem 52% da população”.

É uma informação extraída da 5ª edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”.

“Esses leitores são, em números absolutos, não estudantes (61,2 milhões), da classe C, D e E (70 milhões) e de renda familiar entre um e cinco salários mínimos (76,3 milhões).”

E tem mais, aqui peço maior atenção aos/às leitores/as:

“Enquanto cresce o número de leitores de 5 a 10 anos, esse percentual cai a partir dos 11 anos e entre leitores de nível superior e classe A.”

Pesquisas nunca são, de fato, um censo. São amostragens.

Há em mim um sentimento que temos mais crianças lendo, podendo ser real que aos 11 anos fissuradas no Tik Tok esqueçam os livros. Talvez, nestes últimos 4 ou 5 anos, tenha piorado o índice de leitores/as entre jovens.

Porém, estranhei e acho que você deve estranhar que diminua entre quem nível superior.

Esta é mais uma razão de minha insistência em debater, sem eu ter tido até aqui quaisquer retornos nas minhas redes e grupos, o que está me angustiando cada vez mais.

A pesquisa revelaria uma queda de cerca de 4,6 milhões de leitores, entre 2015 e 2019. Ainda a pesquisa: 82% gostariam de ler mais. A falta de tempo (47%) é o principal fator indicado pelos leitores pela não-leitura. Entre os não-leitores, as principais causas são a falta de tempo (34%) e o fato de não gostarem de ler (28%). Vamos lembrar que as megalojas da Saraiva e Cultura fecharam nos últimos anos.

És um senhor tão bonito

Quanto a cara do meu filho

Tempo, tempo, tempo, tempo

Vou te fazer um pedido

Tempo, tempo, tempo, tempo

É Caetano “up to date” no caso….

Ouça: https://youtu.be/HQap2igIhxA?t=46

Faltaria tempo, por que razão? Mais tempo ao celular e nas redes? Nos grupos de whastapp com brigas de família, fofocas do condomínio, do trabalho? Ou estamos fissurados como a gurizada (aquela do Tik tok) nas séries dos “streamings”?

Minha sensibilidade me diz que os jovens de 20 a 30 devoraram alguns livros com muitas páginas, como Harry Potter. E estes e outros não migraram para séries como Game of Thrones?

Vocês já ouviram falar de “literatura gótica” entre os jovens?

Estou fazendo uma série de entrevistas com pequenos editores daqui, tendo a impressão de que esta pesquisa tem coisas corretas, tendo apanhado algumas tendências, mas parece que mesmo com falta de tempo, com poucos recursos, há gente lendo.

Como explicar o crescimento destas pequenas editoras, de feiras por todos os lados, de saraus, de edição de coletâneas?

Mesmo com a produção exponencial da Internet, com vídeos, cursos, artigos, sites etc. e tal, temos visto muita produção de livros.

Qual a sua apreciação sobre o tema? Anda angustiado como eu ando?

Afinal, gostar de ler exige uma série de situações pelas quais é preciso passar: a primeira é a descoberta do valor da leitura; a segunda é a curiosidade pelas novidades que os livros trazem; a terceira é ter livros ou impressos ao alcance das mãos. Tais fatores aparecem, principalmente, quando as bibliotecas estão por perto e são facilmente visitáveis, fornecendo livros emprestados. (Autor: Padre César Moreira) Leia mais: https://www.neipies.com/ler-prazer-pouco-explorado/

Autor: Adeli Sell

Edição: A.R.

“Desculpe tocar no assunto”

“Desculpe tocar no assunto” é o título de uma crônica de Rubem Braga: “Nos piores momentos de minha vida sempre senti uma mão em minha cabeça; então fecho os olhos e me entrego a esse puro carinho, sem sequer me voltar para ver se é uma doce amiga ou apenas a leve brisa em meus cabelos”.

Quando jovem, perdi um colega e amigo – também jovem -, o Romeu: além da dor, senti constrangimento. Já a perda do colega e amigo Lori, faz pouco, trouxe-me sofrimento, mas não constrangimento.

Fazíamos, Romeu e eu, o estágio do sexto ano na Santa Casa de Porto Alegre, porém em enfermarias diferentes. Quase diariamente, num determinado horário da manhã, nos encontrávamos para um rápido cafezinho. Largando a xícara, Romeu mostrou-me a palma de sua mão: “Está azulada, não sei por quê. Já marquei consulta”.

Era um tumor inoperável no pulmão! O Romeu foi hospitalizado, fez quimioterapia e outros procedimentos.

Aquele encontro para o café foi o último em que nos sentimos bem à vontade um com o outro. Quando o visitava no hospital, além de olhares tristes, havia constrangimento entre nós. Era visível que seu estado não lhe permitiria viver muito. Ele não sabia o que dizer… Eu não sabia o que dizer…

Passaram quase cinquenta anos… Visitei o Lori, colega e amigo, no hospital, dias antes de ele falecer. Não tivemos nenhum constrangimento. Não falamos na doença grave que o afligia. Para que falar nela? Naquelas alturas, já havíamos internalizado que a vida é o que é. O melhor era recordar nossos bons momentos. Jogávamos futebol juntos. O Lori era muito bom! Rimos, inclusive.

Com o Romeu, com todas as vivências que ele poderia ter perdidas, não tinha como não ficar constrangido. Não conseguíamos nem falar. Já com o Lori, falamos, falamos, e nos demos as mãos.

“Desculpe tocar no assunto” é o título de uma crônica de Rubem Braga: “Nos piores momentos de minha vida sempre senti uma mão em minha cabeça; então fecho os olhos e me entrego a esse puro carinho, sem sequer me voltar para ver se é uma doce amiga ou apenas a leve brisa em meus cabelos”.

É assim, “com puro carinho”, que o filme “A história de nós três e de nós quatro” toca no assunto. Com a direção de Jaime Lerner e com minha participação como roteirista e ator, trata do reencontro muito afetivo de uma família após a perda do familiar que os unia. As canções de Paulo Reichert ajudam a narrar a história. Filmado em Passo Fundo, RS, é um longa de 74 minutos.

Estará em exibição em uma das salas do CINELASER do Passo Fundo Shopping na próxima semana.

As primeiras sessões serão destinadas aos alunos de nossas faculdades de medicina e de outras profissões da saúde. Mas a sessão de sexta, dia 01 de setembro as 19:30 será aberta a todos os interessados com ingresso na bilheteria do cinema. E no dia seguinte, 2 de setembro, sábado, às 10h no anfiteatro da Atitus, no Campus Santa Terezinha, abordarei o tema em palestra dialogada. Todos estão convidados!

Autor: Jorge Alberto Salton

Autor da crônica “Sentir-se culpado é ruim; se sentir responsável é bom”: https://www.neipies.com/sentir-se-culpado-e-ruim-se-sentir-responsavel-e-bom/

Edição: A.R.

Demônios estruturais assombram o Brasil

No Brasil atual, os demônios não estão nas favelas, mas nos palácios, nos condomínios de luxo e em suntuosas catedrais.

“Meu nome é legião”, respondeu o homem possesso à pergunta de Jesus. Conhecido como Gadareno, aquele homem vivia como um animal selvagem, perambulando pelas ruas e cemitérios de Decápolis, região dominada pelas legiões romanas. Aquela não era uma possessão comum. O Gadareno era habitado por um coletivo de demônios. Tratava-se dos demônios oriundos de outras terras, que vieram com as forças invasoras, com suas pretensões colonizadoras. Por isso, o demônio implora para não ser expulso daquela região.

Quando os europeus desembarcaram nas Américas, trouxeram na bagagem os seus próprios demônios e não apenas doenças para as quais os nativos não tinham imunidade.

Não são demônios os que vieram com os negros escravizados e seus cultos animistas, nem os que eram cultuados pelos povos originários. Os demônios vieram com os que devastaram as civilizações que aqui já estavam, pilhando impérios, aproveitando-se da ingenuidade dos que os consideravam deuses.

Os demônios que aportaram aqui tinham pele alva, sotaque ibérico e costumes estranhos. Outros demônios chegaram à Índia com os ingleses, na África do Sul com os holandeses, e em tantas outras terras com aqueles que pretendiam conquistá-las e reivindicá-las às coroas que representavam. Tais castas demoníacas se manifestam nos explorados, mas atuam através dos exploradores. Não habitam apenas corpos, mas estruturais sociais.

No Brasil atual, eles não estão nas favelas, mas nos palácios, nos condomínios de luxo e em suntuosas catedrais.

Não são como as legiões romanas, mas se organizam em quadrilhas que assaltam o erário público, que exploram os fiéis com promessas mentirosas, que promovem o ódio, o preconceito e a intolerância contra a população LGBTQIAPN+, as minorias étnicas e os fiéis de religiões de matriz africana, que desqualificam a luta feminista, que desdenham dos direitos da classe trabalhadora, que espalham fake news, que tratam seus rebanhos como currais eleitorais, que endossam políticas negacionistas e genocidas em nome da fé, etc.

Aqui seu nome não é legião, é religião.

Não me refiro à religião em seu sentido lato (do latim religare), que provê a religação entre os seres humanos, independentemente de distinções étnicas, sexistas, confessionais ou sociais, fazendo com que nos preocupemos em cuidar dos mais vulneráveis representados em Tiago pelos órfãos e viúvas. Refiro-me à religião como instrumento que visa legitimar o poder e os interesses de quem lucra com a exploração. Portanto, deveria ser chamada de reLEGIÃO.

Trata-se do que o livro de Apocalipse chama de “A Grande Babilônia” que tornou-se morada de todo tipo de demônios. São estes demônios que precisam ser exorcizados do cenário político brasileiro para que finalmente alcancemos a tão sonhada justiça social, tornando-nos, assim, um dos protagonistas na construção da civilização do amor.

Autor: Hermes C. Fernandes

Autor da crônica “Aos pais cujos filhos deixaram a igreja”: https://www.neipies.com/aos-pais-cujos-filhos-deixaram-a-igreja/

Edição: A.R.

Os discípulos de Shockley

Os pais podem transmitir mais do que seus genes aos filhos. Incluem-se valores morais. Banir a ideia de que algumas raças são, definitivamente, melhores e mais inteligentes do que outras, seria um bom começo.

Difícil imaginar (ou nem tanto, pois deixou discípulos aplicados) como alguém que foi agraciado com um Prêmio Nobel pôde expressar ou defender ideias tão estapafúrdias ou indefensáveis como as professadas por William Bradford Shockley (1910-1989). Pois esse renomado cientista e empreendedor, que recebeu o Nobel de Física em 1956 pela coinvenção do transistor, e cujas empresas que ajudou a fundar para a exploração dos semicondutores formaram o núcleo básico do que se tonou o Vale do Silício, também se prestou, nos anos 1960 e 1970, a liderar uma cruzada para prevenir a redução da inteligência nacional americana, que ele via como ameaça iminente pela miscigenação racial nos EUA.

Shockley defendia teses eugênicas por natureza.

Naqueles tempos, a taxa de natalidade dos negros americanos era mais alta do que a dos brancos e, segundo ele, a persistência dessa tendência levaria à diminuição do QI médio dos EUA. Então, acreditando piamente nisso, ele imaginou que a solução seria oferecer um prêmio de cinco mil dólares às mulheres negras que concordassem em ser esterilizadas.

E para ajudar nesse tipo de absurdo, essas ideias foram encontrar eco num artigo publicado em 1969 na prestigiada revista Harvard Educational Review, por Arthur Jensen (1923-2012), professor da área de Educação em Berkeley. O que Jensen afirmava era que a inteligência padrão dos negros nos EUA, pelo teste de QI, era muito menor do que a dos brancos. E completava, por ser a hereditariedade do QI muita alta, essa diferença entre brancos e negros seria genética. Acrescentando, absurdo dos absurdos, pelo pressuposto do comportamento genético não ser mudado pelo meio, que a esperança de alteração nessa lamentável diferença seria praticamente nula.

Desnecessário dizer que Arthur Jensen e William Shockley foram (e são) ouvidos por muita gente nos EUA e mundo afora. Mas algumas vozes contrárias também se levantaram.

Luigi Luca Cavalli-Sforza (1922-2018), especialista em genética de populações e vinculado ao Departamento de Genética da Escola de Medicina da Universidade de Stanford, foi uma das mais destacadas.

Luca Cavalli-Sforza, sem muito esforço mas com dificuldade para convencer os mais sectários, demonstrou que a falta de compreensão genética de Jansen e Shockley e seus asseclas era gritante. E que essa fragilidade seria a responsável pelos erros graves cometidos por eles. Além disso, no início dos anos 1970, Richard Herrnstein (1930-1994), professor de psicologia em Harvard, publicou um estudo demonstrando que as diferenças de QI entre classes sociais eram de duas a três vezes maiores do que entre brancos e negros.

A discussão, aparentemente, amainou nos meios acadêmicos até retornar, em 1994, com a publicação do livro The bell curve (A curva normal), da lavra de Richard Herrnstein & Charles Murray, ressuscitando as velhas e surradas ideias racistas. Muitas das teses desse livro foram e ainda são adotadas e defendidas pelos conservadores extremistas nos EUA.

O livro é bem escrito, busca a persuasão do leitor e exagera no uso de correlações (associações que não são relações de causa e efeito) para demonstrar que o QI dos pais importa mais do que a condição socioeconômica. Mas Herrnstein & Murray não insistiram que a diferença de QI entre brancos e negros seria genética. Ainda que, sutilmente, tenham defendido a mesma tese, ao alegarem que, pelo fato do QI ser tão hereditário, é “provável” que a diferença seja genética.

Luca Cavalli-Sforza defendia que a hereditariedade do QI estaria mais próxima dos 30% e não dos 60%, como referido por Herrnstein & Murray. Há que se considerar, segundo ele, no tocante à inteligência pessoal, que, além da hereditariedade genética, há uma parcela relacionada com a hereditariedade cultural (transmissão ao longo de gerações) e outra ligada a fatores individuais.

Os pais podem transmitir mais do que seus genes aos filhos. Incluem-se valores morais. Banir a ideia de que algumas raças são, definitivamente, melhores e mais inteligentes do que outras, seria um bom começo.

(Do livro Ah! Essa estranha instituição chamada ciência, 2021.)

Autor: Gilberto Cunha autor da crônica

“O debate ciência versus religião”:https://www.neipies.com/o-debate-ciencia-versus-religiao/

Edição: A.R.

Os homens são como os vinhos

Os Homens são como os vinhos: “a idade azeda os maus e apura os bons”. Será que Cícero tem razão?

Eu acredito que todo ser humano pode passar por grandes transformações. Nesse sentido, eu discordaria de Cícero. Ao mesmo tempo, Cícero também tem razão.

Acredito na humanidade e por isso acredito na possibilidade de transformações, mas é preciso estar sempre vigilante, buscar sempre saber as reais motivações das pessoas por trás de suas ações para saber se é vinho bom ou vinho mau.

Do ponto de vista geral, nas relações da sociedade, o tempo mostra que aqueles que praticam o bem e se envolvem em projetos de desenvolvimento social, ambiental, cultural… cada vez mais vão se aprofundando em boas ações. É simples de observar, aqueles que ajudam nas comunidades permanecem ajudando até que uma intempérie ou a saúde lhe impossibilitar. De outro lado, têm aqueles que nunca ajudam em nada na sociedade e cada vez mais vão se tornando céticos em seu próprio egocentrismo.

Nas relações mais íntimas cuidado, muitas pessoas boas são enganadas em sua inocência por pessoas carregadas de malícias e sem nenhum compromisso.

Quando você mais precisar e menos espera, as pessoas que você acredita que gostavam de ti, podem te deixar de mãos abanando com uma mão na frente e outra atrás… na hora que eles precisarem vão te sorrir e lhe ludibriar, mas, quando você precisar, provavelmente terão desculpas…

Preste atenção nas suas relações, inclusive naquelas pessoas que parecem ser boas… na dúvida, pense sempre em primeiro lugar em você mesmo e depois em quem já provou no tempo que não te abandonaria por nada.

Autor: Rudimar Barea, autor da crônica “Sobre amizade e sobre a soberba”.https://www.neipies.com/sobre-a-amizade-e-sobre-soberba/

Edição: A.R.

Quando morre uma Mãe

De nada adianta falar que jamais a esqueceremos uma vez que levou junto a si parte de nós, pois que a pertencia, desde sempre, desde o primeiro grito, e então um pedaço de nós arrancou.

Quando uma Mãe vai embora, não se engane, nunca fale que será melhor descansar, que assim… que partiu sem sofrer…

Quando morre uma Mãe, morre-se junto, não por completo, em seu todo. Morre-se sim, em parte, em partes, perde-se pelo menos o cordão, que foi seu, pela metade, e nosso, pela ponte da vida que nos tornou iguais.

Quando morre uma Mãe, a parte que tínhamos em seu ventre vai embora.  Não seremos jamais como éramos.  Não temos agora a quem pedir para voltar, porque de sua parte nascemos e quando pedíamos para voltar ao seu ventre, não nos ouvia, mas, ria.

Fechou-se finalmente nossa porta de entrada neste mundo e para o qual não temos mais saída.  Palavras não consolam, porque uma pequena morte ocorreu em nós, nesta fugidia vida que um dia pertenceu a ela.

Quando morre uma Mãe, somos finalmente jogados ao exílio, agora somos expatriados porque nossa mensageira, que nos trouxe um dia, partiu para sempre. Exilados, começaremos na manhã seguinte a pensar quanto tempo nos falta para reencontrarmos, agora que ficamos sem sua proteção, sem a sua mão, sem seu útero por perto, nosso casulo que um dia pensamos retornar. 

Nada mais importa, somos enfim jogados no mundo descalços para o frio, famintos de seios que nunca mais nos alimentarão.  Abandonados na esteira do acaso, aguardando as sombras que caminham lado a lado em uma enfermaria qualquer, em nossa direção.

Quando morre uma Mãe, morre a razão de nossa chegada, por que nada mais vai nos aquecer, nada vai nos proteger, e o mundo que nos é apresentado, sem a sua presença, é um palco de gritos e choros incontidos. 

Já que partiu, levou consigo o que lhe pertencia de fato, o elo que nos ligava no despertar para a luz.  Apagou-se, foi-se embora quem nos deu a estrada, foi-se, igualmente, sem vida, quem nos defendeu da morte. Sempre soubemos que ela iria, um dia.  Mas não queríamos pensar em ficarmos.

Quando morre uma Mãe, ficamos cúmplices de um mundo errante, nossos laços proibidos não os dividiremos com ninguém, agora em que ficou escuro novamente.  Porque não aqueceu como o era, antes de nascermos.  Agora está frio, está muito claro lá fora, será preciso comer sozinho, beber desilusões. Teremos de caminhar com nossas próprias pernas, agora e sempre, porque a imagem de carona no seu ventre protegido acabou e teremos de viver como estranhos neste mundo de lágrimas e banhos gelados.

De nada adianta falar que jamais a esqueceremos uma vez que levou junto a si parte de nós, pois que a pertencia, desde sempre, desde o primeiro grito, e então um pedaço de nós arrancou. Nem será preciso pedir a uma Mãe que fique, porque nosso desejo será o de partir.  Agora teremos louças e panos pretos a secar.

Enfim, viveremos com o que resta de nós, até voltarmos à casa, sermos chamados por ela para que nos assentemos à mesa, impecável, onde o jantar será servido. Jantar para os que não esperam mais nada, então, em cadeiras vazias, em tapetes e gatos a encharcar-se de solidão.

Não deverá faltar muito Mãe!

Autor: Nelceu Alberto Zanatta, autor da crônica “Na solidão das livrarias” https://www.neipies.com/na-solidao-das-livrarias/

Edição: A.R.

Sete ajudas e sete desajudas das religiões

Reafirmo o quanto é mais enriquecedor viver em sociedades plurais, nas quais surgem as mais diversas formas de pensar, e como são empobrecedoras as sociedades singulares, nas quais temos de nos enquadrar a um único e intolerante modelo.

Inúmeras vezes, na função de médico psiquiatra e de professor de medicina, fui perguntado se as religiões ajudavam ou desajudavam na saúde e na qualidade de vida das pessoas. Por isso, e já faz tempo, coloquei no papel sete fatores positivos e sete negativos.

Faço parte daqueles que acreditam que as religiões tolerantes ajudam, e que as religiões intolerantes desajudam.

Religiões tolerantes ajudam ao oferecer às pessoas:

1. Rede de apoio social.

2. Alívio da sensação de solidão pelo pertencimento a um grupo.

3. Reforço, para aqueles que assim desejam, da sensação de estar protegido por um ser superior.

4. Comportamentos saudáveis em relação ao uso de álcool e outras drogas.

5. Um sentido para o sofrimento e para a morte.

6. Rituais para superar lutos por perdas vitais de familiares e amigos.

7. Ideias de solidariedade, amor ao próximo e tolerância.

Religiões intolerantes desajudam ao incentivar:

1. Ideias sectárias de superioridade do próprio grupo e de inferioridade dos demais.

2. Preconceitos e discriminações que dividem a sociedade de forma maniqueísta entre bons/certos e maus/errados.

3. A rejeição a pessoas homoafetivas, mesmo se desejosos de participar da vida religiosa.

4. O acobertamento de práticas criminosas produzidas por seus membros, como o caso da pedofilia e da exploração financeira.

5. Práticas rituais emocionalmente muito fortes que podem desencadear surtos psicóticos.

6. Condutas morais inatingíveis, que geram comportamentos hipócritas.

7. O combate à laicidade, que assegura a separação entre o Estado e a Igreja, garantindo a proteção de se crer em outras religiões, no agnosticismo e no ateísmo.

Finalizo reafirmando o quanto é mais enriquecedor viver em sociedades plurais, nas quais surgem as mais diversas formas de pensar, e como são empobrecedoras as sociedades singulares, nas quais temos de nos enquadrar a um único e intolerante modelo.

Autor: Jorge Alberto Salton

Edição: A.R.

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