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O modo como tratamos o planeta nos denuncia

“Não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise socioambiental”. (Papa Francisco, Laudato Si’, LS, 139)

Respeitando o olhar da ciência, não há como esconder mais uma verdade inconveniente: estamos promovendo a mais avassaladora destruição da natureza, da biodiversidade, dos ecossistemas, do clima. Estamos contaminando cursos de água, intoxicando os solos com pesticidas. Eliminamos em massa espécies animais e vegetais. Já alteramos 70% da superfície terrestre da Terra. A temperatura global da atmosfera bate recorde. Há um acúmulo de evidências trágicas. Sintetizando, a crise climática está aqui, entre nós, e estamos cada vez mais próximos de um ponto de não retorno.

Seja como for, a escala da interferência humana no sistema Terra nos denuncia. Para começo de conversa, até hoje, pensando a ofensiva espoliadora contra o meio ambiente, é fácil concluir que não há lugar no Lar Planetário que o chamado homem moderno, de um jeito ou de outro (pouco importa), não tenha modificado.

Resposta óbvia: na tarefa de cuidar do planeta, temos sido um fracasso espetacular. Não por acaso, crise no meio ambiente passou a ser lugar-comum, decerto, referência imediata do nosso jeito antropocêntrico – antropocentrismo dominador.

E poderíamos dizer ainda algo com mais ênfase. Por conta direta do paradigma que nos trouxe até aqui, o da dominação de tudo e de todas as coisas, visto pelo lado do meio ambiente, o veredito parece ser um só: “Nos aproximamos cada vez mais de grandes desastres, provocados especialmente pelo modo como tratamos o planeta”.1

Nesse caso concreto, reforçando o que acabamos de anunciar, acumulam-se evidências de que o jeito como habitamos a Casa Comum que nos acolhe, “especialmente depois que entramos na fase capitalista”, usando as palavras do filósofo alemão Anselm Jappe, define, a rigor, a situação ecológica do mundo, tanto quanto define a saúde e o desenvolvimento humanos. Pesarosa constatação, a verdade é que, moralmente, somos denunciados por isso.

De modo simples e direto, suspeitamos que essa crítica é pertinente porque desnuda nossa irresponsabilidade ambiental, algo que, vale reconhecer, está na base da vida social conhecida. Não por acaso, em pouco mais de 50 anos, diante da crença (cada vez mais influente e dominante) de que a tecnologia pode levantar uma economia sem limites, dobramos nossa pegada ecológica.

Agora, “viciados em modernidade”, como gosta de dizer Aílton Krenak, “transformamos” o mundo num gigantesco hipermercado repleto de bugigangas. O resultado não poderia ser outro: a Humanidade toda já excede em 50% a capacidade de regeneração e absorção do planeta.

No horizonte crítico, isso tem um significado claro: para sustentar o peso da produção humana (massa antropogênica talvez seja o termo mais adequado), a atividade humana já explora num ritmo insustentável mais de 100 bilhões de toneladas de materiais (areia, pedra, cimento, biomassa, materiais metálicos e assim por diante) a cada ano. São 13 toneladas por habitante do planeta. Quase a metade disso se transforma em habitações, prédios comerciais, meios de transporte; enfim, produção para uso da sociedade humana.

Por tal razão, aceleramos o planeta em direção ao desastre. Parece que nos especializamos em produzir variados problemas ambientais com o pendor de aprofundar a crise global do meio ambiente. E tudo com velocidade inédita. Agora mesmo, está em avançado curso uma gravíssima crise de recursos hídricos – a crise da água no mundo atual, ou o problema da escassez de água potável, um entre os dez maiores impactos que o planeta enfrenta. De igual modo, aceleramos o aumento de gases estufa cem vezes mais rápido do que em qualquer outro momento da evolução humana.

Poluição, de todos os tipos, se tornou prática comum. A cada ano, 14 milhões de toneladas de plástico, assim relata a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), terminam nos oceanos, ameaçando sobretudo a vida marinha. São 100 mil animais marinhos levados à morte, todos os anos, repita-se.

Com efeito, nessa mesma linha de ameaça à vida animal, segundo o Fundo Mundial para a Natureza (WWF), a partir da degradação ambiental dos habitats pela atividade humana, um terço das espécies de mamíferos corre risco de extinção até a metade do século.

Não surpreende, portanto, que tudo o que estamos aqui relatando, ainda que resumidamente, tenha nomes e sobrenomes conhecidos: crise socioecológica, descompasso climático em avançado estágio. O que talvez cause certa surpresa é a lentidão dos humanos, especialmente das classes mais ricas, em atenuar, conter e mitigar os efeitos do desajuste planetário.

Reconhecidamente, a elite dominante, em larga medida, é a causadora de boa parte do problema. O motivo principal? Deixemos essa boa explicação com a Oxfam em parceria com o Stockholm Environment Institute: as emissões per capita de alguém que faz parte do 1% mais rico são 100 vezes maiores do que as de alguém que faz parte dos 50% mais pobres e 35 vezes maiores do que a meta estabelecida para 2030. Desde 1990, os 5% mais ricos foram responsáveis por mais de um terço do crescimento das emissões totais. Os 1% mais ricos foram responsáveis por mais do que toda a metade mais pobre da população.

Trocando em miúdos, faz tempo que o conhecimento científico nos informa que milhões de mortes no mundo estão relacionadas à crise climática provocada pela ação humana no planeta. Como atestou em relatório a Organização Pan-Americana para a Saúde (OPAS), não é de hoje que a sociedade humana convive com uma “tripla crise planetária”: a mudança climática, a perda de biodiversidade (fenômeno global) e a poluição.

Ocorre que, para essa relevante discussão, parece apropriado afirmar abertamente que, diante de uma tragédia ambiental que enfraquece a capacidade da Terra de responder às mudanças e às constantes perturbações antropocêntricas, sequer o sujeito humano pensa em retroceder. Ao contrário, bem adaptada às sociedades industrializadas e cada vez mais longe de inaugurar um modo de vida frugal, os homens da modernidade seguem avançando além do tolerável.

Diante dessa realidade, ao passo que o modelo vigente insiste em combinar destruição ambiental (superexploração de recursos) e crescimento econômico (a busca de novos mercados), os limites seguros do planeta (biológicos e físicos) estão sendo afrontados. Em sentido corrente, com o agravamento da situação de crise, tem ficado cada vez mais claro que produção e consumo excessivos (indicadores do tamanho da economia), escassez de água, alterações severas no clima, poluição, esgotamento de ecossistemas, alteração das cadeias vitais, são, de fato, ocorrências interrelacionadas.

A título de informação, a insustentabilidade ambiental daí decorrente tende a se consolidar diante de nossos olhos. Em outros termos, estamos falando de um mesmo e abrangente problema multidimensional: o processo de destruição da própria natureza, nosso fundamental sistema de suporte da vida. Inquestionavelmente, esse é o nervo central da questão.

De particular contexto, para entender essa verdade que somente os negacionistas (adversários da ciência e da vida) fazem questão de objetar, David Attenborough, melhor que ninguém, levanta uma sentença emblemática: “o mundo natural está desaparecendo”.

Pensando nisso, sejamos diretos e francos: o agir humano responde diretamente por esse trágico momento.

De tal forma, soa a dolorosa conclusão: embotados pelo véu da ignorância, nos falta a responsabilidade como forma de cuidado. Daí a facilidade com que desafiamos os limites seguros dos sistemas naturais. Na dúvida, vejamos atentamente que:

  • sessenta por cento dos serviços vitais que os ecossistemas fornecem à humanidade são explorados de maneira não sustentável ou já estão degradados;3
  • três quartos do ambiente terrestre e 66% do ambiente marinho4 sofreram severas modificações nos tempos recentes;
  • em apenas 50 anos, da metade do século passado até o ano 2000, foram destruídas mais florestas do que em toda a história de evolução da humanidade;
  • por ano, são perdidos 24 bilhões de toneladas de solos férteis, notadamente devido a urbanização e agricultura industrial5;
  • de 1980 para cá, metade da vida selvagem já morreu6;
  • mais de 95% da população mundial respira um ar que não é seguro, conforme as medições dos Padrões de Qualidade do Ar da Organização Mundial de Saúde (OMS). A propósito, a poluição do ar mata no mundo todo mais de 10 mil pessoas por dia;
  • desde 2009, o mundo já perdeu aproximadamente 14% dos corais7.

Conceito fechado, isso tudo pede uma resposta firme voltada a vencer elementares desafios, tais como:

(1)     enfrentar a Era do Antropoceno e suas transformações geridas pela sociedade pós-industrial (ameaças ecológicas);

(2)       efetuar a transição da era fóssil para a economia de baixo carbono (imperativo de primeira ordem que determina sobretudo o futuro ecológico e que requer o enfrentamento da poderosa indústria dos combustíveis fósseis que movimenta mais de 5 trilhões de dólares por ano);

(3)       repensar as atividades humanas, a organização social, o estilo ecomportamento de vida cotidianos, e mesmo essa atual e deprimente sociedade de descarte e consumo excessivos, hoje, como ontem, localizados na chamada economia plastificada que não cessa de aumentar.

Fazendo um recorte específico e enfatizando o trivial, ao fim, é sempre assim: o nosso real e imediato compromisso com o futuro é o de construir um mundo sustentável para nós, agora; para as gerações futuras, no amanhã; e para os outros seres vivos, hoje, amanhã e sempre.

Em suma, fundar um novo agir é, sim, a missão maior que nos espera.

Enquanto potencializamos a dívida ecológica em todos os sentidos, fingimos não acreditar que “nosso problema é o crescimento físico em um mundo finito”, como escreveu Dennis Meadows. Leia mais: https://www.neipies.com/divida-ecologica-2/

AUTORES: Gilberto Natalini *, Eduardo Jorge **, Marcus Eduardo de Oliveira***

 (*) GILBERTO NATALINI é médico cirurgião, vereador por cinco mandatos na Câmara Municipal de São Paulo. Foi secretário municipal do Verde e do Meio Ambiente (2017) e candidato a governador do Estado de São Paulo, pelo Partido Verde (PV), em 2014.

(**) EDUARDO JORGE é médico sanitarista. Por duas vezes foi secretário municipal de saúde e secretario do meio ambiente. Foi candidato a presidente da República em 2014.

(***) MARCUS EDUARDO DE OLIVEIRA é economista e ativista ambiental. Mestre em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo – USP (2005). Autor de ECONOMIA Destrutiva (CRV, 2017) e Civilização em Desajuste com os Limites Planetários(CRV, 2018), entre outros.

Notas:

1. Expressão de David Attenborough. Ver A Perfect Planet, documentário produzido pela BBC. Para mais detalhes: <https://www.bbcearth.com/shows/a-perfect-planet

2. Disponível em: <https://thelancet.com/commissions/planetary-health>

3. Cf. Gilberto Dupas, Meio ambiente e crescimento econômico – tensões estruturais. São Paulo: Editora UNESP, 2008, (p.23).

4. Disponível em <https://revistacienciaecultura.org.br/?p=4190>

5. Disponível em <https://news.un.org/pt/story/2019/06/1676501>

6. Cf. Relatório publicado pelo WWF, setembro de 2020.

7. Consultar: <https://www.unep.org/pt-br/noticias-e-reportagens/comunicado-de-imprensa/o-planeta-perdeu-14-de-seus-corais-desde-2009-devido>

Digitalização de escolas: o dilema enfrentado por Paraná e SP após fracasso na Suécia

De forma precária, e improvisada, Ratinho Jr. e Tarcísio de Freitas bancam um sistema que ainda não virou realidade nos países com os melhores índices de Educação

Após a Suécia decidir recuar no processo de digitalização da Educação Básica em decorrência das quedas drásticas nos exames educacionais internacionais do país, os governos de São Paulo e Paraná têm enfrentado um dilema acerca da implementação dos meios “modernos” de ensino nas escolas dos estados.

Segundo a Suécia, os alunos passaram a ler menos e apresentaram mais dificuldades de compreensão após a implementação do sistema digital.

As salas makers, suspeito, são a moda da vez. Assim mesmo, em inglês, para dar pompa às circunstâncias, à espetacularização do momento. Comenta-se muito, agora, sobre tecnologia e inclusão digital. Enquanto isso, na realidade, a maioria dos estudantes amarga desempenhos ruins em disciplinas básicas, como Português e Matemática.(Aleixo da Rosa) Leia mais: https://www.neipies.com/o-curioso-caso-dos-alunos-que-preferiram-os-livros/

No caso do Paraná, o governador Ratinho Jr. adotou a digitalização da educação com o auxílio do empresário Renato Feder. No entanto, após discussões a respeito da eficiência desse tipo de educação, à exemplo do levantamento suéco, os programas educacionais digitais têm enfrentado contestações por parte de representantes da comunidade escolar.

Mesmo com as grandes discussões neste âmbito, Tarcísio de Freitas (Republicanos), atual governador de SP, resolveu trazer o empresário Renato Feder para liderar a pasta da Educação, afim de implantar o mesmo sistema de digitalização no estado paulista.

A decisão tem gerado debates acalorados, com especialistas da Educação preocupados com os possíveis efeitos negativos que a digitalização pode trazer para o ensino e a aprendizagem dos alunos brasileiros.

Antes de criticar plenamente a digitalização do ensino, a maioria dos especialistas da área defendem que é essencial que se leve em conta as experiências de outros países que enfrentaram dificuldades similares ao tentar adotar uma abordagem parecida na educação, além da avaliação das evidências e impacto real da digitalização no processo de ensino.

Além da Suécia ter mostrado um posicionamento negativo com relação ao ensino modernizado, um relatório recente divulgado pela Unesco, com o título “Tecnologia na educação: uma ferramenta a serviço de quem?”, alertou sobre os impactos negativos da introdução de tecnologias na educação, sem qualquer diálogo ou reflexão crítica.

O documento é mais um que põe em xeque o modelo educacional adotado pelos governos de Ratinho Jr.  e Tarcisio e destaca que a tecnologia sozinha não garante bons resultados.

Debates e profunda reflexão sobre os impactos dos métodos modernos de ensino precisam entrar na pauta da Educação de forma urgente, antes que seja tarde e mais uma vez o país siga para mais um período de retrocesso.

Tempo para brincar, para ler um livro, para ficar com a família, para jogar. Porque se a gente não medir (e falo isso tanto para pais quanto para professores), em pouco tempo estaremos todos esgotados mentalmente. Deve ser algo leve e prazeroso, a tecnologia é nossa aliada, não vamos virar escravos dela. (Autora Graziela Bergonsi Tussi) Leia mais: https://www.neipies.com/tecnologias-sao-aliadas-da-educacao/

Autor: Victor Nunes

FONTE: https://www.diariodocentrodomundo.com.br/digitalizacao-de-escolas-o-dilema-enfrentado-por-parana-e-sp-apos-fracasso-na-suecia/

O Pensamento faz a grandeza do ser humano

Para Blaise Pascal o pensamento faz a grandeza do homem. “O homem não passa de um de um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante.

Blaise Pascal (1623-1662), foi um importante pensador do século XVII. Segundo seus biógrafos, desde cedo revelou um espírito extraordinário, não só pelas respostas que dava a certas questões, mas sobretudo pelas questões que ele mesmo levantava a respeito da natureza das coisas. Perdeu sua mãe com três anos de idade e foi basicamente educado por seu pai, um matemático que se encarregou de dar-lhe a melhor instrução possível.

O pai queria que o filho estudasse línguas e, mesmo sendo matemático, evitou que o filho tivesse contanto com a ciência dos números, prometendo-lhe que teria acesso a ela depois que soubesse com profundidade latim e grego. Apesar disso, Blaise sentiu-se profundamente atraído pelas figuras geométricas revelando-se em pouco tempo um gênio na capacidade de assimilar conhecimentos abstratos dificílimos.

Não apenas na matemática revelou-se o gênio precoce de Pascal. Aos dezenove anos inventou a máquina aritmética que permitia que se fizesse qualquer operação sem lápis nem papel, sem que se soubesse qualquer regra de aritmética, mas com segurança infalível. Podemos dizer, de certa forma, que tal máquina constitui a base para a invenção da calculadora utilizada até os dias de hoje.

Aos 23 anos de idade, tendo tomado conhecimento da experiência de Torricelli (1608-1647) referente a pressão atmosférica, realizou uma outra denominada “a experiência do vácuo” provando que os efeitos comumente atribuídos ao vácuo eram, na verdade, resultantes do peso do ar.

Pascal viveu num cenário em que prevaleceu a vitória do racionalismo filosófico e o mecanicismo científico. O desenvolvimento de uma nova forma de ver o mundo provocado pelo pensamento filosófico e pela revolução científica moderna substituiu tanto o mundo geocêntrico dos gregos quanto o mundo antropomórfico da idade média. Trata-se da substituição da ideia de uma ciência contemplativa para uma ciência ativa, o que fez com que o homem se transformasse de espectador em possuidor e senhor da natureza. No lugar da preocupação com o “outro mundo” (mundo espiritual), colocou-se o interesse por este mundo (mundo na natureza, físico, material).

A imagem do universo concebida como sendo um organismo governado por uma finalidade foi substituída pela ideia de que existe uma explicação causal e mecanicista de como tudo funciona. Todas essas compreensões e mudanças são possíveis porque o ser humano é capaz de pensar.

Para Blaise Pascal o pensamento faz a grandeza do homem. “O homem não passa de um de um caniço, o mais fraco da natureza, mas é um caniço pensante. Não é preciso que o universo inteiro se arme para esmagá-lo: um vapor, uma gota de água, bastam para mata-lo. Mas, mesmo que o universo o esmagasse, o homem seria ainda mais nobre do que quem o mata, porque sabe que morre e a vantagem que o universo tem sobre ele; o universo desconhece tudo isso”.

Estas ideias escritas por Pascal e publicadas postumamente no obra Pensamentos revelam a lucidez de um pensador marcado pela consciência trágica da vida e da condição humana, apavorado diante “dos silêncios eternos dos espaços infinitos” que perturbam todos aqueles que se dão conta da imensidão do universo e da fragilidade humana. De fato, se nos compararmos ao universo, ao poder destruidor dos fenômenos naturais (tornados, furacões, vendavais, tempestades etc) somos insignificantes, um simples grão de areia diante de um oceano.

No entanto, “a grandeza do homem” é sua capacidade de pensar. É do pensar que surgem as invenções, o domínio da natureza, a forma de organizar melhor a sociedade e as coisas. Mas há uma enorme diferença entre pensar qualquer coisa e pensar bem. O pensar não pode ser comprado com dinheiro ou delegado por procuração.

O pensar não surge espontaneamente, senão por um profundo e trabalhoso processo educacional que exige esforço, dedicação, pesquisa, leitura, conhecimento, sabedoria, ética e honestidade. Quando olhamos para os rumos do Brasil, parece que estamos tomando o caminho contrário do “aprender a pensar”.

Quando a especulação financeira é mais importante que a vida e a saúde das pessoas; quando as banalidades do cotidiano e a forma de vida fútil de certas celebridades recebem mais destaque na imprensa que os grandes problemas sociais como a fome, a mortalidade infantil, a pobreza, o analfabetismo, a falta de saneamento básico, o desemprego e tantos outras emergências; quando o fundamentalismo religioso que produz alienação e subserviência do povo simples é mais valorizado que a educação dos filhos; quando o consumismo de futilidades compromete mais o orçamento da família do que o gasto com as necessidades básica; quando o estado se abraça na racionalidade neoliberal e promove reformas que beneficiam a elite do atraso ao invés de promover a proteção social dos que tem menos – estamos diante de evidências de que o ser humano não quer ou não deseja PENSAR e tornar-se dono das própria ações.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

A Educação de volta para a Democracia

O fim do Programa de escolas cívico-militares é a retomada da legalidade, do respeito às diretrizes nacionais da educação como política pública de estado, discutida e planejada para além de governos, com a sociedade brasileira.

Assim determina a Constituição Federal no art. 214: ”lei estabelecerá o Plano Nacional de Educação, de duração decenal, com o objetivo de articular o sistema nacional de educação em regime de colaboração e definir diretrizes, objetivos, metas e estratégias de implementação para assegurar a manutenção e desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis, etapas e modalidades por meio de ações integradas dos poderes públicos das diferentes esferas federativas que conduzam à erradicação do analfabetismo; universalização do atendimento escolar; melhoria da qualidade do ensino; formação para o trabalho; promoção humanística, científica e tecnológica do País e estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação como proporção do produto interno bruto.”

A Lei 13.005/2014 estabeleceu o Plano Nacional de Educação para a década 2014-2024, a partir de duas grandes conferências nacionais de educação onde a sociedade brasileira participou intensamente, discutida e aprovada pelo Congresso Nacional. Em nenhuma de suas 20 metas e inúmeras estratégias está prevista ou projetada a dita “escola cívico-militar”. A partir dela, foram, igualmente,  estabelecidas Leis estaduais e municipais.

Miguel Arroyo, professor emérito da UFMG, sintetizou o problema em entrevista recente: “as escolas militares têm bons resultados para formar militares, mas não são os melhores exemplos para formar cidadãos com valores de democracia e de igualdade.” Leia mais: https://www.neipies.com/escola-nao-e-caserna-modelo-civico-militar-criminaliza-educadores-e-custa-caro/

Esse era, portanto, um programa vinculado a um governo e campo ideológico que se impôs, a despeito do planejamento legal da educação brasileira, primeiro por Medida Provisória, depois com legislações que estão em debate nas esferas judiciais exatamente pela inexistência de previsão legal nacional.

A Lei 9.394/1996, Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, de outra parte, explicita os princípios e bases da educação brasileira, sendo a  liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber, o pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, o respeito à liberdade e apreço à tolerância, preceitos fundamentais – opondo-se frontalmente à exigência de comportamentos padronizados, uma das práticas das escolas cívico-militar. Esse é um dos fundamentos do Ministério Público Federal para ajuizar ação para garantir que estudantes do Acre não tenham que submeter-se a padrões estéticos e comportamentos baseados na cultura militar.

Diante do argumento que a atuação dos agentes de segurança na escola ser apenas na gestão, espaços e disciplina, a Lei Máxima da Educação define claramente quem deve exercer: “a formação de profissionais de educação para administração, planejamento, inspeção, supervisão e orientação educacional para a educação básica, será feita em cursos de graduação em pedagogia ou em nível de pós-graduação, a critério da instituição de ensino, garantida, nesta formação, a base comum nacional. (Art. 64)”.

Aqui no Rio Grande do Sul, a Lei Estadual 10576/1995, assegura a gestão democrática da escola a ser exercida pelos/as profissionais da escola, em colegiado representativo dos quatro segmentos: professores, estudantes, funcionários, mães e pais. Não só como forma de democratizar a política pública de educação, suas regras, critérios de avaliação e escolha dos conteúdos, mas também para a aprendizagem do exercício da cidadania na democracia.

Valores, disciplina e relações respeitosas devem sim ser desenvolvidos no curso da formação dos meninos e meninas, dos jovens e das jovens brasileiras, de maneira que essas sejam posturas assumidas a partir da vivência democrática, multicultural, reflexiva e protagonista, transversalizadas pelas diferentes áreas do conhecimento humano. Tornar-se-ão regras internas e não dependentes de comandos e sanções.

Sonhamos com um povo livre e democrático para realizarmos a República Democrática, sem retrocessos a totalitarismos e ditaduras, assim deve ser a educação.

Autora: Sofia Cavedon – Deputada Estadual PT RS e Presidenta da Comissão de Educação e Cultura da AL/RS

Foto Paulo Garcia/ALRS

Desafio do momento

A reflexão proposta neste texto tem por objetivo alertar o educador, pai, mãe, professor, adulto em geral, sobre como devemos agir na educação das nossas crianças e jovens, tanto no lar, na escola, ou no convívio social em relação à busca de suas identidades e integração consigo mesmas, com os outros e com a divindade.

O esforço da experiência por buscar a própria identidade nos conduz ao autodescobrimento, à percepção do que realmente somos e representamos para a vida. Vamos nos dando conta da finalidade da nossa existência, mas, também, das nossas fragilidades, do excesso de preocupações que estávamos tendo em relação ao que é imediato, que traz triunfo e sucesso aparente, que provoca a ansiedade, o medo, a solidão íntima, esquecendo a importância da paz interna.

Por muito tempo perseguimos metas exteriores, disfarçamos nossas emoções e corremos atrás de falsa realização pessoal sem darmo-nos conta de que estas conquistas, meramente materiais, têm pouca significação em relação ao verdadeiro sentido da vida.

Gradativamente, nos embates da nossa vida, acabamos por deixar aflorar, desabrochar, depois de grandes desafios, admiráveis recursos interiores que estavam aguardando o momento de vir à tona… é o desafio que o filosofo grego Sócrates (470Ac – 399Ac) encontrou no oráculo de Delfos: CONHECE-TE A TI MESMO. Que coisa que eu sou? Quem sou eu?

Vamos nos dando conta da nossa origem divina, que somos parte integrante de todo mundo vivo, criado por Deus, que somos, também, na nossa maneira de ser, único, excepcional. O auto encontro inicial vai nos saturando de sentimentos de equilíbrio e bem-estar, da percepção de novo e profundo sentido para nossa vida. Entretanto, é um processo longo, doloroso, exige esforço consciente e perseverante, sem perder o interesse pela luta de crescimento moral, emocional e espiritual. Esta experiência consciente desenvolve o respeito por nós mesmos, o auto amor, amplia nossa visão sobre os outros e o meio social onde atuamos. Naturalmente nos tornaremos mais compreensíveis, amorosos e solidários pois teremos rompido com as ilusões do ego, na busca de nossa plenitude integral.

Que estratégias podemos nos utilizar para estimular nosso processo de crescimento?

Primeiro, identificar nossos defeitos e as boas qualidades que temos, sem autojulgamento, sem auto culpa. Ir lá no íntimo e buscar eliminar os problemas que nos causam conflitos, sofrimentos. Reconhecer nossas qualidades, desenvolver novos valores morais que nos harmonizem, nos renovar sempre para o melhor. É uma ação consciente.

A meta seguinte, nesta caminhada, é buscar o verdadeiro significado de estarmos vivos, aqui e agora. Este procedimento de autoconsciência lógica nos mostra o que devemos fazer e como fazer, abrindo campo para a criatividade, espontaneidade e imaginação, conduzindo nossa atenção para dentro de nós mesmos e sentir a nossa força íntima. Desta forma, refletindo sobre nossas emoções e sentimentos, vamos enfrentar os desafios naturais da vida com mais disposição e equilíbrio, sem nos desestruturarmos.

A meditação é uma atitude que oferece ótimo recurso para uma incursão profunda dentro de nós e independe de compromisso religioso. A busca do silêncio, quando procuramos descontrair, num recanto isolado, entre quatro paredes ou junto à natureza, nos enche de paz. A observação solitária do céu, das nuvens, do nascer ou pôr do sol, da lua, dos astros, do voo das aves, das plantas, o sentir a brisa no rosto, o respirar fundo e expirar, caminhar conosco mesmo, de pés descalços na grama, na areia da praia, chutar as ondas à beira mar, extasia nossa mente, ajuda-nos a nos perceber como parte integrante da criação divina. Nestes momentos mágicos, sem contatos virtuais, mas naturais, nos conectamos conosco mesmo. Ao elevar nosso pensamento numa prece sincera de gratidão ao Criador por tudo que temos, chegamos à nossa essência.

A introspecção oferece clima de segurança emocional, calma, amadurecimento psicológico, e ajuda a no auto identificar com a nossa humanidade através de uma consciência ética, de lucidez intelecto-moral que emerge da rotina e encontra a si mesmo. Neste contexto, o pensamento é a força viva, ativa, que precisa ser direcionado pela nossa vontade para ser educado.

Pensar de maneira salutar é compromisso valioso para gerar otimismo e paz, iniciando programa de ações corretas… Tudo quanto se tenha que fazer, pensar antes, delineando um programa cuidadoso, no qual o improviso não tenha lugar, nem tampouco o arrependimento tardio”. (Livro – Autodescobrimento – Divaldo P. Franco, pág. 79, Ed. Leal)

A reflexão proposta neste texto tem por objetivo alertar o educador, pai, mãe, professor, adulto em geral, sobre como devemos agir na educação das nossas crianças e jovens, tanto no lar, na escola, ou no convívio social em relação à busca de suas identidades e integração consigo mesmas, com os outros e com a divindade.

Temos que levar em conta que precisamos, primeiro, fazer o retrospecto de nós mesmos, trilharmos este caminho do autodescobrimento, assim nos tornando aptos a encaminhá-los nesta direção. O discernimento sobre os objetivos e significado da vida vai proporcionar-lhes a harmonia íntima e a natural integração de si com os outros a sua volta, e o meio natural onde estão inseridos. Não podemos esquecer que nós, seres humanos, temos em nossas vidas um psicotropismo que nos impele a crescer e nos direcionarmos para Deus.

Procure sempre refletir contigo: por que agi desta maneira? Ou o “o que aconteceria se eu tivesse agido de outra forma? Busca o sentido mais profundo da vida. Não fique na superficialidade, relute sempre em causar danos aos outros e a ti, tenha sempre como modelo de ação os grandes luminares da Humanidade, como Jesus, Buda, Gandhi, Moisés, Maomé, Allan Kardec, etc. Leia mais: https://www.neipies.com/carta-aos-jovens/

Autora: Gladis Pedersen de Oliveira

Não desista Rubes

Na trama da vida e na complexidade do nosso tempo, perder ou ganhar, são valores vazios e desprovidos de seu significado essencial.

Estava pensando em você Rubes, quando ouvi a expressão que falava assim: ‘um sino não é um sino sem você tocá-lo’.  Então pensei: um amigo não é um amigo sem se mostrar amigo.  Escrever é sempre o melhor caminho para se expor o que se pensa e pensar com os amigos.

O seu Nadir sempre fala de você, com aquele carinho típico. No entanto, quando apresentei o projeto das caixas sustentáveis, lembra, percebi ali o desânimo, dúvidas, e uma postura de incredulidade frente ao convite. Não que não estivesse agradecido, sem dúvidas.

Olha Rubes, não se preocupe, porque era apenas uma oportunidade.  E elas surgem todos os dias e nem sempre são as melhores para nós.  Às vezes, são convites menores e, ao invés de aceitarmos, recusamos, para em seguida, vermos nelas um livramento. Quantas vezes!

Você não é obrigado a viver como que se perguntando quais as oportunidades em que agarrou e quais as que perdeu.  E nem deve se culpar pelas que sumiram, e que talvez fossem boas, talvez não.  Nossa carreira não é muito longa e, quando acordamos, estamos em um estágio em que parece não haver retorno possível.

Mas isso é só meia verdade.  Sempre há um retorno! Nossos recomeços podem ser ilimitados, nosso tempo nunca acaba, não enquanto estivermos respirando.  Acaba, um dia, quando nós mesmos o damos por encerrado.  Podemos recomeçar, reaver o que nós achamos que perdemos, a todo instante.  Se é que perdemos alguma coisa. 

Dizem que bens, dinheiro, pessoas, se partiram e nos deixaram, é porque não nos pertenciam e nunca deveriam ter permanecido conosco. O mesmo vale para derrotas, que podem ser apenas o resultado de falsas batalhas.

Nós somente perdemos o que não nos importou, mesmo que distraídos.  Deixamos fugir o que em nossa escala de valores, mais tarde, sequer lembramos.  E somente se compararmos com o que não temos! Não podemos falar em perdas, que, em essência, nunca foram nossas e nem deveriam ficar ao nosso lado.

Ficamos muito tempo com os olhos no passado e não fazemos a conta exata do quanto nos resta.  Porque a nossa idade real é aquela em que ainda temos para viver e não a que já se consumiu.

O que de fato perdemos?  Vamos à Bíblia:  Deus ‘perdeu’ seu filho para salvar a humanidade.  Na verdade, não o perdeu, antes, ganhou milhares de pessoas que o amam até a morte.  Daí que há salvação para todos. E João lembrou que quem ama sua vida vai perdê-la e quem a perde, ganhará. Então perdemos o quê mesmo?

Família, amigos, pais, irmãos, mais amigos, isso sim, são perdas irreparáveis.  Até na saúde precária podemos viver e sorver a vida, em sua magnífica beleza.

O nosso acúmulo de coisas ao longo de nossa jornada vai se tornando pesado e, na medida em que avançamos, aumenta. Arrastamos nossos troféus para que os outros nos contemplem. Mas o olhar indiferente do vizinho e a poeira, é o que neles restará.

As pessoas acumulam muitas coisas, bens, ativos, dinheiro.  A corrida é grande e uma luta para conquistá-los. Em sua partida, porém, haverá limites à sua bagagem. Esquecem que ao final da pista, poucos quilos caberão em sua mala. Nenhum, talvez.  E então a sua vida passa, em tormentas diárias, de trabalho e ansiedade sem limites. Vencedores, nós os chamamos.

O conceito de perder e ganhar, em nossa sociedade foi banalizado.  Em meus lançamentos recentes, pude certificar.  Ao convidar uma professora para apreciar um livro, justamente sobre aceitação, vimos ali uma heroína, que tem em sua carreira uma vida de doação.  Entretanto, outras pessoas, que sequer apareceram, quem sabe por estarem desligadas do verdadeiro sentido do que seja vitória. Pois é na falta da tolerância, da convivência, da empatia e do respeito mútuos, que ali mesmo nasce a derrota.

Vencedores nesta sociedade, são os que conseguem mostrar em sua aparência, o que têm, o que é mensurável, o que vale para mostrar?  Isso para o olhar do outro e sua admiração e, em seguida, para sua inveja.

Muitos bens e pouco bem.  E o que não vemos, quanto vale? Qual o valor de uma casa vistosa, de um carro de luxo, de uma vida de consumo frente a rotina de uma mulher, que levanta todas as manhãs para cuidar de uma casa de repouso, que acolhe pessoas abandonadas!  Cuida de gente sem valor algum, que não produz mais nada e que nada pode consumir. O que vale mais?

Na trama da vida e na complexidade do nosso tempo, perder ou ganhar, são valores vazios e desprovidos de seu significado essencial.

A questão é que nós já os incorporamos, acreditamos nestas conquistas e, quando as conquistamos, ou mesmo, quando as perdemos, será sobre estes padrões que nos julgamos. E sofremos com isso.

Uma pessoa passa a vida dedicada ao bem, por exemplo, a crescer e ensinar às pessoas ao seu redor, mas muito pouco juntou, sendo depois julgada pelo que conseguiu.  Um homem arrogante e tolo, por outro lado, egocêntrico e incrédulo, é admirado e louvado pelos bens que mostra à sociedade.  Não estamos todos perdidos, sob este ponto de vista?

Somos prisioneiros de valores pelos quais não nascemos para lutar e passamos a vida inteira no seu encalço, para depois reconhecer, que o bem maior é a nossa coleção de amigos e não as ações na bolsa que empilhamos.  Mas aí pode ser tarde demais!

Temos de abandonar nossas perdas, porque em sua maioria trata-se de bens e não da essência para o que viemos aqui. Elas têm de partir, uma vez que não nos pertenciam. Temos de segurar o que nos envolve, o agora, porque o que resta de tempo é o único e verdadeiro tesouro a guardar. E assim sempre aprender.

Desistir? Somente quando a tampa for baixada.  Antes disso, há que se reavaliar, ressignificar, recomeçar, refazer, reconquistar, reencontrar…

Ao Universo e a Deus não há dias ou anos. Há hoje. Nós é que tentamos enganá-los, fatiando o tempo ao nosso interesse, como que negociando dias em troca de anos.  Não dá certo! Vivemos tudo ao mesmo tempo.

A cada manhã em que nos levantamos, não há diferença alguma entre a noite que se foi e o dia que começa.  Tudo é presente.  E o mal que passou não vale mais, a dor de ontem não nos faz mais sentir. Daí que mágoas devem ser abandonadas, esquecidas, derrotas devem ser minimizadas, e um novo foco em valores reais deve ser reestabelecido. É retomar a vida que nos foi emprestada.

Voltando ao sino, Rubes, pense em cada vez que ouví-lo, assim que dobrar, uma perda tem de ser esquecida.

Viva seu recomeço!

Autor: Nelceu Alberto Zanatta, autor do livro “A planta, suas folhas e um sino”. https://www.neipies.com/uma-potente-pegada-por-empatia-em-livro/

Apenas dou aulas

Dar aula é inútil. Só dar aula, então… Hoje em dia espera-se que um professor faça de tudo. Só dar aula não dá lucro. Logo, não agrega valor.

Sou professor. Licenciado em Filosofia. Plenamente. Também sou acadêmico do curso de Letras. Estudei anos e anos para dar aula.

Infelizmente, é o que sei fazer…

Peço perdão por não saber fazer outra coisa. Sei que, ao ensinar sobre Platão, Aristóteles, Nietzsche e Schopenhauer, sou pior que um terrorista. Se eu falar sobre Karl Marx e sua crítica ao capitalismo, então, sou pior que Mao Tsé-Tung e Pinochet…

Dou aulas.

Não sei pregar um prego à parede. Não apenas porque não me preparei para isso, mas também porque não desejo pregar um prego à parede. No fundo, deve haver algo muito errado comigo.

Acontece que, quando jovem, disseram-me que ser professor era uma profissão importante. Tão importante quanto ser um mecânico ou um advogado. Jovem e tolo, eu acreditei.

Agora estou aí, dando aulas…

Como sou formado em Filosofia, uma disciplina inútil por si só, não me dou muito bem com trabalhos manuais em geral.

Posso, por exemplo, apresentar as principais concepções surgidas ao longo da história sobre o que é FELICIDADE. Sabia que existe uma linha, na Filosofia, que estuda isso? Chama-se EUDAIMONIA. Pois é…

A felicidade, porém, também é inútil. Útil, mesmo, é saber pregar um prego.

Dar aula é inútil. Só dar aula, então… Hoje em dia espera-se que um professor faça de tudo. Só dar aula não dá lucro. Logo, não agrega valor.

É por isso que, na educação atual, os governos enchem professores como eu com tarefas burocráticas, com muitos períodos e muitas crianças para atender por sala — porque somos inúteis. É preciso mesmo que inventem algo para fazermos, para justificar o imposto gasto com nossos salários.

A prioridade do trabalho dos professores e professoras deve ser o pedagógico, deve ser a relação com os estudantes, deve ser a exploração dos seus potenciais criativos, o uso de novas tecnologias e ferramentas educacionais e a mediação da construção dos conhecimentos. As quinquilharias da excessiva burocracia na educação só enchem tabelas de relatórios e os olhos dos burocratas que pouco entendem de educação. (Nei Alberto Pies) Leia mais: https://www.neipies.com/estao-matando-a-essencia-da-educacao/

Além de professor, sou escritor. Quer ver ficar pior? Sou poeta. Meu Deus, um professor-filósofo-escritor-poeta!

Não sou apenas inútil. Sou O inútil entre os inúteis…

Melhor eu ir ali, fazer um cursinho técnico, virar coach, aprender algo útil, antes que eu morra de fome. Preciso mesmo criar vergonha na cara.

Afinal, só sei dar aula…

Sou só professor.

E um escritor medíocre.

Autor: Aleixo da Rosa, autor da crônica “O curioso caso dos alunos que preferiram os livros”: https://www.neipies.com/o-curioso-caso-dos-alunos-que-preferiram-os-livros/

Os limites da suportabilidade

Até onde vai nossa capacidade de suportabilidade para tanta dor e violência?

O fotógrafo Kevin Carter, ganhador do Pulitzer de 94 pela fotografia do bebê sudanês famélico no mesmo plano de um abutre, que esperava pela morte do menino para finalmente devorá-lo, acabou se suicidando por não suportar as críticas pela atitude sofrível e desumana: ter optado pelo melhor plano (arte) e não pela vida. 

A relação, neste caso acima citado, parece, foi estabelecida na direção dos limites éticos de um trabalho artístico. Se podemos achar algo belo mesmo que em jogo esteja a representação de um gesto de violência, da fome, da dor. Talvez melhor, se a arte pode prescindir da ética, ou ainda, se o profissionalismo pode prescindir, em determinadas circunstâncias, insinuando-se por dentro de outros marcadores.

Kong Nyong, o bebê sudanês, sobreviveu. Carter pode ter cometido suicídio não apenas pela foto premiada. O próprio Sebastião Salgado, um dos grandes nomes da fotografia mundial, recebe críticas pela repercussão de imagens em que a denúncia não deixa de ser também violência.

Longe de apresentar uma consideração exaurida de fontes e discussões, tenho acompanhado nossa pressa, minha, inclusive, de nos livrarmos das responsabilidades cotidianas. Enquanto escrevo este pequeno artigo, uma ou duas horas de produção, mais de oito pessoas morreram vítimas de violência no país, algo em torno de 110 por dia; 19 adolescentes são assassinados/as a cada 24 horas, outros 123 estupradas/os. Praticamente 33 milhões de pessoas morrem e ou vivem em situação de insegurança alimentar. Brevíssimo histórico das nossas desmemórias.

Até onde vai nossa capacidade de suportabilidade para tanta dor e violência? Sim, é claro que seria impossível uma vida lançada ininterruptamente no abismo da existência, pois precisamos ancorar nossas dores e culpas em repositórios capazes de tornar menos sofrível a gratuidade da vida. Precisamos continuar, apesar de. Contudo, temo que a exposição continuada e contínua aos abusos da desumanidade nos torne insensíveis aos apelos dos que não têm salvaguarda no mundo.

Por quem choramos?  Quais são os cenários cotidianos que são suportados e figuram nas nossas vidas sem que nos provoquem qualquer repulsa ou empatia?

Estudo de Viezzer e Grondin (2018) mostra que a invasão/colonização europeia nas Américas provocou mais de 70 milhões de vítimas entre os povos originários (1500/1900). Nossa história foi construída sobre o sangue de milhões, sem menosprezar a igualmente perversa escravidão a que foram submetidos milhões de negros. O que nos é permitido esquecer? O que devemos lembrar?

Penso, muitas vezes, que a grandeza de um país não se mede pela sua cultura, mas pela história dos seus esquecimentos. E só de lembrar dos nossos esquecimentos cotidianos, um calafrio ganha meu corpo, pois já não sei se posso escrever sobre o que sempre fora insuportável.

Levei anos para entender que a melhor parte de mim é aquela que não se sabe, pois é com ela que posso me propor ao devaneio criativo. O que em mim cria está em aberto, pois é justamente a sinuosidade de uma mesmidade que não está dada que permite que nos lancemos na direção de nós e do mundo, podendo revisitar nosso próprio modo e as implicações da agência criativa. Leia mais: https://www.neipies.com/a-potencia-do-inacabado/

Autora: Marli Silveira 

Da Igreja ao sindicalismo: uma trajetória de escolhas

Revelamos e promovemos, com alegria e muita satisfação, histórias de vida que estão imbricadas com a humanização, seja através da religião ou da educação. O entrevistado desta matéria é professor e sindicalista Altair Follador, da rede municipal de Passo Fundo, RS.

Follador é destes profissionais da educação empenhados e envolvidos com muita intensidade, interesse e responsabilidade, seja pela qualidade da educação escolar, seja pela valorização profissional dos seus colegas professores e professoras, através do CMP Sindicato. Conviver com ele, conhecer sua história e reconhecer o seu trabalho é uma missão e uma tarefa que apreciamos muito neste site.

Esta matéria foi produzida por João Lucas da Silva, estudante de jornalismo da UPF (Universidade de Passo Fundo), gentilmente cedida para publicação neste site.

“Apesar das mudanças, a vocação para ensinar sempre esteve presente. Eram meados da década de 70. Sentado no topo de uma coxilha, o jovem de 13 anos, filho de pequenos agricultores, imaginava como seria o seu futuro. Altair Follador sabia que se continuasse ali não teria outra perspectiva senão casar-se com uma moça da região, “provavelmente polaca”, e seguir a profissão de seu pai.

Cerca de 50 anos depois, um professor, ex-sacerdote e sindicalista. As mãos que diariamente abotoam as tradicionais camisas já encarregaram-se de tudo um pouco. Capinadas de enxada, gesticulações nas homilias de domingo, quadros cheios de conteúdo em sala de aula, além, é claro, do punho cerrado em meio à manifestações.

O terceiro filho de uma família de oito irmãos sabia que estudar até o 5º ano do ensino fundamental não o levaria longe, mas o pai era relutante. “Filho meu não vai pra casa de estranhos (para estudar)”. Entretanto, Altair discordava. “Eu não me conformava com aquilo, eu sempre me imaginei estudando pra além do 5º ano. Não sei por que razão, eu nunca achei que 5º ano era o limite.”

Do interior de Alpestre, município mais setentrional do Rio Grande do Sul, o jovem só pensou em um meio de sair mundo afora. Ir para o seminário. “A família era um bocado religiosa e inclusive gostou da ideia, incentivou e encaminhou os meios pra ir”. A partir daí o itinerário seguiu por Frederico Westphalen, Viamão e Passo Fundo. Mesmo com questionamentos próprios à sua vocação, Altair foi ordenado padre seis meses antes de concluir a formação, por ocasião do jubileu da diocese que fazia parte. “Eu, que estava meio em dúvida, ainda me apressaram. Parecia que tava tudo conspirando”. Ele trabalhou por anos em capelas e paróquias na região de sua terra natal.

Quem vê o professor nas escolas de Passo Fundo nem imagina sua trajetória.

Altair teve a oportunidade de morar em Roma por dois anos e meio, onde trabalhou e fez mestrado. O curso intensivo de italiano e a vida na capital europeia o levaram a aprender a nova língua rapidamente, nada impossível para um descendente de italianos que cresceu ouvindo o dialeto vêneto em casa. Seu percurso diário, na época feito de bicicleta, pode ser considerado invejável por muitos. “Eu fazia um trajeto que passava do lado do Vaticano, depois do lado do Coliseu. O pessoal paga uma fortuna pra vir aqui ver essa construção, eu passo de bicicleta todo dia [ele ri]”.

Na Europa, Altair pôde viajar pelo continente, visitando diversos países e a cidade originária de seus ascendentes. Na comuna de Borso del Grappa ele chegou a conhecer a casa em que seu bisavô havia nascido.

De volta ao Brasil, em 1994, o padre tornou-se professor do instituto que havia cursado teologia. No período, a situação na Igreja era delicada, pois a Teologia da Libertação era contestada pela ala mais conservadora. Altair tinha sido formado no contexto do movimento e concordava com o pensamento de tal. Foi nesta circunstância que sua vida mudou de rumo. O professor reencontrou Andréia, uma moça que havia conhecido durante a graduação, mas que perdeu contato e ficou mais de dez anos sem conversar.

Neste meio tempo, apesar da incerteza paulatina, seguiu sua profissão de fé, mas quando retomou a comunicação com a antiga paixão, não houve dúvidas. Em 2000 ele deixou a Igreja, mudou de emprego e dedicou-se à companheira, com a qual possui três filhos. “Se lá na roça do meu pai eu imaginei o que seria o meu futuro se eu ficava lá, eu voltei a me questionar, o que vai ser da minha maturidade e da minha velhice se eu continuar nessa função.”

O atual sindicalista foi trabalhar como representante comercial e bancário, mas no final das contas retornou para a sala de aula.

Desde 2012 na rede municipal de educação, Altair leciona filosofia e ensino religioso e já passou por diversas escolas, fazendo parte, inclusive, do sindicato de professores.

Participa do Conselho de Representantes praticamente desde o início e em 2018 ingressou na diretoria, sendo, hoje em dia, um dos principais nomes dentro da entidade. Após todos estes anos de trabalho, ele pretende-se aposentar em 2023 com a consciência tranquila. “Mais de uma vez eu encarei uma decisão de dar uma guinada na vida. Pelo menos não me arrependi de nenhuma delas. Eu acho que todas me deram oportunidades que eu não teria.”

Autor: João Lucas da Silva

Fotos: divulgação/redes sociais CMP Sindicato

Pensando com Giordano Bruno

Os condenados de hoje, no entanto, não vão mais para a fogueira, mas se tornam vítimas de outras formas de extermínio tão perversas como as que levaram o pensador italiano a morte.

Conforme atesta meu grande amigo Luiz Carlos Bombassaro (professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e um dos grandes estudiosos do assunto), o pensador italiano Giordano Bruno (1548-1600), foi certamente um dos maiores filósofos da Renascença. Sua biografia e sua obra o qualificam como uma das mentes mais originais e um dos mais importantes criadores de uma nova visão de mundo radicalmente distinta daquela difundida em sua época.

Conhecido como aquele que rompeu com as cadeias que prendiam o ser humano ao mundo fechado, Bruno foi um intelectual muito além de seu tempo, pois em seus escritos foi capaz de fundir filosofia, ciência e literatura e constituiu, dessa forma, uma nova forma de compreender a unidade nas múltiplas manifestações do universo.

Em seu livro Giordano Bruno e a filosofia da renascença, Bombassaro ressalta que para o pensador italiano uma das mais importantes questões filosóficas consistiu em explicar de que forma se realiza a atividade intelectual, como o intelecto humano se move em direção à contemplação da causa, o que move o mundo, como tudo se estabelece. Para ele, o princípio que tudo move é o amor, pois é este sentimento que tudo vincula. Há dois tipos de amor: amor humano e o amor divino. Enquanto o amor humano é vulgar e pode se constituir em uma tirania quando sufoca o outro, o amor divino é o vínculo dos vínculos, a causa do que existe no universo, pois está presente na multiplicidade das coisas, que ao mesmo tempo anseia pelo divino. O amor divino se infunde na alma e no corpo dos seres humanos e é este amor que possibilita a beleza que se traduz em harmonia, consonância e proporcionalidade entre as partes.

Contrariando o pensamento de sua época, Giordano Bruno compreende o universo como um sistema em permanente transformação, no qual todas as coisas são e não são ao mesmo tempo: o frio se torna calor, a água se torna vapor, o dia se torna noite. Tudo está em constante modificação. O universo, portanto, não é uma estrutura hierarquizada na qual o movimento é governado por uma ideia estática que tudo determina. Ao contrário, o Universo seria um todo no qual nada é imóvel, nem mesmo a Terra, como afirmava a antiga religião dos egípcios e o heliocentrismo de Nicolau Copérnico (astrônomo contemporâneo que também foi condenado a fogueira).

Para Giordano Bruno, o movimento de todas as coisa não seria de ordem mecânica, como se o mundo fosse um jogo de partículas móveis, cujo deslocamento dependeria de um movimento inicial possibilitado por um ser superior. Para o pensador italiano, o movimento é resultante da natureza dos seres vivos, pois todas as coisas possuiriam um princípio anímico, que faz transformarem-se permanentemente.

As ideias de Giordano Bruno contrariavam o sistema teológico-filosófico da época. Este tinha como uma de suas peças básicas a astronomia de Ptolomeu a qual afirmava que a Terra era um ponto imóvel privilegiado (o centro do universo), onde todos os corpos celestes giram ao seu redor. A essa astronomia ptolomaica juntava-se a concepção de que todos os movimentos são imperfeições e constituem transgressões da ordem divina. Por se colocar contra o pensamento dominante, Bruno foi preso, julgado e condenado a morte na fogueira pelo Tribunal da Inquisição. Sua execução aconteceu no dia 17 de fevereiro de 1.600.

Mais de quatrocentos anos nos separam dos acontecimentos preconceituosos que levaram Giordano Bruno a morte na fogueira. Certamente suas ideias foram revolucionárias para o desenvolvimento ciência moderna e amplamente reconhecidas pela humanidade.

No entanto, em pleno século XXI ainda persistem certos preconceitos obscuros que impedem de ver o mundo de forma diferente. Tais preconceitos negam os conhecimentos confirmados pela ciência estão produzindo os tempos sombrios, tão bem denunciados pela pensadora Hannah Arendt.

Os condenados de hoje, no entanto, não vão mais para a fogueira, mas se tornam vítimas de outras formas de extermínio tão perversas como as que levaram o pensador italiano a morte.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

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