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Aprender a desaprender: construindo a esperança

Fomos ensinados a competir e a rastrear, sem descanso, uma via que nos leve a uma história que, na maioria das vezes, nem nossa é. Dificilmente nos perguntamos sobre sermos “vencedores em que”, de que parte da história…

Nossos tempos parecem nos conduzir a uma quase completa desesperança; e isso em nível mundial, eu diria. E não somente por causa de uma pandemia assoladora, recém abrandada, das guerras internas em tantos países, entre outras grandes mazelas.

No nosso eixo do mundo, apesar de uma mudança nos rumos políticos da nação, os respingos da morte e da fome ainda são evidentes.  Como construir esperança, então?

Há um claro esforço de determinados segmentos da composição da sociedade, empreendidos para criar situações de desespero, fragilizar ainda mais os empobrecidos e os miseráveis e desestabilizar as instituições que estão ao lado desses.

Há uma contra-história que vem sendo concebida justamente para matar uma possível esperança movente no nascedouro. E ela conta com uma aliada incontestável: a linguagem. 

Na redes sociais nos deparamos com xingamentos, com artimanhas e armadilhas discursivas, com uso de palavras inadequadas até mesmo em reuniões do alto escalão do governo federal (como se viu no governo passado); uma parafernália de modos de se comunicar que beira ao ridículo.

Rubem Alves, na obra “Da Esperança”, já dizia que a linguagem de uma comunidade de fé “deve (…) expressar o espírito de liberdade para a história, o gosto pelo futuro, a abertura para o provisório (…),deixando o velho e rumando em direção ao novo”. A partir daí, segundo ele, se pode pensar em construir Esperança.

Talvez se possa estender o que é aplicado ao termo “comunidade de fé” para “todos nós”, independentemente de professarmos uma religião ou não!

Então, enquanto humanidade, podemos nos perguntar: cultivamos a esperança? Em que esperamos? O que esperamos? Como vemos as possibilidades e suas manifestações em nossa existência tão precária e fugaz? Quem supostamente não tem religião pode ter esperança? Movimentamo-nos para um “desaprender” que nos conduza a novas alternativas?

Para construir a esperança é necessário desaprender! É claro, se pensamos em “desaprender” parece que caminhamos para trás, mas não se trata disso! Desaprender, aqui, quer dizer desvincular-se do que destrói, levando à promoção da vida, a um incessante olhar para a justiça e à revolucionária igualdade de oportunidades, já proposta por Jesus de Nazaré tanto tempo atrás. Significa reconhecer e desligar-se de “linguagens” envelhecidas, que impedem a paixão de instalar-se – a paixão que conduz a transformações às vezes jamais pensadas!

Mas como se pode pensar em “desaprender”, quando o que todos querem é “aprender”?

Trata-se de um remar ao contrário. É uma história às avessas desta que está por aí.  Isso, porém, só pode acontecer se entendermos que somos fruto dessa época, que fomos ensinados. Ensinados no preconceito (“bandido bom é bandido morto”), no desânimo (“pau que nasce torto morre torto”), na obstinada busca do sucesso a qualquer custo (“Deus ajuda a quem cedo madruga”), no estigma de “vencedores” (“Atirei o pau no gato”).

É a linguagem… Fomos ensinados a competir e a rastrear, sem descanso, uma via que nos leve a uma história que, na maioria das vezes, nem nossa é. Dificilmente nos perguntamos sobre sermos “vencedores em que”, de que parte da história…

Construir esperança é, pois, aprender a desaprender, mudar a linguagem! O desaprendizado, porém, implica compromisso com a insegurança, o desconforto, a desinstalação… pois linguagem nova, linguagem outra, faz-nos revirar nosso eu, em primeiro lugar. E aí, bom, aí possivelmente, temos o “homem e a mulher novos”, edificadores da Esperança construtora.

Autora: Ir. Marta Maria Godoy, graduada e pós-graduada em Letras, pós graduanda em Teologia

O ser humano light

O ser humano light potencializa o consumismo, o interesse efêmero pelas futilidades, o desinteresse pela cultura mais elaborada e absorção imediata do lixo cultural.

Reli recentemente o livro O Homem Moderno, do reconhecido e prestigiado Psiquiatra espanhol Enrique Rojas. Apesar de ser um livro escrito nos anos de 1990, sua atualidade e a forma como Rojas analisa o perfil psicológico do ser humano atual, é visivelmente surpreendente.

Originalmente o livro foi publicado em Madrid/Espanha com o título El hombre Light. Na análise de Rojas, assim como nos últimos anos entraram em moda certos produtos light (cigarros, algumas bebidas ou certos alimentos), também foi sendo gerado um tipo de ser humano que poderia ser qualificado de ser humano light.

Mas qual é o perfil psicológico deste ser humano? Como ele poderia ser definido?

Para Rojas, trata-se de um ser humano relativamente bem informado, mas de escassa educação humanista; um ser humano que tudo lhe interessa, mas de forma superficial. Viu tantas transformações nos últimos anos que começa a não saber a que se agarrar ou, o que dá no mesmo, a fazer afirmações do tipo “vale tudo”, “não me interessa”, “as coisas são assim mesmo”.

Encontramos “um bom profissional” em seu campo específico de trabalho, que conhece bem suas tarefas, mas que fora deste contexto, fica perdido, sem ideias claras, num mundo repleto de informações, que o distrai, mas que pouco a pouco o converte num homem superficial, indiferente, permissivo, que vive um “enorme vazio moral”.

As análises do Psiquiatra Espanhol são oportunas e importantes, porque a descrição que ele faz do ser humano light nos ajudam a perceber o quanto estamos sendo influenciados e contaminados por esse perfil psicológico que toma conta de adultos, jovens e crianças.

A superficialidade e o vazio existencial se fazem sentir nas relações cotidianas entre pessoas próximas e até mesmo nas relações familiares. No âmbito escolar esse perfil psicológico se faz presente nas manifestações de apatia pelos estudos, no pensamento fraco, nas convicções sem firmeza, na violência tácita ou explícita.

No cenário social e econômico, o ser humano light potencializa o consumismo, o interesse efêmero pelas futilidades, o desinteresse pela cultura mais elaborada e absorção imediata do lixo cultural. Por essa análise se entende porque certos “cidadãos de bem” defendem ideias fascistas, idolatram posturas autoritárias, negam a ciência e os fatos e acreditam cegamente e fake news que circulam livremente pelas redes sociais.

Em termos educacionais, nosso grande desafio é compreender o perfil psicológico do ser humano light que vem se constituindo nos últimos tempos.

Nosso compromisso de educadores (pais e professores) é possibilitar que as novas gerações não sejam tragadas por esse perfil psicológico que está na raiz de grande parte dos processos depressivos que atinge cada vez mais nossa juventude e que produz a cultura do vazio, uma geração de fanáticos e a morte dos sonhos.

A luta contra o vazio se torna um desafio e compromisso educacional no sentido de que precisamos, urgentemente, construir em nosso fazer pedagógico, espaços de formação solidária, pautados pelo compromisso social que nasce dos projetos de futuro e que são alimentados pelos sonhos de uma sociedade melhor.

Como nos diz o saudoso poeta gaúcho Mário Quintana: “Os sonhos são como as estrelas. Não podemos alcança-las. Mas, sem elas, não temos orientação”.

Autor: Altair Alberto Fávero

O mundo não é maternal

Sem a mãe, ficamos órfãos de tudo, já que o mundo lá fora não é nem um pouco maternal conosco.

É bom ter mãe quando se é criança, e também é bom quando se é adulto. Quando se é adolescente, a gente pensa que viveria melhor sem ela, mas é um erro de avaliação. Mãe é bom em qualquer idade.

Sem ela, ficamos órfãos de tudo, já que o mundo lá fora não é nem um pouco maternal conosco.

O mundo não se importa se estamos desagasalhados e passando fome. Não liga se viramos a noite na rua, não dá a mínima se estamos acompanhados por maus elementos.

O mundo quer defender o seu, não o nosso.

O mundo quer que a gente torre nossa grana, que a gente compre um apartamento que vai nos deixar endividados, que a gente ande na moda, que a gente troque de carro, que a gente tenha boa aparência e estoure o cartão de crédito.

Mãe também quer que a gente tenha boa aparência, mas está mais preocupada com o nosso banho, nossos dentes, nossos ouvidos, com a nossa limpeza interna: não quer que a gente se drogue, que a gente fume, que a gente beba.

O mundo nos olha superficialmente.

Não detecta nossa tristeza, nosso queixo que treme, nosso abatimento. O mundo quer que sejamos lindos, magros e vitoriosos para enfeitar a ele próprio, como se fossemos objetos de decoração do planeta. O mundo não tira nossa febre, não penteia nosso cabelo, não oferece um pedaço de bolo feito em casa.

O mundo quer nosso voto, mas não quer atender nossas necessidades. O mundo, quando não concorda com a gente, nos pune, nos rotula, nos exclui.

O mundo não tem doçura, não tem paciência, não nos escuta.

O mundo pergunta quantos eletrodomésticos temos em casa e qual é o nosso grau de instrução, mas não sabe nada dos nossos medos de infância, das nossas notas no colégio, de como foi duro arranjar o primeiro emprego.

Mãe é de outro mundo.

É emocionalmente incorreta: exclusivista, parcial, metida, brigona, insistente, dramática. Sofre no lugar da gente, se preocupa com detalhes e tenta adivinhar todas as nossas vontades, enquanto que o mundo nos exige eficiência máxima, seleciona os mais bem dotados e cobra caro pelo seu tempo.

Mãe é da graça.

“O egoísmo unifica os insignificantes. Não é a altura, nem o peso, nem os músculos que tornam uma pessoa grande… é a sua sensibilidade, sem tamanho…” Leia mais: https://www.neipies.com/o-tamanho-das-pessoas/

Autora: Martha Medeiros (reflexão escrita em maio de 2017)

“1905” chegou

São doze contos com histórias que se passam no ano de 1905, ano miraculoso para Einstein e para todos nós. Os personagens convivem intimamente com pessoas que eram ou se tornaram importantes para a história da humanidade.

Assim lembramos que enquanto Cixi, a mulher mais poderosa que já existiu, via seu domínio de quase meio século sobre a China aproximar-se do fim, Euclides da Cunha, mergulhado quase sem recursos na Floresta Amazonica, tentava demarcar a fronteira Brasil-Peru, Thomas Álvaro Edson acabara de eletrocutar a elefanta Topsy. Osvaldo Cruz, Santos Dumont, Karl May, Freud, Koch, Trotsky, Pio X, Eistein, Eduardo VI e outros são revelados em suas intimidades pelo olhar próximo de personagens ficcionais que criei.

Através dos olhos deles “enxergamos” essas figuras da história humana e revivemos o “clima” predominante em 1905.

O livro está a disposição no site da Physalis Editora (https://encr.pw/physalis-Salton-1905) e nas livrarias Delta Passo Fundo Shopping, Companhia da Leitura do Shopping Bella Cita e Delta Paissandu.

Gostei muito de escrever “1905” e torço que sua leitura seja do agrado dos meus amigos que seguidamente me presenteiam com o carinho de me ler.

***

Brindo os leitores e leitoras do site com um resumo de uma das histórias do livro.

Suzanne pergunta a Freud com quem deve casar

No conto 03 do livro “1905” inovadores reúnem-se em Viena no Café Landtmann que, por sinal, segue funcionando até hoje.

Suzanne representa a entrada da mulher na profissão médica, algo raro na época. Uma inovação. Aliás, como professor de medicina há mais de quarenta anos, só nos últimos vi o número de mulheres se sobrepor ao número de homens nos bancos acadêmicos.

Suzanne encontra no Café Koch e Freud. Koch foi quem pela primeira vez na história conseguiu descobrir um microrganismo patológico: a bactéria da tuberculose. Todos sabemos a devastação provocada por essa doença. Merecidamente, recebeu o Nobel de Medicina naquele ano de 1905. Não morava em Viena, mas seguidamente ia até lá para proferir palestras.

Freud, no conto, representa o pesquisador que abandona pesquisas por não serem promissoras. No caso, a sinceridade de Freud ao comentar a expectativa infundada que teve com a cocaína. No ano de 1905, Freud publicou uma de suas obras mais marcantes: “Três ensaios sobre a sexualidade”. Entre um café e outro, Suzane pede um conselho muito especial a Freud. Vou parar por aqui para não provocar spoiler.

Esse é um dos contos que inspiraram o filme “A história de nós três e de nós quatro” do diretor Jaime Lerner.

1905” será lançado por ocasião da palestra – todos estão convidados – que darei na Academia Passofundense de Letras às 20 horas do dia 15 de junho, uma quinta. Mas o livro já pode ser adquirido pelo site da Physalis Editora e nas livrarias Delta do Passo Fundo Shopping, Companhia Da Leitura do Bella Citta Shopping, Delta Paissandú, Sebo Café e Sebo Papirando.

Autor: Jorge Alberto Salton

A indignação do atleta Vinicius Junior

A indignação de Vinicius Jr empresta voz a tantas outras vozes caladas pelo medo, submissão, pela dor e sofrimento devido ao racismo.

O Brasil tem vários atletas construindo suas carreiras no futebol Europeu. A Espanha tem sido, ao longo de muitos anos, o destino dos promissores atletas, alguns ainda muito jovens, mas com grande talento. Vinicius Junior seria mais um atleta a trilhar esse caminho aparentemente glamoroso se não pairasse sobre ele a ameaça do racismo que pode ameaçar a sua presença naquele país.

Os fatos presenciados no domingo passado (21 de maio) explicitam o que acontece há anos nos estádios de futebol do mundo todo, nos quais a rivalidade futebolística esconde uma prática profundamente enraizada no inconsciente coletivo da maioria da população mundial.

O racismo tem se explicitado de diferentes formas, não só nos estádios estrangeiros, mas também nos estádios brasileiros. Vivemos em sociedades racistas e isto tem se explicitado.

Disse o Papa Francisco: “o racismo é um vírus que se transforma facilmente e, em vez de desaparecer, se esconde, mas está sempre à espreita”. As manifestações de racismo renovam em nós a vergonha, demonstrando que os progressos da sociedade não estão assegurados de uma vez por todas.

Esperamos que a indignação de Vinicius Junior incida em um processo de superação dessa prática perniciosa. E, tal indignação é fruto de várias atitudes negadores da sua dignidade. Parece-nos que o copo transbordou. 

O atleta Vinicius Junior, na sua indignação, agiu de duas formas pontuais e extremamente consistentes. Ainda no campo de futebol, no decorrer da partida, ele mostrou ao juiz de futebol, autoridade competente, ao torcedor que o agredira com gestos racistas. Aparentemente não foi ouvido e ainda durante o jogo foi expulso da partida pelo mesmo juiz. Parece ironia. Um atleta em pleno exercício do seu ofício profissional é agredido e ferido em sua dignidade. Minutos depois esse mesmo atleta é declarado, pela autoridade competente com a expulsão, sem condições de continuar na partida. Para os que o poderiam acusá-lo de estar se “vitimizando” sugiro que revejam as imagens do episódio. Devemos louvar o jovem atleta pela atitude corajosa. 

A segunda atitude de Vinicius Jr, circulou nas redes sociais. Esta com dois elementos extremamente potentes escritos por ele. Primeiro acusou o presidente da Liga Espanhola de Futebol (La liga) de conivência e omissão.

Em outras palavras, afirmou que a situação chegou àquele ponto devido às atitudes coniventes do dirigente com práticas racistas, já denunciadas pelo mesmo atleta e por outros desportistas. Denunciou-o por omissão pelo fato de não ter tomado nenhuma atitude contra os atos, o que seria próprio do cargo assumido. Quem deveria ter tomado uma atitude em tempo não o fez. O atleta deu nome aos responsáveis ao afirmar: sei exatamente quem é quem. Em seguida manifestou sua convicção quanto à importância da luta assumida com brio e que seja exemplo a tantos outros em semelhantes situações.

Vinicius Junior disse: tenho um propósito na vida e, se eu tiver que sofrer mais e mais para que futuras gerações não passem por situações parecidas, estou pronto e preparado.  

O jovem que encantou o mundo com o bom futebol testemunha agora a força e a coragem de enfrentar uma chaga presente em todo o mundo, o racismo estrutural. Este precisa ser descontruído porque, além de ferir a dignidade dos homens e mulheres negros, ameaça o seu futuro.

O racismo estrutural tem sido a causa das mortes violentas de jovens negros, da miséria da população negra, da morte prematura de crianças negras e tantos outros males. O que se afirma não são frases soltas no ar. Pesquisas corroboram esta afirmação.

A indignação de Vinicius Jr empresta voz a tantas outras vozes caladas pelo medo, submissão, pela dor e sofrimento devido ao racismo. Sua voz e a voz do sofrimento por uma perseguição vil e covarde. Quantas crianças e adolescentes negros são prejudicados na escola devido ao racismo entranhado nos espaços escolares.

O bullying, expressão em inglês que significa humilhar, perseguir, assediar moralmente, de forma constante e intensa sobre uma pessoa, é sentido secularmente em forma de racismo pelas crianças e adolescentes negros.

O grito de Vinicius Jr, é o grito da indignação. Não toleraria mais tais atos. Um jovem de 22 anos ensina-nos a lutar e deixa-nos um testemunho valioso. Através de seus pés vemos o bom futebol. Através de sua voz ouvimos: basta de racismo. 

Que o clamor indignado do jovem Vinicius Jr, reforce os clamores de tantas outras pessoas e fortaleça a corrente antirracista do mundo todo.

No século passado uma costureira norte-americana chamada Rosa Parker se indignou por ter que ceder lugar a uma pessoa branca como prescrevia a lei. A sua atitude corajosa gerou grande consternação. Ela sofreu pelo ato corajoso. Entretanto, seu gestou gerou uma grande mudança na lei norte americana. 

Que a atitude de Vinicius Junior além de gerar comoção no mundo todo, gere também mudanças, começando por atitudes decisivas de punição para quem é racista. Não possível tolerar tais atitudes em estádios de futebol e em qualquer outro lugar. 

Lembremos o preceito bíblico. Deus nos criou a sua imagem e semelhança (Gn 1,26). Ofender ao semelhante é ofender a Deus. Os bispos latino-americanos e caribenhos reunidos na cidade de Aparecida – SP manifestaram o compromisso da Igreja na superação do racismo. Escreveram: a Igreja denuncia a prática da discriminação e do racismo em suas diferentes expressões, pois ofende no mais profundo a dignidade humana criada à imagem e semelhança de Deus (DAp 533), uma verdade irrenunciável.

A gravidade da situação lembra a todos que não basta não ser racista. Cabe ser antirracista.  

O racismo é histórico e vigora intenso na sociedade brasileira. Ele se multiplica de muitas formas, desde as mais veladas e dissimuladas até as mais escancaradas e violentas, que asfixiam, sufocam e matam. (Autor Dirceu Benincá) Leia mais: https://www.neipies.com/todo-racismo-e-abominavel/


Autor: Ari Antonio dos Reis

(Grupo de Estudos Negritude e Teologia – Itepa Faculdades)

Da miséria ao dano ambiental

A miséria é fruto da incapacidade do Estado em oferecer as mínimas condições dignas de vida para a sua população. A cidade está sob uma constante cortina de fumaça e de falta de interesse das autoridades.

É evidente que a quantidade de pessoas em situação de vulnerabilidade social em Passo Fundo e em médias e grandes cidades aumentou e a situação foi agravada por conta da pandemia e pelo desgoverno Bolsonaro.

A fome está por todos lados, em muitos lares e destrói famílias afundadas na miséria e na fome. O desemprego e a falta de perspectiva levam milhares de pessoas à depressão, ao submundo das drogas, ao vício em álcool e nas mais variadas formas de violência, o que é especialmente grave quando trata-se de danos contra mulheres e crianças.

Trago este relato para discutir a problemática ambiental causada por estas condicionantes citadas e, infelizmente, invisíveis aos olhares das autoridades. A fome aguda leva ao subemprego, ao furto, ao roubo, a dor, ao sofrimento, a miséria e ao dano ambiental.

Empresas especializadas no ramo da reciclagem e de sucatas compram vários tipos de resíduos: plástico, papelão, vidro, latas de alumínio e o vilão da poluição ambiental: o COBRE. Este item possui valor agregado e isso gera muitos furtos ao patrimônio público e privado para que seja revertido em fonte de renda para pessoas que em último recurso contra a fome e a miséria, usam deste artifício para conseguir uma mínima renda capaz de financiar um prato de comida ou algumas pedras de crack.

O cobre está presente em fios de luz, nos hidrantes e na fiação de telecomunicações. Depois de receptado em ferros-velhos, o cobre acaba indo para fundições, onde é transformado em pequenos fragmentos – grãos -, para facilitar o transporte. Em alguns casos, vira matéria-prima para peças feitas em metalúrgicas locais e até fora do país.

A grande questão ambiental é que os compradores não aceitam o fio encapado, com aquela camada plástica comum nestes produtos cuja finalidade é oferecer segurança contra os choques elétricos. Diante desta condição os vendedores de cobre queimam o plástico para poder vender e acabam cometendo mais um crime, o crime ambiental.

Diariamente em todas as comunidades da cidade é possível identificar a presença de queimadas de fio de cobre, principalmente à noite e nos finais de semana, quando não há fiscalização. A fumaça deste plástico é tóxica e pode causar graves problemas à saúde e ao meio ambiente.

A miséria é fruto da incapacidade do Estado em oferecer as mínimas condições dignas de vida para a sua população. A cidade está sob uma constante cortina de fumaça e de falta de interesse das autoridades.

Autor: Wagner Pacheco – publicitário e membro do Instituto Democracia e Cidadania

Revolução pela Educação – urgência de uma nova consciência

A chave para que o processo de humanização pela educação aconteça está nas pessoas e nas trocas que acontecem entre elas. Estas trocas acontecem por meio de um “fio invisível” que se forma na medida que existe uma boa comunicação, respeito e aceitação das diferenças, alegria pelo encontro e confiança no vir a ser de si e do/no outro.

A história da humanidade mostra o quanto as revoluções são necessárias para que hajam saltos no desenvolvimento humano. Passados os períodos da pré-história, o período clássico da Grécia e Roma antigas, a Idade Média, a Renascença – revolução das artes, a revoluções da ciência, da indústria e da tecnologia, faz-se urgente que a revolução da consciência humana se intensifique, caso contrário, tudo que se criou até aqui, pode voltar-se contra nós.

As tecnologias podem nos ensinar, mas não são capazes de nos educar. Nos tornam sujeitos mais informados, mas não sujeitos mais humanos, no sentido de sentir-se integrado a uma comunidade humana que se solidariza com “seus outros”.

A chave para que o processo de humanização pela educação aconteça está nas pessoas e nas trocas que acontecem entre elas. Estas trocas acontecem por meio de um “fio invisível” que se forma na medida que existe uma boa comunicação, respeito e aceitação das diferenças, alegria pelo encontro e confiança no vir a ser de si e do/no outro.

Para sermos humanos, não basta nascermos com a mesma fisiologia do homo sapiens. Precisamos nos desenvolver na maneira de viver em uma comunidade humana. Assim, a educação é o processo de transformação que acontece a partir da convivência, que nos leva a nos reconhecermos, também, no outro. É esta “ecologia” que forma, em nós, a capacidade de justiça, empatia e amor. Para Maturana (2014) é o amor que cria os “fios invisíveis”, pelos quais “desliza” a educação humana entre as pessoas.

Em tempos de alto desenvolvimento tecnológico, de conhecimentos prontos e de fácil acesso, as instituições de ensino de todos os níveis buscam se reinventar.

O momento de transição que vivemos requer o estabelecimento de novos paradigmas que tenham base em concepções mais integrativas, interdisciplinares e complexas – tecidas em rede, em contrapartida ao pensamento fragmentado e até mesmo descontextualizado que caracterizou o último século.

Não cabe mais a transmissão de conteúdos com ênfase na memorização sendo apresentados a estudantes enfileirados, debruçados sobre suas classes. O desafio é que os professores façam tudo aquilo que as máquinas não conseguem fazer, tal como dar sentido ao conhecimento, gerar emoção, ser exemplo de profissional comprometido, criar engajamento, etc… ou, seja, a pessoa que ele é, conta tanto quanto os conhecimentos que ele tem.

Além de ser um provocador e de instigar a curiosidade e a capacidade crítica dos estudantes, a fim de que eles sejam ativos nestes processos de mudança, o professor precisa estar consciente do quanto influencia seus alunos a serem boas pessoas e bons profissionais. Assim, o processo educacional não ocorre apenas no nível do saber, mas como defende Delors (1999), ocorre também com base nos pilares do fazer, conviver e ser.

A era digital chegou para facilitar a comunicação e ampliar a difusão de informações. Contudo, isso não significa que vai favorecer o desenvolvimento humano. O que temos em mãos só ganha sentido quando sabemos utilizar na direção do bem e do bem-estar das pessoas, conduzindo-as, como diz Cortella (2014) a um “Eu maior”, que ultrapassa o individualismo e enxerga o mundo ao redor como uma extensão de si mesmo, a partir da empatia e da sinergia que deve harmonizar as relações entre as pessoas, as coisas e o mundo.

Leia também minha primeira coluna publicada neste site: https://www.neipies.com/sobre-reflexao-empatia-consciencia-e-humanidade/

* Esta reflexão  foi publicada na Revista Água da fonte, revista da Academia Passo-Fundense de Letras, ano 17, Número 20, Dezembro de 2021.

Autora: Marilise Brockstedt Lech, Psicóloga Educacional, Doutora em Educação, Cadeira 39 da APLetras

O elo perdido

Nós somos o elo que an­dava per­dido. No en­tanto, ele sempre es­teve na nossa frente. Basta-nos mirar no es­pelho. O ver­da­dei­ra­mente hu­mano é ainda um projeto de fu­turo.

Há tempos a ci­ência in­ves­tiga o elo per­dido entre o ma­caco e o homem. Já há con­senso de que Darwin tinha razão. Até o papa João Paulo II, que não era de dar o braço a torcer, ad­mitiu a per­ti­nência do darwi­nismo. O que obrigou os bispos da Ar­gen­tina, adeptos fun­da­men­ta­listas do cri­a­ci­o­nismo, a sus­pender, nas es­colas ca­tó­licas, o en­sino de que entre Deus e nós não houve outros in­ter­me­diários senão AdãoEva.

Os cri­a­ci­o­nistas não podem ir além da ideia de um deus oleiro que, tendo brin­cado com ar­gila e so­prado o barro, deu vida às maquetes hu­manas. Se dessem um passo a mais na ge­ne­a­logia do pri­meiro casal fi­ca­riam en­ca­la­crados. Se Adão e Eva ti­veram apenas fi­lhos ma­chos, CaimAbel e Seth, como se ex­plica essa vasta des­cen­dência da qual fa­zemos parte? Se­ríamos todos fi­lhos e filhas de um pa­ra­di­síaco in­cesto?

Como os an­tigos he­breus não frequen­taram a uni­ver­si­dade e, por­tanto, es­tavam isentos da lin­guagem aca­dê­mica, abs­trata, em toda a Bí­blia não há uma só aula de dou­trina ou te­o­logia. Sua lin­guagem é a do mi­neiro, à base de “causos“. Vê-se o que se lê.

lin­guagem figurativa, própria dos povos semitas, trans­forma con­ceitos em ima­gens. O vo­cá­bulo he­braico ‘terra’ deu origem a Adão, e ‘vida’ a Eva, numa configuração plástica da noção de que Deus criou o mundo e a humanidade. O curioso é que o autor bíblico sugere que a vida veio da terra, o que só foi constatado pela ciência no século XIX, quando foram descobertas as leis da evolução do Universo.

A Bí­blia quer en­sinar apenas que Deus é o cri­ador do Uni­verso, in­cluídos os hu­manos que, em­bora obra di­vina, pa­decem de duas li­mi­tações in­trans­po­ní­veis: têm prazo de va­li­dade e de­feito de fa­bri­cação. O que a dou­trina cristã chama de pe­cado ori­ginal.

Isto é óbvio: todos morrem um dia, mal­grado as aca­de­mias de le­tras re­pletas de imor­tais, e não são poucos os que de­mons­tram grandes de­feitos de fa­bri­cação – ao longo da vida tornam-se cor­ruptos, men­ti­rosos, criminosos, opor­tu­nistas, se­gre­ga­dores, ma­chistas, homofóbicos, cí­nicos. Em suma, ho­mens sem qua­li­dade, diria Musil. E muitos com uma cu­riosa ten­dência para a po­lí­tica.

Quando teria se dado o salto do símio ao hu­mano? No dia em que um ma­caco uti­lizou um pe­daço de pau como ex­tensão das mãos, como mostra Stanley Ku­brick, no filme “2001, uma odis­seia no es­paço“? Ou no dia em que o oran­go­tango de­cidiu, ao con­trário de toda a fa­mília zo­o­ló­gica, deixar de comer quando tem fome e marcar hora para as re­fei­ções? Teria sido na­quela tarde de sá­bado em que o ma­caco tem­perou a caça com pi­menta e assou na brasa que res­tara de uma quei­mada pro­du­zida pelo re­lâm­pago, sem saber que in­ven­tava o chur­rasco?

Um ver­da­deiro hu­mano seria uma pessoa do­tada de cri­a­ti­vi­dade. Quem já viu uma casa de joão-de-barro com uma va­ran­dinha ou um pu­xa­dinho para abrigar o filho recém-ca­sado? Ocorre que a cri­a­ti­vi­dade é também um atri­buto dos ban­didos. Talvez seja me­lhor ca­rac­te­rizar o hu­mano por suas vir­tudes: uma pessoa ge­ne­rosa, al­truísta, ética, so­li­dária, amo­rosa, capaz de par­ti­lhar seus bens e dons. Isso existe?

Se es­ti­vermos de acordo que isso ainda é um pro­jeto, uma pers­pec­tiva, um sonho, então há que aceitar: o elo per­dido entre o ma­caco e o homem somos nós, essa ca­deia de ma­mí­feros que co­meça com a cu­ri­o­si­dade de Adão e Eva, que foram meter o nariz onde não eram cha­mados, à ge­ração atual con­tem­po­rânea de Biden e Putin! Aliás, dois bons exem­plos da es­pécie pré-hu­mana que tem o rabo preso; onde mete os pés cria uma ba­na­nosa e vive in­va­dindo o es­paço alheio.

Nós somos o elo que an­dava per­dido. No en­tanto, ele sempre es­teve na nossa frente. Basta-nos mirar no es­pelho. O ver­da­dei­ra­mente hu­mano é ainda um projeto de fu­turo. Caso con­trário, o pró­prio elo ha­verá de se romper e o pro­jeto hu­mano que­dará como uma utopia. Talvez re­a­li­zável em algum outro planeta onde haja abun­dância disto que tanto falta por aqui: vida in­te­li­gente.

Ou quem sabe o Cri­ador de­cida passar a limpo sua cri­ação pela se­gunda vez. Du­vido que vá des­truí-la com um novo di­lúvio. A água é, hoje, um bem es­casso. Deus é ge­ne­roso, não per­du­lário. Talvez o aque­ci­mento global seja o pri­meiro in­dício de que tudo ha­verá de virar cinza. Ou, quem sabe, nós mesmos apressaremos o apocalipse desencadeando uma guerra nuclear. Então um novo Gê­nesis terá início.

Des­confio que, no sexto dia, Deus criará ani­mais inaptos a de­sen­volver uma ca­deia evo­lu­tiva. E, no sé­timo, se re­cos­tará em sua rede no Jardim do Éden, porque nin­guém é de ferro, e con­tem­plará a be­leza do Uni­verso – agora livre da ameaça de um pe­ri­goso pre­dador descendente dos ma­cacos, o elo entre o que já não é e o que nunca foi.

“Nossa meta é nossa origem”, a clássica sentença antropológica de Karl Kraus, continua mais atual do que nunca. Para chegarmos a ela, talvez tenhamos de deixar de lado as preocupações com o umbigo de Adão e as certezas do macaco”.(autor Gilberto Cunha) Leia mais: https://www.neipies.com/entre-deus-e-o-macaco/

Autor: Frei Betto

FONTE:https://www.ihu.unisinos.br/628048-o-elo-perdido-artigo-de-frei-betto?fbclid=IwAR1S_1wVLdLabaxSF6votu30GbtoAuLRRtASnxsZCyBpo-uF7n4n-ScYLKM

Educar para a emancipação ou para reprodução das desigualdades?

O paradoxo da educação é que se ela acaba por reproduzir desigualdades, sem ela não há a menor esperança. Políticas públicas é que podem e devem tornar a corrida mais igualitária.

Educar para quê? O tema é clássico. Emancipação ou reprodução das desigualdades vigentes?

 Odiado pela direita, Paulo Freire apostava todas as suas fichas na emancipação. Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron também trataram disso, em “A reprodução” (1970). De lá para cá, tudo mudou? Não. Basta ler os jornais para saber que tudo muda para não mudar tanto assim.

Os adeptos da ideologia tecnicista acreditam que basta a tecnologia mudar para que tudo mude, surgindo democracia virtual e educação igualitária. Triste ilusão.

Um título da Folha de S.Paulo do último domingo joga uma pá de cal em cima do otimismo de muita gente desinformada ou cruel: “Elite brasileira capturou até 65% dos ganhos com educação nos últimos 40 anos”.

Em poucas palavras, um mesmo diploma premia de modo diferente os mais pobres e os mais ricos, os homens e as mulheres, os brancos e os não brancos. Resumo da tragédia: os 10% mais ricos ganham 50% mais do que os mais pobres mesmo com a mesma formação.

Quem quiser saber mais sobre isso, que dê um Google e procure a pesquisa de Guilherme Lichand e Maria Eduarda Perpétuo, da Universidade de Zurique (Suíça) e Priscila Soares, da Universidade de São Paulo. Está tudo lá.

Acesse aqui: https://politicalivre.com.br/2022/11/elite-brasileira-capturou-ate-65-dos-ganhos-com-educacao-nos-ultimos-40-anos/

Houve um tempo em que se podia sonhar com um efeito quase automático da educação para gerar igualdade. Uma declaração de Guilherme Lichand, destacada pela Folha de S.Paulo, dá o tom: “Pelos resultados, podemos observar que, se duas pessoas conseguem um diploma de ensino médio, ambas vão ter recompensas pelo investimento de tempo e dedicação, mas essa diferença é 50% maior se uma delas for da elite”.

Como dizia Pierre Bourdieu, nas suas aulas no Collège de France, para desespero de muitos: “O dinheiro costuma procurar o dinheiro, a elite tende a se reproduzir”.

Parece, de certo modo, a corrida entre a lebre e a tartaruga no sentido inverso ao abordado pelo escritor argentino Jorge Luis Borges: a tartaruga corre um centímetro, a lebre salta um metro.

Lichand faz a demonstração: “De 1980 até 2021, vimos saltos nos anos de estudo. Uma fatia maior da população em idade produtiva concluiu o ensino fundamental (passando de cerca de 20% para 80%), médio (de 15% para 65%) e superior (de perto de zero para cerca de um quinto). Como mais gente começou a se escolarizar, o prêmio pela formação diminuiu na média”.

Na fábula hiperlógica de Borges, era a tartaruga que, por ter largado na frente, ganhava. Se a lebre corria um metro, a tartaruga movia-se um centímetro e continuava levando a melhor. Na dita vida real, as lebres da elite, mesmo quando carregam o mesmo diploma na pasta, correm sempre bem na frente. É o que se chama de vantagem estrutural.

O sistema privilegia os donos do sistema por mecanismos de transferência oficiosa de vantagens. Ainda bem que existem brechas.

O paradoxo da educação é que, se ela acaba por reproduzir desigualdades, sem ela não há a menor esperança. Políticas públicas é que podem e devem tornar a corrida mais igualitária.

Não é suficiente fazer discurso sobre a política e a democracia, não é o bastante deixar registrado em projetos educativos a exaltação da política para que, de fato, a instituição de ensino atinja este objetivo.  É preciso eliminar a diferença e a distância entre a intenção e a ação. (Autor José André da Costa) Leia mais: https://www.neipies.com/a-dimensao-politica-da-educacao/

Autor: Juremir Machado da Silva

FONTE: https://www.matinaljornalismo.com.br/matinal/colunistas-matinal/juremir-machado/juremir-educar-para-emancipar-ou-reproduzir-as-desigualdades/

O homem que plantava árvores

Em tempos de negacionismos e de certa desesperança ambientalista, vale a releitura do texto de Giono ou assistir a história em vídeo.

Um dos textos ícones do movimento ambientalista mundial é o clássico “O homem que plantava árvores”. Nessa obra, de 1953, originalmente intitulada “L’homme qui plantait des arbres”, o romancista francês Jean Giono (1895-1970) retratou, por intermédio do trabalho do personagem Elzéard Bouffier, a recuperação ambiental, via florestamento, da região de Provença, que não por acaso é a terra natal do escritor.

A força do texto de Jean Giono, que foi internacionalmente divulgado por grupos ambientalistas nos anos 1970, ganhando traduções para vários idiomas, fez com que muita gente, ainda hoje, pense que o pastor Elzéard Bouffier, vivendo isolado nas montanhas após a morte da mulher e do único filho, em meio a cabras e colmeias de abelhas, selecionando sementes e plantando árvores sem qualquer preocupação de quem eram aquelas terras, na primeira metade do século XX até a sua morte, aos 87 anos, em um asilo, em 1947, realmente existiu.

Giono, que se traveste de narrador da história, inúmeras vezes teve de publicamente esclarecer que Elzéard Bouffier nunca passou de um personagem criado por ele. Mas, em tempos de negacionismos e de (certa) desesperança ambientalista, vale a releitura do texto de Giono ou assistir a história em vídeo.

O filme a que me refiro, com narração em francês e legendas em português, pode ser livremente acessado no Youtube (https://www.youtube.com/watch?v=cLajBygxwOk) e, tanto pela plástica das imagens quanto pela qualidade da mensagem, é considerado por muitos, em todos os sentidos, como uma verdadeira obra-prima.

A história de Elzéard Bouffier pode ser encontrada em livro, no Brasil, entre outras edições de “O homem que plantava árvores”, no lançamento de 2018, pela Editora 34, com tradução de Cecília Ciscato e Samuel Titan Jr.

Jean Giono, na minha visão, foi muito feliz ao retratar, pelo caminho da literatura, o funcionamento do sistema climático, antes mesmo deste conceito ter sido criado. Tratou, indiretamente ou nem tanto, da intervenção humana, para o bem e para o mal, na mudança do espaço físico, a influência do comportamento das pessoas, o papel da preservação/recuperação ambiental na regulação do clima e as possibilidades de exploração econômica das paisagens, passando pela história europeia dos primeiros 50 anos do século XX, e sem deixar de lado as duas Grandes Guerras.

No final dos anos 1980, mais do que o conceito convencional de clima, definido pela geografia como o conjunto das variáveis meteorológicas que caracteriza o estado médio da atmosfera em um determinado ponto da superfície terrestre, ganhou força o conceito de sistema climático global, que envolve, além da atmosfera, também os oceanos e a superfície das terras e o seu uso.

Indubitavelmente, a interação entre os processos que acontecem na atmosfera, nos oceanos e na superfície da terra causa impactos no clima global.

Entender a mudança e a variabilidade do clima global e suas interações com a atividade humana não prescinde da compreensão do sistema climático global e suas funcionalidades. E, para esse entendimento, a ficção de Giono pode ser um bom começo.

Discutir criticamente esse filme (30 minutos de duração), em sala de aula ou em qualquer outro espaço, embora ciente de que se trata de uma peça de ficção, não creio que seja apenas uma sugestão desmesurada do autor. Assista ao vídeo, pelo menos, antes de tecer qualquer juízo de valor!

(Do livro Ah! Essa estranha instituição chamada ciência, 2021.)

Autor: Gilberto Cunha

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