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Brasil: Pátria dos índios

Os domínios territoriais dos índios sobreviventes ainda são esbulhados. O crime organizado, chefiado por diletos de homens do poder exploram também hoje, de forma vil e cruenta, as terras que desmatam e queimam. Tudo isso em terras que deveriam ser preservadas por força de lei.

A origem mais fiel ao nosso território, ainda antes da ação dos descobridores, e os ditos desbravadores, é a população indígena. A crueldade dos invasores europeus dizimou povos nativos.

O Brasil, como outros países, formou seu estado matando a mais digna fonte de vida, o dono e morador desta terra. E foram séculos de exploração cruel, consolidados pela hegemonia de setores dominantes na produção sob a égide do sistema oligárquico na escravidão. Esta estabeleceu consciência maligna que perdura até hoje. Negros trazidos da África morriam trabalhando ou eram mortos na torpe submissão que formou a casta dos ricos donos de engenhos, plantações, mineração e extração de madeira.

Os domínios territoriais dos índios sobreviventes ainda são esbulhados. O crime organizado, chefiado por diletos de homens do poder exploram também hoje, de forma vil e cruenta, as terras que desmatam e queimam. Tudo isso em terras que deveriam ser preservadas por força de lei.

A mineração clandestina é o funeral do solo fértil dos ribeirinhos e povos nativos. A resistência secular dos quilombos é atacada por hordas de usurpadores. Os rios assoreados são contaminados pelos resíduos impiedosos de mercúrio dos mineradores. Morrem os peixes que alimentam tribos e caboclos ribeirinhos. A fiscalização das glebas destinadas aos povos que sobrevivem ali preservando rios e nascentes, foi drasticamente desativada. Grupos armados instalados em balsas de garimpagem repelem os moradores que ousam impedir a exploração criminosa.

Nos últimos quatro anos, 570 pessoas morreram no território amazônico, especialmente crianças e idosos. Em Roraima, na região de Boa Vista morreram 100 crianças indígenas no ano passado.

Os Yanomamis

No final de semana que passou, o presidente Lula, num gesto de compaixão com a fraternidade indígena Yanomami, cumpre o dever governamental de socorrê-la. O novo mandatário brasileiro viu cenas chocantes de crianças desnutridas, acometidas por pneumonia, diarreia e outras sequelas pela contaminação de mercúrio. São crianças que antes percorriam alegres as matas e se banhavam nos rios em águas limpas, agora esqueléticas. Adultos caminham tíbios e perdem o vigor para a caça ou o plantio nos pequenos roçados. Peixes estão morrendo. Falta água potável e alimento.

Urgente

O presidente brasileiro estava em companhia da ministra Nísia Trindade, da Saúde, a quem deu ordem imediata de assistência médica aos doentes indígenas.

A futura presidente da FUNAI, Noêmia Wapichana já alertava o governo sobre a situação e se mostrou tomada de esperança com as ordens de socorro determinadas por Lula. Alimentos já estão a caminho dos yanomamis. Certamente há outros focos de situação dramática como a morte pela poluição dos rios nas reservas indígenas. Força especial vai repelir a violência de mineradores que afligem a vida das pessoas, florestas e rios.

Deplorável

Os líderes inconformados com a derrota na disputa presidencial são chamados a uma reflexão sobre a realidade dos fatos. É preciso recuperar entre os simpatizantes a apreciação cordata do resultado eleitoral, de modo a afastar o extremismo delirante.

Todos sabem que o novo presidente foi eleito legitimamente. Provocações, piadas de mau gosto, zombarias inócuas, mentiras que desinformam, ou maldades perigosas não são apropriadas para o momento. Isso de qualquer lado do certame eleitoral.

Aos vencedores, por exemplo, cabe a observância que dizia aos romanos “bis vincit qui se vincit in victoriam” (vence duas vezes quem vence a si mesmo na vitória). Ocorre que os ânimos estão fervendo. No Senado Romano, quando alguém comentava o resultado inesperado dizia “vox Populi, vox diaboli”. Quem obtivesse a vitória dizia “vox Populi vox dei (a voz do povo é a voz de Deus). Até esse ponto é normal a tolerância.

O que tem perturbado o momento brasileiro é a pregação insana de dirigentes, que se ocultam nos atentados promovendo dissonância cognitiva. Nitidamente contra a Constituição que defende o princípio democrático. Aliás, teorias conspiratórias e esdrúxulas não são mais aceitas nem mesmo por bolsonaristas sadios. Mentiras são deploráveis ao mínimo bom senso e vão prejudicar até os fanáticos teleguiados.

Sigamos!

Assista matéria sobre esta triste realidade dos indígenas Yanomamis no Brasil:

Autor: Celestino Meneghini

Os diversos Pelésinhos da minha rua

Ao rei do futebol, Pelé (in memoriam)

As palavras do presidente eleito e diplomado Luiz Inácio Lula da Silva (PT) abrem este texto cheio de emoções e saudades “Eu tive o privilégio que os brasileiros mais jovens não tiveram: eu vi o Pelé jogar, ao vivo, no Pacaembu e Morumbi. Jogar, não. Eu vi o Pelé dar show.”

Todo mundo quer ser um Pelé nalguma coisa é ser o melhor, é ser o absoluto, o maior. Eu mesma já fiz 1.000 poemas e 1.000 ilustrações. Cada um de nós quer ser um Pelé naquilo que faz. Ficamos vazios. Ficamos sem o número 1.000. Somos agora, por enquanto, 999, mas só por enquanto. Logo encontraremos mais um Pelé porque o verdadeiro nunca morrerá nos nossos pensamentos.

Eu sempre quis escrever este texto falando sobre os meninos Pelésinhos da minha rua, mas sempre me faltou inspiração para terminá-lo.

De repente, depois de ouvir pela televisão a notícia do falecimento do rei do futebol, o nosso amado Pelé, eu não podia deixar para depois esta escrita para imortalizar Pelé e os momentos que vivo a cada dia que abro a janela da frente da minha casa e vejo a meninada jogando bola.

Sei que em toda rua tem menino brincando de bola, mas os da minha rua têm um encantamento que me faz chorar, sorrir e se emocionar com as suas bolas de todos os tipos: meias, couro, plástico e até mesmo de papel.

Eu sempre gostei de futebol. Leio toda as notícias futebolísticas dos jornais da minha cidade e tive o privilégio de morar perto de dois grandes jogadores de times profissionais.

Os meninos Pelésinhos da minha rua vestem calções coloridos, muito raramente usam camisas e estão sempre descalços. Eles não têm muito. E a maior diversão deles é jogar bola.

A partida de futebol desses meninos não tem preconceito, aproxima os que estão aborrecidos, traz o mais tímido para o gramado imaginário e não deixa de fora ninguém, nem mesmo o que não entende nada de bola. Todos podem participar do jogo, só basta chutar a bola pro gol e pronto!

O futebol é o esporte mais próximo de toda criança pobre, pois com apenas uma bola de qualquer pedaço de pano eles fazem a brincadeira. Gosto, ainda, de ouvir o futebol pelo meu velho radinho de pilha. Escrevi há alguns anos um livro de poemas sobre o futebol e um conto engraçado intitulado “Pelada de rua” falando dos meus meninos.

Vivemos no país do futebol. É daqui que saem os melhores jogadores do mundo. Que importa se perdemos o hexa? Claro que choramos e ficamos tristes, mas temos o futebol mais bonito que se pode ver em qualquer lugar do universo, o gingado, o drible, o gol de bicicleta, a caneta e o voleio de Richarlison que nos fez felizes por alguns dias da Copa do Mundo de 2022. O futebol tem as suas glórias e o Brasil é um dos maiores campeões deste esporte. Afinal, somos pentacampeões.

Não é à toa que gosto de ouvir mamãe falando dos tempos em que escutava o locutor da rádio gritar o nome de Pelé quando ele marcava os seus lindos gols, na calçada da casa da sua madrinha rodeada por todos os vizinhos, parentes e amigos que ali residiam. Ela conta, com nostalgia, do quanto era bonito e emocionante quando Pelé fazia um gol e o povo comemorava com alegria e fogos de artifícios na rua.

Diante de tanto ódio e violência vividos pelo nosso povo brasileiro, atualmente, o que nos une e o que nos traz alegria ainda é o futebol. Esses onze jogadores num campo com grama verde e uma bola de couro pra lá e prá cá.

Eu me lembro bem da minha bisavó que não entendia bem de futebol ficar preocupada com os jogadores cansados e suados sem saber direito por que eles corriam tanto atrás daquela bola. Eu dizia na minha inocência de criança que sabe tudo “é pra fazer o gol, vó.” O gol era o que importava pra mim e eu torcia para os dois times ao mesmo tempo. Era a criancice explodindo no meu coração de menina feliz.

Os meninos Pelésinhos da minha rua arrancam pedaços dos pés no calçamento de paralelepípedos, gritam os palavrões mais absurdos que uma pessoa possa ouvir e param a bola quando um velhinho vai passar. Sim, eles têm respeito pelos velhinhos. Quando fazem um gol não importa a hora, eles gritam comemorando. Muitas vezes eles jogam até de madrugada, principalmente quando está chovendo.

Como não podia faltar, em toda rua que tem Pelésinhos com bola no pé também tem uma mulher brava, ranzinza e que odeia ouvir gritaria de menino. Pois bem, aqui a gente também tem quem prenda a bola e não devolva mais, quem corte a bola no meio e acabe a brincadeira, quem tem pancadas no portão de alumínio de casa diversas vezes com o chute do menino que vem lá do meio da rua. Há homens e mulheres na minha rua que não são muito chegados a essa coisa de menino jogando bola perto das suas casas.

Se eu pudesse dava de presente para os meus Pelésinhos uma chuteira para cada um, porque os vejo jogando com os pés descalços.

Eles não reclamam e quem vai reclamar de uma brincadeira legal que é jogar bola na rua? Eles nem ligam se têm ou não chuteiras. Querem mais é se divertir. Querem mais é fazer muitos gols.

Também temos o nosso rei do futebol que já está perto de completar o gol de número mil. É um menino apaixonado por futebol com três irmãs pequenas que todos os dias ele vai deixar e buscar na escola. Como é bonito saber do sonho dele de ser reconhecido nacionalmente como um grande jogador!

A bola parece saber quem é o jogador perna de pau da minha rua porque ela sempre sai do pé dele direto para a janela da casa de um dos moradores. Já tivemos janelas quebradas, bolas que entraram dentro de casas e quebraram vasos, derrubaram quadros das paredes e até mesmo bola que foi chutada para tão longe que atravessou toda a casa e foi parar no quintal do vizinho. Aí a meninada fica desesperada no meio da rua, com as mãos na cabeça, esperando a danada da bola voltar cortada e torcendo para que isso não aconteça.

Todos os meninos Pelésinhos da minha rua querem ser iguais ao rei Pelé, ou seja, tornar-se o maior jogador de futebol do mundo. E como não poderia ser diferente, depois da notícia da morte do nosso rei, os meninos já estão de bola no pé, novamente.

Espero que não haja confusão porque o dono da bola tem o costume de quando estar perdendo o jogo pegá-la e acabar com a brincadeira indo para casa, aborrecido.

O futebol é um esporte que une famílias. Vejo todos os domingos os pais que vão aos estádios da minha cidade levarem suas esposas e filhos para assistirem os jogos dos seus times preferidos. Na hora do gol todos somos iguais e nos abraçamos uns com os outros na comemoração. Teve um Natal que eu dei doze bolas aos meninos Pelésinhos da minha rua. Foi uma festa grande.

O nosso rei Pelé morreu na data de hoje, 29 de dezembro de 2023, mas deixa um legado grande para a meninada que gosta de futebol. Será que existe algum menino que não goste? E por falar em menino, lembrei-me da única menina da minha rua que é jogadora de futebol desde criancinha e que já ganhou várias medalhas em torneios escolares.

Assista a vídeo: O que Pelé fez pelas crianças? https://www.tiktok.com/@flaviodata/video/7180079365999316230?is_from_webapp=v1&item_id=7180079365999316230

O jogador e rei Pelé além de grande homem tinha um carinho e um sorriso maravilhosos. Ver e reviver seus jogos e gols será a coisa que mais farei nos próximos dias ao lado de mamãe. O futebol fica mais pobre na data de hoje. O seu clube de futebol, o Santos, vai agora à procura de um novo rei porque o trono não pode ficar vazio por muito tempo.

Precisamos de um rei. Qual menino se habilita a ser o novo rei do futebol?

E por falar em menino eu lembro que tivemos nesta última Copa do Mundo, uma seleção brasileira com jogadores jovens, quase meninos, com idades entre 21 e 23 anos. Que esses jovens jogadores continuem brilhando pelos mais diversos gramados e quem sabe surja dessa nova geração um novo rei.

Não duvido que o novo rei do futebol saia da minha rua, pois aqui a meninada sem brinquedos caros e, ainda, sem viver com os rostos colados numa tela de celular o que eu só agradeço a Deus todos os dias, passa o tempo todo jogando bola. De tanto jogarem vão ficar especialistas e craques na bola. Eu quero é que façam muitos gols e continuem parando a bola quando um idoso for passar no meio do campo.

Faz pouco tempo que entendi o que é impedimento e para que serve um atacante. Ainda me perco com as atribuições de um lateral esquerdo ou direito e com um centroavante. Não consigo entender muito bem alguns conceitos do futebol, mas sou uma grande torcedora do Corinthians e da seleção brasileira que me perdoem os flamenguistas.

Fico triste quando um jogo é decidido nos pênaltis porque nem sempre ganha o melhor e sim o que tem mais sorte e melhores batedores. Porém, sinto uma emoção bastante grande e paro para ver os jogadores nervosos se prepararem para bater os pênaltis enquanto o goleiro se torna o herói ao segurar um deles.

Aqui na rua os meninos Pelésinhos não costumam decidir os jogos assim, eles preferem decidir no tempo que passa e passa muito rápido, no tempo que houver fôlego para correr e vontade de brincar.

Ah, mas eu quase me esqueço do pedido de copo de água. Isso é costumeiro. Sabem que se forem para casa as mães vão mandar tomar banho e não mais deixarão voltarem, então eles correm às casas dos moradores mais velhos porque sentem mais carinho pelos pequeninos e costumam pedir um copo de água. Com os rostos suados e o coração saindo pela boca, tomam a água e ainda reclamam se não estiver geladinha. Estes são os nossos meninos Pelésinhos da minha rua.

O nosso amado rei Pelé parte para a eternidade, o trono agora vazio chora junto com a bola.

Assista a vídeo: Pelé, o rei do futebol é também patrimônio da história. https://youtu.be/EfuoGxpPnfA?t=173

Os meninos Pelésinhos da minha rua continuarão jogando futebol e sonhando com muitos gols. Com chuteiras ou pés descalços eles fazem a alegria de mamãe que aos 77 anos de idade gosta de presenteá-los com pirulitos e pipocas. É gol, dona Iracema! Viva Pelé! Viva os meninos Pelésinhos da minha rua!

Finalizo o meu texto com as palavras do grande jogador português por quem tenho imensa admiração, Cristiano Ronaldo, que nos diz: Os meus profundos sentimentos a todo o Brasil, e em particular à família do senhor Edson Arantes do Nascimento. Um mero ‘adeus’ ao eterno Rei Pelé nunca será suficiente para expressar a dor que abraça neste momento todo o mundo do futebol.

Uma inspiração para tantos milhões, uma referência do ontem, de hoje, de sempre. O carinho que sempre demonstrou por mim foi recíproco em todos os momentos que partilhámos, mesmo à distância. Jamais será esquecido e a sua memória perdurará para sempre em cada um de nós, amantes de futebol. Descansa em paz, Rei Pelé.”

Autora: Rosângela Trajano

Escrever não rende prêmios, mas permite reconhecimentos

Nada de imitar seja lá quem for (…) Temos de ser nós mesmos (…) Ser núcleo de cometa, não cauda. Puxar fila, não seguir. (Monteiro Lobato)

Desde dezembro de 2014, empreendemos um site. Sabíamos, desde o princípio, das dificuldades de manter e construir uma ferramenta como esta, guardando sentido e valor à sua existência. Mas, para além da vontade de comunicar, sempre tivemos clara intencionalidade: publicar conhecimentos que humanizam.

O site www.neipies.com nasce para constituir-se numa referência de publicações autorais, no estilo crônicas, construídas por sujeitos que se agregam para pensar o processo de humanização, através dos conhecimentos críticos, reflexivos e colaborativos.

O público que desejamos envolver e comprometer com esta ferramenta digital são profissionais da educação, estudantes, lideranças sociais e quaisquer interessados nas temáticas Educação, Cidadania e Espiritualidade. As publicações estão organizadas por colunas de Convidados/as e divididas em Seções: Protagonistas da Educação, Reflexões e Atividades, Entrevistas e Excertos.

Confira aí: https://www.neipies.com/secoes-especiais/

Para além de elegermos clara intencionalidade, fomos também fundindo a iniciativa do site com algumas das nossas mais importantes convicções. Passamos a relacioná-las.

Cremos que a escrita é uma prática social que deveria ser exercida pela maioria das pessoas. Escrever não deveria ser uma tarefa restrita a alguns poucos que, quando escrevem e registram, passam a ser considerados como importantes referências de novas descobertas e novos conhecimentos. Escrever deveria cumprir também com a necessidade de cada ser humano apropriar-se da sua história, dos seus conhecimentos e dos seus pensamentos.

Como profissional da educação, entendemos a necessidade urgente de professores e professoras escreverem sobre as suas práticas e registrar os seus conhecimentos e as suas concepções sobre o “fazer” da educação, sobre a sua práxis. Enquanto nos abstivermos de falar e registrar nossos conhecimentos, nossas percepções e nossas práticas educativas, mais abriremos espaços para que quaisquer outros profissionais digam o que deve ser feito na educação.

Outra convicção que nos move no empreendimento do site é a importância de que reflexões e escritos falem, diretamente, de professor para professor. O site é pensado a partir de uma lógica de trocas e reciprocidades, num constante aprender-refletindo. Por isso, em maioria, nossos Convidados são professores e professoras de sala de aula, ou profissionais que mantém vínculos diretos e próximos com a realidade da educação brasileira.

Conheça os Convidados: https://www.neipies.com/autores_convidados/

Cremos, ainda, que mudanças na educação, sobretudo mudanças de práticas docentes, ocorrem quando educadores e educadoras fazem o exercício de reflexão de suas práticas cotidianas, através da sistematização. Sistematizar práticas docentes é uma forma eficiente e prática de apropriar-se de novas posturas e compreensões acerca do nosso fazer pedagógico. Mais do que nunca, precisamos pensar e ressignificar as práticas docentes para sairmos da condição de meros executores de metodologias já prontas (pensadas por outros) ou de sermos apenas tarefeiros da educação.

Acrescemos, ainda, a incorporação de práticas da leitura e de escrita que realizamos junto aos estudantes em nossas atividades docentes, bem como o amor e o gosto à literatura. Acreditamos que um professor que nutre gosto pelo seu trabalho, bem como o gosto pela leitura e escrita, alimenta em seus educandos o desejo de ler e escrever. Fazemos isso demonstrando a estes as limitações e os desafios permanentes do ler e do escrever, pois nunca somos “escritores”; sempre estamos sendo.

Destacamos a importância dos profissionais da educação encontrarem o seu lugar de fala, de terem a possibilidade de escrever e refletir sobre os desafios educacionais. Na medida em que estes escreverem sobre a realidade educacional, mais a educação será valorizada e aumentará o protagonismo por parte daqueles que são imprescindíveis para a educação acontecer.

Resultados e reconhecimentos do site

O site já contou com a colaboração de 75 pessoas Convidados/as. Editamos semanalmente, aos finais de semana, 04 a 06 publicações, 20 a 24 publicações mensais. Já foram editadas mais de 1300 publicações.

O alcance médio das publicações é de 500 acessos, sem quaisquer “impulsionamentos” em redes sociais. Fizemos a escolha de divulgação do site e das publicações em grupos de diferentes redes sociais, pela newsletter da página e por engajamento orgânico e permanente de leitores e leitoras.

Fechamos 2022 com mais de 750 mil acessos globais no site. Ao longo dos últimos dois anos, os acessos somaram mais de 200 mil/ano. Nesta perspectiva, projetamos o alcance de 1 MILHÃO DE ACESSOS até o final de 2023.

Na medida em que passam os anos, renovamos energias criativas e desejos de reconhecimento da iniciativa do site, tendo em vista maior alcance repercussão entre interessados no seu propósito fundante: a educação e a formação humanizadora.

Embora escrever não renda prêmios, o reconhecimento que recebemos através de centenas de milhares de leituras e acessos no site nos estimula a semear a força das palavras e dos bons conhecimentos, com vista a nos humanizar.

Qual é a finalidade da escrita? Assim profetizou Eduardo Galeano: “Escrevemos, na realidade, para as pessoas com cuja sorte, ou azar, nos sentimos identificados. Os que comem mal, os que dormem mal, os rebeldes e humilhados desta terra, e a maioria deles não sabe ler”.

Nei Alberto Pies, Editor do site.

A importância de uma formatura de Ensino Fundamental sob a ótica de uma escola

O mês de dezembro de todos os anos letivos marca a história de uma Escola de Ensino Fundamental. A chegada dos estudantes ao nono ano do Ensino Fundamental é a maior conquista e o maior troféu que a escola pode exibir. É a demonstração de uma caminhada que se traduz em uma história que envolve superação, dedicação, amor e afetividades, desafios de aprendizagem e muita convivência.

Nesta matéria, faremos uma breve memória da formatura dos nonos anos de uma escola da rede municipal de Passo Fundo, a Escola de Ensino Fundamental Zeferino Demétrio Costi, em evento que ocorreu no dia 16 de dezembro de 2022. Esta memória compõe-se de mensagens da equipe gestora e da professora madrinha da turma, bem como da publicação de algumas fotografias do evento.

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Mensagem da Diretora Lucelene Segat da Costa:

“Quem escuta estas palavras não imagina a amplitude do seu significado como escola. Formar alunos no seu nono ano de ensino para nós, gestão e docentes, significa olhar uma caminhada de 3/5 da vida destes adolescentes dentro da escola. Olhar para os formandos e ver, sentir nas suas ações, palavras e atitudes o que se tornaram e saber que a escola teve sua parcela de influência nestes resultados é o momento mais esperado do ano letivo. Representa para nós, escola, um ciclo encerrado com chave de ouro e consciência de dever comprido. É esta sensação que gostaria de dividir com todos e todas, de muito orgulho do nosso grupo de professores ZDC.

Pais de formandos, a mensagem que deixamos para vocês é muito simples: continuem sendo no Ensino Médio os pais presentes que foram no Ensino Fundamental. Seus filhos cresceram, mas ainda precisam de vocês em suas vidas escolares. Se fazer um(a) filho(a) “passar mico”, como eles dizem, é ir na escola saber como estão indo, quem são seus amigos, ir buscá-los na escola de vez enquanto, FAÇAM. Eles precisam de vocês. Não os abandonem porque estão no Ensino Médio.  Lugar de família é ao lado da escola. Esta parceria nunca sai de moda. Gratidão pela confiança deposita no ZDC.

Formandos, dia de formatura é dia de ponto final. É dia de ser feliz, abraçar, chorar antecipando a saudade de 9 anos ZDC. Deixo 3 conselhos para vocês.

Primeiro: Nunca desistam dos sonhos de vocês, vocês podem ser o que quiserem; basta focar e lutar. Não vou dizer que é fácil, mas o resultado das coisas mais difíceis de nossas vidas são as melhores. Capacidade todos vocês têm, corram atrás.

Segundo: Nunca esqueçam que os melhores amigos de vocês, que vão estar ao lado nos dias bons e nos dias mais difíceis, que são as suas famílias. Honrem pai e mãe. Eles sim, nunca, te abandonam. Cada um do seu jeito, mas querendo sempre o teu bem. Nunca duvidem disto.

Terceiro:Vocês hoje estão saindo do ZDC, mas o ZDC nunca sairá de vocês. Fizeram história, deixaram marcas nesta escola. Estão eternizados na foto de formatura na parede da escola. Não esqueçam que aqui foi o lugar do primeiro de muitos degraus de sucesso que terão na vida acadêmica.

Mas, acima de tudo isto; simplesmente sejam felizes, façam tudo com amor que o resto vem!

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Mensagem da professora Adriana Severo dos Santos, Coordenadora e Orientadora Educacional

Queridos alunos formandos, professores, equipe gestora e famílias ZDC!

Hoje a professora Adriana não vai falar de provas multidisciplinares, cronogramas, atividades com vocês. Hoje venho falar com o coração.

Há exatamente 9 anos atrás, as sementes foram lançadas em terra fértil, a escola ZDC. Muitos professores, a maioria que está aqui, acreditaram na força dessas sementes: cuidando, regando, adubando. Hoje, a comunidade escolar conhece e reconhece os frutos, que ainda irão amadurecer mais e se tornarão árvores.

Toda árvore, um dia foi semente!  Vocês, no tempo certo, também lançarão suas sementes! Este é o ciclo!

Essa turma nos mostrou duas verdades absolutas:

A primeira verdade é que a fórmula FAMÍLIA + ESCOLA = SUCESSO ESCOLAR. Posso afirmar que, as duas instituições têm funções específicas e fundamentais, mas quando aliadas e parceiras os resultados serão significativos.

A segunda verdade é que a missão da escola e o trabalho de nós professores, nunca serão em vão. A função e o papel da escola continuará insubstituível para a construção de uma sociedade mais justa, igualitária e humanitária.

Desejo a vocês: sorriso fácil, coração bondoso e que todas as oportunidades, escolhas e elogios reforcem o que há de melhor em vocês. O quanto erramos ou acertamos não importa. O importante é o que vocês, formandos, nós, professores, e famílias conseguimos realizar.

Hoje é dia de festa! Parabéns!

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Mensagem da professora Madrinha da turma, Graziela Bergonsi Tussi.

Queridos amigos:

O que é uma relação de amizade? Segundo o dicionário Michaelis, significa “sentimento de afeição, estima, ternura etc. que une uma pessoa a outra”. Eu diria que a pessoa que escreveu o verbete do dicionário não conviveu com a gente. Porque, o que temos, é muito maior.

Durante esses 5 anos em que a gente conviveu, aprendi muito com vocês. Aprendi que não tem problema eu chorar em sala de aula, porque a vida de docente é um eterno desafio. Aprendi que para ser um bom professor é preciso estudar muito, todos os dias, seja informática, ciências ou geografia. Que os alunos são curiosos e que as perguntas vêm em forma de enxurrada. Temos que estar preparados, anotar tudo, devolver na semana seguinte. E tudo bem não saber algo, ninguém sabe tudo, estamos no mundo para aprender.

Aprendi COM e POR vocês a ser uma professora mais criativa, a buscar o diferente, e saí da zona de conforto, e se me tornei hoje professora de Cultura Digital, boa parte dessa trajetória devo à turma de vocês, que me ensinou (a duras penas) que o esforço vale a pena. Muito obrigada por isso.

Fui acolhida e busquei acolher cada um, em cada momento particular…. De dor física, dor da alma. Seja por termos perdido alguém que amávamos, ou por sentir um vazio por dentro, que não sabíamos como explicar, só estava lá. Meu ombro sempre esteve ali, meu WhatsApp também. Ajudei a tramar planos macabros contra os desafetos amorosos e depois dizia: mas isso tudo são suposições, não podemos fazer nada disso, tá? Só para acalmar os corações partidos.

E nessa relação, que foi algo além sala de aula, não foi só uma amizade que surgiu, foi amor. Eu amo vocês, e tudo que o universo tiver de brilho e de luz, eu desejo para cada um aqui, para sempre.

Mas além de mim, vocês também tiveram vários professores ao longo desses anos, desde o 1º até o 9º ano. Professores que hoje estão aqui cheios de orgulho por verem vocês conquistando sonhos, se tornando quase adultos, decidindo futuras profissões e caminhos, e pensando no que vem a seguir com responsabilidade.

O futuro, que parece ser assustador, temos certeza que será tirado de letra, porque vocês são alunos ZDC, pessoas fortes, que sabem o que querem, que são ótimos estudantes e também pessoas maravilhosas. Levem isso para a vida, que tudo estará bem.

Pensem em cada momento desses 9 anos que vocês ficaram conosco no ZDC, levem somente as boas lembranças, sintam sempre todo o amor e dedicação que a gente deu para vocês, e voltem quando quiserem, para nos contar qualquer coisa. Nos visitem, venham nos dar um abraço, ver como está a escola, pedir ajuda nos temas e trabalhos. Porque já somos muito mais que amigos, somos uma família, e sempre estaremos com vocês.

Um beijo e obrigada!

FOTOS: Fernando Colombelli

Formaturas de adolescentes do ensino fundamental são oportunidades para revelar saberes que humanizam a vida de estudantes e professores e anunciar o protagonismo que poderá mudar a vida dos mesmos. Leia mais: https://www.neipies.com/formaturas-de-estudantes-do-ensino-fundamental-e-seus-significados/

Sobre o ler, o pensar e o escrever

O triste é que muitas vezes faltam as palavras para dizer o que se pensa. Não é nervosismo, é pura falta de vocabulário mesmo. É o momento de não economizarmos vocabulário e, se possível, articular a fala com sujeito, verbo e predicado.

A leitura é uma atividade laboriosa que exige paciência e concentração. O ato de ler é uma atitude política, que põe em diálogo o leitor e o escritor numa relação de falas sem som. A leitura é também um exercício cognitivo solitário de refinação do raciocínio. Assim, a ato de ler e o ato de pensar é uma motivação de encorajamento para o leitor frente à página escrita.

A leitura, além de exigir silêncio e escuta, é uma busca da nominose, a luz interior que é a superação dos entraves psíquicos. A leitura feita com acuidade é sempre um ato terapêutico, em que o autoconhecimento coincide com a auto-emancipação. O hábito da leitura nos tira da situação de normose, que é a patologia da normalidade, a omissão frente aos acontecimentos do cotidiano.

A normose inibe a inteligência, gerando no escritor o terror da página em branco e no leitor a indolência da página escrita. Assim, pode-se dizer que o ato de ler e o ato de escrever são atividades coincidentes que exigem do sujeito, decisão e vontade para superar a inércia cognitiva, que é o emperramento da inteligência.

O movimento intelectivo encerra uma dialética entre o ler, o pensar e o escrever.

O ler é o exercício cognitivo de captar o conhecimento, o desfecho de um raciocínio manifestado em um signo ou num escrito. O pensar é o trabalho transcendental interno da mente, na elaboração conceitual e sintética da sensibilidade e da inteligibilidade. Já o escrever é a manifestação externa da inteligência em silogismos ou em categorias, como resultado de elaboração da mente. A atividade de ler, pensar e escrever são habilidades exigentes e muitas vezes penosas.

Assista a interessantes pistas sobre o ler, o pensar e o escrever, vídeo “Penso, logo, resisto”, de Gabriel Perissé.https://youtu.be/P9maGSUZDy4?t=5

Ler e escrever não se faz “no meio da galera”. Como já foi dito, são atividades que exigem silêncio, concentração, raciocínio, solidão, etc. É muito difícil exercer estas atividades no meio de uma sociedade do ruído como a nossa.

O silêncio e a escuta estão sendo cada vez mais escassos e exigentes para a tarefa meditativa. O silêncio psicológico e o silêncio físico são determinantes para exercer a práxis do ler e do escrever. Só escreve e lê bem quem conseguiu superar estes dois tipos de ruídos, os quais ajudam a superar os entraves de ordem psíquica e epistemológica.

A acuidade intelectual exige capacidade de abstração e certo pudor no uso das palavras. Exige também imaginação e sensibilidade afetivo-ambiental. O exercício de escrever é, acima de tudo, aprender a cortar palavras. Já o ato de ler é, na verdade, o ato de reler. Por isso, o ato de ler, para ser completo, deve exigir o ato de escrever, que é sempre uma tarefa lenta e gradual.

Não existe leitura rápida. Ler é uma arte. E toda arte exige tempo e ritual. No entanto, se a prática da leitura exige tempo, a prática de escrever não é diferente, exige também tempo e paciência. Um texto bem escrito é fruto de muito treino e de muita teimosia, o que significa muitas horas de leituras atentas.

Escrever bem não é só dom, mas dedicação empenhada de quem se põe na arte da escrita. Assim, o ato de escrever precisa de cultura, de conhecimento, de pensamento e de qualidade crítica. Esta bagagem de conteúdos só se consegue com muitas e cuidadosas leituras.

Ler e escrever são duas “faces da mesma moeda”. Assim, como a arte de ler exige assiduidade, a arte de escrever exige perícia. Para escrever bem, não é determinante ter o domínio total da gramática ou das regras ortográficas. Se isto fosse o último critério todos os gramaticólogos seriam escritores, o que na experiência não confere.

Há pessoas que não conhecem as regras da gramática e são excelentes escritoras. Na verdade, escrever bem é sempre reescrever, o que significa achar as palavras adequadas para expressar com coerência o pensamento.

Mas muita atenção nisto tudo: a base do ler e do escrever é o ato de pensar bem. “Quem pensa bem e fala bem, tem condições de escrever bem. Quem pensa bem e escreve bem nem sempre tem condições de falar bem”, afirma o escritor Polito. Com isto não se quer afirmar que quem escreve bem não fale bem, longe disso. Apenas quer-se afirmar que o aprendizado não é simples e tão automático, ou seja, não se aprende por osmose, sem esforço e dedicação.

O cotidiano é uma escola permanente. Um ponto de apoio salutar para quem trabalha com a palavra escrita ou falada é adquirir o hábito de antes de falar organizar o raciocínio.

Na relação entre emissor e ouvinte, escritor e leitor, isto seria uma prática importante. No dia-a-dia, deveríamos ser observadores atentos das formas de nossa comunicação e das formas de comunicação das outras pessoas do nosso convívio. Isto significa ter consciência dos nossos erros e lutar para corrigi-los.

Para superar os entraves de comunicação, o ler e o escrever são um exercício interessante.

Ultimamente, na minha experiência de professor e de assessor, tenho me apercebido em situações muito embaraçosas, de ficar empacado em meu raciocínio, de interromper a fala e esperar que o outro termine a frase ou a entenda incompleta mesmo.

Há tempo que estou dedicando-me no trabalho da leitura e da escrita para me livrar deste vício. Quais são as consequências? O risco de não sermos compreendidos, o de sermos mal interpretados nas nossas intervenções discursivas. Urge exercitarmos a nossa capacidade de verbalização e de articulação.

A reflexão sobre a comunicação vai além do ler, do pensar e do escrever. Ultimamente, tenho observado que muitas pessoas detentoras de cargos importantes se comunicam por grunhidos, pela inflexão da voz, pelo gesto, usando frases inteiras sem verbos.

É importante, antes de falarmos em público, pensar no sentido das palavras que vamos usar e fazer uma filtragem no raciocínio, antes de expressá-lo publicamente. É bom variar os adjetivos e alternar o uso das palavras sinônimas. É melhor fazer isto do que cometer gafes ou “trombar” nos verbos. É chegada a hora de superarmos o tempo do gerúndio.

E, finalmente, não adianta ler livros, descobrir novas palavras, não saber seu significado etimológico e usá-las aleatoriamente para dar a impressão de ser erudito ou de metido a intelectual. Há uma rede de vocabulários ativos, mas não sabemos usá-los. É necessário ativar o vocabulário adormecido. E o domínio correto das palavras só se consegue com o uso e a correção etimológico-silogística. “Não há nada mais horrível do que a prática de ficar substituindo as palavras por “esta coisa”, “este troço”, aquela pecinha”, sem falar nos cacoetes: “Humm”, “anhann”, “pois é, né”, “sendo assim”, etc..

O triste é que muitas vezes faltam as palavras para dizer o que se pensa. Não é nervosismo, é pura falta de vocabulário mesmo. É o momento de não economizarmos vocabulário e, se possível, articular a fala com sujeito, verbo e predicado.

Assim, o ler, o pensar e o escrever passam a ser atividades que nos darão uma comunicação segura, para não corremos risco de sermos pegos de surpresa pela lógica clandestina.

Assista vídeo “Brincando com as palavras”, de Gabriel Perissé. https://youtu.be/zuHGzdH7fUE?t=102

Autor: José André da Costa, msf .

Nas festas de fim de ano as crianças sofrem muitas violências

Começo este texto de hoje com a certeza de que neste Natal e Ano Novo toda criança terá um prato de comida na mesa. Assim espero. Assim desejo. E como quem sonha sempre alcança eu sigo em busca de um Natal melhor para as crianças que sofrem pelas comunidades e ruas do meu país ao Deus dará e que Deus lhes dê verdadeiramente muitas coisas boas.

Dentro dos meus versos que buscam compartilhar com você, leitor, a grandiosidade do Natal em mim que dizem que alegria trago nos olhos / vivo mais um belo natal / cada luz da cidade decorada / pisca para mim com esperança / de que voltarei a brincar / de que novamente farei peraltices / assim como pintar de azul os lábios do sol / ou quem sabe puxar a barba de papai noel / nasce o menino jesus / será meu maior amiguinho.

É Natal! Ficamos com o coração mais cheio de amor, solidariedade, fraternidade e benquerer. Somos contagiados pelo nascimento do Menino Jesus, pelo encanto do Papai Noel e pelas decorações natalinas espalhadas pelas ruas das nossas cidades.

No Natal só queremos ser felizes ao lado dos nossos amigos, familiares, parentes próximos e os que veem de distante, gente de todos os cantos do mundo querem estar conosco nas festas de final de ano. É tanta gente que a casa fica cheia. Não sabemos onde foi parar o gato ou cachorro da família.

Os papais muitas vezes bebem um pouquinho a mais de vinho, champanhe ou até mesmo cerveja. As mamães precisam dar atenção para as visitas e esquecem os filhos aos cuidados dos familiares ou amigos que chegam à casa com presentes que encantam a criançada, com carinhos e palavras de afeto que agrada a todos. No Natal as pessoas ficam mais solidárias porque o espírito natalino toma conta dos nossos corações.

Diante destas festas tão bonitas de Natal e fim de ano a gente nem percebe o quão grave é esquecer dos cuidados com as nossas crianças. Apenas por um instante, um minutinho, uma ida ao banheiro e as nossas crianças podem ser abusadas por um familiar, parente ou amigo que recebemos em nossa casa para confraternizar conosco o nascimento do Menino Jesus ou o Ano Novo.

Não quero aqui assustar ninguém e nem acusar pessoa nenhuma. Este texto é para alertar aos pais e responsáveis por crianças que não descuidem delas nem um segundo sequer, que prestem atenção a forma como as suas visitas se aproximam e falam com as suas crianças. Lembre-se que a violência sempre acontece através de um conhecido da família.

Com medo e sob ameaça a criança acaba não contando para os pais o que aconteceu no banheiro, no quarto de dormir, embaixo da mesa ou em outros lugares da casa onde ficou exposta aos cuidados daquela visita que os pais tanto confiam. A criança, muitas vezes, nem se dá conta que aquele carinho nas suas partes íntimas é um abuso sexual, uma violência, porque está sob o efeito encantador de quem pratica o ato com ameaças ou com mentiras a dizer que vai trazer mais presentes para ela iguais ao que trouxe naquela noite.

Nesta época do ano, nas festas de fim de ano, são constatadas muitas violências contra crianças de todas as idades no mundo inteiro.

É o tio que escorrega a mão por debaixo da mesa nas pernas da criança, é a vizinha que se oferece para dar banho na criança e arrumá-la para ceia natalina. Sim, não se enganem com as mulheres, pois existem muitas que também abusam de crianças.

Peço para que os pais estejam sempre atentos às reações, gestos, palavras e formas como as crianças se comportam diante das visitas das festas de fim de ano. Se a criança demonstrar estranheza, medo ou disser que não quer ficar perto daquela visita o melhor é tomar precaução e afastá-la da pessoa que causa este pânico tentando conversar com ela para descobrir o motivo de tanto pavor. Um diálogo que transmita confiança e que a criança não se sinta sob a pressão de ter que falar, mas que possa ser espontânea.

O abuso começa por onde menos esperamos, então todo cuidado é pouco. A quem mais confiamos as nossas crianças pode ser o adulto que abusa, violenta e agride emocionalmente. A violência quase sempre só é descoberta depois que a criança se torna mais grandinha, porém as marcas e o trauma já estão guardados no seu pequeno espírito causando dores e emoções diversas.

Os pais não podem se descuidar das suas crianças nestas festas de fim de ano. Não permitir que adultos fiquem sozinhos com as crianças ou que sentem à mesa próximos delas é um bom começo. Estar sempre de olho nas crianças mesmo quando estiverem apenas os adultos conversando. É preciso dar atenção às visitas, mas se um parente ou amigo se afasta dando uma desculpa qualquer ficar de vigília com o tempo que ele leva para voltar e saber para onde ele foi e o que está a fazer.

Os abusos e violências infantis se agravam a cada dia. As crianças menorzinhas não sabem como lidar com esse tipo de violência. Elas têm medo do abusador, porém não sabem expressar esta emoção porque ficam a pensar se realmente acreditarão no que ela contar, por isso os pais devem sempre ser sinceros com as suas crianças, ou seja, falarem a verdade sobre os seus corpos explicando que ninguém deve tocar nas partes íntimas delas, a não ser que estejam autorizadas para isso e que esta autorização seja dada na frente das crianças.

É triste saber disso, mas um grande número de crianças são abusadas e violentadas em datas que deveriam ser de paz e amor. Não pense, papai ou mamãe, que o abusador vai maltratar a sua criança com agressões físicas, ele também conhece tudo de empatia e amor. Ele sabe como ninguém mentir e fingir ser bonzinho. Sempre sorridente e solícito se oferece para fazer de tudo para que você não deixe de dar a atenção devida às suas visitas. Tome cuidado com esse tipo de pessoas, principalmente a que demonstra muita afeição pelas suas crianças.

Em tempos de amor e ódio, violências diversas, não podemos confiar em todo mundo, infelizmente. O mundo tem se tornado um lugar cruel para os adultos e mais ainda para as crianças que embaladas por presentes e mimos nunca antes recebidos nem percebem o abuso e acabam sendo uma presa fácil para o abusador.

O ideal seria que todos nós nas festas de fim de ano mantivéssemos um cuidado maior e mais intenso com os nossos pequenos, pois estamos frágeis e com os corações molengas e podemos acabar não percebendo também que as nossas crianças foram abusadas por aquele tio, tia, padrinho, madrinha, vizinho que tanto queremos bem e que dizem amar os nossos filhos.

Nunca deixe que uma visita leve a sua criança ao banheiro mesmo que seja alguém de confiança, mesmo porque a criança se sentirá envergonhada em tirar a sua roupinha na frente de uma pessoa que ela pouca vê ou que nunca viu. Como também não deixe o seu bebê nos braços de conhecidos sozinhos. Os bebês não têm como reagir a um abuso e, muitas vezes, o abusador faz carinho nas partes íntimas dele.

Na verdade, não é para ficar com medo de receber os familiares e amigos em casa. Apenas peço que não descuidem um só minuto das suas crianças. Não as deixem expostas com adultos que de uma hora para outra aprenderam a gostar delas. Desconfie se a sua criança faz birra ou chora quando um adulto chega perto dela. O abusador é sempre meigo e carinhoso. Ele não tem rosto e nem vestes para o definir. Pode ser qualquer pessoa, até mesmo o seu melhor amigo ou amiga.

Também não é preciso trancar a criança no quarto impedindo-a de participar da grande festa natalina ou de ano novo. Todo cuidado requer exceções.  A criança precisa aprender a estar com adultos e saber se cuidar dos abusos. A melhor coisa para diminuir a violência infantil é o diálogo sincero que os pais mantêm com as suas crianças.

Quando conversamos com as nossas crianças sobre assuntos de sexualidade, demonstramos responsabilidade e cuidados. Claro que a criança só precisa saber de determinadas coisas no seu tempo. Não precisamos sair colocando goela adentro da criança um monte de conceitos e informações que ela não vai saber processar. Uma coisa por vez. O ensinamento deve ser lento para que a aprendizagem tenha efeito.

Também faz parte do ensino-aprendizagem mostrar para a criança que ela deve ter cuidado com o seu corpo. Vejo muitas meninas com seis e sete anos somente de calcinhas expostas nas ruas e calçadas, o que acho prejudicial para elas, pois o abusador é cada vez mais estimulado ao ver aquilo a praticar o seu ato. Os meninos já grandinhos andam nus pelas ruas porque como homens não precisam esconder nada de ninguém, efeito do nosso patriarcado que acha que homem pode andar nu para cima e para baixo, mas isso só causa mais estímulo no abusador. Vamos evitar essas coisas.

Nas festas de fim de ano devemos comer, beber, brindar com os parentes, familiares e amigos, amar muito mais as pessoas. Sim, é isso que fazemos sempre. Estamos contagiados pela história de Jesus Cristo que é muito bonita. Porém, as crianças não podem ser entregues a estranhos ou pessoas conhecidas. Elas devem ficar sempre aos nossos cuidados.

A criança não precisa sentar-se no colo de ninguém para receber carinho, principalmente se ela não quiser. Nunca dizer para ela que isso é coisa feia ou que está envergonhando a família. Dá uma desculpa para a visita e permitir que a criança fique à vontade ao lado dela. Crianças são guiadas por anjos, elas conseguem identificar os abusadores, muitas vezes.

Na hora de abrir os presentes que todos fiquem juntos ao redor da árvore de Natal. Não precisa levar a criança para o quarto de dormir ou outro local para oferecer-lhe o seu presente, a não ser que seja acompanhada dos pais ou de um responsável. O bom mesmo é que as visitas estejam sempre todas juntas e que as crianças nunca fiquem sozinhas e longe dos olhos dos pais ou responsáveis. Ao menor sinal de abuso chamar a polícia sem se preocupar com o que vão pensar as outras visitas.

Se você ama verdadeiramente a sua criança, então cuide para que ela tenha um Natal e Ano Novo cheio de paz, carinho e amor. E que a sua integridade física e emocional estejam sob os seus cuidados atentos. O risco de colocarmos um abusador dentro das nossas casas nesta época do ano é muito grande. Certifique-se de que você conhece mesmo a pessoa que está convidando para a ceia de Natal e ainda assim não esqueça de deixar a sua criança sempre ao seu lado. O abusador sabe bem como lidar com crianças. Ele ou ela só querem uma chance para praticarem a violência.

Para terminar este texto que é mais um pedido aos pais e responsáveis por crianças quero desejar a todos vocês leitores, colunistas deste site, meus amigos e familiares um Natal abençoado e cheio de amor e um Ano Novo bem bonito e com muitas alegrias!

Assim, termino com os meus versos que dizem chega mais um natal / o menino jesus sorri / as crianças e flores passam por mim/ aves à procura de saudades dormidas nos corações dos homens que contam o tempo / lá em belém, no deserto / jesus abrirá seus olhinhos / quem estiver por perto ganhará dele um cheirinho / os anjos fazem festa no céu / estrelinhas correm lá e cá / faz-se natal no asilo ou na casa de papel desenhada pelo menino que espera pelo papai noel  / feliz natal para você leite ou mel dos lábios meus!

Autora: Rosângela Trajano

Um fenômeno intitulado “FINAL DO ANO”

A Guernica, Pablo Picasso

Ele geralmente aparece em meados de novembro, e gradualmente, vai transformando uma atmosfera pacata em um buraco negro. Os dias passam a ser mais longos para o pessoal do hemisfério sul, mas, a impressão que temos é a de que eles encurtam. Você começa a notar que as pessoas estão com pressa, sem um motivo aparente. E quando você percebe, se percebe, está com pressa também.

Há uma tentativa de fazermos tudo o que não fizemos no ano todo (e às vezes, na vida inteira) em menos de um mês. É a época do ano em que a solidariedade predomina no ar e começamos a utilizar o nosso frasco, com prazo de validade super perecível, de amor e compaixão.

O nosso inconsciente ainda não desistiu do comercial “chester Perdigão”, da família perfeita reunida, na Ceia de natal. Mas, quando as celebrações acontecem, a realidade sempre faz a gente quebrar a cara. Além de encontrar aquele parente infeliz, uma espécie de uma luzinha queimada no pinheirinho de natal, encontramos uvas passas no arroz!

No Brasil, o Papai-noel sofre, pois, ainda não passou pelo movimento antropofágico e continua utilizando as roupas de inverno.

É a época do ano em que os Santos removem os ouvidos, uma tentativa eficiente de não receber as promessas que nós mesmos sabemos que não somos capazes de cumprir. Mas, a gente promete, com a esperança de que alguém deve ganhar na Mega-Sena. Falando nisso, você já fez a sua aposta?

– Para começar o ano frustrado por não ter ficado milionário? –

As previsões astrológicas começam a nos animar e um ano maravilhoso há de chegar (com a margem de erro de uma pandemia). A gente resolve tirar férias, mas a cabeça fica no trabalho, e quando voltamos ao trabalho, a nossa cabeça resolve ficar nas férias.

E o ano termina [1] e começa outra vez!

Notas de Rodapé: [1] E então, esse fenômeno se dissipa, com previsões de retorno no final do ano que vem, graças aos ventos desanimados que empurram a maré do saco cheio. Em Janeiro, o buraco negro passa a ser preenchido pela nossa rotina, que também engole a nossa expectativa de mudanças e é digerida pelos nossos bons e velhos maus hábitos.

Autora: Ana P. Scheffer

… Sempre no cio

As estratégias para o enfrentamento do fascismo não contam unicamente com recursos centrados no discurso argumentativo, precisarão de estratégias de mobilização de afetos.

Ainda que aquele que dirigiu sua instalação no aparelho de Estado e que colaborou para que se expressasse com força na sociedade brasileira viva seus últimos e penosos dias de presidência, se o fascismo está “sempre no cio”, cabe muito mais do que celebrar esta derrota eleitoral e política estando desafiados a imediatamente construirmos caminhos de resistência permanente e de ação sistemática para uma vez mais derrotá-lo e reduzi-lo à convivência com os “cães de sua laia”, ao mínimo possível deles, neste ano em que é também do centenário da triste memória da Marcha sobre Roma (28 Out 2022) e no qual o povo brasileiro imprime um revés significativo ao fascismo à brasileira.

Não é momento de acreditar que tudo está resolvido. A extrema direita saiu fortalecida das eleições, o Congresso abrigará muitos de seus representantes mais ativos nos últimos anos e o agora já praticamente ex-mandatário também estará em ação (com qual legitimidade e força, ainda a ver).

A frase que é o epílogo da peça “A resistível ascensão de Arturo Ui”, de Bertolt Brecht: “A cadela do fascismo está sempre no cio”, faz lembrar que as práticas fascistas, as antigas e as atuais, patrocinadas pela extrema direita, não cessam e dificilmente serão eliminadas completamente. Ademais, bastaria que sejam criadas condições e retornam com força, particularmente em momentos de profunda crise e de falta de perspectivas coletivas fica como possibilidade para “salvar” o capitalismo, quando a democracia já não lhe favorece.

No mundo todo, estamos num momento no qual estas características estão presentes, com variações e forças nos mais diversos lugares, inclusive no Brasil.

A frase de Brecht lembra, todavia, que o modo do fascismo é antinatural, visto que o cio é uma realidade temporária na vida das cadelas, por volta de duas vezes ao ano. Seria, portanto, cíclico. Ao dizer que “está sempre” nesta condição de disponibilidade para acasalamento, alerta que o fascismo é um artifício fabricado como forma de organização e ação.

Sua presença, ainda que permaneça à espreita para retornar a cada tempo, não está sempre protagonista. E mais, se permanecer vigente como disponibilidade efetiva é porque estão criadas condições não naturalmente disponíveis para tal. Seria o caso de um “fascismo eterno”, ainda que nem sempre vigente em termos hegemônicos? E se assim o é, também haveria de ser a ação contra ele: precisará estar permanentemente vigilante e em resistência organizada.

O segundo aspecto presente na frase de Brecht é que o fascismo é comparado ao “cio”, um momento próprio no qual a cadela está disponível e desejosa de acasalamento. A comparação metafórica remete para o fascismo como uma experiência erótica, do campo do desejo, mais do que uma posição estritamente sócio-política e sustentada em bases racionais. Tem sim uma racionalidade, talvez uma das expressões mais perversas dela, mas não só. A dimensão erótica é, desde há muito, conhecida como importante para a vida social e política. Já está bastante documentada e estudada.

As estratégias para o enfrentamento do fascismo não contam unicamente com recursos centrados no discurso argumentativo, precisarão de estratégias de mobilização de afetos. Há uma subjetividade moldada ao fascismo e modelada pelo fascismo, uma subjetividade fascista, que passa pela “personalidade autoritária”, mas não só, também pelo lugar paradoxal da “ilusão” na vida em sociedade.

E entender isso não significa reduzir a abordagem do fascismo a uma questão estritamente individualista ou moralista. Requer que se tenha em conta estas dimensões, sem as quais a crítica ao fascismo poderá chegar à boas explicações, mas ainda insuficientes.    

As cadelas, assim como todos os animais, são seres com dignidade, aquela própria a seu modo de ser animal, e talvez não merecessem ser, nem metaforicamente, tratadas como portadoras do fascismo. Por isso, com a devida vênia, as cadelas nos ensinam, a nós humanos, que enfrentar o fascismo exige construir estratégias de denúncia sim, das práticas machistas, misóginas, patriarcais, racistas, lgbtiap+fógicas, normalistas, enfim, todas as práticas desumanizadoras, patrocinadas por ele.

Mas exige ir muito mais além e identificar as raízes que levam à sua adesão e que, certamente, entre elas está não aceitar que aqueles/as humanos/as, sempre tidos por “quase humanos” ou até “não-humanos” permaneçam não sendo incluídos na humanidade, num supremacismo escondido numa versão distorcida dos “melhores” que faz da aristocracia e da plutocracia o modelo de convivência (não compatível com a democracia popular).

Esta raiz está sempre junto com outra que é a que o capitalismo soube e segue sabendo valorizar demais, que é a concentração cada vez maior da riqueza pela expropriação dos bens comuns (os da natureza e os da sociedade).

A acumulação privada “pelos melhores”, aqueles “que merecem”, justifica que a desigualdade e a exclusão sejam aceitáveis e legítimas. Mais, que toda iniciativa de promoção da igualdade, da justiça social, da equidade… sejam vistas como ataques à ordem “natural” e exijam reações fortes, se necessário violentas, para mantê-la.

O ódio aos pobres (aporofobia), o ódio de classe, o ódio ao/à outro/a, é necessário, para enfrentar e eliminar o “inimigo maior” (o comunismo, o socialismo, os demônios…). Mas, retornando a Brecht, assim como o fascismo, ele não é natural. É intencionalmente produzido para guardar os “privilégios” e impedir o avanço do “todos/as”.

Querer um mundo no qual o fascismo, ainda que em cio, esteja controlado pela convivência social e por orientação política, requer reafirmar o “todos/as”, próprio de um universalismo de novo tipo, um pluriversalismo, no qual a diversidade da condição humana, que reconhece a cada singularidade como humanidade e a humanidade com presença em cada singularidade, sem que qualquer tipo de restrição moral, racial, sexual, geracional… se interponha como determinação condicionante para o exercício da vida em sociedade, a vida em comum.

Assim que, recolocar na agenda a igualdade e a não-discriminação como tarefa primeira da ação social e política é fundamental para enfrentar o fascismo.

Junto com elas, o compromisso para que sua realização seja dada em bases democráticas com a mais ampla participação direta, dado que direitos não se realizam nem por representação e nem por procuração. Isso não significa desconsiderar que vivemos em sociedades cada vez mais massificadas nas quais as práticas de reciprocidade podem já não ser suficientes. Por isso, a reconstrução dos espaços de participação direta exige que novas formas de proximidade sejam implementadas, sem o que, a indiferença e a apatia se alimentarão e alimentarão o fascismo.

Mascaro, em Crítica ao Fascismo, lembra que “[…] a maior parte das críticas ao fascismo, ao não alcançar a materialidade de suas causas, contribui para sustentar as condições de possibilidade e reafirmação de tal existência” (2022, p. 13). Alerta para as críticas liberais e as moralistas, insuficientes, nesse sentido.

Compreender o fascismo e enfrentá-lo requer identificar as bases de sua estreita relação com a reprodução do capitalismo, daí que reformas morais ou institucionais para seu enfrentamento sempre ficarão muito aquém do que é necessário para tal. Mas, elas não poderão ser dispensadas, ainda que precisem fazer parte de uma agenda de transformações muito profundas e radicais da vida em comum.

O desafio de fazer a crítica radical por “alcançar a materialidade de suas causas” é o que se coloca com principal agenda para os/as que acreditam que este não é um combate pontal, simplório ou circunstancial… pelo contrário, acreditam que fazê-lo é somar esforços para avançar na transformação profunda da realidade social, econômica, cultural e política.

Esta crítica é obra do discurso e da elaboração teórica, mas terá que ser também ação concreta e que chegue aos cotidianos dos mais pobres, sobretudo daqueles/as que seguem “engambelados” por falsas promessas.

Autor: Paulo César Carbonari

Compreender o sentido do Natal

Ao invés de alimentar o espírito comercial do Natal que muitas vezes aumenta o endividamento das famílias, deveríamos conceber o Natal como oportunidade de vida nova, marcada pelo bem querer, pela amizade autêntica, pelo convívio familiar fraterno, pelo senso de justiça, pela honestidade que constrói relações de confiabilidade.

Final de dezembro é marcado por duas grandes festas com intervalo de uma semana: Natal e Ano Novo. Em quase todos os lugares do mundo estas festas são celebradas de diversas formas: presentes, ceias especiais, árvore de Natal, fogos de Ano Novo, viagens, férias, encontros familiares, propósito renovados, programações especiais, corrida as lojas, promoções especiais são algumas das manifestações destas duas grandes festas que marcam o final de ano.

Mas o que esperar do novo ano? O que de fato celebramos no Natal? O que significa desejar “Feliz Natal” e “Feliz Ano Novo”? Será que ainda compreendemos o sentido destas festas? O que estamos ensinando as novas gerações sobre Natal e Ano Novo?

 Natal significa nascimento, renovação, vida nova. Os evangelhos de Mateus e Lucas descrevem os acontecimentos que marcaram o nascimento de Jesus em Belém, como sinal de esperança e de boa nova. De uma festa cristã, instituída pelo Papa Julio I no ano de 350 para marcar o nascimento de Jesus, tornou-se uma festa universal celebrada todos os anos.

Como não poderia deixar de ser, em tempos de globalização e de uma vida movida pelo comércio, o Natal de tornou um grande acontecimento comercial: as lojas mobilizam suas vendas, pois é a grande oportunidade de melhorar os lucros; os comerciais focalizam os holofotes para “o bom velhinho” que deve presentear a todos; as famílias correm as lojas para comprar seus presentes, porque afinal de conta “Natal é presentear quem se ama”. E assim se construiu uma cultura natalina que pouco lembra do sentido original do Natal.

Em tempos incertos, de crise ambiental, política, econômica, institucional e ética que tomou conta do Brasil, o Natal poderia se tornar a oportunidade de renovarmos nosso modo de vida, nossas condutas, nosso modo de nos relacionarmos, nossa percepção sobre as coisas.

Ao invés de alimentar o espírito comercial do Natal que muitas vezes aumenta o endividamento das famílias, deveríamos conceber o Natal como oportunidade de vida nova, marcada pelo bem querer, pela amizade autêntica, pelo convívio familiar fraterno, pelo senso de justiça, pela honestidade que constrói relações de confiabilidade.

Talvez seja o momento de ensinarmos as novas gerações que o Natal não se resume a dar presentes, enfeitar as vitrines das lojas para atrair consumidores, encher as casas com luzes ou preparar uma farta ceia.

Precisamos ensinar as novas gerações que o Natal é um momento de vivência interna de transformação que possibilita sermos melhores, mais autênticos, mais fraternos, mais tolerantes, mais amigos, mais honestos, mais solidários. Mas como o melhor ensinamento é o próprio exemplo, então não basta ensinar as novas gerações o sentido do Natal, pois precisamos testemunhar pelas nossas atitudes o Natal como renovação, esperança, vida nova. Assim, talvez, possamos compreender que a vida não se resume a ganhar dinheiro e a viver dia após dia nossa pobre existência de consumidores.

A vida é oportunidade de deixarmos nossa contribuição ao mundo, de ensinarmos aos outros que é possível construir um mundo melhor se vivermos coletivamente pautados pelo senso de justiça, do amor, da esperança e do bem querer. Talvez este seja um dos principais sentidos do Natal e é por isso que o Jesus Menino não nasceu em berço de ouro num palácio, junto aos poderosos, mas optou em nascer numa gruta fria de Belém, junto aos humildes.

O Natal pode nos ajudar a compreender que vida nova ou renovada não se materializa na troca de carro, na compra de presentes ou na ostentação dos enfeites natalinos.

A Boa Nova do nascimento de Jesus acontece quando somos capazes de sermos melhores seres humanos, quando adquirimos um senso de coletividade, quando somos capazes de compreender que nosso estar no mundo é finito, inacabado e limitado, não importando nossa condição social, nossa cor da pele, nossa crença religiosa ou nossa opção política.

O Natal de Jesus pode nos ajudar a compreender e a ensinar nossas crianças que fazer parte do mundo é responsabilizar-se por ele, para que possamos ter um lugar saudável e digno de viver para todos. Nesse sentido o Natal se torna pedagógico, formativo, educacional.

Como sabiamente nos diz Hannah Arendt, “a educação é o ponto em decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens”.

O nascimento dos novos que chegam são sempre sinal de renovação de esperança, de continuidade da espécie.

Ainda segundo Arendt, “a educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las do nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos”. Por isso Natal, significa também acolhida, responsabilidade, compartilhamento. “Renovar um mundo comum”, capaz de ser morada para todos, e não só para aqueles que se apossaram da riqueza e do poder, talvez seja o maior ensinamento do Natal e por isso precisa ser celebrado todos os anos.

Desejo a todos e todas um FELIZ NATAL!

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Familiares que brigaram devido à política devem se reunir no Natal?

Temos, necessariamente, visões destoantes em variadas coisas. Em contrapartida, não é difícil encontrarmos pontos em comum. Há desejo de superar o conflito e recompor a relação? Se não há, melhor manter distância, pois um encontro cara a cara aumentará ainda mais a ruptura.

Dependendo, sim; dependendo, não.

Há desejo de superar o conflito e recompor a relação? Se não há, melhor manter distância, pois um encontro cara a cara aumentará ainda mais a ruptura.

Mas não basta desejar recompor a relação, é necessário observar se os rompidos são capazes de ouvir, de calar, de encontrar pontos em comum, de se colocar no lugar do outro.

Reconheço que ouvir não é tarefa fácil. Prova é que livros foram escritos a respeito. A começar pela obra “como ouvir”, de plutarco (46-120 d.c.), escrita no ano 100 d.c. sim, há mais de mil e novecentos anos!

Calar também não é fácil. Em 1771, um livro foi escrito por Dinouart com o sugestivo título “a arte de calar”. Diz ele que, contra a febre de falar e falar (em política, por exemplo), é necessário que se cultive o “tempo do silêncio”. O silêncio pode ser mais que um simples silêncio. Pode ser uma maneira de fazer alguma coisa boa aos seus familiares e amigos.

Se a pessoa se considera capaz de ouvir e de calar, poderá observar outra qualidade muito útil para se ter um bom encontro. Refiro-me aos pontos em comum.

É fato que há pessoas que vivem procurando um ponto de discórdia em todas as suas relações. E encontram. Afinal, somos seres que fazemos trajetórias únicas, diferentes das dos demais.

Temos, necessariamente, visões destoantes em variadas coisas. Em contrapartida, não é difícil encontrarmos pontos em comum. Afinal, somos todos exemplares da mesma espécie viva. Basta querer. E nem a diferença de idade impede.

Meu avô e eu, por exemplo, conversávamos quase todos os dias na área envidraçada de sua casa. Assunto: viagens. As minhas, imaginárias. As dele, reais: inclusive, morara em paris no início do século XX.

O tema nos unia tanto que só acidente com passarinho nos calava. De vez em quando, algum pardal distraído chocava-se contra a vidraça. Interrompíamos nossa fala para reanimá-lo. Tínhamos exatos setenta anos de diferença e, mesmo assim, nossos encontros eram estimulantes para nós dois porque compartilhávamos um ponto em comum.

Colocar-se no lugar do outro e “andar em imaginação com as suas sandálias” é tarefa possível.

Eu sempre digo que o voto, por exemplo, tem a ver com a história de vida da pessoa. Colocando-me no lugar dela, na sua trajetória, consigo entender as suas razões, mesmo não concordando com elas.

Portanto, vale a pena realizar um jantar de natal com a família se esses quesitos forem preenchidos. Repito-os: ouvir, calar, ponto em comum, colocar-se no lugar do outro.

Caso contrário, é mais inteligente não se reunir. E que cada um passe o Natal do jeito que julgar melhor. Até mesmo sozinho pode ser bom.

Enfim, são modestas sugestões a todos que estão tendo a paciência e a bondade de ler as crônicas que escrevo e publico, sempre às quintas-feiras.

Um abração,

Boas festas,

Autor: Jorge Alberto Salton

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