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Lições de uma implosão

É válido lembrar que sempre poderemos aprender não somente com os nossos erros, mas também, com os erros dos outros. Seja por intermédio de uma estória, como vimos sobre Pandora e Eva, seja na própria vida “real”, como é o caso deste texto que procurou encontrar lições, mesmo em uma tragédia.

O Titan embarcou rumo a uma expedição nas profundezas obscuras do oceano com o principal objetivo, turístico, de visualizar nada mais que, segundo os boatos de 1915, o navio mais luxuoso e seguro do mundo.

A passagem do Titanic poderia chegar a 50 mil Euros ou 240 mil Reais. Isso sem correções, que poderia passar de meio milhão na atualidade. Já um “assento” do Titan (entre aspas, porque aquilo não parecia ter bem assentos e não era nenhum pouco luxuoso), poderia ser comprado pela bagatela de 1,1 milhão de Reais.

Isso tudo para ver uma das maiores catástrofes marítimas da história, por uma tela. Eu não iria, não porque eu não tenho dinheiro, sendo sarcástica, mas, porque entrar em contato direto com algo que representa tanto sofrimento não é algo que se assente muito bem em mim (eu sei, tem muita história por lá, e essa é a parte interessante, mas, ao menos para mim, o outro lado parece pesar mais).

Às pessoas que me rodeiam que sabem: ai delas se compartilharem fotos de acidentes ou tragédias no meu whatsapp: leva xingão e discurso na hora!

Isso, de algum modo, me faz questionar essa “curiosidade” que muitas vezes chega a ser insana. Aliás, para os curiosos, a palavra curiosidade, segundo a página “A Origem das Palavras” deriva do latim Curiositas que significa “desejo de conhecer, de se informar”, a raiz latina “cur” significa por quê. É também a origem da palavra “cura” que quer dizer cuidado, e da palavra curioso, que se refere àquele que teria sempre o cuidado de saber o porquê, de saber mais.

Curiositas era uma virtude, associada ao desejo da mente pelo conhecimento, e uma motivação nobre e louvável. Nada parecido com a curiosidade que estamos nos referindo por aqui, não é mesmo?

Mas, o povo antigo era esperto, pois possuíam uma denominação específica para esse outro tipo de curiosidade, eles a denominavam cupiditas, que também, segundo informações da página A Origem das Palavras, se trata de um tipo de “curiosidade” que tem efeitos opostos sobre a própria mente. Como, por exemplo, a curiosidade dos fofoqueiros, a curiosidade por informações inúteis, a curiosidade que coloca em risco a própria vida sem um bom motivo! Falando nisso:

De cupiditas sofreu Pandora, na mitologia, aquela que se fez esposa de Epimeteu e a quem deram os deuses uma caixa com a recomendação de que nunca a abrisse, pois, continha lá dentro todos os males e desgraças do mundo. Por não ter resistido ao pior da sua própria curiosidade, sucumbiu Pandora à tentação de ver o que havia dentro da caixa – e libertou toda a espécie de males sobre o mundo (o egoísmo, a crueldade, a inveja, o ciúme, o ódio, a intriga, a ambição, o desespero, a tristeza, a violência, e todas as outras coisas que causam miséria e infelicidade). E todos os males podem ser chamados por um único nome: Ignorância (A Origem das Palavras).

De algo parecido sofreu a Eva, lá no jardim do Éden, ao escolher comer a única fruta proibida naquele paraíso inteiro (e eu nem vou entrar na discussão de que essas estórias parecem ser um tanto quanto machistas, ao escolherem o que a ampla cultura impõe como o “sexo frágil”, para ceder as tentações, essa discussão fica para uma próxima oportunidade). Mas, salvo as exceções, parece-me que as nossas narrativas retratam muito bem os males que uma curiosidade mal-empregada pode nos causar.

É justamente dessa curiosidade que os telejornais se alimentam, de sangue e de tragédia. É a curiosidade oca, vazia que as pessoas mais consomem. Infelizmente, pois se utilizassem a curiosidade como virtude, aquela que está relacionada ao desejo por conhecimento, acredito fielmente que grande parte dos maiores sofrimentos e preocupações da humanidade estariam, no mínimo, bem encaminhados. No entanto, elas preferem continuar abrindo a caixa de Pandora ou comendo maças.

Mas, o Titan, além de carregar consigo o peso ou a problemática da curiosidade, também pode nos fazer refletir sobre as profundezas de nosso oceano: metaforicamente falando…

Isso porque, segundo o G1, ele já havia feito mais de vinte viagens. Segundo os especialistas, toda vez que ele submerge e emerge ele vai acumulando danos, que quando submetidos a altas pressões, um pequeno amassado que represente 2% da superfície do submarino é suficiente para reduzir a profundidade máxima da operação em 50%, pois, a pressão externa exercida em uma profundidade de 3,8 mil metros é equivalente a um elefante apoiado em cada pedaço de 25cm² (um quadradinho de 5cm x 5cm) e isso significa dizer que qualquer trinquinha, nessas condições, pode virar um trincão.

O que me faz lembrar de algumas questões subjetivas, como, por exemplo, quantas vezes nos submetemos a altas pressões, dizendo sim a todos os pedidos, enquanto o nosso corpo implora por descanso ou reparo. Quantas vezes fizemos mais do que podemos fazer, deixando marcas em nós mesmos, até que um dia, essas pequenas trinquinhas, acumuladas ao longo de inúmeras situações, culminem em uma implosão. Que pode ser um AVC, um infarto, um Burnout, uma Depressão ou um transtorno de Ansiedade Generalizada.

E o mais irônico de refletir, é que as pessoas se indignam com o que aconteceu com o Titan, mas, nem piscam para a implosão que está se encaminhando dentro delas, ignorando todas as medidas de segurança, dia após dia.

Podemos refletir também o quanto o mundo inteiro se envolveu com a história do Titan. Por alguns dias, ficamos aflitos e até mesmo sufocados em nos imaginar dentro de uma cápsula, a quilômetros de profundidade, sem comida e com o oxigênio contado.

Você já parou para refletir em como o fato de apenas imaginarmos algo pode nos causar tremendo mal-estar? Como nos lembra o Estoicismo, a sugestão é: domine a sua mente, caso contrário ela dominará você!

Mas, a essa capacidade de se colocar no lugar do outro, como se você fosse o outro, e portanto, compreendendo o contexto do outro, e o mais importante sentindo! Chamamos de empatia. Esse mecanismo natural é fundamental para a sobrevivência da espécie humana, porque ao nos solidarizarmos com aquela situação, de tal modo que consigamos sentir a dor a aflição do outro, também sentimos uma vontade de querer ajudar. Resultado das buscas para encontrar um submarino no oceano e a comoção mundial. É por essas que a empatia acaba promovendo a preservação de nossa espécie. É por essas que um mundo cada vez mais egoísta, uma grandeza diretamente contrária à empatia, pode mesmo culminar em nossa implosão.

Nem precisaremos de uma ajuda externa, um meteoro, como aconteceu com os dinos, a gente dá conte de acabar com a humanidade sozinha, dada a nossa “inteligência” ou “curiosidade”.

De tudo o que conversamos até aqui, ainda acredito que a maior lição vem a partir de agora, ou seja, em como alteraremos as normativas de segurança, o projeto de submarinos, a escolha de materiais, estudos, pesquisas dentre outras infinidades de cuidados redobrados, com o principal objetivo de tentar assegurar que essa tragédia não se repita.

E eu sei, ninguém gosta de errar, ficamos putos quando dá um erro no computador, ficamos chateados e incomodados quando erramos, quando as pessoas erram, pois, ele atrapalha os nossos planos… e ainda mais quando tudo isso resulta em uma tragédia. Vivemos em uma sociedade que associa o erro ao fracasso, a incapacidade. Essa cultura também alimenta um perfeccionismo tóxico, que deixa muita gente doente. Isso porque, a maioria de nós nunca parou para enxergar o erro como uma oportunidade.

Um erro, por pior e mais trágico que ele seja, sempre poderá nos fornecer um aprendizado para consertarmos o que não está bom, para escolhermos um caminho melhor, para nos tornarmos pessoas melhores. Mas, há um porém, é preciso reconhecer no erro essa capacidade, ao invés de apenas lamentar ou como muitos costumam fazer por aí: escondê-lo!

E tem mais uma coisinha (depois eu prometo que finalizo o texto). É válido lembrar que sempre poderemos aprender não somente com os nossos erros, mas também, com os erros dos outros. Seja por intermédio de uma estória, como vimos sobre Pandora e Eva, seja na própria vida “real”, como é o caso deste texto que procurou encontrar lições, mesmo em uma tragédia.

E agora eu desafio você, caro Leitor, a fazer o mesmo! Deixe um comentário contando para gente quais foram as lições que o submarino Titan lhe ensinou! Sinta-se à vontade para deixar um comentário e ampliarmos a discussão a respeito do assunto!

Conheça as outras 08 crônicas já publicadas no site: https://www.neipies.com/author/ana-paula/

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Bem pessoal, chegamos ao final de mais um texto reflexivo! Espero que essa reflexão possa ter contribuído, de algum modo, com a sua vida.

Se possuir interesse em conferir mais deste conteúdo, você pode clicar nos meus textos aqui em baixo ou conferindo os meus vídeos pelo youtube, procurando pelo canal Diálogos da Ana! https://www.youtube.com/channel/UC0_oBeGUwF2ce2YdL9-1GSQ

Autora: Ana P. Scheffer

FONTES:

A Origem das Palavras: https://www.facebook.com/113798452062157/posts/234575589984442/

G1: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2023/06/24/entenda-como-as-escolhas-de-design-e-materiais-do-submarino-podem-ter-causado-a-implosao.ghtml

Uma cidade sob um olhar fotográfico

Diogo Zanatta define-se repórter fotográfico. Zanatta é graduado em Publicidade e Propaganda pela UPF (Universidade de Passo Fundo), 2006. Cursou também uma pós-graduação – Fotografia Imagem em movimento – Universidade Positivo – PR.

Diogo atua, apaixonadamente, para revelar a realidade, eventos sociais, culturais e políticos, como também as mudanças visuais que ocorrem no Passinho, como é carinhosamente chamada a cidade Passo Fundo.

Este jovem fotógrafo funde, de certa forma, o ser cidadão com o ser fotógrafo. Em breves diálogos, pudemos constatar que as lentes e as suas máquinas fotográficas tornaram-se também ferramentas que revelam a cidadania dele mesmo e a cidadania da nossa gente passo-fundense.

Conheçamos Diogo Zanatta por ele mesmo.

Como, quando e porquê esta tua paixão pela fotografia? Conte-nos.

Sempre fui um menino inquieto, mas sem muita definição do que queria ser. Tentei ser até veterinário. Ao crescer, percebi uma tendência com as artes. O contato com as câmeras se deu a partir da minha mãe, que fotografava a partir de uma janela (a mesma pela qual ainda faço registros fotográficos). Minha mãe sempre nutriu amor por fotografias.

Ganhei do meu tio Nelceu Aberto Zanatta uma câmera um pouco mais moderna, pois o tio sempre gostou de fotografias também, e daí em diante nunca mais parei de clicar, mas já a partir do mundo digital.

Minha paixão é registrar o cotidiano a partir do lugar onde vivo, do que enxergo e do que posso revelar. A fotografia pode se tornar um instrumento de historicidade, quando revela o cotidiano dos acontecimentos de um lugar.

Com que olhar, com que sentidos e com que sentimentos desvendas Passo Fundo através das lentes?

Gosto de pensar que na nossa querida Passo Fundo temos muitas coisas para mostrar, que não estamos desconectados do resto do Brasil e do mundo. Como repórter fotográfico, posso registrar acontecimentos sociais, políticos e também fenômenos naturais como chuva, raios, eclipses, meteoros (que também gosto muito). Gosto de valorizar o que acontece na nossa cidade, uma cidade do interior.

O que mais chama atenção no cotidiano das pessoas que habitam nossa cidade Passo Fundo?

Ao observar o cotidiano de nossa cidade, percebo que somos um povo acolhedor, mas poderíamos ter um olhar mais aberto para diferentes realidades como a vida dos imigrantes que moram por aqui, dos indígenas, das pessoas que moram em nossas periferias e ocupações. Tento dar um pouco mais de visibilidade a estes tantos que não são tão bem valorizados, como deve ser a missão de um documentarista.

Um registro seu, feito em nossa cidade, que julgas especial. Tens?

Sim, tenho uma foto da Praça Tamandaré que gosto muito. Gosto deste lugar da cidade, tanto que já participei anos atrás de uma associação que cuidava desta praça.

Um registro seu, feito em nossa cidade, que julgas relevante. Tens?

Fiz uma foto que projetou Passo Fundo para fora, numa época em que aconteciam em todo o país um movimento de grandes manifestações (ano de 2013). Neste período exerci o papel de repórter fotográfico regional, o que me permitiu uma experiência de trabalho com fotos por certo período, em 2014, na nossa capital, Porto Alegre.

Um registro seu, feito em nossa cidade, que julgas tenha grande impacto social. Tens?

Faço registros fotográficos para um projeto chamado “Arquitetura para quem mais precisa”. Este projeto mostra necessidades que vão para além de casas, provocando olhares sobre a dignidade humana de quem as habita.

Consideras a fotografia uma forma de arte? Qual é a importância social da fotografia?

Não considero a minha fotografia uma arte; eu procuro mostrar os fatos, a informação que está presentes em fenômenos sociais, políticos e sociais. Se outros consideram minhas fotografias uma arte, tudo bem. O Brasil tem muita desigualdade social. Fazer da fotografia uma ferramenta para desvelar as realidades como elas são é parte de sua importância social. O fotógrafo tem de se despir de preconceitos, discriminação, mostrando as realidades como elas se apresentam, para serem vistas, apreciadas e enfrentadas por todos nós.

Como vês e como olhas Passo Fundo por teu olhar cidadão?

Nasci passo-fundense. Vi Passo Fundo em mudanças. Gosto de fotografar como uma questão de cidadania; me sinto cidadão por poder fotografar e registrar coisas boas de nossa cidade e coisas que precisam ser melhoradas. Não consigo mais separar o aspecto cidadão do aspecto fotógrafo. Faço da fotografia uma forma de cidadania!

Um pensamento, uma ideia ou uma filosofia que defina você.

“O sentimento de insignificância frente ao universo faz de você um ser humano melhor”. (Revista Galileu, matéria:https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Comportamento/noticia/2015/08/o-sentimento-de-insignificancia-frente-ao-universo-faz-de-voce-um-ser-humano-melhor.html)

Uma mensagem para quem te lê agora.

Sou movido pela coletividade. Acho que o senso de coletividade traz em si uma grande potência capaz de promover maiores mudanças. Na arte, na fotografia, na vida, a coletividade nos salva, constituindo mudanças reais e significativas para a maioria, para a humanidade como um todo. Acredite nisso você também e engaje-se!

Na solidão das livrarias

Visite as livrarias com urgência, porque corre-se o risco de restarem somente farmácias. E, ao longo de seu labirinto de uma vida sem letras, não há saída que possa ser encontrada.

O dia estava lindo, véspera de feriado, clima perfeito para uma prévia de um descanso programado em mais um final de semana tedioso com esquinas e ruas tomadas, gentes pelas calçadas, carros que ameaçam a todos, ratos que correm pelo meio-fio, sorrisos apressados, promessas de alegria.

Olho pelo ângulo de uma árvore formosa que estava ali, quase gigante, mas que fora cortada em pedaços para dar lugar a mais uma farmácia, em uma dupla tragédia urbana.

“Corta-se uma árvore, uma vida.

Nasce uma loja iluminada

em seu lugar

para vender a morte

ou seu dia adiar.”

Uma típica sexta à tarde, azulada, nervosa, de pessoas que andam mais rapidamente, sem saber muito exatamente em que parede sua noite vai topar. Aproximo meus passos cada vez mais rente ao shopping onde fala-se haver uma grande livraria, a mais sortida, como diziam alguns antigos, ou, com inúmeros títulos, em linguagem de anteontem.

Quantos carros!

Cada metro é disputado por esses casulos ambulantes, cada pessoa com o seu, como se fossem a roupa de cada um, colorida, de aparência duvidosa, e o seu mundo buscando estacionar no seu riscado. Pensei que teria problemas com o excesso de pedestres, logo à entrada, onde tive a certeza de que parques e espaços verdes estão em declínio abissal por aqui. Toda a cidade veio ao shopping.

“Corredores e lojas cheias de todos, pizzarias e lanchonetes ocupando cada meio metro possível nesta caverna moderna”, pensei… Caminho um pouco mais, vejo a capa de um livro cobiçado, pergunto seu preço e sumo. “Volto na segunda – pensei – quando a realidade será imposta a todos estes consumidores distraídos”.

Mas não.  Alcanço a livraria em minutos, e, surpresa: vazia!

– Não creio! – resmunguei baixinho.

“Quanta gente vem pra cá…

Como,

tantos a gastar,

comer e mostrar,

e ninguém a pensar?”

A atendente pula em minha direção em uma reação dúbia. De alegria intensa, mas, ao mesmo tempo, surpresa: “Um cliente… Nossa!” – Sabe-se lá quanto tempo não via um deles. Ela falava, mas de canto de olhos via seus colegas a esmo, pelas colunas da sala. Disfarçados, entediados, por horas e horas em pé, sem alguém para oferecer o Escravidão, do Laurentino; Ikigai, do Ken Mogi; ou mesmo A Vida dos Doze Césares, do Suetônio. E centenas de outros e mais outros…

De que falam mesmo os vendedores de livros enquanto seus clientes não chegam? Falam com os próprios livros, suas esperas e histórias? Não pode haver maior solidão do que uma livraria vazia cercada de gente por todos os corredores. A história adormecida em pilhas de obras não vendidas.

Nos hospitais, pelo menos, temos de aguardar os horários para sermos medicados. Em rodoviárias, temos de aguardar as chegadas de ônibus para que sejam anunciadas suas partidas. Em velórios, aguardamos a última lágrima para então sair da presença assustadora da dor humana que restou…

Em livrarias, todavia, a cura pode acontecer em segundos. É abrir o capítulo certo, a página perfeita, e a esperança se tornar manifesta. Não há espera que não possa ser desfeita nem resposta que se abstenha diante de um pretenso leitor curioso. Nada pode ser adiado, sequer o desejo de abrir o último romance e ler algumas linhas, apenas. Sentar-se, descansar os olhos, imaginar um viajante que não chega nunca… como este.

“Não sinto mais cheiro de nada.

Neste caminho estrangeiro que leva à minha casa,

nem mais composto de meus sonhos, apenas de mim.

Vou caminhando muitos passos, um de cada,                      

e estou andando há horas, na escuridão do dia, sem começo ou fim.

Nada mais humano, nem divino, nada sobre nada.

Sequer os raios me atingem, meu andar trôpego espia,

margaridas me seguem, crisântemos, fadas.

E o tempo que some, sombras se escondem, é o pio da noite, diria”.

Em que loja de calçados poderemos encontrar este presente? Quais farmácias nos dariam este calmante? Mas elas estão lotadas. Suas prateleiras mal suportam tantas promessas em suas caixas de alívio.

E as livrarias, que oferecem gotas de felicidade em suas poções mágicas de cura e de bálsamo, de contos e histórias, essas continuam vazias. Não as farmácias, mas elas mesmas poderiam receber receituários para poder vender seus livros. 

– Doutor, estou com vertigem.

– Tome a receita, vá e mergulhe com Alberto Caeiro.

– Doutor, tenho muitas dores pela manhã, logo ao despertar.

– Pronto, dose única: Manuel de Barros. Até o meio-dia, leia alternadamente.

É inaceitável o que se vê!

Estamos buscando nos shoppings desvios mais rápidos que nos satisfaçam, e saindo deles ainda mais vazios. Nossos passos nos apressam para que compremos mais e mais, e, em seguida, frequentemos as farmácias como se fossem pequenos free shopps para alívio e consolo das solidões que nós mesmos construímos.

Não seria mais simples irmos à essência? Logo após um lanche, misturar ao café Fernando Pessoa, adoçando lentamente a xícara com uma colher de açúcar da Clarisse?

Saio do lugar com a sensação de que os livros ainda irão se revoltar com todo o nosso descaso. Livros solitários, abandonados em prateleiras, nunca lembrados ou comprados, conspirando com outros ao seu lado, confabulando para todos irem às ruas e baterem os seus compêndios na cabeça dos humanos.

Coleções e avulsos que, na madrugada, desviam os centuriões modernos e fogem pelas calçadas para bater nos primeiros que encontram.  Dicionários, revoltados, gritando pelas esquinas. Romances, contos, biografias, todos indo à luta para despertar essa gente que caminha feliz em ruas iluminadas – todos, rigorosamente, a caminho da escuridão.

Então, ficamos assim: para pequenos enjoos da vida, busque a sua farmácia mais próxima. Se a dor persistir, corra para uma livraria e peça ao atendente uma solução simples e duradoura para o seu mal maior: leitura. Entre estantes, silêncio e muitos livros, é o lugar onde você pode dissolver de imediato suas dores da alma. Ou o seu vazio.

Mas visite as livrarias com urgência, porque corre-se o risco de restarem somente farmácias. E, ao longo de seu labirinto de uma vida sem letras, não há saída que possa ser encontrada.

Autor: Nelceu Alberto Zanatta

O Pavlo de Kiev

Estamos aqui na praça central de nossa cidade, não poderão destruir tudo.  Há muita história por aqui.  Venha, vamos dormir em um canto qualquer, um novo dia virá ao nosso encontro.

Um menino atravessa a rua, vem correndo ele, tentando cantar, tentando pular, tentando ser menino.

Sua Mãe o segura firme, entretanto, não o deixa ser o que apenas é.  Ela o puxa de todas as maneiras, como que a dizer… não seja um menino, seja invisível, ou uma pedra, uma nuvem, nada há de humano em um menino nesta praça diz ela. A praça morreu.

Ele não entende, a praça é a mesma onde fora criado, somente lhe tiraram suas cores. Virou preta, branca e cinza, por que suas cores foram sugadas pelas bombas.

Por que não posso correr minha Mãe se não se vê nada, não há bombas, elas já foram embora.  Até um esquilo, acho que vi a pouco. Vamos ficar aqui mais uns minutos.  Entre as bombas que caem pode-se encontrar um fiozinho de vida.

-Venha meu filho, temos de nos abrigar, porque o céu e o seu escuro muitas mortes nos trará.


E o menino que vê e sente seus passos sobre a destruição parece entender o alerta de sua mãe, ela mesma um alvo vivo, tentando proteger seu alvo menor. Fecha-lhe os lados do rosto para que não veja mortos retorcidos pelas ruas e a paisagem de horrores, planejada em salões suntuosos que um dia fora do Ivã, o terrível.

– Por que as bombas minha Mãe?  O que foi que vocês fizeram, que eu não possa saber.  Por que tanto fogo, e as árvores da praça por que queimaram todas? O que todos vocês fizeram para que nosso irmão se voltasse a nós?

-Nada Pavlo, não precisou fazer nada, bastou existir. O ódio, por si mesmo, vai se alimentando de mais ódio, e basta uma noite para se jurar vingança, e mais bombas cairão. Sem nada a fazer ou pensar, basta tentar e viver. Mais rápido Pavlo, temos de nos abrigar, porque bombas e mísseis são como a sorte, desde que o mundo se fez mundo, caem a esmo, não escolhem onde explodir. São as armas do ódio as que nos caem sobre as cabeças. Basta existir para a morte espreitar. Somos o alvo do mundo de ódio, Pavlo, e nossas defesas estão tão frágeis como se fôssemos crisântemos em campo minado.

Enquanto corriam e quase alcançavam um portão de ferro gongórico para entrar, o som pavoroso e infernal de um míssil atravessa a praça, roçando as copas das árvores que teimavam em não tombar, e, quase os atinge.  Não os matou, por ora. Mas os enterrou de poeira e pedras, ou o que restou delas, as mesmas que enquadradas em prédios, ordenadas em fileiras perfeitas que sustentavam casas enormes, vê-se agora caindo como centelhas em uma praça sem vida.

-Levanta-se meu filho Pavlo, ainda não chegou a hora.  Vamos entrar neste porão escuro e frio por que é o que o ódio planejou a nós.  Venha meu filho, pelo menos criemos um círculo de calor com o que nos resta. Vamos dormir abraçados, não importando se conosco fiquem abraçados os que já partiram.

Estaremos seguros aqui, pela manhã vamos pensar mais em nós mesmos e renovarmos nossa fé. Os homens que nos odeiam podem ter planos, mas é o Senhor quem cuida de nossos caminhos. Rezamos tantos séculos neste país, em nosso passado, que nada nos fará mal.

Estamos aqui na praça central de nossa cidade, não poderão destruir tudo.  Há muita história por aqui.  Venha, vamos dormir em um canto qualquer, um novo dia virá ao nosso encontro.  Afinal estamos seguros neste prédio de Assuntos Exteriores e amanhã, alguém que não ouça pelas ogivas, amanhã alguém poderá nos resgatar.

Enquanto o deus da Ucrânia procura entender por que tantas crianças precisam morrer para satisfazer as metas de adultos adoecidos, no quartel general do grande irmão, soldados acéfalos e robôs confabulam, tentando traçar uma nova rota para mísseis de última geração. A geração da morte! De marte. De pedras somente, da desolação e do desamparo na nova Ucrânia.

– Camaradas, apontem este supersônico para o prédio no centro de Kiev, neste portentoso que já nos pertenceu um dia.  É a casa dos Negócios Estrangeiros. Destruam tudo!

Mas vem do porão as palavras para uma última noite de paz.  Nesta, pelo menos, Pavlo e sua Mãe dormirão até o amanhecer.

-Boa noite, meu pequeno filho! Vamos enfim dormir o sono dos que perambulam pelo mundo, o sono dos resgatados. Amanhã todos seremos esta praça.

Autor:  Nelceu Alberto Zanatta, autor do recém-lançado livro “A planta, suas folhas e um sino”.

Leia matéria sobre o livro: https://www.neipies.com/uma-potente-pegada-por-empatia-em-livro/

A culpa não serve para nada

A responsabilização e a reparação servem, estas sim, para muita coisa. Já a culpa… A culpa não serve para nada.

No início do conto “Topsy”, do livro “1905”, Brian sente muita culpa pela morte de uma elefanta. Dono de um mercadinho “escondido” na Mulberry Street, em Nova Iorque, era quem a alimentava. Porém, um dia ela foi eletrocutada a mando de Thomas Alva Edson. O fundador da General Eletric queria provar que a corrente elétrica desenvolvida pelo seu concorrente, usada no ato, era perigosíssima.

Brian, um “ninguém” se comparado a Edson, não tinha como evitar a execução. Por que, como Brian, sentimos culpa em situações que, se examinarmos bem, estão além de nosso alcance? Em “Sentimento de culpa”, excelente livro escrito por Paulo Sérgio Rosa Guedes e Júlio Cesar Valz, encontramos a resposta: “O sentimento de culpa é o sentimento de onipotência”.

**

Em um dia de muita chuva, um homem dirigindo um caminhão na mão certa, na velocidade certa, viu, de repente, um automóvel mudar de pista e vir direto em sua direção. Ele chegou a ver os olhos arregalados da motorista antes da batida. Seu caminhão virou de lado. Com poucos ferimentos, tentou em vão salvar a mulher.

Aqueles olhos arregalados o faziam acordar à noite com um imenso sentimento de culpa. Revisou sua conduta: foi tudo muito rápido, não teve como desviar para o acostamento. Como, mesmo assim, a culpa não o abandonava, foi a sua igreja, rezou, fez penitência. Nada resolvendo, veio me procurar.

Ele saía a viajar, concluímos os dois, com a fantasia onipotente de que, fazendo tudo certinho como fazia, nunca se envolveria em acidentes. E, assim, trabalhava sem medo.

De certa forma, esse sentimento de onipotência o beneficiava. Porém, provocava um efeito colateral. Se estava “em suas mãos” não se ferir nem ferir alguém, como conviver com aquela morte sem se culpar?

Só havia uma maneira: reconhecer que não estava somente “em suas mãos”… E conviver com o medo, trocar a culpa pelo medo.

Vamos imaginar que ele tenha cometido algum erro: teria, por exemplo, havido tempo para tirar o caminhão para o acostamento. Não o fez por não estar tão focado na estrada, por sonolência, algo assim. Seria adequado se responsabilizar por isso. Inclusive, poderia, numa atitude reparatória, tornar-se mais e mais focado, mais “acordado” para possíveis acidentes na estrada.

No entanto, culpar-se? Quem consegue ficar sempre focado? Ninguém, é claro. Ninguém é, de fato, infalivelmente onipotente. Assumindo nossa limitação, não vamos esperar e exigir de nós mesmos o que não podemos.

Resignados com a condição humana, nossas ações serão mais realistas. Não viveremos nas “alturas” dos poderes divinos, viveremos com os pés no chão e cientes de nossas responsabilidades e de, muitas vezes, termos de realizar atitudes reparatórias. A responsabilização e a reparação servem, estas sim, para muita coisa. Já a culpa… A culpa não serve para nada.

Autor: Jorge A. Salton

Democracia à brasileira (uma reflexão sobre as diferenças) Parte I

Se olharmos mais atentamente para nossa história, veremos que a própria composição do povo brasileiro moldou-se nessa direção, calcada, sobretudo, no não reconhecimento das diferenças, embora essas diferenças até sejam evidenciadas quando se quer menosprezar alguém!

Como o título anuncia, divido esse texto em duas partes. Segue a primeira.

Há, ainda, muitos problemas quanto a uma possível “democracia à brasileira” – aqui já adianto que não vou me ater a conceitos – que parecem inviabilizar a superação da desigualdade social e o enfrentamento da injustiça estrutural que compromete uma grande parte da vida de nossa gente. E nem preciso me afastar muito de meu cotidiano para constatar o que afirmo: minha ação na Pastoral Carcerária me mostra a todo momento esse fato.

Gostaria, porém, de me reportar a um desses problemas mais especificamente, pois que, a meu ver, ele engloba muitos outros: trata-se da desigualdade de oportunidades! Sem ela, os maiores esforços envidados pela possível boa vontade de muitas e muitos (na política partidária ou não) correm o risco de cair no vazio. Mas o que significa mesmo isso – desigualdade de oportunidades?

Se olharmos mais atentamente para nossa história, veremos que a própria composição do povo brasileiro moldou-se nessa direção, calcada, sobretudo, no não reconhecimento das diferenças, embora essas diferenças até sejam evidenciadas quando se quer menosprezar alguém!

É então que surge a ideia, equivocada, de que nós vivemos, no Brasil, uma “unidade nacional”. Mesmo idioma (“quem não sabe falar é burro”!), mesmo tipo humano (“brasileiro é tudo igual, sempre querendo levar vantagem em tudo”!), mesma história (“do Oiapoque ao Chuí, eita brasilzão”!), mesmo modelito curricular para as escolas, expedido na capital federal para todo o país (“criança é criança, igual em qualquer parte”!) etc.

Esta presumida unidade nacional se tornou igualmente constitutiva de uma imposição cultural, já que se pauta pelo preconceito, por um moralismo falseado, por um cristianismo deformado e excludente, por um absurdo dizer seletivo que, ao absolutizar o que se deve ser, fazer, dizer, acreditar, descarta tudo e todas e todos que não se enquandram nos seus modelos. De arrasto, “todos são iguais perante a lei” (Constituição Brasileira…) e então, está arquitetada oficialmente a “democracia, com igualdade de direitos e deveres” para todas e todos nós…

Mas, é mesmo assim?!

Vejamos um exemplo: sobre a questão do “idioma nacional”. A Linguística (Ciência da Linguagem) se ocupa também de ajudar a demolir as muralhas do preconceito linguístico instaurado a partir da pretensa unidade linguística nacional (falamos todos um único idioma – Língua Portuguesa!). Tal empreendimento, se constante dos programas de ensino, nas escolas, redundaria numa “democracia linguística nacional”, já que se buscaria diminuir a resistência em tratar os postulados daquela ciência na prática do cotidiano, reconhecendo os dialetos, as variações regionais, não como “língua errada”, passível de ser “corrigida”, mas como um jeito diferente de falar, como constituinte da língua viva!

E o mais interessante é o que já se conseguiu apurar a partir da Linguística: o preconceito não é contra “a fala” da pessoa, mas contra ela mesma, enquanto falante! Destarte, infelizmente, vemos que uma “democratização linguística” está longe de se consolidar, e nós sabemos por quê: os lugares sociais estão também determinados (e muito!) pelo modo de falar! Essa, me parece, é uma das facetas da “democracia à brasileira” que traz enrustidos os ranços perigosos do “eu sei, tu não sabe, vim te ensinar”.

Pois proponho uma análise de democracia a partir das diferenças, o que até pode parecer paradoxal, já que “todos são iguais blá, blá”…

Há quem diga, inclusive, que o reconhecimento, a aceitação e a manutenção das diferenças, com vistas à construção da igualdade de oportunidades, pode se constituir até como chave de desenvolvimento do país! Ora, vejam só! Dessa forma, o fundo abismo criado em nome de uma suposta igualdade constitucional, que acaba por se consumar partindo de injustiças estruturais graves, se torna de alguma forma menos fundo, já que haveria, evidentemente, um esforço reconhecível empreendido, com reais políticas públicas no rumo das oportunidades, o que concorreria para que muitos desses abismos, que “selecionam” as pessoas e barram as oportunidades, viessem a ser paulatinamente desfeitos.

Os olhares do filósofo Paulo Freire indicam exatamente esta trilha, quando vem falando desde há mais de 50 anos, sobre “educação libertadora”, encontrando-se, em determinado trecho, com a Teologia da Libertação, o que torna ambas as propostas muito atuais e nos colocam frente a frente com a possibilidade de uma nova forma de democracia!

há grupos organizados que definem quem come e quem não come, quem pode ter casa para morar e quem não pode, já que a carência alimentar do corpo é cruel e seletiva e a moradia é um privilégio! Leia mais: https://www.neipies.com/fome/

Autora: Ir. Marta Maria Godoy

Nos limites da biosfera

Deixa o mato crescer em paz
Deixa o mato crescer
Deixa o mato

Não quero fogo, quero água (Deixa o mato crescer em paz)
Não quero fogo, quero água (Deixa o mato crescer)

(…)

Deixa o tatu-bola no lugar
Deixa a capivara atravessar
Deixa a anta cruzar o ribeirão
Deixa o índio vivo no sertão
Deixa o índio vivo nu
Deixa o índio vivo
Deixa o índio

(…)

Deixa a onça viva na floresta
Deixa o peixe n’água que é uma festa
Deixa o índio vivo
Deixa o índio
Deixa (Deixa)

(Tom Jobim, Borzeguim)

Nosso antropocentrismo dominador, cada um sabe, tem um jeito próprio: o planeta já aqueceu 1,1°C desde a era pré-industrial (1850-1900), dos quais 0,2°C ocorreu no último quinquênio, entre 2011 e 2015 (Organização Meteorológica Mundial – OMM, 2019); desde 1990, aponta um amplo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), a Terra perdeu 28,7 milhões de hectares de florestas que ajudam a absorver as emissões nocivas de dióxido de carbono da atmosfera; e, agora mesmo, 1 milhão de espécies de plantas e animais estão em risco de extinção.

Claramente determinada pela ação antrópica, não há como negar: seguimos produzindo uma lista de riscos ecológicos já extensa e em avançado curso. E para começo de conversa, vale lembrar: extinção em massa de espécies, erosão de biodiversidade, fragmentação de habitats (especialmente em zonas tropicais), poluição químico-industrial1, aniquilação biológica, destruição da camada de ozônio, emissões de carbono, atmosfera poluída, ciclo de chuvas irregulares, crescimento do consumo e da descartabilidade, planeta plastificado2.

Num termo mais decisivo, sejamos francos: distante de tornar o nosso modo de vida sustentável, e com claras dificuldades de atingirmos uma vivência socioambiental segura, tentamos nos adaptar diante de um grave colapso sistêmico global. Mais concretamente, o agir humano sem compromisso ambiental, herança da modernidade, elimina qualquer dúvida consistente: em toda a nossa história, nunca havíamos provocado significativas alterações do ecossistema, tampouco havíamos agredido a natureza com agrotóxicos e com uma agricultura industrial poluidora.

Ponto de partida, agora mesmo, diante de um meio ambiente empobrecido biologicamente falando e de ciclos ecológicos do planeta (o ciclo da água, do carbono, do oxigênio, do nitrogênio) cada vez mais afrontados pelo antropocentrismo dominador, estamos batendo no teto da capacidade biofísica do sistema terrestre, próximos de exceder os limites da natureza.

De toda forma, convém esclarecer: nunca, antes, estivemos tão perto de matar as zonas oceânicas por excesso de nitrogênio3. Com efeito, jamais havíamos abalado os alicerces de todo o sistema vida; e nem mesmo destruído espaços vitais da natureza, como estamos fazendo agora, a ponto de transformar boa parte da estrutura geológica (a face) da Terra. Nesse contexto, um terço das terras aráveis do mundo estão improdutivas. Foi constatado: três quartos do ambiente terrestre e 66% do ambiente marinho sofreram severas modificações, quer dizer, consolidou-se, na prática, enorme déficit ecológico global.

Serve de exemplo: de 1980 para cá, metade da vida selvagem4 já morreu. De forma ilegal e criminosa – e o caso da Amazônia, a maior fronteira de recursos naturais que o planeta concebeu, é altamente significativo -, mais de 80 mil quilômetros quadrados de floresta desaparecerem de nosso campo de visão.

Seja como for, isso nos ajuda a entender o momento atual. No ponto ecologicamente insustentável que nos encontramos, em meio às acirradas mudanças climáticas e a mais gritante perda de biodiversidade, “maldições gêmeas”, como gosta de dizer a consagrada primatologista britânica Jane Goodall, pesa-nos admitir que nunca derrubamos tantas árvores e queimamos tantas áreas florestais (onde vivem 80% de todos os animais, plantas e insetos, e a maior parte encontra-se ameaçada) como nesse momento.

Triste constatação, parece mesmo, de facto, que nos especializamos em invadir os hospedeiros naturais e em acumular destruição das coisas naturais. Nossos mares continuam sobreexplorados pela sobrepesca que, agora mesmo, comprometem agora mesmo 55% dos recifes do mundo. Também em estado crítico, os mananciais da Terra (superficiais e subterrâneas), num nível cada vez mais degradado, secam em velocidade assustadora. Desde os anos 1960, o número de áreas marinhas pobres em oxigênio, segundo o Programa da ONU para o Meio Ambiente (Unep, na sigla em inglês), vem dobrando a cada década5.

De modo próprio, fazendo breve resumo, seja no mundo das águas ou no ambiente terrestre, nenhuma área conhecida está a salvo das consequências de nossas ações produtoras de complexos problemas de degradação do planeta.

Resultado: pela primeira vez estamos nos limites da biosfera.

*

E tem mais: Nessa sociedade de dominação, a esta altura, estamos conscientes – ou ao menos deveríamos estar – de que o ar que respiramos6 (muito mais tóxico) e as nascentes, devido à falta de práticas agrícolas conservacionistas, continuam bastante poluídos e contaminadas. Especialmente no mundo das águas, não é segredo, diante de muitos outros problemas contemporâneos, formamos agora imensas ilhas de plástico. São enormes bolsões de lixo antropogênico no mar. A maior delas, e de longe a mais assustadora, é a Grande Ilha de Lixo do Pacífico, localizada na parte norte do Oceano Pacífico, aproximadamente uma área de 1,6 milhões de quilômetros quadrados.

Água poluída, resumindo em termos bastante óbvios, é reconhecido sinônimo de morte precoce. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e a Organização Mundial de Saúde (OMS), apontam que 1 em cada 3 pessoas no mundo não tem acesso à água potável; na verdade, nem chegam perto da possibilidade de consumir água tratada.

Moral da história: nos países pobres, a ONU estima que o não acesso à água potável, notadamente em ambientes insalubres, responde por 80% das mortes.

Em todo caso, falamos aqui de modo direto sobre riscos e ameaças cada vez mais insustentáveis que abalam a saúde e a segurança humanas. Esses riscos e ameaças, cabe breve esclarecimento, não são de agora, vem de longe.

Desde 1970 para cá, os cientistas confirmam, dobramos nossa pegada ecológica. Isso quer dizer que a quantidade de natureza que a humanidade faz uso para manter seu próprio (e insustentável) estilo de vida já excede em 50% a capacidade de regeneração e absorção do planeta. Na esteira desse referenciado problema estrutural, asemissões de gases de efeito estufa saíram de 1,28 ppm (partes por milhão), em 1970, para 2,4 ppm, na última década.

Igualmente crítico, nunca havíamos emitido tantos gases de efeito estufa num ritmo tão declaradamente acelerado.7 Nunca, antes, havíamos gerado os mais variados problemas e descompassos socioambientais que indubitavelmente recaem sobre nós mesmos. A começar pela informação relevante do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, IPCC, destacando que, desde a metade do século passado, 1950, os eventos extremos (fenômenos climáticos e/ou meteorológicos fora dos níveis considerados normais) aumentaram de frequência na maioria das áreas terrestres conhecidas do planeta.

Essencialmente, a questão de fundo, para todos os efeitos, está cada vez mais clara: as marcas humanas, ou reflexos de nossas atividades econômicas produtivas, incluindo, é claro, o uso irresponsável de recursos hídricos e a agricultura insustentável dos últimos séculos, contadas desde o início da Revolução Industrial, 1750, até os dias de hoje, nos levam ao impasse, ao limiar do perigo, uma vez que impactam tanto no seio da vida moderna quanto no oikos (ambiente habitado)que nos abriga.

E isso tudo, a rigor, precisa ficar muito claro: pela ação antrópica, passamos a pressionar com muito mais intensidade os recursos naturais, afetando diretamente a vida de plantas, animais e vegetais. Razão pela qual, o que temos feito até aqui, em detrimento da biodiversidade, deixa em evidência a nossa completa falta de responsabilidade socioambiental, referência característica do antropocentrismo dominador.

Tempos sombrios em termos de futuro ecológico, a poluição do ar (quinto fator principal de risco de morte no mundo), sempre um problema global que tantas doenças lega à humanidade, responde atualmente por 16% das mortes no mundo todo. E para continuar falando aqui de outros tipos de poluição, vale saber que, desse momento atual até por volta de 2050, se não mudarmos nosso insustentável estilo de vida consumista, muito provavelmente haverá mais lixo plástico do que peixes em nossos oceanos.

Todavia, certo mesmo é que os oceanos, os maiores ecossistemas conhecidos, além de receberem todos os anos mais de 8 milhões de toneladas de plásticos, num nível de poluição marinha jamais visto antes, ainda seguem sobrecarregados de carbono, poluição bastante danosa que ameaça o equilíbrio trófico.

Estimativas indicam que todos os anos, em várias partes do mundo, geramos uma montanha de resíduos sólidos urbanos. Uma parte vai para o lixo e aterros, outra parte termina no mundo das águas. Em geral, fala-se em mais de 1,2 quilos per capita ao dia, em média, ou mais de 2 bilhões de toneladas de lixo por ano, em todo o mundo.

Em geral, enquanto a tríade petróleo-carvão-gás mantém de pé o atual e nocivo padrão energético e faz a economia global rodar sempre com mais força e dinamismo, ainda mais longe nos encontramos de equilibrar as três dimensões que andam juntas: ambiental, econômica, social.

Situação em clara evidência, agora mesmo está em avançado curso uma gravíssima crise de recursos hídricos – a crise da água no planeta, ou, didaticamente falando, o problema da escassez de água potável, um entre os dez maiores impactos que o planeta enfrenta.

Nesse pormenor, enquanto a ONU alerta que 25% da população mundial não tem condições mínimas de beber água potável, estudo publicado em Science Avances deixa claro que 71% da população mundial sofre por um mês a cada ano com a falta de acesso à água potável.

Triste constatação, lembremos que, no mundo todo, mais de 2 bilhões de indivíduos sequer consome água potável, faz higiene adequada ou ingere alimentos saudáveis, livres de agrotóxicos.

Em última análise, num levantamento global, 4,4 bilhões de pessoas não conseguem alcançar diariamente saneamento básico gerido de forma segura. Desses, seguindo dados apontados pelo Fundo de Emergência Internacional para Crianças das Nações Unidas (UNICEF), 892 milhões defecam ao ar livre. Em face de tais circunstâncias, a mesma Unicef, em conjunto com a Organização Mundial de Saúde (OMS), aponta que mais de 1 milhão de crianças menores de cinco anos morrem, todos os anos, devido a diarreia, a segunda doença que mais faz vítimas entre as crianças, perdendo apenas para a pneumonia.

De toda sorte, se estamos longe de pensar na desejada possibilidade de equilíbrio planetário, estamos perto, bem perto, de observar o agravamento das condições socioambientais do mundo que habitamos e que seguimos marcando a tragédia ecológica desses tempos de incertezas.

Em uma primeira aproximação, sempre a partir do agir humano, há quem afirme que, à luz do avanço do capitalismo moderno, o quadro de adversidades ambientais está bem definido. “No Antropoceno”, escreve John Bellamy Foster, “o capitalismo está criando fissuras antropogênicas nas espécies, nos ecossistemas e na atmosfera, gerando uma crise socioecológica”.

Realidade inquestionável, onde o homem consegue marcar presença, os ambientes físico, químico e biológico tem sido severamente modificados. De igual forma, ao justificar-se o desempenho da economia de produção em detrimento da preservação ecológica e da proteção ambiental, o resultado está à vista de todos: profunda alteração no âmbito do meio ambiente, seja no rico mundo das águas, seja no mundo das terras e solos conhecidos. Sendo curto na resposta final, isso implica dizer que estamos deixando às próximas gerações um planeta vulnerável do ponto de vista socioambiental.

Notas:

(1) Vale notar: especialmente a produção de produtos químicos, seguindo de perto à análise do Centro de Resiliência de Estocolmo, aumentou 50 vezes, desde a metade exata do século passado.

(2) Desde meados do século passado, estima-se que tenha sido produzido 8,9 bilhões de toneladas de plástico, sendo que dois terços desse total, 6,3 bilhões de toneladas, viraram lixo.

(3) Estima-se, para todos os efeitos, que em todo o mundo sejam usadas, a cada ano, 120 milhões de toneladas de nitrogênio.

(4) No detalhe: não se trata apenas dos animais não domesticados, mas também das plantas e de outros organismos que crescem e vivem em ambientes dito selvagens.

(5) Os especialistas falam em, pelo menos, 700 áreas em todo o mundo em que o oxigênio está em níveis declaradamente perigosos.

(6) O alerta da OMS causa perplexidade: cerca de 99% da população mundial respira ar de má qualidade. Foram observados 6 mil pontos ao redor do mundo. Regiões como leste do Mediterrâneo e do Sudeste asiático, seguidas pelo continente africano, apresentaram níveis da qualidade do ar mais comprometidos. Conforme voltaremos a mencionar, 7 milhões de mortes evitáveis, todos os anos, são devidos à poluição do ar.

(7) A saber: em nosso caso em particular, já no final da década de 1980, o Brasil aparece no ranking das nações que mais emitem gases de efeito estufa.

Autor: Marcus Eduardo de Oliveira

Autor de Civilização em Desajuste com os Limites Planetários, (CRV, 2018), entre outros.prof.marcuseduardo@bol.com.br

Depois daquele olhar

Nosso conhecimento científico, que nos permite usar informação de forma discriminada, é um conhecimento humano de mundo. Formatamos mentalmente um universo humanizado.

A cena emblemática é descrita pelo professor de psicologia da Universidade de Chicago, Eugene T. Gendlin, em artigo que assina no Journal of Consciousness Studies, v.6, n.2-3, 1999, p. 232-237: A new model. Um cientista chega à casa e olha nos olhos do filho pequeno, que lhe retribui o olhar. Não dizem nada. Imagino que, pelo menos interiormente, tenham sorrido um para o outro. E o cientista pensa: que triste que você é apenas uma máquina! (Isn’t it sad that you are really just a machine!)

O exemplo não faria tanto sentido, caso o modelo de prática científica mais bem sucedido, até agora, não fosse exatamente o de universo visto como uma máquina, tal qual preconizou René Descartes. Em que imaginamos ou admitimos conhecer algo apenas quando depois de separado em suas partes fundamentais (unidades componentes) conseguimos reconstruir o todo. É o reinado absoluto das disciplinas na ciência e das especializações nas áreas técnicas.

Não obstante todo o mérito e as contribuições deixadas pelo pensamento cartesiano na ciência, esse é apenas um método. Felizmente, há outros.

Muitas propriedades desaparecem (e outras surgem), quando um sistema é reduzido às suas partes componentes para depois ser reconstruído como se fosse uma máquina. O modelo ecológico tem uma visão oposta: tudo faz parte do todo. Por isso é ilusório pensar que é possível conhecer plenamente uma parte isolada do todo ao qual pertence.

O modelo ecológico (holístico) de ver as coisas não substitui o anterior; antes, interage com o método analítico, ampliando seu alcance. Todavia, também esse modelo tem suas limitações, especialmente quando precisamos incluir a nós, os seres humanos, no contexto. Assim, nem as unidades fundamentais e nem o todo parecem ser suficiente.

Um terceiro modelo, baseado em processos, tem sido visto como solução alternativa. Processos podem criar novos todos e, fundamentalmente, são processos que estão por trás da base de funcionamento de qualquer todo.

O uso do método científico, entendido como um conjunto de procedimentos que obedece a regras definidas, é que permite a formação de um corpo de conhecimento possível de ser partilhado entre indivíduos de uma mesma sociedade. Esse corpo de conhecimento é tanto objetivo quanto subjetivo. A subjetividade, nesse caso, reside no fato de depender de observações e experiências individuais. Portanto, na ciência, embora haja quem negue, a subjetividade está sempre implícita na chamada objetividade.

A perspectiva de uma ciência praticada essencialmente na terceira pessoa é falsa. E aqui não se trata de uma mera questão de pessoalidade no sentido gramatical (1ª e 3ª pessoas: Eu e Ele). São muitas as controvérsias filosóficas (e epistemológicas) que não nos permitem ignorar a importância da primeira pessoa (o Eu), especialmente com o sentido de consciência.

Não obstante, seja lugar-comum a crença na impessoalidade da ciência, há, no caso dos sistemas vivos, experiências que não podem ser derivadas meramente a partir da perspectiva da terceira pessoa (externa ao indivíduo). A visão interna é um componente ativo e manifesto na prática científica.

Lamentavelmente, a subjetividade na ciência tem sido deixada de fora ou, no mínimo, não adequadamente considerada. Também não pode ser ignorado que qualquer experiência científica envolve o risco de deformar a realidade simulada pelo método ou até mesmo de aquilo que está sendo objeto de experiência não passar de uma criação do próprio método. Esta é uma dimensão oculta, mas nunca totalmente ausente. Por isso, o que hoje é considerado aceito pela boa teoria, amanhã pode ser falso. A inclinação natural da ciência é testar teorias.

Nosso conhecimento científico, que nos permite usar informação de forma discriminada, é um conhecimento humano de mundo. Formatamos mentalmente um universo humanizado.

Não sabemos como pensa e que é ser um sapo ou um ipê amarelo. E, mesmo assim, a ciência busca (e parece ter) poder para redesenhar plantas, animais e até nós mesmos.

A longevidade humana (uma espécie de imortalidade) pode ser substancialmente elevada, caso sejam silenciados os genes responsáveis pelo envelhecimento. A grande questão é: alcançado esse fim, em que nos transformaremos? Há dúvida se devemos ir adiante nessa empreitada, antes de nos redescobrimos como seres humanos.

O único acesso epistêmico que temos ao mundo é por meio de nossa consciência. Difícil mesmo é saber que é um homem consciente.

(Do livro Galileu é meu pesadelo, 2009)

Autor: Gilberto Cunha

A criatividade nos torna humanos

Revelamos e promovemos, com alegria e muita satisfação, histórias de vida que estão imbricadas com a humanização, seja através da arte ou da educação.

O entrevistado desta matéria é professor e ilustrador Lucas Chaves. Ele já viveu várias experiências com a arte mas, atualmente, foca mais nos desenhos e nas ilustrações que complementam obras como livros, apostilas, dentre outros.

Chaves é destes profissionais da arte empenhados e envolvidos com muita intensidade, interesse e responsabilidade. Conviver com ele, conhecer sua história e reconhecer o seu trabalho é uma missão e uma tarefa que apreciamos muito neste site.

Conheça Lucas Chaves por ele mesmo.

Como, quando e porque surgiu teu envolvimento com a arte?

Meu envolvimento com a arte surgiu desde criança, sempre estive neste ambiente. Meu pai e mãe são pessoas que trabalharam muito com a criatividade e gostavam de músicas e leituras diversas. Tudo isso foi também uma herança de meus avós. Por parte de meu pai, meu avô era poeta e minha avó pintora. Já minha mãe cresceu em uma família de mulheres que produziam muitas costuras.

Então, minha conexão com a arte sempre existiu. Meu irmão e irmã mais velhos consumiam diversas linguagens artísticas e, claro, me influenciaram também.

Com tudo isso, fui uma criança que desenhava e pintava muito. Consumia desde histórias em quadrinhos, animes, desenhos animados até jogos de computadores e videogames.

Na adolescência, participei de bandas de rock na cidade como baterista; cerca de cinco anos envolvido mais com a música. Porém, mais tarde, percebi que me interessava mais pela criação de imagens, elas me permitiam ter uma expressão mais legítima de minhas ideias. Assim, no momento de escolher uma faculdade, revisitei meus desenhos de quando era criança e percebi que deveria estudar Artes Visuais. Por sorte, na época só existia faculdade de licenciatura, isso me abriu a possibilidade de produzir e ensinar através da arte.

Além de professor do componente curricular Arte, és ilustrador. Existe alguma relação entre ser professor e ser ilustrador?

Existe sim. Uma das coisas que mais me mostram essa relação é quando alguns estudantes não conseguem resolver suas produções. Como tenho essa prática com a ilustração, consigo auxiliar melhor na solução de seus problemas nos trabalhos artísticos. Isso estimula bastante a criatividade. Quanto mais criativos, melhor solucionamos problemas e melhor nos expressamos. Acredito que na vida vale muito aprendermos sobre arte, seja qual for, nossa auto expressão contribui para nos conhecermos nesse mundo.

Outro aspecto é a influência da educação na ilustração, já percebi que minhas ideias como ilustrador algumas vezes mudaram a partir de aulas com exercícios criativos ou experimentação de materiais diversos. É uma relação mútua, as duas áreas podem se complementar de diversas formas.

Vês alguma relação entre a arte e a humanização?

Com certeza. A criatividade é o que nos torna humanos. Não lembro de ouvir falar tanto em saúde mental quanto no período da pandemia. Uma das coisas que contribuiu para isso foi o fato de algumas pessoas passarem a dedicar certo tempo para alguma criação artística.

Outra questão é nossa imersão no mundo digital. Ela apresenta muitos benefícios, porém ainda vejo que o excesso nos tira ainda mais a vivência no tempo presente. Em relação a isso, produzir algo artístico nos reconecta com nossa natureza e nos afasta um pouco da enchente de informações que chegam no celular, trazendo ao menos um pouco de fruição na vida.

Existe ainda o fato da apreciação de arte, ressaltando que visualizar muitas imagens e vídeos em uma tela pode ser bom, porém não podemos esquecer de apreciar a paisagem fora de nossa janela, aquela que está presente naquele momento.

Falo isso porque acredito que nossa humanização se faz muito sabendo equilibrar nossa vida presente com sistemas frenéticos de trabalho e de consumo de entretenimento.


Quais são suas maiores realizações e também seus maiores desafios no trabalho com arte?

Dentre as maiores realizações estão as publicações que pude fazer. Minha esposa escreveu dois livros infantis e um e-book dos quais ilustrei, são eles: A Mamãe que Pintava o Mundo, Contando a História da Arte e A História Acabou?

Com isso, pude produzir ilustrações para outros livros de autores independentes da cidade e da região, sendo: Poesias de Cantar História (Giancarlo Camargo) apostila ArqueoLogando / ArqueoLógicas (André M. Piasson – Ed. Acervus), dentre outros projetos em andamento.

Além do trabalho como ilustrador, sou professor no Habemus Ateliê, uma iniciativa da Cris, minha esposa, onde podemos ensinar arte para crianças, livres de muitas amarras do sistema de ensino regular nas escolas.

Dentre os desafios, acredito que o principal na ilustração é trabalhar com toda a parte burocrática e organizacional, afinal esta profissão não consiste em apenas desenhar. As etapas do trabalho para além da criação artística são pouco faladas e tão importantes quanto fazer uma boa arte.

Em relação ao ensino da arte poderia listar muitos desafios, mas penso que o maior de todos é o embate contra essa vida agitada e extremamente rápida que as crianças e jovens estão inseridos, muitas vezes sem nenhuma orientação.

Como o pessoal pode conhecer o teu trabalho como ilustrador?

Atualmente tenho dois portfólios, um de ilustração infantil, outro ainda em construção para o mercado da arte editorial e publicitária, aqui os links respectivamente:

https://lucaschaves.myportfolio.com/work; https://www.behance.net/johnlucasc.

Também tenho um Instagram onde posto alguns trabalhos em andamento ou fragmentos de projetos maiores: @lucas_chaves_ilustra. Além do Instagram do Habemus Ateliê: @habemusatelie.

Uma frase, um pensamento que diga algo sobre você.

“[…]apenas na liberdade pode haver criatividade. E só pode haver criatividade por meio do autoconhecimento.” (Jiddu Krishnamurti, em O Livro da Vida)

Uma potente pegada por empatia em livro

“Viva suas amizades mais improváveis. Ao final, ninguém sabe onde começa ou termina um ato de amor”. (N. A. Zanatta)

Nelceu Alberto Zanatta é formado em Pedagogia pela UPF, possui um curso de Teologia, SP, Faculdade Teológica Batista de SP e MBA pela Fundação Getúlio Vargas, em gestão de equipes.

Publicou e lançou, em Passo Fundo, neste dia 22 de junho de 2023, no espaço da Livraria Delta, Shopping Passo Fundo, o livro A planta, suas folhas e um sino.

Zanatta também é autor de várias crônicas, uma peça para teatro, um livro de poesias e crônicas em processo de impressão e um romance em fase inicial.

Desde adolescente, a escrita é um convite que se apresenta a ele de forma contundente e apaixonante. Sua vida tomou outros rumos, mas sua formação humanística o habilitou a retornar ao mundo dos livros, da criatividade e da imaginação literária.

Esta obra A planta, suas folhas e um sino trata de empatia e amizade, como também do descaso com a natureza, com as coisas da vida, com sua essência e propósito. Trata-se de um conto infanto-juvenil que tem por objetivo estimular a leitura, a interpretação de texto, provocar o debate em sala de aula, promover empatia…

***

As mudas que trazemos em nós, da infância ou de outros tempos, nem sempre são bem compreendidas.

Se, para uma plantinha que não se conteve em um vaso, ser aceita em jardim estranho somou sorte e oportunidade, para uma criança, nem sempre rejeição pode resultar em crescimento.

Há um propósito em tudo, ouvimos, mas dependemos de olhos que nos observem, de mãos que nos acolham e nos ajudam a crescer.

Há sinos abandonados e mudos em todos os lugares neste mundo de rejeições e solidões. Precisamos fazê-los tocar.

Da exclusão para um ato de amizade ou amor, a estrada não precisa ser longa. Basta crescer. Mas, cuidado com as rejeições em seu jardim, porque um grande amor inesperado pode nascer em sua sombra, sem que você perceba.

Boa leitura!

Contato do autor: 55 41 9984-0057

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Registros do evento e do encontro amistoso com autor em Passo Fundo, RS.

Créditos fotos: Diogo Zanatta

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