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O curioso caso dos alunos que preferiram os livros

Quando se fala em educação, o nosso tesouro — onde está?

A todo instante coisas incríveis acontecem. Para percebê-las, porém, é preciso olhar de viés. Quando enxergamos assim, percebemos no movimento das pernas de uma formiga o inevitável mistério das coisas, belo e assustador. Vislumbramos a verdade escondida pelo verniz, às vezes até bonito, mas frágil e insustentável.

O breve caso que contarei ocorreu há poucos dias, em uma escola na qual dou aula.

Nesse colégio, não faz muito, foi instalada uma daquelas salas com impressora 3D, cortadora a laser e o escambau.

— Tecnologia de ponta, coisa do futuro — disseram os políticos.

De tempos em tempos, surge uma nova mania na educação. Uma febre sazonal. Toda vez promete-se muito e cumpre-se pouco. E dá-lhe estripulias para render matérias na imprensa, sites e redes sociais. Afinal, uma bela foto no Instagram seguida de centenas de curtidas basta para comemorarmos nossa chegada ao futuro.

As salas makers, suspeito, são a moda da vez. Assim mesmo, em inglês, para dar pompa às circunstâncias, à espetacularização do momento.

Comenta-se muito, agora, sobre tecnologia e inclusão digital. Enquanto isso, na realidade, a maioria dos estudantes amarga desempenhos ruins em disciplinas básicas, como Português e Matemática.

O objetivo é modernizar a qualquer custo! Isso me lembra, aliás, o governo de Juscelino Kubitschek e seu conhecido slogan (e uso slogan porque, hoje em dia, usar palavras em inglês é cult e cool): 50 anos em 5! A história se repete, é cíclica. No Brasil, então, isso acontece em várias e várias camadas, vários e vários ciclos.

Nessa escola que mencionei foi montada a dita sala maker. Como o cômodo era grande, no mesmo ambiente foram colocados os livros da biblioteca. Livros impressos, tradicionais, em papel, por incrível que pareça. Com lombadas, cheiros e folhas amareladas.

Muitos dos livros possuíam, realmente, folhas amareladas, já que, em comparação com os equipamentos novíssimos da era digital, a biblioteca, coitada, era pobre, pobre… Para cuidar dos equipamentos, havia funcionários. Já para organizar a biblioteca… Ela que se vire!

Livros impressos, pois, coisas velhas! Nem um pouco cool. Muitos, ainda, eram de literatura brasileira, não inglesa e, muito menos, americana. Quem leria aquilo?

A biblioteca tinha poucos móveis. Os livros estavam empilhados em pequenas prateleiras e em uma grande mesa no centro da sala.

Ao olhar para as obras, lembrei-me do texto bíblico de Mateus:

Não ajunteis tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem tudo consomem, e onde os ladrões minam e roubam:

Mas ajuntai tesouros no céu, onde nem a traça nem a ferrugem consomem, e onde os ladrões não minam nem roubam. (Mt 6, 19-20)

Um dia todos aqueles livros virariam pó!

A impressora 3D, pomposa, de certo, olhava para os exemplares e sentia pena. Caso pudesse falar, talvez dissesse:

— Ora, mas que belas velharias!

Ao levar alunos ao local, entretanto, surpreendi-me. Eles não dispensaram muita atenção aos novíssimos e caríssimos equipamentos tecnológicos.

Curiosamente e sem convite eles foram aos livros… Quando dei por mim, estavam folheando aquelas antiguidades, dadas às traças. Tocaram, olharam, sentiram na pele e através do olfato, e perguntaram se podiam levar livros para casa.

Não sei se há bibliotecárias na rede municipal de ensino. Ali, pelo menos, não há. Os professores, no entanto, dão um jeito. Pegam um caderno. Anotam o nome do aluno e do livro retirado. Assim, de improviso, na boa vontade e sem pompa e tudo em português.

Então, com meu olhar de viés, entendi.

É verdade que os livros fazem parte deste mundo, onde a traça e a ferrugem tudo consomem. Porém, quando lemos um livro, o levamos para o coração, onde nem a traça nem a ferrugem consomem. Ganhamos, assim, um tesouro imperecível, para toda a vida. Talvez até mesmo para outra vida. 

E, citando mais uma vez o bom e velho Cristo, onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.

Quando se fala em educação, o nosso tesouro — onde está?

E a portentosa sala maker e sua impressora 3D: levam-nos para onde?

A aplicação prática do conhecimento é o final de um processo iniciado muito antes. A utilidade é quando o rio encontra o mar, mas, para haver um rio, é preciso haver uma fonte. Essa fonte existe na atmosfera da inutilidade, onde a água não tem outro objetivo senão o de, simplesmente, jorrar. Leia mais: https://www.neipies.com/escravos-da-utilidade/

Autor: Aleixo da Rosa

A potência do inacabado

Ler, incluiria o escrever, são práticas ou exercícios que permitem ao indivíduo humano transitar sobre si-mesmo e no deslocamento sobre si, poder imaginar-se em outras paragens poéticas e humanas.

Creio que todas as pessoas concordam, mesmo as opiniões não transitadas por dentro das academias, que a leitura tem um papel importantíssimo não apenas na/para a formação humana, quanto na formatividade inerente ao processo psicológico que nos mobiliza na direção de.

Há um pressuposto na matriz epistemológica que orienta a comunidade intelectual, que é o fato do indivíduo humano poder se formar e se autoformar. Sem entrar em maiores discussões se toda a leitura é ou não capaz de contribuir no processo formativo e, por optar momentaneamente pelo presente modo de acesso à discussão, embora reconhecendo as implicações das tamanhas desigualdades que pautam a vida da população brasileira, recorro ao papel da literatura no que concerne ao desenvolvimento integral do ser humano.

Apresento por ora, a condição muito própria da literatura, que é a de lançar o indivíduo no aberto da existência. Aristóteles já havia nos dito que a “literatura ( no caso, a tragédia) é mais filosófica do que a história”, porque enquanto esta aborda o que aconteceu, aquela se desdobra na direção do possível. Neste sentido, açambarca a todos dentro de uma generalidade circunscrita pelas bases nas quais somos tocados pela proximidade existencial.

Ler, incluiria o escrever, são práticas ou exercícios que permitem ao indivíduo humano transitar sobre si-mesmo e no deslocamento sobre si, poder imaginar-se em outras paragens poéticas e humanas.

A experiência literária (ler, escrever, ouvir) implica um dos modos de “se segurar” o tempo, retesando um tipo de fruição que pode garantir a liberdade para se começar, suspendendo o passado e as determinações. Considero enormemente a liberdade trazida pela envergadura teórica de Beauvoir e a dificuldade de separá-la da igualdade (e das condições materiais), confesso, contudo, que há uma performance genuína colocada em jogo nas experiências da literatura, aderentes à pendularidade ontológica humana.

Também, mobiliza outro aspecto muito importante, que é a possibilidade de se poder imaginar e ou se colocar nas proximidades dos outros. E é justamente o fato de sermos implicados por uma transitoriedade que nos permite repactuar nossa própria vida com a vida dos outros, sem ela, viveríamos uma linearidade sem espessura existencial.

Sempre achei que Clarice Lispector tinha razão quando dizia que sabia muito pouco, mas tinha a seu favor tudo o que não sabia. No caso, ausentam-se os preconceitos quando se ingressa em campos pouco ou nada conhecidos. É como estar liberado da carga de determinações, medidas e sentidos ditados pelas incursões partilháveis cotidianamente.

Levei anos para entender que a melhor parte de mim é aquela que não se sabe, pois é com ela que posso me propor ao devaneio criativo. O que em mim cria está em aberto, pois é justamente a sinuosidade de uma mesmidade que não está dada que permite que nos lancemos na direção de nós e do mundo, podendo revisitar nosso próprio modo e as implicações da agência criativa.

Há, portanto, uma relação muito estreita entre a literatura e a potência do inacabado, um sem-lugar que nos devolve sempre constrangidos de não continuar tentando completar-se, pois há um desejo de querer-se por inteiro, mesmo que saibamos que tal completude será experimentada como antecipação de uma chegada malograda.

Concordo com Bachelard, para quem “os poetas nos convencem que todos os nossos devaneios de criança merecem ser recomeçados”, pois inscrevo a pronúncia da literatura em uma região advertida da palavra final, endereçada aos inacabamentos que arrancam outros modos possíveis de apresentação, ali mesmo onde parecia haver apenas destroços, rearticulam-se sentidos em lide agônica com Cronos.

Literatura é mobilizadora de mundos, de sentidos e possibilidades. Reconheço que há limites, que há diferenças radicais inscritas nas distintas culturas, como e fundamentalmente, modos de acesso diferenciados e que implicam a experiência social. Contudo, por força da humanidade que cultivo, preciso acreditar que podemos tentar e construir caminhos mais solidários também por obra da poesia e da Literatura. Leia mais: https://www.neipies.com/uma-mulher-poeta-na-academia-rio-grandense-de-letras/


Autora: Marli Silveira

Acadêmica, Academia Rio-Grandense de Letras.

Uma obra sobre poesias e guerra

Na noite da última quinta-feira, 15 de junho, no Instituto de Humanidades, Ciências, Educação e Criatividade da Universidade de Passo Fundo, aconteceu o lançamento da obra “O jogo ficcional entre o real e o imaginário: a guerra em A rosa do povo e Poesia liberdade”, do autor Tiago Miguel Stieven com Prefácio da Professora Doutora Ivânia Campigotto Aquino.

Tiago Miguel Stieven, além de Professor da Rede Municipal de Ensino, é pesquisador e doutorando do Programa de Pós-Graduação em Letras da UPF na linha de pesquisa Produção e Recepção do Texto Literário.

Na oportunidade, a Coordenadora do PPGL/UPF, Professora Doutora Claudia Stumpf Toldo Oudeste, destacou a importância dessa produção, que é fruto de pesquisas realizadas durante o curso de mestrado no referido Programa de Pós-Graduação. Além disso, enfatizou que esses momentos fazem a diferença na formação dos pesquisadores, já que possibilitam a divulgação do que está sendo produzido, o compartilhamento de estudos e práticas na área de Letras.

O autor destacou que a importância da obra reside no fato de que ela traz à tona a relevância da literatura para compreender o acontecimento histórico da Segunda Guerra Mundial, eis que possibilita o fomento de reflexões por meio de diferentes perspectivas ao desvelar os universos poéticos dos poetas brasileiros Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes, quando estes abordam a temática da guerra em seus poemas. Assim, o autor, ao valer-se da teoria literária, realiza a análise de poemas desses autores que têm por temática a Segunda Guerra, demonstrando que a obra dos poetas se apresenta como um gesto de contraposição aos esquecimentos e que ambos oferecem, sempre, a poesia como meio de expressão.

Tiago, por meio da obra, possibilita uma visão reflexiva e profunda acerca da importância e do papel desempenhado pela poesia como um modo de resistência aos tempos sombrios da guerra, além de evidenciar que a literatura permite um exercício reflexivo que, certamente, os textos teóricos que abordam essa mesma temática não consigam desempenhar com a mesma intensidade que é característica do texto literário, especialmente, da poesia.

A literatura nos possibilita que nos tornemos sempre outros e, como, nos é afirmado no prefácio da obra “a poesia, forma nobre de palavra, é, mais do que outras manifestações de linguagem o são, a sensibilidade da vida humana”.

Lançamento da obra aos amigos e comunidade

Na data de 24 de junho de 2023, das 15h às 18h30min, ocorreu na Livraria Delta da Paissandu, na cidade de Passo Fundo, o lançamento presencial da obra. Na oportunidade, o autor recebeu inúmeros amigos, familiares, professores, amigos, autoridades, estudantes e a comunidade em geral, os quais puderam ter contato com a obra, além de adquiri seu exemplar. O pesquisador, nessa data, referindo-se à obra afirnou que “o desejo é o de que leitura da obra possa contribuir para um conhecimento mais humanizado. Sabe-se que as máquinas e todo o aparato tecnológico são importantes frente a sociedade da qual fazemos parte, porém, é somente o humano que pode conferir sentido, que pode atribuir significado”.

Para conhecimento dos leitores deste site, segue um trecho do prefácio da obra, escrito pela professora Doutora Ivânia Campigotto Aquino.

“A partir dos poemas, este livro nos provoca com uma pergunta sobre como essa poesia é pensada para representar a guerra, qual subjetividade molda a temática e que elementos definem a construção, ou seja, a forma das produções poéticas. Aqui, entendemos a resposta, encontrada por Tiago, ao exprimir as ideias dos dois poetas e a linguagem própria que é requerida a cada um para dizer a realidade.  Esse dizer se pronuncia nos poemas escolhidos para o estudo, os quais têm a força de uma época mundial que despertou o olhar da compaixão ao ser humano por parte da literatura.

Tiago dedica-se à nobre tarefa de explicar uma poesia dolorosa e angustiante na qual morte e vida latejam, com tema urgente. Invencionando imagens da Segunda Guerra Mundial, os dois poetas estudados empenham-se na entrega da poesia engajada, a qual se constitui como meio de reflexão sobre a experiência política da guerra e como elemento de transfiguração do real em busca da formação da consciência social. São poesias necessárias, são leituras incontornáveis a quem dá importância a uma reflexão sobre a sociedade. E a poesia nos revela a ideia sempre vigente de acreditar no ser humano.

A condição humana tratada nas poesias é, sem dúvida, o conteúdo maior das análises que o autor implementa em seu estudo. A essa condição ele confere a complexidade do viver, que, sim, integra a destruição e morte pela guerra, mas também a esperança de um mundo novo pela resistência e construção. Percebe tanto em Drummond quanto em Mendes as instâncias de moral, humanismo e ideologia que atribuem sentidos aos fatos decorrentes da barbárie, bem como a urgência de se sensibilizar com a dor dos outros. Isso não somente em relação à Segunda Guerra Mundial, mas também em âmbito nacional, uma vez que era preciso vencer nossas próprias guerras, num Estado Novo que submetia a população às agruras governamentais.

Comprometo-me com a recomendação de O jogo ficcional entre o real e o imaginário: a guerra em A rosa do povo e Poesia liberdade, de Tiago Miguel Stieven, com tranquilidade. Honra-me ser parte do livro por meio deste texto inicial que pretende apresentar o estudo que se desenha nas páginas que seguem. Tiago é um estudioso inquieto, um pesquisador insistente e dedicado que vem construindo uma sólida carreira no sistema do ensino superior. Que orgulho participar da sua formação!”

Assista também live produzida pela editora Dialética com o autor: https://youtu.be/FPFdksyS_ks?t=108

O que aprendemos com as crianças que não aprendem

Nós devemos aprender com as nossas crianças que têm dificuldades de aprendizagem a nos respeitar, a dar um tempo para as exigência do dia a dia, a pararmos um pouco e refletirmos sobre o que estamos fazendo conosco e com quem amamos e se estamos no caminho mais curto para chegarmos à felicidade.

Inicio o texto de hoje com o poema de José Paulo Paes intitulado “Convite” que nos diz nos seus versos “… As palavras não: / quanto mais se brinca / com elas mais novas ficam…” É preciso aprender com as crianças que não aprendem que somos humanos e não robôs, cada um tem o seu tempo de ser e estar entre as palavras e os números.

Tendemos a ter vergonha das nossas crianças quando elas tiram notas baixas na escola, são reprovadas ou somos chamados para conversar com a professora porque elas não estão se saindo bem nas disciplinas. Com isso, o nosso primeiro impulso é castigar a criança.

Castigo resolve alguma coisa? Há quem diga que foi castigado na infância e cresceu uma pessoa bondosa e trabalhadora. Isso era em outros tempos, as coisas mudaram bastante. As crianças não podem ser castigadas todas às vezes que fugirem do padrão.

Sua criança não precisa a todo instante mostrar que ela é a melhor em tudo. Isso é muita cobrança. Deixe-a livre para fazer o que é necessário para o seu bem crescer mostrando-lhe o caminho certo sempre que possível.

A criança não aprende não é porque não queira ou porque seja desatenciosa. Talvez ela tenha algum problema, transtorno ou síndrome que precisa ser avaliado por um profissional especializado no assunto. Mas, o que podemos aprender com as nossas crianças em relação a isso? Muitas coisas.

Todos nós temos os nossos limites. Às vezes a criança já tentou de tudo para aprender o que a professora lhe ensina, mas não consegue. Ela precisa de ajuda. O tempo que passa na escola é pouco. Os pais devem estar atentos as agendas onde os professores fazem anotações com observações dos alunos.

As crianças não aprendem porque a aula é desinteressante, a didática da professora não é boa e nada consegue prender a sua atenção. Essa criança também precisa de ajuda. A gente acha cansativo quando um amigo fica numa conversa repetindo um assunto mil vezes.

Muitas coisas aprendemos quando as crianças não conseguem aprender algo, principalmente, no que diz respeito a paciência, tranquilidade, força de vontade, coragem e respeito. A criança não aprende porque não quer, isso não é verdade. Ela sente dificuldades assim como a gente sente dificuldades em mudar de função na empresa, em lidar com a nova turma de amigos do trabalho, em assinar um contrato.

A gente tem medo de enfrentar as coisas novas e se decepcionar. Assim acontece com a criança. Ela tem medo das avaliações e precisa ter isso trabalhado. Algumas professoras costumam fazer um terror antes dos dias das avaliações para os seus alunos e eles acabam vendo aquilo como algo assustador e bloqueiam o ensino-aprendizagem.

É preciso saber respeitar o momento em que a criança estará preparada para aprender; afinal faz parte do ser humano aprender a andar, a falar, a brincar, a fazer amizades, a lidar com problemas e perdas. Todos nós temos os nossos momentos e formas de aprendizagens.

Somos únicos no mundo e a nossa subjetividade faz da gente um ser que se diferencia dos demais no uso do raciocínio lógico. Cada pessoa tem o seu jeito de resolver as coisas. Às vezes uma questão de matemática é resolvida de maneiras diferentes, tem criança que vai mais rápida no raciocínio para chegar na resposta e tem outras crianças que vão por um caminho mais longo.

Nós devemos aprender com as nossas crianças que têm dificuldades de aprendizagem a nos respeitar, a dar um tempo para as exigência do dia a dia, a pararmos um pouco e refletirmos sobre o que estamos fazendo conosco e com quem amamos e se estamos no caminho mais curto para chegarmos à felicidade.

Deixemos que as crianças descubram as suas próprias formas de aprendizagens lhes dando oportunidades de descobrirem os vários caminhos para chegarem a resposta correta. Nem sempre o nosso caminho é o mais preciso, às vezes a criança tem um caminho mais curto que o nosso. E ela sabe disso porque o seu pensamento está vazio de preocupações.

Não devemos exigir que as nossas crianças aprendam as coisas logo na primeira explicação. Ninguém aprende nada com pressa. Tudo tem que ser bem explicado.

Nem toda criança tem habilidades especiais para resolverem problemas. Conheço adultos que tiveram várias dificuldades de aprendizagem na escola e se tornaram grandes profissionais atualmente, devido a paciência dos seus pais.

É responsabilidade nossa cuidar da aprendizagem das nossas crianças dando-lhes o tempo necessário para que possam desenvolver o pensamento e buscar respostas que despertem a curiosidade. Quando educamos as nossas crianças também estamos nos educando porque aprendemos com elas detalhes pequeninos que passam despercebidos com a nossa pressa de fazer tudo para ontem.

As crianças não precisam de pressa para aprenderem as coisas. Na escola deve ser do mesmo jeito. Os professores precisam saber que aquelas crianças com um pouco mais de dificuldades de aprendizagem merecem mais cuidados e outras metodologias de ensino. Essas crianças não devem ser colocadas a mercê das outras como falta de incentivo ou exemplo negativo.

A criança que não consegue aprender pode estar passando por algum tipo de problema emocional em casa ou até mesmo na escola. É necessária uma investigação. Neste momento, os pais devem ser acionados para conversarem com seus filhos. A escuta cuidadosa sempre traz coisas boas e novidades que as crianças nos contam e nunca percebemos.

Uma criança com dificuldades de aprendizagem pode estar passando por sofrimentos incompreensíveis ao seu bem-viver e cabe aos professores investigarem como é a relação dela com os pais em casa. São os professores que muitas vezes descobrem violências psicológicas e físicas que as crianças sofrem em casa. Cada caso pode ser diferente.

Na verdade, podemos aprender com as nossas crianças que têm dificuldades de aprendizagem o momento certo de pararmos e buscarmos descobrir onde estamos errando, o que nos leva a insistirmos no mesmo caminho, por que não mudamos de estratégias no trabalho para alcançarmos mais lucros, o que nos faz ficarmos presos numa relação afetiva em que já não há mais amor.

São tantas as coisas que as dificuldades de aprendizagem das nossas crianças podem nos ensinar que se eu fosse citar a lista seria grande. Assim, se nós sentarmos com os nossos filhos e tivermos uma conversa franca talvez consigamos descobrir o motivo pelo qual eles não conseguem aprender como as demais crianças da mesma idade e que estudam na mesma sala de aula que elas.

Volto a dizer que muitas vezes o problema não está na criança, mas no sistema onde ela vive que pode ser algo relacionado com os pais que não conseguem compreendê-la ou com os professores que não conseguem acompanhar o ritmo de aprendizagem lento da criança.

Se os pais exigem que os filhos sejam sempre os melhores em sala de aula isso poderá prejudicar mais ainda a aprendizagem, pois quando somos cobrados por melhorias tendemos a ficar tensos e não rendemos o que poderíamos render. Assim são as crianças.

Toda aprendizagem deve vir acompanhada com um pouco de amor, respeito e cuidado por parte de quem está ensinando.

A criança saudável tende a aprender com facilidade e rapidamente, mas aquela que está a todo tempo sendo castigada, cobrada e sem amor poderá sentir mais dificuldades cada vez que essas cobranças cheguem com ameaças psicológicas ou físicas.

Infelizmente conheço crianças que ainda são espancadas por tirarem notas baixas na escola ou por não terem se saído melhor do que o amiguinho da vizinhança. Não devemos comparar os nossos filhos com ninguém. Como já disse acima somos únicos no mundo. Cada um de nós tem um jeito de aprender diferente. Temos o nosso tempo. Como disse Jesus Cristo, há tempo de colher e de plantar.

O tempo da aprendizagem da criança não é o mesmo que o seu ou o que a escola planejou. Antes de matricular seu filho numa escola procure saber como é a sua metodologia de ensino e se há um respeito e cuidado para com os alunos que têm dificuldades de aprendizagens.

Nós também temos grandes dificuldades de largarmos o trabalho mecânico para o automatizado. Começamos tendo aulas e aos poucos vamos nos aproximando das máquinas. Não chegamos no primeiro dia de trabalho e o chefe nos coloca na máquina para começarmos a trabalhar. Há todo um treinamento e uma espécie de aptidão.

Procure saber em que disciplinas o seu filho tem mais facilidade de aprendizagem e foque nas que ele não consegue se sair bem nas avaliações e trabalhos. Não faça cobranças que a criança não possa corresponder a elas. Comece ensinando as coisas mais fáceis e só avance casas quando perceber que a criança está confiante em si própria.

Se a criança realmente apresenta grandes dificuldades de aprendizagem não a obrigue a fazer coisas que a deixarão amedrontada, envergonhada ou tímida diante dos amiguinhos.

Permita que ela desfrute do momento da infância para ir aos poucos traçando os seus caminhos de aprendizagem do seu jeito, pois chegará um momento em que ela vai encontrar o seu jeito de aprender mesmo que seja uma forma esquisita e estranha para você. Deixe-a seguir no caminho escolhido, pois a zona de conforto da aprendizagem deve ser respeitada pelos adultos.

Aprenda com as dificuldades da sua criança de aprender que tudo na vida é preciso de tempo e paciência. Que não vale a pena querer algo forçado, insistir no que sempre dá errado ou até mesmo submeter-se a situações de vexame só para não ser chamado de fraco ou medroso.

Aprender exige coragem e nem todos estamos preparados para enfrentar obstáculos e atravessar pontes porque não fomos estimulados desde pequeninos a caminharmos com os nossos próprios pés. Aprenda com a dificuldade da sua criança de aprender que na vida é preciso exercitar a arte de construir castelos de areia e se a água do mar os derrubar que se construa tudo novamente.

E para terminar deixo vocês com os versos do poeta Vinícius de Moraes do poema “A porta” em que ele nos diz

“Sou feita de madeira / Madeira, matéria morta / Não há nada no mundo / Mais viva que uma porta / Eu abro devagarinho / Pra passar o menininho / Eu abro bem com cuidado / Pra passar o namorado…”

Que possamos abrir a porta devagarinho às nossas crianças para que aprendamos com elas que dificuldades todos nós temos, mas aprender é um eterno abrir de janelas para olhar o Sol brincar de ser dia.

Autora: Rosângela Trajano

Democracia à brasileira (uma reflexão sobre as diferenças) – parte II

Pergunto coisas ao buriti e o que ele responde é: a coragem minha. Buriti quer todo o azul e não se aparta de sua água – carece de espelho.  Mestre não é quem sempre ensina, mas quem, de repente, aprende. (J. G. Rosa, Grande Sertão: Veredas)

Essa, caríssimos, é, pois, a parte II da “Democracia”. Eu diria quase literalmente, já que a I se constitui numa espécie de reconhecimento de que ela (a Democracia!), apesar de tudo, teima em querer se insinuar nas vozes das e dos que remam na direção contrária ao proposto pela insídia de um poder que teima em separar para se beneficiar, caracterizando a “democracia à brasileira”…

Leia aqui: https://www.neipies.com/democracia-a-brasileira-uma-reflexao-sobre-as-diferencas-parte-i/

Eu já tinha me debruçado sobre mais adjuntos para essa “democracia à brasileira”, quando tropecei em algo que, súbito, emparedou-se à minha frente, impedindo que avançasse para fechar a composição. Um corpo estancou, muito próximo, e uma possível democracia “à brasileira” quase desanuviou-se; a memória se recompôs e se materializou uma lembrança vívida e, paradoxalmente, repleta de calor! Com esse acontecimento o texto teve de ser refeito!

Quem não se renderá a um paradoxo desses? Ora, quem, como eu, que quase não vive sem se sentir aquecido! Pois, num rasgo, pude me ver envolta num calor intenso, mesmo quando o acontecimento estava a sugerir um frio descomunal. Foi o que sucedeu, quando soube, no próprio dia do acontecimento (11/07/2023), do falecimento do Prof. Carlos Rodrigues Brandão!

Não vou discorrer aqui sobre a biografia dele. É fácil encontrar no mundo virtual. Mas quero, sim, sublinhar com muita ênfase, sua influência sobre pessoas que, como eu, se refugiaram não nas certezas, mas nas perguntas, nas curvas díspares da circunstância “aprende-ensina; ensina-aprende”.

O Carlos Brandão, no grande cenário da “democracia à brasileira”, se constituiu numa das não muitas vozes a gritar “a linha não é reta!”, quando se falava em Educação/Ensino… Esteve com Paulo Freire, eram amigos, escreveram juntos: “dize-me com quem andas”, e tal e tal…

Trago comigo, de meu tempo de aprendente, quando ministrava aulas de metodologia do ensino para estudantes de Letras numa universidade, uma lembrança especial das falas do Prof. Brandão. Essa lembrança se encontra numa de suas obras de nome “O que é Educação”.

Bem no comecinho, Brandão já dispara a epígrafe que coloquei neste texto. Daí, é possível intuir o que se sucederá. Quero, no entanto, me ater a um pequeno trecho, que está lá à guisa de introdução, em que é mencionado um acordo, feito nos Estados Unidos, em dois estados, entre seus governos e os povos originários que viviam nesses estados. A ideia era basicamente um oferecimento de vagas para que os jovens índios fossem estudar nas escolas deles.

Conta Brandão que os índios gentilmente agradeceram e declinaram do convite. Motivos? Eles argumentaram que os diferentes povos e nações tinham diferentes concepções de mundo e que eles (os governantes), certamente, não se ofenderiam por dizerem que a ideia de educação que eles (os representantes da oferta) tinham não era a mesma que eles (os índios) tinham. E completaram expondo os resultados de experiências neste sentido que outras nações indígenas tinham tido: quando os estudantes índios voltaram para seus espaços, já com diploma na mão, não sabiam mais correr, ignoravam a vida da floresta e se tornaram incapazes de suportar o frio e fome; não sabiam mais caçar ou construir uma cabana. Enfim, se tornaram inúteis na comunidade deles! 

A partir daí, Brandão prossegue dizendo que (…) a educação pode existir imposta por um sistema centralizado de poder, que usa o saber e o controle sobre o saber como armas que reforçam a desigualdade entre os homens, na divisão dos bens, do trabalho, dos direitos e dos símbolos. (p. 4).  E esse trecho reverbera um modelo de educação que transita ainda solto na “democracia à brasileira”! 

Assim, o Prof. Carlos Rodrigues Brandão nos lega seu imperativo como educador: a constatação de que nos recônditos de uma possível reflexão para a ação, no eixo educativo do existir humano, um vislumbre de esperança se materializa. É então que podemos desafiar tudo o que essa avalanche de despropósitos e injustiças sociais ajudou a construir, a partir do nosso reconhecimento de que (…) a educação pode existir livre e, entre todos, pode ser uma das maneiras que as pessoas criam para tornar comum, como saber, como ideia, como crença, aquilo que é comunitário como bem, como trabalho ou como vida (…) (p. 4).

Vai em paz, mestre!

Autor de mais de cem livros, boa parte sobre educação popular e método Paulo FreireBrandão deixa um legado inestimável para a construção de uma escola mais justa e igualitária. Leia mais: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/630449-carlos-rodrigues-brandao-e-o-sonho-da-educacao-popular?

AutoraIr. Marta Maria Godoy

Retrocessos nas metas do PNE acentuam as desigualdades educacionais

Dados revelam que nosso sistema educacional não oferece oportunidade e condições iguais para os jovens no Brasil. O jovem branco e com famílias de renda larga em grande vantagem em relação a jovens pretos, pardos e pobres. Portanto, nosso sistema não é nem equitativo, muito menos justo.

Entramos no último ano do Plano Nacional de Educação (PNE) 2014-2024, Lei 13.005, promulgada em 25 de junho de 2014, com 13 das 20 metas em retrocesso e cerca de 90% não devem serem cumpridas no prazo, impactando principalmente populações negras e pobres, revela relatório publicado em 20 de junho de 2023 pela Campanha Nacional pelo Direito à Educação.

Às vésperas do final de vigência do Plano em 2024, o cenário de abandono do plano persiste. Com a baixa taxa de avanço em praticamente todas as metas, apenas 4 dos 38 dispositivos progridem em ritmo suficiente para o seu cumprimento integral no prazo, ou seja, quase 90% dos dispositivos das metas não devem ser atingidos até o final de vigência do PNE.

O mais grave é que 13 metas estão atualmente em retrocesso, conforme monitoramento da Campanha Nacional pelo Direito à educação. Elas se referem justamente a: universalização do atendimento à Educação Infantil (que conforme último censo decaiu), Ensino Fundamental e Ensino Médio; oferta da Educação Integral na educação básica (uma das promessas do novo ensino médio); erradicação do analfabetismo; valorização dos profissionais do magistério das redes públicas da Educação Básica; acesso ao Ensino Superior; e ampliação do investimento público à educação pública com o equivalente a 10% do PIB (Produto Interno Bruto) do Brasil.

Falta de informações sobre metas do PNE

A situação pode ser ainda pior. Há grande falta de informações atualizadas, não permitindo afirmar com certeza a gravidade dos atrasos e retrocessos.

O balanço da Campanha Nacional pelo Direito à Educação aponta grave problema na disponibilização dos dados oficiais. Das 20 Metas do PNE, 7 delas não possuem dados abertos suficientes para serem avaliados na sua totalidade. Alguns dados somente forma acessados por meio da Lei de Acesso à Informação e outros sequer foram respondidos. A falta de transparência é sintoma de outros problemas.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNED Contínua/IBGE), divulgada em 7 de junho 2023, confirma que os impactos as desigualdades educacionais no Brasil mantem-se e se aprofundam. É o caso do percentual da população com ensino superior completo que saltou de 17,5% em 2019 para 19,2 em 2022. Porém, ao proceder-se o recorte por cor ou raça, enquanto 60,7% dos brancos com pelo menos 25 anos haviam finalizado o ensino médio, entre os pretos e pardos essa taxa foi de 47%.

O cenário por cor ou raça mostra uma desigualdade ainda mais marcante: 36,7% das pessoas brancas com 18 a 24 anos estavam estudando, enquanto entre pretos e pardos a taxa foi de 26,2%. Entre os brancos que frequentavam a escola, 29,2% cursavam uma graduação, enquanto entre pretos e pardos o percentual foi de 15,3%.

Nessa mesma faixa etária, 6,0% dos jovens brancos tinham diploma de graduação e, entre pretos e pardos, apenas 2,9%. Destaca-se, ainda, que 70,9% dos pretos e pardos não estudavam nem tinham concluído o ensino superior, enquanto entre os brancos este percentual foi de 57,3%.

Estes dados revelam que nosso sistema educacional não oferece oportunidade e condições iguais para os jovens no Brasil. O jovem branco e com famílias de renda larga em grande vantagem em relação a jovens pretos, pardos e pobres. Portanto, nosso sistema não é nem equitativo, muito menos justo.

O descumprimento das metas do atual PNE e os impactos na desigualdade educacional não são mera coincidência. É opção de políticas educacionais adotada, a partir de 2016, pelos governos da União e muitos Estados e Municípios brasileiros, que, também, descumprem seus planos regionais e locais.

Necessidade de trabalhar é a principal razão para abandono

Indagados sobre a causa do abandono escolar, 40,2% dos jovens apontam a necessidade de trabalhar como fator principal. Dentro os jovens do sexo masculino, esse valor sobre para 51,6%.  A falta de interesse em estudar – motivos a serem investigados -, é a segunda maior causa com 26,9%. Já entre as mulheres as principais causas são: necessidade de trabalhar (24%), gravidez (22,4%) e falta de interesse (21,5%). Outros 10,35 indicam afazeres domésticos ou cuidar de pessoas como principal motivo de terem abandona ou mesmo nunca terem frequentado a escola.

Entre os 49 milhões de jovens entre 15 e 29 anos, 20%, um de cada cinco, não estavam ocupados nem estudando, ou seja, sem trabalho e sem escola. Outros 15.7% estavam ocupados e estudando, 25,2% não estavam ocupados,     porém estudavam e 39,1% estavam ocupados e não estudavam. Nossos jovens são trabalhadores que estudam quando possível, atrasam sua escolaridade na idade certa, impactando em suas trajetórias de vida e profissionais.

Em relação à cor ou raça, 18,8% das pessoas brancas trabalhavam e estudavam, percentual maior do que entre as pessoas de cor preta ou parda (13,7%). O percentual das pessoas brancas apenas trabalhando (39,3%) e apenas estudando (26,2%) também foi superior ao de pessoas de cor preta ou parda, enquanto o de pessoas pretas ou pardas (22,8%) que não estudavam e não estavam ocupadas superou o de pessoas brancas (15,8%).

Para além das desigualdades de raciais, destacam-se, também, as desigualdades regionais. Mesmo que a taxa de analfabetismo tenha recuado um pouquinho de 6,1% para 5,6% em 2022, o Nordeste apresenta a taxa mais alta (11,7%) enquanto o sudeste a mais baixa (2,9%). No grupo dos idosos (60 anos ou mais) a diferença entre as taxas é ainda maior: 32, 5% para o Nordeste e 8,8% para o Sudeste.

Pela primeira vez na história educacional brasileira, mais da metade (53,2%) da população de 25 anos ou mais havia concluído, pelo menos, a educação básica obrigatória, isto é, possuíam ao menos o ensino médio completo. No entanto, para as pessoas de cor preta ou parta, esse percentual foi de 47% enquanto que entre as brancas a proporção era de 60,7%.

Quanto a escolarização, de 2019 para 2022, a taxa de escolarização das crianças de 4 a 5 anos caiu de 92,7% em 2019 para 91,5% em 2022 por opção dos pais e responsáveis. A taxa de escolarização da população de 6 a 14 anos se mantém elevada em 99,4% e, a escolarização dos jovens de 15 a 17 anos subiu de 89% em 2019 para 92,2% em 2022.

A rede pública teve em 2022 77,2% dos alunos na creche pré-escola, 82,5% dos estudantes do ensino fundamental e 87,1% do ensino médio regular. Já a rede privada atende a 72,6% dos estudantes do ensino superior e 75,8% da pós-graduação, especialmente a pós lato sensu.

Precarização do ensino médio público e elitização do ensino superior

Aqui se manifesta uma das maiores assimetrias e contradições da educação brasileira: enquanto no ensino médio 87,1% das matrículas estão na rede pública – rede precarizada, mal tratada e sem condições de estudo e trabalho -, estes mesmos jovens – pobres, negros, pardos e do campo -, para acessarem o ensino superior necessitam pagar uma faculdade ou universidade privada que concentra mais de 2/3 das matrículas. Por esta e outras razões, menos de 20% dos jovens estão no ensino superior, configurando uma oferta de elite, pois representa apenas 1/5 das juventudes acessando a formação de nível superior.

E a reforma do “Novo” Ensino Médio (NEM), em implementação e muito contestada, segmenta e aprofunda as desigualdades educacionais – e, por extensão, as desigualdades sociais –, ao instituir uma diversificação curricular por meio de itinerários formativos que privam estudantes do acesso a conhecimentos básicos necessários à sua formação, conforme atestam pesquisas comparadas que analisaram sistemas de ensino de vários países.

O NEM induz os jovens de escolas públicas a cursarem itinerários de qualificação profissional de baixa complexidade e ofertados de maneira precária em escolas sem infraestrutura, ampliando e acentuando a desescolarização no país, terceirizando partes da formação escolar para agentes exógenos ao sistema educacional (empresas, institutos empresariais, organizações sociais, associações e indivíduos sem qualificação profissional para atividades letivas).

Uma das dimensões desse problema é a possibilidade de ofertar tanto a formação geral quanto a formação profissionalizante do ensino médio a distância (EAD), o que transfere a responsabilidade do Estado de garantir a oferta de educação pública para agentes do mercado, com efeitos potencialmente catastróficos para a oferta educacional num país com desigualdades sociais já tão acentuadas.

O PNE 2014-2024 não está sendo cumprido. No lugar dele, são colocadas uma série de políticas públicas que vão na contramão do que ele preconiza: políticas discriminatórias, excludentes, de censura, e de esvaziamento da escola como lugar vivo, democrático, transformador e livre. Assim, o descumprimento do Plano Nacional de Educação está no centro da barbárie que toma a educação nacional.

O relatório da Unesco de 2022 reafirma que a educação é o principal caminho para enfrentar essas desigualdades enraizadas. Com base no que sabemos, precisamos transformar a educação.

As salas de aula e as escolas são essenciais, mas, no futuro, elas precisarão ser construídas e vivenciadas de forma diferente. A educação deve desenvolver as capacidades necessárias nos locais de trabalho do século XXI, levando em consideração a natureza mutável do trabalho e as diferentes formas pelas quais a segurança econômica pode ser suprida. Além disso, o financiamento educacional mundial e nacional deve ser ampliado para garantir que o direito universal à educação seja protegido.

Autor: Gabriel Grabowski, professor e pesquisador.

FONTE: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2023/07/retrocessos-nas-metas-do-pne-acentuam-as-desigualdades-educacionais/

Um banquete, uma ceia e duas mortes

O Sócrates platônico e o Jesus do Novo Testamento, pelo uso do mito e de parábolas, deixaram um legado imensurável de valores, que a bestialidade humana se recusa admitir e botar em prática.

Recaem sobre nós, queiramos ou não, as mortes de Sócrates e de Jesus de Nazaré. Talvez porque, se estivéssemos em Atenas, no ano 399 a.C., teríamos votado pela condenação do filosofo grego que pregava “só sei que nada sei”; ou, em Jerusalém, no ano 33 d.C., diante de Pilatos, teríamos engrossado o coro da turba que bradou “Esse não! Mas Barrabás, sim!”, em detrimento do “Filho de Deus”.

Há mais semelhanças entre as condenações à morte de Sócrates e de Jesus de Nazaré do que, ao estilo Shakespeare, a nossa vã filosofia possa imaginar. Nos personagens que emergem da dramaturgia de Platão e do Evangelho segundo João, há um leve toque de “suicidas”.

Sócrates, admite-se, assegurou a sua condenação ao se recusar a negociar, tornando a situação irreversível, para ele, com a proposta de castigo alternativo a lhe ser imposto no lugar da cicuta. Além de ter refutado todas as oportunidades de fuga que lhe foram facultadas.

Jesus, em João 19, flagelado e coroado de espinhos, não deixou opção a Pilatos, que havia dito “Eu não encontro qualquer culpa nele” (João 18), quando, no pretório, ao se recusar a responder de onde vinha e, diante do questionamento “Não me falas? Não sabes que tenho autoridade para te libertar e autoridade para te crucificar?”, ter contestado “Não terias qualquer autoridade sobre mim se ela não tivesse sido dada de cima. Por isso quem me entregou a ti tem mais culpa”. Pilatos vacilou. Ainda tentou libertá-lo. Mas, diante dos berros da turba “Se o libertares, não és amigo de César”, cedeu. Jesus foi levado ao Gólgota, onde foi crucificado. E morreu para que se cumprisse a Escritura.

Sócrates, ao não condescender negociar valores, praticamente forçou Atenas, e, de resto, todo o mundo ocidental, a assumir a culpa por uma morte que, admitem algum, ele mesmo escolheu. Idem Jesus, no caso dos cristãos, ao se deixar morrer para que se cumprisse a Escritura.

Se tivéssemos tomado assento naquele júri de Atenas, como teríamos votado? Lembremo-nos que Atenas vivia quadro de humilhação militar e divisão política, quando Sócrates foi julgado. É provável que, diante de argumentos ditos irrefutáveis, muitos endossassem teses de que é preferível a injustiça à desordem, Goethe, ou que a preservação da ordem social e legal torna possível a reparação dos erros da justiça, Hegel, e votassem pela condenação. E, no caso de Jesus, como se contrapor ao argumento de que libertar o nazareno era o mesmo que recusar a autoridade de César.

Enquanto refletimos, parece que não nos resta outro caminho que não seja colocar em recesso, pelo menos em tese, aquele júri de Atenas e o flagelo e a crucificação de Jesus, sobrestando o juízo no pretório. Nesse entremeio, buscamos a redenção do nosso sentimento de culpa. Pois, até para aqueles que acreditam na Ressurreição de Cristo, a agonia e os gritos de abandono do nazareno na cruz soam terríveis.

Mesmo que a morte de Sócrates, na descrição de Platão aparente certa leveza, isso também não nos exime, mesmo que simbolicamente, de responsabilidade. As justificativas para essas duas execuções ainda permanecem abertas.

O Sócrates platônico e o Jesus do Novo Testamento, pelo uso do mito e de parábolas, deixaram um legado imensurável de valores, que a bestialidade humana se recusa admitir e botar em prática.

Foram dois personagens singulares que, mesmo separados por 432 anos na existência terrena, comungaram em muitas coisas, havendo, inclusive, quem identifique sinais da maiêutica socrática nas parábolas de Jesus.

Sobre o título dessa coluna, o banquete mencionado é o ocorrido por volta do ano 400 a.C., na casa de Agáton, descrito na obra de Platão, O Banquete, que teve Sócrates como personagem principal; e, a ceia, evidentemente, A Última Ceia (João 13). Depois desse banquete, segue-se o julgamento e a execução de Sócrates, no ano 399 a.C. E Jesus de Nazaré, desse último encontro com os seus discípulos, partiu para a morte, quase imediatamente.

Em tempo, os ensinamentos deixados por Sócrates e Jesus colocam, acima de tudo, o altruísmo, o amor e a compaixão, como valores universais. Para aqueles que, em nome de Deus, insistem pregar o contrário do que ele ensinou, nunca é demasiado rememorar as palavras de Jesus: Quem julgam vocês que sou?

Autor: Gilberto Cunha

Liberdade

Ser livre é ir mais além: é buscar outro espaço, outras dimensões, é ampliar a órbita da vida. É não estar acorrentado. É não viver obrigatoriamente entre quatro paredes.

Deve existir nos homens um sentimento profundo que corresponde a essa palavra LIBERDADE, pois sobre ela se têm escrito poemas e hinos, a ela se têm levantado estátuas e monumentos, por ela se tem até morrido com alegria e felicidade.

Diz-se que o homem nasceu livre, que a liberdade de cada um acaba onde começa a liberdade de outrem; que onde não há liberdade não há pátria; que a morte é preferível à falta de liberdade; que renunciar à liberdade é renunciar à própria condição humana; que a liberdade é o maior bem do mundo; que a liberdade é o oposto à fatalidade e à escravidão; nossos bisavós gritavam “Liberdade, Igualdade e Fraternidade! “; nossos avós cantaram: “Ou ficar a Pátria livre/ ou morrer pelo Brasil!”; nossos pais pediam: “Liberdade! Liberdade!/ abre as asas sobre nós”, e nós recordamos todos os dias que “o sol da liberdade em raios fúlgidos/ brilhou no céu da Pátria…” em certo instante.

Somos, pois, criaturas nutridas de liberdade há muito tempo, com disposições de cantá-la, amá-la, combater e certamente morrer por ela.

Ser livre como diria o famoso conselheiro… é não ser escravo; é agir segundo a nossa cabeça e o nosso coração, mesmo tendo de partir esse coração e essa cabeça para encontrar um caminho…

Enfim, ser livre é ser responsável, é repudiar a condição de autômato e de teleguiado é proclamar o triunfo luminoso do espírito. (Suponho que seja isso.)

Ser livre é ir mais além: é buscar outro espaço, outras dimensões, é ampliar a órbita da vida. É não estar acorrentado. É não viver obrigatoriamente entre quatro paredes.

Por isso, os meninos atiram pedras e soltam papagaios. A pedra inocentemente vai até onde o sonho das crianças deseja ir (As vezes, é certo, quebra alguma coisa, no seu percurso…)

Os papagaios vão pelos ares até onde os meninos de outrora (muito de outrora!…) não acreditavam que se pudesse chegar tão simplesmente, com um fio de linha e um pouco de vento! Acontece, porém, que um menino, para empinar um papagaio, esqueceu-se da fatalidade dos fios elétricos e perdeu a vida.

E os loucos que sonharam sair de seus pavilhões, usando a fórmula do incêndio para chegarem à liberdade, morreram queimados, com o mapa da Liberdade nas mãos! …

São essas coisas tristes que contornam sobriamente aquele sentimento luminoso da LIBERDADE.

Para alcançá-la estamos todos os dias expostos à morte.

E os tímidos preferem ficar onde estão, preferem mesmo prender melhor suas correntes e não pensar em assunto tão ingrato.

Mas os sonhadores vão para a frente, soltando seus papagaios, morrendo nos seus incêndios, como as crianças e os loucos. E cantando aqueles hinos, que falam de asas, de raios fúlgidos, linguagem de seus antepassados, estranha linguagem humana, nestes andaimes dos construtores de Babel…”.

AUTORA: Cecília Meirelles. Escolha o seu sonho: crônicas. Editora Record: Rio de Janeiro, pág. 7)

ATIVIDADE PEDAGÓGICA:

Neste vídeo a seguir, segue leitura do texto e propostas de atividades para estudantes das séries finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio. A intenção, com esta publicação, é subsidiar a leitura e conhecimento do texto, o conhecimento sobre a autora e o aprofundamento do tema Liberdade junto aos estudantes através de atividades pedagógicas.

Acesse e confira! https://youtu.be/baHNcwgwtSU?t=470

Tempos de Utopias

Utopia é um conceito complexo e cheio de significados que atravessa o campo do conhecimento das ciências sociais, da filosofia política, da literatura e também da educação.

Conforme ressalta o sociólogo Michael Löwy, utopias são ideias, representações e teorias que aspiram uma outra realidade, ainda não existente. Sendo assim, as utopias tem uma dimensão crítica e até de negação da ordem social existente, pois são subversivas, podem assumir uma função revolucionária e são imprescindíveis para esperançar os tempos de crise.

Na história renascentista, um dos autores ligados ao conceito de utopia foi o inglês Thomas More (1478-1535). Filho do juiz John More, foi político, filósofo, humanista, diplomata, membro do parlamento inglês e chanceler no reinado de Henrique VIII. Decidido a seguir os passos do pai, formou-se em Direito na Universidade de Oxford e ingressou na vida política. Apesar de seus deveres públicos, foi um escritor influente. Além da Obra Utopia escreveu diversas outras obras dentre elas História de Ricardo III, considerada a primeira obra-prima de historiografia inglesa.

Thomas More pode ser considerado o grande representante inglês do renascimento e foi profundamente influenciado pelo pensamento de Erasmo de Rotterdam. Pode-se dizer que toda a obra de More inseriu-se dentro dos quadros do pensamento renascentista, mais particularmente dentro das coordenadas do Humanismo. Os humanistas se dispunham a repensar os filósofos antigos, de maneira a integrá-los na concepção cristã da vida.

(Sugiro leitura de crônica escrita a partir de obra Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam (1469-1536)): https://www.neipies.com/as-loucuras-de-nosso-tempo/

Descontente com a estrutura econômica vigente na Inglaterra, More escreve a obra Utopia, nome de uma ilha fictícia, na qual é apresentada uma sociedade ideal, sem desemprego, fome, doenças, guerras e intolerância religiosa. No centro de cada quarteirão destas cidades da ilha encontram-se um mercado de coisas necessárias a subsistência, onde são depositados os diferentes produtos necessários para as famílias.

Cada pai de família busca nestes mercados tudo o que necessita para os seus e por isso na Utopia de More não há famintos, indigentes, criminosos.

Quanto a organização política, a Utopia regula-se por um regime democrático, com um sistema completo de eleição dos magistrados de forma a não permitir o abuso de autoridade. As leis são discutidas amplamente a fim de evitar que sejam injustas e possam dar privilégios a qualquer cidadão. As instituições têm por finalidade impedir, por todos os meios, a possibilidade de os governantes conspirarem contra a liberdade, oprimirem o povo com leis tirânicas ou mudar a forma de governo.

No que tange a questão religiosa, os habitantes de Utopia professam várias religiões, desde os mais primitivos cultos astrológicos, como a adoração do Sol, até a crença num Deus único, eterno, imenso, desconhecido, inexplicável, onipotente e onisciente.

Apesar dessa diversidade, os adeptos das diferentes crenças e seitas não entram em conflito, pois todos se respeitam mutuamente. O Estado, por sua vez, não impõe nenhum credo e assegura a tolerância religiosa.

Thomas More se indispôs com o rei Henrique VIII por não concordar com a separação da Inglaterra da Igreja Católica e por isso foi destituído do cargo de chanceler. E ao negar-se a assinar o Ato de Sucessão que declarava nulo o casamento do monarca, foi preso e posteriormente condenado à morte por decapitação.

Mais de quinhentos anos nos separam dos escritos de Thomas More.

Seu pensamento e suas ideias influenciaram as democracias contemporâneas e continuam inspirando as novas gerações. Talvez seja urgente e necessário revisitar seus escritos, principalmente para perceber que ainda estamos longe de vivenciar a Utopia que ele tão bem descreveu.

Em certo sentido, do ponto de vista político, religioso e econômico estamos distantes das formulações que inspirou Thomas More a escrever sua Utopia da Inglaterra do século de XVI. Talvez devemos aprender com seus escritos o básico para a construção de uma sociedade democrática, a vivência da tolerância religiosa, o respeito pela diversidade e a solidariedade como valor econômico fundamental para a promoção da dignidade humana.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Sentir-se culpado é ruim, se sentir responsável é bom

Alimentar o sentimento onipotente de culpa, culpar a si ou aos outros, é o pior que temos a fazer. Resignar-se frente a parva condição humana, assumir nossa responsabilidade pelos erros cometidos e buscar uma atitude reparatória é o melhor que temos a fazer.

Emma: a pior “solução”

Flaubert, em “Madame Bovary” (1857), conta de Emma, uma mulher que, por ser “adultera”, trouxe sofrimento ao marido Charles, aos familiares de ambos, à sociedade. Mas Flaubert descreve a história de vida da personagem e nos permite entendê-la: Emma cresceu com o único sonho de encontrar na vida uma relação amorosa idealizada.

Casa com Charles, um médico viúvo, mais velho, e não encontra a relação que idealizou. No casamento não se encontra. Fora do casamento também não. Mas é só o que Emma tem na vida. Tenta encontrar o que busca em um amante. A relação acaba mal. Tenta em outro, o final é ainda pior.

Como constatou Alain de Botton: “No momento em que Emma perde seu status na comunidade, derrama arsênico e se deita na cama para esperar pela morte, poucos leitores têm ânimo para julgar”. Emma não tinha “pitadas de psicopatia”.

Emma: a segunda pior “solução”

Vamos imaginar que Emma, em vez de cometer o suicídio, dá-se conta de que, ao procurar amantes, além de se colocar numa posição ruim na sociedade em que vivia, trouxe sofrimento para si mesma, para seu marido e demais familiares. E, percebendo isso, passa a sentir uma culpa avassaladora. E a culpa a deixa paralisada, infeliz e sem perspectiva. Tenta expiá-la da forma como se expiam as culpas: com atitudes destrutivas. Convém lembrar dos métodos “medievais”: subir escadarias de joelho, açoitar-se…

Emma: a melhor solução

Nós, leitores de Flaubert, não culpamos Emma porque percebemos sua reduzida capacidade naquele momento de sua vida. Fica evidente que Emma agiu não por maldade, mas pela limitação de só ter um sonho na vida e não conseguir percebê-lo irrealizável. E não encontrou outro interesse. Não conseguiu ir atrás de outro interesse. Mas, se fosse possível a ela perceber a melhor saída, como seria essa “melhor saída”?

Não se culparia, pois reconheceria que, naquele momento, “não podia agir de outra maneira”. Seria “culpada” se tivesse, naquele momento, poder, “cabeça” para agir diferente. Não tinha.

Volto a citar o ótimo livro “Sentimento de culpa”, de Guedes e Walz: “O sentimento de culpa é o sentimento de onipotência”.

Emma perceberia que, por suas limitações, agira mal, sem poder não agir mal. Mas reconheceria o erro. E se sentiria responsável por ele e procuraria reparar. Com o sentimento de culpa, iria atrás de saídas destrutivas. Com o sentimento de responsabilidade, poderia buscar reparações construtivas.

Em síntese, alimentar o sentimento onipotente de culpa, culpar a si ou aos outros, é o pior que temos a fazer. Resignar-se frente a parva condição humana, assumir nossa responsabilidade pelos erros cometidos e buscar uma atitude reparatória é o melhor que temos a fazer.

No entanto, culpar-se? Quem consegue ficar sempre focado? Ninguém, é claro. Ninguém é, de fato, infalivelmente onipotente. Assumindo nossa limitação, não vamos esperar e exigir de nós mesmos o que não podemos. Leia mais: https://www.neipies.com/a-culpa-nao-serve-para-nada/

Autor: Jorge A. Salton

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