Abordagens imbecilizantes se disseminam, porque os fabricantes da desinformação se atraem e potencializam suas ações a partir do poder.
As pessoas estão mais pobres, mais tristes, mais desesperançadas e mais desiguais. E estão também mais burras. A sensação é de que pessoas próximas e distantes foram acometidas pelo surto de emburrecimento geral.
Não é uma teoria nova, nem uma tese de rede social, é a constatação da realidade. Tios, primas, sobrinhos, colegas de trabalho, vizinhos, todos apresentam, em algum momento, sinais de que ficaram mais burros.
E quem percebe que os outros estão mais burros pode também ter emburrecido. Uma das explicações possíveis foi oferecida pelos que examinam comportamentos coletivos, entre os quais o sociólogo italiano Domenico de Masi.
O avanço de líderes da extrema direita tem como um dos efeitos danosos, e com sequelas, o déficit de inteligência da população.
Países com governos fascistas, incluindo o Brasil, passam a refletir de acordo com a média fixada pelo governante, que inspira seus subordinados, que inspiram seus assessores, que contaminam quem está por perto.
Abordagens imbecilizantes se disseminam, porque os fabricantes da desinformação se atraem e potencializam suas ações a partir do poder.
Mas há um impasse nessa tese. Poderia estar acontecendo uma situação inversa. O Brasil mais idiotizado é apenas o que encontrou em Bolsonaro um líder capaz de defender suas ideias.
E pontos de vista antes recatados, que raramente eram apresentados em público, passaram a ser expostos com ênfase e radicalidade. Porque há um líder que pensa o que essa média acha do mundo.
É quando se fortalecem as teorias da Terra plana, o ataque à universidade e à ciência, a negação da vacina, a rejeição à quase tudo o que representa avanço civilizatório.
Há uma sensação de que o primo aquele, que não era tão idiota, envelheceu e ficou mais imbecil nos últimos anos. Ele não acredita em aquecimento global, subestima a destruição da Amazônia e desqualifica a eleição.
O sujeito que ataca a vacina é o mesmo que, num impulso para a abordagem de temas complexos, propõe interpretações próprias para anistia, indulto e perdão.
E aí temos perdão bíblico misturado a todo tipo de perdão, indulto e anistia. Na pressa, o militante de extrema direita simplifica questões que exigem calma, estudo e dedicação.
Tudo porque o tio que expõe o rebaixamento da própria inteligência é, segundo a teoria de Domenico De Masi, um sujeito que pode estar pedindo socorro.
O que ele diz, ao simplificar tudo o que aborda, é que o seu jeito simplificador de ver o mundo é o que lhe serve, porque desqualifica a sabedoria dos outros. Sabedorias que ele não alcança,
O brasileiro que ataca a universidade e a ciência está de alguma forma afrontando um incômodo, ou tudo o que ele não consegue ver como algo que possa ajudá-lo.
A ignorância encoberta pela gritaria é o que importa, porque o saber do outro o incomoda, sempre incomodou. Mas agora ele expõe esse incômodo como arma, sem constrangimentos.
O emburrecimento seria assim a manifestação de um recalque que ataca a socialização do conhecimento, o sistema de cotas, o ProUni e o acesso de classes sociais ascendentes ao saber, ao lazer, ao entretenimento.
O sujeito que aparentemente ficou burro ficou mais desinibido. Ele defende hoje em voz alta, o tempo todo, o que antes eram temas eventuais defendidos com alguma moderação. Por isso a sensação de que estamos mais burros se acentuou com o bolsonarismo.
Estamos mais expostos à desinibição dessa gente, no mundo real e nas redes sociais. Só que o emburrecimento seria o sintoma de algo pior do que o rebaixamento de inteligência cognitiva.
Estamos mais burros porque estamos mais ressentidos, mais preconceituosos, mais moralistas, mais racistas e mais homófobos. De acordo com um conceito que prosperou a partir dos anos 90, estaríamos perdendo não a inteligência das racionalidades, mas a emocional, afetiva e amorosa.
O brasileiro ficou mais prepotente, egoísta e inescrupuloso. O rebaixamento da inteligência é o efeito dos ódios e da sabotagem da cidadania e das liberdades.
O sujeito emburrecido é alguém que estava apenas hibernando à espera um líder que o conforte e o fortaleça. Descobriram que a mentira conforta e aquieta. Perdemos inteligência social.
Rubem Alves chama atenção às prefeitas e prefeitos que devem ensinar o povo a pensar em jardins, para que as cidades não se transformem em selva. Os jardins a que ele se refere é a própria cidade como espaço-corpo dos habitantes pois, se não pensarmos em jardins, fugiremos da selva que ela se tornará. Cidades podem ser educadoras.
“Senhoras prefeitas, senhores prefeitos: eu não sou político. Nada entendo de administração. Não tenho conselhos técnicos a oferecer. Mas ouso pedir que me leiam. O texto é curto. Não vai tomar muito tempo.
Ignorem minhas incompetências. Se o que vou dizer fizer sentido, ficarei feliz. Se não fizer sentido, é só esquecê-lo.
Jay Forrester, professor de administração do MIT (Massachusetts Institute of Technology), enunciou a seguinte lei das organizações: “Em situações complicadas, esforços para melhorar as coisas frequentemente tendem a torná-las piores, algumas vezes muito piores e, ocasionalmente, calamitosas”.
Essa mesma lei foi enunciada há quase 2.000 anos, de forma mais simples e poética: “Não se costura remendo de tecido novo em roupa podre. O remendo de tecido novo rasga o tecido podre e o buraco fica maior do que antes” (Jesus).
As senhoras e os senhores estão diante de uma situação complicada. O impulso administrativo é fazer coisas para melhorá-la. A roupa que têm nas mãos está podre e esburacada. O impulso administrativo é costurar remendos de pano novo no tecido podre. Forrester e Jesus profetizam: “Não vai dar certo”.
O livro sagrado do taoísmo, o “Tao-Te-Ching”, diz que estamos constantemente divididos: de um lado, a tentação de 10 mil coisas que demandam ação. Todas elas não-essenciais. Do outro lado está uma única coisa: o essencial, raiz das 10 mil perturbações.
Sabedoria é deixar o sufoco das 10 mil coisas não-essenciais e focalizar o essencial. Pergunto: estão enrolados pelas 10 mil coisas não-essenciais que demandam ação ou já se focaram no coração do bicho de onde nascem as 10 mil coisas?
Há algum tempo fiz um artigo com o título “Sobre política e jardinagem”. Gosto de jardins, de jardinagem. Os jardins são o mais antigo sonho da humanidade. As escrituras contam que Deus se cansou dos seus infinitos espaços celestiais e começou a sonhar. Qual foi o seu sonho? Um jardim: paraíso. E achou o jardim tão melhor que o seu céu que resolveu se mudar de casa: passou a morar no jardim. Gostava de caminhar por ele quando a brisa da tarde era fresca.
Uma das necessidades mais profundas do corpo é o “espaço”. O corpo precisa do “seu” espaço. Por isso os lobos e os cães urinam em certos lugares. A urina é a cerca que usam para marcar os espaços. Os pássaros marcam seus espaços cantando. Esse espaço é parte do corpo. Quando ele é invadido, o corpo estremece com a fúria que leva à luta ou com o medo que faz fugir.
Diferentes de lobos, cães e pássaros, não urinamos ou cantamos para marcar nossos espaços. Criamos símbolos. Para os homens, o símbolo que marca o espaço-corpo é o jardim. Quando esse espaço é destruído, a vida social é destruída.
Paraíso” deriva do grego “paradeisos”, que vem do antigo pérsico “pairidaeza”, que quer dizer “espaço fechado”. Jardim é um espaço fechado. Por quê? Para ser protegido, para ser nosso. Fora dos muros que fecham o jardim, está o espaço selvagem, ainda não moldado pelo desejo de vida e de beleza que mora nos seres humanos. Política é a arte de criar esse espaço. É a arte da jardinagem aplicada ao espaço público.
Deixando de lado as 10 mil coisas a serem feitas, digo que a missão das prefeitas e dos prefeitos é criar esse espaço necessário para que a vida e a convivência humana possam acontecer. Tudo o mais é acessório.
Como se cria esse espaço? A resposta mais óbvia é: fazendo as 10 mil tarefas administrativas que a criação de um jardim exige. “O que vem primeiro? O jardim ou o jardineiro?” É o jardineiro. O que é um jardineiro? É alguém que sonha com um jardim antes que o jardim exista. Um jardim assim não começa com 10 mil atos. Começa com um único sonho. O jardim começa na cabeça das pessoas. Começa com o pensamento. Se o povo não sonhar com jardins, os jardins não serão criados. E os que existem se transformarão em lixo.
Não há jardim que resista aos predadores. Os predadores dos jardins são os seres humanos que não pensam jardins.
A tarefa mais alta das prefeitas e dos prefeitos não são os 10 mil atos administrativos e as inaugurações que se lhes seguem. Sua missão mais importante é seduzir os habitantes das cidades a amar os jardins, a pensar jardins.
Uso a palavra jardim como metáfora para o espaço da cidade, que deve ser uma extensão do corpo das pessoas. Se as pessoas não sentirem que o espaço da cidade é uma extensão de seus corpos, então ele não será jardim, espaço protegido. Será o espaço selvagem de onde se deve fugir.
E cada qual se esconderá atrás dos muros, atrás das grades, atrás dos cães. E viverão no espaço pequeno de seus medíocres apartamentos, de seus medíocres condomínios, de suas medíocres mansões. E a cidade será um espaço morto, entregue à fúria dos carros e à violência das feras.
As senhoras e os senhores já pensaram que, mais importante que as 10 mil coisas administrativas que podem ser feitas, a tarefa essencial é fazer o povo pensar? Que o essencial é educar?
O diabo sugeriu que Jesus tomasse providências práticas imediatas para resolver o problema. Jesus respondeu que o que realmente importava era a palavra. “Sonho que se sonha só é só um sonho. Sonho que se sonha junto é realidade”, diria Raul Seixas.
É preciso que o espaço-jardim da cidade exista primeiro na cabeça das pessoas, para então se tornar realidade. Isso é o essencial”.
Esta crônica foi retirada de livro Conversas sobre Política, Companhia Editora Nacional, 2018. Fez parte do PNLD (Plano Nacional do Livro Didático) e foi enviado às escolas públicas do Brasil
As crianças que aprendem a ouvir as árvores passam a ser mais felizes e sabem ser gratas à natureza.
“Antes que qualquer árvore seja plantada ou qualquer lago seja construído, é preciso que as árvores e os lagos tenham nascido dentro da alma. Quem não tem jardim por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles.”, versos do nosso querido escritor e poeta Rubem Alves.
Sim, se você não consegue cultivar um jardim dentro da sua alma não tente cultivá-lo fora de si. Do mesmo jeito é se você não consegue escrever a história da sua vida, não tente buscar as histórias dos seus ancestrais, elas de nada servirão para você.
Mas, se você é capaz de plantar árvores dentro da sua alma e de rir das suas próprias histórias, então seja bem-vindo a este texto e eu lhe desejo uma boa leitura, pois para sentir a vida com todos os cinco sentidos é preciso saber amá-la e conhecer a história daqueles que vieram antes de nós e nos trouxeram, de alguma forma, até aqui.
As árvores com as suas raízes apontando para a infinitude da terra e os seus galhos apontando para a luz do sol, a luz da sabedoria infinita do filósofo Platão.
Elas sabem bem o que é sabedoria, pois muitas delas contam séculos de existência e até mesmo as mais novas já vivenciaram muitas experiências ricas e emocionantes, sim porque árvore também tem sentimento e se emociona. Chega a chorar a nossa dor, as nossas perdas, as nossas angústias e aflições quando nos abraçamos a elas. São sentimentais por demais.
Somos filhos das árvores que brotam do solo e saem se enraizando terra adentro mostrando os seus frutos, folhas e galhos que se alimentam dos seus nutrientes. Assim são as nossas histórias, ou seja, somos entrelaçados por um fio invisível que vai tecendo a nossa existência no presente, alimentado pelo passado e com a esperança no futuro breve como breve é a vida.
Quando um fruto dessa árvore cai no chão, nasce com ele um novo ser que carrega as características dos nossos ancestrais, nossas memórias, nossas histórias e experiências seculares. Carregamos dos nossos ancestrais características físicas, tipo: cor do cabelo, cor da pele, formato do nariz, nosso modo de pensar, nossas crenças, a cor dos nossos olhos. Nossos ancestrais são a árvore secular que nos dão a possibilidade de fazermos escolhas, de traçarmos os nossos caminhos, de escolhermos o nosso futuro.
As árvores carregam em seus troncos e nas suas raízes mais profundas as sabedorias dos tempos dos nossos ancestrais que não puderam deixar nada por escrito porque ainda não existia a escrita ou porque não sabiam escrever ainda. Para elas foram contadas sabedorias que não se encontram nas pessoas próximas da gente e que ainda estão vivas, mesmo as mais velhas não têm a sabedoria de uma árvore milenar.
Quantas histórias não vivem as nossas árvores dos canteiros da nossa cidade sejam elas de amor, de amizade, de paz, de guerras, de poesia e até mesmo de opressão. Ali, parecidas quietas, as árvores escutam e vivenciam junto conosco as mais diferentes histórias dos homens e até mesmo chegam a dar conselhos através dos balanços dos seus galhos ou de um fruto seu que nos alimentamos e adquirimos energia para seguirmos adiante.
Elas sabem das histórias dos nossos colonizadores, da opressão sofrida pelos nossos indígenas, foram testemunhas do grande desflorestamento na época do nosso descobrimento quando levaram do nosso país muitas árvores Pau-Brasil. Guardam todos esses acontecimentos para que um dia possam nos lembrar das nossas ancestralidades.
Para que não esqueçamos dos nossos ancestrais, de onde viemos, como surgimos e os motivos que nos trouxeram até aqui. As árvores sabem que os nossos passados podem nos ajudar a construirmos um amanhã melhor para nós e para os nossos filhos porque elas sabem das lutas dos nossos ancestrais, elas conheceram e vivenciaram as batalhas, as guerras, as transformações sociais, culturais e políticas pelas quais passaram as nossas infinitas gerações.
Olhar essas histórias que as árvores nos contam requer coragem e um mergulho profundo em nossas raízes para compreendermos quem somos.
Saber de onde viemos é o primeiro passo para traçarmos os nossos objetivos e planos para o amanhã e também para passarmos a nos conhecermos melhor e identificarmos a nossa essência.
Assim como a nossa história possui grandes nomes como Robespierre, Voltaire, Descartes e tantos outros importantes que influenciaram o mundo e outros que a história oficial não conta, assim também temos as histórias dos nossos ancestrais que tiveram seus nomes e sobrenomes apagados e a terra de onde vieram.
O apagamento das nossas memórias é uma estratégia dos nossos colonizadores!
Precisamos buscar pelas histórias e significados dos nomes dos nossos ancestrais, esse apagamento nos conta o quanto ainda trazemos os costumes e tradições dos nossos colonizadores. O quanto fomos afetados pelos seus modos de pensarem e de se vestirem, desses europeus que aqui estiveram e deixaram um lastro de violência e lutas por uma terra que já era povoada muito antes deles aqui chegarem. Não me refiro somente ao Brasil, mas aos países do continente africano que também foram “colonizados”, quando antes dos europeus chegarem já existiam povos com as suas culturas e costumes. Todos fomos verdadeiramente invadidos por esses homens.
Este é um processo de embranquecimento das nossas histórias que nos afasta das nossas origens africanas e dos nossos ancestrais, os indígenas. As árvores milenares viveram todas essas histórias de lutas e opressão e sabem como ninguém nos alertar sobre os riscos de sermos invadidos novamente, de termos os nossos pensamentos apagados pela branquitude, de sermos sequestrados de nós mesmos pelo aparato tecnológico que o europeu cria e nós usamos de forma abusiva deixando os nossos filhos e jovens viciados em jogos e redes sociais com algoritmos programados para que façam o que eles desejam.
As árvores não estão nos nossos terreiros ou na frente das nossas casas apenas para decorarem, nos darem sombras e frutos. Elas também podem nos mostrar como a realidade é mascarada todos os dias pela ignorância, pela falta de princípios éticos e morais que tomam os mais diversos governos no mundo inteiro.
Quando o vento passa pelas árvores balançando os seus galhos eles trazem notícias de longe que ficam presas nas suas copas. Dali, as informações são processadas e cada folha seca que cai de uma árvore contém milhas de informações que podem nos ajudar na busca por um amanhã melhor.
É preciso reconhecer que em nossas famílias vivemos histórias de lutas, daqueles que vieram antes de nós, resistências, opressão, violência, afetos, tradições e costumes em que é preciso honrar todas essas histórias que as árvores guardam nas profundezas das suas raízes e nos seus enormes troncos cuidando delas com carinho e zelo para que possamos mais tarde ou num futuro próximo aprendermos a valorizar todas essas sabedorias das árvores para nos ajudar nas escolhas que precisaremos fazer quando o mundo exigir da gente decisões sérias e importantes à vida.
Honrar significa tratar com respeito e reverência tanto as árvores quanto o que elas trazem dentro de si que são as histórias dos nossos ancestrais. Nem todas as histórias são bonitas e lúdicas. Existem histórias de lutas difíceis de serem contadas. Histórias que as árvores nos fazem chorar quando nos lembram que os nossos ancestrais precisaram passar por dificuldades grandes para que nós pudéssemos estar aqui.
Saber ouvir as histórias das árvores não é difícil. Basta se acomodar no silêncio da natureza, encostar o ouvido no seu tronco e mentalizar os seus ancestrais.
Aqueles que você ainda se lembra e aos poucos as árvores trarão outros pensamentos, outras histórias que já foram esquecidas por você ou que nunca lhe foram contadas. As árvores sabem contar histórias como mais ninguém.
O importante é que não paramos mais para ouvir nada e nem ninguém. Estamos sempre caminhando apressados pelas ruas. Parecemos máquinas. Andamos cabisbaixos, com passadas apressadas sem olharmos adiante ou ao nosso redor.
As árvores, muitas vezes, gritam os nossos nomes, querem um pouco de atenção, mas não nos acostumamos a ouvi-las e achamos que elas nunca falam conosco.
Engana-se quem pensa que árvore não fala. Elas falam, gritam, gemem, cantam e até ninam.
Elas sabem contar histórias verdadeiras e imaginárias. Elas alegram as crianças que as procuram para ouvirem histórias que inventam na hora da birra, da incompreensão e da dor da criança. As suas histórias trazem sempre um pouco de emoção, um lado lúdico e poético, mas com ensinamentos cheios de gratidão à vida e a natureza por estarmos aqui e podermos desfrutar deste planeta tão maravilhoso que é a Terra.
Nossas histórias de resistência, mais do que grandes feitos ou aventuras, são as histórias do cotidiano. Aquelas que vivemos no caminho para a vendinha do bairro, na rotina, nas manias e nos encontros de família em que o assunto é falar dos parentes distantes ou que sempre dão uma desculpa para não comparecerem aqueles encontros.
Fico imaginando nas histórias seculares que a árvore da minha rua deve saber sobre as conversas das pessoas todas as tardes embaixo dela. Faz tantos anos que ela está ali apenas nos ouvindo, sem nunca ter sido questionada sobre as suas verdadeiras histórias.
Também fico me questionando sobre as diversas coisas que acontecem embaixo de uma árvore: menino brincando de carrinho, mulheres fofocando, casais namorando, velhinhas fazendo crochê, um desconhecido se amparando do sol, uma criança puxando uma pipa presa na copa e tantas outras cenas do cotidiano que as árvores devem guardar dentro de si para construírem histórias para os nossos netos no amanhã.
Devemos ensinar às nossas crianças a ouvirem as árvores. Muitas delas estão cheias de histórias para nos contar.
Estão quase explodindo com tantas histórias. Elas são verdadeiras fábricas de histórias e sabem quase tudo que se passa próximo delas porque o vento nunca deixa de passar por elas e sempre que passa deixa um pouco de si e leva um pouco delas para compartilhar com outras árvores histórias que os homens nunca ouviram, mas que entre si elas escutam.
As crianças que aprendem a ouvir as árvores passam a ser mais felizes e sabem ser gratas à natureza. Não! Não é loucura parar um instante e encostar o ouvido no tronco de uma árvore para ouvi-la contar uma rápida história. Você vai se sentir bem, muito bem mesmo. Eu já vivi essa experiência várias vezes e confesso que é um momento eterno. Parece que nunca vai se acabar aquele instante com o ouvido colado no tronco da árvore.
Muitas têm a voz grossa outras têm a voz fina, cada uma do seu jeito. Tem algumas que roncam quando estão falando conosco, parecem que sem querer elas adormecem. Mas, logo acordam e voltam para o mesmo ponto da história. As árvores são bem engraçadas e não há melhor contador de histórias no mundo do que elas. Experimente ouvir a história dos seus ancestrais através de uma delas.
Talvez depois de ouvir a sua história você sinta que não alcançou muita coisa e desanime, mas pense e lembre que o lugar ocupado ainda exige muitas lutas. Há ainda muitas barreiras e conflitos para vencermos. Não desista de ouvir a sua árvore. Estamos avançando e chegaremos aonde desejamos. As nossas histórias não são nada fáceis. Elas nos fazem lembrar do quanto precisamos ser fortes e corajosos todos os dias para enfrentarmos os desafios e as intempéries de um mundo cheio de incompreensões.
Você tem construído degraus e sua história também será contada por aqueles que virão depois de você.
Ser ancestral para os povos africanos e afrodescendentes é viver o sentido de coletividade.
Existimos porque o outro existe. E a morte para nós não é um fim já que a vida brota a cada nascimento e mantém a nossa árvore de pé. Assim, de ancestral em ancestral caminhamos por esta terra.
Não devemos desistir nunca das nossas histórias e de ouvirmos as nossas árvores. Sempre que pudermos pedir um conselho também é bom. Elas são amigas e gostam de cuidar de nós com carinho. Ficam tristes quando não nos cuidamos. Quando damos mais atenção ao outro do que a nós próprios. Quando apesar de tantas vivências e experiências ainda assim não aprendemos a nos conhecer por inteiro.
Ouça a história dos seus ancestrais e conheça um pouco das suas raízes. Ademais, entrar em contato com a nossa ancestralidade é, antes de tudo, uma estratégia de resistência e um resgate necessário para compreendermos quem somos, de onde viemos e para onde queremos e precisamos caminhar. A árvore da sua calçada pode lhe contar muita coisa interessante que você precisa saber.
Esta história-poema, com cheiro de infância e costurada em ternura, encantará as avós e os netos de todas as idades. Um livro para ser lido com os olhos, as mãos e a memória. O livro pode ser lido por alunos do terceiro ao sétimo ano, mas não há uma faixa restrita. Permite o trabalho com resgate familiar, memórias, artesanato, culinária, jogos. Com mediação adequada, pode-se trabalhar com qualquer faixa etária. Acesse e adquira com desconto esta obra: https://www.physaliseditora.com/product-page/minha-av%C3%B3-tecia-o-mundo
Finalizo com os versos do poeta português Fernando Pessoa que nos diz “Sejamos simples e calmos, / Como os regatos e as árvores, / E Deus amar-nos-á fazendo de nós / Belos como as árvores e os regatos, / E dar-nos-á verdor na sua primavera, / E um rio aonde ir ter quando acabemos!…”.
Sim, sejamos calmos e cuidemos de manter os nossos espíritos sempre serenos para que possamos assim ouvir o que as árvores têm para nos contar das histórias dos nossos ancestrais até os dias de hoje. Se nós queremos ser ouvidos, as árvores também querem. Ouçamos as árvores com alegria.
O estudo revelou que as novas formas de trabalhar, impostas pela necessidade de distanciamento social, geraram isolamento e solidão. Essa realidade ganhou um novo elemento com o retorno ao trabalho presencial. Os conflitos se intensificaram por múltiplos fatores.
Ansiedade, depressão e desesperança estão entre os distúrbios que acometem os professores. A constatação faz parte do estudo “Novas formas de trabalhar, novos modos de adoecer”, realizado com 714 trabalhadores da educação, divulgado no fim de 2021. A psicóloga Luciane Kozicz, que trabalha na área de saúde do Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro-DF), apresentou este e outros resultados nesta terça-feira (26), dentro da programação do Coletivo de Saúde da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação.
A pesquisa teve como objetivo central conhecer os impactos do trabalho remoto na saúde emocional nos trabalhadores em educação. Problemas nas cordas vocais, distúrbios osteomusculares, lesão por esforço repetitivo e doenças do aparelho respiratório foram os danos físicos mais notificados.
Nos danos psicológicos, destacam-se o estresse crônico, ansiedade, depressão e síndrome de Burnout. Os danos sociais que se sobressaíram relacionam-se a sobrecarga, hiperatividade, solidão por ausência do coletivo e assédio moral.
Para Luciene, medicar é um fracasso para educar, pois reforça o pensamento mágico. “Receitas visam corrigir problemas, adequando os sujeitos”, alerta. “Ao invés de diagnóstico e medicações para melhorar o desempenho e anestesiar a alma, precisamos repensar o ambiente”, completa.
O relatório do estudo constatou que as instituições transferiram ao trabalhador novas responsabilidades: cada profissional deve exercer o seu talento particular, com esforço singular, dentro da sua casa, em tempo estendido. “Mais uma forma perversa que ataca o trabalho, inovando as formas de exploração e impondo ideologias dessubjetivantes.”
Os questionários aplicados levaram em consideração preocupações com a Covid-19, conhecimento e segurança em relação à pandemia, condições ambientais, tecnológicas e suporte para realização do trabalho em tempos pandêmicos.
O estudo revelou que as novas formas de trabalhar, impostas pela necessidade de distanciamento social, geraram isolamento e solidão. Essa realidade ganhou um novo elemento com o retorno ao trabalho presencial. Os conflitos se intensificaram por múltiplos fatores. “Esse contexto reforça a tese de que as relações laborais precisam ser pauta prioritária nas escolas”, avalia o relatório.
Segundo a Secretária de Saúde dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Educação, Francisca Seixas, é preciso destacar a situação dos aposentados. De acordo com ela, o que mais tem adoecido a categoria é a questão do confisco. “Nossos aposentados ganham R$ 3 mil e passaram a contribuir com 14% com a previdência: um verdadeiro confisco! Isso tem adoecido e piorado as condições de vida dos nossos aposentados”, avaliou.
Ela também destacou a situação dos readaptados, que estão nessas condições porque existe uma questão de saúde a ser tratada, que pode ser mental ou física. “Precisamos valorizar esses profissionais; é necessário trabalhar com o tratamento, mas, principalmente, com a prevenção”, concluiu.
De acordo com os resultados apresentados pelo estudo, um conjunto de situações tornou o trabalhador passivo e desorientado, com destaque para: ambiguidade de papéis; informações inadequadas ou confusas sobre como o trabalho deve ser realizado; trabalho excessivo em que o indivíduo tem que estar disponível em múltiplas plataformas/canais (sala de aula virtual, Whatsapp, e-mail, telefone, Zoom/Meet, presencial etc.); falta de capacitação ou suporte para o indivíduo adquirir as habilidades necessárias para executar a tarefa; subutilização de habilidades ou tarefas monótonas repetitivas; estruturas administrativas autoritárias que não incluem trabalhadores na solução de problemas e tomada de decisão; falta de reconhecimento sobre o desempenho do trabalhador; cultura organizacional que não abre espaços para o diálogo e são caracterizadas pela performance, promovendo competição e hostilidade; e eterna insatisfação da gestão em relação ao que é criado, executado ou proposto.
Para além dos processos de escuta, a recomendação final do documento elenca a ocupação dos espaços de fala para além das fronteiras conhecidas, principalmente, com os que estão em desacordo com ideias já apresentadas; rever processos possíveis de execução entre o planejado e o que será executado, acompanhando a implantação; elencar as carências nas organizações do trabalho; estabelecer estruturas mínimas de tecnologia e definir cursos necessários.
“O espaço de discussão é necessário para a humanização da categoria e diminuição das patologias. O fato de poder compartilhar suas inseguranças e medos faz com que ansiedades diminuam”, conclui o relatório.
Quero deixar claro que, como cristão, seguidor de Jesus de Nazaré, não preciso abonar os elementos de uma religião para poder respeitá-la. E para tal, esforço-me para compreender sua cosmovisão, sua mitologia, e, por conseguinte, suas práticas.
Sim, o diabo é cristão. Não estou dizendo que ele se converteu. Ele segue sendo o pai da mentira, nosso adversário. Então, o que quero dizer com isso? Refiro-me ao diabo como conceito e não como entidade. O conceito de um ser que seja a personificação do mal não é encontrado em qualquer outra tradição religiosa além da cristã. Portanto, dizer que uma entidade cultuada em uma religião de matriz africana é o diabo não passa de um grande equívoco, para não dizer, racismo.
Jamais vemos Jesus se referindo a Zeus ou a Júpiter como diabo. Tampouco vemos os profetas do Antigo Testamento afirmando que Baal ou qualquer outro deus cananeu era o diabo. Portanto, não me parece justo que identifiquemos o diabo em entidades do candomblé ou da umbanda.
Então, de onde vem a ideia de que a entidade conhecida como Exu seja o próprio coisa-ruim?
Ela surgiu ainda antes que a escravidão foi instituída no Brasil, durante a colonização europeia da África no século XVI. Devido ao jeito irreverente, brincalhão, provocador, astucioso e sensual, como é representado nos cultos africanos, os colonizadores o identificaram com a figura de Satanás. Entretanto, deve-se ressaltar que na teologia yorubá, a figura de Exu não se opõe a Deus, tampouco é considerada uma personificação do mal.
Nas religiões de matriz africana não existem demônios, diabos, entidades que sejam exclusivamente ruins como ocorre no cristianismo, religião na qual há anjos que se rebelaram contra Deus e se tornaram maus. Na teologia yorubá (de onde surgiram o candomblé e a umbanda), cada uma das entidades (Orixás) apresenta natureza ambígua, isto é, possui aspectos tanto positivos quanto negativos, semelhante aos próprios seres humanos.
Quero deixar claro que, como cristão, seguidor de Jesus de Nazaré, não preciso abonar os elementos de uma religião para poder respeitá-la. E para tal, esforço-me para compreender sua cosmovisão, sua mitologia, e, por conseguinte, suas práticas.
Sem conhecimento, qualquer conceito que se tenha não passa de preconceito.
Cresci numa denominação neopentecostal onde cenas de exorcismo eram rotineiras. Protagonizei muitas delas. Em nome de Jesus, expulsei espíritos malignos que se identificavam como “exus”. A julgar pelas feições dos incorporados, pela entonação da voz, pelas mãos em forma de garras, não me restava dúvida: aquilo só poderia ser o coisa-ruim. Desvencilhar-me desta ideia foi um dos maiores desafios que enfrentei nesses trinta e cinco anos de ministério pastoral.
Algumas pessoas me ajudaram a entender melhor o fenômeno, dentre elas, dois amigos psicólogos junguianos, ambos candomblecistas. Um deles frequenta nossa comunidade, ao lado de sua esposa, também psicóloga, membro de nossa congregação. O outro foi padrinho de casamento da minha esposa.
Em ambos os amigos, encontrei uma ética que não tenho encontrado em muitos dos que se dizem seguidores de Cristo. Foi com eles que aprendi que muito do que se pratica em nome dos Orixás não faz jus à rica tradição vinda do continente africano, sendo, portanto, uma deturpação da mesma. Algo análogo ao que acontece em muitas igrejas evangélicas que há muito deixaram os ensinamento de Jesus, substituindo-os por crendices e charlatanismo.
Não me vejo em condição de criticar a religião alheia. Mas não faço vista grossa às idiossincrasias de minha própria religião.
Antes de julgar as manifestações que meu preconceito considera bizarras, olho para dentro do meu próprio perímetro religioso e verifico que há fenômenos atribuídos ao Espírito Santo que não passariam pelo crio de meu senso estético se não fosse o meu temor em cometer o pecado imperdoável (a tal blasfêmia contra o Espírito Santo).
Já ouvi profecias em que Deus supostamente falava através do “vaso” algo de tipo: “Eu não sei onde é que estou com a cabeça que não te fulmino agora mesmo!” Você conseguiria imaginar tais palavras nos lábios de Jesus?
Ora, se o diabo se faz passar por “anjo de luz”, por que cargas d’água não se faria passar por Exu ou por qualquer outra entidade com o objetivo de acirrar ainda mais o clima de guerra santa entre crentes e fiéis de religiões de matriz africana? Se ele é o pai da mentira, conforme diz Jesus, por que daríamos crédito a qualquer coisa que ele dissesse?
Por que pastores insistem em entrevistar esses diabos em seus cultos midiáticos? Sem contar que muitas destas manifestações não passam de histeria ou encenação de quem almeja algum tipo de atenção especial.
Quero propor aqui um teste para avaliar o quanto somos preconceituosos.
Seguem abaixo duas histórias, uma extraída da Bíblia e outra da tradição oral do povo yorubá.
HISTÓRIA 01:
“Exu havia feito uma espada de dois gumes, de quarenta e cinco centímetros de comprimento, e a tinha amarrado na coxa direita, debaixo da roupa. Ele entregou o tributo a Awujale, Obá de Oió, homem muito gordo. Em seguida, Exu mandou embora os carregadores. Junto aos santos que estão perto de Ijebu, ele voltou e disse: “Tenho uma mensagem secreta para ti, ó Obá”. O Obá respondeu: “Calado! ” E todos os seus auxiliares saíram de sua presença. Exu aproximou-se do Obá, que estava sentado sozinho na sala superior do palácio de verão, e repetiu: “Tenho uma mensagem de Olorum, para ti”. Quando o Obá se levantou do trono, Exu estendeu a mão esquerda, apanhou a espada de sua coxa direita e cravou-a na barriga do Obá. Até o cabo penetrou com a lâmina; e, como não tirou a espada, a gordura se fechou sobre ela. Então Exu saiu para o pórtico, depois de fechar e trancar as portas da sala atrás de si. Depois que ele saiu, vieram os servos e encontraram trancadas as portas da sala superior, e disseram: “Ele deve estar fazendo suas necessidades em seu cômodo privativo”. Cansaram-se de esperar, e como ele não abria a porta da sala, pegaram a chave e a abriram. E lá estava o seu senhor, caído no chão, morto! Enquanto esperavam, Exu escapou. Passou pelos santos e fugiu para Seirá.”
HISTÓRIA 02:
“Certo homem, lavrador, que precisava de chuvas para irrigar seus campos secos ofereceu um sacrifício a Elohim. No entanto, preparou-o de forma displicente. Elohim enviou chuva em abundância, fazendo com que a água jorrasse incessantemente, inundando e destruindo toda a plantação. Logo após, o lavrador ofereceu um novo sacrifício, mas desta vez, de maneira zelosa. Agradando-se Elohim, fez cessar a chuva.”
Você saberia identificar qual história é extraída das Escrituras e qual é da tradição oral yorubá?
A julgar pelos nomes usados, a primeira teria vindo a tradição yorubá e a segunda de algum texto do Antigo Testamento, certo?
Na verdade é exatamente o inverso. Apenas troquei os nomes. A primeira é extraída do livro de Juízes. Em vez de Exu, lê-se Eúde (Juízes 3:16-26). A segunda é da tradição yorubá. Em vez de Elohim, lê-se Exu.
Assim como as entidades veneradas nos cultos africanos, Yaweh, a divindade hebreia também chamada de Elohim no Antigo Testamento, pedia sacrifícios de animais. Em Gênesis 8:20 lemos que o Yaweh se agradou do cheiro suave do sacrifício oferecido por Noé e em razão disso, decidiu nunca mais destruir os seres vivos como o fez no dilúvio.
Repare, a percepção que os antigos hebreus tinham de Deus não difere muito da percepção que a cultura yorubá tem de suas divindades. Atribuir características claramente humanas à divindade é chamado pelos teólogos de Antropomorfismo. Dentre essas características está a ambiguidade. No Antigo Testamento, Deus é bom, mas também vingativo. Deus cria, mas também destrói. Deus é misericordioso, mas também justo e santo.
Jesus veio corrigir nossa percepção acerca da divindade, introduzindo o conceito de paternidade divina. O Deus de Jesus é Pai de todos os seres vivos. Quando dois de Seus discípulos sugeriram que se pedisse a Deus para enviar fogo do céu para destruir os samaritanos que se negavam a recebê-los em sua aldeia, eles tomaram como referência o profeta Elias que havia pedido fogo do céu para consumir os profetas de Baal. Sabe qual foi a resposta de Jesus a este inusitado pedido? “Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las” (Lucas 9:55,56).
E que tal as passagens abaixo?
“Então subiu dali a Betel; e, subindo ele pelo caminho, uns meninos saíram da cidade, e zombavam dele, e diziam-lhe: Sobe, calvo; sobe, calvo! E, virando-se ele para trás, os viu, e os amaldiçoou no nome do Senhor; então duas ursas saíram do bosque, e despedaçaram quarenta e dois daqueles meninos.” 2 Reis 2:23,24
O personagem em questão é ninguém menos que o profeta Eliseu, o sucessor de Elias. Nada vingativo o profeta, não? Você consegue enxergar nesta atitude algo que se assemelhe a Jesus? Absolutamente, não! Com Jesus a gente aprende a perdoar.
A mesma característica vingativa encontrada em Eliseu pode ser vista no mito yorubá de Exu, como na vez em que ele levou dois amigos camponeses a uma luta de morte. De acordo com esse mito, Exu, furioso, por não ser louvado pelos camponeses pôs-se no caminho dos dois, na divisa das duas roças, tendo um a sua direita e outro a esquerda. Exu utilizou-se de um boné de um lado branco e do outro vermelho, de forma que cada camponês via apenas uma cor. A verdade sobre a cor do boné do estrangeiro, Exu, provoca discussão entre os amigos e acaba na morte de ambos a golpes de enxada.
Ambíguo como a própria natureza humana, encontramos na figura de Exu tanto qualidades, quanto vicissitudes.
Ele é vingativo, mas também se revela humilde com relação aos demais orixás, razão pela qual “o mais novo dos orixás, o que era saudado em último lugar, passou a ser o primeiro a receber os cumprimentos. O mais novo foi feito o mais velho. Exu é o mais velho, é o decano dos orixás.” Estas palavras encontram eco nas célebres palavras de Jesus: “Pois há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos” (Lucas 13:30).
Dado à sua condição humana ambígua, personagens bíblicos como Eliseu, Elias, Davi e Moisés revelam traços de caráter completamente opostos aos de Jesus, mas também expressam algumas das características mais marcantes encontradas n’Ele.
Tais personagens nos servem de referências e lembretes de nossa própria ambiguidade, porém, o padrão que devemos seguir é Cristo em quem não há mudança, nem sombra de variação. É disso que fala o episódio bíblico conhecido como Transfiguração. De repente, Moisés e Elias aparecem conversando com Jesus no monte, e os discípulos ouvem do céu uma voz que diz: “Este é o meu Filho amado, a Ele ouvi” (Lucas 9:35).
E quanto ao diabo? Ele seria a antítese de Cristo. Se Cristo é a luz, o diabo é a sombra. Se Cristo é o caminho, o diabo é a cancela. Todavia, ele não é tudo o que muitos crentes acreditam que seja. Ele não é e jamais foi páreo para Deus. Ele não é o rei do inferno. Ele não é rei de nada. Se fosse tão somente uma entidade qualquer, não haveria tanto com que nos preocupar. Mas ele é um arquétipo arraigado no inconsciente coletivo. O mal não está fora de nós, mas impregnado em nossa própria natureza.
Como no filme “O Diabo de Cada Dia”, o mal se faz presente nos lugares mais inusitados, mesmo numa típica cidade interiorana do cinturão bíblico dos EUA. Ao enxerga-lo meramente como uma entidade que se opõe a Deus, nós o transformamos na desculpa perfeita para os nossos erros, no bode expiatório por excelência dos que não assumem a responsabilidade por suas atitudes.
Independentemente do credo que professemos, o mal nos acompanha, seja latente ou patente. Como disse Paulo, o apóstolo, “eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum” (Romanos 7:18). Preferimos, entretanto, ignorar isso, atribuindo o mal ao outro, ao diferente, à sua crença, às entidades que venera.
Se há quem recorra a Exu para fazer o mal, também há quem recorra a Deus em busca de vingança. O despacho numa encruzilhada não é muito diferente do sacrifício de subir a um monte no afã de convencer a Deus a destruir seus inimigos.
Como seguidor de Jesus, desejo que meus amigos candomblecistas e umbandistas conheçam sua mensagem e se deixem conquistar por Seu amor incondicional. Mas não alcançarei tal objetivo enquanto não aprender a dialogar, a construir pontes e, sobretudo, a respeitar suas crenças e valores.
Definitivamente, o problema somos nós. Daí a insistência de Cristo, dos profetas e apóstolos, a que nos convertamos e façamos o bem, motivados exclusivamente por amor. Para tal, temos que admitir nossa sombra e buscarmos a iluminação de nossa consciência.
Os povos africanos criaram um complexo sistema de crenças que explica e justifica tudo; e esse tudo, está o tempo todo na vida dos africanos; e essa relação cotidiana com o sagrado, é o que chamamos de espiritualidade e que nada tem a ver com religiosidade ou religião. Esse é um outro conceito, um outro entendimento. (Ipácio Carolino Pinto) Leia mais: https://www.neipies.com/conhecendo-religioes-de-matriz-africana-testemunho-de-um-religioso-iniciado/
O jornal Viva Bem é um periódico mensal com matérias relacionadas à saúde, comportamento e qualidade de vida e de distribuição gratuita, na cidade de Passo Fundo. Aborda temas atuais e cotidianos de maneira descontraída, incluindo dicas de beleza, curiosidades, receitas e astrologia, além de artigos de profissionais das mais diferentes áreas.
Viva Bem nasce em abril de 2002, através de um projeto da Usina Comunicação para aproximar a empresa dos mais diversos segmentos e dar visibilidade aos nossos serviços. Sendo assim, surge o Viva Bem, voltado a preencher este espaço da área de saúde, com artigos de profissionais das mais diversas áreas e especialidades, sempre informando seu leitor com clareza e qualidade.
Conheçamos um pouco desta interessante história, construída a partir de nossa cidade Passo Fundo, através do seu Diretor Comercial e sócio proprietário Alexandre Necker.
SITE NEIPIES: Quais foram os objetivos da criação do Jornal Viva Bem?
Alexandre Necker: Do surgimento do Viva Bem até hoje os principais objetivos são informar com objetividade, trazer conhecimento ao leitor com artigos dos mais diversos profissionais de Passo Fundo e região, proporcionar aos nossos anunciantes e parceiros comerciais a possibilidade de ser visto por esse público consumidor (leitores e profissionais) e valorizar o nosso potencial nas mais diversas áreas da saúde e bem-estar.
SITE NEIPIES: Qual é o sentido da celebração dos 20 anos do Viva Bem?
Alexandre Necker: O principal sentido de celebrar os 20 anos do Viva Bem vem do imenso sentimento de gratidão, de alegria e realização que esta caminhada nos proporcionou. Acredito falar em nome de todos da família Viva Bem quando afirmo que o tempo passou muito rápido e que estes 20 anos iniciais foram um acúmulo de energia positiva para seguir em frente e fortalecer nossa marca no coração do público que acompanha e continuará acompanhando nosso jornal. Que venham os desafios dos próximos 20 anos.
SITE NEIPIES: Qual a relevância das muitas matérias publicadas até aqui? E a repercussão junto aos leitores?
Alexandre Necker: Sobre as matérias publicadas (e seus autores) são motivo de grande orgulho, pois nelas se encontram um dos grandes motivos do sucesso do jornal: artigos e matérias desenvolvidas por profissionais daqui, o que torna a informação mais próxima do leitor. E com relação a repercussão junto ao leitor do nosso conteúdo editorial ajuda muito na busca que todos têm em saber, conhecer, enfim, ajudar a formar opinião de qualidade.
SITE NEIPIES: Em um mundo cada vez mais digital, qual a importância de manter a edição impressa do Viva Bem?
Alexandre Necker: A era digital que vivemos também nos fez repensar todas as plataformas do Viva Bem, a edição impressa foi o começo de tudo e se mantém até hoje com uma aceitação grande junto aos nossos leitores. Creio que a sensação de ter o jornal em mãos ainda gera um bem-estar em muitos leitores o qual gosto de chamar de “prazer de ler” mas, isto não impediu de ampliar nossas possibilidades em outras plataformas: primeiro veio o site do jornal, depois as redes sociais (Instagram e Facebook) e a edição online é uma realidade no site e no whatsapp. Mas, particularmente, a edição impressa é nossa “queridinha”.
SITE NEIPIES: Que mensagem gostarias de deixar aos leitores e amigos.
Alexandre Necker: A mensagem que gostaríamos de passar é primeiramente dizer a todos OBRIGADO: leitores, anunciantes, colaboradores e à comunidade de uma forma geral. Seguiremos buscando informar com muita transparência, qualidade e eficiência que sempre foi nossa marca!
Somos, na escala dos seres vivos, os mais dependentes de todos. Saímos da barriga da mãe, caímos nos braços de uma família. Aos poucos vamos crescendo e nos integrando aos grupos sociais da escola, da vizinhança, dos amigos, dos colegas de trabalho. Cada fase de nossa vida exige que sejamos cuidados. Exige que saibamos cuidar da gente e dos outros. Somente juntos promovemos relações que nos integram à sociedade, pois temos, todos, necessidade de ser aceitos, queridos e promovidos. (Nei Alberto Pies) Leia mais: https://jornalvivabem.com.br/amizade-amor-e-afetos/
Não é que esteja em moda mimar as crianças, claro que não. É que está faltando mais atenção por parte dos pais às crianças que ficam o dia inteiro aos cuidados, muitas vezes, de pessoas estranhas que não lhes dedicam nenhum tipo de afeto ou carinho, simplesmente cuidam delas como um profissional.
Johann Goethe, escritor alemão autor de “Fausto” poema trágico do século XVIII, dizia “só é possível ensinar uma criança a amar, amando-a.” Sempre digo que as crianças tendem a imitar os pais em tudo, principalmente as menorzinhas. E se a gente der amor e cuidado, elas também nos darão em troca amor e cuidado, por isso devemos prestar atenção nas respostas que damos às nossas crianças quando elas nos pedem algo.
Temos a mania de dizer não às crianças como se fôssemos os donos do mundo. Só é possível ensinar algo a uma criança com amor ou ela fracassará na sua aprendizagem ou ela ficará com marcas indeléveis no seu espírito para o resto da vida. Vamos começar mimando e ninando as crianças, duas palavras parecidas e tão necessárias aos dias atuais.
Às vezes julgamos os pais por deixarem as crianças fazerem tudo o que elas querem e por fazerem todos os seus gostos. Essas crianças se acostumam a ter tudo nas mãos sempre que precisarem e, muitos dizem, que vão crescer mal-acostumadas. Será que vão mesmo?
Será que não é bom para a criança ter um pouco mais de atenção, cuidado e carinho e, de vez em quando, ser mimada e paparicada pelos adultos?
Acredito que todos os pais e mães gostariam, se pudessem de fazer os gostos dos seus filhos, de darem para eles tudo o que lhes pedem, de lhes comprarem brinquedos caros e de os deixarem brincar com o celular um pouco mais já que é uma diversão necessária aos dias atuais. Muitas vezes nos pegamos aborrecidos conosco por não termos dado oportunidades aos nossos filhos já adultos de terem mais tempo de fazerem o que gostavam, de terem brincado mais ou se divertido mais.
Se a brincadeira do momento é ficar grande parte do tempo com o rosto grudado no celular eu não vejo mal algum nisso desde que a criança tenha o seu horário de fazer as suas responsabilidades e não tenha a sua coordenação motora, o seu pensamento cognitivo e os seus sentidos prejudicados.
Tornar-se uma irresponsabilidade por parte dos pais deixarem mimar os seus filhos quando perdem o limite da situação, quando os filhos começam a já grandinhos e sabendo o que estão fazendo a os xingarem ou quebrarem as coisas de dentro de casa porque os pais se negaram a fazer algo que eles queriam.
Para toda causa há uma reação. É claro que ninguém vai permitir que uma criança faça tudo o que ela quer só para não a desagradar. Também não é assim, mas vejo por aí muitos pais que poderiam oferecer mais amor, mais cuidados, mais atenção e mais oportunidades aos seus filhos de crescerem felizes e, no entanto, negam-lhes esses direitos.
Não sei se por ignorância, não sei se por medo ou por não serem tachados de irresponsáveis que esses pais se fingem de duros e ficam sempre de caras fechadas para os seus filhos sem esboçar um sorriso mesmo quando a criança faz uma coisa legal.
Na verdade, não é que esteja em moda mimar as crianças, claro que não.
É que está faltando mais atenção por parte dos pais às crianças que ficam o dia inteiro aos cuidados, muitas vezes, de pessoas estranhas que não lhes dedicam nenhum tipo de afeto ou carinho, simplesmente cuidam delas como um profissional. Temos muitos profissionais por aí que dizem fazerem bem-feitos os seus trabalhos e quando usam esse bem-feito é trabalharem as oitos horas diárias cumprindo todos os combinados com os patrões.
As crianças não querem profissionais responsáveis perto delas, elas querem pessoas que as amem e as mimem cada vez mais. Elas querem brincar, pular, correr, ouvirem histórias, se sujarem de lama e gritarem bem muito. Mimar uma criança sempre foi a coisa mais fácil do mundo porque é só fazer o que ela deseja, mas para muitos pais isso parece o fim do mundo.
Também para alguns pedagogos e especialistas, a criança que tem tudo nas mãos vai crescer um adulto irresponsável e fadado ao insucesso, pois acostumado a ter os seus desejos sempre realizados, na vida adulta fracassará quando perder algo.
Não vejo assim. Acredito que quem tem tudo nas mãos hoje vai lutar para ter os seus sonhos realizados a qualquer preço, custe o que lhe custar, esforçando-se e dedicando-se nas suas conquistas porque sabe como é bom ganhar o que se deseja.
Vejo as crianças mimadas de hoje como os adultos que saberão lutar pelos seus ideais amanhã com coragem e resignação.
Alguns pais querem até mimar as suas crianças, porém as cobranças por parte daqueles que se dizem especialistas na infância, professores e outros profissionais ensinam que criança mimada tem tendências ao insucesso, que seus espíritos se acostumarão a ter tudo nas mãos sempre que quiserem e crescerão sempre dependente dos pais.
Eu fui uma criança mimada pela minha mamãe. Sempre tive tudo o que quis. Ela nunca me negou nada. Eu gostava de estudar e brincar com as minhas bonecas de pano. A minha mãe ensinou-me desde pequenina que não podia comprar bonecas caras para mim e que eu nunca teria uma festa de aniversário porque ela não podia gastar dinheiro à toa.
Aprendi desde cedo a saber o que a minha mãe podia me oferecer e só pedia para ela o que sabia que conquistaria.
Não cresci fadada ao insucesso. Acho-me uma mulher com mais de cinquenta anos cheia de experiências e sucesso que muitas pessoas gostariam de ter conquistado. Fui a minha vida inteira mimada pela minha mãe, pelas minhas tias e pela minha bisavó que esteve sempre ao meu lado.
Seguindo o meu exemplo, este amor que recebi da minha mãe e das pessoas ao meu redor, ser mimada fez com que eu tivesse gosto pelos estudos e aprendi aos quatro anos de idade a ler e a escrever. Eu lia gibis, eu escrevia pequenos poemas, eu desenhava, eu brincava com as minhas bonecas. Tinha os meus horários de obrigações como varrer a casa e enxugar as vasilhas de plástico da louça lavada.
Os meus alunos que percebo serem mimados tendem a aprender mais rapidamente, isso porque eles não temem levar bronca dos pais ou ficarem de castigo, sabem e têm plena confiança que sempre que chegarem em casa com notas boas ou não serão bem recebidos. Estudam porque gostam, amam o que fazem. É assim que devia ser com toda criança. É assim que é para ser.
A criança que não é mimada faz tudo às escondidas dos pais e responsáveis porque sabe que se descobrirem o seu erro será castigada e terá cortado o seu momento de lazer ou passeio na casa do amiguinho.
A criança que convive com adultos que sempre lhes dizem não cresce uma pessoa medrosa, assustada e angustiada. O menor problema que lhe aparecer poderá tornar-se grande demais e não saberá como resolvê-lo sozinha. Sempre será mais fácil para ela dizer não pra si mesma, porque a vida inteira foi o que ouviu e nunca saberá dizer sim e seguir em frente.
É fácil dizer não a uma criança quando esta tende a baixar a cabeça e ficar num canto da parede chorando. Também é fácil dizer não para uma criança quando esta tende a gritar, espernear e chorar até ser colocada de castigo.
Devemos mimar as nossas crianças enquanto pudermos porque logo elas crescerão e o mundo que estamos construindo para elas é de violência, ódio, opressão e competitividade. Elas precisam de amor, carinho, cuidados e sempre que possível receberem um maravilhoso sim de todos nós para sentirem que conosco poderão contar quando na vida adulta as exigências do dia a dia cobrarem delas uma resposta imediata.
Eu sei que muita gente vai dizer que isso é mais um blá, blá, blá de quem nunca criou uma criança. Na verdade, eu criei meu sobrinho durante dez anos. Ele teve sempre o que pude lhe oferecer. Ele sabia que quando eu lhe dizia um não era porque não podia mesmo fazer aquilo. Hoje ele tem um bom emprego e uma família maravilhosa. Foi essa a única criança que criei na minha vida com a ajuda da minha mãe.
Nunca tive filhos meus para criar, mas me arrependo de não os ter tido, pois certamente seriam hoje adultos bem-sucedidos se tivessem seguido os meus ensinamentos como mãe e amiga. Sim, porque ser pai ou mãe também é ser amigo, é preciso saber passar confiança, saber cativar, saber guardar segredos e compartilhar momentos bons e ruins.
Na escola, os alunos que mais se destacavam, muitas vezes, não eram os mais peraltas, mas os quietinhos e silenciosos.
Estamos vendo uma revolução na infância. A forma como se mede a inteligência de cada indivíduo mudou, e deu espaço para a inteligência emocional. Aquela criança que é capaz de superar todas as dificuldades que lhes são impostas na vida escolar é a que mais se destacará nas avaliações futuras.
A criança peralta tende a brincar na sala de aula, jogar papel no aluno da frente, não prestar atenção na aula. Nós, professores, costumamos ficar irritados com esses alunos e os mandamos para diretoria ou colocamos nas suas agendas que não estão se comportando bem em sala de aula para que os pais tomem uma decisão sobre os seus comportamentos.
Não sabemos ou não queremos aceitar que a culpa é nossa. Sim, as crianças peraltas e mimadas tendem muitas vezes a aprenderem mais rápido, pensam e raciocinam mais rapidamente, querem aulas dinâmicas que sejam capazes de prenderem as suas atenções. Enquanto nós, professores insistimos para que copiem o texto do quadro ou abram o livro didático em uma determinada página e leiam tudo o que está lá sem nenhuma reflexão ou motivo para tal leitura, e fazemos dessas crianças apenas depósitos de conhecimentos.
Quando mimamos uma criança não estamos pecando em excesso de amor.
Ao contrário, estamos dando amor na dose certa. Elas passam a dormir mais tranquilas, não têm medo do escuro, fazem as suas lições nas horas certas e sabem das suas responsabilidades. Não têm medo de ouvirem um não porque acreditam que ele sempre virá coberto de amor e carinho. Se o professor mima os seus alunos, certamente conquistará um melhor ensino-aprendizagem na sua sala de aula, porque os seus alunos tenderão a gostar tanto dele que passarão a ver as suas aulas como uma necessidade aos seus dias. Uma necessidade que se conquista e não se impõe.
Mimar uma criança não é coisa errada.
É atender aos seus desejos sempre na hora que ela quiser. Ser criança já é tão difícil, não complique mais ainda a vida da sua criança. Não queira que a primeira palavra que ela venha a aprender seja um sonoro “não”, mas que ela possa aprender palavrinhas do tipo “amor”, “papai”, “mamãe”, “beijo”, “abraço” e “tudo bem”. Se a criança ouvir essas palavras muitas vezes essas serão as suas primeiras palavrinhas que pronunciará e levará para o seu espírito em formação.
Quando a gente cresce a vida nos ensina a receber tantos nãos. É no emprego, é na relação amorosa, é na negociação de uma casa ou veículo, é no restaurante, é até mesmo no templo religioso. Ouvimos nãos de todos os lados. Já pensou a criança que passou a infância inteira ouvindo não e chegar na vida adulta ouvir mais nãos? Eis aí o fracasso sendo desenhado. Ninguém suporta tanta dor. O copo d’água enche e derrama toda a água que foi colocada nele durante anos.
Não tenha medo de dizer sim para a sua criança, de atender aos seus desejos, de fazer a festinha de aniversário como ela quer, de comprar um presente bacana, de armar uma árvore de Natal bem grande no meio da sala. Faça tudo o que puder para que a sua criança cresça sabendo que existem pessoas que não lhe fecharão as portas quando mais precisar, que pode contar com amigos verdadeiros. Para que os seus laços de amizade sejam fortes e duradouros.
Mimar é amar antes de tudo.
O professor que mima os seus alunos atendendo ao que eles querem aprender e não ao que a escola exije que eles aprendam chegará a um resultado de ensino-aprendizagem muito mais rápido e eficiente. A criança que é livre para fazer o que ela deseja é mais feliz. Somos todos mais felizes quando fazemos o que amamos, principalmente as crianças.
Portanto, finalizo este texto com o pensamento de Karl Mannheim que diz “O que se faz agora com as crianças é o que elas farão depois com a sociedade.” Que possamos dizer sempre sim para as nossas crianças para elas saberem dizer sim ao amor, a esperança e ao amanhã. Para que elas não desistam de lutar no primeiro não que ouvirem quando se tornarem adultas. O amanhã pode ser um sim lindo se você mimar a sua criança dando para ela o que lhe pede.
Não cobremos demais das nossas crianças e jovens. Tudo tem um limite. Essa geração que nos acostumamos a chamar de mimimi é a que está se suicidando todos os dias, a que está matando pais e responsáveis porque não suporta mais as cobranças de um mundo que elas não pediram para viver nele. Um mundo que não perdoa erros e defeitos. Leia mais: https://www.neipies.com/nao-temos-uma-geracao-mimimi-mas-uma-incompreendida/
Quando se exibem, não vamos desfazer. Vamos aceitar suas afirmações. Eles precisam delas. Assim agindo, eles se tranquilizam, se sentem reconhecidos por nós e poderemos nos dar bem com eles.
Certa vez, fui a um evento e, chegando lá, os guardas da portaria me pediram o convite. Eu não tinha e, para minha própria surpresa, arrogantemente afirmei: “Meu convite é verbal!”. “Como assim, verbal?! Sem qualquer papel impresso, nada escrito?”, perguntou um deles. “Sim, é verbal!”, voltei a afirmar. Eles começaram a rir. Só me restou ir embora. Rindo também.
Sempre que quis tratamento especial, me dei mal. Ninguém está livre desses “piores momentos” na vida, mas eu me refiro àqueles que são sempre arrogantes, que faz parte da sua natureza. Esperam sempre receber um tratamento especial.
Possuem um sentimento grandioso quanto à sua importância, tendem a exagerar suas capacidades, talentos e realizações, esperam ser reconhecidos como superiores sem fatos que justifiquem tal expectativa. Com pouca capacidade de empatia, raramente identificam-se com os sentimentos ou as necessidades alheias. Suas prioridades são mais importantes que as de todos os outros. Ficam irritados quando os colegas deixam de auxiliá-los em seus “trabalhos superimportantes”. Tendem a discutir suas próprias preocupações em detalhes intermináveis, não se interessando em ouvir as preocupações dos outros.
Não se dão conta de que afastam as pessoas. Contam-se piadas deles. “Fulano acha que, caso não tivesse nascido, a humanidade estaria se perguntando o porquê”.
Para se dar bem com eles, precisamos entender por que agem assim já que despertam em nós um sentimento negativo. Corrigimos esse sentimento ao perceber o quanto são sofredores.
Dentro deles habita uma tristeza: a de estar decepcionando, deixando a desejar em relação a imagem valorosa ambicionada. Em cada ambiente, precisam convencer aos outros e a si mesmos de que sua avaliação interior está errada, de que possuem sim muito valor, muitíssimo valor.
Conclusão: quando se exibem, não vamos desfazer. Vamos aceitar suas afirmações. Eles precisam delas. Assim agindo, eles se tranquilizam, se sentem reconhecidos por nós e poderemos nos dar bem com eles.
Mas, como em tudo, há um limite: sem um convite no papel, só “verbal”, façam como os guardas da portaria, não os deixem entrar.
P.S.: Vale a pena ver a obra de Greg Ruth de Ashfield, Massachusets. Escreve ele que podemos ser arrogantes, no sentido de ousados, internamente, sem ser rudes externamente.
Não é raro ouvirmos a afirmação de que devemos desenvolver uma educação que tenha qualidade social. A questão dessa afirmação é que disso ninguém discorda, nem mesmo os neoliberais. Isso nos obriga a diferenciar o que entendemos por qualidade social daquela pretendida pelos neoliberais/conservadores?
A questão que propomos examinar neste texto cruza dois campos de estudo: por um lado, estamos interessados na conjuntura socioeconômica que afeta a política educacional em curso; e por outro, nos interessa examinar os desafios que esta política educacional coloca para a educação e para a formação do magistério.
Este último aspecto, a formação do magistério, inclui uma crítica das finalidades educativas que estão sendo impostas pelo sistema-mundo do capital, em meio à sua crise sem precedentes e, em contraposição, demanda uma análise de quais são as nossas finalidades educativas destinadas a enfrentar esta ofensiva[2], contribuindo, desde a educação, para, em primeiro lugar, pensar a organização escolar que precisamos para desenvolver estas nossas finalidades, e em segundo lugar, pensar qual formação deve ser construída com o magistério para que ele possa efetivar tanto as finalidades, como a organização escolar derivada delas.[3]
Sobre a formação do magistério, pensamos que há consenso de que ela não se dá em um vácuo social e, ainda que com menos consenso, pensamos que ela também não se dá no campo das utopias e nem sob o manto de um vago “esperançar”. Há uma luta substantiva acontecendo agora e é impossível pensar a educação fora desta luta, pela simples razão de que os estudantes, em sua vivência extraescolar, já fazem parte desta – mesmo que o magistério não queira ou não possa reconhecê-la.
Pensando neste percurso – finalidades, organização do trabalho escolar e formação do magistério, nesta ordem -, tentaremos construir nossa reflexão na interface entre a conjuntura pretendida pela ofensiva do capital e as possibilidades de contra-regulação orientadas por finalidades educativas opostas, que atendem aos interesses das camadas exploradas da sociedade, disputando tanto a forma como o conteúdo da escola, o que permite, por este caminho, também esclarecer qual é o magistério que necessitamos desenvolver para enfrentar esta tarefa.
Independente de quanto consigamos avançar no curto tempo que temos nesta live, e independente até mesmo do próprio acerto de nossas considerações específicas, é importante guardarmos esta rota de desenvolvimento, ou seja: qual finalidade educativa? Qual organização de escola? E qual magistério formar?
Vale a pena enfatizar, então, que do ponto de vista da formação e desenvolvimento do magistério, definir as finalidades educativas – como um contraponto da ofensiva do capital – e pensar a organização da escola em consonância com tais finalidades, são pré-requisitos essenciais para se poder construir a formação do magistério com a qualidade social que nos interessa.
No entanto, é bom insistir, aqui só podemos fornecer apontamentos, pois a configuração desta trajetória não é algo que possa ser dado apenas a partir das universidades ou dos órgãos oficiais responsáveis pela educação, por mais que estes possam e devam ajudar, mas é feita em articulação com os coletivos mais amplos no interior das lutas dos movimentos sociais, pois é ali que se apreendem os ideais e as necessidades de libertação das classes exploradas.
Como dizia Krupskaya[4], a construção da nova escola é uma tarefa coletiva do magistério, em sintonia com as agruras e expectativas das classes exploradas e em contraposição às finalidades educativas postas pelo capital, as quais usualmente preparam a juventude para ser apenas mão de obra eficiente no interior das relações sociais vigentes.
Este é o âmbito das preocupações aqui reunidas e que estão divididas em três partes: o agravamento do cenário político e da crise do capital; os impactos desde cenário na educação com a configuração de um “neotecnicismo digital” imerso em um padrão sócio-político meritocrático; e por fim, a necessidade de se ensaiar, ainda que como contra-regulação, outro padrão sócio-político orientado por outras finalidades educativas, reposicionando tanto a forma como o conteúdo da organização escolar, o que deve permitir pelo menos visualizar a formação que necessitamos para o magistério.
1. Agravamento do cenário político e da crise do capital
Não se pode examinar nosso cenário político, sem levar em conta o agravamento global da crise do capital que é um fator de condicionamento deste cenário local.
Fazemos esta observação, aparentemente óbvia, porque nos preocupa, neste momento, a fala de alguns economistas à esquerda que estão situando as dificuldades socioeconômicas pelas quais passamos como um problema predominantemente da conjuntura nacional e que poderia, portanto, ser resolvido com ações locais, ignorando que, em parte, tais problemas têm origem na própria crise do capital e só serão de fato equacionados com a substituição da atual forma de organização social.
Sem colocar em cena este fator desestabilizador, nos comprometemos com a produção de resultados que dificilmente poderão ser obtidos, aumentando o grau de decepção com a política, o que favorece, a médio prazo, o fortalecimento do populismo da direita autoritária e seus radicalismos de ocasião contra o Estado e a própria política.[5] Uma população explorada e necessitada de soluções que são permanentemente adiadas, pode se seduzir pelos arroubos autoritários e conservadores.[6] Promessas irreais podem até ganhar eleições, mas podem ser, também, a antessala de um populismo de direita, como estamos vivendo hoje no Brasil, em associação com o neoliberalismo.
É certo que somente um governo à esquerda pode e deve colocar atenção na diminuição do sofrimento da classe trabalhadora, mas minimizar a brutal crise do capital desmobiliza os trabalhadores para o enfrentamento de uma longa batalha que é fruto dos problemas sistêmicos pelos quais passamos. Neste cenário, só podemos entender um governo de esquerda se ele tem um forte componente de mobilização que pelo menos denuncie as reais fontes do sofrimento da população.
Como bem aponta Michael Roberts[7], esta crise tem, agora, um elemento agregado: a crise geopolítica, a qual se soma à já existente crise ambiental.
Tanto a crise ambiental como a geopolítica são derivadas da mãe de todas as crises: a crise estrutural do capital que atinge diretamente a vida do trabalhador. Estes são os elementos desestabilizadores que estão promovendo uma mudança em profundidade da “ordem mundial”, neste exato momento.
A crise geopolítica é um novo estágio da disputa pela hegemonia mundial, marcada por dois acontecimentos recentes: a declaração conjunta de cooperação Rússia-China que impulsiona a organização dos países da Eurásia, e o segundo acontecimento, a operação militar na Ucrânia.
Um novo desenho geopolítico está sendo construído tendo por base a quebra da hegemonia global unipolar americana, a qual tenta se recompor puxando a Europa para junto de si, através da criação da figura de uma suposta “ameaça russa” à Europa, em reação à configuração de polos de hegemonia alternativos. Não devemos imaginar que a hegemonia americana sairá de cena sem cobrar, se necessário, altos custos para o planeta.
Quando Arrighi[8], na década de 90, reafirmou sua análise de que a hegemonia americana estava em sua fase final, se viu a risadinha escondida de alguns “sábios” que afirmavam ser isso apenas catastrofismo marxista. A história está mostrando, neste minuto, que Arrighi tinha razão. Wallerstein, certamente, veria nesta situação atual os primeiros sinais de um novo sistema-mundo – acrescido de sua sábia advertência de que este novo sistema não será necessariamente melhor do que o que temos hoje, na dependência do que fizermos para interferir em seu desenvolvimento.
Faço este breve apontamento sobre a gravidade da situação geopolítica para sinalizar a grande responsabilidade que temos nas decisões políticas internas que estaremos tomando em relação à política nacional, e tomo por base o alerta de Mészáros[9] também formulado em meados da década de 90, mas que continua atual:
“O que hoje estamos vivendo – escrevia ele – não é apenas uma crescente polarização – inerente à crise estrutural global do capitalismo atual – mas, igualmente, o que multiplica os riscos de explosão, o colapso de uma série de válvulas de segurança que cumpriam o papel vital de perpetuação da sociedade de mercado” (p. 48).
E continuava mais adiante:
“Consequentemente a crise que enfrentamos não se reduz simplesmente a uma crise política, mas trata-se da crise estrutural geral das instituições capitalistas de controle social na sua totalidade. Aqui cabe assinalar que as instituições do capitalismo são inerentemente violentas e agressivas: são edificadas sobre a premissa fundamental que prescreve a “guerra, se fracassam os métodos “normais”.
Estas contradições geopolíticas apontadas na Parte I somam-se a outras já existentes e, no limite do nosso tempo nesta live, apenas podemos fazer uma enumeração rápida das suas dimensões, para completar o quadro do emaranhado perigoso nos quais se encontra a humanidade.
A dimensão 1 diz respeito à lógica do capital que, como advertia Schumpeter nos idos da década de 40, terá problemas não pelo seu fracasso, mas pelo seu próprio “sucesso”.
Esta lógica direciona a humanidade para o objetivo de ganhar dinheiro para ganhar mais dinheiro, indefinidamente, e nenhum sistema social pode operar por acumulação permanente sem destruir os seres humanos e o ambiente.
A dimensão 2, refere-se à contradição estrutural entre o aumento do capital investido em tecnologia mais sofisticada na produção, e a consequente redução do capital investido em mão de obra, a qual é substituída por novas tecnologias, gerando menos postos de trabalho ou postos mais simplificados e mais baratos – como mostrou Marx[10] – mas que a longo prazo produzem uma queda tendencial nas taxas médias globais de lucro, que pode ser adiada se fatores contrariantes forem acionados, mas que não pode ser postergada para sempre[11].
Isso se deve a que é o trabalho vivo que pode gerar valor e as tecnologias disponíveis têm em seu interior trabalho morto, materializado em hardware ou software, e diminuem ou precarizam a participação do trabalho vivo na produção. A competição e a pressão pela acumulação permanente de valor, acelera esta mudança na composição orgânica do capital.
Para se perpetuar, o capital é obrigado, então, a pôr em marcha uma série de medidas que contrariem esta tendência à queda das taxas médias globais de lucro, entre as quais, para os nossos propósitos, destacam-se: a intensificação do trabalho; a imposição de salários mais baixos; a superpopulação de trabalhadores desempregados ou subempregados disponíveis para trabalhar por salários menores – enfim a precarização extrema da força de trabalho.
Para além das polêmicas que esta dimensão gera[12], o que importa destacar aqui é que tais ações de sobrevida, no entanto, acabam por aumentar as crises sociais e carregam alto poder de mobilização social.
Note-se, então, que a introdução de novas tecnologia no processo de trabalho é uma necessidade intrínseca às crises do capitalismo. É pela introdução de novas tecnologias que ele impulsiona a economia e reduz temporariamente o impacto das crises. Em contraposição, na outra ponta, aumentam as contradições sociais, a miséria, os conflitos sociais e, com isso, as possibilidades de mobilização social. Isso explica, em boa medida, as alianças que estamos assistindo entre o neoliberalismo e os conservadores, com a finalidade de segurar as mobilizações.
Desde o século XIX o capital recorre à aliança com os conservadores quando se encontra em apuros.[13]
Esta crise também se manifesta na superprodução acumulada: precarização e baixos salários permitem mais lucro, mas diminuem o poder de compra dos trabalhadores e o seu consumo e geram endividamento e queda na demanda; maiores salários, porém, aquecem a demanda e aumentam o consumo, mas derrubam os lucros e favorecem o movimento dos trabalhadores por melhores condições de trabalho.
Não é razoável supor que a área da educação não sofrerá, portanto, o assédio de novas tecnologias – especialmente à medida que vai sendo ampliada a privatização da educação. Igualmente, também não é razoável supor que a educação passará incólume ao longo dos conflitos sociais que crescerão.
A dimensão 3, refere-se ao papel do Estado, o qual, pelo menos até recentemente, era chamado a intervir para prover alguma compensação à permanente exploração a que os trabalhadores são submetidos.
Tratava-se de aliviar as tensões sociais. No entanto, mesmo o pouco que se fez nestes momentos, acabou por levar a um aumento dos custos fiscais decorrentes desta estratégia, agravado pelo baixo desempenho do capital global.[14]
O esgotamento da social democracia que exercia este papel em alternância com o neoliberalismo, criou nova contradição: uma maior inclusão aumentava o tamanho do Estado e exigia mais impostos, derrubando a competitividade e os lucros.
O inverso, a não inclusão, diminuía o Estado, reduzia impostos, permitia atender às demandas capitalistas, mas gerava mais conflito social, em um quadro em que o capitalismo precarizava constantemente a força de trabalho a cada inovação tecnológica que introduzia para postergar suas crises.
A “corrida para o mais barato” implicou em externalização de custos, desoneração do capital e diminuição de impostos, desregulamentação de mercados, o que é incompatível com financiar a inclusão.
Isso significa que a pressão para a diminuição do Estado redefinirá o papel do Estado e o próprio conceito de democracia, à medida que a crise avance. Haverá uma tendência a oficializar, pela meritocracia, a naturalização da exclusão social e isso também atingirá a área da educação.
A dimensão 4, diz respeito aos danos que o capital faz à ecologia global pelo processo de acumulação ilimitado e pela externalização crescente do custo ambiental. Aqui, nosso tempo acabou e as ações necessárias são emergenciais. À medida que a acumulação cresce, cresce igualmente o garimpo de matérias primas, a mineração, a extenuação da terra por fertilizantes, o desmatamento, entre outras agressões sistemáticas à natureza.[15]
Finalmente, a dimensão 5, é uma decorrência da dimensão 2, uma crise na própria geração de valor, e aponta para as consequências da introdução da inteligência artificial e das novas tecnologias. Randal Collins[16] põe em evidência a crise de empregos, agora na classe média, em virtude da inteligência artificial e dos robôs.
A introdução de IA e a robotização também atingirão a educação de forma generalizada com diminuição de postos de trabalho e rotinização de atividades.[17]
Do conjunto desta crise, derivam-se certas reações e movimentos no campo político:
1. A radicalização da proposta sócio-política neoliberal[18] em substituição ao liberalismo centrista que emergiu no século XIX[19] e a popularização de um liberalismo mais radical ainda, conhecido como libertarianismo[20] que propõe a liquidação completa do Estado e a inserção direta das atividades humanas em processos concorrenciais plenos.
Em meio à crise, por ora, a estratégia tem sido, por um lado, empurrar as crises para frente e, por outro, blindar as elites dos efeitos financeiros e políticos destas, através do restabelecimento das teses do liberalismo clássico[21], fortalecendo um contrato social meritocrático, construído dentro de uma lógica que tem sido chamada de neoliberal, e cujas bases foram lançadas nos anos 20 do século passado no entre guerras e tornaram-se hegemônicas nos anos 70[22]. Este caminho, depois de 40 anos nos países centrais, não tem conseguido equacionar os problemas contemporâneos do capital[23].
2. O segundo efeito diz respeito ao fortalecimento das vertentes do conservadorismo que visualizam, na crise do liberalismo[24], possibilidades de retomar suas teses, e se estruturam ao redor do mundo (taticamente em aliança com o neoliberalismo/libertarianismo) com acesso a governos importantes.[25]
Uma aliança de ocasião, eleitoral, entre conservadores e neoliberais tem garantido capacidade política para obliterar o avanço de propostas alternativas ao neoliberalismo e ao próprio capital.
3. O terceiro efeito diz respeito ao desenvolvimento de um horizonte negativo com o fortalecimento do movimento pós-moderno, que ao recusar os projetos históricos disponíveis para combater o capital, remove a categoria da contradição, e cria um vazio que favorece a ocupação do espaço político pelo conservadorismo pós-moderno[26].
O movimento pós-moderno foca a atenção nas consequências culturais da crise do liberalismo, no “fim da verdade” e no “relativismo”, deixando de fora da análise as causas estruturantes da própria crise do capital. A direita conservadora aprendeu bem.
Temos que cobrar dos fundadores do movimento pós-moderno a destruição ou desconstrução da verdade, que agora vemos se transformar em narrativas circunstanciais, quando não em recorrentes fake news.
4. O quarto efeito, este mais promissor, é o aumento do interesse na compreensão das crises cíclicas e estruturais do sistema do capital, um renovado interesse nos estudos de Marx e uma reavaliação de projetos sociais alternativos ao capital, especialmente as teses socialistas.
Neste cenário, a educação tem seu papel estratégico reforçado e é disputada como instância formadora da juventude. Dois conceitos básicos devem comandar a ofensiva pelo lado neoliberal/libertariano na educação: o neotecnicismo digital e a meritocracia.
Pelo lado conservador, a agenda avança, como se sabe, com a implementação da escola cívico-militar para disciplinar áreas mais pobres, combate ao que chamam ideologia de gênero e implementação de versões do movimento escola sem partido.
As duas agendas constituem o maior cerco já visto sobre a escola, mas vamos nos concentrar aqui na agenda neoliberal, que tem maior alcance e poder destrutivo.
2. “Neotecnicismo digital” e “meritocracia”: estágio mais avançado da ofensiva educacional do capital
Nos anos 80 a pedagogia capitalista se constituiu predominantemente como um tecnicismo que nas palavras de Saviani[27] visava subordinar o magistério aos processos e métodos de ensino e suas finalidades educativas.
O impacto do neoliberalismo nos países centrais introduziu um refinamento neste controle descrito por Saviani.
Uma nova versão do tecnicismo preservava a padronização e ampliava o controle através da predominância da avaliação externa de larga escala, implementada a partir de uma teoria em que o magistério e a escola eram responsabilizados de fora do sistema educacional pelos resultados de aprendizagem. Esta transferência para um controle externo, potencializava os controles já existentes no interior da escola. No início dos anos 90, chamei esta versão de neotecnicismo.
Atualmente, este neotecnicismo atinge seu nível mais avançado, agora em sua versão digital, virtualizando e ampliando este controle sobre o magistério e os estudantes, apoiando-se nas mudanças no mundo do trabalho que mercantilizaram as próprias relações sociais[28], inclusive a relação professor-aluno, hoje mediadas por tecnologias de informação e comunicação, tendo agora como horizonte as finalidades educativas meritocráticas do neoliberalismo.
Estas modificações foram aceleradas pela pandemia, mas viriam com ou sem pandemia, pois são uma exigência da fase atual do capital que tem sido chamado de “capitalismo de plataformas”.
Temos então os dois núcleos conceituais que deveremos enfrentar na tarefa de criação de um padrão sócio-político alternativo:
– por um lado, está o avanço de um “neotecnicismo digital” que combina a teoria da responsabilização por metas com a teoria da escolha pública. Juntas essas duas teorias reformulam os espaços educativos: a primeira, apoiando-se no controle pela avaliação e agora, com novas tecnologias de informação e comunicação, amplia o controle sobre os objetivos, conteúdos e processos educativos, incorporando no trabalho pedagógico as mudanças que a crise do capitalismo vai impondo ao mundo do trabalho em geral – inclusive a virtualização dos processos; a segunda, coloca em marcha processos de privatização da educação (por dentro ou desde fora) com vistas a retirar a educação do âmbito do Estado e colocá-la nas mãos ideologicamente seguras do empresariado, além de expandir mercado.
– por outro lado, além deste núcleo conceitual do neotecnicismo digital, temos ainda o núcleo da meritocracia que impõe finalidades educativas oriundas do padrão sócio-político neoliberal, onde o indivíduo é colocado como o gestor da sua própria acumulação de competências e habilidades, com as quais deve se apresentar ao mercado concorrencial. Com esse objetivo, aparecem as “disciplinas” que procuram “ajudar” os jovens a se transformarem em supostos “empreendedores” como se eles fizessem parte dos ganhadores do sistema e não fossem, de fato, trabalhadores precarizados. Com isso, tentam apagar sua origem de classe.
Colocando de uma forma mais ampliada, temos:
1. O projeto neoliberal (em aliança com conservadores) que está em curso, propõe romper o contrato social que até agora previa compensar, pela inclusão social, as mazelas da exploração do capitalismo, responsáveis pela desigualdade social.
Em seu lugar, acuado pelas crises, propõe introduzir na formação da juventude, a lógica da concorrência e da meritocracia, estabelecendo que, de agora em diante, cada um é responsável por si mesmo, hegemonizando outra justificativa social – ou seja, a justificativa da meritocracia, entendida como uma hierarquia social construída pelo acúmulo de mérito pessoal.[29]
Este contrato neoliberal, contrapondo-se a uma visão social da liberdade, privatiza a liberdade como um fenômeno pessoal e individual, não sendo relevante se as demais pessoas são ou não igualmente livres. Nega-se a liberdade como um fenômeno social, coletivo e emancipatório. Como consequência, nesta visão, não há sociedade, mas sim indivíduos jogando o jogo da vida – empreendedores e jogadores oportunistas em bolsas de valores -, como se todos fossem “sócios de um empreendimento” – a própria vida. Uma sociedade na qual todos “participam” segundo seu próprio mérito e sorte.
Frente às crises constantes do capital e às possibilidades crescentes de desemprego e de subemprego, o projeto permite que as elites blindem os melhores e mais significativos postos de trabalho para si, criando uma exigência meritocrática que somente elas, as elites, reúnem as condições socioeconômicas necessárias para cumprir[30]. Com isso, restringem a mobilidade social e explicam a desigualdade social como opção pessoal ou “falta de empenho”.
Constrói-se na juventude, dessa forma, a ideia de que cada um é responsável por si mesmo, minando a própria ideia de um Estado inclusivo e, pelo oposto, fortalecendo a ideia de um Estado mínimo para o social e máximo para o capital – cria-se uma ambiência social de violência e de vale tudo concorrencial.
2. Para implementar este contrato social meritocrático, articulado com as novas demandas do mundo do trabalho, é preciso criar uma nova materialidade nas escolas, fortalecendo as teses educacionais neotecnicistas que levam a uma ampliação do controle técnico e político da escola, fazendo uso da adição de tecnologias da informação e da comunicação disponíveis (p. ex. ensino híbrido). Isso conduz à introdução de plataformas de aprendizagem e sistemas informatizados de armazenamento de dados e controle.
Este movimento que atende, como vimos, à necessidade de lidar com as contradições do capital elevando a produtividade pela introdução de tecnologia e ampliando mercado, vai na esteira da mercantilização da própria “sociabilidade” em geral[31], agora também mediada por tecnologia, sob controle de grandes corporações transnacionais – as big techs.
Nas palavras de Huws[32] mais aspectos da vida são agora incluídos no mercado, ou pelos menos aqueles aspectos que interessam para gerar lucro, e que antes se encontravam fora dele. Isso inclui “a biologia, arte e cultura, serviços públicos e a sociabilidade” (p.7).
Neste processo de mudança, “os trabalhadores criativos foram convertidos em “produtores de conteúdo” (p. 8). E continua: “A colonização da sociabilidade pelo mercado não só gerou uma nova fonte de lucro, mas também penetrou na estrutura da vida social [das pessoas], minando a base da futura solidariedade.” (p. 11)
Huws acrescenta que “a comunicação social agora envolve, com efeito, o pagamento de um dízimo a essas empresas [que fazem a mediação tecnológica] por parte de todas as pessoas ao redor do mundo que tenha um contrato de telefone celular ou uma conexão à internet em casa – um número que continua a crescer exponencialmente” (p. 13).
Como salienta Weiner[33]:
“[As alterações globais] no trabalho dos trabalhadores culturais e do conhecimento e aqueles do serviço público envolvem: a intensificação ampliada do trabalho; a diminuição da autonomia e da criatividade; a padronização dos processos de trabalho; e pressão para se “desempenhar de acordo com padrões cada vez mais rigorosos estabelecidos de cima para baixo, definidos em termos de protocolos, metas de desempenho e padrões de qualidade” (Huws, 2014, p. 40)”.
É de extrema importância que enfrentemos este padrão sócio-político que pretende tornar-se hegemônico. A crise estrutural escala um ponto extremamente perigoso para a humanidade.[34] A perspectiva de fragmentação da globalização em meio a uma crise estrutural onde as taxas de lucro são declinantes mesmo com os remédios do neoliberalismo[35], e onde a principal hegemonia está sendo desafiada, pode aprofundar a crise estrutural com consequências imprevisíveis e um custo social impagável, com o capital apelando para projetos autoritários que prolonguem sua vida.
O tamanho da crise estrutural já obriga os neoliberais a uma aliança com conservadores de todos os matizes, inclusive grupos de extrema-direita, com a finalidade de conter o crescimento da insatisfação entre aqueles atingidos pelas crises e tenta redefinir o centro político em uma “social-democracia de direita”, protegendo as reformas neoliberais em um novo “centro político”. Mas este novo “centro” é obtido com a inclusão da extrema direita no cenário político.
Pensamos que à radicalização do projeto do capital, deve corresponder uma radicalização de um projeto alternativo que nos conduza à construção não apenas de um pós-capitalismo, mas, como assinala Mészáros[36], a uma era superadora do próprio capital. E isso terá que passar pelo aprofundamento das teses socialistas a partir das experiências históricas que já dispomos. No entanto, este não é o nosso tema aqui.
A questão que temos que nos colocar, agora, é bem mais modesta. Compreendido o padrão sócio-político da coalisão conservadora/neoliberal, qual o padrão sócio-político que podemos exercitar nas escolas como contra-regulação, tanto no campo da formação da juventude, como da formação do magistério?
3. O que significa ter a qualidade social como finalidade da educação?
Não é raro ouvirmos a afirmação de que devemos desenvolver uma educação que tenha qualidade social. A questão dessa afirmação é que disso ninguém discorda, nem mesmo os neoliberais. Isso nos obriga a diferenciar o que entendemos por qualidade social daquela pretendida pelos neoliberais/conservadores?
Preliminarmente, para aclarar nossa posição, é importante delimitar que, como consequência de reconhecermos que a educação não ocorre em um vácuo social, entendemos ser pouco definir qualidade social a partir de um debate focado apenas no reconhecimento/acolhimento do outro, partindo de um paradigma abstrato que confronta o humano/desumano que não identifica a origem da desumanidade. Este discurso centrado no reconhecimento já foi incorporado pela terceira via neoliberal à sua maneira (de Clinton até Blair, passando por Obama e chegando agora a Biden) e já teve sua crítica muito bem formulada pela sociologia inglesa e americana[37].
Rejeita-se também partir da ideia de uma biopolítica respaldada por um biopoder, pois, como bem aponta Rancière[38], este modelo de análise subordina a política ao poder: “A política não é o exercício do poder. A política deve definir-se em seus próprios termos como um modo específico de atuar que é posto em prática por um sujeito específico e que tem sua própria racionalidade. É a relação política o que permite pensar o sujeito da política e não o contrário” (p. 51).
Se o poder é o campo da violência que imobiliza, a política, no entanto, está no campo da intersubjetividade[39], portanto está aberta à contra-regulação, e em nosso entendimento, para além dos micro-poderes.
A crítica de Habermas[40] é ilustrativa dos impactos dos estudos pós-modernos: “Foucault resiste ao convite para tomar partido; escarnece do “dogma esquerdista” que toma o poder pelo mal, o feio, o estéril e o morto – “e aquilo sobre o qual o poder se exerce, pelo bom, genuíno e rico”. Não há para ele nenhum ‘lado certo’” (p. 394-5). E continua Habermas: “[Foucault] está certo de que uma análise axiologicamente neutra de forças e fraquezas do adversário é útil para aquele que quer assumir a luta – mas por que, em princípio, lutar? Por que a luta é preferível à submissão? Por que resistir à dominação?” (p. 397).
Também não concordamos com deduzir nossas finalidades educativas a partir de uma mera inversão de sentido das políticas neoliberais em curso, procurando “democratizar” processos originalmente pensados para implementar a exclusão meritocrática.
Finalmente, é igualmente insuficiente construirmos nossas finalidades a partir de um paradigma de inclusão, sem que se faça uma crítica mais aprofundada das finalidades do ato de incluir, especialmente porque também há uma inclusão via mercado, defendida na ótica neoliberal: incluir para explorar, incluir meritocraticamente.
É preciso ir além disso. Estas teses, sem sua inserção crítica na lógica perversa do capital, serão presas fáceis do que Fraser[41] chama de “neoliberalismo progressista”.
De onde partir então?
Pensamos que defender uma educação com qualidade social em nosso tempo é ter como horizonte a construção de um novo padrão sócio-político que mobilize a sociedade em direção a uma sociedade pós-capital.
Não haverá qualidade social sob o capital. Portanto, no entendimento do que seja “qualidade social”, a palavra-chave é “social”. É ela que qualifica a qualidade. Mas ela não é neutra. Isso significa que a qualidade social deve ganhar sentido como compreensão e superação das relações sociais vigentes, na compreensão das implicações éticas e filosóficas destas relações sociais portadoras de desigualdades objetivas.
Vale dizer que são as relações entre as pessoas as portadoras de sentidos de humanização ou desumanização, são portadoras de reconhecimento ou de exclusão, pois tais relações expressam o próprio processo de produção da vida.[42] Portanto, esclarecer as relações sociais vigentes (e sua mutação histórica) é essencial, não só como uma dialética substantiva, mas inseridas em um projeto histórico de superação.
Neste sentido, o acesso à ciência social é fundamental para este entendimento e não podemos, em nome de não “influenciar” as classes oprimidas, continuar a sonegar-lhes o conhecimento acreditando que vão, espontaneamente, desenvolver uma crítica científica da realidade – a menos que, à moda pós-moderna, desqualifiquemos a própria ciência e mergulhemos no negacionismo, convencidos de que todo conhecimento está comprometido pelo poder.[43] O mais provável, por este caminho, é que fiquemos todos ao sabor de fake news da propaganda hegemônica vigente, ou pior ainda, da resignação religiosa.
Qualidade social da educação, então, deve significar uma crítica das atuais relações sociais e uma avaliação de sua capacidade para construir um horizonte em que se vislumbre mais humanização.
E, dada a impossibilidade das atuais relações sociais irem além da exploração dos seres humanos e da natureza, isso significa, por oposição, lutar e construir novas relações entre as pessoas que radicalizem a igualdade e a democracia para além do capital e para além da democracia liberal vigente, incapazes de produzir mais humanização.
Humanização, portanto, não é uma categoria abstrata, mas é o exercício concreto de humanidade que se dá na organização da vida material para além do reconhecimento do outro e da diversidade e que conforma as relações entre as pessoas. A fonte de desumanização contemporânea está nas relações sociais que sustentam a geração de valor sob o capital, sempre relações de exploração e dominação.
Sem a superação do capital, não há humanidade possível, entendida esta como a humanização coletiva. Portanto, falar em qualidade social mais humana sem identificar a origem da desumanidade nas próprias relações sociais capitalistas, não indica qual o alvo de luta e nem as formas de luta. É preciso assumir que as lutas atuais são, então, lutas anticapitalistas, lutas pelo esgotamento e superação das relações sociais desumanizadoras criadas pela vida sob o capital – incluídas aí as desigualdades de gênero, de classe, de raça entre outras. É neste campo que a definição das finalidades da educação que nos interessam tem que ser colocada.
As consequências disso para a educação são claras. Ou seja, uma educação com qualidade social é aquela que – guiando-se por uma matriz formativa mais ampla, que inclui o acesso ao conhecimento acumulado e portanto às ciências e às artes, e guiando-se igualmente pela crítica da organização interna das escolas (que na escola atual reproduz os princípios da organização social verticalizada) – é uma qualidade social que prepara as lutas por uma sociedade de outro tipo, onde a igualdade e uma democracia de tipo superior, portanto baseada na participação e construção coletivas, apontam para um tipo de vida para além da geração e acumulação de valor ilimitado e desigual, e ensaiam novas relações sociais superadoras da era do capital, nos limites possíveis da luta.
É isso que queremos dizer quando afirmamos que uma discussão sobre as finalidades da educação envolve sempre decisões políticas. Para que queremos formar a juventude? Para se adaptar bem às relações sociais vigentes, ou para superá-las? Se para superá-las, em que direção? Quais relações sociais permitem a superação da desumanização imposta pela era do capital?
Educar com qualidade social, então, para além do necessário domínio do conhecimento das ciências e das artes, é permitir que os estudantes possam construir uma crítica das relações sociais vigentes e participar durante sua formação do exercício de vivência de relações sociais contra-reguladoras, contra-hegemônicas, com forte ancoragem no trabalho coletivo e na participação.
É este debate que o neoliberalismo quer obliterar com as Bases Nacionais Curriculares e os conservadores querem paralisar com o movimento “escola sem partido” e a militarização de escolas – prescientes que são do tamanho da crise em que o capital está mergulhado e que pode conduzir à sua superação.
Portanto, nosso padrão sócio-político deve incluir experiências que levem os estudantes a saber se auto-organizar pessoal e coletivamente em função de pautas coletivas, contrariando a meritocracia e o individualismo vigentes nas escolas de hoje e que dão sustentação às relações sociais vigentes. E isso terá que ser feito apesar do ensino híbrido individualista e do controle a que o magistério está sendo submetido. Estas são as condições atuais de luta.
Como propõe Viktor Shulgin[44], uma educação com qualidade social forma estudantes que saibam lutar por uma outra sociedade mas, ao mesmo tempo, saibam também preparar-se para construí-la.
Com Shulgin, pensamos que se teremos cada vez mais lutas pela frente, então, em primeiro lugar, devemos formar lutadores. Mas a luta, como ele diz, é uma contingência amarga e não nosso desejo. Portanto, quem luta, deve também saber construir, construir o novo a partir de novas finalidades para a vida, o que implica em formar lutadores e construtores a partir dos ideais de libertação das classes oprimidas.
Miguel Arroyo, em uma das suas lives, identificou muito bem um ponto importante da proposta de Paulo Freire: aprender com os oprimidos em um processo dialógico.
Isso abre a possibilidade para uma relação educacional na qual aprendemos com as classes exploradas seus ideais de libertação, ou seja, em nosso entendimento, um diálogo que permite conhecer e vivenciar, como também diria Shulgin, os anseios de libertação da classe explorada, sua visão de mundo e, nesta relação de troca, garantir-lhes também o acesso ao conhecimento historicamente acumulado que, geração traz geração, foi sonegado a elas para que permanecessem privadas de ferramentas culturais e científicas que ajudassem o revolucionamento de sua condição. É para isso que precisamos da escola e de seu magistério.
Mas para cumprir esta finalidade, a escola precisa inserir-se na atualidade[45], conectar-se à realidade social em toda sua amplitude. Não é por outra razão que Paulo Freire pesquisava, antes, o universo cultural daqueles com quem dialogaria – algo muitas vezes ausente quando se fala de seus ensinamentos.
Para conduzir esta luta, no entanto, não basta reconhecer o outro, fazer guerrilha gramatical, clamar pela diversidade, ou procurar dar um novo sentido “democrático” às políticas neoliberais/conservadoras. Não. Como aponta Moisey Pistrak[46], é necessário que o processo educacional permita que a juventude “compreenda, em primeiro lugar, em que está a essência do processo de luta (…); em segundo, que lugar a classe oprimida ocupa nesta luta; em terceiro, qual o lugar que deve ser ocupado por cada adolescente nesta luta; em quarto, saber conduzir esta luta no seu próprio espaço e ao desembaraçar-se dela, saber ocupar seu lugar na construção do novo edifício.”
Penso que estas finalidades educativas – contrárias às finalidades atuais que levam nosso jovem a se adaptar ao existente – devem propiciar:
– uma organização educacional que, baseada no domínio do conhecimento acumulado e em uma análise crítica da atualidade vivida pelo jovem, também leve a uma apreensão de seus anseios e necessidades de libertação, inserindo a atividade da escola na crítica da própria atualidade;
– mas deve igualmente permitir o desenvolvimento da auto-organização dos jovens tanto pessoal como coletiva e à proximidade com a crítica do trabalho na nossa sociedade, abrindo as possibilidades de sua superação por novas formas de organização social.
Se queremos que a juventude seja construtora de novas relações é preciso que ela saiba auto-organizar-se pessoal e coletivamente. E é por isso que a organização da escola atual teme que os alunos se organizem, se unam, aprendam a trabalhar coletivamente. Mais seguro é fornecer-lhes a educação on line, individualizada e de preferência em casa.
Importante assinar que uma escola construída segundo estas finalidades inclui, e ao mesmo tempo, vai além do domínio do conhecimento historicamente acumulado e só pode ser pensada como um processo de luta que envolve o magistério e os estudantes na redefinição de seus processos de gestão e educação. Encontramos este tipo de escola sendo ensaiada nos movimentos sociais – especialmente o MST.[47]
Estes são, portanto, nossos horizontes estratégicos. Obviamente, cada escola terá que dimensionar os passos que pode dar nesta direção, de acordo com suas próprias forças.
E é para esta finalidade e para esta escola que devemos pensar como devemos formar um magistério que esteja em condições de preparar lutadores e construtores de um futuro alternativo para a humanidade. A Base Nacional de Formação da ANFOPE[48] e seu acúmulo histórico de debates é um bom começo. Ela se constitui em um importante instrumento para conter a desqualificação e a desprofissionalização do magistério que o reduz a meros administradores de rotinas algoritmizadas em plataformas de aprendizagem on line.
Quais os obstáculos que enfrentamos para desenvolver esta qualidade social? Muitos. O principal, penso, nós já estamos vivenciando agora: à medida que o capital se sinta ameaçado pelas contradições inevitáveis que vai desenvolvendo, vai apelar mais e mais para a radicalização de suas teses e para o autoritarismo. Vai ativar suas milícias e fazer aliança com forças conservadoras e até neonazistas.
Temos que criar formas de romper o aprisionamento a que foram submetidas as escolas. Pelas Bases Nacionais Curriculares do Conselho Nacional de Educação, foi determinado detalhadamente o que deve ser ensinado para que não se corra o risco de ensinar mais do que as classes dominantes precisam para gerenciar seus interesses. E para completar a tarefa, foi determinado também como deve ser a formação do magistério, para que não se corra o risco de que este venha a ser mais bem formado do que precisaria ser e acabe indo além do que se espera dele.
E, parafraseando novamente Shulgin, foram colocados dois “soldados” nas escolas para vigiar o que lá ocorre: o soldado dos céus – o conservadorismo que pretende falar em nome de deus – e o soldado da terra – as bases nacionais comuns neoliberais, seus processos de inclusão meritocráticos e, agora, o ensino híbrido.
Estamos diante do maior cerco político e técnico à escola, motivado pela atual fase vivida pelo capital e que deverá se arrastar em meio a crises. [49] É preciso que nos preparemos e não que nos acalmemos a partir de visões abstratas e utópicas. Teremos uma luta dura e longa que pode ser mais difícil ou mais fácil na dependência de quem ocupar o Estado nos próximos anos.
Tenho consciência de que tais temas podem ser incômodos. Inclusive porque quando estas análises são feitas, elas causam uma reação defensiva nas pessoas: alguém dirá que isso não acontece linearmente, que haverá resistência e que isso é muito negativista. Prefiro dizer, com Wallerstein, que é realista – nem otimista, nem pessimista.
E sim vai haver, melhor, já há resistência, mas só haverá resistência eficaz se (1) conhecermos quem são nossos inimigos; (2) levarmos a sério a extensão da crise; e (3) se dispusermos de lutadores que, além de lutar, possam participar da construção de novos horizontes.
E essa é a finalidade de uma educação com qualidade social no nosso tempo. E como esta será uma longa luta, será preciso que sejamos substituídos nesta luta pelos jovens e que estes se disponham a correr os riscos de lutar para abrir espaço e poder construir o novo.
Nunca estivemos em uma posição tão propícia para pensarmos um novo rumo para a humanidade. Nisso reside o otimismo que devemos ter, e não na relativização da crise, pois a relativização só nos desarma.
Autor: Luiz Carlos de Freitas, Professor aposentado da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP – (SP) Brasil.
Texto preliminar para discussão, baseado em live proferida em programação da Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação – ANFOPE – em 28/03/2022. Reprodução autorizada.
[2] E que não se restringem a um debate intra-escolar, pois trata-se do interesse público mais amplo.
[3] Seguimos, aqui, o caminho desenvolvido por Viktor N. Shulgin (1924) Fundamentos da Educação Social. Moscou. (Tradução no prelo pela Editora Expressão Popular).
[4] Krupskaya, N. (2017) A construção da pedagogia socialista. (São Paulo: Expressão Popular) Orgs: Luiz Carlos de Freitas e Roseli Salete Caldart.
[5] Eatwell, R, and Goodwin, M. (2018) National Populism: the revolt against liberal democracy. Penguin Books.
[6] Norris, P. and Inglehart, R. (2019) Cultural Backlash: Trump, Brexit and Authoritarian Populism. New York: Cambridge Univeresity Press
[15] Cunha, D. A natureza da “contradição em processo”. Disponível em www.sinaldemenos.org – Ano 10(13), 2019.
[16] Wallerstein, I.; Collins, R.; Mann, M.; Derluguian, G. and Calhoun, C. (2013) Does Capitalism have a future? New York: Oxford University Press.
[17] Uma formação exigente e elevada para o magistério associada à defesa de uma escola que restringe o uso de plataformas on line, poderá proteger ou dificultar a desqualificação e consequente desprofissionalização. A Base Nacional de Formação da ANFOPE é um elemento central nesta luta contra a desqualificação do magistério que tenderá a serampliada pelo ensino híbrido.
[18] Ver Biebricher, T. (2018) The political theory of Neoliberalism. Stanford: Stanford University Press.
[19] Wallerstein, I. (2011) The modern Word-system IV: centrist liberalism triumphant, 1789-1914. Berkeley: University of California Press.
[20] Ver Rothbard, M. (2006) For a New Liberty. Alabama: Ludwig von Mises Institute.
[21] Apesar da discordância de alguns pós-modernos que insistem em “uma nova razão do mundo”, é o próprio articulador da proposta neoliberal, Ludwig von Mises (ver Mises, Liberalismo. São Paulo: Instituto Ludwig von Mises do Brasil, 2010) quem reafirma o liberalismo clássico como fundamento do neoliberalismo.
[22] Ver Slobodian, Q. (2018) Globalists: the end of the empire and the birth of neoliberalism. Cambridge: Harvard Univesity Press. Já há tradução no Brasil.
[24] Deneen, P. (2019) Why Liberalism failed. New Haven and London: Yale University Press. (Há tradução em português.)
[25] Norris, P. and Inglehart, R. (2019) Cultural Backlash: Trump, Brexit and Authoritarian Populism. New York: Cambridge Univeresity Press; Teitelbaum, B. (2020) Guerra pela eternidade: o retorno do Tradicionalismo e a ascensão da direita populista. Campinas: Ed. Unicamp.
[26] McManus, M. (2020) What is post-modern conservatism? Essays on our hugely tremendous times. UK: Zero Books; McManus, M. (2020) The rise of post-modern conservatism: neoliberalism, post-modern culture and reactionary politics. Vancouver: Palgrave Macmillan.
[27] Saviani, D. (1983). Escola e democracia. São Paulo: Cortez Ed./Autores Associados.
[28] Huws, U. (2014). Labor in the global digital economy. New York: Monthly Review Press.
[29] Sandel, M. J. (2020) A tirania do mérito: o que aconteceu ao bem comum? Rio: Civilização Brasileira.
[30] Markovits, D. (2019) The meritocracy trap: How America’s Foundational Myth Feeds Inequality, Dismantles the middle class, and devours the elite. New York: Penguin Press. Há tradução disponível.
[31] Huws, U. (2014). Labor in the global digital economy. New York: Monthly Review Press.
[36] Mészáros, I. (2011) Para além do Capital. São Paulo: Boitempo.
[37] Ver sobre isso: Oliveira, S. B. (2019) O papel da confiança interpessoal e institucional nos processos participativos de avaliação da qualidade da escola pública. Tese de Doutorado. Faculdade de Educação da UNICAMP. Ver também a nota 5, abaixo.
[38] Rancière, J. (2019). Disenso. Ensayos sobre estética y política. México: Fondo de Cultura Económica.
[39] Ver Habermas, J. (2002). O discurso filosófico da modernidade. São Paulo: Martins Fontes.
[40] Ver Habermas, idem.
[41] Fraser, N. (2019). O velho está morrendo e o novo não pode nascer. São Paulo: Autonomia Literária.
[42] Rubin, I. I. (1980) A teoria marxista do valor. São Paulo: Brasiliense.
[43] Ver Habermas, J. (2002). O discurso filosófico da modernidade. São Paulo: Martins Fontes.
[44] Shulgin, V. N. (1924) Fundamentos da Educação Social. Moscou. (Tradução no prelo pela Editora Expressão Popular).
[45] Shulgin, V. (1924) Fundamentos da Educação Social. Moscou (No prelo pela Expressão Popular).
[46] Pistrak, M. (2018) Fundamentos da Escola do Trabalho. São Paulo: Expressão Popular.
[47] Caldart, R. S. e outros (2014) Escola em Movimento. São Paulo: Expressão Popular.
[48] ANFOPE – Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação. http://www.anfope.org.br/
[49] Streeck, W. (2016). How will capitalism end? Essays on a failing system. London: Verso.
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As frustrações podem ser altamente educativas, pois nos ajudam a compreender nossas fragilidades, nossa ignorância, nossa finitude. A prepotência e arrogância são o lado oposto de quem não quer admitir as frustrações e as fragilidades.
A frustração é um sentimento corriqueiro na vida das pessoas. Quem já não se frustrou com a expectativa de alguma coisa, com a concretização de um sonho, com a não realização de um projeto, com o fracasso de um empreendimento, com o comportamento de alguém próximo.
O campo da frustração é amplo e vasto: vai de um simples acontecimento banal do cotidiano (machucar um dedo e não poder jogar uma partida de futebol no final de semana) até questões existenciais profundas (a morte prematura de uma pessoa próxima). Mas, no fundo, a estrutura fundamental é a mesma: o choque entre um desejo e uma realidade imutável.
Os choques se iniciam desde nossa infância, quando nos damos conta de que as fontes de nossa satisfação estão para além do nosso controle e, portanto, o mundo não se ajusta aos nossos desejos e caprichos. Ainda bem, pois se isso acontecesse, o planeta inteiro em apuros e viveríamos a eminência do caos.
Já pensou a concretização da realização do sonho de consumo dos mais de 7 bilhões de habitantes do planeta?
Sêneca, um dos mais importantes pensadores da tradição estoica, ressaltava em seus ensinamentos que só atingimos a sabedoria plena quando aprendemos a não agravar a inflexibilidade do mundo com nossas reações, nossos ataques de raiva, autopiedade, ansiedade, amargura e hipocrisia. Para ele, suportamos melhor as frustrações quando nos preparamos e somos capazes de compreendê-las; e somos atingidos por elas quando não criamos expectativas para além daquilo que seria possível.
Para Sêneca, filosofia deve nos harmonizar com as reais dimensões da realidade, e assim nos preparar para que nossos desejos batam com maior suavidade possível contra o muro inflexível da realidade. Assim, teremos maior controle diante das frustrações e podemos ter uma vida mais feliz.
Todos temos frustrações em alguma medida e isto não constitui um problema. A frustração se torna um problema quando culpamos os outros ou o mundo pelas nossas própria frustrações. Agindo dessa forma, ao contrário de aprendermos com nossas próprias frustrações, desenvolvemos sentimento de raiva, ira, inveja, amargura, rancor, ódio e tudo aquilo que nos destrói por dentro. Por aí entendemos porque o ódio está tão em emergência em nossos dias.
As frustrações podem ser altamente educativas, pois nos ajudam a compreender nossas fragilidades, nossa ignorância, nossa finitude. A prepotência e arrogância são o lado oposto de quem não quer admitir as frustrações e as fragilidades.
Muitos se escondem atrás do dinheiro, do poder e da truculência para disfarçar o medo e a angustia das próprias frustrações. E assim vive uma vida infeliz tentando convencer que o problema “são os outros”, o governo, o país, os pobres, os bandidos, os professores, o sistema financeiro e a lista poderia ser infinita.
Aprender com as frustrações pode ser altamente pedagógico. Ajudar nossos filhos, nossos alunos, nossas crianças e jovens a conviver com as pequenas frustrações cotidianas não constitui uma fraqueza, mas uma importante fortaleza para que tenham lucidez de que o mundo não é um conto de fadas, nem um oásis onde tudo pode ser comprado com dinheiro; o mundo poderá ser um lugar melhor se soubermos construir uma sociedade fraterna, justa e solidária de humanos, apesar das possíveis frustrações.
A ideia de esclarecimento está associada diretamente a ideia de autonomia. É esclarecida e autônoma a pessoa que é capaz de tomar as própria decisões, assumir a responsabilidade de suas escolhas e não culpar os outros pelas consequências provocadas pela sua decisão. Leia mais: https://www.neipies.com/educar-para-o-esclarecimento/