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O que seria uma cidade, sem considerar as pessoas?

Fui convidada a participar do Cine Debate do CMP Sindicato para comentar o documentário “O corpo e a cidade modernista”, evento que faz parte do VII Congresso dos Professores e Professoras municipais com o tema: Cidades Educadoras: o que temos a ver com isso? Foi um prazer dividir os conhecimentos e reflexões que seguem.

Começamos a nossa reflexão, fazendo uma análise do Documentário “O corpo e a cidade modernista”, um documentário sobre a influência do urbanismo modernista de Brasília na relação afetiva de seus habitantes, seus espaços urbanos e relações interpessoais.

Caso desejar conferir o documentário na integra acesse: https://youtu.be/DC8UqPxfnY4?t=115

O narrador estreia o documentário com um simples, mas não raso, questionamento: o que constitui uma cidade? E eu voz pergunto: São as pessoas? Os edifícios? As ruas? Os carros? O conjunto de tudo isso?

Penso que cidade é uma daquelas palavras que o significado não comporta. A gente pode definir ela de inúmeros modos, mas a sua complexidade nos faz sentir que há mais no não dito que no descrito.

A Arquiteta & Urbanista Raquel Rolnik (1988), no livro O que é Cidade, trabalha o conceito por meio de uma metáfora: “a cidade é antes de mais nada um ímã, antes mesmo de se tornar local permanente de trabalho e moradia”. Shakespeare, em sua obra intitulada como Coriolano, questiona por meio do personagem Sicinius:  O que é a cidade, se não as pessoas?

Pensando bem, fica evidente que a matéria-prima das cidades não é o concreto, mas as pessoas. E se a cidade é primordialmente feita por pessoas, é lógico supor que a forma que ela adquirir também vai dizer muito sobre pessoas, vocês não concordam?

Com Brasília, não foi diferente, começando pela própria localização, situada no centro do Brasil, pode querer significar um estado presente? Ou um estado vigilante? Ou um estado centralizado?

Ela é um caso bem peculiar no Brasil, particularmente é a única cidade que eu conheço por aqui que foi projetada para depois virar cidade. E tudo começou com um concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil. O vencedor, entregando, polemicamente, a proposta em uma folha branca desenhada a lápis no último do segundo tempo, foi o Lúcio Costa. Niemeyer era amigo dele e veio depois, atuando com maior ênfase na arquitetura monumental.

O Modernismo era a tendência da época, uma vertente estilística inovadora que veio com força após a Segunda Guerra Mundial. Utilizava da pré-fabricação, da tecnologia, da pureza dos elementos. Less is more, já ouviu essa frase por aí? Ou melhor, menos é mais? Pois, é, ela é a criação de um arquiteto modernista chamado de Mies van der rohe, que retratava bem o espírito da época, que talvez possa ser traduzido por otimização.  

Mas, mais do que apenas um estilo, o Modernismo pode ser visto como uma busca por ruptura com um período excessivamente ornamental e também desigual. Representava a superação da dogmática vertente neoclássica da Alemanha Nazista, por exemplo. O não aceitar mais o estado das coisas, o querer fazer diferente.

E essa história aparentemente estranha de projetar cidades do zero ou reestrutura-las surgiu graças a uma necessidade de ordem em meio ao caos gerado em função da concentração de pessoas em cidades no Período Industrial.

O Brasil, assim como todo o ocidente, se abriu a essa nova vertente. As coisas começaram a dar as caras por aqui na semana da Arte Moderna, ainda 1922. O movimento antropofágico é um exemplo disso, um impulso quase que desesperador pela busca da nossa identidade.

Brasília veio depois, inaugurada em 1960, era a consolidação das ideias modernas. Se fundamentou na carta de Atenas que concebia a cidade em quatro funções básicas: habitação, trabalho, diversão e circulação. Uma cidade de oportunidades em que cada cidadão teria acesso ao bem-estar e a sua beleza pelo menos em ideal.

Estruturada em uma cruz, talvez com intenções religiosas, no final da história ela acabou virando um avião, visto de cima. Dizem que Lúcio Costa acabou priorizando as curvas de níveis e que não foi nada intencional o desenho de avião, inclusive ele até se incomodava com esse apelido carinhoso. Mas, cá entre nós, a parte planejada era justamente chamada de plano piloto, avião parecia combinar, não é mesmo?

Lúcio Costa previu Brasília em diferentes escalas ou em diferentes formas de sentir a cidade. A primeira que podemos citar principalmente em função de seu destaque é a Escala Monumental, de extremo carácter simbólico. Lúcio Costa que me perdoe, mas, para vocês compreenderem, seria o corpo do avião!

Lá estão situados a praça dos três poderes, a Esplanada dos Ministérios e também o Conjunto Cultural da República, dentre outras coisas semelhantes (é geralmente a parte de Brasília que mais aparece na TV). Segundo Lúcio Costa, é justamente nesta escala em que o homem adquire a dimensão do coletivo, do entendimento da grandiosidade e da concepção intrínseca de que ninguém faz aquilo sozinho. Ela também representa a pujança e a grandiosidade da nação brasileira.

Em um segundo momento, podemos citar a escala residencial, que seriam as superquadras, como vimos no documentário. Lá a escala é menor e se adapta ao indivíduo. As alturas máximas para construir são de 3 a 6 andares. E o térreo sobre pilotis, que seriam apenas pilares, livres para a circulação. E há uma proibição interessante, há uma proibição em instalar grades ou muros. A única cerca por lá são às árvores, ou seja, os edifícios são cercados de árvores. Existem também a previsão para o comércio de bairro, cinema, igreja e a localização da escola primária próxima ao clube de vizinhança.

Segundo o próprio Lúcio Costa, a cidade não seria dividida em bairros ricos e pobres, haveria integração ao invés de discriminação. Ele até teria orientado que os edifícios residências deveriam ter uma cota para a população mais baixa, visando a integração e socialização. Mas, como a gente viu no documentário, isso acabou não acontecendo.

E temos a escala gregária, que se situa no cruzamento dos dois eixos, que abriga os setores comercial, bancário, hospitalar e rodoviário. E que o documentário cita como a parte da cidade mais parecida com as outras.

E por fim, a escala bucólica, que como o próprio nome insinua são os parques, às áreas verdes, o lago, os gramados, os espaços “vazios” entre aspas.

Se não fosse o documentário para estragar tudo, talvez eu teria convencido vocês que Brasília é um lugar todo de bom de se viver, não é mesmo? Então, a gente pode se perguntar onde está o problema? E mais ainda, o que exatamente isso que eu estou falando tem a ver com cidade educadora?

Então, particularmente, avalio que o tendão de Aquiles de Brasília é a mobilidade. A forma como ela foi grandiosamente projetada, espraiou a cidade e criou grandes distâncias, sem o devido suporte de infraestrutura para transportar e conectar as pessoas.  

Outro ato falho, vamos dizer assim, foi a aposta tanto de Juscelino Kubitschek na indústria automobilística, como de Lúcio Costa. Acredito que ambos foram seduzidos pela potência tecnológica e ideológica que representava e ainda representa o automóvel. É claro que isso gerou riqueza e desenvolvimento para o país, e essa é a parte boa. Mas, também está causando sérios problemas não só em Brasília, e que a gente tende a negligenciar.

Um ano depois da inauguração de Brasília, em 1961, Jane Jacobs, que nem urbanista era, era uma jornalista, escreveu uma obra fantástica de bom senso chamada Morte e Vida das Grandes cidades, criticando o sistema de caixinhas. Ela não usa esse termo, mas o porém de uma cidade modernista era justamente a fragmentação ou a setorização, para dar um nome mais bonito. Os setores bem definidos que enxergamos em Brasília.

Eu não sei o que vocês pensam a respeito, mas eu julgo que essa é uma visão ainda bem enraizada no ocidente. A gente costuma ter pouca compreensão holística, e é por isso que muitas vezes fica difícil compreender o que a cidade tem a ver com educação. Isso se aplica as cidades, as profissões, a nossa visão de mundo.

Exemplo do médico quando trata do fígado com um remédio que lhe causa outro problema, ai você vai em outro médico e ele lhe dá outro remédio, mas para tratar especificamente daquele outro problema, e assim segue… vocês já passaram por uma situação assim? E no final, como fica a nossa saúde? Percebem a importância de compreender o todo?

Mas, voltando para Jacobs, o que ela defendia é que para uma cidade ter vitalidade ela vai precisar de diversidade, de conexões, de proximidade.

Utilizando palavras do nosso documentário: “uma cidade é amada quando ela é vivida”. E para a gente amar uma cidade a gente tem que se sentir parte dela.

E a certas formas de projetar que favorecem a união e a coletividade. Como, por exemplo, os espaços comunitários acessíveis, próximos da gente, que não são especificamente os shoppings centers, mas, por exemplo a praça da Gare. Que você vai para ter paz, para olhar um lago, se divertir com os cachorros correndo enlouquecidamente pela grama e roubado a sua pipoca e assim sucessivamente.

Parque da Gare de Passo Fundo, Passo Fundo, RS

Espaços que a gente aprende que pode conviver com os diferentes, pois eles também são iguais. Espaços tão belos que somos impelidos de jogar um lixo no chão. Espaços para trocar as drogas por música, apresentações, esporte e diversão. Espaço de mistura e também de respeito.

O ponto chave da educação em cidades é a coletividade, é essa troca. É como os espaços urbanos podem aproximar ou como vimos em certos lugares de Brasília, afastar. E agora a gente chega em mais um ponto importante e eu prometo que já estou acabando. A Coletividade é o oposto da individualidade. E há certos momentos em nossas vidas que precisamos usar de nossa individualidade, mas, o problema mesmo acontece quando há claramente uma falta de equilíbrio desse jogo.

Quando a individualidade toma proporções inadequadas, a gente começa a enxergar o espaço público como de ninguém ao invés de nosso, e aí não cuida. Quando um povo é muito individualista, a gente começa a perceber isso na forma em que o espaço urbano vem sendo projetado. Como por exemplo, nos investimentos em transporte individual ao invés do público. E aí de fato Lúcio Costa talvez tenha errado ou sido seduzido pela promessa do automóvel, pois ele pensou tanto na coletividade, mas esqueceu da coletividade na mobilidade, o que hoje é uma das principais raízes do problema de Brasília.

Nos referenciando pelo período atual, se a gente pensar que o importante é ter lugar pra eu passar com o meu carro e o outro que fique em casa, a gente nunca vai resolver o problema de mobilidade de uma cidade. Que se resume em transporte público de qualidade, a fim de reduzir a emissão de CO2 e números de carros circulantes, o que no final da história, fará bem a todos nós humanos e inclusive para o Planeta.

Tem outro exemplo que eu gosto de dar que é sobre os muros, proibidos em Brasília, inclusive. Quando você tem uma calçada estreita e muros altos, a sensação é de opressão, insegurança e de mal-estar. E aí quando a gente vai construir uma casa o que a gente faz? Reclama que tem o recuo obrigatório e na sequência fecha ela de preferência com muros altos para nos sentirmos protegidos. E aí, vocês lembram daquele exemplo do médico que eu dei anteriormente? Ou da falta de visão holística, do todo?

Se aplica aqui também, pois ao criar esse ambiente protegido interno, mas inseguro externo, você aumenta as chances de criminalidade na sua própria rua e isso também prejudica a você. Utilizando as frases do imperador Marco Aurélio, “o que faz bem para colmeia faz bem para abelha”! E o que faz mal para a comunidade….

Claro que teríamos muitas discussões, como por exemplo, o papel da prefeitura em uma cidade educadora, o papel das comunidades, das escolas e de cada um de nós. Mas quem sabe fica para uma próxima oportunidade.

Fotos do Evento Cine Debate, realizado no dia 03/08/2022, no Auditório da Biblioteca da UPF (Universidade de Passo Fundo). O Congresso dos Professores Municipais ocorrerá no dia 23/08/2022, com o tema: Cidade Educadora: o que temos a ver com isso?

Para quem desejar se aprofundar no assunto, tenho um vídeo no Youtube que aborda essas questões e se intitula: o que faz um urbanista? No canal diálogos da Ana. Se tiverem interesse em conferir, eu ficarei muito feliz em encontrar vocês também por lá.

Acesse aqui: https://youtu.be/FZ6_2WjzgNk?t=30

Por hoje, a mensagem que eu desejei transmitir, foi o quanto ter consciência da coletividade é importante para todos nós. E o quanto a cidade atua como agente ou impeditivo dessa coletividade. O quanto a gente pode usar a cidade, os espaços públicos para fazer refletir sobre essas ideias e até mesmo ideais.

O quanto vocês professores devem buscar por ensinar a coletividade em um mundo cada vez mais individualista em que o melhor amigo de seus alunos por vezes é uma tela. Para finalizar, eu trago uma citação de Daniel Goleman, no livro foco:

“As crianças de hoje estão crescendo numa nova realidade, na qual estão conectados mais a máquinas e menos a pessoas de uma maneira que jamais aconteceu antes na história da humanidade. Isso é perturbador por diversos motivos. Por exemplo: o circuito social e emocional do cérebro de uma criança aprende através dos contatos e das conversas com todos que ela encontra durante um dia. Essas interações moldam o circuito cerebral. Menos horas passadas com gente –  e mais horas olhando fixadamente para uma tela digitalizada – são o prenúncio de déficits.” (Goleman, p.13).

E são essas crianças que irão gerir as nossas cidades do futuro.

Fotos: Do Parque da Gare: https://www.facebook.com/passofundoemimagens/

Demais fotos: Divulgação/arquivo pessoal

Autora: Ana P. Scheffer

Arquiteta e urbanista, Mestre em Engenharia com ênfase nos estudos de Mobilidade urbana sustentável, estudante de Filosofia e escritora. Mantém um canal no Youtube sobre reflexões chamado de Diálogos de Ana: Diálogos da Ana – YouTube

Edição: Alexsandro Rosset

Filosofia para enfrentar a sociedade do cansaço

Promover processos educativos que nos ajudem a pensar, a conviver de forma saudável com os outros, perceber o valor das pequenas coisas e, acima de tudo, cultivar as virtudes da prudência, temperança, gratidão, tolerância, simplicidade e amor podem se constituir estratégias educativas para vencer a sociedade do cansaço.

Li recentemente o livro Sociedade do cansaço do filósofo coreano Byung-Chul Han. Trata-se de um provocativo ensaio que aborda um dos complexos problemas da sociedade contemporânea. Segundo ele, cada época tem suas doenças paradigmáticas.

Assim como existiu a época bacteriana e viral que durou até a descoberta dos antibióticos, a entrada do século XXI caracteriza-se pela presença visível das doenças neuronais, tais como depressão, transtorno por déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) ou certas perturbações da personalidade.

Na época bacteriana e viral (imunológica), o grande inimigo era o corpo estranho (o outro) que precisava ser eliminado. Por isso, era necessário ter mecanismos imunológicos que pudessem expelir, jogar para fora a ameaça. Em termos biológicos, o sistema imunológico possibilita que o organismo produza mecanismos de defesa (anticorpos) podendo assim expelir qualquer corpo estranho ameaçador. Em termos sociais, a imunologia se faz sentir nas práticas de defesa contra os inimigos que representam uma ameaça a existência da ordem e do funcionamento normatizado de uma determinada comunidade ou grupo social.

Para o filósofo coreano, a dialética da negatividade é o princípio fundamental da imunidade. O outro imunológico é o negativo que se introduz sutilmente e passa a constituir uma ameaça. Por isso precisa ser eliminado. Em termos simples, a presença de um vírus gripal representa uma ameaça ao organismo que tenta de todas as formas se defender. A utilização de antibióticos representa a solução instantânea para auxiliar o organismo a realizar mais depressa a eliminação do intruso que constitui uma ameaça.

Para o filósofo coreano, as doenças neuronais seguem uma dialética da positividade, ou seja, o inimigo não é mais um corpo estranho, um estrangeiro que precisa ser eliminado, mas sim um idêntico que produz excesso e que gera o esgotamento, a fadiga e a sensação de sufoco.

As doenças neuronais produzem a sociedade do cansaço, do excesso, da fartura exagerada. Nosso tempo se caracteriza justamente por um excesso de tudo: de informação, de comida, de consumo, de atividades, de ocupação, de imagens, de produtos, de desejos, de trabalho, de produção. 

Como diz o filósofo coreano, o aumento excessivo de produção leva ao enfarte da alma. O cansaço da sociedade de produção é um cansaço individual, um cansaço que separa e isola, um cansaço alienante. Este cansaço alienante provoca no indivíduo a incapacidade de ver, de perceber, de dar-se conta.

As reflexões de Byung-Chul Han em seu escrito Sociedade do cansaço, podem se apresentar a nós como um elemento educativo importante. Seja na escola ou na vida diária, seja na forma como conduzimos nossas atividades rotineiras ou como nos relacionamos com os outros, precisamos nos dar conta se não estamos absorvidos pela sociedade do cansaço, ou seja, uma condição de excesso que gera fadiga, depressão, sensação de sufoco.

O uso exagerado de antidepressivos, a medicalização precoce das crianças, os diagnósticos apressados de Transtorno por Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) ou certas perturbações da personalidade, atestam que a sociedade do cansaço se faz presente no nosso cotidiano.

Promover processos educativos que nos ajudem a pensar, a conviver de forma saudável com os outros, perceber o valor das pequenas coisas e, acima de tudo, cultivar as virtudes da prudência, temperança, gratidão, tolerância, simplicidade e amor podem se constituir estratégias educativas para vencer a sociedade do cansaço.

O futuro depende da forma como conduzimos nossas escolhas no presente. Viver a falsa esperança de que o universo conspirará para que no futuro as coisas estejam sintonizadas com o que gostaríamos de ter é alimentar um modo conformista de enfrentar a vida, é esperar que o destino se encarregue de ajustar os caminhos para termos uma vida melhor. Leia mais: https://www.neipies.com/filosofia-para-viver-intensamente-o-presente/

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Edição: Alexsandro Rosset

As crianças deveriam ser amadas por existirem, não pela forma que se comportam

Que as nossas crianças possam se sentir vivas e que existam com um corpo e um espírito cheios de amor pelo mundo e do mundo por elas.

Para iniciar este ensaio que trata de um tema tão importante às nossas sociedades eu trago o poeta Vinicius de Moraes com o seu poema “O ar (o vento)” nos seus belos versos que dizem “Estou vivo mas não tenho corpo / Por isso é que não tenho forma / Peso eu também não tenho / Não tenho cor.”

Nós, adultos, nos comportamos muitas vezes de forma tão feia, vexatória e escandalosa e ainda assim temos sempre alguém que diz nos amar. O pior é que quando quem nos ama nos larga fazemos o maior escândalo, e somos tão egoístas que muitas vezes matamos a pessoa que dizia nos amar, como acontece nos feminicídios. Eu pergunto, isso é realmente amor?

Nos embriagamos e brigamos com a pessoa que dizia nos amar causando vexame em público. Também perdemos a cabeça e acabamos fazendo coisas horríveis em nome do amor.

Quantas crianças você já viu ficar de birra implorando o seu amor?

As crianças imploram amor através das suas emoções que podem ser expressas no choro demasiado sem causa, no xixi na cama quando já grandinha, na febre ou na dor de cabeça. Elas dizem que precisam de amor quando ficam sempre junto de você querendo o seu abraço ou aconchego porque criança não sabe ser violenta, ela aprenda com os pais a ficar com raiva, xingar e bater nos amiguinhos ou adultos próximos.

Qual o problema das crianças tirarem notas baixas na escola ou ficarem de birra o tempo todo? Só por isso elas vão ser menos amadas? O amor não escolhe comportamentos, tanta gente educada ama outras grosseiras e ridículas, ele nasce apenas pela existência daquela pessoa, e assim deve ser com as crianças, amor à primeira vista desde o nascimento até que ela não precise mais de você, se é que vai existir esse dia.

Que as nossas crianças possam se sentir vivas e que existam com um corpo e um espírito cheios de amor pelo mundo e do mundo por elas. Que nas suas levezas sejam as cores que pintarem nos seus espíritos em formação quando se sentirem amadas porque deverão sempre sentir o amor tão grande amor.

Amar uma criança parece fácil para alguns, mas quando surgem as necessidades do dia a dia, os desafios, os medos, as tempestades de raiva e impulsividade e as famosas birras que hoje estão tão em moda nas redes sociais muitos percebem que não é tão fácil assim. Deixar de ir ao baile com os amigos para ficar em casa com a criança que não tem com quem ficar, deixar de comprar aquela bolsa bonita para comprar o brinquedo que a criança deseja.

Em toda relação de afeto precisamos saber fazer renúncias muitas vezes em nome do amor. Tantas vezes já me peguei pensando se realmente sabemos amar as nossas crianças. Uma vez uma amiga me questionou dizendo que todo mundo sabe amar uma criança. Eu não acho que seja tão fácil assim. Primeiro que criança dá trabalho e nos rouba a paciência. Elas são seres pequeninos e, geralmente, irresponsáveis porque ainda não sabem lidar direito com normas e horários e que precisam de cuidados e atenção a todo tempo, coisa que não podemos mais lhes oferecer nos dias de hoje.

Na verdade, não sabemos nem mesmo como nos amar, imagine a amar uma criança que vem cheia de dúvidas intrigantes para as nossas vidas e toma todo o espaço que antes era só nosso e agora temos que dividir com elas. Rouba o coração do nosso parceiro, desarruma a casa e a vida da gente. Quantos de nós não já saímos à meia-noite para irmos à procura de uma farmácia por que a criança estava com febre? Chateados, reclamões, abusados somos nós diante do nosso conforto e comodismo.

Diz o filósofo grego Sócrates “conhece-te a ti mesmo” isso para que possamos aprender a nos amar de verdade. Se no primeiro sinal de que algo deu errado perdemos a cabeça e não sabemos o que fazer, logo percebemos que não nos conhecemos como deveríamos. Como podemos nos amar se não nos conhecemos necessariamente? E além, como podemos amar uma criança se nãos sabemos nem nos amar de verdade?

Parece que as pessoas estão esquecendo como se ama verdadeiramente um outro ser e isso é um problema sério às nossas sociedades.

Para amar não é somente cobrir a pessoa de mimos e carinho. É uma renúncia de quase tudo o que fazíamos antes para aprendermos a lidar com a subjetividade daquele ser com quem passamos a compartilhar os nossos dias. É um sentimento que sai das profundezas da nossa alma e toma conta de toda a nossa existência.

Amamos simplesmente por amar sem exigir nada de ninguém é por isso que devemos amar as nossas crianças sem cobranças de comportamentos ditos adequados na presença de visitas ou em meio ao público. A criança vai se comportar do jeito que ela se sentir confortável ao lado de quem quer que seja e nem por isso será menos amada. É assim porque tem que ser assim quando se ama uma criança.

Sem contar que criança em casa além de desarrumar tudo faz uma bagunça na vida da gente. Muda o nosso ritmo de dormir, de se alimentar e de até mesmo assistir televisão. Tem gente que adora criança, mas só as das suas visitas e nem sempre elas são bem-vindas porque mexem em tudo o que é alheio.

Costumamos gostar das crianças comportadas.

Aquelas que ficam sentadas quietinhas no sofá enquanto beliscamos carinhosamente as suas bochechas e elas sorriem, felizes. Por essas, logo criamos afeto e costumamos dizer que são lindas e meigas como se toda criança não fosse linda. Esquecemos que muitas vezes as crianças quietinhas e tímidas carregam problemas emocionais assim como as que fazem muita birra e xixi na cama até certa idade.

Toda criança deve gostar de brincar, correr, se sujar, pular, subir em árvores e gritar. Esta é a verdadeira criança feliz. E para que ela cresça mais feliz ainda nós adultos devemos dedicar-lhes parte das nossas vidas. Estamos preparados para isso? Vejo mulheres jovens hoje em dia sendo mães. Deixando os seus filhos aos cuidados dos avós porque precisam estudar e trabalhar.

Nas minhas andanças pelas ruas da minha cidade costumo me deparar com crianças nos semáforos limpando carros, outras sentadas nos canteiros levando sol e vento o dia inteiro sendo usadas pelos pais para comoverem a quem passa para doar qualquer coisa que alivie as suas fomes. Essas crianças não são paparicadas, não são chamadas de lindas e meigas. Por quê? Elas não são crianças iguais as comportadinhas?

É preciso que aprendamos a amar as crianças não pela forma como elas se comportam, mas tão somente pelo fato de existirem. As crianças tornam o mundo mais belo, conviver com uma criança nos faz ver onde estamos errando no nosso dia a dia ou que coisas passavam despercebidas quando elas nos fazem perguntas sobre nós e as coisas que fazemos ou voltarmos ao nosso mundo infantil, elas nos desafiam e nos imitam em quase tudo.

A vida de uma criança deve ser pautada no amor demasiado amor como dizia Nietzsche. Aquele amor que é doado não pelo seu jeito de ser, isso não importa, mas pela sua existência, pelo seu estar aqui, pelo ser vestido de corpo e alma que chega cético ao nosso mundo e vai descobrindo conosco as coisas reais e imaginárias, vai criando as suas próprias crenças e definindo conceitos para as coisas ao seu redor.

Tendemos a amar as crianças que não nos contradizem e nos ouvem em silêncio. Aquelas que nunca se intrigam com o que lhes dizemos ou não aceitam as nossas opiniões de tiranos porque achamos sempre que as crianças são nossas súditas e devem nos respeitar em todos os sentidos. Somos os sabe tudo. Detemos o conhecimento do mundo e elas devem aprender tão somente conosco as coisas que são boas para o seu viver bem. Como somos chatos, minha gente, e nem nos damos conta disso.

É preciso aprender a amar as crianças pobres ou ricas, feias ou bonitas, sujas ou limpas, quietas ou barulhentas. Elas não têm culpa de serem do jeito que são, elas só estão querendo uma oportunidade para se tornarem cada vez melhor. Elas estão aqui porque alguém as trouxe. Elas não têm culpa de fazerem parte da sua vida. De certa forma você a aceitou, agora o importante é aprender a amá-la sem reclamações, puxões de orelhas ou gritos.

Eu fico vendo algumas mães que xingam os seus filhos, colocam de castigo, batem com força, gritam e lhes dizem coisas desagradáveis deixando a criança triste num canto da casa e até mesmo as proibindo de chorar porque senão vai ser castigada novamente. Essas mesmas mães que fazem isso costumam vir para as redes sociais postando fotos das suas crianças e dizendo que as amam.

Que tipo de amor é esse? Um amor que machuca, faz chorar e ao mesmo tempo quer ser apresentado ao mundo como sendo a melhor mãe do mundo.

Fico aborrecida quando vejo adultos se afastando de crianças sujas e moradoras de ruas que se aproximam deles pedindo um pouco de comida ou uma moedinha. Nunca vi um adulto fazer um carinho numa criança moradora de rua. Apenas dar uma moeda ou um prato de comida não significa amar. Amar vai muito além disso. Amar a criança é amar tudo aquilo que está vazio de conceitos pré-estabelecidos pela sociedade.

A criança que anda pelas ruas sujas não é vista, ninguém se importa com os seus sentimentos e as suas dores. Ela vive por viver. Nem sabe o seu nome, muitas vezes e nem quantos anos tem. Quando recebe um carinho ou um afeto acha estranho. Agradece e segue o seu caminho porque sabe que não pode ficar. Ficar é proibido para a maioria das crianças de ruas. Elas têm que perambular por aí atrás de comida ou de um lugar para se abrigar do sol e da chuva.

Acredito que as crianças não devem agradecer o amor que recebem. O amor é o sentimento que Jesus Cristo nos ensinou. Precisamos aprender a amar as criancinhas assim como ele amou. Ele que gostava tanto de contar histórias aos seus apóstolos e que os tratava como crianças grandes que precisavam de metáforas para entenderem melhor as coisas que lhes dizia.

Para quem é cristão e gosta de ler a Bíblia Sagrada, em Mateus capítulo 19, versículo 14, Jesus Cristo nos diz “Deixem vir a mim as crianças e não as impeçam; pois o Reino dos céus pertence aos que são semelhantes a elas”. Então, seguindo as palavras de Cristo devemos ser semelhantes as crianças para que possamos entrar no seu reino e essa semelhança começa quando aprendemos a amá-las do jeito que são e não do jeito que desejamos. Ser igual a uma criança é manter viva a inocência e a ingenuidade de um jeito especial para com as pessoas ao nosso redor e não sermos egoístas e invejosos como nos apresentamos diante dos amigos de trabalho e negócios, muitas vezes.

Quando amamos uma criança nos tornamos pessoas melhores, não é à toa que muitos poetas, escritores e ilustradores preferem fazer trabalhos para crianças. Não é que seja mais fácil. Ao contrário, fazer um trabalho para uma criança exige dedicação, conhecimento da infância, entrar no mundo imaginário dela, senti-la e envolvê-la nos braços, amá-la profundamente. É ser criança em corpo de adulto.

Toda criança precisa ser amada para continuar a desenvolver o seu corpo e o seu espírito. É em casa que a criança recebe os primeiros afetos, os primeiros carinhos que vêm em forma de abraços e beijos. Depois este afeto passa também para a escola. Aquela que só é amada por ser boa aluna na escola sente-se feliz e quer cada vez mais ser a melhor em tudo o que fizer para continuar sendo amada, é como se ela precisasse oferecer algo para receber amor da parte de quem tanto ama.

Já a criança que não se sai bem na escola e tem dificuldades de aprendizagem, fica no canto da sala à espera de que a professora lhe dê um pouco de atenção ou no quarto da casa trancada estudando a lição enfadonha que nada informa e nada lhe diz. Ela não entende por que não é amada apenas por existir para os seus pais. Ela sabe que eles querem que ela seja a melhor na escola, mas ela não consegue. Com isso, começam os medos e os problemas emocionais.

Todos nós enfrentamos desafios e passamos por cima das pedras quando sabemos que somos amados. O amor nos encoraja a corrermos riscos e nos aventurarmos. Assim ocorre com as crianças. Quando se sentem amadas elas não temem a competição. Sabem que se ganhar ou perder seus pais estarão ali com elas de qualquer jeito. É assim que deve ser. É assim que desejo para toda criança.

Gosto muito do personagem Sísifo da mitologia grega que depois de enganar a morte foi castigado pelos deuses para carregar uma pedra montanha acima, mas ele nunca conseguiu chegar até o topo da montanha porque cansa, para e volta para o início. Sísifo não é visto como um bom exemplo porque brigou com os deuses do Olimpo, mas para mim ele é uma criança peralta daquelas que mexem em tudo e nunca desistem dos seus sonhos. É como se ele fosse uma criança que sabe, um dia, vai conseguir vencer o seu castigo.

E não existe castigo maior para uma criança do que a rejeição, assim como se sente Sísifo rejeitado pelos deuses e castigado pela morte. Alguns pais deviam seguir o exemplo dos seus pais e cuidar da criança como eles foram cuidados, ou seja, com amor. Aquela hora de dormir e que a criança pede para contar uma história mais de uma vez, aquele boneco de pano costurado à mão com tanto carinho, aquele carrinho de madeira, aquela bola de meia.

Os pais de hoje em dia, da sociedade do consumo, compram tudo pronto. Eles têm pressa que as suas crianças cresçam rapidamente e parem de perturbar os seus sonos e as suas vidas no trabalho.

Penso que amar uma criança talvez seja uma das coisas mais difíceis da vida, e por isso devíamos aprender com os nossos avós e bisavós como eles fizeram para nos amar tanto e que fórmula mágica eles têm para aturar as crianças com tanto carinho e amor porque elas são chamadas de “pestinhas” muitas vezes por nós quando fazem coisas que não deviam.

Amamos as crianças que nos obedecem.

As que na escola são depósitos de conhecimento. Aquelas que perguntam, criticam, fazem reflexões acerca do que lhes é ensinado são chamadas de chatas e abusadas. Não aprendemos ainda que as crianças chegam ao mundo como uma tábula rasa, segundo dizia o filósofo John Locke, ou seja, uma folha de papel em branco que seria marcada por impressões obtidas por meio das experiências e, a partir daí, surgiria o entendimento, a inteligência. Essas impressões não devem ser engolidas pelas crianças, mas processadas em seus pensamentos reflexivos e críticos.

Mas, amar não é aceitar que a criança faça tudo.

Ela tem que ter limites. Ela precisa saber respeitar os adultos e os horários determinados pelos pais para se alimentar e fazer as lições da escola. É preciso criar uma rotina para a criança. Como também ensiná-la a ser organizada e comprometida. Desde a tenra idade ter o seu próprio espaço para brincar, estudar e sempre fazer as alimentações na mesa de preferência junto com a família. Nada de comer baganas fora da hora.

O amor deve ser como disse o filósofo grego Platão “algo essencialmente puro e desprovido de paixões, ao passo em que estas são essencialmente cegas, materiais, efêmeras e falsas. O amor seria um agente de transformação e ordenação do mundo.” Eis o amor que deve ser dedicado às crianças, desprovido de paixões que nada dizem e um agente de transformação que possa ordenar o mundo às suas necessidades. Não é a criança que tem que mudar para chegar até a realidade, mas a realidade que deve chegar até a criança do jeito que ela possa compreender e aceitar.

É fácil amar uma criança quando ela não está doente e apresenta saúde para brincar, correr e pular. O difícil é quando ela adoece e necessita dos nossos cuidados dia e noite. Quando precisamos largar tudo, ou seja, trabalho e compromissos com amigos, para ficarmos do seu lado. Muitos pais entregam esses cuidados a enfermeiros e babás, quando deveriam ser eles ali presentes. Talvez a criança se curasse mais rapidamente.

Quando amamos verdadeiramente alguém queremos colocá-lo dentro de uma redoma para protegê-lo do frio, da fome e da sede. Ficamos ali do seu lado, apenas observando seu jeitinho de ser e de viver. Não devemos colocar as crianças dentro de redomas ou superprotegê-las como fazem alguns pais. Elas sabem se cuidar. Claro que não devem ficar expostas a perigos, mas elas precisam desde cedo aprenderem a se defender dos perigos do mundo. Deixemos que corram riscos e se aventurem sempre com um adulto por perto.

Os pais de crianças com necessidades especiais sabem que o amor é o único sentimento que não precisa de fisioterapeutas, fonoaudiólogos ou pediatras para que elas cresçam felizes. Nas dificuldades que muitas vezes essas crianças precisam enfrentar para continuarem vivendo o amor dos pais é de fundamental importância, é como se fosse o alimento da alma. Poder confiar nos pais é essencial para o crescimento espiritual e corpóreo.

Os médicos pediatras deveriam amar também todas as crianças mesmo que elas sejam suas pacientes ou não. A gente ama um pouquinho quando para e dá atenção, quando escuta, quando cuida de certa forma, quando se preocupa e quando acolhe. O acolhimento é essencial para que a criança sinta confiança na gente. Alguns médicos pediatras amam tão somente os seus pacientes. Eles nunca visitaram abrigos para crianças ou conversaram com crianças de ruas. Eles nunca pararam para ouvir o coração de uma criança desconhecida.

Nem sempre escutamos o coração ou os pulmões de uma criança com um estetoscópio, muitas vezes se lhes dermos a oportunidade de poderem entrar nos nossos consultórios médicos e contarem as suas histórias de vida tenho a certeza de que escutaremos intensamente os seus corações e saberemos como estão os seus pulmões através da respiração ofegante ao nos abraçar timidamente.

Também sei de professores que nunca saíram das suas salas de aulas para ensinarem a uma criança de rua a ler e a escrever. Ninguém quer saber de criança moradora de rua. Tristemente muitas delas recebem o nome de “trombadinhas” porque precisam roubar para sobreviver. Temos medo das nossas próprias crianças.

Elas são fruto do que lhes oferecemos todos os dias.

Se praticam pequenos furtos ou delitos foi porque a sociedade não soube de fato como amá-las entregando-as ao Deus dará. Elas não fazem isso porque querem ou por vícios. Fazem isso porque não têm quem cuide delas, quem alimente os seus espíritos com bonitezas como um abraço, um beijo, um carinho.

Lembre-se sempre de amar a sua criança não pela forma como se comporta, mas porque ela existe. E é neste existir que ela precisa de você, dos seus cuidados, da sua atenção e das suas palavras de carinho. Ela só vai começar a pensar de verdade quando descobrir que é amada, como dizia o filósofo francês René Descartes “penso, logo existo.” Para a criança aprender a pensar ela precisa existir no mundo de um adulto, ela precisa fazer parte de um mundo. E que este mundo possa amá-la com toda intensidade e grandeza que tanto merece.

Para finalizar trago o poeta da infância Vinicius de Morais com os versos do seu poema intitulado “O elefantinho” que nos diz “Onde vais, elefantinho / Correndo pelo caminho / Assim tão desconsolado? / Andas perdido, bichinho / Espetaste o pé no espinho / Que sentes, pobre coitado? / — Estou com um medo danado / Encontrei um passarinho.”

Que as nossas crianças não tenham medo igual ao elefantinho do poeta mencionado acima, mas sejam seguras e confiantes nos adultos ao seu redor que as amarão nas suas birras e alegrias, nas suas dificuldades e vitórias.

Toda criança será amada não pelas suas qualidades, mas porque existe além dos muros que levantamos para elas sem espinhos e sem medos, com pais passarinhos que alegrarão os seus viveres e nunca lhes causarão temores.

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alexsandro Rosset

Maioria da população é favorável às cotas raciais

A pesquisa nacional Educação, Valores e Direitos revelou que a maioria dos brasileiros é favorável às cotas raciais.

Coordenada pelas organizações Ação Educativa e Cenpec, a pesquisa inédita foi realizada pelo Centro de Estudos em Opinião Pública (Cesop/Unicamp) e Instituto Datafolha, no marco da articulação de organizações da sociedade civil em defesa do direito à educação e contra a censura nas escolas.

Foram ouvidas 2.090 pessoas em todo o país sobre questões consideradas polêmicas relativas à política educacional. A realização da pesquisa contou com recursos do Fundo Malala.

Quando perguntados sobre a adoção de cotas raciais, 50% dos entrevistados se mostraram a favor e 34% disseram contra. A Lei nº 12.711/12, que estabelece a reserva de vagas nas instituições federais de ensino superior e técnico para estudantes de escolas públicas e, dentre esse público, para pretos, pardos e indígenas, completa 10 anos em 2022, quando é prevista uma avaliação da política.

Em 2016, a lei 13.409 alterou a Lei de Cotas estabelecendo uma sub-cota para estudantes com deficiências. “O apoio às cotas raciais demonstra que a população avança no entendimento de que ela é um instrumento fundamental para acelerar o enfrentamento das imensas desigualdades raciais no país”, afirma Anna Helena Altenfelder, presidente do Conselho de Administração do Cenpec.

Balanço da Lei de Cotas

Nesse marco dos debates sobre a avaliação da Lei de Cotas, a Ação Educativa e o Laboratório de Estudos e Pesquisas em Educação Superior da UFRJ realizaram uma outra pesquisa que trata do balanço da implementação da Lei de Cotas, considerando a diversificação promovida no perfil de estudantes das instituições de ensino superior, mudanças no currículo e a maior presença de iniciativas antirracistas nas universidades.

“As cotas nas universidades públicas constituem políticas de sucesso, que têm gerado transformações fundamentais no sentido de democratizar as instituições de ensino superior, historicamente brancas e elitistas.

Para avançar, precisamos aprofundar a institucionalização dessas políticas e retomar os investimentos no ensino superior e, em especial, em políticas de permanência estudantil que foram drasticamente cortados a partir da aprovação da Emenda Constitucional 95 em 2016”, avalia Denise Carreira, uma das coordenadoras da pesquisa, e integrante da coordenação da Ação Educativa e da Rede de Ativistas pela Educação do Fundo Malala.

“Nossa pesquisa revela que a resistência às cotas diminuiu nas universidades e que mesmo nos cursos mais seletivos elas têm contribuído para a mudança do perfil do alunado. Elas têm gerado não somente a inclusão de população negra, indígena e de pessoas com deficiência, mas mudanças na agenda da pesquisa e do currículo dos cursos do ensino superior”, afirma Rosana Heringer, coordenadora do LEPES/UFRJ e uma das coordenadoras da pesquisa.

A discussão sobre discriminação racial na escolas

A pesquisa do DataFolha mostrou ainda que a presença de temáticas raciais nas escolas tem um apoio massivo entre a população. De cada dez entrevistados, nove concordam que a discriminação racial deve ser debatida pelos professores nas escolas.

Um índice ainda maior defende a tolerância religiosa: 93% concordam que a escola pública deve respeitar todas as crenças religiosas, inclusive o candomblé, a umbanda e as pessoas que não têm religião.

“Esses dados demonstram que a população entende que a educação é um espaço fundamental para o combate ao racismo no Brasil. Temos a necessidade de implementar efetivamente programas que tratem das relações raciais, que enfrentem o racismo dentro das salas de aula e que valorizem a história e a cultura afro-brasileiras e indígenas”, afirma a socióloga Suelaine Carneiro, coordenadora de Educação e Pesquisa do Geledés – Instituto da Mulher Negra.

Sobre a Ação Educativa

Criada em 1994, é uma organização de direitos humanos, sem fins lucrativos, com uma trajetória dedicada à luta por direitos educativos, culturais e da juventude.

Desde a sua fundação, integra um campo político de organizações e movimentos que atuam pela ampliação da democracia com justiça social e sustentabilidade socioambiental, pelo fortalecimento do Estado democrático de direito e pela construção de políticas públicas que superem as profundas desigualdades brasileiras, bem como pela garantia dos direitos humanos para todas as pessoas. Desde 2018, a Ação Educativa é apoiada pelo Fundo Malala.  Saiba mais aqui. 

Sobre o Cenpec

Cenpec é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, que há mais de 30 anos trabalha pela promoção da equidade e qualidade na educação básica pública brasileira. Por meio da produção de pesquisas e de tecnologias educacionais, contribui no desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens, na formação de profissionais de educação, na ampliação e diversificação do letramento e no fortalecimento da gestão educacional e escolar.

Em parceria com redes de ensino, espaços educativos e outras instituições de caráter público e privado, atua dentro e fora das escolas públicas para diminuir as desigualdades e garantir uma educação de qualidade a todos e todas.  Saiba mais aqui.

Fonte: https://cpers.com.br/maioria-da-populacao-e-favoravel-as-cotas-raciais/

Autor: CPERS Sindicato

Edição: Alexsandro Rosset

Gênios e Médicos

A medicina necessita pessoas capazes de produzir ou estimular a saúde através de um talento muito especial, que dificilmente pode ser medido por provas ou testes de QI.

Um portal de notícias publicou que um garoto superdotado de 14 anos havia passado nos vestibulares para medicina e para aeronáutica. Escrevi abaixo da notícia que esperava que sua escolha fosse para a aeronáutica. Expliquei que essa “genialidade” se aplicava muito mais às ciências exatas, e muito menos às demandas múltiplas e complexas que produzem um bom médico.

O meu ponto de argumentação é que a medicina não precisa de gênios; ela precisa de sujeitos dedicados e compassivos. A medicina necessita pessoas capazes de produzir ou estimular a saúde através de um talento muito especial, que dificilmente pode ser medido por provas ou testes de QI. Um gênio atuando na Medicina tende a reproduzir um “Dr. House”, tão genial quanto péssimo médico; cruel, desrespeitoso, insensível e desumano…. mas com diagnósticos brilhantes.

Todavia, a medicina não é a arte de “descobrir mistérios”, “tatuar diagnósticos” na testa dos pacientes ou “estabelecer prognósticos” baseados em estatísticas frias. Não, a medicina é “L’art de guérir”, “Ars Curandi”, a arte de curar.

A medicina é uma arte complexa que demanda inúmeros talentos, e que faz uso das outras ciências – como a bioquímica, a biologia, a anatomia, a fisiologia, a patologia, etc – para se expressar.

Quando todas as tecnologias forem usadas e todas as máquinas calcularem sua saúde e seus riscos, ainda assim desejaremos que a receita nos seja entregue por alguém tão humano quanto nós, alguém capaz de entender o sofrimento alheio olhando no fundo dos olhos de quem lhe procura.

A medicina não é para os gênios que gabaritam provas ou que se alfabetizam aos 3 anos de idade. Medicina é arte, é dedicação, é a capacidade de sentir em si a dor do outro que sofre; é oferecer a mão a quem precisa de uma esperança.

Para os gênios, sobra a especial tarefa de trabalhar na pesquisa, na compreensão última do que nos adoece e nas formas de intervir nas doenças. Estes serão sempre um ótimo suporte para os médicos, aqueles que, na ponta da atenção, amparam os enfermos e os que sentem as dores do corpo e da alma.

“A comunicação é essencial em todos os sentidos. Para comunicar sentimentos, emoções. Como a população de rua comunica a dor? A dor não é só física, é uma dor existencial. Se eu vou a um médico com dor de estômago, ele só pergunta do meu estômago, mas não investiga por que será que meu estômago não vai bem”. (Padre Júlio Lancelotti) Leia mais: https://www.neipies.com/nao-e-possivel-cuidar-da-saude-em-um-mundo-doente/

 Autor: Ricardo Herbert Jones

Edição: Alexsandro Rosset

Quem esquece está curado

Em vez de nos deixar de herança os momentos “pesados” de sua própria existência, minha avó optou por deixar, entre outras coisas, a paineira da foto.

Há simplificação nessa afirmativa acima e na similar que diz: “Um povo feliz não tem história”. Mas as duas nos levam a pensar:

  • O passado não deve ser esquecido, é claro. Mas lembrar a todo momento dos sofrimentos vividos não nos “cura” deles.
  • Temos o dever de ensinar às novas gerações não só os feitos positivos realizados pelos que nos antecederam, mas também as atrocidades, como o holocausto, a escravidão, as ditaduras, as guerras como agora a Rússia invadindo a Ucrânia, a opressão sobre as mulheres, os maus tratos as crianças e tantas outras.
  • Mas esse ensino deve focar naqueles que bravamente lutaram para superar essas atrocidades. E refletir sobre medidas que possam evitar a repetição delas.
  • E para superar nossos sofrimentos individuais precisamos contá-los para alguém que queira nos ouvir com atenção, que respeite nossas dores, que sinta conosco. Às vezes, é necessário contar mais de uma vez. E… pronto! Vamos em frente!
  •  A nossa “cura” depende muita mais do nosso presente do que do nosso passado. Bacon: “Na mente você só consegue apagar o velho escrevendo o novo”. Se passamos a gostar de alguma coisa, o nosso sofrimento diminui proporcionalmente ao nosso novo gostar. Temos de agir. Não fazendo nada é impossível a pessoa gostar de si. Quanto mais o presente se aproxima do que queremos, menos dói o passado.
  •  Portanto, as tristezas já vividas passam a ser um capítulo que continuará no nosso livro. Mas, agora, é a hora de escrever o capítulo do presente.
  •  E por que repassar aos nossos filhos e netos conflitos que ocorreram na família enquanto eles nem eram nascidos ou eram crianças? Por que vergar suas costas com eles?

Minha avó leu Milan Kundera e sua “insustentável leveza do ser”. Viu aí a declaração de que existe na vida leveza, mesmo que não se sustente. E em vez de nos deixar de herança os momentos “pesados” de sua própria existência, optou por deixar, entre outras coisas, a paineira da foto.

A “paineira da vó” nunca parou de crescer e joões-de-barro estão sempre construindo nela suas casinhas.

Autor: Jorge Alberto Salton

Edição: Alexsandro Rosset

A Fome nossa de cada dia

Não é competência minha delinear políticas públicas, mas somar-me ao coro dos que creem que é possível enfrentar politicamente este flagelo. Na imensidão e na riqueza de terras de nosso Brasil.

O tema, o fenômeno, a realidade da fome tem assombrado a humanidade desde seus primórdios. Em pleno 2022, numa era tecnológica e digital, a falta de comida suficiente é uma realidade que atinge mais de um bilhão da humanidade.

Enquanto me pus a escrever sobre este tema (dilema), apareceram-me duas notícias referentes a esta dramática situação. Um dizia que de cada dez viúvas no mundo, uma passa necessidades e fome. A outra, de um bispo do Quênia, dizia que na África, em vários países, as consecutivas estiagens, ataque de gafanhotos, a Covid-19 e agora a guerra na Ucrânia que impede exportação de grãos, deixa estes países em estado crítico de fome.

Mas a realidade da fome não está só longe de nós. Se pisarmos o chão de nossas cidades e bairros, veremos que muitas famílias têm dificuldades em ter seu ‘pão de cada dia’ suficiente.

Há poucos dias, participei de um debate sobre o enfrentamento da fome, aqui em Porto Alegre, e ouvi dos que compunham a mesa que a fome tem rosto, cor e classe social. Os pobres, negros, crianças e idosos são os mais atingidos. As obras sociais da Igreja católica, as que acompanho, revelam esta realidade.

Muitas crianças vão à escola para garantir alimentação. O desemprego e a crise que se abatem sobre os mais pobres, em especial, agravam a fome nos lares. Esta é uma realidade, do mundo e de nossas ruas também.

“Eu tive fome e me deste de comer”. Há um imperativo do Evangelho que coloca todo o seguidor de Jesus Cristo, no caminho dos que se encontram em situação de necessidade. Hoje fala-se em vulnerabilidade. Mas o pobre mesmo, não usa o glossário. Ele diz:” Eu preciso, eu tenho fome”.

Diante desse clamor, as iniciativas pessoais, de ajuda e partilha, têm sido admiráveis. As pessoas são sensíveis, solidárias e generosas. Só em 2021, na arquidiocese de Porto Alegre, foram arrecadadas e distribuídas 896 toneladas de alimentos. Isto é um pouco do que Jesus diz diante da multidão faminta. “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Gestos louváveis, de humanidade sensível e de fé encarnada. São ações urgentes.

Há, porém, passos que a sociedade organizada precisa se mover, com políticas que enfrentem de forma sistemática e prolongada a fome dos cidadãos. Ações planejadas e de longa duração.

Temos organizações na sociedade, que respondem a esta realidade como a experiência do Banco de alimentos, para dizer de uma dessas iniciativas. Mas em nível de políticas que enfrentem a fome, precisamos avançar. Municípios, estados e o poder federal podem incrementar políticas de produção, na experiência da economia familiar e cooperativas, para fazer chegar às escolas, e às famílias de baixa renda, os alimentos necessários. Este ‘know-how” nós temos. E quantos empregos gera-se nesta cadeia de produção e distribuição.

Não é competência minha delinear aqui políticas públicas, mas somar-me ao coro dos que creem que é possível enfrentar politicamente este flagelo. Na imensidão e na riqueza de terras de nosso Brasil.

Como não acreditar?! Que os nossos candidatos não usem a fome como ‘arma’ e números das estatísticas, mas olhem, sintam a dramaticidade da situação. Há fome em nossas cidades. Esperamos que apresentem projetos políticos voltados para amenizar e superar a realidade da fome de tantos lares brasileiros. Lembrando que a ‘fome não espera.

Pesquisa divulgada nesta quarta-feira (8/6/2022) revela que 33 milhões de pessoas estão passando fome no Brasil. Em pouco mais de um ano, foram 14 milhões de brasileiros que entraram para o mapa da fome. O levantamento, realizado pelo instituto Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), mostra, ainda, que 58,7% da população vivem com insegurança alimentar. A situação atual é equivalente ao patamar da década de 1990.Leia mais: https://www.diariodepernambuco.com.br/noticia/brasil/2022/06/33-milhoes-de-pessoas-passam-fome-no-brasil-aponta-pesquisa.html

Publicação origalmente publicada em site da Arquidiocese de Porto Alegre: https://cnbbsul3.org.br/a-fome/

Autor: Dom Adilson Pedro Busin, bispo auxiliar da Arquidiocese de Porto Alegre

Edição: Alexsandro Rosset

Formação cidadã na escola

Acreditamos que a Escola é o lugar privilegiado para a vivência dos valores, e a sala de aula, o lugar por excelência da formação ética.

A maioria das crianças, independente da origem social, entram no sistema escolar atentas e ávidas por aprender, curiosas e confiantes. Depois de alguns anos de escolaridade, muitas delas acham o processo de ensino sem sentido, tornando-se progressivamente mais apáticas e sem esperança.

A própria vivência de valores na escola, presente em todos os discursos, torna-se secundária e até esquecida na maioria das práticas de sala de aula. A preocupação com o conteúdo, muitas vezes sem sentido, torna-se a justificativa de qualquer postura. Por consequência, a cada ano, o sistema escolar despeja no “mundo dos cidadãos adultos” um vasto número de indivíduos que ignoram os mecanismos da sociedade da qual têm de participar, que são céticos com relação às suas tradições e cínicos em relação a seus ideais.

Falar em valores significa algo ultrapassado, velho, desprezível. Que tipo de sociedade nos espera com esse tipo de cidadãos?  Que futuro podemos esperar com esse perfil de identidade? Que fazer diante desse quadro?

Acreditamos que não existem fórmulas prontas, nem soluções mágicas que possam reverter essa situação. Não teremos um mundo melhor, nem uma sociedade justa, se continuarmos acreditando ingenuamente que as mudanças passam pelo campo das leis, dos decretos, da forma de governo ou até mesmo dos discursos moralistas que escutamos, há muito tempo, pronunciados por aqueles que se consideram os “perfeitos cidadãos”.

Também seria ingênuo acreditar cegamente que a escola é capaz de educar o cidadão integralmente. Entretanto, a escola ainda possui um papel importante e fundamental. Não é possível pensar que a escola sozinha pode transformar o mundo; entretanto, também é verdade que não é possível pensar em nenhum tipo de sociedade diferente, mais justa, mais fraterna, sem contar com a contribuição da escola.

Paulo Freire, em seu livro Pedagogia da Autonomia, alerta que uma das tarefas mais importantes da prática educativo-crítica é proporcionar condições para que os educandos, em suas relações uns com os outros e todos com o professor ou a professora, ensaiam a experiência profunda de assumirem-se. Assumir-se como ser social e histórico, como ser pensante, comunicante, transformador, criador, realizador se sonhos, capaz de ter raiva porque capaz de amar.

Nessa mesma perspectiva de Paulo Freire, o filósofo americano Matthew Lipman diz que o sistema educacional tem de dar razões para os alunos terem esperanças: a criança deve ter a possibilidade de experimentar o que é viver num contexto de respeito mútuo, de diálogo disciplinado, de investigação cooperativa, livre de arbitrariedade e manipulação.

Acreditamos que a Escola é o lugar privilegiado para a vivência dos valores, e a sala de aula, o lugar por excelência da formação ética. Isso não significa dizer que Escola deve-se omitir de trabalhar com os conhecimentos científicos historicamente produzidos, e, sim, que esses devem ser, discutidos, recombinados, reinventados, reproduzidos, apropriados à luz da Ética. O objetivo não é dar às crianças teorias éticas acabadas pelas quais devam se conduzir, mas, sim, equipá-las com as ferramentas da reflexão dentro de um contexto de investigação – isto é, de um contexto cuja metodologia é de autocrítica e autocorreção.

Robert Coles, em seu livro Inteligência Moral das Crianças, defende a ideia de que o comportamento moral se desenvolve como resposta às experiências morais que ocorrem, dia após dia, em uma família, na relação entre colegas, na interação de sala de aula. Para Coles, a inteligência moral não é adquirida apenas com a memorização de regras e regulamentos, por meio de discussões abstratas nas aulas ou da obediência às normas de casa. Crescer moralmente é uma consequência de como aprendemos a agir com os outros, e nos comportar neste mundo, aprendizado que é facilitado quando levamos a sério o que vemos e ouvimos.

Nessa perspectiva colocada por Coles, a criança é uma testemunha sempre atenta da moralidade dos adultos. Ela procura o tempo todo sugestões de como se comportar e as encontra em quantidade quando nós, pais e professores, cuidamos de nossas vidas, fazendo opções, dirigindo-nos às pessoas, mostrando na prática nossos valores, desejos e opiniões básicos e, desse modo, ensinando a esses jovens observadores muito mais do que imaginamos.

Seguindo essa linha de argumentação de Coles, acreditamos que o processo de produção de conhecimento é mediatizado por um processo significativo de responsabilidade. Não é possível pensar e produzir realmente um conhecimento se este não passar pela dimensão da ética, dos valores, das relações.

Marcos Sandrini, reconhecido educador e teólogo gaúcho, num dos seus depoimentos, dizia que a escola, no seu fazer pedagógico, precisa optar por um dos caminhos: ou ela serve para conservar uma situação de dominação, de injustiça, de exploração; ou ela está a serviço da transformação, da mudança, da cidadania.

Pensamos que a introdução de uma formação cidadã na escola, a discussão dos conhecimentos, da ética, das relações, dos valores, seja um verdadeiro contributo que a escola pode dar, no sentido de transformar essa sociedade na direção de uma vida melhor e na formação cidadã consciente e responsável.

A escola, templo do saber, responsável pela formação da cidadania de inúmeras gerações, no transcorrer de sua existência, representa um farol de luz que alumia a mente do aluno, libertando-o da escravidão da ignorância, dando-lhe um sentido da vida, ensinando-o a ser questionador, autônomo, crítico, responsável por seus atos, apontando o caminho a ser percorrido na vida individual, por própria escolha. (Gládis Pedersen) Leia mais: https://www.neipies.com/a-escola-templo-do-saber/

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Edição: Alexsandro Rosset

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