Mas qual o sentido do Natal? Em que aspecto o Natal poderia ter um sentido formativo? No que o Natal se transformou? O que significa fazer a Pedagogia do Natal?
A proximidade do Natal sempre é acompanhada de boas recordações, principalmente da minha infância. Natal era carregado de uma magia, de uma expectativa vibrante, de uma espera ansiosa para a inesquecível noite. Não por causa dos presentes ou das festas, mas pela simbologia da espera. Natal não era associado a Papai Noel, mas ao nascimento de Jesus.
Até os 7 a 8 anos, acreditava profundamente que o presente não era comprado por meus pais nas lojas, mas vinha diretamente do Menino Jesus. Lembro que o presépio era preparado com carinho, com barba de bode, pinheirinho com decorações simples, reis magos, Nossa Senhora e São José, os pastores, ovelhas, a vaca, o jumento, a manjedoura.
O cenário para que o Menino Jesus viesse trazer os presentes de Natal. Eram tempos difíceis, em que a energia elétrica nem tinha chegado no interior de minha cidade natal de Vila Maria/Marau, mas mesmo à luz de vela, o Natal era mágico, encantador, espiritual, simbolicamente significativo. O religioso era preponderante em relação ao comercial; a pureza de coração era mais vibrante que a artificialidade das compras; o nascimento de Jesus na manjedoura de Belém ganhava mais destaque que os enfeites coloridos de luzes que gastam energia para além do necessário; a ostentação era mais tímida que as formas agressivas dos dias atuais.
A mecanização agrícola não tinha chegado na região, o trabalho era duro, intenso, interminável. Numa véspera de Natal, se não me engano em 1976 (na época com 8 anos), trabalhei (talvez hoje seria considerado trabalho infantil?) com meus pais e meus irmãos num sol escaldante na lavoura, capinando no meio do milho até o cair da tarde. Mas tudo aquilo não era sofrido, pois sabia que à noite iríamos para a cidade de Marau assistir a encenação de Natal apresentado em frente à Igreja; e ao chegar em casa o Menino Jesus já havia deixado os presentes na árvore de Natal.
Presentes simples, uma cestinha com alguns doces e um brinquedo. Mas para mim era a alegria de receber um presente do próprio Menino Jesus. Havia algo de simbólico, de sagrado neste acontecimento e na minha infantilidade acreditava que o Natal era o acontecimento mais bonito do planeta.
O Natal certamente continua sendo uma das festas mais tradicionais do planeta. No mundo todo o Natal continua sendo aguardado com elevada dose de expectativa, entusiasmo e emoção por todas as idades. Os preparativos começam no final de novembro, se intensificam no mês de dezembro e tem seu ponto culminante na Noite de 24 de dezembro. Presentes, ceia de Natal, decorações, luzes, árvore natalina, Papai Noel, anúncios comerciais de todos os tipos e formas, são alguns dos sinais que o Natal está se aproximando.
Mas qual o sentido do Natal? Em que aspecto o Natal poderia ter um sentido formativo? No que o Natal se transformou? O que significa fazer a Pedagogia do Natal?
Às vezes me dá a impressão que a grandiosidade do “natal comercial” está realizando uma metamorfose estranha em que mais se torna menos: mais presentes e menos autenticidade; mais luzes e menos fé; mais comida e menos espiritualidade; mais ostentação e menos solidariedade; mais riqueza e menos amor; mais economia e menos humanidade; mais superficialidade e menos profundidade.
Talvez precisamos educar as novas gerações para que possam compreender o sentido do Natal que está a quilômetros de distância da forma como foi transformado pelos interesses mercantilistas do “natal comercial”.
Talvez seja urgente e necessário ajudar nossas crianças a entender que o nascimento de Jesus numa gruta/manjedoura não é um simples folclore popular, mas um ato simbólico de que o NATAL (com letra Maúscula) não se materializa na ostentação, mas na simplicidade, na renovação das nossas crenças, na superação dos preconceitos, no dar-se conta que somos seres finitos, limitados e de que dinheiro e poder não podem e não são as razões principais para viver. E assim, talvez possamos viver um FELIZ NATAL.
Estas histórias instigam as crianças no desenvolvimento de suas potencialidades anímicas, buscam extrair as tendências positivas, inatas no espírito humano, ao que é bom, belo e verdadeiro e que precisam ser despertadas. Estas boas histórias têm o poder de falar, em profundo silêncio, ao espírito da criança, educando as dimensões morais, emocionais e espirituais de sua inteligência.
A OLSEN EDITORA sente-se honrada em participar do lançamento desta obra, fruto do trabalho das autoras Donatela Dourado Ramos e de Maria Isabel Bolson Arruda, sob supervisão editorial de Gladis Pedersen de Oliveira, no dia 19 de dezembro de 2021, Na S.B.E. Bezerra de Menezes, em Porto Alegre. A programação festiva encerrou com momento artístico e seção de autógrafos.
É um livro que também pode ser utilizado em escolas ou na família, onde as autoras apresentam as Bem-aventuranças de Jesus às crianças.
Para contornar a natural dificuldade de tratar de um tema de tamanha profundidade, dirigido a esse público, são apresentadas pequenas histórias originais ou adaptadas e casos baseados em fatos.
Após cada história, são trazidas explicações que podem servir de subsídios a pais, avós, tios e educadores para abordar o assunto com as crianças.
Jesus foi o maior contador de histórias que o mundo já conheceu. Procurava sempre usar de linguagem apropriada ao seu público e de imagens conhecidas. Ele dava exemplos concretos e transmitia sua mensagem a partir dos conhecimentos, hábitos e costumes das pessoas que o ouviam, na época em que esteve entre nós. Sabia que para muitas lições precisaria usar símbolos, parábolas, para ser melhor entendido.
Estas histórias instigam as crianças no desenvolvimento de suas potencialidades anímicas, buscam extrair as tendências positivas, inatas no espírito humano, ao que é bom, belo e verdadeiro e que precisam ser despertadas. Estas boas histórias têm o poder de falar, em profundo silêncio, ao espírito da criança, educando as dimensões morais, emocionais e espirituais de sua inteligência.
Para ilustrarmos o valor do trabalho, colocamos a história “Um pedido de desculpas”, do capítulo 3 da referida obra (Bem-aventurados os mansos porque possuirão a Terra):
Quando o menino Marcos chegou em casa com o bilhete da professora, informando que ele havia batido em uma coleguinha, sua mãe ficou muito desapontada, pois seu filho nunca tinha feito isso antes.
– Como isso tinha acontecido? – pensava a mãe, enquanto Marcos tentava explicar, sem sucesso!
– Meu filho! Vou te contar uma história que aprendi na Escolinha de Evangelização, quando pequena:
Certa vez, dois irmãos que moravam em fazendas vizinhas, separadas apenas por um riacho, entraram, pela primeira vez, em conflito. O que começou com um pequeno mal-entendido, finalmente explodiu numa troca de palavras ríspidas, seguidas por semanas de total silêncio.
Numa manhã, o irmão mais velho ouviu baterem à sua porta. Ao abri-la, notou um homem com uma caixa de ferramentas de carpinteiro em sua mão, que lhe disse:
– Estou procurando por trabalho. Posso ajudá-lo?
– Sim! disse o fazendeiro. Claro que tenho trabalho para você. Veja aquela fazenda além do riacho. É de meu vizinho, na realidade, do meu irmão mais novo. Brigamos e não posso mais suportá-lo. – Vê aquela pilha de madeira perto do celeiro? Quero que você me construa uma cerca bem alta ao longo do rio para que eu não precise mais vê-lo.
– Acho que entendo a situação, disse o carpinteiro. Mostre-me onde estão o martelo e os pregos que, certamente, farei um trabalho que lhe deixará satisfeito.
Como precisava ir à cidade, o irmão mais velho ajudou o carpinteiro a encontrar o material e partiu.
O homem trabalhou arduamente durante todo aquele dia, medindo, cortando e pregando. Já anoitecia quando terminou sua obra, ao mesmo tempo que o fazendeiro retornava. Porém, seus olhos não podiam acreditar no que viam. Não havia qualquer cerca! Em seu lugar estava uma ponte que ligava um lado do riacho ao outro.
Era realmente um belo trabalho, mas, enfurecido, exclamou:
– Você é muito insolente em construir esta ponte após tudo que lhe contei!!!
No entanto, as surpresas não haviam terminado. Ao erguer seus olhos para a ponte, mais uma vez, viu seu irmão aproximando-se da outra margem.
Cada um dos irmãos permaneceu imóvel de seu lado do rio, quando, num só impulso, correram um na direção do outro abraçando-se e chorando no meio da ponte. Emocionados, viram o carpinteiro arrumando as ferramentas e partindo.
– Não, espere! – disse o mais velho. Fique conosco mais alguns dias, tenho muitos outros projetos para você.
O carpinteiro então lhe respondeu:
– Adoraria ficar, mas, tenho muitas outras pontes para construir.
– Que legal esta história mãe!
– Que bom que gostaste, filho! Vê a lição aprendida pelos dois irmãos, se não fosse a ponte construída, até hoje estariam brigados e perdendo a oportunidade do convívio fraternal. Eu serei a sua ponte! Amanhã você vai levar um vaso de flores para a sua amiguinha, pedir desculpa e não voltar mais a brigar com quem quer que seja.
– Está certo, mãe, eu sei que errei. E você vai comigo?
– Sim, filho! Estarei sempre ao seu lado.
No outro dia, Marcos entregou o lindo vaso de flores para sua coleguinha e pediu desculpas pela atitude na frente de toda a classe. A paz estava selada e a lição aprendida.
(Adaptada da história “Construindo Pontes” – DIJ/FEB -2º Ciclo-de- -Infância-Modulo-III)
Após cada história, as autoras oferecem a proposta de reflexão: “Vamos tentar entender o que Jesus quis dizer sobre quem são os mansos, os brandos? A partir daí é desenvolvida a ideia básica da Bem-aventurança.
As autoras do livro representam o “semeador”, das parábolas de Jesus. Elas estão lançando a semente do bem na terra fértil do coração infanto-juvenil.
Entrevista Padre Júlio Lancellotti – Adriano de Lavor (Revista Radis)
Há 35 anos ele abraçou a missão de levar a fé às ruas, sempre ao lado das pessoas em situação de vulnerabilidade. Prestes a completar 73 anos de idade [o aniversário é dia 27 de dezembro], padre Julio Renato Lancellotti é vigário episcopal para a população de rua da Arquidiocese de São Paulo e pároco na igreja de São Miguel Arcanjo, bairro da Mooca, região leste da capital. Um dos líderes religiosos mais atuantes no campo social, seu trabalho ganhou notoriedade nacional durante a pandemia de covid-19, quando quebrou a marretadas pedras instaladas pela prefeitura de São Paulo sob viadutos que serviam de moradia para pessoas sem moradia.
Agraciado nos últimos meses com o prêmio Zilda Arns, de Direitos Humanos de 2021, concedido em agosto pela Câmara dos Deputados, e com o Colar de Honra ao Mérito, a mais alta honraria da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), em novembro, padre Julio nunca buscou holofotes ou reconhecimento. No dia em que concedeu esta entrevista à Radis, no fim do mês de setembro, foi enfático em descartar qualquer interesse ou projeto relacionado ao poder — “Se tem alguma coisa que eu não aspiro é o poder. Nenhum tipo de poder, nem o eclesiástico” — ao seguir sua rotina de articulação em defesa dos mais vulneráveis e acolhimento dos que precisam de um prato de comida, um teto para viver, um olhar de atenção.
Nascido no bairro do Brás, filho de pai comerciante e mãe secretária, não é de hoje que padre Julio não se deixa envolver em polêmicas e segue firme no propósito de acolher quem precisa, mesmo nos dias em que o risco da pandemia exigia estratégias de distanciamento social. “Regras sanitárias não significam incomunicabilidade. E não significam o desconhecimento do outro, a negação do outro”, declarou nesta entrevista, em que também destacou a importância da comunicação e da humanização nas ações de saúde e criticou a solidão que acompanha o uso das redes sociais.
Teólogo, educador e técnico em Enfermagem por formação, foi um dos fundadores dos grupos da Pastoral da Criança e colaborou na formulação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Desde que se ordenou padre, em 1985, atua junto a adolescentes em conflito com a lei, detentos em liberdade assistida, pessoas com HIV/aids e populações de baixa renda e em situação de rua. Nos anos 1990, fundou casas de apoio para crianças que vivem com HIV e atuou diretamente na assistência às pessoas que viviam na região conhecida como Cracolândia, no Centro da Cidade.
Ativo e ativista na defesa do respeito às diferenças e da celebração da diversidade, ele defendeu uma formação menos positivista e mais integral para profissionais de saúde, chamou atenção para os riscos de uma “espiritualidade alienante” e mostrou o poder da inclusão e da interlocução para construir uma realidade mais justa e saudável: “A gente tem que aprender a conviver com a diversidade e a pluralidade, sem querer destruir ninguém”.
Padre, em uma homilia recente, o senhor comentou uma passagem da Bíblia que fala dos “microscópicos, dos descartáveis, das pessoas que ninguém vê”. O senhor tem um histórico de trabalho com as populações invisíveis. Como é trabalhar com os microscópicos de hoje?
É ser desvalorizado, também. É entrar na mesma lógica. Se você está do lado dos descartados, você vai ser descartado também.
E qual a contribuição que os profissionais de saúde podem dar para mudar este cenário?
A contribuição que todos podem dar, e não há algo específico que cada um possa dar, é que todos temos que resistir ao massacre. Nós estamos vivendo um massacre. E cada um, à sua maneira e como pode, tem que tentar resistir ao massacre.
Quais são os impactos desse massacre na saúde das pessoas que vivem em situação de rua?
Acho que aumenta o sofrimento mental, aumenta a distorção de percepção. Uma das coisas que mais me chama a atenção é aquilo que a [escritora] Simone de Beauvoir já falava: “Os opressores não teriam tanto poder se não tivessem tantos cúmplices entre os oprimidos”. E o que depois o Paulo Freire coloca: “Se você não tem uma educação libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”. A população de rua é atingida pela mesma ideologia dominante. Então eles também reproduzem a mesma forma de pensar. O fato de você ser da rua não significa que você tenha um pensamento libertário. Na rua também tem “terraplanista”, na rua também tem negacionista, e eles também vão encontrando os diversos expedientes da lógica neoliberal para agir. Eles também querem acumular, eles também querem ter vantagens, como todo mundo. Eles não são imunes à forma dominante de pensamento. Eles são invisíveis, dependendo do momento, mas há momentos em que são extremamente visíveis: quando eles estão perturbando.
Essa é uma estratégia de chamar atenção para si?
Não só isso. A sociedade não os vê porque a percepção é seletiva. Você só percebe aquilo que quer. Ou você percebe segundo a sua forma de percepção. Então a percepção dos grupos sociais, se eles estão sofrendo, mas não estão incomodando, não importa. Se ele está com fome, mas está lá no buraco onde ele mora e eu não estou vendo, então não importa. Mas se eu vejo, importa.
Diante deste cenário, como o senhor avalia a atuação da Saúde?
Nós padecemos de um grande mal, que é a compartimentalização da saúde. Se a pessoa está com um problema em determinada especialidade, o profissional não é capaz de vê-la como um todo. Esse é um problema geral da Saúde, que atinge todos, as pessoas de rua também. Então o que acontece é que elas vão ser atendidas por um profissional daquela especialidade, mas o sofrimento delas, na totalidade, não é somente cardíaco, ou renal, ou ortopédico; o sofrimento está na existência delas. Então o profissional não olha para a existência da pessoa, olha para aquela área que trabalha. Assistente social vai ver uma área, psicólogo outra, médico outra. Ele, inteiro, quem vai ver? É um problema geral, mas que na população de rua se agudiza mais.
O senhor tem formação nas áreas de Saúde e de Educação. Como essa trajetória lhe ajudou a se sensibilizar para as causas com as quais trabalha hoje?
A grande questão é ver a totalidade da pessoa. Nenhuma pessoa é uma coisa só. Ou: ninguém é um problema só. Na população de rua, por exemplo, o pessoal acha que se tiver emprego vai resolver o problema. Não é uma verdade absoluta para todos. “Ah, se tivesse moradia resolveria!” Também não é uma verdade absoluta. A gente vive o mundo do individualismo, do subjetivismo, mas é do “meu” subjetivismo, do “meu” individualismo. Eu não aplico isso para os outros. Falta pensar: Qual é a percepção que ele tem de mim? Eu sei qual é a percepção que tenho dele, mas dificilmente eu faço um exercício para saber qual é a percepção que ele tem de mim.
Falta escuta?
Isso é geral! Saiu um livro recentemente, que recebi ontem, que fala da solidão. A gente nunca viveu tanto em massa e tão solitário. A solidão na rua é ainda mais grave. Em todas as atividades que a gente faz, a gente busca mais que entregar o pão; não é somente porque esse pão vai matar a fome da pessoa, mas porque entregar o pão é um instrumento de quebra da incomunicabilidade. Você entrega o pão e olha para a pessoa. E a pessoa te vê, também. Então há uma interação. Você viu aqui que eu não estava entregando nada. Mas eles fizeram uma interação comigo. Quem é que interage com uma pessoa de rua? Quando acontece, é uma interação muito pragmática. Eu vou falar com você porque você vai tirar documento ou ter uma consulta. Eu não falo com você porque você é uma pessoa e quero conversar.
O senhor considera então que a comunicação é essencial para a garantia do direito à saúde?
A comunicação é essencial em todos os sentidos. Para comunicar sentimentos, emoções. Como a população de rua comunica a dor? A dor não é só física, é uma dor existencial. Se eu vou a um médico com dor de estômago, ele só pergunta do meu estômago, mas não investiga por que será que meu estômago não vai bem.
Falta uma formação mais integral para os profissionais de saúde?
Hoje a formação dos profissionais é muito positivista, aliás, a educação brasileira é muito positivista. Em todas as áreas. Você vê na área médica: as pessoas vão para especialidades, mas não tem ninguém especialista em ser humano. Tem especialista no pé do ser humano, na cabeça, na mão, no olho, no ouvido, na bexiga, mas não tem ninguém especialista no ser humano. Seria quem? O psiquiatra? O psicólogo?
O senhor acredita que a espiritualidade pode cumprir este papel?
A gente quando fala de espiritualidade precisa saber do que está falando, porque existe muita espiritualidade alienante, também. O ateu pode ter uma espiritualidade, o humanista pode olhar para o ser humano e vê-lo inteiro. Há profissionais que fazem isso, por sua própria forma de ser, mas não por ofício.
De que maneira a pandemia de covid-19 agudizou todas estas questões?
O que a gente viu é que a pandemia, num primeiro momento, gerou muito medo. E esse medo imobilizou as pessoas. Por exemplo: ontem houve a festa de São Miguel aqui. E vieram muitas pessoas que eu não via desde o início da pandemia. Eu percebi o quanto estas pessoas estão sofridas, envelhecidas, descuidadas. Elas estão muito marcadas pelo isolamento, pela solidão, pela não interação.
Como equilibrar o distanciamento social e as demais regras sanitárias com o cuidado com a saúde?
O distanciamento e as regras sanitárias não significam incomunicabilidade. E não significam o desconhecimento do outro. Não significam a negação do outro.
O senhor falou sobre a incomunicabilidade, sobre o fato de que nunca estivemos tão conectados e tão distantes uns dos outros. O senhor mantém no Instagram uma conta com milhares de seguidores. Como o senhor avalia o potencial destas redes tecnológicas de comunicação?
As redes sociais são como uma faca, que serve para descascar uma fruta, mas também serve para ferir os outros. Depende de como você usa. Muita gente usa as redes sociais para me ferir; eu procuro não vigiar a rede social de ninguém, não fazer polêmica. Eu não fico vendo o que cada um pensa para xingar, mas tem gente que se dedica a isso. Tem gente que entra na transmissão da missa para me xingar. Então acho que é uma questão de vontade. Se você vai dar uma palestra e eu não me interesso pelo assunto, eu não vou entrar na sua palestra. E não vou ficar xingando você por pensar daquele jeito. Isso não é comunicar. Isso é uma negação do outro e é uma estratégia da retórica do ódio, que é desqualificar o interlocutor. Ao invés de discutir o conteúdo, eu discuto e desqualifico a pessoa. “Ah, você é um comunista”; “você é um herege”; “você é um louco”.
De que modo o exemplo de são Miguel Arcanjo o inspira para continuar na luta por uma sociedade mais justa e saudável?
Ele me dá inspiração para lutar desarmado, para lutar sem a lógica da arma e da destruição. A frase “combater o mal” é muito dura, a gente tem que aprender a conviver com a diversidade e a pluralidade, sem querer destruir ninguém.
O senhor já disse que “não luta para ganhar, mas para ser fiel”. Como o senhor cuida da própria saúde?
Depende do que entendemos por cuidar. [Risos] Às vezes o autocuidado pode ser um fechamento. Eu não vou ter boa saúde enquanto as pessoas com quem me relaciono estão sofrendo. Eu sou atingido muito pela dor, pelo sofrimento. Eu procurei, durante a pandemia, aprender a ler o olhar das pessoas. Vejo olhares extremamente sofridos, então não é possível cuidar da saúde em um mundo doente. Você não vai se sentir são caso o mundo continue doente.
Cuidar da saúde então é um sacerdócio?
É uma relação de humanização. O povo da rua não vai ter saúde, por exemplo, se não tiver onde morar, se não tiver um lugar onde se sinta acolhido, se não tiver alimentação e, principalmente, se não tiver autonomia. Nós vivemos uma estrutura de enlouquecimento, que está nos matando. Temos que lutar contra isso.
Vocação, missão ou destino? O que leva padre Julio a se dedicar aos que “ninguém quer” como ele mesmo se refere? Não encontrei resposta, mas encontrei nas ações e palavras do padre Julio poesia, força, fé e um amor incondicional pelos marginalizados, pelas minorias. Ele reparte pão, cobertor, acolhida e luta mas, principalmente, procura oferecer um pouco de dignidade e cidadania ao povo da rua. Como Francisco de Assis pedia “pregue o evangelho em todo tempo. Se necessário, use palavras”, assim percebo nosso entrevistado, contido nas palavras, mas um gigante em ações que realiza nas ruas de São Paulo, pregando igualdade e amor ao próximo. O padre se diz em casa junto aos que não têm casa. (Márcia Machado, ao entrevistar Júlio Lancellotti em 03/07/2016) Leia mais: https://www.neipies.com/acolhendo-os-que-ninguem-quer/
Os mundos das crianças acompanham o devir-árvore quando elas não estão preocupadas em dinheiro, em negócios, mas em brincadeiras que as divirtam, em serem respeitadas e amadas pelos seus familiares e amigos.
Em Nietzsche, mais precisamente na obra “Assim falou Zaratustra”, podemos ler o seguinte “Volta a semelhar-te à árvore que amas, a de amplos galhos: atenta e silenciosa pende ela sobre o mar”.
Que nós possamos estar próximos em existência e realidade da árvore com a qual somos parecidos ou nos identificamos porque todo ser virtuoso e preocupado com o meio ambiente tem uma árvore com a qual se identifica e se assemelha procurando nela um pouco de si, um pouco de resposta as suas indagações que criam calos no pensar.
O filósofo Heráclito de Éfeso no seu pensamento sobre a origem das coisas nos deixou o devir. Para ele, todas as coisas se constituem por contrastes e contradições: entre completo e incompleto, harmonia e desarmonia, afirmação e negação, ordem e desordem. O resultado da relação entre os contrastes resulta na mais bela harmonia. Este devir seria uma espécie de mudanças pelas quais todos nós passamos o tempo inteiro.
As árvores, junto conosco, também passam por esse movimento, essa harmonia e desarmonia, essa ordem e desordem, seja enquanto semente e, em seguida, tronco com galhos, seja apenas no fato de existir e estar ali na floresta junto com todas as outras árvores. Todas em movimentos, não pelo vento, mas pelo devir, por essa espécie de transformação necessária a existência das coisas, o que dá motivo as coisas existirem e que as levam sempre a uma nova realidade.
O ser é um constante vir-a-ser, estamos sempre nos tornando a todo momento uma versão renovada de nós mesmos. A vida acontece neste fluxo, impulsionada pelas forças contrárias. Assim são as árvores. Elas não estão paradas. Necessitam desse movimento transformador que as tornam melhores a cada dia, por isso sua copa e galhos parecem sempre alegres e diferentes do minuto anterior que olhamos para elas.
Devir-árvore nos prepara para uma transformação da natureza que acontece a todo instante, dando grandiosidade e beleza as árvores dentro do que se concerne na existência, na sua realidade, na sua propriedade de coisa que está no mundo sendo uma potência gradual do instante necessário aquilo que aparece na consciência do Daimon enquanto ser de alguma experiência terrena.
Devir-árvore permite que as partículas do universo que o constitui entrem em nossos espíritos e nos transformem para no instante seguinte sermos mais um ente a existir no cosmos, de uma forma renovada.
É preciso que o devir-árvore entre em nós para quebrar a nossa casca e devir alguma coisa.
Estamos acomodados com as nossas vidinhas passageiras, com a rotina do dia a dia de caminharmos entre as árvores sem darmos conta das suas transformações e mudanças que enfrentam junto conosco. Esse devir-árvore explode como uma semente que brota no espírito da realidade e o traduz em um novo espírito que tangencia a questão não de si, mas de todas as coisas que constituem a realidade e somam-se a sua totalidade.
Enquanto nos afundamos nos nossos problemas, perturbações, paramos no meio do caminho ao encontrarmos pedras ou buracos, ficamos ansiosos e aflitos com novas batalhas as árvores continuam a deixarem as suas raízes fazerem parte da nossa existência.
Buscamos sempre a superioridade, queremos ser os donos do mundo, inventamos máquinas todos os dias, alteramos o clima e queimamos as florestas, construímos pontes e muros, nos afastamos uns dos outros e enquanto isso as árvores estendem as suas copas para além das florestas sem se preocuparem com tesouros e negócios nas bolsas de valores.
Devir-árvore é esse movimento dentro da gente que faz com que pensemos na nossa existência e nas coisas necessárias para um viver com intensidade, com benquerer, com amor ao próximo e cuidados ao universo que já não praticamos mais. Os galhos das árvores atravessam os nossos órgãos, viajando do fígado aos pulmões, do coração ao estômago e assim por diante, deixando transformações essenciais ao viver que abandona a unidade e se conserva na multiplicidade da existência do ser sempre mais um.
Baseados no devir-árvore podemos pensar o mundo das crianças que também se transforma junto com tudo o que existe no mundo e no momento em que elas fazem perguntas e descobrem algo novo para guardarem dentro de seus grandiosos pensamentos.
As crianças estão sempre se renovando e permitem muito mais que os homens serem preenchidas pelas raízes das árvores com as suas inquietações e dúvidas que nunca param de brotar dentro de seus pensamentos assim como sementes de árvores que estão sempre a cair pelo chão, as perguntas das crianças estão sempre nas mãos de um adulto.
Os mundos das crianças acompanham o devir-árvore quando elas não estão preocupadas em dinheiro, em negócios, mas em brincadeiras que as divirtam, em serem respeitadas e amadas pelos seus familiares e amigos.
Nasce sempre uma esperança dentro de uma criança quando ela é tocada por um adulto despojado de toda inveja e egoísmo.
Ela conhece os homens bons igual as árvores. A criança preenche-se de frutos doces e gostosos para adormecer e sonhar com mundos muito melhores do que o nosso.
Nos mundos das crianças elas não precisam se vestirem de elogios, promoções ou cargos elas são apenas crianças e querem ser respeitadas como tal, igualmente são as árvores que permanecem nuas sentindo o vento no corpo.
Um menino pode brincar no quintal de casa completamente nu sem se preocupar com a sua nudez, pois a inocência que constitui a sua existência não necessita de pudores que nós adultos adquirimos e instituímos nas nossas sociedades.
As crianças também não precisam de aparelhos celulares. Quem inventou isso para elas? Elas precisam de brinquedos criados pelas suas próprias mãos. Elas precisam brincar pelas ruas, parques, quadras esportivas. Sentirem o vento no rosto, correrem, pularem e experimentarem a vida de todas as formas, seja caindo, se arranhando, chorando e correndo de novo.
A criança vive num processo de constante vir-a-ser. Ela nunca para. Ela quer conhecer o mundo que habita enquanto constrói os seus mais diversos mundos. É preciso respeitar esse momento de descoberta da criança, esse momento mágico onde tudo é novo e pode ser transformado mil vezes assim a criança deseje.
Não deve haver trocas de mensagens eletrônicas entre as crianças, mas o contato presencial, também não precisam saber das novidades das redes sociais e das mídias, as crianças só precisam brincar. Assim acontece com as árvores que endurecem seus caules para enfrentarem as tempestades e os ventos. As crianças também têm as suas defesas. Elas aprendem desde cedo a amarem as pessoas ao seu redor e choram com os desconhecidos. O choro é uma forma de proteção que a criança encontra.
Nem toda criança é birrenta e explosiva, quem disse que o devir é assim? O devir é calmo, ele acontece na paciência, na resiliência, no silêncio e tranquilidade. A potência não deseja ser reconhecida, ela quer ser amada e viver dentro de cada um de nós de uma forma que possa nos fazer crescermos e tornarmos a realidade não do jeito que nos é apresentada pelos adultos, mas do jeito que nós conseguimos compreendê-la.
Os pais e professores devem compreender o devir-árvore para compreenderem o devir-criança. Esse vir-a-ser que nos modifica faz de nós pessoas diferentes o tempo todo. As crianças nunca estão paradas ou quietinhas como costumamos dizer. Dentro delas mundos acontecem, personagens surgem, amiguinhos imaginários habitam e brincam com elas. Assim é o devir-árvore que faz da seiva a sua nutrição para continuar crescendo e nos dando sombra e frutos assim como se enraizando nas profundezas dos nossos seres e compartilhando conosco os seus mais íntimos segredos.
Quando pais e professores começarem a se preocupar que as crianças iguais ao devir-árvore estão sempre em constantes transformações certamente compreenderão o corre-corre dentro de casa, os brinquedos espalhados pela sala, a parede riscada de giz de cera e, principalmente, as muitas questões feitas a todo instante. As crianças só querem um pouco de atenção, um galho onde possam se pendurar quando o medo surgir dentro delas.
Uma semente possui mais memórias do que os nossos computadores e com isso ela sabe discernir entre o bem e o mal. Ela sabe o que quer mesmo não tendo consciência disso. Ela permite secularizar-se para através das gerações contar as suas lembranças através das suas sombras e folhas secas caídas ao chão.
Devir-árvore não vive o tempo da gente, não se preocupa com a morte. Ele é eterno. Mesmo que seja queimado ou derrubado com a força de um machado, ainda assim a semente dará continuidade a uma nova espécie sendo este seu ciclo existencial: a eternidade da memória da semente.
As crianças também costumam guardar lembranças. Elas sabem diferenciar quem é bom ou não para com elas. Muitas vezes conseguem lembrar com detalhes o que lhes fizeram de ruim que ficou marcado nos seus pensamentos. Toda criança é como uma semente, ou seja, é eterna mesmo depois de tornar-se adulta ainda assim continuará a indagar-se como tal por dentro até que a morte desfaça a sua existência.
Uma criança sabe o que quer, o que é melhor para si, o que pode lhe trazer alegrias. Assim são as árvores. Elas também sabem o que desejam, se conhecem profundamente e têm seu objetivo: prolongar a suas raízes para abraçar com todo o seu amor a terra. Essa mãe-terra que a fecundou e que agora precisa do seu grandioso e imenso amor.
Para finalizar, deixo vocês com os versos do poema de Manoel de Barros intitulado “Árvore” que diz “Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore. / Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho. / No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de sol, de céu e de lua mais do que na escola.”
Que cada criança torne-se árvore de sua própria existência e aprenda que a grandiosidade do viver estar no brincar e ser amado. Quando se fica de birra não é mimo, mas um jeito que o devir-criança encontrou para transformar a sua emoção.
Gostaríamos de que o Fantasma do Natal Futuro pudesse falar… Mas recordando a obra de Dickens: se ele não fala, ao menos nos aponta uma direção!
Na obra “Um conto de Natal” (Charles Dickens – 1843) o avarento Sr. Scrooge é visitado por três espíritos que lhe levam a viajar a outros tempos de sua vida.
Muito emblemática é a figura do Espírito do Natal Futuro: nada falava, estava envolto e oculto em uma capa preta de onde mal se percebia uma de suas mãos com a qual sinalizava para onde conduzir o Sr. Scrooge.
Seu rosto, sua forma, mesmo que não ficassem à mostra, eram sentidos como “um solene pavor” que causavam tremores nas pernas do velho rabugento, o qual dizia: “-Eu tenho mais medo de você do que de qualquer outro espectro que já tenha visto.” Cabe aqui uma ressalva: a esta altura do livro nosso protagonista já havia tido contato com os fantasmas dos Natais Passado e Presente. Mas então, por que este seria o mais temível?
Desde a antiguidade, os gregos buscavam em seus oráculos respostas para questões futuras, igualmente (e à sua maneira) faziam os reis da Idade Média. Tema também citado nos relatos das incontáveis obras literárias e cinematográficas de ficcionais viagens no tempo, tudo isso reforça sobre o quanto nos intriga o silêncio do futuro, a incógnita por detrás de seu vulto.
Hoje escutamos em consultórios de psicoterapia muitas histórias de angústias, ansiedades, medos infundados e tentativas vãs de querer obter-se o controle sobre o futuro. “Será que escolhi bem minha nova profissão?” pergunta um…. “Eu devia mesmo ter terminado meu namoro?” diz outro… incertezas.
Bem que gostaríamos de que o Fantasma do Natal Futuro pudesse falar… Mas recordando a obra de Dickens: se ele não fala, ao menos nos aponta uma direção! Percebemos os sinais que a vida nos mostra? Estamos atentos em nossos ambientes de trabalho ou mesmo dentro de casa? Conhecemos os amigos de nossos filhos? Estamos dando um tempo para cuidar de nossa saúde, de nós mesmos? Como vai o diálogo em família? Conheço meu vizinho?
“Existe somente o presente imediato, no qual todo o tempo e todo o ser está englobado”, nos ensina o monge budista Dogen. Ao refletirmos sobre esta ideia, a de que os Natais Futuros serão, tão somente, resultados do que fizermos hoje, não teremos mais a vã preocupação milenar da adivinhação; somos passado, presente e futuro ao mesmo tempo.
Feliz Natal!
Autor: César A R de Oliveira Psicólogo – WhatsApp (54) 99981-6455 www.homemnapsicologia.com.br
O livro Culpado ou Inocente já está na segunda edição. O povo quer saber dos Júris do Caso Zaffari, Caso Beto e Sandra, Vovó Pistoleira, Caso Professor Melinho, Morte de Advogado em Soledade e outro no estacionamento do Bella e tantos outros.
Confira algumas reações de leitores e amigos do escritor Daniel Viuniski.
Daniel Viuniski dignifica Passo Fundo
Filho de Moysés e Rachel, comerciantes da Avenida Brasil, Daniel Viuniski é um ícone da comunidade judaica e um dos mais ativos líderes da nossa comunidade. Literalmente ele viu a cidade crescer e tomou parte ativa na sua construção.
Estudou no Notre Dame e no IE, foi adolescente na provinciana Passo Fundo dos anos 50. Graduou-se na Faculdade de Farmácia (UFSM) em 1960 e na Faculdade de Direito (UPF) em 1988.
Trabalhou como bioquímico e farmacêutico e fundou o primeiro banco de sangue da cidade em parceria com o Dr. Paulo Azambuja. Gênio da química, lecionou em colégios, cursinhos pré-vestibulares, nos cursos de Medicina, Odontologia e Agronomia da UPF. Educou milhares de alunos com carinho e doação. Educador nato que se orgulha disso!
Na vida comunitária, impressiona a presença de Daniel Viuniski em múltiplos setores – presidiu o Sport Club Gaúcho, o PMDB, dirigiu o Hospital Municipal Dr. César Santos, membro da Academia PF de Letras desde 1975, na cadeira Arthur Ferreira Filho. Participou da Maçonaria, da fundação da APAE, do Patronato de Menores e da UPF. Desenvolveu o setor imobiliário com a imobiliária “O Balcão”. Recebeu a láurea de Cidadão Passo-Fundense em 2006. Sócio fundador e primeiro presidente do Rotary Club Passo Fundo Norte, Daniel escreveu uma linda história de serviços à comunidade pelo Rotary Club, onde foi Governador do Distrito 4700 em 2011 e representa com frequência o presidente mundial da entidade em diversos cantos do país.
Pelo senso de justiça e resgate da cidadania, especializou-se em Direito Penal e atuou intensamente no Tribunal do Júri. Este livro ilustra com sucesso a sua saga nesta área. Como educador nato, ele “dá uma aula” com seus casos mais instigantes!
Daniel plantou e agora colhe. Colhe o reconhecimento dos seus milhares de alunos, clientes e amigos. Pessoas que foram tocadas pela sua impressionante vida comunitária.
Tenho orgulho de ser seu aluno, seu colega de cursinho, seu confrade e acima de tudo, seu amigo.
Obrigado, Prof. Daniel Viuniski! (Osvandre Lech)
Daniel Viuniski: um professor por vocação
A primeira lembrança que me veio á memória foi de Gustave Flaubert e seu Clássico Madame Bovary, iniciado em 1851, e concluído cinco anos depois. A obra repercutiu imensamente e acabou levando o autor ás barras dos tribunais. Perguntado pelo juiz sobre quem seria a polemicar heroína do romance, Flaubert respondeu simplesmente: “Emma Bovary c’est moi“. Com esse sintético e verdadeiro ‘Emma Bovary sou eu’ logrou sua própria absolvição.
Viuniski salienta que sempre exigiu de seus constituintes a mais pura verdade ou a versão mais exata. Só assim seria possível defendê-los. É uma lição. E Daniel Viuniski é um professor por vocação. Farmacêutico-bioquímico, empresário e advogado, sua principal profissão é o magistério. Neste país, recebessem os educadores a remuneração devida e ele teria exercido, única e exclusivamente, esse mister.
Atuou em mais de quatro centenas de júris, colecionou algumas dezenas desses casos, que historiou em seu livro. Os nomes das partes, por motivos óbvios, recebem iniciais. Ali estão alguns casos famosos, com os nomes que entraram para a história. Cito alguns; A morte do Cara de Cavalo, Tiroteio e morte no Edifício Dom Guilherme, o Caso Beto e Sandra, O Crime da Leitaria e o Caso Zaffari, todos de ampla repercussão.
Ético, extremamente ético em seus relatos, é módico nas palavras. A civilidade que sempre demonstrou e representou em sua vida está presente ao longo das mais de duzentas páginas o livro. Obra para ser lida em todas as linhas, mas, principalmente, nas entrelinhas. Ali estão culpados que tiveram suas penas amenizadas, graças a ação do advogado, e inocentes que mereceram penas, até severas.
Culpado ou Inocente: Vivemos o Júri é obra de um dos maiores criminalistas de Passo Fundo e Região, em todos os tempos, mas, e acima de tudo, o livro de um grande homem e um imenso mestre de gerações, através de décadas.
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Obra de um notável criminalista
Recebi o livro Culpado ou Inocente, do consagrado criminalista Dr. Daniel Viuniski, um passeio pelo salão do tribunal do júri, algum dos casos mais famosos e pitoresco que o autor selecionou para desfilar neste volume! São histórias vividas, cujos personagens em qualquer situação, passaram por situações angustiantes, de lágrimas, sangue, apreensão e emoção, mas que sempre tiveram o amparo, a dedicação, o saber jurídico e a vasta experiência e conhecimento de um dos mais notáveis criminalistas que se esconde em Passo Fundo! Parabéns Doutor Daniel, por inserir mais uma obra que conta os casos vividos por aqueles que fazem de sua profissão um sacerdócio e de sua missão um culto pela liberdade!
Jabs Paim Bandeira
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Lei do Retorno
Sorvi com atenção e lembrança de muitos fatos por mim conhecidos e em virtude funcional. Parabéns pela iniciativa e humildade, não somente na forma descritiva dos fatos e vitórias, mas igualmente nos votos vencidos e por uma ocasião em que solicitou aos contratantes reforço auxiliar. Ambos os fatos interessantes, alguns intrincados para serem esclarecidos. Todos os fatos são importantes, mas destaco um interessante no desfecho que me despertou lembrança para a tão propalada “Lei do Retorno”: aquele réu que foi absolvido, depois de muito trabalho, mas recurso do Tribunal determinou novo julgamento e o acusado simplesmente não quitou os honorários já vencidos, como negou-os para o próximo julgamento. Constituiu outro defensor e resultou condenado. É a Lei do Retorno.
Finalizo, assuntando a forma dos quesitos formulados e seu linguajar jurídico: (o sogro assassinou o genro – fls.202. Acho que os jurados, após tanta informação, votaram sem interpretar o sentido das perguntas: um perigo: “se o réu agiu de forma atual” e depois, “agiu de forma iminente”. Muitas vezes por mais que as partes expliquem, no contexto final,… Abração, Dr. Daniel.
José Enio Serafini
Como adquirir a obra: Para ter acesso a um exemplar do livro Culpado ou Inocente: vivemos o júri, ligue para o telefone (54) 3313 5132.
Chama atenção um presépio com vestes diferenciadas dos personagens do Natal numa igreja de Passo Fundo, RS. Personagens desta festa cristã usam jalecos da saúde e máscaras de proteção ao Covid.
Pela sua encarnação, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada ser humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado.
No momento em que estávamos planejando a montagem do presépio na Paróquia Santo Antônio, em Passo Fundo, me veio à mente aquela frase do Evangelho de São João, capitulo 1, 14 que diz: E o Verbo fez-se carne e habitou entre nós.
Se no Natal celebramos, não propriamente o aniversário de Jesus, mas a sua encarnação que repercute até hoje, então, Natal é sacramento, acolhimento do mistério, que acontece dentro do contexto no qual estamos inseridos.
O próprio Papa Francisco lembra que Jesus é um de nós, que Deus, em Jesus, é um de nós. Deus não nos desprezou, não olhou para nós de longe, não se vestiu com um corpo aparente, mas assumiu plenamente a nossa natureza e condição humana. Toda a humanidade está n’Ele. Ele assumiu tudo o que somos, tal como somos, por isso tivemos a ideia de fazer um presépio com traços da realidade atual, no caso, a pandemia, onde as pessoas ainda usam máscaras como parte do protocolo de saúde.
A família de Nazaré nos ensina que é preciso cuidar da vida, que não podemos, em nome de fanatismos e ideologias, menosprezar a ciência e a inteligência humana dada por Deus, como forma de participar da obra da criação.
As imagens do presépio na igreja matriz, querem chamar atenção para esta importância do cuidado e, homenagear todos os profissionais da saúde que muito se dedicaram, cuidando e consolando tantas pessoas, muitas vezes colocando em risco a própria vida.
A pandemia nos obrigou a estar mais distantes, mas Jesus, no presépio, mostra-nos o caminho da ternura para estarmos próximos e para sermos humanos e responsáveis uns pelos outros.
A tecnologia em geral, as ferramentas digitais e a inteligência artificial não foram construídas para melhorar a vida humana?
Nossa vida está impactada negativamente pela falta de tempo, pelo estresse e pela ansiedade. Nossa vida apresenta mais tarefas para realizar e menos tempo livre para viver.
Em nossa vida, surgem mais pessoas sem casa para morar e comida para se alimentar. A nossa vida social demonstra aumento do medo da insegurança pessoal, da desinformação e desorientação. Mas a tecnologia em geral, as ferramentas digitais e a inteligência artificial não foram construídas para melhorar a vida humana?
Para um bom entendimento da palavra educação, precisamos relacionar com pedagogia, que tem um sentido na origem vinculado ao orientar ou conduzir a criança. O filósofo gregro Sócrates foi responsável por demonstrar a necessidade de substituir o sentido de transmitir pelo sentido de refletir e construir.
No final do século XX um pensador mundialmente referenciado é Paulo Freire defendeu a reflexão, a construção e o protagonismo de quem aprende, em um dos seus livros mais famosos, Pedagogia do Oprimido.
Cabe lembrar que Sócrates foi preso e condenado à morte por suas ideias, que Paulo Freire foi preso e teve que fugir do Brasil porque contribuiu para entender as dificuldades da democracia no século XXI em que as pessoas não tinham cultura nem acesso a uma pedagogia de autoconstrução livre e democrática.
Somos resultados de memórias transgeracionais e de cuidados. Os limites da evolução humana estão condicionados aos referenciais epistemológicos, que são os sentidos conscientes e inconscientes que orientam nossa ação e nossa existência.
Você considera importante cultivar o hábito de pensar? Quais são os referenciais que te orientam? Para onde está indo e para para onde quer e pode ir?
Estamos inseridos em uma realidade em que o impacto das ferramentas digitais e da inteligência artificial devem ser analisadas.
A tecnologia, em geral, é uma maravilha da inteligência humana, foi construída para nos servir e não para nos escravizar. Refletir a este respeito é um hábito para quem deseja participar ativamente na construção da realidade das próximas gerações.
Você está sendo convidado para saber mais sobre estes assuntos que impactam a tua vida, na companhia de reconhecidas lideranças sociais e acadêmicas. Contamos com o seu engajamento:
Que tenhamos um olhar mais sensível as coisas que as crianças desenham e possamos junto com elas descobrir seus conceitos. Não sejamos tão adultos com as crianças.
Na sua bela música o cantor Toquinho nos diz em seus versos “Numa folha qualquer / Eu desenho um sol amarelo / E com cinco ou seis retas / É fácil fazer um castelo”.
A arte de desenhar e mostrar-se através dele, mostrar o seu eu mais íntimo, o seu jeito de pensar e entender o mundo. Desenhar um sol, uma lua, uma casa ou uma árvore. Apresentar às crianças desde a tenra idade a arte de sair por aí riscando paredes, papéis, chão e tudo o que encontrar pela frente com rabiscos de gente, bicho e árvore.
Desde os primórdios das civilizações que o homem se comunica através do seu desenho. Sem o alfabeto, o homem das cavernas desenhava o seu cotidiano nas suas paredes. Alguns desenhos são conservados e estudados pelos arqueólogos até hoje. Desenhos que representam o pensamento e registram a vida desses homens muitas vezes caçando comida para as suas famílias.
O filósofo Platão não gostava de imagens. Dizia que elas enganavam o homem no seu mito da caverna. Para ele, as imagens pertenciam a um submundo, ao mundo da ignorância, porque interpretá-las poderia levar ao erro e a falsa opinião. Os homens que vivem acorrentados na sua famosa caverna só viam imagens diante de si o tempo todo e eram elas que lhes passavam uma ideia da existência de outras coisas, as sombras.
No entanto, as imagens foram se adaptando a vida rural e urbana dos homens e surgiram os primeiros pintores, os retratistas, os desenhistas. Aqueles que não conseguem se expressar sem ser através delas. A fotografia tornou a imagem algo mais espetacular e mágico, sem esquecer do desenho realista que é de uma excelência e técnica singular.
Eu, particularmente, sou uma apaixonada pela arte do desenho. Creio que toda criança devia começar a pegar no giz de cera desde os seus primeiros dias de vida. Fazer dele o seu brinquedo. Ter contato com ele. Tornar-se seu amigo íntimo e riscar o que puder.
Tem gente que diz não saber desenhar. Eu não acho ser isso possível. Todos nós temos um pouco dessa arte dentro da gente. Há pessoas que levam a arte muito a sério, e julgam o trabalho alheio como feio, sem técnica, sem emoção e sem maturidade. Existe muita gente chata no mundo que só sabe criticar fazendo com que o precoce artista volte para o seu casulo e nunca mais dele queira sair. Isso é triste. Eu já sofri com críticas desse jeito. Mas, não dei importância para elas. A gente tem que se posicionar, um dia, sobre a melhor forma de representarmos o nosso eu interior e as coisas ao nosso redor.
Claro que há grandes desenhistas ao redor do mundo que usam técnicas maravilhosas e conseguem desenhar de uma forma esplêndida. Porém, devemos respeitar também aqueles que estão começando, dando os seus primeiros passos, despertando para o talento.
É tão difícil alguém criar coragem para mostrar a sua arte ao mundo, muitos artistas nunca serão reconhecidos devido a timidez e o fato de não se acharem tão bons o quanto são. Eu tinha essa dúvida ao meu respeito e ainda trago em mim um pouco de críticas a mim mesma sobre melhorar cada vez mais.
As crianças gostam de desenhar as coisas ao seu redor. Os desenhos mais comuns são de gatos, cachorros, casas, nuvens e o sol. Muitas vezes elas interpretam uma história ouvida através do desenho. Neste momento divagam nos seus pensamentos e criam desenhos os mais diversos.
Há várias maneiras de desenhar que as crianças encontram. Algumas preferem usar apenas um pequeno espaço da folha, às vezes um canto dela, outras escolhem o meio da folha e ainda têm aquelas que desenham ou na parte superior ou na parte inferior. Tem desenho pequeno e desenho grande. Tem criança que só gosta de desenhar e não de pintar. Tem aquelas que levam horas pintando.
Quando se fala em conhecer o objeto ou a pessoa que será desenhada pela criança me vem à mente a necessidade que ela tem de conhecer as árvores para realizarem o Teste da Árvore que será mencionado mais abaixo, ou seja, qual a importância do objeto que se está sendo desenhando para ela e para o mundo, o que esse objeto oferece de bom para ela, o motivo pelo qual ele precisa ser preservado para manter o mundo cada vez melhor, por isso é importante que os pais levem seus filhos para terem contato logo cedo com as árvores. Assim, despertará neles o afeto por elas e a curiosidade de saber o que as fazem tão importantes e singulares às pessoas ao seu redor.
O desenho além de ser uma forma de distração e uma arte também serve como teste psicológico para descobrir a personalidade da criança. Sim, descobri outro dia o Teste da Árvore que consegue identificar a forma como a criança enxerga o mundo e as coisas ao seu redor através do seu desenho de uma árvore. Achei bem interessante este teste e o trago hoje para vocês conhecerem e fazerem com os seus alunos. Claro que o resultado real precisará ser feito através de um profissional de psicologia.
Sabemos que o desenho é um dos meios de expressão através dos quais as crianças expressam seus sentimentos, medos, preocupações e ilusões. A forma como elas desenham pode variar conforme o passar dos anos, assim como a forma que pensam e veem o mundo, então tudo é relativo e nada deve causar espanto ou preocupação, de imediato. O Teste da Árvore serve como uma forma de conhecermos mais detalhadamente as nossas crianças, e passarmos a atendê-las dentro das suas necessidades.
O Teste da Árvore é uma técnica muito fácil de ser aplicada, e pode ser feito com criancinhas ainda na tenra idade, mesmo que ainda não saibam desenhar direito. Ele vai nos indicar o eu da criança e as suas visões do mundo. Talvez com esse teste possamos descobrir melhor o motivo de alguns comportamentos das nossas crianças, de algumas atitudes e palavras que elas dizem ou até mesmo deixam de dizer. Acredito ser um teste importante para pedagogos, pais, responsáveis e aos psicólogos que são os profissionais especializados em aplicar o teste.
Ele pode ser aplicado a partir dos cinco anos de idade, quando a maioria das crianças já domina as habilidades básicas de desenho, para poder delinear melhor os elementos que compõem a árvore. O mais importante é que os adultos não lhe deem nenhuma ideia de como a árvore deve ser, a criança deve se sentir completamente livre para desenhá-la como quiser.
Quanto ao desenho do solo representa o ponto de contato com a realidade; portanto, quando não está presente, pode significar que a criança se sente insegura ou instável. Também pode significar não esteja suficientemente enraizada ou que precisa encontrar seu próprio espaço.
Ao contrário, a presença do terreno indica segurança e autoconfiança, principalmente quando traçadas com linhas retas, que indicam clareza de ideias e estabilidade emocional. Um piso ondulado pode ser um sinal de sensibilidade e tendência a evitar brigas. No entanto, é importante saber que antes dos nove anos de idade, muitas crianças não desenham o chão, e isso não significa que haja um problema.
O desenho das raízes que fornecem à árvore os nutrientes de que ela precisa para crescer, além de apoiá-la. Na teoria psicanalítica, as raízes representam o “ele”, isto é, a parte mais instintiva e oculta da mente. Quando omitido no desenho, pode significar que a criança tem medo do mundo ou se sente vulnerável.
Quando desenhadas em proporção, indicam que há um bom desenvolvimento emocional e que a criança se sente amada e aceita. De fato, uma árvore com muitas raízes é geralmente um sinal de um apego positivo. No entanto, crianças com menos de 9 anos de idade às vezes não desenham as raízes.
O desenho do tronco que é um dos elementos mais significativos da árvore, por isso está diretamente associado à identidade pessoal e a como lidar com o mundo. Se o tronco é muito fino e fraco ou possui linhas irregulares, provavelmente é um indicador de uma personalidade sugestiva e de medo de enfrentar um mundo considerado perigoso. Quando o tronco tem buracos, pode indicar um vazio emocional profundo.
Pelo contrário, um tronco grosso desenhado com linhas firmes indica uma personalidade forte e valores bem definidos, além de ser um sinal de autocontrole e disciplina. No entanto, se o tronco é muito grosso, pode ser um indicador de agressividade, características narcísicas, teimosia e tendência ao autoritarismo.
O desenho da copa e dos galhos que é a parte superior e mais visível da árvore, portanto elas representam os relacionamentos da criança com o resto das pessoas, bem como seus sonhos e aspirações. Antes de analisá-lo, é essencial saber que as crianças mais novas provavelmente não desenharão os galhos, pois não alcançam esse nível de detalhe, o que não significa que haja um problema.
Se os galhos e a copa dão um aspecto raro à árvore, isso pode refletir traços de personalidade, como excentricidade ou desejo de atrair atenção. Se os galhos forem muito pontudos ou com linhas muito retas, é provável que oculte uma tendência a ser agressivo e / ou impulsivo. Quando a copa é muito pequena, pode indicar timidez, introversão e retraimento. Se a criança acrescenta frutos à árvore, geralmente indica uma personalidade sociável e generosa.
A análise do Teste da Árvore deve ser levada a sério se feita por um psicólogo, pois ele saberá como cuidar da sua criança. Como disse acima, não se assuste se obter resultados que não são desejados, pois as crianças tendem a mudar o seu eu interior a partir dos anos e nem sempre pode ser um sinal indicativo de problemas se o desenho da criança apresentar um desses aspectos ditos acima.
Tudo é uma questão de comportamento e de subjetividade. Muitas vezes, a criança pode nem ter problema nenhum emocional e desenhar de uma forma completamente diferente daquela que esperávamos. É preciso saber que a arte se modifica em cada criança e que ao passar dos anos com a experiência adquirida tendemos a melhorar ou não os nossos desenhos.
Este ensaio de hoje teve a colaboração da minha psicóloga que me emprestou um livro falando sobre o Teste da Árvore e me falou um pouco sobre ele. Sou grata a minha psicóloga querida. A análise de desenhos por parte de psicólogos é uma rotina nos seus consultórios porque facilita a identificação do problema emocional da criança e uma forma maravilhosa de descobrir a personalidade daquele serzinho que está começando a conhecer o mundo e as pessoas ao seu redor.
No meu projeto voluntário com crianças que realizo há mais de vinte anos existe uma seção para o desenho. Observo a forma como elas se comportam quando estão desenhando e algumas ficam tão envolvidas com o desenho que se deitam no chão e passam um bom tempo a desenharem seus objetos e pessoas.
As crianças costumam desenhar de forma real os seus cotidianos e de forma imaginária aquilo que escutam. Se a história é bem contada e cheia de detalhes elas passam tudo isso para o papel. As mais pequeninas preferem fazer riscos e depois explicarem o que eles significam. Sempre é algo ou alguém conhecido delas. Guardo na minha casa vários desenhos de crianças desde o ano 2000 quando começou o projeto e sem esquecer de dizer que sou ilustradora e todos os dias faço um desenho, arte que trago desde a minha infância.
Para finalizar este texto trago um fragmento do livro “O Pequeno Príncipe” de Antoine de Saint Exupéry que nos diz “Mostrei minha obra prima às pessoas grandes e perguntei se o meu desenho lhes dava medo. Responderam-me “Por que um chapéu daria medo?” Meu desenho não representava um chapéu. Representava uma jiboia digerindo um elefante. Desenhei então o interior da jiboia, a fim de que as pessoas grandes pudessem entender melhor. Elas têm sempre necessidade de explicações detalhadas.”
Que tenhamos um olhar mais sensível as coisas que as crianças desenham e possamos junto com elas descobrir seus conceitos. Não sejamos tão adultos com as crianças.
A sociedade brasileira não suporta tantas violações de direitos humanos, por ação e omissão do governo federal no enfrentamento da pandemia.
“Às vezes é melhor perder a vida do que perder a liberdade” é uma das afirmações do Ministro da Saúde em Entrevista Coletiva [1] na qual apresentou a posição do governo diante da recomendação das autoridades de vigilância sanitária para adoção de passaporte vacinal para ingresso de estrangeiros no país. O fez na antevéspera do Dia Mundial dos Direitos Humanos. Justificou-se invocando a necessidade de proteção dos direitos individuais, das liberdades individuais.
Posições deste tipo vêm se repetindo. A liberdade individual é invocada como absoluta, ao modo do egoísmo individualista, como se virtude fosse, como se direito fosse.
Há que se diferenciar entre liberdade individual como direito e condição para o exercício dos direitos, e sua absolutização e, inclusive, da relativização de direitos tão fundamentais quanto ela, sacrificados em nome dela.
Os direitos, todos os direitos, são interdependentes e indivisíveis, diz a Declaração e Programa de Ação da II Conferência Mundial dos Direitos Humanos (Viena, 1993) [2]. E, se assim, impossível colocar a uns direitos em patamar distinto dos outros. A rigor, esta é mais uma das estratégias deste governo que, para sustentar seu negacionismo, adere à visão ultraconservadora que destrói os direitos humanos ao tempo em que os invoca, pois, falar assim, é usar os direitos humanos para relativizar direitos humanos, destruindo sua unidade.
O Brasil não está em guerra e nem o Ministro da Saúde está falando às tropas que se preparam para algum combate. Este tipo de chamada lembra aquela das falanges franquistas na Guerra Civil espanhola. Ouvidos mais apurados devem ter escutado sussurros na sala onde se dava a Coletiva com o ressoar do: “Abajo la inteligencia, Viva la muerte!”, como nos idos de 12 de outubro de 1936, nos salões da Universidade de Salamanca, diante do reitor Unamuno, e na boca do oficial franquista José Milan Astray. Teria sido uma nefasta coincidência.
Em que circunstância (“às vezes”) seria desejável “perder a vida”? Nem na guerra – ou não se discursa que todo o maior esforço de guerra é sempre perder o menor número possível de vidas? A fala do Ministro não caberia nem para animar a uma guerra.
Outro absurdo dito na Coletiva foi que defender a vacinação equivaleria a defender uma prática desigual e discriminatória: “não se pode discriminar as pessoas entre vacinadas e não vacinadas para a partir daí impor restrições”. Desigual e discriminatória seria se houvesse distinção por alguma razão de gênero, raça/etnia, geração. Não é o caso! Aliás, pelo contrário, as Nações Unidas, em Resolução sobre o tema, “insta encarecidamente a todos os Estados a que se abstenham de adotar medidas econômicas, financeiras ou comerciais que possam afetar negativamente o acesso equitativo, aceitável, justo, oportuno e universal às vacinas contra a Covid-19, em particular nos países em desenvolvimento” (tradução livre) [3].
A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH/OEA) também emitiu uma Resolução sobre vacinas contra a Covid-19. Talvez seja oportuno sugerir sua leitura e seu seguimento pelas autoridades brasileiras, já que estão submetidas ao direito internacional dos direitos humanos por força da adesão aos Tratados Internacionais dos Direitos Humanos.
Na Resolução n. 1/2021 [4], a CIDH/OEA diz que “é imperativo que se promova a distribuição justa e equitativa das vacinas e, em particular, torná-las acessíveis a um preço razoável para os países de renda média e baixa. A equidade deve ser o componente-chave não só entre países, mas também dentro dos países para poder pôr fim à fase aguda da pandemia”. Diz que o objetivo da referida Resolução “é contribuir para que os Estados assumam o alcance de suas obrigações internacionais no contexto das decisões sobre vacinação, a fim de garantir os direitos humanos, especialmente o direito à saúde e à vida”. Também afirma que “de acordo com o princípio de igualdade e não discriminação, o acesso universal e equitativo às vacinas disponíveis constitui uma obrigação de imediato cumprimento por parte dos Estados, motivo pelo qual as vacinas, tecnologias e tratamentos desenvolvidos para enfrentar a Covid-19 devem ser considerados como bens de saúde pública, de livre acesso para todas as pessoas”.
Na mesma Resolução há seis recomendações a respeito do “acesso a vacinas, bens e serviços de saúde em atenção ao princípio de igualdade e não discriminação”; quatro a respeito da “distribuição e priorização de doses de vacinas”; cinco a respeito da “difusão ativa de informação adequada e suficiente sobre as vacinas e combate à desinformação”; quatro a respeito do “direito ao consentimento prévio, livre e informado”; quatro a respeito do “direito de acesso à informação, transparência e combate à corrupção”; oito tratando de “empresas e direitos humanos com relação às vacinas contra a Covid-19”; e quatro sobre “cooperação internacional”.
O Ministro também disse que exigir um passaporte criaria: “mais discórdia do que consenso”. Incrível a postura seletiva: para certos temas haveria que ter consenso, para outros melhor que se espalhe a discórdia. Aliás, o que tem feito o senhor Presidente senão que espalhar discórdia, notícias falsas, sugerir medicamentos ineficazes, afrontar as autoridades sanitárias, contra todos os consensos, como o de que é preciso usar máscara, e que o vacinar-se é uma das mais profícuas medidas de proteção de si e, mais do que de si, também dos/as outros/as, para reduzir a força de transmissão do vírus.
Um governo que o tempo todo se faz espalhando discórdia, agora quer consenso?
Nem cabe consenso para o caso, visto que não é um tema de escrutínio da soberania popular, pois não está à disposição para consulta pública, para o voto, decidir se certas medidas sanitárias devem ser tomadas ou não.
Como já alertou o grande filósofo J. Habermas, há questões que não podem estar à mercê de maiorias de ocasião. E, ainda que fossem submetidas à vontade popular, posições contrárias à vacinação, por exemplo, certamente perderiam por maiorias acachapantes, vide o alto percentual de brasileiras e brasileiros que compareceram aos locais de vacinação e voluntariamente a ela se submeteram.
Mais uma vez o Ministro confunde e desqualifica o debate democrático e os direitos humanos.
A sociedade brasileira não suporta tantas violações de direitos humanos, por ação e omissão do governo federal no enfrentamento da pandemia. As muitas denúncias [5] já feitas aguardam procedimentos de seguimento e responsabilização. É isso que se espera neste momento: por justiça às vítimas.
No dia mundial dos direitos humanos nos colocamos de pé para exigir direitos e para denunciar a todos e todas que usam dos direitos humanos para interesses contrários aos direitos humanos, para atacar e destruir os direitos humanos. A dignidade não está disponível. Viva a vida! Viva os direitos humanos, já!
Autor: Paulo César Carbonari [*]
Notas
[*] Doutor em filosofia (Unisinos), membro voluntário do NEP/CEAM/UnB, membro da coordenação nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH Brasil).