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Quando o homem se torna lobo do próprio homem

A possibilidade do “homem ser lobo do próprio homem” é um perigo que espreita quando não há instituições suficientes para evitar esta possibilidade. Nesse sentido, a instituição escolar fortalecida, que promove a formação de seres humanos conscientes da importância do bem comum, é essencial para a natureza egoísta selvagem dos gananciosos não se sobreponha ao coletivo.

O filósofo britânico Thomas Hobbes (1588-1679), embora não possa ser considerado um pensador liberal, teve uma importante influência na fundamentação do individualismo moderno.

A obra de Hobbes composta por diversos livros dentre os quais destacam-se Do cidadão (publicado em 1642), Elementos do direito natural e político (1650) e o Leviatã (1651), este último considerado um clássico da teoria política moderna, que chegou a ser censurado pelo Parlamento inglês, teve uma influência marcante no desenvolvimento da discussão sobre as relações entre indivíduo e Estado em todo o período moderno. Suas ideias ainda hoje são estudadas no campo do direito, filosofia, sociologia, antropologia e filosofia política. Mesmo sendo um pensador que escreveu no século XVII, suas ideias continuam sendo instigantes para entender o tempo presente.

Hobbes tem uma concepção negativa e pessimista da natureza humana, pois considera o homem um ser naturalmente agressivo e propenso a violência. O “estado de natureza ou natural” em que o homem se encontraria fora da sociedade organizada e sem a presença de um governo, seria um “estado de guerra de todos contra todos”.

O homem, diz Hobbes, é “o lobo do próprio homem”, pois é movido por paixões e desejos que o levam a matar e destruir seu semelhante quando se sente ameaçado. O estado de natureza na análise de Hobbes não descreve o homem primitivo, ou o homem anteriormente a qualquer organização social, mas sim como o homem se comportaria, dada a natureza humana, caso não houvesse a obrigação de cumprir as leis e contratos impostos pela sociedade. Sem leis e contratos viveríamos uma luta incessante entre os indivíduos, um tentando destruir o outro.

Na interpretação de Hobbes, os homens são essencialmente iguais e as diferenças entre os indivíduos são consideradas irrelevantes, pois mesmo o mais fraco tem o poder de matar o mais forte. Por isso, para o pensador inglês, é fundamental a criação do Estado ou do Poder Soberano. O poder soberano existe para impedir o estado de natureza e permitir a coexistência entre os homens, já que nesse estado os indivíduos tenderiam a se exterminarem uns aos outros.

A criação da sociedade, com suas leis e contratos, pressupõem que os indivíduos cedam uma parte dos seus direitos e os transfiram para um soberano. Essa concessão e transferência de direitos e poderes consiste em um contrato social, por meio do qual se institui a sociedade civil organizada e se evita “a guerra de todos contra todos”. Com isso Hobbes justifica a existência do Estado em suas distintas formas de organização.

Hobbes pode ser considerado um “contratualista”, pois sua teorização sobre o poder ressalta que a sociedade civil organizada resulta de um pacto entre os indivíduos. No entanto, historicamente ele foi acusado de absolutista, por defender que o poder absoluto deve ser considerado legítimo enquanto assegura a paz civil.

A complexidade social que vivemos hoje certamente é muito diferente daquela teorizada por Hobbes. No entanto, a legitimidade de um poder só se justifica quando suas ações congregam, de alguma forma, os interesses de todos. Para que a paz civil seja possível, é necessário que os indivíduos acreditam nas instituições que os representam. Quando isso é arruinado, temos a convulsão social, o rompimento do pacto e a instabilidade social.

Um olhar cuidadoso sobre as teorizações de Hobbes nos permitem perceber o quanto estão enganados aqueles que acreditam que é necessário enfraquecer o Estado (estado mínimo como gostam de dizer os neoliberais). Sem o Estado estaríamos entregues a própria a sorte e a força cruel dos abastados economicamente que na ânsia de terem cada vez mais seriam capazes de utilizar as estratégias mais sórdidas para dominar a maioria. Sem o Estado e suas instituições teríamos de volta a escravidão e a lei do mais forte.

A possibilidade do “homem ser lobo do próprio homem” é um perigo que espreita quando não há instituições suficientes para evitar esta possibilidade. Nesse sentido, a instituição escolar fortalecida, que promove a formação de seres humanos conscientes da importância do bem comum, é essencial para a natureza egoísta selvagem dos gananciosos não se sobreponha ao coletivo.

A solidariedade comunitária, própria de uma sociedade democrática, se torna um princípio educativo fundamental para constituir um modo decente de se viver.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Fundeb: a usurpação dos recursos continua

Por conter as provas de um jogo injusto é que o orçamento
é tão complicado, técnico, oculto, disfarçado, arredio.
Herbert de Souza, sociólogo mineiro.

A educação brasileira, da educação infantil até a pós-graduação, possui desafios gigantescos – desigualdades educacionais, tecnológicas, regionais, raciais, de gênero, de classe e destruição da carreira docência, escancarados e agravados pela pandemia da covid-19.

Corre-se sério risco ainda de ter redução de recursos financeiros imprescindíveis do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (Fundeb) devido uma emenda do relator no novo ‘arcabouço fiscal” em discussão no Congresso Nacional.

A tentativa de utilizar e/ou acessar tal fundo público não é nova.

As brechas da lei, o jabuti e os recursos do Fundeb

Na aprovação da PEC do Novo Fundeb, em 2020, a disputa pelos recursos foi muito intensa e a lei que o regulamentou posteriormente, em 2021, abria brechas para repasse de seus recursos para entidades e grupos empresariais, conforme já abordado no artigo A usurpação dos recursos do Fundeb.

O relator e deputado Cláudio Cajado (PP-BA) introduziu uma emenda no texto do “Arcabouço fiscal”, enviado pelo executivo, incluindo o Fundeb nas novas regras fiscais considerando que as complementações à educação passam a constituir-se em despesas obrigatórias da União – tais como saúde, pessoal, previdência, assistência e outras – englobando, consequentemente, o Fundeb nos limites de gastos do novo arcabouço.

A Consultoria de Orçamento e Fiscalização Financeira da Câmara dos Deputados aponta que a medida, se aprovada pelo Senado, obrigará a redução de outras despesas, “inclusive em programas educacionais, como os da merenda e do transporte escolar, além do livro didático”.

Mesmo que a iniciativa de incluir estes gastos no arcabouço não tenha partido do governo atual, este apresenta uma postura ambígua.

Técnicos do Tesouro Nacional e, mesmo o Ministro da Educação, Camilo Santana, afirmam que ““Por todos os cálculos que nós fizemos, os cálculos que a Fazenda fez, isso não terá impacto no orçamento geral do Ministério”.

Técnicos da Consultoria da Câmara afirmam que o Fundeb não constar no teto de gastos que permitiu mais de R$ 39 bilhões para a educação, que na nova regra não seriam possíveis.

Reação das entidades e instituições educacionais

O “jabuti” inserido pelo relator teve reação imediata de entidades e instituições educacionais, como A Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), que divulgou uma moção de repúdio, chamando de ‘precipitada’ a forma como a matéria foi pautada e votada na Câmara dos Deputados e solicitando sua reversão no Senado.

Campanha Nacional pelo Direito à Educação e a Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação (Fineduca), adoram, posição igualmente contrárias à proposta.

A Fineduca se pronunciou contrária à proposta contida no Projeto de Lei n° 1049/2023 por considerar que a vinculação de recursos oriundos da receita de impostos a serem aplicados em despesas com Manutenção e Desenvolvimento do Ensino (MDE).

A entidade lembra que a matéria foi definida pela Constituição Federal de 1988, em seu artigo 212, foi uma conquista dos movimentos e entidades que atuam na defesa da educação pública e percorreu um longo caminho de avanços e retrocessos, até chegar à definição que se tem atualmente.

A desigualdade social precisa ser combatida sem retirar recursos do ensino brasileiro: os programas de assistência social devem ser financiados com recursos suplementares à MDE.

O Fórum Nacional Popular de Educação (FNPE), que reúne 45 entidades representativas do campo educacional, emitiu nota pela preservação das despesas com investimentos públicos em educação pública, afirmando que as entidades defenderão, em todo país e junto ao Congresso Nacional, que não deve haver qualquer constrangimento ao financiamento da educação pública em nosso país. Desta forma, é central que as despesas com investimentos públicos em educação pública não devem ser penalizadas no diploma legal a ser aprovado.

As entidades supra citadas e o FNPE requerem que o relator do PLP nº 93/2023, bem como o conjunto dos/as parlamentares, que mantenham as exceções de despesas no arcabouço fiscal, tal como consta no projeto original do Poder Executivo, uma vez que representam salvaguardas mínimas a setores vulneráveis da sociedade.

Já a análise do economista David Deccache, assessor econômico na Câmara dos Deputados, é a de que a melhora da Educação – e da Saúde, também incluída nas novas regras fiscais –, são incompatíveis com o novo arcabouço, pois, conforme a Constituição, Educação e Saúde crescem com base em 100% da receita, e o teto geral limita todas as despesas a 70%. Neste sentido, algumas entidades e especialistas consideram esta iniciativa do relator inconstitucional.

Esta iniciativa da Câmara dos Deputados reafirma que a disputa pelos fundos públicos inviabiliza avanços na educação básica como tem sido historicamente no Brasil.

Modelo de financiamento e recursos

A maioria das Metas do PNE (2014-2024) foram inviabilizadas por esta razão e, principalmente, pelo descumprimento total da Meta 20 que previa ampliar os recursos para a educação, passando de 5% para 10% do PIB.

Na sequência, a PEC 95/2016 e opção política dos governos Temer e Bolsonaro de reduzir os gastos e investimentos com as políticas sociais e educacionais evidenciam o ataque ao ensino público.

Em 2021, novamente, forças comprometidas com os interesses mercado financista, derrotados na aprovação do Novo Fundeb em dezembro de 2020, voltaram a carga na discussão do da regulamentação do Fundeb flexibilizando recursos públicos para entidades privadas e mesmo o Sistema S.

Como demonstra ampla literatura, uma ampliação da oferta de educação com qualidade implica, imediatamente, a revisão, pela sociedade e pelo Estado brasileiro, de sua posição e relação com o financiamento da educação.

Temos um modelo de financiamento que é a expressão da estrutura social e econômica do país, injusto, desigual e, predominantemente, privado.

Historicamente, desde quando o Estado financiou a formação das elites, fê-lo com recursos públicos e, quando o povo começou a acessar a escola, o mesmo Estado incentivou a expansão da escola e de instituições de Ensino Superior (IES) privadas.

Portanto, como aponta Tadeu Silva, pesquisador em educação da Ufrgs, a educação pública não se encontra no presente e deplorável estado principalmente por causa de uma má gestão […], mas sim, sobretudo porque há um conflito na presente crise fiscal entre propósitos imediatos de acumulação e propósitos de legitimação (os governos estaduais não remuneram mal seus professores porque os governadores são maus, ou pouco iluminados, mas porque isto compete com os objetivos do financiamento – necessários ao processo de acumulação – mais imediatos).

As escolas privadas não são mais eficientes que as (…) públicas por causa de alguma qualidade inerente e transcendental da natureza da iniciativa privada (…), mas porque um grupo privilegiado (…) pode financiar, privadamente, uma forma privada de educação […]. As escolas públicas não estão no estado em que estão simplesmente porque gerenciam mal seus recursos ou porque seus métodos ou currículos são inadequados. Elas não têm os recursos que deveriam ter porque a população a que servem está colocada numa situação de subordinação (…) às relações dominantes de poder.

A título de exemplo recente, em 2022, os gastos do governo federal com o pagamento de juros e amortizações da dívida pública somaram R$ 1,879 trilhão, o que representou 46,3% do Orçamento Federal Executado (pago), consumindo, portanto, a maior fatia de todos os recursos públicos federais, conforme relatório elaborado pela Auditoria Cidadã da Dívida (ACD).

Os gastos com educação no mesmo período foram de apenas 2,70%.

Qual é a prioridade nacional estratégica da nação brasileira no presente e no futuro?

De acordo com nossa Constituição, a educação é dever o Estado, das famílias e da sociedade. Portanto, esta mesma sociedade que elege um congresso tão diverso e conservador, majoritariamente elitista e comprometido com os interesses do capital e do mercado, tem o dever ético e político de exigir a preservação dos recursos para a educação e para as demais áreas sociais, exigindo que não sejam incorporadas no atual arcabouço fiscal.

Por fim, como adverte o professor e pesquisador Valdemar Sguissardi (UFSCar e Unimep), analisar as políticas públicas de educação pela ótica do financiamento contribui para compreender os estreitos caminhos de nosso (sub)desenvolvimento econômico e social e dos seus grandes e inarredáveis desafios presentes e futuros.

E o financiamento, como sinalizava também o educador Dias Sobrinho (Unicamp, falecido recentemente, é uma questão crucial no quadro de mudanças de relação entre o Estado e as instituições educacionais, especialmente as públicas.

Precisamos menos de um Estado Avaliador – submetendo estudantes trabalhadores e pobres a inúmeros testes de desempenho, e mais um Estado Financiador da educação, da ciência e da cultura, para todos estudantes, da educação infantil a pós-graduação.

FONTE: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2023/06/fundeb-a-usurpacao-dos-recursos-continua/

Autor: Gabriel Grabowski

Onde mora a felicidade?

E a sua felicidade onde mora? Saiba que você é livre para escolher e, então, correr atrás dela ou agir de tal forma que ela venha ao seu encontro.

Hei, você, que anda procurando a felicidade… Será que ela tem um endereço próprio? Será que existe uma categoria de pessoas que são felizes e outra das que consideram que só existem momentos felizes?  Mas afinal, o que significa felicidade? 

Encontrar conceitos para definir esta bela palavra até nem é difícil, mas senti-la em sua plenitude e ainda por cima saber onde ela mora, aí já é trabalho para Sêneca, o filósofo da felicidade.

Sêneca descreve que ser feliz é saber equilibrar a razão com a emoção. Para ele é isto que traz a serenidade, qualidade esta que ele considera como sinônimo de felicidade. Diz também que a felicidade não mora sempre no mesmo lugar. Assim, o primeiro preceito para esta busca seria procurá-la em caminhos diferentes das outras pessoas e dos seus próprios já traçados. Muitas vezes olhamos para a vida dos outros e buscamos compreender o porquê parecem ser tão felizes. Contudo, este mesmo filósofo alerta que, se quisermos olhar para as outras pessoas e compreender o porquê de sua felicidade, devemos procurar olhar primeiro para suas almas e não para suas aparências.

Mas, dentre tudo que este sábio romano nos deixou de legado, desde a o período clássico, o que mais me chama a atenção é o que ele refere sobre a importância de vivermos em comunhão com a natureza. Desde então, estamos nos distanciando, cada vez mais, da fonte da nossa vida e, como tal, da própria felicidade.

Nos dias de hoje, precisamos de mais e mais “coisas” para sermos felizes, o que tem tornado esta busca mais difícil. Nem bem sabemos que nossa felicidade depende muito mais do que fazemos com o que temos do que com o que, exatamente, nós temos. Temos deixado de lado o nosso potencial criativo e buscado tudo pronto.

Afinal, temos pressa! Não dá mais tempo de cultivarmos um hobby, de tocarmos um instrumento musical, de praticarmos um esporte coletivo, de brincarmos, especialmente junto à natureza. Não estamos tendo tempo de vivermos em grupo, o que poderia nos proporcionar a suave alegria do pertencimento e das trocas humanas.

Nossa felicidade também depende da possibilidade de ajudarmos os outros a serem mais felizes. Alguém que vive egoisticamente, muitas vezes às custas do sofrimento do outro, não deve conhecer a verdadeira sensação da felicidade. Da mesma forma, a pessoa que apenas cumpre com suas obrigações, deixando de lado sua espontaneidade, o que na filosofia do Taoísmo significa a essência da felicidade, vai continuar procurando-a por muito tempo e por muitos lugares e dificilmente a encontrará.

Em seu livro “Feliz por nada” Martha Medeiros defende, e eu assino embaixo, que felicidade não tem a ver com oba-oba, riso frouxo ou com vida ganha. Para ela, isso representa alegria, o que também é muito bom, mas não é suficiente para abarcar toda a essência da verdadeira felicidade, a qual também pode incluir momentos de tristeza e, eu diria ainda, de dúvidas e preocupações.

Esta já consagrada escritora gaúcha defende que precisamos evitar a sensação de amortecimento, buscando extrair das miudezas o mesmo feitiço que as grandezas proporcionam. Além disso, é pertinente que corramos atrás do que queremos, prestando homenagens a nossa própria biografia.

Complemento estas ideias com o entendimento de que a felicidade não vem por conta própria, já, as dificuldades, estas vão chegando sem pedir licença. Contudo, as pessoas felizes as percebem não como obstáculos mas, sim, como desafios, motivando-se para enfrentá-los. Elas vêem a dor como passageira e determinam seu grau de ambição de acordo com as possibilidades de realização.

Ah, felicidade… Mas afinal, onde mora você? Caetano Veloso entoa uma canção que diz que ela mora onde a falsidade não vigora, e isso faz muito sentido… Baseada nesta ideia e muitas das anteriores, decidi que a minha felicidade fará sempre morada na minha alma e, assim, onde quer que eu esteja ela estará sempre me acompanhando, mesmo nos momentos mais difíceis que todos nós enfrentamos ou, mais cedo ou mais tarde, enfrentaremos.

E a sua felicidade onde mora? Saiba que você é livre para escolher e, então, correr atrás dela ou agir de tal forma que ela venha ao seu encontro,… Mas não fique aí, parado, esperando, pois ela não vem por inércia.

Ser feliz dá um pouco de trabalho. E, ao procurá-la, não o faça em lugares muito distantes, pois tanto faz se você está em Paris ou em um pequeno sítio interiorano, em uma praça ou em um caloroso abraço. Procure-a com as lentes do amor e você vai encontrá-la. Porém, cuide para que na pressa não passe desapercebido por ela, entremeada que está nas coisas simples da vida.

Que lindo o trabalho que fazes! Acho tão legal o jeito e a forma com que valorizas os textos dos teus convidados. Leia também: https://www.neipies.com/revolucao-pela-educacao-urgencia-de-uma-nova-consciencia/

Autora: Marilise Brockstedt Lech

Não está tudo bem!

“O Juca era da categoria das chamadas pessoas sensíveis, dessas que tudo lhes toca e tange. Se a gente lhe perguntasse: “Como vais, Juca?”, ao que qualquer pessoa normal responderia “Bem, Obrigado!” – com o Juca a coisa não era assim tão simples.” (Mario Quintana, Caderno H, p. 73)

Eu não sei você, caro leitor, mas eu sou um tipo explícito de Juca, eu nem ao menos tento esconder, na verdade, eu nem mesmo consigo. E perguntar se está tudo bem, pra mim, é como abrir um portal.

A primeira parada, para o meu interior. Assustador, incomoda-me o fato de me incomodar ao ter receio de olhar para dentro e correr o risco de me deparar com emoções incômodas. Mas, não é só isso, a segunda parada é para fora. Incomoda-me mais ainda aquela sensação de não poder expressar as minhas emoções, ou pior ter que menti-las!

Eu sempre engasgo com essas perguntas. Na verdade, achei até uma forma mais confortável e autentica de responder: Oi, tudo bem? Bem, na medida do possível. Seria um modo mais popular de adaptar a frase “dentro das minhas condições de possibilidade” (para ser mais Kantiana). Percebam, é genuíno!

No entanto, aqui entra aquela história do copo meio cheio ou meio vazio.

Para algumas pessoas, essa resposta pode parecer pessimista, além de estranha aos ouvidos. Algumas pessoas, realmente preocupadas comigo, por vezes, até perguntam: o que houve? E isso me assusta. Assusta porque involuntariamente e diariamente somos forçados a encaixar a vida em uma métrica ilusória de felicidade: está tudo bem!

Sendo um pouco mais otimista, soletrar esse mantra pode até mesmo esconder uma tentativa de aceitar que as coisas não estão bem, mas elas vão ficar caso você pensar positivo. Não há nenhum problema em ver as coisas dessa forma, desde que você faça alguma coisa para melhorar. Sejamos sinceros, não é o caso, se tratando de emoções, principalmente as negativas. E ouso dizer que a maioria de nós nunca parou nem ao menos para refletir sobre isso…

Segundo Brackeet (2021), a mensagem clara é que devemos esconder os sentimentos negativos – não apenas escondê-los, mas usar uma máscara para dizer ao mundo o oposto da verdade. Está tudo bem!

“Por mais estranho que isso pareça, há algo profundamente comovente nesse sentimento. Ficamos comovidos com a ideia de mascarar emoções negativas por trás de uma manifestação de alegria. Em algum nível achamos estranhamente enobrecedor quando alguém esconde sua infelicidade. (…) Mas, por quê? Para encobrir as emoções que associamos com vulnerabilidade e perda e mostrar ao mundo que não somos afetados pelo menos na superfície.” (Brackeet, p.141, 2021).

Bem, isso explica um pouco do meu engasgo ao não querer acessá-las. Isso explica também como a gente implode, um pouquinho por vez, todos os dias.

Eu sei, talvez seja um preciosismo meu ou até um exagero atucanado com as palavras.

Talvez, isso tudo não passe de uma mera convenção social que não deveria ser levada tão a sério. Eu compreendo que dizer que está tudo bem não é o mesmo que dizer que está TUDO bem (alguém me responde porque é que a gente faz isso, por favor?!). Até porque isso é impossível, sejamos francos, alguma coisa está bem outra nem tanto (a não ser que você esteja embriagado por altas doses de positividade tóxica ou álcool mesmo). Mas, tudo, tudo mesmo seria possível?

Analisando a fundo, é uma forma de quebrar o gelo ao iniciar a conversa, criando uma conexão de forma gentil, ao demonstrar que você se importa (por mais que muita gente não tenha a mínima noção disso e esteja pouco se lixando para você). O resto é teatro.

Ninguém diz o que realmente sente, e nem ao menos podemos levar essa pergunta a sério, pois tiraria todo o foco do que vem na sequência (a não ser que você esteja em terapia ou desabafando, é claro).

Já imaginou?! Chegando no trabalho…oi, tudo bem? Não, sinto-me triste, meu gato foi atropelado, comi um ovo estragado e você vai sentir isso antes mesmo que essa frase chegue aos seus ouvidos. Dois segundos depois que você estilhaçou o clima, ela com certeza esqueceu o que realmente gostaria de perguntar (sorte a sua se fosse para fazer algo que você não queira, azar se fosse para oferecer um café).  

O mais contraditório ainda é perceber que se você não iniciar uma conversa perguntando se está tudo bem, a pessoa pode até mesmo lhe considerar um insensível mal-educado. Mesmo sabendo que você nunca falaria a verdade – mesmo sabendo que, às vezes, nem ela se importa com o que realmente está sentindo.

O maior problema mesmo é que com esse costume, acabamos por banalizar o sentido de uma pergunta importante. Muito perigoso principalmente quando a pergunta se reporta aos nossos sentimentos. Perceba, dia após dia somos ensinados a atropelá-los com um rolo compactador.

Funcionaria, se as emoções não fossem “descartadas” em uma panela de pressão.

Mas, nem só de reclamações vive este texto, pois, além de cair em crise existencial com a pergunta, eu também me ocupo encontrando formas mais sensíveis de não deturpar a nossa sensibilidade.

E a primeira regra é: não banalize o sentido das palavras. Ou seja, não pergunte se está tudo bem, quando você não deseja saber, não tem intimidade ou não possui tempo para escutar genuinamente aquela pessoa. Ok, mas, o que fazer para não parecer um mal-educado?

A primeira resposta é minimalista. Diga “bom dia”, e em seguida coloque a questão de foco. É simples e generoso, pois demonstra que você deseja que o dia daquela pessoa seja bom. Mas, eu tenho um problema com o bom dia, principalmente, quando eu digo ele de tarde e sempre existe aquele infeliz ser humano que vai me corrigir: não almoçou hoje? Boa tarde?!

Como disse, a questão é minimalista e bom dia deveria servir para o dia – que tem 24h. Caso você for Cartesiano e desejar fragmentá-lo, sejamos mais coerentes, passemos a utilizar boa manhã, boa tarde e boa noite.

Se a estratégia minimalista lhe pareceu seca demais, você pode dizer: Bom dia, desejo que você esteja bem! Eu considero uma maneira objetiva e genuína de desejar o bem para aquela pessoa, sem ser inadequado e teatral. É o mesmo que dizer, este não é o momento de falar de emoções, mas, seja lá pelo que você estiver passando eu desejo fique bem. Fica tudo nas entrelinhas, mas, a gente entende.

Por mais que às vezes eu sinta que algumas pessoas realmente acham que, ao dizer “desejo que você esteja bem”, eu pense ou saiba que aconteceu algo de errado com elas. Isso acontece principalmente em cidade pequena, em que todo mundo sabe da vida de todo mundo, sabe?! Muitas inclusive respondem sem eu perguntar: estou bem e você?! Quase que como um descargo de consciência que diz, não há nada de errado comigo (não?!).

E existe aquela que para mim é implacável, mas eu confesso que se as pessoas não entenderem o significado, elas vão debochar da sua cara e é por essas que eu não uso muita ele aqui no Brasil (como se eu já tivesse saído do país). Que seria o Namastê! Aquele gesto das mãozinhas unidas, como em oração, que expressa um grande sentimento de respeito pelo outro, algo que em si faz invocar o interesse em ouvir, porque nem se quer a gente fala! 

E por fim, possuímos também a versão reflexiva, ou seja, aquela que faz as pessoas pensarem no que eventualmente significa tudo: Oi, tudo bem? Não está tudo bem, mas, nem por isso quer dizer que está tudo mal. Eu gosto dessa, pois parece aceitar a vida como ela é, e assim, como diria alguns Estoicos, fica mais fácil de se preparar para as adversidades.

Antes de finalizar, gostaria de deixar algumas coisas claras. Eu realmente compreendo a riqueza da linguagem e que a mesma palavra pode ter sentidos completamente diferentes. Nesse caso, um tudo bem também pode indicar concordância e aceitação (está tudo bem não estar tudo bem). Pode até mesmo ser um código que te libera a continuar a conversa e apenas isso, sem drama!

Mas, desafiei-me a escrever este texto com o intuito de demonstrar como algumas palavras ingênuas podem surtir efeitos, principalmente, em pessoas altamente sensíveis, e óbvio, também foi uma busca pessoal para tentar resolver esse incômodo.

Palavras diferentes, sentidos diferentes para a mesma palavra, “tudo” serve desde que pensemos a respeito. E esse é um ponto importante, refletir, principalmente naquele modo corriqueiro e automático de lidarmos com as nossas emoções, tudo bem?!

Bem pessoal, chegamos ao final de mais um texto reflexivo! Espero que essa reflexão possa ter contribuído, de algum modo, com a sua vida.

Se possuir interesse em conferir mais deste conteúdo, você pode clicar nos meus textos aqui em baixo ou conferindo os meus vídeos pelo youtube, procurando pelo canal Diálogos da Ana! https://www.youtube.com/channel/UC0_oBeGUwF2ce2YdL9-1GSQ

Autora: Ana P. Scheffer

Fome!

Há grupos organizados que definem quem come e quem não come, quem pode ter casa para morar e quem não pode, já que a carência alimentar do corpo é cruel e seletiva e a moradia é um privilégio!

Dia desses, rolando os posts no FB, passei por um anúncio que dizia: “descubra como é morar em uma obra de arte”. E discorria sobre um lindo prédio de apartamentos à venda. Aí pensei: quem não gostaria de morar em uma obra de arte? Até imaginei alguém morando em uma casa pintada por Monet, Van Gogh ou Munch…

Mas esse pensamento foi breve. Logo outro se agigantaria, num inevitável contraponto, porque ver é sempre ir além do que se enxerga.

Surgia, assim, o Invisível, as imagens das pessoas que vivem nas ruas, as crianças, os cães e os parcos pertences, amarradinhos em sacos plásticos, lotando praças e chãos gelados sob marquises – o frio e a fome assolando suas almas e corpos, em tantos lugares, grandes ou pequenos, perto ou longe de mim.

E pensei, num pensamento sólido, nelas e neles, e a bruma de seres humanos invisíveis foi se formando. Era possível, no entanto, ver o apagamento deliberado, tornando esse povo um fio de quase nada, sem identidade no complicado tecido social, varridos decididamente das possibilidades que a própria existência teria de lhes garantir, nesta sociedade dita democrática…

Foi quando um outro pensamento insistiu em esvoaçar sobre meu coração: como pessoa que vive na mesma “casa comum”, respira na mesma atmosfera, preciso urgentemente ver! Mas como ver o Invisível?

Não vou discorrer aqui sobre a forma através da qual a Filosofia e seus estudos fenomenológicos tratam a questão do “invisível”, embora esse recorte seja fascinante, porque meu fascínio repousa na praça e nas ruas, na concretude da pedra, donde também vem minha fome. (Apenas aproveito um pouco do que Agostinho de Hipona diz quando sugere que, para ver, é preciso mediações. Dessa forma, Agostinho louvava insistentemente a criação e as criaturas, como a louvar o próprio Deus, através dessas mediações d’Ele!)

A partir daí, para ver o Invisível, vou em busca de algumas mediações que sangram a nossa realidade: higienização social e preconceito; desigualdade de oportunidades, descaso para com as/os mais vulneráveis; sistema prisional dissipado por uma sociedade cega para essa realidade;  escola, enquanto instituição segregadora e seletiva, haja vista o obsoleto sistema de avaliação, presentificando ainda  a “promoção” (passar de ano/rodar- suposta seleção epistemológica); sistema de saúde pública, a par de seu modelo exemplar, (e embora heroico na Pandemia), com adversidades crônicas que atingem sempre os pobres; a terra nas mãos de pouquíssimos!

O que tudo isso tem a ver com quem vive nas ruas? Tudo, já que há grupos organizados que definem quem come e quem não come, quem pode ter casa para morar e quem não pode, já que a carência alimentar do corpo é cruel e seletiva e a moradia é um privilégio!

Então me deparo com meu construto de vida: quero ter fome, sim, de luta para poder ver o invisível! E então fico com a Adélia Prado: “Não quero a faca nem o queijo, quero a fome”! E sigo.

Agradeço a oportunidade de escrever neste sentido e somar-me aos esforços de outros tantos e tantas pela humanização, através do conhecimento. Leia também:https://www.neipies.com/aprender-a-desaprender-construindo-a-esperanca/

Autora: Ir. Marta Maria Godoy

“A culpa que tu carrega não é tua”: reflexões sobre a violência contra a mulher em projeto de enfrentamento

A partir desta experiência é possível demonstrar o necessário debate sobre o papel social da mulher na luta por direitos sociais, pela equidade de gênero, no âmbito da sociedade civil e domínios institucionais e especialmente na escola.

Instituída em 2006, a Lei Maria da Penha, que trouxe maior rigidez na punição contra crimes de violência doméstica no Brasil, é considerada pelo Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher uma das leis mais avançadas do mundo, produzida e pensada junto da sociedade civil e dos movimentos sociais que já trabalhavam com o enfrentamento à esse tipo de violência.

Ao mesmo tempo, o Brasil produz dados expressivos relacionados à violência contra a mulher: tem a quinta maior taxa de feminicídio no mundo, e, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, 4,8 a cada 100 mulheres são vítimas de violência.

O tema exige uma luta coletiva: é um grande desafio articular as políticas diversas que estão relacionadas ao combate a violência de gênero sob uma perspectiva educativa e formativa, especialmente sob a égide das novas organizações curriculares, em que as disciplinas em que há espaço para a discussão do tema têm pouco espaço.

O projeto “A culpa que tu carrega não é tua: relatos de violência e práticas de sororidade”, realizado durante o ano letivo de 2022 no Instituto Estadual Cecy Leite Costa, foi pensado como uma atividade de enfrentamento a esse contexto. Partimos da ideia da existência da naturalização da violência contra a mulher na sociedade, que se mostra tanto na banalização do tema quanto das próprias práticas de violência.

O projeto foi concebido igualmente como um espaço de resistência e produção de sentido, docente e discente. Em espaços exclusivos para o corpo discente feminino, propomos uma introdução ao tema por meio de diferentes ferramentas, como dados estatísticos e evidências presentes cotidianamente, a exemplo de notícias publicadas nas redes sociais de dois dos maiores veículos de comunicação de Passo Fundo e do Rio Grande do Sul e os comentários deixados por algumas pessoas nas postagens.

Na discussão com as estudantes, foi possível relacionar os dados estatísticos às evidências – tanto as apresentadas quanto casos trazidos pelas estudantes – que mostram um discurso perene de culpabilização das mulheres por violências que sofrem, bem como a disseminação de discurso de ódio às mulheres, de forma geral.

A intenção em tematizarmos a violência presente no dia-a-dia configurou-se como forma de introduzirmos as estudantes nas discussões do tema de forma de reforçar a presença das ideias de dominação, exploração e práticas violentas contra à mulher naturalizadas na sociedade, na perspectiva de que agem na produção, corroboração e reprodução de desigualdades, e resultam na manutenção das estruturas sociais e culturais ao longo do tempo.

A partir deste movimento inicial, os encontros focaram na viabilização de conhecimento sobre a Lei Maria da Penha, suas implicações e todas as formas de violência previstas no texto da lei; exposição e diálogo sobre experiências cotidianas, auxílio e elaboração de relatos de violência naturalizadas e direcionadas às meninas e por fim uma comparação entre os dados da violência contra a mulher, os relatos produzidos pelas estudantes e a perspectiva do corpo discente masculino a respeito do tema (que recebeu um questionário de participação voluntária).

O trabalho educativo, por meio do projeto, se caracterizou como uma atividade dialética, exigindo das professoras articulação entre a realidade, expressa não apenas nos dados estatísticos, mas nas falas das estudantes, junto da identificação dos elementos culturais e sociais que pudessem encontrar sentido junto das estudantes e colaborar na promoção de mudanças no ambiente escolar e fora dele. 

Entendemos o projeto como o início de um movimento que propõe uma cultura de responsabilidade ética, profissional e política para a formação e capacitação de meninas por professores da Educação Básica, cujo resultado seja um corpo discente capaz de compreender a realidade em que está inserido e relacionar as práticas de violência descritas na lei Maria da Penha às suas vidas e relações pessoais.

A partir dos encontros do projeto, as estudantes puderam relatar suas experiências de violência, sofridas por elas ou por mulheres de seu entorno, que nem sempre se configuram como crime, mas que estão enraizadas em uma cultura machista e misógina e as atingem por meio de discursos cotidianos. A referência para a produção dos relatos foi a hashtag “#MeuAmigoSecreto”, ação desenvolvida nas redes sociais em 2015 e que repercutiu largamente naquele contexto. Cada estudante pôde registrar sua experiência de forma anônima, com a possibilidade ou não de dividi-la com as outras participantes em voz alta, por intermédio das professoras.

A experiência possibilitou a construção de um espaço de exposição, no dia 30 de novembro, Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher, com todos os relatos, que foram digitalizados, impressos e expostos em uma sala temática no contexto de um evento de mostra escolar. A exposição foi construída pelas próprias participantes, que puderam ver seus relatos divididos com toda a comunidade escolar e após replicados em outras duas exposições, em outros espaços.

A produção e exposição dos relatos ajudou no cumprimento de um dos objetivos do projeto: auxiliar na compreensão de que a violência contra as mulheres, naturalizada em discurso, é cotidiana e, infelizmente, trata-se de uma experiência que todas temos em comum.

Como contraponto, os relatos do questionário respondido pelos meninos apresentou uma perspectiva interessante. Quando questionados sobre como o machismo influenciava ou afetava suas vidas, os estudantes responderam majoritariamente que não os afetava em nada, e muitos expressaram não considerar o tema como um assunto pertinente de ser discutido.

A opressão da mulher reúne um conjunto de práticas e discursos que puderam ser observados com a experiência deste projeto, que ofereceu um ambiente de construção de instrumentos de resistência junto das estudantes. Enfatizamos, a partir desta experiência, que é possível e necessário o debate sobre o papel social da mulher na luta por direitos sociais, pela equidade de gênero, no âmbito da sociedade civil e domínios institucionais e especialmente na escola.

Não há como pensarmos em uma promover uma cultura de crítica que alcance a mudança das práticas culturais e sociais sem considerarmos a escola como um dos espaços em que a reprodução das práticas de violência contra a mulher está em plena atividade.

Conheça esta experiência também através deste vídeo postado no Instagram: https://www.instagram.com/reel/ClZ6_t-j_KH/?igshid=NDk5N2NlZjQ%3D&fbclid=IwAR3NGHH94UxzQHIDmA3YvgJhKXt4_SB15gSWsVluN9PmS5-ryCt1L9Jx7UY

Autoras: Letícia Mistura (Mestra em Educação)

Thainá Battesini Teixeira  (Mestranda em História), professoras coordenadoras do projeto.

Cartas de liberdades: obra que reflete existência e encarceramento

Repercutimos a singularidade e a especificidade da obra Cartas de Liberdades escrita pela Acadêmica da Academia Riograndense de Letras, empossada em 2023, Marli Silveira. Recomendamos leitura!

“Nos últimos anos tenho procurado compreender, tematizar as experiências-limite, que seria também, segundo penso, o caso da privação da liberdade. O que as experiências-limite, ou seja, de finitude, podem explicitar do nosso modo de ser.

A privação de liberdade, sendo uma experiência fundamental, poderia nos ajudar a compreender aspectos da condição humana, de modo especial, evocar uma experiência de liberdade que chamaria de existencial.

Creio que, diante de determinadas situações, o indivíduo humano é colocado diante de si mesmo, devendo fazer algo com o que lhe acontece. O desamparo e a indeterminação, a vulnerabilidade, são trazidos para um encontro destituído de determinações e desobrigados do “passado”, podendo implicar uma liberdade própria a contextos inóspitos.

Claro que as condições materiais e históricas não podem ser desconsideradas, os processos constitutivos e os atravessamentos, mas tenho tentado oferecer um novo recorte para se pensar a condição humana reverberada do tensionamento de experiências de finitude.

A aproximação com uma situação concreta, como é o caso desdobrado pelas cartas, não tem como propósito deslegitimar discussões fundamentais no contexto brasileiro, como a política de encarceramento, talvez pudéssemos dizer, projeto de encarceramento. Prendemos muito e mal, sem mencionar as idiossincrasias do encarceramento feminino e juvenil nesse país.

Também não visamos romantizar a concretude da experiência da reclusão. Sim, podemos nos perguntar se somos livres (quem não está preso), ou o que é a liberdade? Podemos discutir conceitos de liberdade e o próprio tema da “natureza humana”, contudo, estar preso é absolutamente diverso de estar solto.

Nossa questão é aproximar contextos experienciais tensionados pelas implicações do limite ontológico, reverberando uma possibilidade de explicitar experiências de si, de ser livre. Muitas vezes me faço a pergunta: tudo isso não seria uma maneira de me salvar, tirar a minha responsabilidade sobre o que acontece, sobre os sobressaltos desumanos que vivemos nos mais variados âmbitos sociais e culturais? A pergunta me ajuda a jamais esquecer dos meus compromissos como cidadã e pesquisadora das humanidades. De outro, meu ponto de inflexão é outro, mas permaneço atenta aos queixumes do mundo, da vida.

Cartas de Liberdades é um convite para que coloquemos em xeque certos marcadores, de modo especial, para que consideremos que nosso modo de ser é aberto e acontecimental, que não respondemos nem apenas pelo meio ou por/como modos volitivos, mas lançados na direção de. Desdobramos nosso existir. Respondemos por um modo situado, mas também possível.

Estranha performance de um modo de ser sempre às voltas consigo mesmo.

Podemos falar de “liberdades”?”

FOTOS DO LANÇAMENTO DO LIVRO EM SANTA CRUZ, RS, DIA 27/05/2023

O livro pode ser adquirido na Livraria Iluminura e na página da Editora Bestiario: https://bestiario.com.br/

Autora do livro: Marli Silveira

Aprender com a pedagogia de Jesus

 “Enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles (Lc 24,15)

A palavra pedagogia tem origem na Grécia, deriva de paidós que significa criança e agodé que se traduz por direção, deste modo cabe ao pedagogo e à pedagoga caminhar com o educando possibilitando aprendizagens. É tarefa desse profissional ajudar o estudante a vislumbrar direções, a extrair sentidos do seu existir no e com o mundo.

Dentre as muitas opções pedagógicas, este breve ensaio se propõe a iniciar uma reflexão sobre a pedagogia de Jesus, tal como se encontra em Lucas capítulo vinte e quatro, versículos de treze a trinta e cinco, trata-se de uma pedagogia na qual o ensino e aprendizagem ocorrem no caminho, a exemplo do que já faziam os peripatéticos antes de cristo.

Da etimologia grega do termo pedagogia se desdobra uma concepção bem desafiadora para o fazer educativo que se realiza nos espaços escolares e fora deles, isto porque a existência humana acontece em um mundo com diversas opções de caminhos, alguns íngremes, barrentos, espinhosos demais para serem trilhados sem que a dignidade seja estilhaçada.

Dentre os muitos caminhos que se apresentam à nossa vista, se encontra a opção por uma educação calcada nos valores do neoliberalismo, na formação de mão de obra barata para um mercado de trabalho que deseja espezinhar, escravizar ao invés de oportunizar renda e condições para que a vida seja humana; outras opções metodológicas fundadas em visões autoritárias fortalecem a violência e desmobilizam a cultura da paz.  

Essas constatações e críticas são temas de conversas, de pesquisas, de buscas que enquanto humanidade fazemos. Também andamos como aqueles dois discípulos de Emaús, cabisbaixos a caminho de nossas casas, de nossos locais de trabalho, especialmente quando se trata dos espaços onde a educação ocorre, ali onde a vida deveria ser tematizada e fluir na alegria da descoberta, reinam práticas, por vezes autoritárias, violentas, desprovidas da intenção humanizadora. 

O clima é de desesperança e de tristeza diante do mercado que vende uma falsa ideia de felicidade, diante de concepções e métodos distorcidos que não educam para a liberdade e autonomia.  

Cléofas e o outro discípulo, (sem nome, porque figura cada um de nós) são, para fins dessa reflexão, professores, educadores, gestores, pessoas que perderam a referência do Mestre, que deixaram de acreditar e apostar na força transformadora do seu fazer.

O caminho de Emaús acontece aqui, onde o sistema sufoca a vida, onde as políticas educacionais são pensadas desde um poder que se serve ao invés de servir. Neste cenário caótico que se insere a pedagogia da pergunta, recurso filosófico que serve para desestabilizar, colocar em crise as certezas e dar à luz a estratégias que reascendam a esperança.

há que se pensar no caminhar pensante, alternativas para se evitar o choque com as pedras, pois são mais duras do que o frágil ser humano. Levanta hipóteses: saltar sobre elas, passar por baixo ou, simplesmente, buscar um suave desvio. (Eladio Vilmar Weschenfelder) Leia mais: https://www.neipies.com/eureca-no-caminhar-pensante/

“O que vocês andam conversando pelo caminho?”, é a pergunta do Mestre aos discípulos de ontem e de hoje, e como dito acima o tema da conversa é a esperança que se perdeu, havia tanta potência naqueles estudos que realizávamos, naqueles grupos de pesquisa que frequentávamos, porém os tempos mudaram e a liquidez da vida tapa nossos olhos para o essencial do fazer pedagógico, para a fé no ser humano e na transcendência, o amor – caridade que se traduz em ações geradoras de vida, a esperança do verbo esperançar como arguia o pedagogo e filosofo Paulo Freire.

O objetivo da pergunta de Jesus é provocar a reflexão dos seus discípulos para que se lembrem do essencial, da palavra das escrituras e dos fatos que fazem arder o coração.

No caso dos profissionais da educação é preciso recordar as teorias que fundamentam a prática e superar a dicotomia entre uma e outra, como argumenta Freire “é fundamental diminuir a distância entre o que se diz e o que se faz, de tal forma que, num dado momento, a tua fala seja a tua prática” (FREIRE, 2003, p. 61).

Um educador freiriano e discípulo de Jesus precisa buscar através da sua práxis coerência para que seu fazer nunca perca de vista a humanidade e não sirva a outras pedagogias que favoreçam o mercado alimentando o sistema neoliberal.

É urgente apostar cada vez mais num fazer pedagógico inclusivo e dialógico, reunir-se com os pares e partilhar as angústias enfrentadas no caminho é condição para formar comunidade educativa.

É preciso como fez Jesus com aqueles discípulos recordar as razões da fé, os motivos da escolha pela docência e os compromissos assumidos nas relações de ensino aprendizagem. Para tanto, é necessário que a educação seja concebida como processo no qual todos se humanizam, é sempre ponto de partida que não se conclui com o encerramento de uma etapa, de um ciclo.

Por vezes, somos lentos demais para perceber que o fazer pedagógico, embora nem sempre se realize nas condições ideais, faz grande diferença na vida das pessoas.

É pela educação que se pode romper ciclos de vulnerabilidade, de violência e de injustiça. É na escuta atenta da palavra, na aprendizagem de conteúdo específicos que se pode desenvolver habilidades provocadoras da mudança. É preciso prestar atenção nos sinais e dar ouvido ao que parece absurdo, ou seja, as pessoas que anunciam a possibilidade do novo, que nutrem grandes esperanças, e por vezes, são desacreditadas devido ao pessimismo e ou descrença daqueles que o sistema conseguiu dominar.

Ao chegar no destino, pequeno povoado de Emaús, aquele homem, até então estrangeiro, fez menção de seguir adiante, porém foi convidado à ficar, porque já era tarde. Foi então que os olhos dos dois se abriram quando sentados à mesa Jesus abençoou e partiu o pão, nesse momento eles entenderam porque durante a caminhada, processo de aprendizagem muito usado pelo evangelista Lucas, os corações deles ardiam.

Assista e escute também: https://youtu.be/wXTDU2UHG-4?t=75

O momento da partilha do pão aqui é figura da vida partilhada entre docentes e discentes, das reuniões pedagógicas onde a experiência dos colegas pode iluminar as diferentes práticas possibilitando esperançar. Sentar-se à mesa, quando se trata de educação, significa alimentar-se dos fundamentos que movem as ações pedagógicas, e festejar as conquistas que ocorrem durante a caminhada.

Um educador cristão não é um apologista e ou doutrinador, pelo contrário é um ser humano que, por convicção, entende as implicâncias éticas do seu agir e assume, assim como Jesus, a árdua missão, de questionar, provocar e mobilizar esforços em prol da vida, inclusive quando entende as consequências de remar contra a maré de um sistema inumano desde as suas origens. Sistema que impede a festa da páscoa sempre que provoca a fome, a miséria e as situações de não vida. 

Um educador cristão sempre será um discípulo que opta pelo diálogo, pela pedagogia da pergunta se importando e se colocando a serviço da vida.  Quando os profissionais da educação entendem a grandiosidade da tarefa que realizam, eles não ficam parados resmungando, murmurando contra o sistema, eles se mobilizam para construir sentido e elaborar significados diferentes dos ditados pela pedagogia neoliberal.

Educadores que não perdem de vista os motivos principais do fazer que realizam partilham vivências, elaboram e efetivam planos que corroboram com a formação integral de sujeitos. Essas atitudes figuram o corajoso retorno à Jerusalém, outrora lugar da derrota. Era noite, mas o medo foi vencido, visto que notícia feliz não pode ser guardada, precisa ser partilhada e dar sentido a existência de outras pessoas, fomentar outras práticas geradoras de vida.

Que cada instituição se constitua nesse lugar de encontro e da partilha que gera a vida.

Autor: Marciano Pereira

REFERENCIAS:

BÍBLIA DE JERUSALEM. Bíblia sagrada.  Paulus – 2008 (Lc 24, 13- 35).

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. 27ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2003.                         

A linguagem simbólica das parábolas de Jesus

Jesus explorava a imaginação de seus ouvintes pois, cada um, com a plasticidade de seu pensamento, criava mentalmente a cena dos episódios narrados na história, que sempre envolvia situações cotidianas, comuns à compreensão de todos.

Jesus, o maior pedagogo da História, ao passar seus ensinamentos, seu evangelho de luz e libertação pelo conhecimento da verdade relativa à nossa compreensão, na época, não procurou homens eruditos, cheios de títulos e detentores de poderes governamentais ou religiosos, pois sua doutrina jamais poderia ficar na dependência de ideias conflitantes, de homens falíveis, cheios de tendências personalistas.

Jesus procurou as pessoas simples do povo, cheias de sofrimentos e necessidades, exploradas pelo domínio romano e por religiosos judaicos. Ele as escolhia com amor, irradiando seu magnetismo curador, curando-as das doenças do corpo e dos conflitos da alma.

A magnitude de seus ensinos não poderia ser comunicada em linguagem rebuscada, racional, convencional ou filosófica, de difícil entendimento. As expressões utilizadas eram conhecidas de todos, tinham sentido e significado para o povo e faziam parte do cotidiano das pessoas. Atualmente, as parábolas, ao serem analisadas, são lições antigas, mas sempre com ensinamento novo. Apresentam novos caminhos que expõem verdades e mostram a escala de valores a ser conquistada na busca da felicidade real.

Nelas destacam-se o sentimento do amor, da compaixão, da empatia, da caridade, do autoconhecimento e da necessidade do esforço próprio para reencontrarmos o caminho de volta para Deus, nosso Pai. Jesus era sempre seguido pela multidão que encontrava nele o alimento da alma e do corpo.

Muitos de seus ensinos eram verbalizados através da parábola. A singeleza das narrativas de Jesus envolve a semente, o solo, o semeador, as redes, os peixes, as moedas, as pérolas, o fermento, a massa do pão, as relações familiares e sociais, a simbologia do Pai, do Senhor da vinha, representando a presença Divina e encantava a todos.

A parábola apresenta método de narrativa oral, muito utilizado na antiguidade. São informações simbólicas, transmitidas de uma geração a outra, através do tempo, sem nunca perder a atualidade, podendo ser interpretadas conforme as circunstâncias e características culturais da época. Ao usar esse recurso didático, Jesus estimulava o despertar dos potenciais divinos inerentes ao ser humano e no seu desenvolvimento sócio, psicológico e espiritual.

A palavra parábola origina-se do latim parabola e do grego parabole,  que significam COMPARAÇÃO entre duas ou mais situações da história com a vida real. É uma história fictícia que transmite mensagem indireta utilizando a comparação, a analogia com a atitude desejada. Oculta sempre uma grande verdade. Ela revela mensagens profundas que devem ser refletidas. É uma narrativa cheia de simplicidade e beleza que penetra na mente humana, despertando emoções e sentimentos nobres, que dão sentido ético à vida.

Jesus narrou mais de 40 parábolas, que estão registradas no Novo Testamento.

Através desse método pedagógico, são estimuladas as dimensões emocionais, a atenção, a inter-relação, a convivência pacífica com os outros, as questões morais e espirituais dos ouvintes, induzindo à reflexão de seus próprios atos e convivência na família e na sociedade.

Jesus explorava a imaginação de seus ouvintes pois, cada um, com a plasticidade de seu pensamento, criava mentalmente a cena dos episódios narrados na história, que sempre envolvia situações cotidianas, comuns à compreensão de todos.

Outro aspecto importante desse processo educativo é o desenvolvimento da capacidade intrapessoal, de autoconhecimento, de ter compreensão de suas próprias condições e despertamento do potencial adormecido em si, apto a se desenvolver e a aprender a utilizar este modelo de conduta para agir melhor em suas vidas.

Jesus utiliza a didática do exemplo, explorando a observação crítica do ouvinte através da conversa amiga, livre, espontânea, sem imposições, comprovando a importância do afeto recíproco entre mestre e discípulo.

As atitudes de Jesus na convivência com as pessoas, mostram o bom exemplo que Ele dá sobre o que Ele ensina, este procedimento é fator importante para desenvolvimento da dimensão moral da inteligência humana. Ele não utilizava a linguagem abstrata, trazia fatos concretos, focalizando os atos, os procedimentos, as condutas dos personagens, propiciando a autocrítica sobre a maneira pessoal de agir em relação aos outros, visando melhorar os relacionamentos na vida particular de cada um e na vida comunitária.

As histórias contadas por Jesus estimulam a reflexão sobre o verdadeiro sentido da vida e a percepção de que ninguém está sozinho no mundo e que cada um faz parte de um todo, despertando a habilidade de lidar com os problemas existenciais, como os fracassos, sofrimentos, prejuízos. Este aprendizado capacita o ouvinte ou leitor a buscar situações novas que promovam o equilíbrio, o torne mais flexível e disposto a não causar dano aos outros, compreendendo Deus como Pai que oferece novas oportunidades de melhoramento, extremamente misericordioso e justo e que o aguarda amoroso quando tomar a decisão de se corrigir e de começar a trilhar o caminho de volta para Ele.

A leitura atenta, por exemplo, da Parábola do Filho Pródigo (Lucas 15, 11-31), possibilita a compreensão da infinita misericórdia de Deus para conosco. Ele sempre nos aguarda quando decidimos retomar o caminho de volta para a Casa do Pai, quando aprendemos a nos autoconhecer, reconhecer nossas escolhas equivocadas e mudar de conduta.  A análise detalhadas dos fatos relatados na narrativa do Mestre, desde a introdução do assunto, acompanhando a sucessão dos eventos, no desenvolvimento da história, até chegar ao ponto culminante, quando o filho rebelde, reconhecendo seu equívoco e sofrendo as consequências de suas atitudes, decide, humildemente, retornar à Casa do Pai e pedir perdão pela sua atitude insensata. O Pai o recebe de braços abertos, porque o aguardava!

A narrativa podia encerrar neste ponto,  mas eram dois irmãos…O outro, aparentemente fiel ao Pai, era extremamente egoísta e se rebela com a atitude do Pai em relação ao irmão. O Pai vai em busca deste filho também explicando o motivo do acolhimento e de Sua alegria com o retorno do Filho Pródigo.

A mesma reflexão nos provoca a leitura das narrativas do Bom Samaritano (Lucas 10, 23-27), do Semeador (Lucas 8, 4-15) e demais parábolas. O momento atual nos requisita a atitude sensata, silenciosa, de paramos um pouco, nos desligarmos das distrações virtuais, e buscarmos estas diretrizes tão claras ofertadas por Jesus.

Precisamos, urgentemente, voltar a ser humanos, simplesmente humanos, filhos de Deus, convivendo como irmãos uns dos outros, cada um com as suas características próprias, tendo a certeza que Deus nos aguarda de braços abertos.

Como educadores, tendo a nossa frente e ao nosso lado nossos alunos, não podemos nos furtar de lhes contar estas lindas e elucidativas histórias.

Parabéns Nei, pela tua coragem em divulgar o que é bom para a educação. Jesus te ampare e inspire. No teu site temos precioso espaço para divulgar nossas boas mensagens.

Autora: Gladis Pedersen de Oliveira

O debate ciência versus religião

No debate entre ciência e religião, em geral, sobressaem-se posições antagônicas, a favor ou contra, especialmente quando, no centro das discussões, está o confronto evolucionistas versus criacionistas, que, ao fim e ao cabo, tudo parece se resumir.

O assunto, por mais apaixonante que possa parecer, não dispensa a necessidade de reflexões um pouco mais aprofundadas, quer seja em manifestações de concordância ou de discordância, em favor de um lado ou de outro.

Afinal, é possível conciliar a prática científica com a fé religiosa?

Uns dizem que sim e outros, obviamente, que não. No grupo dos cientistas que trabalharam no mapeamento do genoma humano, por exemplo, Francis Collins é, declaradamente, um cristão fervoroso, e Craig Venter é taxativo em afirmar que não é possível alguém ser um cientista de verdade e acreditar em Deus. Quando um cientista passa a acreditar em Deus ele deixa de fazer a pergunta certa, segundo ele. Creig Venter diz que não acredita em Deus, mas tem fé em Darwin.

O caso Galileu Galilei e, aos olhos de hoje, a abominável condenação que sofreu dos tribunais da Inquisição, no século XVII, que o obrigava, inclusive, a recitar sete salmos penitenciais uma vez por semana durante três anos, é interpretado, por muitos, como exemplo de que o conflito entre ciência e religião é inevitável. Esses, em maioria, costumam rotular a comunidade científica como de mentalidade aberta e a comunidade religiosa como de mentalidade fechada. Nada mais falso que isso. Há exemplares destes espécimes tanto na comunidade científica quanto na religiosa.

Quem conhece a comunidade científica de perto, talvez até concorde que o conservadorismo na ciência é um lugar mais comum do que se pensa, especialmente nos chamados colégios invisíveis, cujos membros, apegados a visões disciplinares, não medem esforços para aniquilar quem pensa ou age diferente das suas (deles) visões corporativas.

O conflito entre ciência e religião, certamente, não é inevitável, até porque quem está em ascensão no mundo contemporâneo é a ciência e não a Igreja de Roma, apenas para confrontar com os tempos áureos da Inquisição.

Também é falsa a crença de que a prática científica é baseada exclusivamente em experiências e testes envolvendo o mundo natural. Fique certo que apenas uma pequena fração daquilo que você conhece depende de observações próprias, quer seja um cientista ou exerça qualquer outra atividade.

A aprendizagem dá-se de muitas maneiras e o papel da ciência, que trata da sistematização do conhecimento, é mostrar que as coisas nem sempre são como parecem. É preciso acreditar, sem ver, em algo que é, aparentemente, implausível.

Tomemos como exemplos a teoria da evolução e a mecânica quântica (dualismo onda e partícula). A ancestralidade comum parece correta? Que teríamos eu e você em comum com aquele cãozinho que nos espreita sorrateiramente ou com aquela planta em cujo caule desce mansamente um caracol? De fato, cientificamente, as coisas não são como parecem.

Não lhe parece mais sensato aceitar o Gênesis e a criação do mundo e de toda a vida em alguns poucos dias de 24 horas cada um? Mais sensato e mais cômodo, acrescento eu.

Aceitar Darwin é tirar do homem o privilégio de ter sido especialmente criado, relegando-o a um mero descendente do mundo animal. Algo, para muitos, inaceitável diante do tamanho do nosso egoísmo.

A evolução não é um progresso previsível, que atua em prol de grupos e comunidades, avançando teleologicamente em direção a fins desejados. Ao contrário, lamento pela decepção, a evolução busca beneficiar o indivíduo (luta pelo sucesso reprodutivo, deixando maior descendência). É uma teoria clara do individualismo levado ao extremo, que nos mesmos moldes da “mão invisível do mercado”, na expressão clássica de Adam Smith, que acaba beneficiando toda a economia, também, biologicamente, a espécie, a partir dos indivíduos, acaba sendo privilegiada.

Deus, segundo dizem, escreveu dois livros. O livro da natureza, em que nos inserimos, e o livro das escrituras ditas sagradas. Pare e olhe para o céu, de preferência numa noite de Lua cheia. Depois de alguns minutos, é bem provável que você se conscientize da sua insignificância diante do cosmos e isso sirva para renovar a sua fé. Ou, alternativamente, procure o Dr. Freud para, em definitivo, romper com Deus.

(Do livro A ciência como ela é…, 2011)

Autor: Gilberto Cunha

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