Carta aberta aos Vereadores do Brasil

Sr Vereador! Sra Vereadora! “Somente no mundo da leitura é que poderemos definir nossos rostos.”

Encaminho esta carta aos seus cuidados, com o duplo propósito de provocar a sua reflexão e logo após a sua iniciativa, pois a jornada em que empreendemos sobre a retomada da leitura no país é desafiadora e cheia de obstáculos. Trata-se, portanto, de um debate e um apelo, para que a sua prioridade seja voltada à educação e à leitura, sem as quais nenhuma mudança será consistente.

Recentemente, fomos informados da colocação do Brasil na escala de Avaliação Internacional, Pisa, da OCDE (abaixo). Por não fazermos nada de diferente ou muito pouco, ficamos com os últimos lugares.  Esta carta tem de provocar uma inconformidade em sua gestão, pela natureza inaceitável de ser um legislador em um país com desempenho desastroso, perante os demais estudantes e nações, as quais queremos fazer parte.

Então, iniciemos!

Para se reverter a escala de atraso na leitura e interpretação de textos que assistimos, em relação aos outros países, é fundamental que iniciemos pelas séries iniciais, justamente onde está o foco e a responsabilidade das Prefeituras Municipais. No Ensino Fundamental é também onde se encontra a oportunidade para desenvolver o gosto pela leitura e seus créditos, o que os acompanhará por todo o seu período escolar e ainda pela sua vida.

O Brasil ainda pode mudar os níveis de compreensão e aprendizado, decorrentes da boa e insuperável leitura do livro físico, porque nesta fase há espaço para formações neurais e o desenvolvimento de um vocabulário complexo. A leitura digital pode chegar em seguida.

Mas não há muito tempo!  Vimos, recentemente, que ocupamos os últimos lugares, não somente em leitura, mas em provas de matemática e ciências.  Em competições mundiais, reservamos as piores colocações.

Nossos legisladores têm de entender que não basta disponibilizar livros às escolas; é preciso acompanhamento, leitura e debate em sala de aula, maior compreensão e, finalmente, uma estratégia didática que atenda a sua faixa etária para os desafios de um novo aprendizado; que nada mais é do que o retorno às práticas já consagradas de ensino.

E é preciso mais!  Nossa sociedade, nossas famílias, tem transferido única e exclusivamente à escola e seus professores, a tarefa de ensinar, ler e aprender, como que atribuindo às suas salas e pátios uma missão somente sua. Esquecendo que os comportamentos e os exemplos em suas casas e lares, não podem ser diferentes do que os seus filhos experimentam durante o dia.

A escola não pode ser o santuário sequestrado, de uma educação superficial e que por força da rotina extenuante dos seus pais, os professores têm de exercer todos as funções ao mesmo tempo; inclusive assumindo o novo papel; que é o de tutor de filhos de pais ausentes.

A sociedade e o poder público transferiram para os anos escolares, escolas e profissionais da educação, uma tarefa incompatível com o modelo de convivência em que se vive hoje.  Transferiram, com exclusividade, a formação de milhares de pessoas e esqueceram de transferir suas verbas. Resultado: responsabilidade demais, culpa demais, tarefas demais, convívio e recursos de menos.

Sabemos que poucos pais são leitores.  E pouquíssimos leem com seus filhos. Mas continuamos a exigir das escolas o milagre de multiplicação do saber, quando, a tarefa intelectual, enquanto sociedade, é, igualmente de todos. Tanto os que leem, os que não se importam com nada e os que somente reclamam das notas dos seus filhos.

E escola não pode ser o depositório da indiferença da família. Sequer da indiferença de um Estado esgotado, que transfere moedas contadas, que por sua vez, não pode inovar o ambiente, pelo menos um pouco melhorado para que a leitura de seus alunos seja fluida, contínua e permanente.

Não será forrando a escola de livros que teremos a redenção de nossos patamares vergonhosos. Tanto é que não faltam livros; mas faltam seus intérpretes, falta o seu debate, a sua condução. 

O poder público não pode se isentar na construção de leitores e leitoras, jovens ou adultos.  Há que se tapar o fosso cavado que separa a educação de nossos jovens, suas famílias e as Instituições públicas desgastadas. 

Tudo está ligado em única coisa.  As histórias e contos que lemos e adoramos são comuns a todos.  Não há público ou privado quando a imaginação está presente, e, igualmente, não se encontra país avançado sem excelentes leitores ou escritores. Tudo é consequência, tudo pertence às teias sociais que as compõe em nossas escolhas.

Peça para o seu filho, se tiver idade para tanto, que escreva um livro e o apresente à Secretaria de Educação e aguarde a resposta. O interesse é raso, o incentivo é zero e a verba… nenhuma.  Será que sempre foi assim? Ninguém tem mais tempo para sentar-se no chão de uma biblioteca escolar, se ela ainda existir, e ler com seus alunos; a leitura espontânea e calma, reservada aos que querem imaginar, pensar, discutir e crescer. Imagine o seu filho tentando levar à sua escola a sua biografia.  Quem se importará?

Nenhum vereador do país se encontraria onde está, se não recebesse em algum momento de sua trajetória escolar, incentivo e oportunidade à leitura.

Na gestão política, é um imperativo a sua rotina intensa, em artigos e resenhas, laudos e projetos, textos técnicos e projetos de leis. Até caberia um romance, em uma lista interminável.

Nada mais justo que vocês, nesta hora, tenham ciência que milhões de brasileiros poderiam melhorar o seu acesso ao básico da literatura infantil e infantojuvenil, mas não as tem.  E se as tem, não com professores descansados e preparados para lhes dar atenção suficiente; lendo e crescendo ao seu lado.

Agora, um estudo em Harvard (1) confirma o que todos os professores sabiam ou desconfiavam: “não basta ler; para que a criança compreenda, é necessário que ela seja estimulada a refletir e interpretar o que leu”. Onde está escrito crianças, pode-se ser a escola inteira…

E continua afirmando que o “hábito de leitura é um exercício para o cérebro, que envolve imaginação, mentalização, antecipação e aprendizagem”.

O Iede (2) “constatou que o maior texto lido por 66% dos jovens brasileiros, entre 15 e 16 anos, dados de 2023, não passou de 10 páginas”. Claro, Temos de ficar atentos com textos lidos pela internet, pelas redes, que são acumulativos. Mas o resultado é uma catástrofe.

De acordo com a OCDE, (3) no Pisa (4) o Brasil tem os seguintes lugares entre 81 países: leitura 52º, matemática 65º, ciências 62º.  Mas como!  Temos o 10º PIB mundial.  Onde foi parar a diferença?

Fica mais evidente as razões que nos fazem tão ruins em ciências e matemática?  Baixos níveis de leitura tem plena relação com outros aprendizados, pois a descoberta na interpretação é que estende caminhos para a compreensão em todas as outras disciplinas. Inclusive na interpretação da realidade que os cerca.

Será que é isso que nossos legisladores não entendem?

Acerte o alvo sr. vereador(a) e dê uma demonstração de imenso valor, investigando as razões e os por quês em ocuparmos tão baixas posições em concursos em leitura, matemática ou ciências. Sempre que você ouvir de Prefeituras ou doutores em Programas Educacionais que estamos indo muito bem, desconfie! Para o bem de todos.

O tempo que nos resta não é mais o mesmo do que restava ano passado.  Ande às voltas pelas vilas e seus arrabaldes e procure por pequenas bibliotecas, que tragam algum conforto para seus pequenos leitores. Decerto, todos ali precisam sobreviver.  No caso nosso, ficamos especialistas em distribuir migalhas, quando deveríamos destinar um professor a cada família, pois a mudança de ‘verdade’ nunca virá por si mesma; nem doada, nem permitida. Somente arrancada.

Pois se a transformação do ensino não chegou até aqui, não virá.

Exija do seu gabinete e apoiadores, sr. vereador(a) leitura diária e seu compartilhamento. Firme com seus subordinados, compromisso e disposição em ouvir a todos: leitores, escritores, professores ou quaisquer brasileiros que se envergonhem pela situação de indiferença.

Ponha-se no lugar de professores que tentam e conseguem um propósito, e são muitos, mas que não dispõe do tempo necessário para ouvir o que seus alunos entenderam em seus textos. Uma sociedade completa se forma a partir de suas muitas versões.  Procure reconhecer, que os países que estão no topo da excelência educacional, tem nos espaços escolares e seus professores, um respeito próximo ao que você terá quando tomar posse.

E por qual razão ainda, a Câmara não destinou um dia por semana, em todas elas, para legislar a partir das escolas, em seus pátios, sei lá, longe dos seus gabinetes, mas perto de toda a gritaria de crianças vivas e ávidas pelo seu crescimento?

Quanto aprendizado ali!

Em seu mandato que se inicia (ou reinicia) em janeiro de 2025, procure fazer a diferença pelo seu país e pelo seu sistema educacional, avaliando e incentivando, se for o caso, a forma como as Prefeituras concebem e destinam tempo e dinheiro ao ato de ler.

Discute-se aqui o papel do poder público municipal em encarar os fatos: ouvir a comunidade escolar e tornar como prioridade absoluta o treinamento da leitura. Convive-se com buracos nas ruas, mas não se pode conviver com buracos no ensino e na alma.

Para que se possa desmentir o que o educador Darcy Ribeiro nos falou lá trás, “que a crise da educação brasileira não é uma crise, mas um projeto”. Se é que conseguiremos desmenti-lo, até lá, contamos com o seu mandato e sua força.

A menos que você não se incomode com as últimas colocações do nosso país, apontando um futuro de baixa credibilidade educacional, reverta a sua pauta e foque no que é o mais essencial em todos os conteúdos que o seu gabinete pode alcançar:  e leitura escolar, diária e contínua.

Ali se encontra o antídoto para a reação de um país, que está entre as 10 maiores economias do mundo, mas que tem em suas fileiras, adolescentes com redações zeradas, com uma visão de mundo perturbadora e enormes dificuldades em entender textos básicos, com altos níveis de compreensão.

Senão, ao final do seu mandato, não espere uma pátria muito diferente.

Ponha um quadro na parede do seu gabinete, com a foto de um professor cansado, por ter lutado nesses quatro anos, em ideias e propostas, quase sempre não ouvidas.

Pregue outro quadro ao seu lado, com uma redação escolhida a esmo, para que você não esqueça do seu empenho, ao ver como uma sociedade se arrasta para a escuridão, quando seus jovens não sabem expor suas ideias.

Sabemos que há ilhas de exceção em todo o lugar. Temos de parabenizar todas as inciativas, mas sempre será o todo que nos representará lá fora; ou aqui dentro.

O país do futuro já passou. 

Se não quisermos que nossos filhos e os filhos dos nossos filhos sejam apenas expectadores do que os outros lhe impõe, nas redes ou fora delas, admita que somente a leitura os fará pensar por si mesmos.

Ajude-nos a transformar os valores minguados que a educação recebe, em verbas dignas para sua transformação. Ajude-nos a tornar o país, um representante equivalente ao seu Produto Interno Bruto, resgatando jovens e adolescentes do mundo limitado e obscuro das 10 páginas lidas no ano.

Seu mandato terá valido muito.  Valerá a sua reeleição!

(Entendemos que grandes iniciativas estão sendo vivenciadas por professores e coordenadores comprometidos, em quase todas as cidades. Respeitamos e aplaudimos a todas.  O texto procura instigar nas autoridades mais compromisso com um pequeno detalhe, que poderia tirar o Brasil do seu lugar cativo nas últimas posições: a leitura.)

  1. Professora Paola Uccelli, Harvard
  2. Iede (Interdisciplinaridade e Evidência no Debate Educacional)
  3. OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico)
  4. PISA (Programa Internacional de avaliação de estudantes. Prova aplicada em 81 países. Pertence à OCDE)

Autor: Nelceu Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Cinquenta países que lêem mais do que nós. O que nos atrasa?”: www.neipies.com/ha-cinquenta-paises-que-leem-mais-do-que-nos-o-que-nos-atrasa/

Edição: A. R.

Pontão-RS e o despertar de um novo ciclo cultural

É importante reconhecer o empenho do prefeito Velton Vicente Hahn e da secretária de Educação e Cultura, Cidiane Aparecida de Souza, que não mediram esforços para transformar a cultura em uma prioridade. Seu compromisso e dedicação foram essenciais para que Pontão desse os primeiros passos em direção a uma gestão cultural estruturada e inovadora, deixando um legado que certamente inspirará futuras gerações.

Entre 2023 e 2024, Pontão, RS, começou a escrever uma nova história para a cultura local. A gestão municipal, até então pouco ativa no setor cultural, deu passos importantes para estruturar políticas públicas e captar recursos que democratizaram o acesso às artes e valorizaram a identidade do município. Não foi apenas sobre dinheiro, mas sobre dar início a uma mudança na maneira como a cultura é vista e tratada na administração pública.

O ponto de partida foi a aprovação da Lei nº 1.310/2023, que instituiu o CPF da Cultura — Conselho, Plano e Fundo. Essa estrutura, que pode parecer técnica à primeira vista, é na verdade o alicerce para qualquer município que queira levar a cultura a sério.

O Conselho Municipal de Políticas Culturais, por exemplo, não é apenas um grupo de pessoas reunidas em torno de uma mesa. É um espaço de diálogo, onde sociedade civil e poder público trabalham juntos para pensar, propor e fiscalizar as ações culturais do município. É aqui que surgem as ideias, que são debatidas e transformadas em normas e diretrizes que, no fim, impactam diretamente a vida cultural da comunidade.

O Plano Municipal de Cultura (PMC), por sua vez, é o mapa que orienta os próximos passos. Com vigência até 2033, ele foi pensado para ser mais do que um documento burocrático. É um compromisso com a democratização do acesso à cultura, com a valorização do patrimônio local e com o fortalecimento das manifestações artísticas que dão identidade ao município.

E, claro, o Fundo Municipal de Cultura (FMC) fecha esse CPF. Sem dinheiro, nenhum plano ou conselho sai do papel. O FMC é a base financeira, alimentado por recursos municipais, estaduais, federais e até doações privadas, garantindo que as iniciativas culturais possam florescer e gerar impacto real.

Projetos executados

Mas não basta planejar, é preciso viabilizar. Nesse aspecto, Pontão surpreendeu ao captar mais de R$ 800 mil em recursos para o setor. Destaco aqui o trabalho realizado com a Lei Paulo Gustavo, que garantiu R$ 49 mil para quatro editais que fomentaram a produção cultural local.

Outro marco foi a conquista do MovCEU, um equipamento itinerante que levou inovação para Pontão. Uma van cultural equipada com estúdio audiovisual, biblioteca, óculos de realidade virtual e outras ferramentas tecnológicas que aproximaram as comunidades periféricas do universo cultural. Em agosto, o município foi destaque no 1º Encontro de Gestores do MovCEU, em Brasília, um reconhecimento importante para quem, até pouco tempo, não tinha presença ativa no cenário cultural estadual.

Atuamos também na captação de R$ 47 mil pela Política Nacional Aldir Blanc – PNAB que promete reviver a Banda Municipal e possibilitou a realização do 1º Festival de Cultura de Pontão com premiações para o 2º Canta Pontão.

E que festival! Realizado em novembro de 2024, o evento não só celebrou as manifestações artísticas locais, mas também mostrou a cultura como elemento de integração e transformação social. Houve apresentações de dança, música e teatro, uma feira de artesanato e ainda a 1ª Mostra Estadual de Curtas Gaúchos do MovCEU.

A mostra foi concebida para ser como uma catapulta de visibilidade à produção audiovisual gaúcha, exibindo filmes de curta-metragem que refletiram as múltiplas facetas culturais, sociais e históricas do Rio Grande do Sul. Ao todo, foram exibidos 10 curtas-metragens selecionados de diferentes regiões do estado. Os temas abordados variaram desde o folclore gaúcho, com narrativas cheias de mistério e nostalgia, até dramas urbanos e questões socioambientais que convidaram o público à reflexão. Entre os destaques da Mostra, três filmes foram premiados:

  • “O Louco”, que trouxe uma trama envolvente sobre preconceitos e julgamentos sociais.
  • “Caio”, um drama sensível sobre os desafios e mudanças da juventude.
  • “Eu Vi Um Lobisomem”, que misturou nostalgia e folclore em uma história marcante.

F

Continuidade

Claro, há muito o que fazer. Dois anos são apenas o começo, e qualquer avanço só terá impacto duradouro se houver continuidade. Mas não se pode negar que Pontão iniciou algo relevante. Transformar a cultura em política pública não é fácil, especialmente em municípios menores, onde muitas vezes a arte é vista apenas como entretenimento.

O que ficou claro nesse período é que a cultura pode e deve ser tratada como um vetor de desenvolvimento. Não apenas pela criação de eventos ou pela atração de recursos, mas pela maneira como ela conecta pessoas, estimula o pensamento crítico e resgata histórias que não podem ser esquecidas. Pontão deu um passo importante, e agora é hora de seguir em frente, com os olhos no futuro, mas sem esquecer o que tornou esse ciclo possível: planejamento, participação comunitária e, acima de tudo, vontade de fazer a diferença.

Por fim, é importante reconhecer o empenho do prefeito Velton Vicente Hahn e da secretária de Educação e Cultura, Cidiane Aparecida de Souza, que não mediram esforços para transformar a cultura em uma prioridade. Seu compromisso e dedicação foram essenciais para que Pontão desse os primeiros passos em direção a uma gestão cultural estruturada e inovadora, deixando um legado que certamente inspirará futuras gerações.

Autor: Anthony Buqui – Jornalista, ativista, produtor cultural, videomaker, fotografo e captador de recursos. Também escreveu e publicou no site “Ministério da Cultura se destaca no primeiro ano de governo Lula 3”:  www.neipies.com/ministerio-da-cultura-se-destaca-no-primeiro-ano-de-governo-de-lula-3/

Edição: A. R.

Governantes querem Educação sem professores

Repercutimos, nesta coluna do site, uma interessante e instigante reflexão do Chico Alves, jornalista e editor-chefe do site ICL sobre as mais recentes investidas de alguns governantes sobre a educação pública brasileira.

“A cada eleição, a lenga-lenga se repete. A Educação está lá, entre as prioridades sempre citadas mas nunca realizadas. Os candidatos prometem melhor ensino público, melhor preparação dos estudantes, escolas mais bem equipadas e por aí vai.

O que se vê, porém, é o oposto disso.

Desconectados da realidade, a maioria dos governantes pretende o impossível: melhorar a Educação piorando as condições de trabalho dos professores.

Boa parte dos prefeitos e governadores não paga a esses profissionais o piso salarial determinado por lei, o número de professores temporários supera o de concursados, faltam condições mínimas de trabalho (na rede municipal do Rio de Janeiro, por exemplo, no ano mais quente da história, muitas escolas não têm ar condicionado funcionando).

Elogiados como heróis quando aparecem em reportagens cruzando estradas e rios em regiões remotas do país para cuidar de seus alunos ou criando métodos originais de ensino com pouquíssimos recursos, os mestres não têm o mesmo reconhecimento no contra-cheque (ou holerite, como dizem os paulistas).

Pelo contrário: alguns direitos adquiridos em função das particularidades de seu trabalho estão sendo cortados.

O prefeito Eduardo Paes, o vilão da vez, conseguiu aprovar na Câmara Municipal projeto que faz a hora-aula de 50 minutos passar a ter os mesmos 60 minutos do relógio, o que aumentará a carga horária dos profissionais sem aumento de salário. Desconsidera o tempo que os professores dedicam à correção de provas e planejamento de aulas fora da escola.

Além disso, dividiu o período de férias.

Aprovou tudo isso não sem uma dose de sarcasmo e botando a polícia para jogar bombas de gás e spray de pimenta em cima de manifestantes da categoria, que está em greve.

Há muitos outros problemas Brasil afora. Uma das distorções é usar aplicativos e recursos digitais para “substituir” o talento do professor. Outra são as famigeradas escolas cívico-militares, em que milicos tomam o espaço que deveria ser somente dos profissionais do ensino. E temos ainda a onda de privatização das escolas públicas, agora defendida desavergonhadamente.

Como cereja do bolo, surgiu uma tal “PEC alternativa”, que pretende se sobrepor ao plano de corte de gastos proposto pelo governo federal. No texto, assinado pelos deputados Pedro Paulo, Kim Kataguiri e Júlio Lopes, a ideia é acabar com a obrigatoriedade de dedicar um percentual mínimo do orçamento à Saúde e… Educação!

Como se vê, o ensino aparece como prioridade somente nos discursos. Na vida real, há cada vez menos recursos investidos nessa área.

Em especial, não se vê dinheiro investido no elemento que seria o principal ponto de melhoria da educação: o profissional do ensino.

Ao invés de valorizá-los, os governantes e políticos em geral dão provas diárias de que o projeto parece ser implantar uma Educação sem professores.

Depois não entendem por que uma parcela cada vez maior da população, descrente, defende para o Brasil a falsa solução de fazer política sem políticos”.

FONTE: https://iclnoticias.com.br/governantes-querem-educacao-sem-professores/

Autor: Chico Alves, jornalista. Autor do livro “Paraíso Armado” sobre a crise na Segurança Pública no Rio, em parceria com Aziz Filho. Atualmente é editor-chefe do site ICL Notícias.duas vezes ganhou o Prêmio Embratel de Jornalismo e foi menção honrosa no Prêmio Vladimir Herzog.

Edição: A. R.

Um professor fracassado

Tenho pena de quem se julga perfeito. De quem, na pressa, pisa nas formigas sem nem perceber, correndo para algum lugar que, às vezes, nem sabe qual é.

Fracassei muitas vezes este ano como professor. Se fosse listar todos os meus erros, um único ano não seria suficiente — talvez nem trinta. Enumerar fracassos é como contar estrelas em uma noite de verão: apontamos algumas até o sono nos vencer, mas sabemos que é impossível contar todas.

Ainda assim, quero compartilhar algumas estrelas que identifiquei.

Fracassei quando, ao perder o controle, recorri aos gritos. Se fosse realmente bom, talvez um olhar bastasse, ou uma postura diferente, quem sabe um pedido firme e gentil. Fracassei quando, exausto, não ofereci a melhor aula possível. Admito que, em alguns dias, apenas “empurrei as horas”.

Fracassei quando não consegui dar a atenção que certos alunos precisavam. E também quando minha falta de foco comprometeu a organização de projetos ou atividades que poderiam ser melhores.

Essas são apenas algumas estrelas que observei em uma dessas noites. Há muitas outras. Fracassei setenta vezes sete — e me sinto feliz por isso.

Porque errar é parte essencial da experiência humana. Jamais seremos completamente “certos”. Buscar a perfeição é um ato de covardia. Impô-la aos outros? Sadismo disfarçado de boas intenções.

Tenho pena de quem nunca fracassou. De quem fez tudo corretamente. Daquele que, apressado, não parou para admirar as flores e as pisou com a desculpa de chegar mais cedo.

Tenho pena de quem se prendeu à performance e à imagem, esquecendo dos sentimentos. De quem mediu seus passos pela distância percorrida, e não pelos amigos conquistados ao longo do caminho. De quem valorizou mais a aparência do fruto do que seu sabor. Mais o corpo bonito do que a alma marcada por cicatrizes.

Tenho pena de quem se julga perfeito. De quem, na pressa, pisa nas formigas sem nem perceber, correndo para algum lugar que, às vezes, nem sabe qual é.

Eu errei setenta vezes sete — e me esforço para perdoar setenta vezes sete.

Por isso, considero-me feliz.

Autor: Aleixo da Rosa. Também escreveu e publicou no site “Apenas dou aulas”: https://www.neipies.com/apenas-dou-aulas/

Edição: A. R.

Deuses, religiões, políticas e fieis: mistérios da espiritualidade

 
A espiritualidade é forte, e respeitável. O seu uso político e comercial me parece oportunista. Mas o que apresento aqui são ideias sobre as diversas motivações que nos levam para as crenças, para as religiões, em diversas épocas e civilizações. Acho que a palavra chave é “convergência”, diversas forças nos levam para criar as formas tão diversificadas de religiosidade.

Nunca ninguém viu nenhum deus, e, no entanto, as divindades, as religiões, as cerimônias, os cantos, os medos e tantas dimensões íntimas e sociais da espiritualidade são tão presentes em todas as sociedades. Bertrand Russell achou necessário explicar, e escreveu o livrinho Porque não sou cristão. Richard Dawkins escreveu um livro bem persuasivo, A Ilusão de Deus, sobre a quantidade de lendas absurdas presentes nas mais variadas religiões. Christopher Hitchens, no seu God is not great, elenca as barbáries que já se fizeram, e se fazem hoje, em nome de deus. Igualmente interessante é a linda edição do Sesc, Mitologia: um guia dos mundos imaginários, de Dell Christopher, que analisa este universo não por religião, mas por temas comuns às diversas religiões.

É interessante pensar de onde vem a força de tantas lendas. Com milênios de evolução, com crenças sempre renovadas, e tão diversas, parece mais importante pensar nas necessidades que elas preenchem para os pobres mortais que somos do que pesquisar qual deus efetivamente existe. A ideia geral que aqui apresento, é que a força das religiões está ancorada não em uma motivação apenas, como o medo da morte, ou em uma verdade revelada – provas, de certa maneira – mas na convergência de um conjunto de motivações, psicológicas, culturais, políticas, militares, até econômicas. Vale a pena juntar as peças.

Eu trabalhei em numerosos países e continentes, e acho curioso que uns rezem de pé e se balançando, outros de joelhos, outros de cócoras, outros ainda sentados de pernas cruzadas, ou cantando e dançando, mas cada religião e todo crente convencidos de que o seu deus, ou os seus santos, é que são verdadeiros. De conversar com as pessoas, e de ler os textos ditos sagrados de diversas religiões, bem como de historiadores, fui anotando um leque de motivações possíveis para tantos deuses, tantas religiões, tantas cerimônias e rezas, e na realidade tanto sentimento investido numa realidade mágica.

Obviamente, com tantos deuses e tantas religiões, não podem ser todos verdadeiros, e na realidade nenhum pode se arvorar em verdadeiro. Na ausência de provas, de fatos concretos, pedem-nos ter fé, ou seja, precisamente, acreditar sem provas. O que passa a dominar é o sentimento do sagrado, a atitude de submissão a poderes imaginários, mas tão superiores, nas nossas convicções. O divino é profundamente humano, e respeitável, dentro de limites.

A morte: medo e mistérios

É interessante pensar nas raízes de tanta força do imaginário, sem entrar em polêmicas, ser contra ou a favor, sem escolha de qual religião é mais verdadeira. Uma motivação óbvia é o medo da morte. Inúmeras religiões introduziram a crença na vida eterna, e os detalhes já existiram no zoroastrismo, milênios atrás, dos quais herdamos precisamente a ressurreição dos mortos, o julgamento final, o messias, e a vida eterna. Realmente, pensar que somos apenas primatas conscientes, que passam algumas décadas nessa terra e desaparecem, gera um profundo sentimento de absurdo. E o vazio da morte assusta. Inventar a vida eterna gera um imenso alívio, ainda que as dúvidas persistam no íntimo. É claramente um pensamento mágico, mas justifica amplamente a adesão. E promove a criação de tantos universos imaginários do pós-morte, já muitos milênios antes da nossa Era. A Divina Comédia é bem poderosa, na riqueza do desenho do além, e constitui apenas um exemplo de tantas descrições, nas diversas crenças.

Mas também as mais variadas crenças e religiões souberam explorar e ampliar os medos. Segundo Hitchens, “desde já não haveria tantas igrejas se a humanidade não tivesse tanto medo do tempo, da escuridão, da praga, do eclipse e de tantas coisas atualmente facilmente explicáveis.”(65) Sempre haverá quem navegue nas nossas fragilidades e inseguranças.

A busca do sentido da vida

Outra poderosa motivação está ligada não ao medo da morte, mas ao próprio sentido da vida. Wim Wenders tem essa frase bonita: “Humanity is craving for meaning”, a humanidade anseia por sentido. Shakespeare trouxe com força este “life’s but a walking shadow…”: a vida como uma sombra que passa, o conto de um idiota.

Qual o sentido dessa nossa passagem barulhenta ou silenciosa num mundo de alegrias, paixões e sofrimento, da guerra de todos contra todos, da banalidade de tantas coisas. Acho que é uma motivação poderosa, alguém lá em cima está olhando para o que fazemos, nos julga, contabiliza os pecados e os bons comportamentos, vai nos punir ou recompensar. Ou seja, há sentido, e os inúmeros escribas das diferentes religiões, e tantos sermões e falas de religiosos, definem, segundo a religião, o que é bom e o que é condenável, gerando milhares de preceitos e proibições. Até hoje estamos diariamente confrontados com gente que tem por missão definir como devemos nos comportar. Ou seja, haveria um sentido superior no que fazemos, há regras, e o caos que vemos no mundo é culpa dos que não as seguem. Nos sentiremos menos perdidos, pouco importa a realidade. E haja criatividade.

A ansiedade por “pertencer”

Mais poderoso ainda talvez seja o sentimento de pertencimento social que nos assegura ter uma crença comum com nossos vizinhos, com a nossa comunidade, por meio de religiões organizadas. Não estamos sozinhos, rezamos da mesma maneira, traduzimos em exclamações religiosas os acontecimentos na rua ou nos encontros, “vá com Deus”, “Deus te ajude”, “Virgem Maria!”, “o Diabo que te carregue”, “vade retro Satanás!”, somos todos um grupo, uma comunidade que se entende. Gera uma convicção de identidade, somos católicos, judeus, protestantes, muçulmanos, budistas, evangélicos, animistas, pouco importa, o importante é que conhecemos cada um a sua tribo, não estamos sozinhos.

A desgraça do pertencimento religioso é que também nos distingue dos “outros”, e é espantoso como hoje, na era das mídias sociais, as fraturas explodem. Max Fisher, no seu A máquina do caos, mostra bem como os algoritmos de maximização da atenção das pessoas navegam nos conflitos religiosos. Pouco importa aqui qual a religião, qual a mitologia, conquanto permita uma clara delimitação entre “nós” e “eles”. Pertencer é também excluir, mas atrai. O tribalismo, religioso ou político, continua poderoso.

O sentimento de estar juntos: a sociabilidade perdida

O pertencimento está ligado a outra dimensão que é a sociabilidade. Neste mundo em que estamos cada vez mais isolados uns dos outros, mal conhecendo os nossos vizinhos no ambiente urbano, na solidão da família nuclear com o filhinho, o sofá e a televisão, ou o celular, a perda de contato humano real pesa. Nos lugares mais perdidos vamos encontrar a igreja, o templo, frequentemente uma casinha modesta onde o culto permite que as pessoas se reúnam, se cumprimentem, cantem juntas, se prometam visitas, se deem parabéns pelo filho que está crescido, escutem juntas o que um padre ou um pastor tem a dizer sobre a vida e sobre o além, pouco importa: estamos juntos. Bem, o bar e o jogo de futebol também cumprem essa função, mal comparando. Es os movimentos, sincronizados, ajudam na sociabilidade, como aponta Jonathan Haidt, em A geração ansiosa: “Cristãos se ajoelham, muçulmanos se voltam para a Meca, dervixes rodopiam, judeus têm o daven, que envolve orar em voz alta enquanto se balança o corpo de determinada maneira. Congregações cantam e dançam juntas, o que abre o coração de seus membros uns para os outros e para Deus.”

O resgate da sociabilidade, ainda que parcial, justifica muito as motivações religiosas, sobretudo nesta sociedade em grande parte atomizada, fragmentada. Estamos menos sozinhos. E o mesmo Haidt lembra o impacto negativo das mídias sociais: “Mas o que acontece quando a vida social se torna virtual e todo mundo interage através de telas? Tudo se transforma em um borrão indiferenciado: é um mundo de anomia desestruturada.” (236)

A magia dos rituais

E temos o teatro da vida. As pessoas adoram rituais, obrigações agradáveis e assumidas que transformam as nossas vidas numa peça de teatro. Shakespeare de novo: “a poor player that struts and frets his hour upon the stage, and then is heard no more”, um pobre ator que saltita e se agita na sua hora de palco, e de quem não se saberá mais. Mas o teatro é tão importante.

 Lembro que perdi a minha religiosidade numa igreja em Campinas, assistindo à missa com o meu pai, eu devia ter uns 17 anos, e vendo o padre passar entre as fileiras de bancos, com todas as suas vestes do ofício, e balançando um incenso que soltava uma fumacinha, me veio um momento desses que deslocam o conjunto da visão que temos de uma realidade: vi a cena como teatro, as roupas, a fumaça, os cantos, a hóstia, as figuras de santos, as luzes, as velas, tudo me apareceu como algo que as pessoas claramente adoram, mas que evidentemente não tem nada a ver com algum deus: o mistério desapareceu. Com o tempo, iria conhecer inúmeras cerimônias religiosas diferentes, procissões, o dia de Iemanjá na Bahia, ritos africanos. Respeitáveis, sem dúvida, frequentemente de beleza emocionante, mas claramente um teatro humano. Os numerosos e variados deuses, aqui, apenas pretextos. Pretextos, mas necessários. E atraentes.

O uso político da espiritualidade

Menos respeitável é a apropriação política do sentimento religioso. Dos primeiros ritos na Mesopotâmia, cinco mil anos antes de Cristo, passando pelos deuses do Egito dos faraós, do tão divertido universo de deuses gregos em brigas e paixões permanentes – tão humanos – a narrativa da bíblia dos judeus, e mais recentemente o cristianismo, o islamismo ou o hinduísmo, sem falar da bancada evangélica no Brasil atual, sempre tivemos o uso da espiritualidade das pessoas com instrumento de poder político.

Quando Constantino, no ano 324 da nossa era, torna o cristianismo a religião do império, simultaneamente reforça o seu poder político, e assegura poder político ao que já eram os “bispos”, a igreja de Roma. De perseguida, a igreja se torna perseguidora, dona de poder. J.M. Roberts, no seu History of the World, o descreve de forma elegante: “A Igreja se vestiu de púrpura imperial.”(228) Aqui, promovida a religião de Estado, a religiosidade se torna imposição, e ai de quem não aderir. O uso da religiosidade como instrumento de poder data de milênios antes de Cristo. E haja barbárie em nome de deus.

Roberts, ao analisar as grandes civilizações no mundo, mostra como praticamente todos os poderes políticos utilizaram a religião para se legitimar, numa troca de vantagens entre a capacidade de governos enraizarem o poder político e a capacidade de os cleros assentarem o seu poder espiritual. Os reis “de direito divino” e o papa representante de deus, uma mão que firma a outra.

Não à toa a mais recente luta pela democracia foi, e continua sendo, uma luta pelo Estado laico, a separação dos poderes. A colusão do poder político, apoiado no poder militar, com o poder espiritual, apoiado nas estruturas diversificadas dos cleros no decorrer de milênios da nossa história, sem dúvida levou as populações a aceitarem as diversas narrativas de deus, inclusive se convertendo sob pena de morte em tantas “civilizações”. Hoje, continuamos na pré-história, e não é só no Afeganistão.

A atração das narrativas

Não podemos deixar de lado a fenomenal criatividade dos que criaram as narrativas das grandes e pequenas religiões. As cosmogonias, histórias de como se gerou o mundo, como fomos criados, são de uma riqueza espantosa. Eu tenho minha visão particular do Bereshit: deus criou o homem, viu o que tinha feito, balançou a cabeça, e decidiu que podia fazer uma coisa muito melhor. E fez, bastou uma costela. O início da bíblia é lindo. Mas é só ver a riqueza das mais variadas cosmogonias no mundo, para entender como foram atrativas, só que no caso das narrativas de indígenas, por exemplo, serão qualificadas de lendas.

Muitas narrativas constituem empréstimos, como o Júpiter romano relativamente ao Zeus grego. O islamismo usa a bíblia amplamente, assim como a novas igrejas que surgiram nos Estados Unidos. Mas a história da arca de Noé, inclusive com os animais e o pássaro que volta, data de milênios antes da bíblia. O parto virgem, tão importante no cristianismo, já era utilizado em dezenas de narrativas religiosas anteriores. Christopher Hitchens apresenta uma lista delas (God is not Great, p.23). Mas quase todos somos alimentados com essas narrativas desde a nossa infância, numa idade em que o que os nossos pais nos contam é lei. E mais tarde, como resistir a essa magia? Crescemos, mas continuamos a acreditar. Melhor a magia do que o vazio.

A indústria da religião

A razão econômica é igualmente poderosa. A riqueza dos templos, das igrejas, das catedrais, dos diversos monastérios é impressionante. Lembro de visitar a Santa Sofia em Istanbul, é absolutamente deslumbrante. As diversas civilizações da antiguidade semearam o mundo com obras que comovem, e a Grécia e a Itália são neste sentido impressionantes. Mas o dreno econômico de muitas igrejas é igualmente poderoso.

O fato de tantas terras na Europa medieval pertencerem às diversas ordens religiosas levou a que com a Reforma no século 16 a reapropriação de terras tivesse desempenhado um papel importante. E a religião desempenhou um papel importante ao justificar a escravidão, o colonialismo, as invasões. No Vietnã religiosos abençoavam as armas que os americanos iriam utilizar para massacrar as populações.

Hoje, com o poder de comunicação online e TV, a religião se transformou numa grande indústria, e fica simplesmente barato chegar com mensagens a bilhões de pessoas. A dimensão industrial nos EUA é impressionante, e faz parte sem dúvida da construção do poder político, aproveitando uma pauta que cativa os menos informados, a da sexualidade, da moralidade cristã e semelhantes, enquanto justifica a desigualdade e a opressão. No Brasil Edir Macedo tem uma fortuna de 1,34 bilhão. Como é difícil imaginar um bilhão, basta pensar que esta fortuna do bispo, aplicada no Tesouro Direto, aumenta a sua fortuna em 385 mil por dia. A capacidade financeira de manipular pessoas aumentou de maneira radical. Tantas pessoas baixam a cabeça e acompanham. Não escolhem o caminho, são seguidores, e aderem. É tão mais fácil…

A barbárie justificada: em nome de Deus

A capacidade de mobilização das pessoas para a violência, através da religião, faz também parte importante do fanatismo em que as crenças podem se transformar. A tragédia dos muçulmanos na Índia, que atingiu milhões de pessoas, é característica, e hoje a polarização religiosa continua a servir de trampolim político para a direita, por exemplo em Israel. A guerra recente no território que foi a antiga Iugoslávia utilizou as diferenças religiosas para estimular massacres espantosos, com Milosevic e outros personagens.

No passado, com as diversas guerras de religião, as cruzadas, tudo se justificava como vontade de Deus, pilhagens inclusive. Os Templários da Prússia massacravam as populações do Leste europeu em nome de lhes levar a mensagem de cristo. O filme Alexander Nevsky, de Eisenstein, é um belíssimo documento. Séculos mais tarde, o exército alemão nazista atacava com o lema “Gott mit uns”, deus está conosco. Na guerra de Secessão, nos Estados Unidos, os defensores da escravidão tinham um lema semelhante: “Deo Vindice”. O sionismo navega na religiosidade. O livro A fé e o fuzil, de Bruno Manso, ajuda muito. Não citarás o meu nome em vão?

A liberação do ódio

Não se deve esquecer o poder cativante, para as pessoas religiosas, de poder dar vazão ao ódio mais visceral em nome dos princípios mais elevados. A caça às bruxas permitia canalizar as tensões, e é impressionante encontrarmos na bíblia a frase “não permitirás que as bruxas vivam”. Foi também amplamente utilizada contra o universo mais amplo de heréticos, pessoas que pensavam a religiosidade de maneira diferente, por exemplo ser contra ou a favor de imagens religiosas. Queimar pessoas era excitante, e mobilizador, e a igreja católica publicou um manual de tortura para que as pessoas acusadas confessassem os seus pactos com o diabo: o Malleus Maleficarum, de 1486, é uma leitura absolutamente impressionante. Poder soltar os seus ódios em nome de deus era muito atraente, e lamentavelmente a prática ainda persiste. Silvia Federici nos traz descrições poderosas. Deus como justificativa, a serviço da barbárie.

O uso da sexualidade

Particularmente forte, como elemento de adesão aos preceitos religiosos, é a regulação das atividades, e até pensamentos, sexuais. Nas mais diversas crenças deus deve definir os comportamentos amorosos, com a interpretação detalhada dos religiosos terrestres. Isso envolve padres, rabinos e tantos “interpretes” da suposta vontade divina.

A associação da sexualidade ao pecado, as práticas da circuncisão ou da excisão, a condenação até da masturbação, a abstenção sexual como prova de virtude, a denúncia e perseguição de qualquer “desvio” sexual, a necessidade de confessarmos os “maus” pensamentos, tudo isso assegura, nas mais diversas religiões – mas felizmente não em todas – um poder de superego vigilante sempre presente nas atrações amorosas. As perseguições e a criminalização que isso envolve constituem uma desgraça, mas de certa forma amarra nosso subconsciente às respectivas religiões. O celibato dos padres, no cristianismo católico, é particularmente danoso, com os desvios que hoje conhecemos.

O fato das religiões, bem como os seus preceitos, serem essencialmente masculinos, e criminalizarem com particular violência a mulher, é muito significativo. Sempre houve candidatos a atirar a primeira pedra, é excitante. E em muitos lugares, como em muitas cabeças, pouco mudou. A culpabilização da mulher constitui uma profunda covardia. A excisão e infibulação então, que ainda atinge milhões, constitui barbárie criminosa. O livro Anti-Gender Politics in the Populist Movements detalha as articulações anti-feministas mais modernas, e o seu uso político, veja resenha no meu site. O Economist de 5 de outubro de 2024 dedica um número inteiro ao papel central da sexualidade na religião cristã. Não estamos falando da antiguidade.

O perigo do homem solto: o argumento moralista

Na minha infância, inculcaram-me com força a ideia de que sem religião, sem o temor a deus, as pessoas se tornam descontroladas, selvagens, perigosas. Realmente, o ser humano é perigoso, e tem instintos que o transformam em ameaça. Mas não há base para considerarmos que os homens religiosos apresentem comportamentos mais morais, mais cordatos, mais respeitadores do próximo, do que a média geral. Aqui, basta ler um pouco de história.

Não me iludo, o ser humano é capaz de comportamentos abomináveis, escrevi um texto forte a respeito, As profundezas da natureza humana. Jonathan Haidt, no seu A mente moralista, traz uma excelente visão de conjunto sobre o que somos, com essa complexidade de motivações contraditórias.

O que é inaceitável, é a imoralidade se cobrir de legitimidade através das religiões, com uma legitimidade emprestada ao sagrado, como inclusive muitos fazem com o conceito de pátria. A hipocrisia ronda esses argumentos. Mas para muita gente, o “temer a deus” e as ameaças do inferno justificariam a religiosidade. Eu francamente, acredito mais na racionalidade, e em particular no assegurar a cada um o suficiente para uma vida digna. Aliás, para quem se interessar, eu publiquei no meu site uma edição revista e atualizada dos dez mandamentos. Por exemplo, respeitarás a mulher, e não apenas a mulher do próximo.

A convergência das motivações

O interessante, no conjunto, é que a tão forte presença das religiões, nas mais diversas populações, e com as mais diferentes narrativas, não resulta do fato de haver alguma prova de existência do sobrenatural, mas da convergência de um conjunto de motivações, o medo da morte, a vontade de pertencimento social, a construção de uma identidade, mas também da força política aliada com o clero organizado, o poder das narrativas, as mobilizações guerreiras, o dar vazão ao ódio, o controle da sexualidade. É um conjunto de fatores que contribui para o peso da religiosidade nas diversas sociedades, e nas diversas épocas. Não se trata simplesmente de ser a favor ou contra, mas de entender um fator dos comportamentos sociais que não podemos ignorar. Frente aos desequilíbrios a tensões, um ponto de apoio, ainda que imaginário, é sempre útil.

Além dos pontos de convergência que apontei acima, podemos trazer outros, como a poderosa motivação de ser o povo eleito, como por exemplo dos religiosos judaicos, o que lhes permitiria tudo com outros povos; a praticidade de explicar o mal através do diabo, ou dos diabos; o gosto de deuses particulares sob forma de um santo para cada profissão ou cidade; o prazer de se imiscuir nas sexualidade dos outros em nome da moralidade cristã ou outra – deformação que eu atribuo a religiosos de buraco da fechadura, obcecados com a intimidade dos outros – e de forma geral a utilidade de recorrer ao pensamento mágico frente às desgraças, ao sentimento de impotência humana.

No meu caso, conheci tantas religiões, e tantas narrativas diferentes, por parte de pessoas convencidas de serem as únicas a conhecerem a verdade, que só posso concluir que se trata de construções humanas. Atribuir a responsabilidade do que fazemos a deus, francamente, não é sério, em particular se considerarmos as guerras, a violência, a exploração, a ganância descontrolada, a espantosa fome de milhões crianças quando temos o suficiente. Temos de assumir a nossa responsabilidade, nos humanos, pela barbárie do que fazemos.

Mas no essencial, estou seguro que para muita gente o sentimento de espiritualidade é necessário, e é profundamente respeitável. O que não é respeitável, é o uso político e comercial da espiritualidade, hoje generalizado.

A indústria das crenças constitui uma atividade vergonhosa, radicalmente ampliada com as novas tecnologias da comunicação, permitindo o uso dos nossos sentimentos mais íntimos para interesses que de místicos não têm nada. Não usar a palavra de deus em vão seria um bom preceito a se recomendar a esses pilantras.

E se tem uma coisa que os religiosos têm de aprender, ou aplicar de maneira generalizada, é a tolerância do diferente. Os seres humanos são facilmente manipulados, e passam a justificar o ódio e a violência contra os que qualificam de infiéis, pagãos, ateus, por vezes com diferenças absurdas como entre grupos cristãos ou entre sunitas e xiitas no islã. As diferenças são humanas, o ódio ao diferente é que é patológico. Essa atitude de tolerância, de compreensão das diferenças, é uma questão de elementar dignidade humana, e envolve uma atitude bem-humorada frente aos que acham que são donos da verdade, da Verdade.

FONTE: https://dowbor.org/2024/11/deuses-religioes-politicas-e-fieis-misterios-da-espiritualidade.html

Notas

[1] “A credulidade pode ser uma forma de inocência, e ser até inócua em si, mas abre um convite aberto para os malvados e espertos explorarem os seus irmãos e irmãs, e assim é uma das grandes vulnerabilidades da humanidade.” – Christopher Hitchens, God is not Great, 12, New York, 2007, p.161

[2] “É útil que existam deuses, e, como é útil, acreditemos que existem” – Ovídio, Arte de Amar – Quetzal, Lisboa, 2023

Autor: Ladislau Dowbor, professor e um economista brasileiro, de origem polonesa.

Edição: A. R.

Dezembro chegou

Dezembro é o início do fim que sempre irá chegar!

Dezembro chegou e este é o início do fim! Encerram as aulas, encerram os projetos do ano, encerram-se ciclos intermináveis de calendários projetados para os ” longos e logo ali” doze meses.

É o tempo onde a procrastinação permite-se oficializar com a frase: “- Não dá mais tempo” e a dieta já foi abandonada faz muito tempo. A luz no fim do túnel dos recessos ilumina a esperança de uma quebra impactante da rotina, e o que não deu certo cerca-se de expectativas para o ano vindouro.

É o início do fim de mais um ciclo comercial, patrimonial, estruturante e condizente com as vidas metódicas as quais levamos. Mas existe outra versão deste multiverso, aquela dos hiperativos que recuperarão o ano em duas ou três provas de exames colegiais, que farão todas as dietas mais malucas em busca do chape da moda, que farão três turnos de trabalho para aumentar a renda e gastarão às fanfarras alimentando a economia vigente.

Até a fé é renovada pela visão do nascimento e mergulhada no universo doce dos presentes regados a refrigerante.

Não faço aqui juízo de certo ou errado e viajo constantemente pelo multiverso das alternativas existentes.

Considero deveras necessário que o ser humano sempre encontre uma forma de recomeçar, mesmo que num belo feriado de janeiro, pois dezembro é o início do fim que sempre irá chegar!

Autor: Alexandre da Rosa Vieira. Acadêmico Academia Passofundense de Letras, cadeira 26. Também já escreveu e publicou no site a crônica “Uma escola que ensine a subir escadas”: www.neipies.com/uma-escola-que-ensine-a-subir-escadas/

Edição: A. R.

O G-20, o apagão de professores, a educação de qualidade e o financiamento justo 

O Brasil, sob a responsabilidade do Estado, por meio de políticas públicas, em conjunto com toda a sociedade, precisa assumir seriamente um compromisso definitivo e prioritário de financiamento estatal da educação, de qualidade social da educação e da formação, promovendo equidade racial e de gênero, a valorização da carreira docente e do uso pedagógico e formativo das diversas tecnologias em prol das atuais e futuras gerações.

Estamos encerrando o ano letivo de 2024 e planejando a próxima década por meio do Projeto de Lei (PL) nº 2.614/2024 que tramita no Congresso Nacional sobre o novo Plano Nacional de Educação (PNE) 2024-2034. Este ano que estamos terminando, bem como a última década, foram muito difíceis, desalentadores e ameaçadores para a educação pública e a formação de qualidade no Brasil. Sofrem os professores, os estudantes e as escolas públicas que são a grande maioria. O projeto de “qualidade empresarial” disputa com o projeto de “qualidade social” estão todas as políticas e pautas educacionais.

Para o especialista e estudioso professor Luiz Carlos de Freitas (Unicamp), a primeira coisa a fazer é atuar de forma coletiva e lutar para que se ganhe consciência da gravidade deste período e dentro do possível lutar por uma escola que prepare a juventude para esta realidade tentando construir outra forma e conteúdo para a escola – seja como política mais geral, seja como resistência em seu dia a dia.

É nesta perspectiva que a Declaração final de líderes de países do G20, principal fórum de cooperação econômica internacional, realizado no Rio de Janeiro em 18 e 19 de novembro de 2024, incorporou temas e recomendações relevantes que podem contribuir como horizonte para pensarmos a educação enquanto política de estado e projeto de nação.

O G-20 e o GT de Educação e Cultura do C20 assumiram na Carta de compromissos o reconhecimento do “papel crucial da educação e da formação de qualidade para a garantia dos direitos humanos, a justiça fiscal no financiamento de uma educação e cultura públicas de qualidade e de forma sustentável, a valorização dos profissionais da educação, a educação plenamente inclusiva e o enfrentamento aos desafios das novas tecnologias – em especial, da inteligência artificial” na educação.

O Brasil, sob a responsabilidade do Estado, por meio de políticas públicas, em conjunto com toda a sociedade, precisa assumir seriamente um compromisso definitivo e prioritário de financiamento estatal da educação, de qualidade social da educação e da formação, promovendo equidade racial e de gênero, a valorização da carreira docente e do uso pedagógico e formativo das diversas tecnologias em prol das atuais e futuras gerações.

Desafio do financiamento

O Brasil descumpriu a maioria das metas dos Planos Nacionais de Educação (PNEs) 2001-2011 e 2014-2024. No Projeto de Lei (PL) nº 2.614/2024 que tramita no Congresso Nacional, que prevê o novo Plano Nacional de Educação (PNE) 2024-2034, o compromisso com o financiamento da educação está muito aquém de nossa demanda, frágil e sem garantias de ampliação dos investimentos necessários de acordo com os direitos à educação para todos.

Segundo análise do Fórum Nacional de Educação (FNE), no seu item 18 do novo Projeto de Lei, “Financiamento e infraestrutura da educação básica” e objetivo 18, “Assegurar a qualidade e a equidade nas condições de oferta da educação básica” (Brasil, 2024), são apresentadas quatro metas relativas a esse item e objetivo. Nota-se que os títulos apresentados provocam um questionamento: trata-se apenas do financiamento da educação básica? A leitura das metas, entretanto, nos levam a concluir que se trata, também, do financiamento da educação em todos os seus níveis, etapas e modalidades. Contudo, não há nenhuma referência a respeito do financiamento da educação superior.

Na Constituição Federal do Brasil estão previstos nos artigos 212, 205 e 208 os investimentos em educação: 18% da receita de impostos na manutenção e desenvolvimento do ensino. Já os Estados, o Distrito Federal e os Municípios devem aplicar, no mínimo, 25%. Em grande parte, também, a exemplos dos PNEs, descumprem-se estes percentuais constitucionais e ninguém é responsabilizado.

No contexto brasileiro atual, agrava-se a condição do financiamento da educação através da mercantilização, privatização e terceirização – por meio das Parcerias Público-Privadas (PPP). Os fundos públicos para a educação pública estão sendo disputados e destinados a empresas que estão se responsabilizado pela gestão de redes de escolas, conforme abordado na coluna anterior.

Declaração de Líderes do G20 endossa  e apoia a tributação progressiva como “uma das principais ferramentas para reduzir as desigualdades internas, fortalecer a sustentabilidade fiscal, promover a consolidação orçamentária, promover crescimento forte, sustentável” (página 19) e reconhece a importância do financiamento para uma educação de qualidade.

A manifestação do GT de Educação e Cultura do C20 reafirma, também, “a justiça fiscal no financiamento de uma educação e cultura públicas de qualidade e de forma sustentável ” (página 61) e reforça a necessidade e seriedade de maiores investimentos. Sem financiamento suficiente e contínuo nunca teremos educação e formação de qualidade em nenhum lugar do mundo, muito menos no Brasil que possui um déficit histórico na educação.

Desafio da carreira e valorização docente

As declarações do G-20 e do GT Educação e Cultura C20 alertam que o apagão docente é uma ameaça global e a valorização dos profissionais da educação precisam serem assumidos pelos Estados nacionais. O G-2-0 observa “com preocupação a atual escassez global de professores. Políticas de desenvolvimento profissional capazes de qualificar e reter professores, além de estimular o interesse de professores no início da carreira, tornaram-se um componente essencial do desafio multidimensional de preparar nossas sociedades para o futuro.” (parágrafo 27)

Já o GT de Educação e Cultura do C-20 prossegue reafirmando que “Valorizar todos os profissionais da educação e da cultura, assegurando condições de trabalho e saúde, com prioridade para o bem-estar mental, por meio de financiamento adequado. Garantir planos de carreira e remuneração com salários compatíveis à riqueza econômica dos países, promovendo igualdade salarial para profissionais da educação, incluindo educadores especiais, em relação a outros profissionais com o mesmo nível de formação, como forma de enfrentar a escassez de profissionais da educação.” (página 63)

Resta-nos uma indagação que pode ser, também, uma indignação brasileira: porque no Brasil, tanto a nível Federal, mas principalmente nos Estados e em boa parte dos Municípios, estamos na contramão dessas recomendações?

Recentes estudos publicados revelam aumento exponencial de professores temporários nas redes estaduais do Brasil, evidenciando que, pela primeira vez, em 2022, as redes estaduais tinham mais professores temporários do que efetivos. Este cenário se manteve em 2023, com 51,6% de temporários e 46,5% de efetivos. Em seguida, o estudo mostra o cenário em cada uma das 27 Unidades da Federação. Em 15 estados há mais docentes temporários do que efetivos e, de 2020 a 2023, 67% dos estados aumentaram a quantidade de temporários e diminuíram a de efetivos.

Os estudos apontam impactos negativos de professores temporários sobre os resultados da aprendizagem dos estudantes, como: a alta rotatividade docente que pode prejudicar o vínculo com a comunidade escolar e o efetivo desenvolvimento dos estudantes; os processos seletivos utilizados pelas redes de ensino, que em sua maioria não utilizam boas etapas de seleção e, as condições de trabalho dos professores podem ser piores que a dos efetivos.

Equidade Racial e de gênero

Os participantes do G-20 e do GT C20 se posicionaram, também, sobre a necessidade de equidade racial e de gênero ao reconhecerem que todas as “mulheres e meninas enfrentam barreiras específicas devido a diversos fatores, tais como falta de acesso a saúde, educação, desenvolvimento da carreira, igualdade salarial e oportunidades de liderança. Reconhecendo que a violência baseada em gênero, inclusive a violência sexual contra mulheres e meninas, é preocupantemente alta nas esferas pública e privada, nós condenamos todas as formas de discriminação contra mulheres e meninas e lembramos nosso compromisso de acabar com a violência baseada em gênero, inclusive a violência sexual, e combater a misoginia on-line e off-line.” (parágrafo 32).

Portanto, o GT de Educação e Cultura C20 reafirma a necessidade de políticas que promovam “a educação formal, não formal e popular que abrace as culturas de todas as minorias raciais e étnicas, povos indígenas, pessoas de ascendência africana, africanos, asiáticos, pessoas de ascendência asiática, migrantes, refugiados, comunidades ciganas, dalits, populações sem-terra e sem-teto, mulheres, meninas, pessoas LGBTQIAPN+, pessoas com deficiência, incluindo pessoas autistas, e aquelas com outras condições de saúde, como pessoas vivendo com HIV, demência e outros grupos em situações de vulnerabilidade, incluindo populações ribeirinhas.” (página 62).

No Brasil, na última década, retrocedemos em todos estes direitos agendas, mesmo sendo um país de maioria de negros e pardos, mulheres e jovens.

Tecnologias digitais e Inteligência Artificial

Por fim, não menos importante e necessário, os países reconheceram “o potencial das tecnologias digitais e emergentes para reduzir as desigualdades” e promover “acesso equitativo à informação, ao conhecimento e aos recursos digitais por meio de conectividade significativa, alfabetização digital e autonomia, reconhecendo a tecnologia como uma linguagem e a internet como um território para a educação e a cultura” (página 63).

Para tanto, afirmam, é preciso garantir “comunicação inclusiva e acessibilidade em plataformas e conteúdos digitais para pessoas com deficiência”, fomentar a “colaboração entre setores por meio da apropriação digital centrada na comunidade, oferecendo ferramentas e dispositivos digitais personalizados que atendam às necessidades específicas de cada comunidade. Além disso, fortalecer e estabelecer redes para ampliar o compartilhamento de recursos.” (página 63)

Sobre a Inteligência Artificial (IA), os países fizeram um apelo por “um engajamento global fortalecido e eficaz no debate sobre direitos autorais e direitos conexos no ambiente digital e os impactos da inteligência artificial sobre os detentores de direitos autorais.  (…) Nós reconhecemos, dizem os países do G-2-, a contribuição da infraestrutura pública digital para uma transformação digital equitativa e o poder transformador das tecnologias digitais para reduzir as divisões existentes e empoderar sociedades e indivíduos, incluindo todas as mulheres, meninas e pessoas em situações de vulnerabilidade”.

O GT Educação e Cultura C20 afirma ser necessário “garantir decisões centradas nos direitos humanos em relação ao uso ético da inteligência artificial”, assegurando princípios como privacidade, segurança, responsabilidade e proteção de dados no uso de tecnologias na educação e na cultura, implementando salvaguardas robustas – especialmente para crianças e adolescentes – contra possíveis violações de privacidade, aplicadas de forma consistente por atores públicos e privados.” (página 63)

Que a ética tenha algo a dizer sobre o tema da técnica e da IA, ou que a técnica esteja submetida a considerações ética, eis algo que se segue pelo simples fato de que a técnica é um exercício do poder humano, isto é, uma forma de ação, e toda forma de ação humana está sujeita a uma avalição moral.

Para o filósofo Hans Jonas, a técnica, independente do seu uso para o bem ou para o mal, tem em si um lado ameaçador, que a longo prazo poderá ter a última palavra. E, pelo bem da autonomia humana, a dignidade exige que possuamos a nós mesmos e não nos deixemos ser possuídos por nossas máquinas, temos que trazer o galope tecnológico sob o controle extratecnológico.

FONTE: www.extraclasse.org.br/opiniao/2024/12/o-g-20-o-apagao-de-professores-a-educacao-de-qualidade-e-o-financiamento-justo/

Autor: Gabriel Grabowski é professor, pesquisador. Também escreveu e publicou no site “Desqualificar a escola pública é meta das reformas educacionais”: www.neipies.com/desqualificar-educacao-publica-e-meta-das-reformas-educacionais/

Edição: A. R.

É a Escola Pública que realmente amamos?

“A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto.” Foi ainda de Darcy Ribeiro, a famosa frase de 1982, soando quase como uma profecia: ‘Se os governantes não construírem escolas, em 20 anos faltará dinheiro para construir presídios.”(1) Imaginem após 42 anos?

Na última sexta (29 de novembro de 2024) tive o privilégio de passar uma hora em uma Escola Pública de Passo Fundo. Pelas suas cercanias, vivi um bom tempo da adolescência, subindo e descendo suas ruas ainda mal traçadas para alcançar a Avenida Brasil. Nosso sonho na época era o de estudar no CENAV, como se chamava nos anos 70. Mas não havia vagas para quem era desconhecido, recém-chegado do interior. Então fomos pagar para completar o ‘segundo grau’. Pagar não, financiar.

Passando em frente ao EENAV na sexta, lembrei de tudo e parei para apreciar as dezenas de alunos descendo suas escadas. Quanta gratidão pela Escola! Não pude acessá-la, pois a mim representava uma Escola Federal da época; exclusiva e inacessível. Indo para a Escola particular, deparei com amigos, fiz novos amigos, mas sempre sabendo que os motivos que os levavam para as salas eram diferentes dos meus. 

Créditos: Passo Fundo em Imagens (2022): https://www.facebook.com/passofundoemimagens

Então nós saímos desta escola gigante aos nossos olhos de então, para jogar vôlei com os amigos da CENAV.  Não usávamos uniformes.  Eles, sim. Os carros que estacionavam em frente a sua Escola eram diferentes dos que apanhavam meus colegas. E a defasagem entre nossos sonhos nunca parou de crescer.

E já se foram 40 anos sem nunca entender completamente porque as escolas representam tão fielmente o extrato das camadas as quais somos achatados e acomodados na sociedade.

As cenas me vieram à mente quando vi que seus alunos de agora não buscavam por maçanetas de carros, mas pelas mãos de suas mães e pais, para, em seguida, seguirem as suas casas, creio; caminhando.

Mas o motivo de minha visita a uma escola pública nessa semana foi um encontro com a sextos e sétimos anos através do projeto chamado Autor Presente. (2)  Ali, apresentamos às turmas inquietas pelo calor, um pequeno livro sobre rejeição e empatia, seguido de perguntas e respostas entre o autor e sua plateia.

Não há como não se emocionar ao sentir novamente o clima da Escola Pública, tão próximo. Não foi preciso ver carrões no estacionamento ou empresas de segurança guardando seus portões. O que eu vi foram sorrisos de professores e coordenadores, vi crianças que pulavam felizes, muitas sem celular, senti o acolhimento do que faz da escola sua razão principal de viver ou ser; o sentimento de ser incluído. É isso!

Sempre lamento quando sou obrigado a argumentar contra um tal de senso comum, que a educação paga é a mais organizada e ensina mais. Um grande equívoco! 

Aprende-se mais onde há uma dedicação unilateral de professores, geralmente desvalorizados, com seus alunos, em torno da sua realidade. Aprende-se onde há amor, e sobretudo, aprende-se mais onde o maior valor é a necessidade de transformação. Sem importar qual sua dimensão, a realidade que se impõe no dia a dia da Escola Pública é a verdadeira geradora de mudanças.

Por quais razões mudar quando se tem tudo o que se quer?  Quando todos os desejos podem ser atendidos de imediato? Mudança mesmo por quê?

O mundo da Escola Pública não é o mesmo da Particular. Nem pode ser. A sociedade real está aí representada, com todas as suas disfuncionalidades que a escraviza. Para alunos e famílias a que isso lhes diz respeito, que maravilha poder ter apenas um tênis, não ter mais do que algumas roupas e não ter de provar o tempo todo o que se pode comprar. É libertador não ter um celular da hora e não ter de competir para arrastar ou por ele ser arrastado, somente para mostrar à sua classe.

Na vivência de uma Escola Pública, para quem quer ver, vê-se um princípio de mudança que a sociedade brasileira faz questão de omitir: a desigualdade estrutural, consentida e planejada contra sua população. Ali é o templo das transformações. Na convivência dos amigos que têm quase sempre problemas comuns, neste espaço serão geradas as sementes da transfiguração, que, sem as quais, nunca teremos forças para romper as correntes que mantém o sistema educacional no fosso eterno de todas as carências.

Não é possível haver vida paralela.  Embora no seu tempo, e os seus desafios reais sendo demais para suas idades, sair de suas casas para um dia na Escola pode ser o melhor que se apresenta.  É nessa forja que nasce o desejo pessoal, imutável, da busca da superação de si mesmo.

Longe das agruras em seus lares, nem todos, evidente, estes alunos carregam as dores e preocupações de seus pais.  Como viver então para não mudar?

Por isso, em seus prédios e pátios há uma áurea malvista, mas que é de resiliência e indignação. Temos de ver estes alunos como nosso reflexo, de contradição e de buscas, pelas quais passamos, e não como nascidos fora da cerca. Sua paciência e devoção são excepcionais.

Não podemos fazer de conta, claro, que muitos estudantes comparecem sem vontade, sem propósito ou sem o mínimo de reconhecimento sobre o que lhes é oferecido. Mas isso não é exclusivo. As redes sociais já sequestraram seus desejos e os tornaram suas presas. Mas não todos! E sempre há tempo de alertá-los, pois no momento em que desistirem e forem sugados para dentro do mercado de trabalho, precocemente, cada ano passado longe de seus bancos será uma dor a arrastar.

Duvido sempre, que na hipótese de Jesus estar entre nós, não frequentasse a Escola Pública. Ali seria o seu lugar.

É a reunião da catarse social, onde se vê a realidade de um país que anda na direção contrária, em achar que sem educação de qualidade, com apoio e verbas, vai seguir muito longe.

Na Escola Pública, mesmo com todo o descaso em prioridades vitais, os seus pátios são formadores de poetinhas, pequenos escritores, grandes professores, idealizadores de todos os futuros distintos, pois os que ali frequentam, não tem muitos médicos ou advogados na família em que possam se espelhar.

Registro de atividade Autor Presente com comunidade escolar Escola Estadual Adelino Pereira Simões. Fotos: Marciano Pereira

Sagrada Escola Pública onde os educadores são verdadeiros heróis, os pais, sobreviventes, e os alunos, quase sempre felizes, formam a comunidade da resistência em uma escala social mal construída e reprodutora das mesmas condições dos seus avós.

Quem acha que a transformação de uma sociedade refém da condição colonial é possível, que considera que a educação reparadora pode acolher qualquer pessoa, independente do mundo coisificado e sua felicidade precificada, deveria olhar com amor extremo aos que tem em uma simples ida à escola, a sua maior emoção do dia.

A Escola Pública é o antídoto da ideia de que mais presídios são necessários. E o próprio Prof. Darcy, lutava pela ampliação do seu espaço, como que um dos últimos a gritar em sua defesa. Hoje, ao contrário, será no seu meio em que se dará a nossa redenção, quem sabe, a desconstrução deste projeto de alienação e descaso da Educação e seus programadores.

Pense em um futuro de Escolas lindas, seus muros bem pintados, com professores seguros de que valeu a pena e, com seus alunos, sobretudo, certos de que representam o fim da escassez espiritual e material em suas vidas e famílias.

Antes de encerrar meu diálogo com estes queridos e atentos pré-adolescentes, veio de um deles a pergunta mais inteligente:

– Há algum livro em que o senhor já se arrependeu de escrever?

Há inquietação neste questionamento. Não partiu de um colégio com pompa, espaçoso e bem pintado, a melhor questão que já ouvi.

Que ótimo! Quantas certezas levei comigo nessa tarde!

A partir dos pátios e salas da Escola Pública, aguardem a mudança que precisamos!

Escrevam aí!

Referências:

1.Darcy Ribeiro (1922-1997) foi um dos principais pensadores da Educação Brasileira, Fundador da Universidade de Brasília, Ministro da Educação, idealizador dos CIEPs, escolas de tempo integral.

2. Gratidão aos mestres, Marciano Pereira e Vanusa Kolwski, pela coordenação do encontro, sua dedicação e carinho para que de fato acontecesse.

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Escola perdida, alunos ausentes”: www.neipies.com/escola-perdida-alunos-ausentes/

Edição: A. R.

Casamentos

“Nenhum casamento é suportável se as pessoas não se modificam, não mudam. Por isso, case-se várias vezes, de preferência com a mesma pessoa”.

A necessidade renovação, transformação e mudança para se adaptar às distintas fases da vida, em especial no que diz respeito à vida amorosa, é um dos mais antigos axiomas sobre os casamentos. Afinal, quando casamos com alguém certamente esta pessoa se transformará em outras pessoas dentro daquele mesmo sujeito; igualmente quando nos separamos esta será uma pessoa muito distinta daquela com quem iniciamos uma jornada de casal. Portanto, a mudança é mandatória.

Nada há de novo nestes conselhos, inclusive a ideia de “casar muitas vezes” com o mesmo parceiro. A questão é que esta perspectiva sobre as uniões parte de uma visão rígida sobre o casamento, tratando-o como se fosse um evento social sagrado e por demais precioso, que precisa ser preservado a todo custo.

É inegável a importância que as civilizações emprestaram à união dos casais, pois que o reconhecimento do Estado garantia compromissos de cuidado por parte dos maridos, e de fertilidade e fidelidade por parte das esposas. Estes são, sem dúvida alguma, valores primordiais, essenciais para a sobrevivência de qualquer grupo. Não seria possível a grande revolução da agricultura e do sedentarismo ocorrida no paleolítico superior não fosse a adoção destas medidas de controle social.

Não à toa, as uniões de casais são descritas como o ápice e o centro da estrutura social, pela sua importância na continuidade da espécie. Entretanto, é possível que hoje exista um exagero sobre esta forma de ver a vida “a dois”. Talvez a forma como vemos os relacionamentos precise ser refeita.

No ano passado, o número de uniões civis no Japão caiu pela primeira vez desde os anos anteriores a segunda guerra mundial. Ao lado disso, e por consequência, os nascimentos caíram 5.1% , chegando a 758 mil por ano, números que o Instituto Nacional de Pesquisa Populacional e Previdência Social esperavam só ser alcançado em 2035. Ou seja: a baixa de casamentos leva à baixa de natalidade.

A falta de jovens e o envelhecimento da população é um problema grave para a economia de qualquer país. Em 1982, o número de nascimentos no Japão foi de 1,5 milhão, quase o dobro do que se vê agora. A taxa de fertilidade – a média de nascimentos por cada mulher – caiu para 1,3, um valor trágico se levarmos em consideração que a taxa necessária para manter uma população estável; é de 2,1. Os falecimentos ultrapassam os nascimentos por mais de uma década. Assim, no Japão mais pessoas são enterradas do que paridas há mais de 10 anos.

Em uma aldeia japonesa chamada Kawakami não houve o nascimento de nenhuma criança em 25 anos. Esta localidade já teve 6 mil moradores nos anos 80, e hoje não tem mais do que 1.150 habitantes. Será o Japão um fato isolado? Serão os japoneses o tubo de ensaio de uma crise de natalidade grave que atingirá o mundo inteiro?

Talvez o casamento não seja tudo isso. Apesar da importância que ainda vemos neste tipo de união civil – que pode ser medida pelos custos de uma cerimônia para as classes abastadas – é possível que o casamento como o conhecemos, que inclui os filhos, a monogamia, a coabitação, os projetos compartilhados, etc., tenha sido uma moda passageira na história da humanidade, uma forma intermediária para acomodar necessidades específicas, e tão somente um subproduto do patriarcado, criado para manter o controle sobre as mulheres, a procriação e a descendência.

Hoje em dia o casamento é criticado como nunca e duramente questionado sobre seu real valor, e para alguns parece evidente que ele tem seus dias contados por não oferecer aos casais a liberdade e a autonomia que tanto almejam.

A lenta decadência do modelo patriarcal talvez leve consigo alguns elementos que hoje são comuns, mas que talvez se tornem raridade no futuro: as parcerias eternas, os casais de velhinhos e o almoço de domingo na casa dos avós. Quem sabe que tipo de sociedade diferente vai surgir quando desta instituição sobrar apenas uma vaga memória.

Por fim, a questão dos casamentos, seu significado e seu futuro, são determinantes para as sociedades contemporâneas. Por mais que existam questões sobre os valores inseridos no casamento, ainda haverá a necessidade de ajustar os afetos, o desejo sexual e a criação das crianças, fruto destas uniões. Sem a figura do casal heterossexual como a única forma de expressão dessas uniões, como vai ser a construção desta nova sociedade? Sobre quais valores se assentará e como será a arquitetura das famílias do século XXII?

As pessoas da minha geração, em especial aquelas contaminadas pelo romantismo e que nasceram sob a égide da família nuclear, por certo não terão a oportunidade, ou o tempo de vida suficiente, para testemunhar este mundo sem casais e sem juras de amor eterno; não teremos a chance de vivenciar as dores e os sabores deste mundo novo e desafiante. Entretanto, é inevitável a curiosidade em saber se o modelo que virá para garantir o afeto e o cuidado das crianças terá tanto sucesso quanto o amor romântico teve na história do planeta.

Autor: Ricardo Herbert Jones. Também escreveu e publicou no site “O velho e o cafona conceito de equilíbrio”:www.neipies.com/o-velho-e-cafona-conceito-do-equilibrio/

Edição: A. R.


 

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