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Resiliência, compromisso e amor na profissão docente

Não duvide nunca do poder de quem se move com amor, e esperança entre as ardilosas tramas de um poder que não serve.

Ao finalizar as atividades da jornada pedagógica 2022 promovida pela SEDUC/ RS precisamos estar cientes de que nossa expedição está apenas começando! Temos duzentos dias letivos pela frente, é caminhando que se faz a caminhada, a cada passo que nos aproximamos do horizonte, ele se distancia ainda mais, tendo como única intenção nos ensinar: muito mais importante que a certeza dos objetivos atingidos são os sentimentos de perseverança, entusiasmo, superação que farão parte de todo percurso.  

Professores e professoras, além de especialistas na arte de construir aprendizados são também mestres em ressignificar, são os seres mais resilientes que conheço. 

Em meio as incertezas da pandemia que começou em 2020 e trouxe muitas dificuldades para os sistemas de ensino, especialmente o público, vi colegas professores que se fizeram estudantes em tempo integral, que aprenderam a manusear ferramentas do mundo digital, vi gente inovando nas suas metodologias, se desdobrando para alcançar estudantes e suas famílias.

Um bom professor, um bom começo! https://youtu.be/2fgE2hGZbA8?list=PLsAfCJnskTUEnctFCk3O0sYvXxkN3l9yO&t=17

Pode ser que você não tenha se dado conta, mas és um ser cuja existência tem o poder de tocar outras vidas e nelas ascender perspectivas de futuro. Você sabe quantas pessoas já foram tocadas e transformadas por sua causa?

Pode ser que muitos dos estudantes que passam pela sua vida não se recordem de conteúdo específicos, fórmulas e regras podem ser esquecidas, mas o jeito como tratamos o estudante se eterniza nele, o testemunho que damos fala mais alto do que os objetos do conhecimento que trabalhamos para desenvolver habilidades.

Talvez você não perceba, mas o seu jeito de ser educador promove a dignidade, alimenta sonhos, constrói cidadãos. É nesse ambiente denominado Escola Pública que se faz a diferença nessa nação carente de justiça, de solidariedade, inclusão, humanidade.

O professor possui grandes responsabilidades, dessa profissão se desdobram consequências éticas que a sociedade experimenta no cotidiano.  Estamos cientes das agruras pelas quais passam os educadores, sabemos que não é do interesse das elites que governam essa nação valorizar o fazer docente, a defasagem salarial demostra que os investimentos na educação são intencionadamente escassos, porque uma geração esclarecida não interessa aos governantes e a sede de poder destes.

Contrariando a lógica do capital entendemos que o trabalho dos professores é de inigualável valor, não duvide nunca do poder de quem se move com amor, e esperança entre as ardilosas tramas de um poder que não serve.  

Muito se fala e se escreve sobre os professores e a escola pública, muitas críticas infundadas são feitas a esses profissionais e daqui nasce a urgência de uma educação criativa que rompa as bolhas da ignorância para semear nas mentes questionamentos que movam as buscas por novos conhecimentos.

Vivendo tempos difíceis onde a mudança bate às portas de nossas escolas convido cada um e cada uma a novamente dar testemunho de resiliência, de coragem e de amor ao fazer que toca e transforma vidas. Bons professores nunca param de aprender, então desenvolvamos ainda mais o espírito colaborativo, crítico- criativo, para com a vida ensinar respeito, cidadania, humanidade. 

Numa realidade que nos desvaloriza, viemos para protestar, para amar a humanidade que servimos, e nosso maior protesto vai consistir em um trabalho amorosamente construído. 

Eu bem sei que o amor não paga contas, mas entendo que o amor pelo fazer qualifica, valoriza e dá sentido as nossas ações.

Não sejamos professores por amor, sejamos sim, mestres na capacidade de amar, de com amor fazer deste um ano especial, marcado pelo enfrentamento dos desafios, pelo desenvolvimento de novas habilidades e, por fim, cheio do significado que sozinhos temos dificuldades para ver, mas que unidos conseguimos vislumbrar.

Siga em frente caro professor/ cara professora – viva as lições do horizonte, sentindo-se caminheiro de mãos dadas com outras esperanças, alimentando o sonho de dias melhores.  Feliz ano letivo para você que com amor encarar os desafios de cada dia.

Estou falando do valor simbólico e social de um professor; estou me referindo ao reconhecimento que qualquer profissão precisa ter para que possa ser exercida com dignidade, com paixão e com dedicação; estou alertando para o fato de que os estudos mostram que num futuro próximo não teremos mais professores para educar nossos filhos; estou propondo uma necessária reflexão sobre o cuidado que todos nós podemos e devemos ter com nossos professores se quisermos ter um educação melhor para nossos filhos e uma pátria educadora. (Altair Fávero) https://www.neipies.com/quanto-vale-um-professor/

Autor: Marciano Pereira

Edição: Alex Rosset

 

Como construir o Projeto de Vida com 12,3 milhões de jovens sem escola e sem trabalho?

A reforma não está criando uma falsa ideia de que, se fizerem tudo certo, se planejarem sua vida, se conseguirem fazer tudo o que os reformistas e a escola orientarem, eles vão prosperar e ter sucesso?

A realidade da juventude brasileira é bem mais complexa e grave. Atualmente, 12,3 milhões de jovens até 29 anos estão SEM ESCOLA e SEM TRABALHO (denominados equivocadamente de Geração NEM NEM).

Dados levantados pelo Ibge, FGV, Ipea e sistematizados pelo Idados, apontam que são quase 800 mil pessoas a mais ante o primeiro semestre de 2019 – quando o grupo representava 27,9% dos jovens até 29 anos. O problema é que desde 2012 o número está em crescimento. Naquele ano, os “nem-nem” representavam 25% da faixa etária.

Considerando que a reforma do “novo ensino médio” instituiu o Projeto de Vida como novo componente obrigatório em todas escolas de ensino médio, algumas pergunta se fazem necessárias: é possível esses jovens sem escola e sem trabalho estruturarem um Projeto de Vida no Brasil atual? A reforma não está criando uma falsa ideia de que, se fizerem tudo certo, se planejarem sua vida, se conseguirem fazer tudo o que os reformistas e a escola orientarem, eles vão prosperar e ter sucesso? No mundo real do trabalho e do mercado é simples assim?

Neste contexto, algumas outras interrogações também precisam ser feitas para pensarmos com seriedade e responsabilidade.

É possível um jovem fazer Projeto de Vida em um país que não tem projeto de nação?

Quais as políticas de Estado para as juventudes em vigência em 2022?

Qual o projeto nacional de educação e cultura para os estudantes?

Qual o projeto de formação integral e profissional, geração trabalho, renda e emprego para esse público?

Na exclusão, na pobreza, com fome e a vida em risco é possível pensar um Projeto de Vida médio e longo prazo?

Com 12,3 milhões de jovens “NEM NEM” e 13 milhões de desempregados, como projetar futuro profissional?

Qual é o Projeto do Brasil para seus 50 milhões de jovens?

A reforma do ensino médio desconsidera uma categoria fundamental: a realidade.

E mesmo ao mencionar a realidade, a toma enquanto uma parte fragmentada e não como uma totalidade, como é o caso dos novos desafios do trabalho e da formação profissional, simplificando e subordinando a educação não só ao mercado de trabalho, mas às próprias relações de trabalho.

Essa escola da reforma, segundo Debora Goulart (Unifesp), não é mais uma preparação para o trabalho, já é o próprio trabalho. Daí os eixos formativos serem “processos criativos”, empreendedorismo”, “investigação científica” e “mediação e intervenção sociocultural”, voltados para elaboração de projetos e produtos. O próprio estudante pode ser um produto mais empregável ou ser mais aceitável num mercado muito instável e precário. O sujeito transformado em mercadoria.

Na presente reforma, o Projeto Vida é um componente curricular a partir de 2022. A diretriz é ensinar os jovens a empreenderem, mesmo sem as condições adequadas para isso. Sabemos que a escola não garante a alteração das relações de trabalho. Mas vai ensinar o que é prático, útil, algo de uso imediato, aplicável na inserção precoce dos adolescentes no mercado de trabalho.

A escola vai realizar uma espécie de coach existencial.

Prestará uma ajuda que dialoga com o imediatismo da vida da maioria dos jovens. Atrair a atenção dos estudantes é o principal argumento para incluir o Plano Vida no currículo do novo ensino médio em detrimento de disciplinas como geografia, história, sociologia, artes, educação física e filosofia.

Para Cristiano Bodart, doutor em Sociologia (Usp), o Projeto de Vida não é uma disciplina, não resulta de um campo disciplinar ou área de conhecimento científico. Apresenta erros de falta de definições, de cunho teórico-metodológico, pedagógicos, de gestão de pessoas e erros de matriz curricular. Trata-se de uma temática pouco clara e sem bases epistemológicas.

Ele afirma que tal componente curricular impacta, ainda, sobre a carga horária das disciplinas. É falso que atrairá atenção dos estudantes, não foi pensado para o sucesso dos jovens pobres, desresponsabiliza o Estado com oferta da educação, cria instabilidade nos docentes e o “desemprego, a pobreza e a falta de acesso aos bens de consumo são convertidos em falta de interesse, de planos e de vontade de cada um e cada uma”.

O Plano de Vida aprofunda a irresponsabilidade do Estado e gera danos ao ensino médio.

Falar em Projeto de Vida para a juventude brasileira implica falar de processos resultantes de uma conjugação própria entre nossa herança histórica e padrões societários vigentes. São os jovens mais pobres e de periferia – a grande maioria negra – os mais atingidos pelos processos de desqualificação geradores de desigualdades sociais, discriminação e preconceitos.

Regina Novaes, especialista em estudos sobre juventudes, aponta que as “desvantagens relativas acentuadas são expressas nas relações etno-raciais e nos atributos de género, idade, local de origem ou moradia e, também, de orientação sexual. Neste sentido, a juventude é como o espelho retrovisor que reflete e revela a sociedade de desigualdades e diferenças sociais”. Esta reforma do ensino médio não assume esta condição da juventude em sua totalidade e complexidade.

Ao contrário, destaca Debora Goulart, nesta reforma os agentes privados estão autorizados a fazer política educacional como se fossem o Estado, ditando políticas públicas.

Quem fez a reforma não foi o governo brasileiro. O governo brasileiro é o Estado onde atuam o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed) e a União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), com assessoria do Instituto Itaú Unibanco. Quem elabora a reforma é o Itaú Unibanco, quem implementa são as secretarias.

Cabe lembrar que o Unibanco já havia testado o “Projeto Jovem do Futuro” no Estado do Rio Grande do Sul e Minas Gerais no passado recente. É uma reforma empresarial feita pelo Estado. E, na ponta final da reforma temos o Plano Nacional do Livro Didático (PNLD), conjunto de editoras que fazem parte desses grandes holdings educacionais e que se apropriam do orçamento público da educação. São empresas e parcerias privadas que orientam a novo ensino médio.

Para Juarez Dayrell, coordenador do Observatório da Juventude da UFMG, a identidade e a realidade precisam ser partes interligadas de um Projeto de Vida. A identidade é um fazer-se, um processo social inter-relacional e, conhecer a estrutura social e os mecanismos de inclusão e exclusão onde os jovens vivem, é necessário e imprescindível.

O direito de escolher entre vários futuros possíveis

O implica, outrossim, a possibilidade de escolher um, entre vários futuros possíveis, com os desejos e fantasias, constituindo objetivos possíveis, uma orientação e um rumo de vida. Um PV é fruto de um processo de aprendizagem, cujo maior desafio é aprender a escolher e, a escolha pressupõe condições. Nossa sociedade e nossas escolas estão preparadas para apoiar essas escolhas?

Ainda predomina em nossa sociedade e nas escolas uma representação negativa e preconceituosa sobre as juventudes. Jovens são concebidos na perspectiva da falta (imaturidade), da incompletude e da desconfiança. Apenas alunos.

Torna-se necessário revisarmos e superarmos nossas concepções e convicções sobre as diversas juventudes coexistentes entre nós. Os jovens precisam ser reconhecidos como sujeitos, para além da condição de estudantes. São sujeitos que amam, sofrem, se divertem, pensam, interpretam o mundo, possuem desejos e projetos de vida. É necessário escutá-los, considerá-los interlocutores válidos e parceiros no processo educacional.

O jovem enquanto sujeito é um ser singular, que tem uma história, que interpreta o mundo e dá-lhe sentido, assim como dá sentido à posição que ocupa nele, às suas relações com os outros, à sua própria história e à sua singularidade.

Para Dayrell, o sujeito é ativo, age no e sobre o mundo, e nessa ação se produz e, ao mesmo tempo, é produzido no conjunto das relações sociais no qual se insere. Portanto, tanto o jovem como o Projeto de Vida se fazem e se refazem no processo social e existencial. Nunca estão prontos nem programados. São seres e processos que se constituem ao longo da vida.

Pedagogia da Juventude

A escola, complementa Dayrell, precisa mudar e adotar uma “Pedagogia da Juventude” considerando processos educativos, que entendam os corpos em transformação, com afetos e sentimentos próprios. É preciso adequar os ritmos dos processos educativos; é necessário fazer da escola um espaço e um tempo de produção de ações de saberes e de relações.

Precisamos acreditar na capacidade do jovem, na sua criatividade e apostar no que ele sabe e que quer dominar. A escola precisa transformar-se em um Centro Juvenil e os professores precisam envolver-se mais e estabelecer relações dialógicas com estes sujeitos jovens estudantes.

Esta reforma do novo ensino médio e esta Base Nacional Comum Curricular (BNCC) continuam sendo fortemente questionadas pelos estudantes e educadores tanto mérito quanto pelo método, aprovados pós golpe 2016 e impostos por Medida Provisória. Há resistências.

Poderá ser adiada (os estados da Bahia e Rio Janeiro já adiaram) e mesmo poderá ser revogada. Levou cinco anos para chegar na escola, sem investimentos em condições de estudo dos estudantes (laboratórios, sem bibliotecas, acesso tecnologias, espaços culturais e de convivência/entretenimento) e, sem condições de trabalho dos professores, sem formação e sem valorização profissional.

Os problemas da (De)Reforma do Ensino Médio não se reduzem ao Projeto de Vida. Outros componentes e temas específicos que compõem itinerários esvaziam uma formação básica sólida em bases humanísticas e científicas.

Qual a saída?

Cristiano Bodart sinaliza: enquanto não é possível a revogação da reforma e a discussão/construção, com a sociedade e as entidades científicas, de um projeto educacional humanizado, ao fecharmos as portas da sala de aula é preciso questionar a meritocracia e o empreendedorismo individualista a partir dos campos científicos.

Em síntese, instrumentalizar os jovens a lerem e entenderem o mundo que vivem e como as relações de trabalho os afetam é nosso dever ético para com eles. “Resistir é preciso, fazer não é preciso”!

Esta publicação foi originalmente publicada no Jornal Extra Classe em 04/02/2022. Segue link: Como construir o Projeto de Vida com 12,3 milhões de jovens sem escola e sem trabalho? – Extra Classe

Autor: Gabriel Grabowski

Edição: Alex Rosset

Filosofia para quê?

Num mundo marcado pelo descontrole e pela irracionalidade, talvez um pouco de filosofia seja apropriado para pensarmos sobre a forma de vida que estamos vivendo e talvez concordar com Sócrates que “uma vida não examinada, não merece ser vivida”.

Tinham razão os gregos quando “inventaram a filosofia” de que o “pensar bem” se traduz em “viver bem”. Tanto um quanto o outro podem ser equivocadamente interpretados em nossos dias: muitos atribuem o “pensar bem” como sendo uma bem orquestrada estratégia para montar um grande negócio, ou encontrar uma fórmula infalível de “sair-se bem”, escolher uma prestigiada profissão, ou ainda ter encontrado “pessoas certas” para projetar-se num futuro pleno de sucesso e de uma “vida bem sucedida”.

Na mesma direção muitos levianamente confundem “viver bem” com uma vida repleta de “conforto”, dinheiro, poder, prestígio. No entanto, se tivermos um olhar que ultrapassa a “vala comum” do pensamento, nos daremos conta que no sentido grego, tanto o “pensar bem” quanto o “viver bem” não se reduz a essa simples condição material.

“Viver bem” no sentido grego pode ser interpretado como “vida boa” e não se confunde com “êxito social”.  “Vida boa” nos tempos iniciais da filosofia no solo grego significava, no dizer do importante filósofo contemporâneo Luc Ferry (2004), “empenhar-se na busca de um princípio transcendente, de uma entidade externa e superior à humanidade, que lhe permitisse apreciar o valor de uma existência singular”.

Avaliar se uma vida teria valido a pena tê-la vivido, implicava em adotar um critério sobre-humano, ou seja, algo que pudesse ser utilizado como uma espécie de balança capaz de medir a “densidade da vida”.

O termo filosofia, em nossos dias, é concebido como sendo um conceito extremamente amplo e polissêmico. Fala-se que empresa X possui tal “filosofia”; que fulano tem uma excelente “filosofia” de trabalho; que a cultura Y tem uma “filosofia” de vida formidável; que o novo gerente, ao assumir a empresa Z, implantou uma “filosofia” radical; ou de que a “filosofia” da escola W visa a tais e tais princípios.

Se observarmos todos esses conceitos, parece que “filosofia” tem a ver com uma concepção e, pois, com um “saber de direção, aquilo que alguns filósofos chamam de “filosofia espontânea”, “senso comum”, ou “concepção de mundo”.

Me proponho do decorrer na coluna quinzenal deste ano escrever e refletir sobre isso. Convido a todos os leitores a acompanharem algumas reflexões sobre essa forma espontânea de pensar a filosofia. Num mundo marcado pelo descontrole e pela irracionalidade, talvez um pouco de filosofia seja apropriado para pensarmos sobre a forma de vida que estamos vivendo e talvez concordar com Sócrates que “uma vida não examinada, não merece ser vivida”.

A filosofia se coloca, mais do que nunca, na perspectiva inter e transdisciplinar do conhecimento, principalmente na área de Ciências Humanas, como uma atitude filosófica, como uma postura crítica diante da vida e dos fenômenos, como um viés investigativo/científico e crítico da realidade social, tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio. (Nei Alberto Pies) Leia mais: https://www.neipies.com/por-que-filosofia-e-importante-na-educacao-basica/

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Edição: Alex Rosset

Os ritos na vida cotidiana

Dois desafios importantes: compreender os ritos religiosos dos quais participamos; viver de forma plena e não abandonar os ritos do nosso cotidiano que tornam mais leve e dão sentido à vida.

A vida humana é marcada por diferentes ritos e cada pessoa, desde o nascimento, participa, com maior ou menor consciência, desses momentos necessários e que dão um sentido diferenciado a sua vida. Os ritos estão disseminados no cotidiano pessoal, familiar ou comunitário. Eles vão se sucedendo desde que levanta até o repouso, no final da jornada. Desde que a pessoa nasce até o seu sono derradeiro.

As diferentes tradições religiosas também se embasam em rituais para operarem o contato com o Sagrado. No texto do Êxodo está o relato do encontro de Moisés com Javé, quando subia a montanha para dialogar com o libertador (Ex 19,3;8; 17). O povo de Deus participava a distância, mas era uma forma de ser presença no rito (Ex 19,21). Jesus também costumava se retirar para rezar. Era um rito individual (Mc 1,35; Lc 4,42; Lc 6,12) ou realizado na companhia dos discípulos (Mt 17 1-13; Mc 9, 2-13; Lc 9, 28-36), importante na vida do Filho de Deus.

Os povos tradicionais também fazem uso dos ritos nos cultos e alguns nem sempre são perceptíveis como ritos religiosos a quem não os conhece. São ritos que demarcam os momentos fundamentais na vida do grupo cultural e dão a eles a eles um caráter sagrado.

O cotidiano se reveste de sagrado.

 Uma criança quando chega à adolescência começa a passar por diferentes ritos que lhe dão as condições de adentrar no grupo dos adultos. As passagens de fase da vida é são ritualizadas e, muitas vezes, revestidas de um caráter sagrado pela importância para o grupo cultural.

A tradição cristã se embasa também em muitos ritos. Estes têm um acento maior ou menor, dependo da denominação cristã.

Na Igreja Católica, a celebração eucarística é um rito muito valioso, sustentado por outros ritos, também extremamente significativos. A boa participação requer a compreensão do rito realizado. E esta participação vai além da racionalidade. É um momento profundo de mística e espiritualidade que envolve a pessoa em sua integralidade.

Uma pessoa, quando se dispõe a assumir um serviço na sua comunidade, terá um processo de preparação para compreender a função que vai assumir. Depois de preparada vai passar por um rito que a colocará em condições de levar adiante a missão. Uma experiência muito bonita está sendo recuperada na catequese de iniciação à vida cristã. As quatro etapas da catequese são demarcadas por vários ritos que vão preparando o catecúmeno para acolher em sua vida o sacramento para o qual está sendo preparado. Tais ritos são vistos como muito importantes e exigem preparação para que se viva plenamente eles.

A boa experiência nos ritos dará ao cristão, em processo de iniciação, um novo ânimo na sua vida de fé. A vida humana no seu cotidiano também é marcada pelos ritos. Alguns têm grande importância. Outros nem tanto.

Neste verão, vê-se muitos casais, famílias, amigos que vão para as praças no final da tarde tomar chimarrão e conversar. A pandemia limitou bastante este rito, mas ele ainda acontece e por ele se cultiva o amor conjugal, o afeto familiar e a amizade.

A criança que aguarda ansiosamente o retorno dos pais do trabalho para pular no seu colo e contar o que fez. É um rito importante para aquela criança, mesmo que seus pais nem sempre percebam. Amigos de longa data costumam se encontrar eventualmente para conversar e confraternizar. Este momento, mesmo que espaçado, é necessário para fortalecer a relação de amizade.

Os ritos vão demarcando momentos importantes, seja na vida cotidiano seja nos eventos considerados sagrados. Em ambas experiências não existe a repetição, mas cada rito realizado é uma novidade, desde a sua constituição, como na sua efetivação.

De todos os ritos cotidianos, considero o mais importante sentar-se à mesa para partilhar a refeição com a família. Envolve várias dimensões: primeiro a oportunidade de ter alimento na mesa; também o valor de partilhar os alimentos com a família e amigos; compreende também o sentar-se juntos, e além de se alimentar, se conversar, fazer planos e renovar os laços familiares. Jesus fazia da mesa um momento forte de convivência e evangelização.

Dois desafios importantes: compreender os ritos religiosos dos quais participamos; viver de forma plena e não abandonar os ritos do nosso cotidiano que tornam mais leve e dão sentido à vida.

Convite para aprofundar conhecimentos:

Depois da leitura desta reflexão, liste ritos religiosos mais significativos que já fazem parte da sua vida. Liste também ritos cotidianos que você já experimentou ou experimenta, tornando sua vida mais leve e com mais sentido. Depois de listar, o convite é para dividir com seus colegas de turma na escola ou com seu grupo de jovens ou de conversas. Apostamos que você se surpreenderá com a quantidade de ritos e com a importância dos mesmos na vida de todos nós.

Autor: Pe. Ari Antônio dos Reis

Edição: Alex Rosset

2022: não percamos a fé, a esperança e o amor ao magistério

Vamos, dentro do possível, transformar a sala dos professores – de um muro de lamentações e críticas contra governos – em local onde reine a certeza de que estamos colaborando para grandes transformações.

A escola representa, na comunidade onde está inserida, um templo de luz e sabedoria que reúne, em seu corpo docente, pessoas portadoras de conhecimentos libertadores que podem ajudar a vencer a mais humilhante escravidão, representada pela ignorância. Elas trazem, em suas mãos, archotes de luz que vão iluminar as mentes dos alunos, mostrando-lhes o verdadeiro sentido da vida para lhes nortear os caminhos a serem percorridos a partir dos bancos escolares.

O projeto político pedagógico da escola precisa ir além da proposta obrigatória, prevista pela legislação oficial, e adentrar numa visão mais ampla de iluminação das mentes discentes.

Um desafio deve estar presente no planejamento coletivo desse projeto: qual a utilidade prática, para a vida cotidiana do aluno, que o conhecimento adquirido nas diversas áreas e disciplinas do currículo vai ajudá-lo a ser uma pessoa equilibrada, fraterna, solidária, útil para si e para os que a rodeiam e que possa ajudá-lo a construir uma vida que valha a pena ser vivida e que lhe traga felicidade?

O professor, ao construir seu projeto pedagógico, precisa refletir como o aluno vai enfrentar, reagir e se libertar das influências que a classe dominante lhe impõe, com mensagens como “o agro é pop, o agro é tudo” e outras afirmações que o fazem agir sem refletir.

Será que o aluno terá condições de se rebelar, de não se deixar levar pela ilusão da propaganda? Vai saber das consequências nefastas da produção de monoculturas com agrotóxicos em excesso, agressões ao meio ambiente? Vai procurar caminhar na direção contrária, com respeito à natureza como obra divina e buscar outras alternativas mais salutares?

A escola precisa tornar-se um local acolhedor, com dependências limpas e agradáveis.

A parte externa precisa ser ajardinada, cuidada, arborizada e isso poderá ser feito com a colaboração de toda a comunidade escolar. Atividades de manutenção do pátio, canteiros de flores, horta com hortaliças, que devem fazer parte da merenda escolar, podem ser desenvolvidas pelos alunos, com a supervisão dos professores.

Sempre propomos que haja uma parceria entre as Secretarias de Educação e de Meio ambiente dos municípios para que os alunos entendam a importância da prevenção e conservação ambiental, dentro de uma visão multidisciplinar.

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas pelos educadores, emocionais, financeiras e sociais precisamos levantar a cabeça, respirar fundo e olhar para o futuro. 

Somos os construtores de um futuro melhor, somos formadores de opinião e mesmo com imenso sacrifício pessoal não podemos abrir mão do grande valor que temos na formação da geração de alunos que passam por nossas mãos. A História vai reconhecer nosso valor. Não desanimemos! Precisamos vencer, com galhardia, esse momento atual e mostrar a importância de nosso trabalho na preparação de um mundo melhor.

Vamos, dentro do possível, transformar a sala dos professores – de um muro de lamentações e críticas contra governos – em local onde reine a certeza de que estamos colaborando para grandes transformações. Não percamos a fé, a esperança e o amor ao magistério, aprimorando nossos conhecimentos cada vez mais.

Neste ano de 2022 façamos dele a entrada para uma nova era na Educação, criando meios e projetos que favoreçam o crescimento efetivo de nossos alunos.

Autora: Gladis Pedersen de Oliveira

Edição: Alex Rosset

Mulheres, não esperem príncipes encantados

Só quero que você, mulher, pare de se iludir à espera do príncipe encantado porque ele não existe. É uma criatura inventada pelas nossas tias e avós há muitos anos quando essas não tinham outra coisa para fazer senão costurar as meias dos maridos.

Desde menininha, ainda buchuda e com chupeta na boca, querem nos dar príncipes encantados dizendo-nos que o amiguinho ou priminho combina conosco. Caímos nessa ilusão de que devemos crescer, casar e ter muitos filhos além de cuidar da casa e do marido preguiçoso, na maioria das vezes. Muitas de nós sequer têm tempo para namorar e acabam se casando com o primeiro que aparece. Ainda nos ocorre o medo de ficar no caritó, nos assustamos quando a irmã mais nova se casa ou engravida e nós continuamos à procura do nosso príncipe.

Quero fazer um pedido às mulheres que gostam de me ler: não esperem príncipes encantados.

Homens brancos, de olhos azuis, héteros e ricos não querem saber de casamento e muito menos de jurar amor fiel a apenas uma mulher. Eles são machistas vaidosos que só pensam em si próprios. Cultuam a beleza do corpo, se tatuam, usam maquiagem e têm a cabeça oca em relação as mulheres. Quando encontram uma mulher com mais dinheiro do que eles, logo são tomados pela inveja e arrogantes nas suas belezas físicas enganam as mulheres com as mais antigas cantadas de amor no intuito de tão somente tirarem o dinheiro delas. Acreditem em mim: homens não prestam e ainda mais se forem chorões. Só querem nos enganar.

Muitas mulheres cinquentonas reclamam de nunca terem encontrado seus príncipes encantados, têm um bom emprego, uma boa casa e amigas verdadeiras. Mas continuam a reclamar e esperar pelo tal príncipe. De tanto buscá-lo nas redes sociais acabam caindo em golpes e o príncipe torna-se num tormento se aproveitando e fazendo uso de toda a riqueza que a mulher construiu ao longo da sua vida. Isso quando não aparece uma falsa amiga para fazer par com o Dom Juan de mentirinha.

Precisamos estar atentas as ciladas do mundo globalizado. Os gringos podem ser homens lindos, mas não deixam de ser iguais aos outros, ou seja, preocupados com os seus umbigos. Os homens querem mulheres para cuidarem deles e só isso. Eles levam a vida inteira procurando uma mulher que substitua a sua mãe. Eles não são bonzinhos. E muito menos românticos. Tudo o que fazem tem um objetivo, algo em vista, uma necessidade.

Muitas mulheres se veem obrigadas a cuidarem dos seus maridos a vida inteira quando ficam acamados, deixando de viver as suas vidas para se dedicarem exclusivamente ao coitadinho. Será que ele faria o mesmo por você? Sem contar que a maioria dos homens são ingratos conosco. Nossa, gente, isso é horrível para a nossa autoestima e bem-estar.

Tantas de nós nos casamos com homens financeiramente mais pobres e os ajudamos a crescer profissionalmente, ensinando-lhes etiquetas, levando-os a reuniões de trabalho e lhes dando o melhor de nós.

Esses quando alcançam uma posição melhor na vida nos dão um grande chute na bunda nos trocando por uma mulher mais jovem e mais bonita que não pode imaginar será a próxima vítima, sim, porque os homens nunca param de fabricar armadilhas para nós. Eles acham pouco armar a armadilha, preferem fabricá-las dos seus jeitos e são muitas hoje em dia, cada uma mais sutil do que a outra nos aprisionando dentro das suas cavernas cheias de romantismo, mas sem portas e janelas para que vejamos a luz das nossas próprias ideias. Sim, porque uma mulher não pode pensar por si própria, todas as decisões partem do companheiro.

Essa coisa de príncipe encantado só existe nos contos de fadas de antigamente, nem nas histórias realistas eles existem mais.

Somos iludidas com falsas promessas por aqueles que juram nos amar até que a morte nos separe quando na verdade na primeira oportunidade nos traem com a nossa melhor amiga ou gastam todo o nosso dinheiro com bebidas e festas.

Este meu recado não vai apenas para as jovens mulheres que estão eufóricas na esperança de que seus companheiros lhes mandem flores ou façam um jantar romântico para elas no dia dos seus aniversários, mas para todas as mulheres que ainda vivem a ilusão de que só serão felizes se tiverem um homem ao seu lado, tolice, besteira, coisa de quem é insegura. A felicidade só depende de você.

Vejo muitas amigas reclamando nas redes sociais porque estão solteiras e outras todas felizes postando fotos dos seus momentos com o marmanjo do lado dizendo ser ele o motivo de tal felicidade. Não sei se há mulheres bobas demais ou se nos permitimos ser bobas, porque confiar a nossa felicidade num macho escroto que está ao nosso lado só porque podemos oferecer-lhe algo talvez seja de uma pequenez para as nossas almas que só nós sabemos quando deitamos a cabeça no travesseiro e vamos pensar em tudo o que nos aconteceu ao longo do dia.

Muitas mulheres levam anos para descobrir que foram o tempo inteiro usadas pelos seus machos, outras felizmente descobrem cedo demais e dizem que se desencantaram. Eu não vejo bem como desencanto, e sim como uma visão da realidade que só quem é capaz de identificar um homem machista e mesquinho pode descobrir quão mal ele pode fazer-lhe se continuar a relação de dependência, sim porque algumas mulheres adoram ser dependentes.

Tem mulher que acha bonito o marido trabalhar e ela ficar cuidando da casa e dos filhos, outras acham bonito quando ela paga o jantar e ainda têm aquelas que gostam de receber de presentes panos de pratos e toalhas de mesas. Cada uma com seu gosto, não vou entrar aqui nesse mérito. Só quero que você, mulher, pare de se iludir à espera do príncipe encantado porque ele não existe. É uma criatura inventada pelas nossas tias e avós há muitos anos quando essas não tinham outra coisa para fazer senão costurar as meias dos maridos.

Estamos em pleno século vinte e um e precisamos cuidar tão somente de nós. Não permitam que nenhum homem entre nas suas vidas prometendo céus e terra porque o que eles mais querem de nós é um lugar onde se apoiar quando chegar a velhice. Sim, os homens morrem de medo da velhice.

Conheço uma senhora que foi largada pelo marido durante vinte anos e depois de todo esse tempo ele voltou para dentro de casa sem dar explicações, sem dizer o motivo do seu desaparecimento por vinte longos anos. Eles acham que estaremos sempre esperando por eles, e o pior é que algumas de nós ficaremos de verdade à espera de que voltem para casa. Há mulheres que quando os maridos as trocam por outras nunca mais se abrem para outros homens na esperança de que um dia os maridos se arrependam e voltem para casa. É um absurdo o quanto nos deixamos iludir por esses machos que só sabem nos roubar de nós próprias.

Acredite que o tal príncipe encantado pode vir vestido em seda ou sujo de lama, mas será sempre o mesmo homem bruto e dono de si pronto para questionar-lhe ao primeiro sinal de independência.

Os homens têm medo de mulheres que fazem as coisas sem os consultarem, que cortam os cabelos, compram roupas, trocam de carros ou engravidam sem combinar com eles. Como se o nosso dinheiro, corpo e alma fossem seus escravos. A maioria dos homens são uns babacas diante das mulheres trabalhadoras e que se esforçam para manter a casa e a família enquanto eles assistem o futebol na televisão comprada por elas, com as pernas abertas e gritando pra lá e pra cá. É assim, mas pode mudar, mulheres.

Autora: Rosângela Trajano

O bom e o importante

De nada adiantará se cada um/a não organizar sua escala de valores com base nos princípios éticos, humanitários e solidários. O importante é que o “bem” e o “bom” tenham sempre como foco principal o coletivo!

Dia desses conversei com uma pessoa sábia, que me falou coisas importantes. E percebi que o que é importante para uns pode não o ser para outros. Depende muito da visão de mundo, de sociedade, de ser humano, de princípios, de meios e de fins de cada um/a.

De todo modo, para efeitos de viabilizar a vida coletiva, definem-se padrões de pensamento, de comportamento social e de conduta ética. Não obstante, subsiste a pluridiversidade de pensar, de viver e de ser. Uma parcela da sociedade vê isso como riqueza; outra parte, como problema.

Entre as coisas que julguei importantes na conversa com a referida pessoa, está o desejo de mudar o mundo. Na verdade, a pretensão é muito audaciosa. Em primeiro lugar caberia identificar o que seria necessário mudar. Em segundo, o que seria mais importante. Em terceiro lugar, o que seria possível. Em quarto, por quê fazê-lo. Em quinto, quem o faria. Em sexto, quais as dificuldades a serem enfrentadas nessa missão. Em sétimo (para não ir ao infinito com as questões), com que meios, recursos e estratégias mudar aquilo que se julga mais importante, possível e urgente.

No meio da aludida e rara pretensão, emergem outras, com as quais a maioria das pessoas parece se ater. Entre elas, a preocupação de só mudar ou manter o ambiente à sua volta; mudar ou manter a sua própria condição social; mudar ou manter seus próprios interesses. A manutenção ou a mudança de atitudes e de padrões de conduta sempre estão assentadas em princípios e valores, tais como o bom e/ou o importante.

Não só desejar o bem estar individual, mas querer transformar a realidade para garantir o bem viver coletivo é uma questão de ética humanista.

Já faz tempo, o jornalista norte-americano Walter Winchell afirmou: “O bom não é ser importante, o importante é ser bom”. De novo prorrompe um conjunto de indagações: o que é ser importante? O que é ser bom? Por que ser ou deixar de ser importante? Por que alguns parecem importantes, mas não são bons? Por que outros até dizem ser bons e pessoas de bem, mas, na prática, utilizam armas de todas as espécies para agredir, violentar e destruir os outros? Acerca do tema, o beato José Allamano nos legou essa máxima: “Fazer o bem, bem feito, nas coisas simples de todo dia, com constância e sem barulho”.

O desejo de mudar o mundo é extremamente necessário, indispensável e salutar. Isso não isenta a necessidade de, muitas vezes, ter de mudar-se a si mesmo, empenhar-se na mudança de aspectos no âmbito familiar ou do pequeno grupo e comunidade. Porém, não é suficiente olhar só o ponto pequeno, conquanto vislumbrar o cenário abrangente.

Ao olharmos para o horizonte, vemos que o mundo é maior que nossas circunstâncias e circunferências.

De acordo com o escritor uruguaio Eduardo Galeano, é preciso alimentar a utopia: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar” (Las Palavras Andantes).

Entre as questões que [ainda] considero (u)tópicas está a construção de uma sociedade justa e solidária. Para tanto é de suma importância superar a indiferença diante da produção coletiva da morte e da exclusão em massa dos pobres. É igualmente importante fortalecer a posição crítica ante os mecanismos de dominação do sistema de mercado total. Urgente assumir com coragem atitudes propositivas de enfrentamento à cultura da mentira, do ódio e do falseamento da realidade que se generalizaram e se naturalizaram na sociedade.

Mais do que nunca, são essenciais e inadiáveis, em todos os níveis, ações concretas para evitar o caos socioambiental e tentar “adiar o fim do mundo” (Ailton Krenak).

Essas questões dependem, sim, de eficientes e qualificados processos de educação, bem como de políticas públicas que lhes garantam suporte.

De nada adiantará se cada um/a não organizar sua escala de valores com base nos princípios éticos, humanitários e solidários. O importante é que o “bem” e o “bom” tenham sempre como foco principal o coletivo!

Autor: Dirceu Benincá

Edição: Alex Rosset

Saberes da educação sob a ótica de professores e professoras

Enquanto educadores e educadoras se abstiverem de falar e registrar seus conhecimentos, suas percepções e suas práticas educativas, mais abrirão espaço para que quaisquer outros profissionais digam o que deve ser feito na educação.

Em dezembro de 2014, têm início o site www.neipies.com cujo objetivo principal é constituir-se numa referência de publicações autorais, construídas por sujeitos que se agregam para pensar o processo de humanização através dos conhecimentos críticos e colaborativos. A humanização, aqui, é entendida como um processo pelo qual nos tornamos melhores seres humanos através destes conhecimentos. Igualmente em 2014 foi o ano em que publicamos o livro “Conviver, educar e participar nos palcos da vida” pela Editora Ifibe de Passo Fundo.

A iniciativa da criação do site foi incentivada por amigos e amigas que lêem, escrevem e gostam de literatura é hoje, também, marcada por certo ineditismo entre professores e professoras da educação básica. Pretende-se falar e pensar de professor para professor, numa lógica de trocas e reciprocidades, num constante aprender-refletindo. Almeja-se, ainda, fortalecer convicção de que mudanças na educação, sobretudo mudanças de práticas docentes, também ocorrem quando educadores e educadoras fazem o exercício de reflexão de suas práticas cotidianas. Sistematizar práticas docentes é uma forma eficiente e prática de apropriar-se de novas posturas e compreensões acerca do nosso fazer pedagógico.

O público que se deseja atingir com esta plataforma digital são profissionais da educação, estudantes, lideranças sociais e quaisquer interessados nas temáticas Educação, Cidadania e Espiritualidade.

Os convidados/as do site são, quase sempre e preferencialmente, profissionais da educação que vivem a realidade cotidiana nas escolas.

Acesse aqui: https://www.neipies.com/autores_convidados/

Destacamos a importância dos profissionais da educação encontrarem o seu lugar de fala, terem a possibilidade de escrever e refletir sobre os desafios educacionais. Na medida em que estes escreverem sobre a realidade educacional, mais a educação será valorizada e haverá maior protagonismo por parte daqueles que são fundamentais na educação. Enquanto educadores e educadoras se abstiverem de falar e registrar seus conhecimentos, suas percepções e suas práticas educativas, mais abrirão espaço para que quaisquer outros profissionais digam o que deve ser feito na educação.

O site aborda, principalmente, temas relacionados à educação, cidadania e espiritualidade. As abordagens são diversificadas, tanto na forma como no conteúdo; buscam reforçar a importância do espírito científico, do diálogo, da democracia e das diversidades humanas. Como não há temáticas pré-definidas, os temas escritos, problematizados e publicados emergem dos contextos e das realidades em que os convidados/as estão envolvidos/as. Por vezes, as temáticas também surgem de conversas, trocas ou iniciativa do Editor do site.

A organização dos conteúdos e sua publicação ocorrem no formato de crônicas publicadas pelos convidados/as em suas colunas, no formato de entrevistas dirigidas a pessoas dos temas preferenciais do site e na edição de pequenos vídeos, publicados no Youtube e divulgados no site.  As publicações são, também, organizadas e divididas, quando é o caso, em 04 Seções: Protagonistas da Educação, Reflexões e Atividades, Entrevistas e Excertos.

Confira aí: https://www.neipies.com/secoes-especiais/

Com o advento da pandemia, a partir de 2020, criamos a Seção Reflexões e Atividades, com objetivo de editar reflexões e textos com sugestões de práticas pedagógicas em cada uma delas, com a participação de professores das áreas do conhecimento que já aplicaram esta atividade em suas aulas, caso isso fosse possível ou apenas idealizado em um outro momento. Priorizamos os Componentes Curriculares Ensino Religioso e Filosofia, justamente por terem poucos subsídios pedagógicos para orientação de suas aulas, de muitos professores e professoras sem formação específica.

Acesse aqui: https://www.neipies.com/reflexoes-e-atividades/

Os Convidados/as escrevem e publicam conforme os seus ritmos, o seu engajamento com a escrita, a necessidade de problematização de temáticas, a sua motivação para comunicar. Desta forma, ocorre um grau diferenciado de envolvimento e participação dos Convidados/as.

Depois de recebidas, as reflexões dos Convidados passam pela análise e correção do editor e de revisores, respeitando as peculiaridades da escrita e respeito à autoria. Já participaram deste processo Diego Ecker e Elias Foschesatto. Atualmente, Alexsandro Rosset participa na edição, revisão e correção dos textos.

O site www.neipies.com já contou e conta atualmente com a colaboração de 75 pessoas Convidados/as. Edita semanalmente, aos finais de semana, de 04 a 06 publicações, 20 a 24 publicações mensais. O alcance médio das publicações é de 500 acessos, sem quaisquer “impulsionamentos” no Google ou em redes sociais. Já foram editadas mais de 1100 publicações. O número global de cliques/acessos já somam mais de 530 mil, sendo quase 200 mil cliques somente em 2021.

Gráfico de Evolução dos acessos:

A maior parte das leituras e acessos ocorre por divulgação em grupos nas diferentes redes sociais, pela newsletter da página e por leitores e leitoras que de forma orgânica ou permanente acessam o site.

Embora carregue o nome do seu idealizador, o site sempre congregou pessoas e ideias à serviço da humanização, através da disseminação dos conhecimentos críticos e colaborativos. Na medida em que passam os anos, renova-se para potencializar maior alcance e maior repercussão entre interessados no seu propósito fundante.

Nei Alberto Pies, Editor do site

Resistência: uma forma de viver

As humanidades ainda se impõem, apesar do sutil e sofisticado patrulhamento ideológico. A ideologização funciona porque a sociedade, as famílias e as escolas estamos deixando de estimular e incentivar pensantes mentes brilhantes.

Vivemos tempos onde ocorrem sucessivas avalanches políticas e sociais, eventos que destroem, sem pudor e sem piedade, tudo o que dignifica as humanidades e o que promove humanização. Por isso, urge que sejamos Resistência, sempre e em todo lugar, em toda e qualquer circunstância em que seja possível afirmar a dignidade, a criatividade e a liberdade humanas.

O sistema, o mundo, tenta destituir, ao máximo, a ideia de que todos somos Sujeitos. Sujeitos são aqueles que promovem ou organizam a sua ação. Por mais que os ambientes e contextos sejam hostis, carregados de arrogância, uivados de medos e de repressão, os sujeitos se insurgem, se impõem, mesmo que não apareçam, imediatamente, seus protagonismos. Os sujeitos agem, mesmo à margem dos caminhos traçados. Trata-se de uma teimosa e corajosa resiliência, que estes alimentam para não sucumbir e não morrer, a partir da negação da dignidade, liberdade, criatividade e criticidade.

Uma das estratégias mais bem elaborada que se vê por aí é transformar os sujeitos em manada, em bando, em seguidores, em meros reprodutores de informação. Nada de pensar, de organizar, de questionar, de perguntar.

Sujeitos precisam, então, ser evitados ou controlados, mas sem antes passarem pelo crivo do alijamento, anulação e desprezo.

Estes tais sujeitos não morrem, quando deveriam assumir condição de serem apenas consumidores, sem perturbar ou incomodar ninguém. Quem pensa mais, compra menos.

Sujeitos se tornam fortes e mais perigosos quando organizados, quando somam-se em diferentes lutas e causas, quando se juntam a outros para demonstrar o poder e a capacidade que têm as suas ideias. Mais do que nunca, as sucessivas avalanches sociais e culturais destituíram e deslegitimaram todas as formas de organização social.

Muita coisa é mera retórica, longe do necessário protagonismo que todo ser humano deveria exercer em sua existência. Agora se fala em protagonismo, autonomia, liberdade de escolhas, novos tempos, projetos de vida, futuro de aprendiz, flexibilização, reestruturação, aprendizagem significativas, metodologias que ativam, sujeitos aprendentes, …

Nada, ou muito pouco do que se anuncia por aí, tem essência libertadora. Tudo é muito manipulado, maquiado, pré-estabelecido.

As humanidades ainda se impõem, apesar do sutil e sofisticado patrulhamento ideológico. A ideologização funciona porque a sociedade, as famílias e as escolas estamos deixando de estimular e incentivar pensantes mentes brilhantes.

Por que resistem, os sujeitos têm sua existência sempre questionada. E são severamente temidos e combatidos.  Apesar de tudo, entretanto, muitos sujeitos agem nas sutilezas e brechas do sistema.

Até quando existirão sujeitos? Até quando os mais sensatos, sábios e destemidos lutarem por eles. Até quando eles próprios não cansarem de resistir e lutar pela sua existência.

Sabem em quem estou pensando agora? Estou pensando em mim, em ti, em muitos e muitas de nós que ainda alimentam sua centelhas de esperança numa humanidade livre, liberta e transformadora a partir da valorização dos diferentes protagonismos. Estou pensando que os sujeitos necessitam, por demais, de um encorajamento, de uma sacudida, de um terremoto ou de um tsunami que os acorde da dormência e do cansaço das recentes lutas.

O apelo “ninguém solte a mão de ninguém”, faz-se necessário entre os que acreditam no empoderamento dos sujeitos como mola propulsora das transformações sociais necessárias para o enfrentamento dos desafios do nosso tempo histórico.

O sistema é cruel e a resistência tornou-se uma nova forma de viver. Quem viver, verá!

DICAS DE APROFUNDAMENTO:

Um amigo, ao fazer leitura desta reflexão, sugeriu indicações de autores que poderiam ampliar o entendimento sobre a importância de sermos sujeitos. Vejam o que ele escreveu: Roland Barthes se encaixa no teu texto. Edgar Morin, Canguilhem, Bauman de A arte da vida… Paulo Freire, de Pedagogia da Solidariedade… Ulrich Beck, também pode ser visitado.

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alex Rosset

O valor da água para as nossas vidas

O Governador do estado quer privatizar, entregar para os interesses do mercado, a gestão e o fornecimento da água. A maioria dos deputados atenderam e foram coniventes com os compromissos do governador, com os interesses especulativos de acúmulo financeiro ilimitados do mercado. 

A água é considerada um bem natural e um direito humano básico, devendo ser acessível para todas as pessoas. Costumamos perceber a importância da água quando ela falta. Mas os gestores, os políticos e as lideranças sociais têm o dever de planejar e fazer a gestão para que todos tenham acesso a este bem tão precioso.

Em sintonia com esse conteúdo, sugiro o conteúdo do link:

O fornecimento, o tratamento e a distribuição da água para 417 dos 497 municípios gaúchos é feito por uma empresa pública que é a Corsan. Em 2021, o Governador conseguiu retirar da Constituição Estadual o artigo que exigia o plebiscito para privatizar e vender empresas públicas.

A propósito, você lembra em qual candidato de deputado estadual você votou? Você sabe como ele votou no projeto que liberou o governador de ouvir a população antes de entregar nossas reservas de água para os interesses do mercado?

O Governador do estado quer privatizar, entregar para os interesses do mercado, a gestão e o fornecimento da água. A maioria dos deputados atenderam e foram coniventes com os compromissos do governador, com os interesses especulativos de acúmulo financeiro ilimitados do mercado.  Alguns prefeitos, como é o caso do prefeito de Santa Maria e de Passo Fundo, já assinaram um aditivo concordando com a privatização. O município de Passo Fundo tinha um dos melhores contratos do estado com a Corsan.

O prefeito de Passo Fundo assinou a alteração do atual contrato entre o Município e a Corsan, sem ouvir a Câmara de Vereadores, divulgando um significativo valor será investido no município durante os próximos, mas no contrato atual o município já recebe um valor aproximado de dez milhões anuais. 

Sabemos que a Corsan realizou uma obra que viabilizou uma grande reserva de água, assegurando o fornecimento em nosso município. Mas como serão os compromissos com o saneamento básico e com o valor das tarifas caso a Corsan seja entregue para o mercado?

Nós cidadãos informados, as lideranças sociais e, especialmente os vereadores, temos o dever de saber como será, a política de preços, os compromissos com o saneamento básico. O que se vê, pelos valores ofertados aos municípios pelo governador do estado, é que o compromisso é entregar o patrimônio público ao capital privado e não a universalização do saneamento. Foram ofertados valores equivalentes a 50% dos custos das obras de universalização do saneamento, para comprar a assinatura do aditivo de 74 municípios.

Juntos podemos construir uma sociedade justa, solidária e humana.  Eu acredito!

Quer saber mais sobre este e outros conteúdos, que apontam caminhos para a evolução humana, acesse nosso canal do youtube: https://www.youtube.com/channel/UCMQoomGetU04CXmolQjkjvA/videos

Autor: Israel Kujawa

Edição: Alex Rosset

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